terça-feira, fevereiro 26, 2008





GANDA LATA

A esperança

da Esperança


Antunes Ferreira

Será que realmente a esperança é a última coisa a morrer? Pergunta ontológica esta, que encerra uma concepção essencial do ser. Boa. Heidegger diria ôntico. Ser ou não ser, eis a questão, de acordo com o Shakespeare. A cultura é muito bonita. A terminologia, idem. A conceptologia, aspas. Mau. Por que bulas isto está a ir por tal caminho? Que razão para tantas interrogações? Deixe-se o autor de modos amaneirados, salvo seja, e vamos ao que interessa.

A esperança é sentimento que não se deve deitar fora – quanto mais morrer. Bem vistas as coisas, esperar é confiar. Mas nem sempre a esperança é o que parece. Por exemplo, uma tia do escriba tinha o que então se chamava uma criada, de nome Esperança. A senhora Esperança. Mulher de força, apta para todo o serviço, simpaticíssima, uma mãos-de-fada em tudo o que bulia, da cozinha à costura.

Era casada com o senhor Alberto, pessoa de bem, um tudo nada atreito aos copos, mas nada que causasse grande preocupação, mesmo entornado continuava a ser bem educado, atenciosos e prestável. Trabalhava de electricista
em obras diversas, dava sempre um jeitinho no que fosse necessário, desde uns pingos de solda nos fundos das panelas, até ao uso da almotolia em dobradiças menos colaborantes. Um habilidoso. Nato, ainda que por aquelas alturas não se tratasse da OTAN.

Nascera, tal como se disse, para o desenrascanço. O que só lhe ficava bem e o tornava um digno representante da raça portuga, desenrascada como ela, só... ela. Tinham três filhas e cinco filhos. Outros tempos, outras práticas, televisão nem vê-la e rádio, ouvi-la de noite era incómodo, o pessoal deitava-se cedo, com as galinhas, ainda que esta qualificação deixe sempre uns certos engulhos, pois que as referidas aves de capoeira não se pronunciaram – ainda – sobre o tema.

A senhora Esperança, um dia, chegou-se à patroa e segredou-lhe que a Julinha, a mais velha do rancho, uma rapariga muito atinada, com os seus 19 aninhos, estava de esperanças. Ó mulher, retorquira-lhe a Dona Mafalda, muitos parabéns. Já não era sem tempo; um casal perfeito como é o vosso caso, mais dia menos dia teriam a benção dos netos. Deus Nosso Senhor, na sua infinita bondade, decidiu que assim fosse. Graças lhe sejam dadas.

Nada, nada, minha Senhora. A galdéria - atente-se na evolução semântica, antes fora donzela exemplar – nem sequer me tinha dito ter conversado, quanto mais pensar em casamento. É a vergonha que se abate sobre os Santos. Homessa, Esperança. Os santos não são para aqui metidos e, tal como o Pai do Céu, os nomes deles não devem ser invocados em vão. Além disso, que tem a ver a gravidez da sua filha Júlia com a corte celestial?

Saiba a minha Senhora, com mil perdões da minha parte, que está a fazer uma grande confusão. Quem, eu? Veja lá como fala, ó Esperança. Espero que se explique convenientemente e não diga asneiradas. Confusão? Eu? Desculpe-me Senhora Dona Mafalda, eu referia-me aos Santos que somos nós. Nós? Está taralhouca. O caso deu-lhe volta à cabeça.

Nós, os Santos, porra! O nosso apelido é Santos, e mil desculpas por ter dito o que não devia ter dito. Estava, assim, instalada a confusão mais enviesada. Santos de casa, é bem sabido, não fazem milagres, estes Santos muito menos, e a desgraçada da Julinha bem se podia ter dedicado a actividades mais meritórias, sabe-se lá, à Pia Conferência de São Vicente de Paula, ou a aprofundar os conhecimentos que tinha da História de Portugal, até fizera a admissão. Vinha, assim, à mente da boa Esperança o Cabo homónimo do Bartolomeu. Há dias – ou Dias – em que não se pode sair de casa, nem de caravela, quanto mais de nau.

Acalmados os ânimos da Senhora Dona, olhe Esperança, há que saber o nome do pai da criança, trata-se da boda, o Senhor Doutor e eu seremos os padrinhos da rapariga e a Leninha será a madrinha do rebento. Tudo se pode curar e resolver, menos a morte, livre-nos Deus, Nosso Senhor. Muito obrigada, minha Senhora, eu sabia que podia contar consigo, mas. Aqui não há lugar para mases, logo acrescentou dona Mafalda. Para a frente é que é o caminho.

