sexta-feira, outubro 26, 2007

Amor aos noventa anos



Sebastião Reineta tinha 95 anos quando faleceu. Coisa triste, velório concorrido, o Chefe de Repartição de Finanças - evidentemente aposentado – era muito conhecido, estimado, considerado e mesmo querido em Travanca de Baixo, onde vivia com a companheira de toda a vida, a Dona Quitéria, que já atingira as 90 primaveras. Uma casita para o pequenino, com um mini-jardim na frente e uma hipótese de quintal nas traseiras.

Todas as manhãs era vê-lo, desempenado e bem disposto, arrancando os dentes de leão que invadiam os canteiros minúsculos e sugavam as rosas, os malmequeres, as ervilhas de cheiro, as dálias que eles davam – mas que não davam por obra da danada erva daninha. Reineta, apesar da sua provecta idade, de sachola e bomba manual de zinco para o DDT, arremetia contra o infame que dentava as suas flores.

Dona Quitéria encarregava-se do quintaleco. Plantava couves tronchudas, umas batatas, uns grelos, feijão verde, um rego de nabiças e hortelã. Também cuidava desveladamente de manjericos que habitavam em vasos de barro. Nada de modernices plásticas a que o neto Camilo chamava ersatezes, o que ela não entendia, pronto.

Cinco filhos, duas filhas, vinte e nove netos e seis bisnetos. Uma das raparigas fora para freira, donde apenas seis, com a colaboração prestimosa, veneradora e obrigada, dos respectivos cônjuges, tinham produzido essa filharada. Camilo era o neto mais velho, licenciado em Direito, com escritório na sede do concelho, coisa fina, boa freguesia e melhores rendimentos.

Muito chorado foi o Senhor Chefe de Repartição de Finanças, toda a gente o conhecia independentemente das diferenças geografias e de humores entre a Travanca de Cima e a de Baixo. Localidades a preceito, até se dizia que apareciam na televisão, naquele anúncio do detergente melhor do Mundo, carregado de frigideiras para fazer arroz à valenciana, e que, afinal, como quase tudo neste País, era feito em Espanha. O que não abonava os que juravam a pés juntos que era travancano.

Funeral devidamente concluído, a urna estava um brinquinho, os lençóis bordados, a almofada de cetim, os círios, as coroas e os ramos de flores, tudo nos conformes. De toda a parafernália avultou a missa e a encomendação do fiel defunto, a cargo do Padre Conchinhas, que raio de nome haviam posto ao sacerdote na pia baptismal.

Dias depois, Camilo foi fazer uma visita de pêsames à sua avó. Na salinha de estar, Dona Quitéria continua lavada em lágrimas e enxameada de suspiros. Não quisera ir para casa de nenhum dos descendentes, recolhera-se ao lar de uma vida, a vizinha Ermelinda sempre dava uma ajuda desinteressada e uns caldinhos de galinha com massinha de cotovelos.

O advogado deitou unhas à tarefa de consolar, na medida do possível, a avó. Bem necessário era, tinha de lhe enxugar as lágrimas, de lhe afagar as mãos frias e ossudas. Estava no estrangeiro, não chegava a tempo das exéquias, não veio. Daí que, apenas desembarcado do avião, avisasse os seus e rumasse à casinha dela.

Passaram muitos minutos, os suficientes para Dona Quitéria ir acalmando os soluços e os nervos, com a presença do neto e a ajuda das contas do rosário que ele lhe tinha trazido, dois anos atrás, de Roma. Benzido pelo Papa. Ou, pelo menos, era o que o dono da loja de lembranças dissera e constava de atestado com o selo de lacre da Santa Sé.

Assim, quando a viu mais calma, Camilo avançou com a pergunta que trazia engatilhada, pois lhe tinham dito que o Senhor Reineta se passar de forma um tanto esquisita. «A avó desculpe esta minha pergunta, não quero fazê-la sofrer mais, mas, de que morreu o avô?»

«Olha meu filho, não digas a ninguém, mas o meu Sebastião que Deus tenha na sua glória e esplendor, morreu quando estávamos a fazer amor», confessou em surdina a pobre Senhora com o ar mais desanimado possível e imaginável. O jurista, espantado, podia lá ser, a avó treslia, estava taralhouca, ficara absolutamente xexé com a perda do seu homem de uma vida.

«Mas, avó, as pessoas de 90 anos ou mais, não deviam fazer amor porque é muito perigoso». Dúvidas houvesse e visse-se o caso vertente. Ao que a avó lhe respondeu que já só o faziam ao domingo, de há cinco anos a essa parte, e com muita calma, ao compasso das badaladas do sino da Igreja que era próxima. E continuou: «Simples. Era ding para o meter e dong para o tirar»... E, num repente: « Se não fosse o filho da puta do homem dos gelados com o seu sininho... o teu avô ainda estaria vivo!»

(Estória que me foi passada por mail e que enroupei. Mania esta de escrever. Pensando bem, talvez tivesse ficado melhor na versão original, despida de arrebiques. Mas, agora, já está).
Antunes Ferreira

2 comentários:

marina d disse...

olá Big Chief,
É mesmo assim enroupada que esta história esta uma pequena delicia. O meu querido amigo é um artista com as palavras e nunca cessa de me enternecer.
Obrigada

Anónima Salina disse...

Se nesse texto original houver um "Padre Conchinhas", ervilhas de cheiro e velhinhas a plantar "couves tronchudas"...

Que delícia, adorei!
AS