domingo, fevereiro 10, 2008

GANDA LATA

Antigos & Amigos

Antunes Ferreira

Os amigos são como as melancias: só depois de se abrirem se sabe se são bons, ou não prestam. Pare tudo! Ninguém está aqui a fazer a defesa da dissecação deles. Nunca. E muito menos de um qualquer atentado ao pudor. Obviamente, ainda subsiste a autópsia, mas, com tal ocorrência, já não se desfazem quaisquer dúvidas que ainda subsistissem. Estão mortas, absoluta e definitivamente falecidas.

Há muitas formas de um sujeito avaliar a qualidade e, até, a quantidade, de um amigo. Peça-se-lhe um mísero milhão de euros e a resposta propicia, claramente, resultado que indicia o que lhe vai na mente (dele). Se um responde que vai ver o que se pode arranjar, anote-se, porque o fabiano apenas quis protelar a asserção vai lamber sabão. Ou, mesmo, abaixo de Braga, enfim, à merda.

Existem mais casos. Aquele que retorque - porquê a mim? Eu que sou um gajo com pouca sorte encartada? Olha, pá, o Euromilhões
só sai aos outros. Descodifique-se: o mânfio apenas quis protelar a asserção vai lamber sabão. Ou, mesmo, abaixo de Braga, enfim, à merda. Atente-se no outro que comenta – olha lá, tu até pareces o Monsiu de lapalice: o teu pedido é mesmo uma palermice. Dito por outras palavras: o camarada apenas quis protelar a asserção vai lamber sabão. Ou mesmo, abaixo de Braga, enfim, à merda.

Quanto mais um cidadão caminha para a velhice, mais descortina o quilate dos amigos. Alguns deixaram de o ser, que se lixem. Vários deixaram de fumar, o problema foi deles. Diversos recorreram ao forno crematório. Todos se afastaram, por vontade própria, por já estarem fora do prazo de validade, ou por mor do fatal é a única coisa que temos certa.

Porém, existem casos de amizade fiel, até ao levantamento das ossadas, antes era ao quinto ano, agora, por falta de espaço (vital? Que estupidez: mortal) já é ao terceiro. Um dia destes passa a ser como a pescada ou o vestido, que antes de o serem, já o eram. Com as reformas verdadeiramente luxuosas que existem (tirando alguns exemplos de quase mendicidade, como o do senhor Teixeira Pinto, por incapacidade física, é certo), é nessas alturas que a amizade vem ao de cima, tal como o azeite na água.

É, frequentemente, a entrada nos chamados lares da terceira idade que origina essa tentativa de descoberta da sinceridade fraternal. Antigos amigos que já nem sabem se o são. Se um fica fora e o outro ali se instala – na maioria das vezes é instalado – os encontros vão-se desvanecendo, obnubilando, desaparecendo. Se os dois entram, ou as quezílias são constantes, ou tudo corre sobre esferas. Tudo bué fixe. Pelos vistos caiu o de anteriormente usado. Os jovens são volúveis, já se sabe.

Francisco Macedo e Demóstenes da Purificação ficaram depositados no Lar do Santo Márcio Discípulo, quem havia de dizer, bem-aventurado de altar tem cada nome. Macedo, reformadíssimo da Função Pública, como auxiliar já nem sabia de quê, antes era contínuo, agora com as modernices estava tudo mudado, até parecia o tempo.

No Verão fazia calor, ia-se à praia, bebiam-se umas cervejolas, usavam-se óculos de sol. Inverno era Inverno. Com todos, como o bacalhau. Chuva à discrição, trovoadas q.b., frios que davam em neve nas terras altas, granizos à mistura, sobretudos e cachecóis. Nos interstícios, a Primavera e o Outono cumpriam com os seus deveres, tal qual o bom marido, como manda a Santa Madre Igreja. Flores e frutos, repartidos pelos meses para o efeito. Era monótono, mas seguro. De tiro e queda.

