sexta-feira, janeiro 26, 2007



Dois grandes Amigos

Antunes Ferreira
Um destes dias, e tal como agora me vai acontecendo, depois de mudar de casa, entrei na livraria O Paço, no Centro Comercial do Lumiar, que é pequenino, mas, por isso mesmo, aconchegadinho. A Dona Deolinda e o Senhor Francisco Sousa, esposo amantíssimo, são os patrões da lancha e tentam estar em dia com as novidades editadas. Difícil tarefa nos dias que vão correndo. Mas que eles tentam levar a bom porto.

Vai daí, zás! O Leonel Gonçalves, como sempre de pêra em riste e como sempre também, afável, simpático, amigo. Desde os tempos do Diário de Notícias que quase não nos víamos. O Leonel, homem chave da instituição, director da antiga Biblioteca, depois promovida e bem a Centro de Documentação. Eu, um plebeu da escrita, jornalista que chegaria a Chefe da Redacção do matutino.

Demo-nos muito bem – muitíssimo – apenas nos conhecemos. Leonel Gonçalves estava, como o estavam os seus Serviços, permanentemente à disposição dos escribas. Duvidam? No que me toca – sempre esteve, a sua disponibilidade era total, até fora de horas. E sem gritarias nem exorbitâncias. O homem é assim mesmo, que se lhe há-de fazer…

Foi uma festa. Pareceu-me que punha em dia uma conversa que durara 16 anos no jornal fundado por Adolfo Coelho e Tomaz Quintino Antunes. Tem piada. Numa noite assoberbadíssima, já não sei porquê, estávamos os dois à conversa por mor de qualquer coisa de que eu precisara e, sem motivo aparente, sai-se o Leonel. «Este Tomaz Quintino Antunes ser-lhe-á alguma coisa?» Sem comentários mas com muito riso.

Tive a ideia que tínhamos charlado na véspera, tal o efluir da empatia transmudada em palavras. Contámos imensas coisas um ao outro e ficámos logo, de jura jurada, combinados sobre os contactos futuros (a curto prazo) e as coisas que íamos fazendo. Foi aí que ele me falou da entrevista que fizera à Manuela de Azevedo.

O Leonel escreve bem, ainda que ele diga que é assim-assim. Malandrice. Escreve bem. Aliás vão ter o prazer de o comprovar. Isto porque lhe pedi para publicar aqui a peça em causa ao que anuiu com uma condição prévia: obter a autorização da onde a entrevista fora publicada. Dito e feito. Tiro e queda.

A partir de agora, mais um colaborador de qualidade. O qual penso utilizar com a maior frequência e do qual vou abusar, salvo seja. Com escritos do dito cujo, originais para este cantinho. Venham de lá essas prosas, ó Leonel.


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Dava eu os primeiros pontapés na escrita em letra de forma, quando conheci a Dona Manuela de Azevedo. Já lá vai quase meio século. Foi no falecidíssimo Diário Ilustrado, uma quase universidade de jornalismo quando as não havia. Em pouco tempo, ele própria me disse para eu deixar cair o Dona. E ficou para mim apenas a Manuela.

Grande Jornalista, com caixa alta. Mulher de armas e de convicções, intimorata, vertical e Amiga. Alguns foram os que me ensinaram muitas coisas deste ofício das letras. Poderia citar um Norberto Lopes, um Mário Neves, um Diamantino Faria, um Pereira da Costa, um Trabucho Alexandre, um Raul Rêgo, um Vítor da Cunha Rego, e outros, poucos. Nesse acervo entrou, e numa mais se foi, a Manuela de Azevedo.

Com ela aprendi como se faz uma grande reportagem. De tal privilégio me apossei para escrever umas quantas. E não resisto a, sumariamente, aqui contar um simples episódio. Ao fim de largos anos reencontrei a minha querida Manuela de Azevedo no Diário de Notícias, crítica de teatro e outras artes, abalizada e prestigiada. Foi uma alegria.

A partir de então, voltámos a conviver no dia-a-dia. A conversar, a trocar opiniões, a fazer tudo aquilo que os amigos gostam de fazer. Tempos depois, segui para a Roménia a fim de reportar o terramoto que ali se dera, tendo sido o terceiro jornalista estrangeiro a chegar a Bucareste. Durante nove dias, longos, duros e trabalhosos enviei crónicas para o DN.

Na volta, e de acordo com opiniões tão imparciais quanto possível, foi-me dito por gente diversa, que as coisas tinham corrido bastante bem. Mal me preparava para me sentar à minha secretária quando toca o telefone. Isso é que foi uma reportagem e peras! Era a Manuela de Azevedo. Ponto final. De todos os elogios profissionais que fui tendo ao longo da vida – e foram uns quantos – esta reportagem e peras é, sem dúvida, o mais valioso.

