segunda-feira, outubro 29, 2007




À RODA DOS DIAS

Outubro

Maria Lúcia Garcia Marques
Outubro sempre foi, e ainda é, para mim, o começo de um outro calendário pelo qual regi a minha vida desde tamaninha, por anos a fio: o calendário escolar. Encastrado no calendário “civil”, estoutro começava inapelavelmente a 1 de Outubro e seguia, ao sabor das exigências do estudo e dos apertos da sorte, até fins de Julho, entrecortado por Natáis, Páscoas e Entrudos até ao bonançoso interregno das Férias Grandes – na verdade tão grandes que chegavam a cansar. Outubro era/é assim, na minha cabeça, um mês de arranque de olhos postos num futuro de projectos e compromissos: os estudos, uma carreira, uma vida – e, por décadas, definitivamente, o mês da ESCOLA.

“Ler, escrever e contar”, tal qual o ideário republicano que, não sei se por acaso ou destino se implantou em Portugal precisamente em... Outubro (a cinco de mil nove e dez). Pessoalmente a minha queda foi para o ler e escrever e ainda hoje a língua me fascina. Porque ela engendra e simultaneamente dá expressão a uma visão do mundo, diz e escreve a cada momento uma fatia da história de todos e cada um, porque é matéria e material nobre do pensamento e da arte.

A vida veste-se de palavras e tem uma “gramática” para se entender. Mas a Gramática parece ser uma coisa malquista e malvista, maugrado se lhe reconheça a importância matricial. Lá dizia Camilo Castelo Branco num dos seus romances: “Cachoavam-lhe as ideias no cérebro mas sentia-se sem gramática”. Saber usá-la é um bom cartão de visita e quem, por exemplo, ler o “Longe de Manaus” do Francisco José Viegas lá verá o que se diz dela como mais valia e préstimo diferenciador: “E (o Senhor Furtado) tinha uma coisa rara, Inspector: tinha boa gramática. Isso espanta-me muito hoje em dia. Aparecer alguém que diga uma frase com sujeito, predicado e complemento directo já é uma sorte, mas o Senhor Furtado tinha mais do que isso. Era um homem com advérbios. Era sorte demais!”.

No entanto, nem sempre a gramática é sisuda, pode até ser engraçada nas partidas que nos prega. Ora oiçam estas: Um amigo juiz vinha sendo insistentemente solicitado pelo seu encarregado de negócios para que permitisse a substituição da velha porta de entrada da sua casa de família, lá para as Beiras. Meu amigo, temendo eventuais liberalidades do seu encarregado, recomendou-lhe em carta: “Pode tratar da porta nova mas olhe que não seja coisa de luxo nem capricho”. Na volta do correio, recebeu a seguinte informação: “Saiba o Senhor Dr. Juiz que já tratei da porta nova que não foi de luxo nem capricho mas sim de alumínio”. (Se eu quisesse tirar a graça à história diria que ela reside na incompatibilidade criada na classe dos substantivos ...!).


E outra que se passou comigo: Ia eu com um amigo de infância, rua fora, quando nos cruzámos com uma daquelas “brasas” que põem sempre os homens a olhar em U: saia sugestivamente mini, bota alta de salto fino e arrojado. Notando o indisfarçável interesse com que o meu amigo a seguira com o olhar, desdenhei: “Bah! É só bota!”. Ao que ele retorquiu: “Nah! ... É mas é coxa!”. Aí, na crueldade que as mulheres, sempre que podem, têm para quem as supera neste campo, rejubilei interiormente: “Bem feito, é coxa!”. Só então reparei que pelo tom em que fora dito o “coxa” na fala do meu amigo, não se tratava de um adjectivo mas de um substantivo e um substantivo cheio de sugestões ...

Na verdade, a língua portuguesa é mesmo muito traiçoeira! Mas a nossa língua é a nossa casa, é a nossa prova de vida. Com ela praguejamos, com ela rezamos, com ela pomos o coração ao pé da boca. Ela é apropriação e câmbio; é uso e fruto feitos de amor e estudo. E estudo tem tudo a ver com este mês vestibular que é Outubro e que a cada ano se abre como um livro novo em que estão escritas as páginas do Futuro que re-começamos a ler.

2 comentários:

Eduarda, Colares disse...

Continuo a acompanhar o seu calendário com deleite.
Permita-me um sublinhado: essa do olhar em U é fantástica ...

Leonilde Carrapiço, Beja disse...

Penso que é a esposa do Conselheiro Gracia Marques, pelo apelido...
Os dois são uns queridos. Escrevem tão bem. De si, o que mais admiro é a capacidade de, a partir de pequenas coisas, fazer GRANDES crónicas. Na qualidade, evidentemente, não no tamanho. Um beijinho amigo.
E hoje já não escrevo mais nada.