domingo, janeiro 22, 2006

REGISTO

PR – Cavaco em Belém


Portugal tem um novo Presidente da República – Aníbal Cavaco Silva. Eleito sem margem para grandes dúvidas à primeira volta das eleições de hoje, domingo, 22 de Janeiro de 2006. Pela primeira vez, depois de 25 de Abril de 1974 (recordam-se da data? Dos acontecimentos? Há muitas dúvidas? Parece…) a Direita tem um representante em Belém. C’est fini.

Para a Esquerda – na qual me incluo desde que me conheço politicamente – o desaire é lamentável. Não é um desaire: é um desastre. Não foi capaz de ultrapassar guerras do alecrim e da manjerona. Perdeu. Porém, não vale chorar sobre o leite derramado. Não se pescam trutas com bragas enxutas, diz o Povo. E nem vale a pena vir com a alegação calina: perdeu-se uma batalha mas… Meus Amigos. Perdeu-se a guerra.

Cavaquistão se chamou durante dez anos a este País. Agora, teremos a reedição, quem sabe se corrigida e aumentada. O recém-eleito Chefe do Estado irá «ajudar» (não se sabe a quem…) a salvar a Pátria. Donde, já temos mais um «salvador da dita». Já houve tantos… Da bruma saiu-nos um professor a quem o dr. Jardim chamou o sr. Silva. Dom Sebastião morreu em Alcácer Quibir. Cavaco voltou. Quem foi que ganhou???...

Antunes Ferreira

2 comentários:

Ana Salina disse...

Estou sem palavras. Reina em mim o desalento.

Armando Fernandes disse...

Meu caro Henrique

Tomando um risco calculado, eis o comentário que o teu desabafo me suscitou.

«Ora agora viras tu, ora agora viro eu...»mas é apenas nesta cantiguinha do nosso folclore tradicional que pode acontecer «...viras tu mais eu», em uníssono e em harmonia.

A possibilidade duma alternância política real, em função do resultado das urnas, é uma característica da democracia. Ora, qualquer sistema fundado sobre a maioria parlamentar, tem sempre tendência a provocar uma bipolarisação, maioria contra oposição. O eixo das clivagens varia em função dos problemas do momento.

Já no tempo da ordem unida na recruta (...bolas, como já vai tão longe tal tempo!) o refrão alternava nesta díade da esquerda e da direita, ou os seus inseparáveis pseudónimos, «um», e «dois». À força de um, dois, esquerda direita, podia-se ir em frente. Para voltar atrás, havia o «meia-volta, volver!». Os «em frente!» e «alto!» serviam, respectivamente, para imprimir, ou para suspender o movimento.

Tudo era «claríssimo como água do pote». Claro que no tempo (desconhecido) em que este ditado começou a ter curso no populacho, o pote era feito de barro genuíno, e a água tinha a pureza das fontes.

Em política, porém, nunca nada foi claro e a ordem nunca esteve realmente unida. A água, por mais pura que fosse, nunca foi capaz de «lavar» os sórdidos resultados das urdiduras, dos conluios, das traições e das turpitudes que sempre caracterizaram os regimes. E muito menos chegava para lavar as manchas vermelhas que os assassinatos deixavam. Muito menos ainda os verdadeiros rios do sangue vertido em guerras e batalhas, fossem (sejam) elas conflagrações localizadas ou internacionalizadas. Só o tempo fazia (faz) com que a terra o embebesse (embeba), e o utilizasse (utilize) para fazer crescer a relva, as plantas e as flores silvestres. Servem assim estas para apagar os trágicos vestígios – mas não a memória - da ferocidade dos homens, na eterna demanda do poder, e do cortejo das riquezas e das benesses que sempre o acompanham. Quanto ao pote, coitado, sendo de barro, a fragilidade desta matéria prima conferiu-lhe o irremediável destino de, despicientemente, ser posto, quase em cacos, no canto mais escuro duma qualquer despensa. Em troca, passaram-se a utilizar os «tachos», estes podendo ter a consistência de matérias primas mais duradouras, mais resistentes.