Reunidos num mesmo texto mágico aqui ficam a Manuela de Azevedo e o Leonel Gonçalves. A conversa entre os dois – segue dentro de momentos… Em doses devidamente… doseadas. Para já, os primeiros passos.


(O título e os subtítulos são da responsabilidade do Travessa do Ferreira)




MANUELA DE AZEVEDO

Apaixonei-me por Camões


Leonel Gonçalves
Entrevista publicada na revista Faces de Eva – Estudos sobre a mulher, n.º 16, 2.º semestre de 2006 – Edições Colibri e Universidade Nova de Lisboa

Manuela de Azevedo nasceu em Lisboa, em 31 de Agosto de 1911, mas passou a adolescência na Beira Alta. Fez os estudos liceais em Viseu, onde iniciou a primeira actividade profissional, como professora do ensino particular. Cedo se lhe manifestou a vocação para o jornalismo, estimulada pelo pai, director do jornal Notícias da Beira. Colaborou em vários jornais da região até que, em 1938, entra para o jornal República, como jornalista profissional. De 1942 a 1945 foi chefe de Redacção das revistas Vida Mundial e Vida Mundial Ilustrada. Insatisfeita com o jornalismo semanal, «vagaroso», surge-lhe uma oportunidade e entra para o Diário de Lisboa, onde fez todo o tipo de notícias e revelou todo o seu talento em crónicas e reportagens inéditas e arriscadas. A vida nos campos de arroz do Vale do Sado, a pesca ao cachalote na Madeira, onde esteve 13 horas num pequeno barco, sem comer, ou a descida a centenas de metros, nas Minas de São Domingos, são exemplos disso. No capítulo das entrevistas, saliente-se as que realizou com Ernest Hemingway e com o ex-rei Humberto de Itália.
Em 1960 entrou para o Diário de Notícias, jornal onde já estivera, por um curto período. O seu trabalho aqui vai incidir especialmente na área cultural. Faz crítica de teatro, música, dança, artes plásticas e literatura. E escreve sobre o património e as grandes figuras literárias e históricas portuguesas dos séculos XIX e XX. E sobre a Casa da Camões em Constância, a infindável paixão da sua vida. Foi ainda correspondente ou
colaboradora de vários jornais e outras publicações estrangeiras. Como escritora, tem uma vasta obra: 19 títulos publicados, compreendendo poesia, conto, romance, teatro e ensaio. Jornalista, escritora, tradutora,
conferencista, Manuela de Azevedo conserva, aos 95 anos, uma lucidez e uma energia impressionantes e é ainda a alma da Associação da Casa-Memória de Camões em Constância, de que foi fundadora.


LG - Comecemos pelo princípio. Nasceu em Lisboa, mas estudou em Viseu, num percurso geográfico atípico. Foram razões familiares?

MA - Meu pai, António de Albuquerque Azevedo, era um republicano histórico, foi propagandista da República, com Egas Moniz, e muitos outros, era laico, eu também sou laica, tentei não ser, mas não resultou. Era funcionário das Finanças, pertencia ao partido «camachista», elite da política, contrário ao Partido Democrático e, por isso, andava sempre em bolandas, com a casa às costas. Fiz exames de instrução primária sempre atrasados, começava os anos lectivos e não os acabava porque mudava de terra.
Quando tinha doze anos, fomos parar a Mangualde. Aqui entusiasmei-me com o teatro. Eu já ia ao teatro com os meus pais, desde os quatro anos, vi a Palmira Bastos fazer Revista, imagine.

LG - Isso foi na altura da I Guerra Mundial...

MA - Sim, por volta de 1918. Um dia, ao jantar, ouvi o meu pai dizer à minha mãe: «estive numa reunião do Hospital da Misericórdia, se calhar tem de fechar, não há dinheiro, vai ser uma desgraça». Eu fiquei a pensar naquilo e, como costumava fazer brincadeiras de teatro com colegas da minha idade, comecei a dizer-lhes, e a puxá-los, para fazermos um espectáculo a favor da Misericórdia. Falei ao meu pai dos nossos projectos e ele disse que isso não devia ser, como até ali, uma representação em casa de cada uma, mas um espectáculo numa sala. Fomos em comissão falar com o Sr. Padre Bernardo, para ensaiarmos com ele a parte musical. Ele acedeu e o meu pai foi o ensaiador da parte dramática. Fizemos um espectáculo com grande sucesso e, a seguir, andámos de terra em terra, numa camioneta, a recolher dinheiro.