Esperança, (para com os seus botões, naturalmente, já bastava de alarvices e não fosse o diabo tecê-las) e para trás mija a burra. Adiante. E o que vai dizer – agora, sim, em voz alta – o meu Alberto desta desgraça? Tão bom pai e igual como marido, nem quero pensar no que fará! Até pode pôr a desavergonhada fora de casa, expulsá-la, que é o que ela merece. E se lhe dá para lhe arraiar uma sova? Que ele, mesmo com uns copitos, não é para esses preparos, mas, vistas as coisas... E os irmãos?...

Tudo se havia de resolver pelo melhor. A Esperança não conta diz nada e diz-lhe que eu ela própria, quiçá mesmo o Senhor Doutor, lhe daremos uma palavrinha. Renasceu a esperança à Esperança. No entanto - mas a propósito de quê, minha Senhora? Pois, diga-lhe que se trata de assunto do vosso interesse e que crê ser uma surpresa. Será, minha Senhora, será, pode estar certa. E, agora, despegue as mãos do avental e vá-se ao arroz de pato. Com certeza, minha Senhora, no forno. Como? No forno? O arroz de pato, está bem de ver.

Resolveu-se o imbróglio à boa maneira lusitana. A Julinha ainda levou um par de lambadas, o Leonardo veio às boas (que filho da puta de nome de genro que lhe havia caído na rifa, Leôncio seria pior), o casamento decorreu nos Jerónimos, linda celebração, até o coro cantou coisas lindíssimas, a noiva de vestido de, branco, com cauda não muito alambazada, grinalda e ramo. Tudo nos conformes.

Mãe Esperança não disfarçou a felicidade. Era toda ela um sorriso. Da dentadura resplandecente, branco mais branco não havia, incluindo o do traje nupcial. E foi no decurso do copo-de-água, que o Guedes enfermeiro-chefe, padrinho do nubente, já tocadote tal como o amigo Alberto, se dirigiu aos padrinhos da Júlia, para lhes contar, perdoem-me Vocências o que se segue, uma estória de esperanças. Dona Mafalda olhou-o de lado. Mais esperanças?

A Esperança no singular bem tentou afastar o aspirante a contador. Nada feito. O homem tinha adquirido uma embalagem de tintos, brancos, uisques e correlativos que nem um aviso de radar o faria abrandar, quanto mais parar. O Senhor Doutor fingiu que não era nada com ele – mas era. E o Guedes, em aceleração constante, já longe da pole position, contou.

Uma solteirona moradora em monte alentejano descobriu que uma amiga ficara grávida só com uma oração que rezara na igreja de uma aldeia próxima. Ficou em ânsias. Se a Felismina engravidara apenas com a ajuda da reza, pois então ela faria o mesmo, na esperança do tiro e queda.

Dias depois, a que ficara para tia foi a essa igreja e disse ao sacerdote que ali exercia o seu munus eclesiástico: «Bom dia, senhor prior». «Bom dia, minha filha. Em que posso ajudá-la»? «Sabe, senhor padre, soube que uma amiga minha veio aqui e ficou grávida só com uma avé-maria». «Não, minha filha, foi com um padre nosso, mas, pelo sim, pelo não, já foi transferido»...




Tanto quanto consta, a anedota do enfermeiro-chefe teve um êxito assinalável. Até a Senhora Dona Mafalda se riu da graçola. O digníssimo esposo, também. Quem não apreciou por aí alem o episódio foi a Julinha. Isto de padre nossos e de espíritos santos tem que se lhe diga. Para ela, ao Leonardo ninguém levava a palma.



NE – Ora muito bem. Da Alice Vieira chegou-me mais uma estorinha curta mas escangalhante, aliás – tanto quanto me apercebi pela mensagem – originária sabe-se lá donde, mas proveniente directamente de um tal Ribeiro Cardoso, figura sinistra da nossa praça. Continuo no fio do plágio. Mas, penso que ainda não caí nele. Reincido: roupagem nova. Obrigado alicev. Obrigado Rc. Mandem mais, sil us plau (sff) em vernáculo català.

4 comentários:

O tal antigo camarada do DN disse...

Coisa gira, muito gira, giríssima. Estou à espera desse tal livro que nunca mais sai. Entretanto, vou lendo estas coisas excelentes. Parabéns!

Leonilda Carrapiço, Beja disse...

Se fosse preciso dizer mais alguma coisa, teria de ser forçosamente: continue, Dr. Antunes Ferreira. E o tão esperado livro?

Sara Esteves Pires, Braga disse...

Caro Antunes Ferreira
Com estes textos muito bem apanhados podia fazer um novo livro, pois sei que já tem no prelo um dos seus maravilhosos contos sobre a guerra colonial de Angola. Avise a malta, quando ele sair. Não demore! E comece já a pensar noutro.

Anónimo disse...

Manda mais como esta ...
Raul