É-me dificil comentar o legado de figuras polííticas portuguesas após Março de 1977, altura em que imigrei para o Canadá. Não «vivi» os efeitos das suas actuações, ou falta de actuação, como queiram. Não vou portanto atardar-me nesse plano. Vou apenas resumir-me ao capítulo das generalidades dos sistemas ditos de esquerda ou de direita.

Das minhas leituras das teses, e doutros trabalhos do espírito, sobre a esquerda e a direita, particularmente os de Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto e sobretudo Robert Michels (ah...velhos tempos da faculdade de Economia...) e dos mais recentes Norberto Bobbio, François Robert, J.A Laponce, Elisabetta Geleotti e Dino Confrancesco, sobressai a realidade de que todos os regimes políticos tendem para a oligarquia (dirigidos por uma minoria), e todas as organizações (partido, sindicato...) tendem gerar, e serem dirigidos, por elites.

O eixo esquerda-direita, se conservou certas constantes ao longo da história, sofreu uma vasta evolução. As mentalidades e o que se põe em jogo já não são os mesmos. No princípio, a esquerda representava as massas populares, e a direita representava as élites. Este estado de coisas mudou fundamentalmente, posto que hoje em dia a esquerda é dirigida pelas suas proprias élites. Mas subsistem, todavia, grandes sequelas da evolução histórica.

A esquerda caracteriza-se geralmente pelo colectivismo e pelo igualismo. A direita, pela ordem, o trabalho e a família. Desde o início que os leaders de esquerda quiseram satisfazer as necessidades elementares mais imediatas do proletariado (ir buscar o dinheiro onde ele se encontra, para o redistribuir a quem precisa), enquanto que a direita se empenhou mais numa perspectiva de estabilidade, de legalidade e de criação de bem-estar (investir para o futuro).

A miséria do proletariado conduzia-o a encontrar um exutório num «mundo melhor», assim como a procura de utopias. Esta vontade de fugir ao presente e de mudar o mundo foi o motor duma dinâmica chamada de «progresso» onde a mudança, fosse ela qual fosse, valia mais do que a realidade quotidiana. «Façamos tábua rasa do passado!». As politicas de esquerda consistiram pois, desde então, a explorar o descontentamento das massas para satisfazer os desígnios das élites manipuladoras. Esta dinâmica revolucionária foi explorada por ambiciosos pretenciosos sem escrúpulos, que levaram, nomeadamente, aos totalitarismos marxistas-leninistas, fascistas e nazis, regimes que, uma vez bem instalados, se aparentavam claramente às oligarquias.
Mesmo o socialismo, mais moderado, se tornou um modo de promoção social e de acessão ao poder para élites (a esquerda-caviar...) que se servem da miséria e do descontentamento das massas para satisfazerem os seus próprios objectivos.
Muito raros são os responsáveis socialistas que partilham os seus rendimentos ou a sua fortuna para aliviar a miséria de outrém. Pelo contrário, enriquecem-se pessoalmente, e desculpabilisam-se distribuindo o dinheiro que vão buscar (??outro termo??) aos «ricos». Este enriquecimento pessoal vêem-no, sem dúvida, como a «comissão do intermediário», ou a «remuneração por serviços prestados» aos seus clientes políticos. Os partidos de massa, bem assim como os sindicatos, são particularmente vulneráveis ao «emburguesamento» das suas élites.
O problema está em que a esquerda, seja ela o comunismo ou o socialismo, não poderá nunca resolver os problemas que denuncia, nem realisar os objectivos que se propõe. Perderia com isso a sua razão de ser, pois o proletariado, tornado burguês, passaria a votar ... pela direita. A esquerda tem pois que propôr utopias mobilisadoras. Tem de continuar a denunciar o presente e a prometer um futuro idílico. Tem de justificar as suas derrotas – previsíveis – denunciando as «forças reaccionárias», encontrando bodes expiatórios, e abatendo os seus adversários.