LG - Com os vossos pais?

MA - Claro. Fizemos uns espectáculos de comédia, uns monólogos, coisas próprias da época e das nossas idades. Ainda em Mangualde, já eu tinha 16 anos, estava, às vezes, à janela e via que as crianças andavam na rua a brincar e pensei que aquele fulgor poderia ser canalizado para qualquer coisa útil. O meu pai era então director de um jornal, o «Notícias da Beira». Resolvi escrever uma carta para o jornal a dizer que me fazia muita impressão ver que, enquanto as mães e os pais iam trabalhar para o campo, as crianças ficavam ali na rua ao deus-dará, e que seria interessante arranjar-se alguma maneira de as ocupar nos trabalhos escolares ou ensinar-lhes a fazer alguma coisa, em particular a costura. Aquilo deu um movimento enorme. Íamos aos armazéns de lanifícios, pedíamos panos, as senhoras importantes da vila colaboraram, criou-se uma organização que ainda hoje lá está.

LG - Deve ser para si um grande orgulho...

MA - Muito grande. Depois foi orientado pelos padres, está com muita força, tem um auditório muito bom, desenvolveu-se e mantém mais ou menos o mesmo espírito.

LG - Foi uma adolescência riquíssima...

MA - Pois foi. Devo isso muito ao meu pai, que me incitava sempre a fazer coisas, a participar em iniciativas.

LG - Foi também nessa região que teve, como professora, a sua primeira actividade profissional...

MA - Estive na província até aos 22 anos. Depois de acabar o liceu fui dar aulas num colégio particular, em Viseu. Tenho um grande amor a Viseu, fiz lá parte da minha vida e tenho lá alguns amigos, também amigos de Aquilino Ribeiro. Ainda hoje colaboro numa revista chamada Aquiliana, editada em Viseu, onde conto muitas coisas relacionadas com Aquilino, ficámos amigos, encontrávamo-nos, muitas vezes, em Lisboa, quase sempre na Livraria Bertrand, no Chiado, frequentada também por Gaspar Simões, Gago Coutinho, Afonso Lopes Vieira e outros intelectuais.

LG - Foi Aquilino quem fez o prefácio do seu primeiro livro, de poesia. Quando começou a escrever?

MA - É curioso como apareci poeta. Tinha 14 anos, adoeci com gripe, estava de cama e, de repente, vieram-me uns versos à memória, não tinha papel e escrevi-os na parede. A partir daí comecei a fazer versos, de maldizer, aos professores e aos colegas. A minha mãe não gostava nada que eu perdesse tempo com os versos e até me pôs no quarto uma lâmpada de 25W, para eu desistir de escrever. Mas continuei, e tive, em certa altura, uma orientação literária do meu professor, Correia de Oliveira.

LG - Não era o «poeta de Belinho» ...

MA - Não, era primo. Ajudou-me muito e incentivou-me a publicar os versos. Mas era preciso uma «autoridade literária» para fazer o prefácio. Naquela zona, ocorreu logo o nome de Aquilino Ribeiro. Escrevi-lhe uma carta e um dia fui com o meu pai, de táxi, a casa dele, em Moimenta da Beira. Passámos lá uma tarde agradável, estivemos duas ou três horas a falar de literatura e poesia, tomámos chá e biscoitos. Aquilino disse-me que não entendia muito de poesia, mas que deixasse os versos que um amigo dele, em Lisboa, conhecedor do género, lhe diria da sua qualidade. Dias depois, mandou-me uma carta a informar que o amigo lhe disse que os versos eram bons e que podia escrever o prefácio. Fez um texto muito bonito que me deu muita confiança para continuar a escrever.
CONTINUA PROXIMAMENTE

2 comentários:

Armando Eduardo Pontes, Mem Martins disse...

Quero, apenas, expressar a minha Admiração pela Senhora Dona Manuela de Azevedo. Com a sua idade e tão lúcida é de dar muitos e muitos parabens! Que são extensivos ao Senhor Leonel Gonçalves e ao Senhor Antunes Ferreira, o patrão do blogue.

O Diário de Notícias, meu jornal de sempre, é uma verdadeira Universidade cheia de boa gente.

Anónimo disse...

sinto-me uma pessoa de muita sorte por ter sido apresentada a essa Senhora,que para além de uma grande jornalista/escritora é uma grande Mulher.Apesar da idade é um poço de sabedoria,quando me encontro com ela não só escuto as suas palavras como aprendo mais e mais com ela.
Para ela vai um grande beijo.
Tina