sexta-feira, março 03, 2006

ESTÓRIAS

Que dia de anos


Esta estorinha é absoluta e totalmente verdadeira. Os seus personagens, aqui com denominações obviamente fictícias, são reais, palpáveis, tácteis e cheiinhas de saúde e vida. Não se trata, portanto, de aqui se alertar, como em ficção acontece, para o facto do enredo ser inventado, que os nomes também e que a criação (que não de capoeira) não tem nadinha a ver com acontecimentos reais. Estamos, assim, entendidos? Creio que sim.

Na vida dos casais há momentos de aflição os mais diversos e em situações elas também mais obnóxias. Entre marido e mulher não metas a colher, diz a sabedoria milenar/popular e com carradas de razão. Isto é, para ser mais preciso: os arrufos matrimoniais são como os desentendimentos nos balneários futebolísticos. É lá dentro que eles se resolvem. Se transpirar alguma coisa para o exterior, está o caldo entornado.

Claro que os cônjuges antecederam e em muito os futebolistas. Uns e outros podem fazer espectáculos. No que toca aos segundos, é para isso que eles agora são pagos. Não só, como é evidente, mas em grandíssima percentagem. A anos-luz vai o tempo do amor à camisola. Vejamos agora o que se passa com os primeiros. Darem espectáculos, nem pó. Apesar da libertinagem, a que alguns chamam incorrectamente liberdade, do vale tudo e do não puritanismo, ainda há que ter maneiras...

Já vejo, não tão ao longe como isso tudo, muita gente a comentar: «O gajo é um kota. Bué de antiquado, quase paleolítico. Vem agora com esta conversa para encher pneu. Melhor fazia se dedicasse o tempo que levou a botar este excremento (usa-se merda) a dar umas corridinhas à beira Tejo. Gordo como está, o alifante devia ter vergonha nas fuças e deixar-se de calinadas».

Muito bem. Apesar das rusgas que por aí se verificam, apesar das discussões estranhas a propósito dos tais cartoons, apesar das sessões lamentáveis/parlamentares, ainda não me encolhi o suficiente para, desta sorte, nem sequer pôr os pauzinhos ao sol. Mas há limites para a estupidez, a tacanhez e bestuntos encardidos. Delito de opinião – nunca. Já bastou o que se passou e passou. Se calhar não, mas...

Posto isto, voltemos à estorinha. Um casal modelo, como manda a santa madre Igreja, cumpridor, amantíssimo, temente a Deus como lhe competia, com fornicações apontadas à legítima procriação (fora disso era pecado e justificadamente) e controladas para que um eventual excesso não viesse à luz do quotidiano, era seu hábito e prática. De dia, porque à noite, só com uma iluminação pública à maneira.

Ora um fatídico dia em que a esposa completava umas quantas mas não muitas primaveras, o caro metade chegou já com alguma tardança a casa e, ao mesmo tempo que depositava um ósculo casto na fronte da senhora, foi adiantado - «... e o que é que hoje temos para jantar»? A outra metade, cara, igualmente, resmoneou que só se fosse ele a comer, que ela não tinha vontade.

Tragédia à vista. Os fados estavam de viés, se não mesmo de costas voltadas para o senhor em causa. Por incrível que pareça e apesar da juventude matrimonial, ele estava completamente esquecido que, nesse dia, exactamente, era o aniversário dela. Shakespeare nunca traçaria um tal quadro, Betovhen jamais escreveria uma só clave de sol de uma tal sinfonia absolutamente incompleta.

Incauto, o marido, face à cara de pau da digníssima, onde nem uma leve aragem de alegria muito menos uma sombra de sorriso se desenhavam, avançou com o clássico e calino - Ó filha, parece-me que estás mal disposta. Não gosto nada de ter ver assim de cenho franzido e carrancudo. O que é que tu tens, minha querida»?

E ela, numa voz mais gelado do que o iceberg fatal do Titanic: - O que é que tenho? Um dia mais do que ontem!...

Caiu o céu na cabeça do nosso senhor. Quem disso se receava eram o Axterix, o Obelix e os outros irredutíveis gauleses. Porém, ainda que muito tardiamente, fez-se luz no cerebelo dele. Não fez mais qualquer comentário. E, no dia seguinte, foi a correr comprar a primeira coisa que se assemelhasse a uma prenda de anos significativa e à tarde, entregou-lha, dizendo que, no dia anterior, do que ele se esqueça fora do dito presente na sua secretária de trabalho. Quanto ao resto – nada.

Ela sorriu. E ele nunca se decidiu a confessar a si próprio se tinha sido de condescendência – ou de pena. Lá bem no fundo do seu fundo, ainda hoje vegeta a interrogação: de desprezo? Vá lá entender as mulheres.
Antunes Ferreira



2 comentários:

Anónimo disse...

Como já uma vez lhe disse o importante são as ideias e não quem as tem, por isso mantenho-me no anonimato.

Apesar de não estar directamente relacionado com o tema do texto gostava de comentar a definição e liberdade.

Definição de liberdade (dicionário):
faculdade de uma pessoa poder dispor de si, fazendo ou deixando de fazer por seu livre arbítrio qualquer coisa;

Assim a Liberdade não é necessariamente uma coisa boa, é simplesmente liberdade. Um exemplo: Eu sou livre de cometer um assassinato, mas parece-me óbvio que é algo que não é bom.