Claro que temos ainda a possibilidade da «fuga em frente» (fuite en avant). A aplicação desta alternativa pelas forças da esquerda progressista conduziu-nos às grandes catástrofes históricas : a revolução russa, as purgas estalinianas, a segunda guerra mundial com o seu cortejo de horrores, a grande fuga em frente chinesa, a revolução cultural chinesa, os massacres dos khmers vermelhos....

Nas sociedades complexas, e penso que Portugal é uma delas, fazendo (ainda) parte do mundo chamado industrializado, convém relativisar a natureza diádica do sistema, tomando em consideração a pluralidade das opiniões. Assim, é necessário acrescentar um «terceiro incluso», definido pela fórmula «nem nem» (como o situa Bobetto). Mas a existência deste centro não põe em causa, de maneira alguma, a da direita e a da esquerda.

A procura duma «terceira via», contráriamente ao centro, «não se situa entre a direita e a esquerda, mas pretende ir para além duma e doutra». Estamos pois confrontados com uma «doutrina à procura duma praxis a qual, uma vez posta em actuação, se transforma em posição centrista». Estas ideologias duma «terceira via», quer se trate do social-liberalismo de hoje, ou da revolução conservadora pós-Primeira Guerra Mundial, aparentam-se sempre a uma tentativa para salvar um modelo em crise.

Ora não tenho, no meu entender, a mínima sombra de dúvida de que o modelo político vigente em Portugal há 31 anos se encontra numa profunda crise. Sinceramente, não vou fazer, por falta de conhecimento directo com o que se passou e se passa em Portugal, qualquer prognóstico sobre a evolução da situação socio-económica actual, nem sobre a evolução das formações e actuações políticas em presença. Mas que uma terceira via me aparece como uma oportunidade para sair do marasmo em que se enterrou desde...o famoso 25 de Abril de 1974, não o posso negar.

Porém, algo me sussurra que essa terceira via não vai aparecer tão depressa como seria (é?) desesperadamente necessário. Isto porque ainda não voltei a mim dum processo eleitoral em que apenas dinossauros foram apresentados como candidatos. Pergunto, sem obter resposta, o que é particularmente angustiante, o que aconteceu aos jovens desse país? Será que as universidades são tão más que apenas formaram medíocres inaptos a potencialmente governar, ou fazer parte do governo do país, e que por esse motivo não foi possível apresentar mais ninguém? Ou será que as «garras» dos partidos políticos em presença são tão fortes e aceradas que apenas o que eles ditam tem que ser, independentemente das repercussões, visívelmente nocivas, que engendram, numa estupida persistência a manter o poder de que disfrutam?? Onde está o «sangue novo»? Onde estão os novos homens e mulheres, de barba dura ou de pele sedosa, e de coluna vertebral erecta, de mente clara, esclarecida e não poluída pelos novos-velhos do Restêlo? Onde estao esses indivíduos? Onde estão os desinteressados, os íntegros, os nobres de carácter, os altruístas? Onde estão os dignos filhos, e filhas, lusitanos e lusitanas, de peito feito, prontos a salvaguardar, a preservar e a levar adiante essa pátria de oitocentos anos? Onde estão esses novos homens e mulheres de visão? Afinal, a celebérrima «liberdade conquistada» (ou reconquistada) serviu para quê? Para que se perpetue a frase que escreveu, ainda no tempo da «velha senhora» o meu predilecto escritor José Gomes Ferreira «- Ó pátria, despida a túnica de adjectivos, que resta de ti? Um pedaço de terra com um rebanho a pastar...e mal!»? A ser assim, estará o país entregue à eterna bicharada que o levou aonde se encontra? Que pena!!