domingo, novembro 11, 2007





Rouquidão


Antunes Ferreira
P
adre Francisco não falhava um sermão. Pároco de uma freguesia, São Crispim, à direita de quem sobe e, curioso, à esquerda de quem desce para Viseu, guardava a oratória e os muitos saberes para os domingos, um a seguir ao outro, sem hiatos, sem falhas. O João Mendes da venda de jornais - hoje o Diário não traz oferta, comprem que é muito raro – à entrada da freguesia, galhofava que domingo xem prelexão era como o Benfica xem o Rui Costa. Um fiasco.

O Chico Martins, antigo taberneiro, hoje proprietário e gerente da pastelaria & restaurante A Latada, fabrico próprio e diário, pratos do dia e à vontade do freguês, não era tão radical. Era pior. Xe o Xenhor prior não dá xermão, é txunami pela xerta. Opiniões, corroboradas em esmagadora maioria pelos notáveis da freguesia, incluindo o cabo Ornelas, chefe do Posto da GêNêRê, que o Xócatres queria mandar fechar, mas o povo não vai deixar. E não se diz unanimidade, ainda que sem aplauso, porque a Dona Letícia, viúva surda que nem o ministro da Saúde – não faz mal, eu não oixo nada.

A prédica dominical e, claro, nos Dias Santos, era assim a modos que os meses do calendário: a Janeiro sucedia Fevereiro, a Maio seguia-se Junho e, até, Novembro antecedia Dezembro. Regularidade tal, nem um Seiko Velatura Kinetic, sem pilhas, portanto. E pontualidade concomitante. Não havia faltas, muito menos desculpas, aliás desnecessárias. Nenhuma ministra da Educação se arriscaria a defender tese similar na AR, nem, como é óbvio, a contrária. Políticos são multivalentes. Não disse muito valentes.

Domingo fatídico. O cura já na véspera sentira um formigueiro na gorja, coisa pequena, até a «mana» Hermengarda, antes de se deitarem, lhe trouxera um chazinho de limão com mel e uma bagaceira de medronho, de estalo, e o aconchegara, não só de cobertor, mas encostando-lhe a cabeça ao farto seio. Dorme, filho, que isso paxa-te.

A porra é que não passou. Levantou-se mais rouco do que um fagote enferrujado. E agora? O sermãozinho? Deixa lá, Fernando, um dia não xão dias, a glória divina é grande, mas também a xua paxiênxia. Paxiênxia. Tudo xe há-de compor. Para a xemana que vem, já bom, voltas à palavra e ao encanto dos paroquianos. Nauuuuda, Garooooda, nauuuuda, não pooouuude xer.

Chegado à sacristia, o Dionísio sacristão militante ficou-se nas covas. Podia lá xer, o padre Francisco não dava uma para a caixa. Mas que xe paxou, xenhor prior? Rooouuucnãoseiiii. Foi dum mouuuuumentooooo pró ouuuutro. Horrrouuccje não poxo dar xermão. É uma fataooouuuulidade, Deus xe amerxeie de mim, que xou pecadouuurrrrr.

Não pode voxemexê, mas poxo eu que o venho a ouvir há mais de 20 anos. Já xei os xeus xermões de cor e xalteado, olarila. Nem penxes nixo. Tu és um desbocado, só dijes alarvidades. Olhe que não, xenhor prior, olhe que não. E, para mais, quando eu xubir ao púlpito, fica o xenhor cá em baixo para emendar alguma coijita em que eu não axertar.

Dito e feito. Dionísio subiu ao púlpito, padre Francisco cá em baixo de orelha arrebitada por via das moscas. Irmãos. Hoje vamos tratar da rexureixão do Lázaro. Andava o Cristo com a xua malta pela terra… Rooouuuc, ó pá, não é axim, ruuuuuoooouuuuc, andava o Xenhor pela terra com os xeus disxipulos…

Pois, meus irmãos, descuidei-me, andava o Xenhor pela terra com os xeus disxipulos e vieram uma porrada de gajas, aos berros, ter com ele. Roooooooooooouuuuuuuuuuuucccccccó Dionijio, não é nada dixo, homem de Deus. Vieram ter com o Xenhor umas mulheres xuplicando chorando para que Ele as ajudaxe. Porque morrera o irmão delas, o Lájaro.

Assim disse o sacristão promovido, que prosseguiu. Noxo Xenhor acompanhou-as junto ao túmulo de Lájaro e dixe-lhes – mulheres de pouca fé, rejai e tende confianxa em mim. E dirigiu-se para o sarcófago onde o Lájaro jajia já há três dias de falecido absolutamente morto. Padre Francisco suspirou de alívio – parexe que o Dionijio entrou no bom caminho, graxas a Deus.

E o acólito – Noxo Xenhor pôs as mãos xobre a pedra do jajigo e disse: Lájaro, levanta-te e anda. E o Lájaro levantou-xe e andeu. Roooooouuuuucccc não é andeu, é andou, estúpido, é andou, estúpido! O Dionísio, obediente: Pois, pois, andou estúpido, mas ao terxeiro dia paxou-lhe…

2 comentários:

Rosa M. Teixeira, mãe de família, Valença disse...

Este parvalhão mete-se com o clero. Quem lhe terá dito que tinha graça? É um porco. Não bastavam já as mulheres nuas... Vem agora gozar com os Santos Evangelhos.Tinha jurado nunca mais voltar a estas miseráveis páginas. Mas voltei. Pecado pior do que o de muitos outros pecadores.

Olhe, senhor. Já a minha falecida Mãe (que Deus a tenha no eterno descanso, que bem merece) dizia: Graças a Deus, muitas; graças com Deus, poucas ou nenhumas. Arrependa-se, que bem precisa.

princesa papoila disse...

sou rapariga já entredota e posso "cantar de galo" tenho todos os sacramentos menos dois...mãe de família com dois belos rapazes educados em colégios muito católicos...eu mulher honesta de palavra, principios e actos (estes infelizmente não muito na moda nos dias que correm.
Gostei de ler esta estória que me fartei. A escrita está deliciosa. O nosso povo português, quer queiram, quer não, está todo lá. Nunca se arrependa de escrever tudo o que brilhantemente lhe vem à cabeça Big Chief. E se me permitem...todas as mulheres nascem nuas e morrem nuas e só depois são enfarpeladas para enterrar...portanto a nudez feminina não é porcaria nenhuma ò D. Rosa, é , se quiser, mais um dádiva de Deus que apenas os burros não veêm.
Boas férias meu bom amigo.
PP