terça-feira, abril 29, 2008

NA ROTA DO CALENDÁRIO

Abril e as Mentiras

Maria Lúcia Garcia Marques

Abril abre com o “Dia das Mentiras”. E se, à semelhança dos outros “Dias de ...”, o seu espírito é o de louvar, acarinhar e, eventualmente, promover, então estamos, sem dúvida, perante uma manobra do calendário a consagrar o lado transgressor, licencioso, quando não apenas picaresco, do dual balanço em que se move a alma humana desde os alvores da vida.

De facto, desde a história da Cobra e da Maçã e da falência do paraíso terreal, tudo se tornou duplo e co-relativo. Da edénica concórdia passou-se para a dilemática e incessante luta entre o Bem e o Mal, entre a Verdade e a Mentira, num jogo de equilíbrios em que os pobres humanos buscam encontrar o fio que lhes permita passar (apesar de tudo e mesmo assim) pelo fundo da agulha.

Só que a Verdade não nos pertence. Não é obra nossa. Temos de buscá-la e respeitá-la. É-nos um Dever. Enquanto a Mentira, podemos criá-la, tecê-la, afeiçoá-la ao nosso jeito e propósitos, urdi-la meticulosamente e, cúmulo da ousadia, servi-la com os temperos da Verdade. É-nos uma Tentação. Por isso a Verdade é árdua e seca, enquanto a Mentira, a genuína, pode ser uma obra de arte, de artifício e deleite.

A que Eça chamou “fantasia”, preconizando no seu receituário de artista:
... Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.

Ou, na óptica de Fernando Pessoa, mais intrincada e mais íntima, encastrada no próprio retrato do poeta: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que de-veras sente. Isto é, evidentemente, o lado “luxuoso” da Mentira – refinado e excepcional, louvado e até, para poetas e escritores, modo de vida. Chamam-lhe então “ficção”.

Mas há o trato caseiro da Mentira – e aí há uma graduação. Não é mentira – mas é já uma boa aproximação... – a ocultação da Verdade, o fazer-se desentendido ou a resposta enviesada. E aí temos o delicioso exemplo, numa das pérolas do nosso barroco repentista, na satírica pena de Nicolau Tolentino (1740-1811):

Chaves na mão, melena desgrenhada
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena
A filha o ponha ali ou a criada.


A filha, moça esbelta e aperaltada
Lhe diz co´a voz que o ar serena:
“Sumiu-lhe o colchão? É forte pena;
Olhe não lhe fique a casa arruinada!”

“Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter o pai embarcado
Já a mãe não tem mãos?” E, dizendo isto

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!.

Já me parece uma “proto-mentira” o dizer-se apenas parte da Verdade, ainda que com as mais pacificadoras intenções como decerto foi a do aviso feito pela Avó espanhola de uma das minhas amigas no dia em que esta se casou: Hija, fija-te: A su marido solo se dice la mitad de la mitad! Prudentíssima Senhora! O mesmo serve para quando digo: Muito obrigada por esta agradabilíssima noite!, quando me aborreci de morte. Aí não estou a mentir, estou apenas a ser educada. Coisas destas como por exemplo os preços aldrabados do regateio, não são mentiras mas simples regras de convivência num consentido e com sentido apagamento da Verdade ...

A Mentira “verdadeira”, porém, é mais que isso. Pressupõe uma escolha deliberada, uma tentativa de colher algum benefício sem que, do outro lado, haja nada que alerte as pessoas para o facto de estarem a ser enganadas. Pressupõe a intenção de enganar, de induzir o outro em erro e não é de todo gratuita. Mente-se para fugir ao castigo, para acertar num exame, para ganhar uma aposta, um jogo ou umas eleições, em última instância para salvar a pele ... Mas também se mente para não magoar as pessoas – as mentiras “carinhosas” – ou para as proteger – as mentiras “caridosas”.


E há mentiras históricas como, por exemplo, a de Deu-la-deu Martins na praça forte de Monção, lá pelo século XIV, que, vendo-se na contingência de se render pela fome, pegou nos últimos pães e, das muralhas, atirou-os ao inimigo, gritando-lhes que, se quisessem mais, era só pedir. Julgando os castelhanos a praça farta quando a tinham por esfomeada, levantaram o cerco e retiraram. Mentira heróica ou simples bluff, que importa? Foi saída redentora.

Apesar da ocasional utilidade da Mentira, teimam os sábios em dizer que “se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo”. Mentira! Um bom mentiroso é um grande andarilho, um viajeiro imaginoso, um indutor de verdades “segundas” que, por serem quase-quase conformes às “originais”, lhe garantem largos raios de acção e destinos felizes – a prazo, mas felizes ...
E devo confessar que, excluindo o caso de mentiras malevolentes, nada me tira o prazer de uma boa mentira, porque – deixemo-nos de coisas – uma boa mentira dá-nos lustro ao ego, restaura-nos o amor próprio e é intimamente muito divertido!

Daí que o “Dia das Mentiras”, ao abençoar-nos este apetite, ponha uma pitada de humor matreiro na sisudez do calendário.

2 comentários:

Ana Monteiro disse...

Bonito, muito bonito. Gostei muito.

Anónimo disse...

É sempre um prazer ler os seus textos e meditar sobre as suas reflexões.
Continue a dar-nos esse prazer.