Existe outro conceito além da liberdade que é a responsabilidade.
Definição de responsabilidade (dicionário):
obrigação de responder por certos actos próprios ou alheios ou por alguma coisa que lhe foi confiada.

Nesta definição é incutida na pessoa que pratica o acto a necessidade de responder pelos actos que practica.

Falta agora considerar um terceiro aspecto que é a vida em sociedade. Considero sociedade todas as pessoas à nossa volta. A sociedade estabelece regras. No caso do estado as regras são as leis. No caso dos amigos as regras são ditadas pelo julgamento individual de cada um. Mas estas regras são sempre limitadoras das liberdades individuais, uma vez que estabelecem consequências aos actos cometidos.
Voltando ao exemplo do assassinato, depois de cometer o crime assumo o acto. De seguida a sociedade deverá julgar-me.

Assim parece-me que a convivência entre estes dois conceitos liberdade e resposabilidade é que faz as sociedades serem melhores ou piores. Ou seja numa sociedade a liberdade terá sempre de ser limitada, caso contrário viveremos numa selva.

Em relação ao texto eu tenho uma frase quando esqueço-me de um aniversário: "Se eu ontem não te dei os parabéns não foi porque me esqueci. É que eu acho que estás de parabéns todos os dias e não é preciso um dia para me lembrar disso, por isso hoje te agradeço por estares a meu lado."

Armando Fernandes disse...

Se há algo que eu detesto é começar a ler uma história e, chegado ao fim, sentir-me logrado por ter o vívido sentimento de que falta algo para a acabar convenientemente.. Com excepção da sinfonia do Franz (não o sobrolho, mas o Schubert, claro!), tudo o que é incompleto me dá raivinhas.
Ora o texto deste Antunes Ferreira deixa o fim tal e qual, ou seja, «i n c o m p l e t o». E, o que é pior, introduzindo uma dúvida cruel. E uma dúvida que é mais que bifurcada: pois, pois, é uma dúvida plurifurcada.
Dum caso anodino do dia a dia dos casais, caso que decerto se deve repetir aos milhares, senão aos milhões, por esse mundo fora de mais de seis biliões e meio de almas (umas danadas e outras não), presenteia-nos o Vate de Lapa com um daqueles textos de que só ele tem o segredo. Mas desta feita, reitero o incompletamento da historieta.
Jornalista de profissão – e bom – e escritor por amor e devoção à língua do Alexandre Herculano – e igualmente bom - o Antunes Ferreira tem duas particularidades, a saber: a primeira é o HUMOR, inconfundível, inextinguível, incomparável, presente, e provávelmente, o traço de espírito que, para mim, desde os primórdios da nossa convivência, o caracterizou irremediávelmente. Bem haja Tália que com tal dom o bafejou! A segunda (nata, genética, ou endócrina), é a ARTE DA COMPOSICÃO. Composiçaão de textos que são primores; textos que são eruditos, a atestar dos vastíssimos conhecimentos que distinguem a sua bagagem intelectual; textos que são claros, verificáveis; textos que podem ter a leveza do humor, mas podem igualmente estar revestidos duma seriedade profunda, ou de acutilantes «charges», já que a forma satírica também ele a domina, não ficando atrás do Theognis, nem do Swift ou do La Bruyère. Textos que respeitam, naturalmente, os preceitos de qualquer dos cânones do estilo e da arte de escrever. Bem hajam Calíope e outras divindades - entre as quais decerto estava presente a grande Atena - que presidiram ao nascimento do varão para igualmente o bafejarem com este outro dom.
Volto agora ao meu descontentamento. Mas que raio de história é esta? Começo a lê-la e estou quase a sentir aquele impagável humor chegar e...não chega...! Continuo! E chegado ao fim, aquele esquisito sabor a que falta algo de importante para completar a história fica-me agarrado ao cristalino, e daí escorrega lentamente pelos ínvios canais sinuviais para a garganta, e invade-me a boca, inundando as papilas gustativas com um acre sabor a incompleto.
Mais! Para anhadir ao meu descontentamento, este «simulacro» de final deixa-nos com uma dúvida tripartida, ou seja, entre a condescendência, a pena e o desprezo.
Ora para um casal cuja parte feminina completava, segundo reza o texto, «umas quantas mas não muitas primaveras», seria de esperar que essa juventude ainda estivesse nimbada dos efeitos da lua de mel, extasiante e melissuga, ainda plena daquele elixir que tudo faz esquecer a não ser o Amor, e que decerto nao perdoa qualquer falta por simplesmente a não reconhecer como tal.
Mas não, o Antunes Ferreira tinha de lhe espetar o veneno do inconformismo matrimonial, a desfaçatez de olhares de frialdade e de comentários carregados de duplo sentido.
Que diabo!! Porque razão não dar uma outra chance ao descoroçoado amantíssimo marido? Porque deixá-lo no mofo do ludíbrio da razão, conjecturando sobre a crueldade da dúvida que no seu peito se instalou? Se instalou, não!! Que o Antunes Ferreira lá introduziu, como um espinho aguçado que lhe lacera o coração. E lá estamos nós com um casal irremediávelmente votado à amargura, ao azedume, à falta de harmonia, aos silêncios carregados de condenação, por um lado, e de lívidas interrogações pelo outro?
Francamente, nem sabemos o fim da história, nem se estas minhas conjecturas estão ou não perto da verdade. E quanto a risota, nem pó!
Irra!!