Demóstenes fora aviador, cuidado, sem aeronave, aviador de balcão, em loja de roupa para casa, ali à Rua dos Fanqueiros, à direita de quem vai para o Terreiro do Paço e, singularmente, à esquerda de quem vem para a Praça da Figueira. Lençóis das melhores proveniências, algodão do Egipto, para cama de solteiro, de casal e de tudo ao molho e fé em deus. Fronhas, cobertores, mantas e edredões, até mesmo panos para a louça e para o chão, incluindo esfregões, toalhas de mesa e de casa de banho e outros.

Por uma tarde de calor e sol radioso, está bem de ver, em Fevereiro, sentados no jardim do lar, em banco duplo, conversam. «Ó Macedo, como sabes, já cheguei aos oitenta e três. E, também como é do teu conhecimento, estou cheio de dores por tudo o que é sítio e de problemas cada vez mais lixados. Ora tu deves ter mais ou menos a mesma idade, andámos na escola primária juntos, como é que te sentes?»


«Demóstenes, não estou a gozar contigo. Nunca me ri de ti, nem mesmo quando a dona Engrácia que Deus tenha te apanhou na retrete a esgalhar uma solitária e te baixou os calções para te dar um par de nalgadas em frente de toda a malta. Tenho de te dizer a verdade, nua e crua. Sinto-me como um recém-nascido». Francisco Macedo escancara a boca, de espanto. «Como um recém-nascido???... Que merda é essa??? E dizes tu que não estás a mangar comigo. Explica-te e explica-me, homem! Não me deixes nesta indecisão, neste tubi or notubi, porra!»

E o Demóstenes, espreguiçando-se de mansinho, não fora soltar-se um cúbito, uma tíbia ou um perónio, quiçá mesmo um rádio, para não falar das falanges, falanginhas, falangetas & afins: «Sim. Como um recém-nascido. Sem cabelo, sem dentes e acho que acabei de me mijar nas calças….»

Esta invencionice é o aproveitamento de uma curta anedota que o Maia Figueiredo me mandou. É um dos meus maiores abastecedores de mails de todas as qualidades e feitios – todos, mesmo todos, incluindo os «muito especiais» que a Santa Igreja considera pecaminosos. Esta piada tem muita piada, como dizem os brasucas. O mérito inteirinho é dela, e dele, eu limitei-me a vestir-lhe uma farpela pelintra.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008




A ROTA DO CALENDÁRIO

Um de Fevereiro

Maria Lúcia Garcia Marques
S
ou republicana, mas reconheço que resisto mal ao “charme discreto (nem sempre, mas enfim...) da monarquia”. Se bem que – convenhamos – ela já não seja o que era, é, pelo menos, um estado de afecto. Tem algo de securitário na perenidade dos seus titulares; é uma espécie de “líquido amniótico” que, na transitoriedade histórica, parece dar coesão à geografia sentimental da Nação. A transmissão dinástica garante tempo histórico “com assinatura” e, quando funciona bem, dá um certo ar de família, em que a “paternidade” do Rei serve de ressalva e garante.


E depois há o espectáculo! E aí, a monarquia é exclusiva e supera em glamour qualquer República. Quando se mostram, nas suas glórias e nas suas misérias, Reis, Rainhas, Príncipes e afins, são ilustrações vivas de um mundo em escaparate, escolhidos e escrutinados, pelo coração, por aqueles que, não partilhando da mesma estrela, de certo modo se revêm neles, ou melhor, se projectam neles como num conto de fadas, lugar de todos os brilhos e de todos os faustos. E, com a graciosa magnanimidade de parecerem não atender aos custos. Até que ...


Tem toda esta prosa a ver com as minhas ligações ao primeiro de Fevereiro de 1908. Honni soit...!
É que, além de ter na minha posse, luxuosamente guardada numa pastinha de calfe, uma carta autógrafa da Rainha D. Amélia, datada de 1 de Fevereiro de 1933, a agradecer a homenagem prestada ao Rei D. Carlos na passagem do 25º aniversário da sua morte, lembro, estreitamente ligadas com esta efeméride, duas histórias da minha infância e família.

Foi assim. Deslocando-me com frequência, no início da década de cinquenta, com meus Pais, a Elvas, era paragem obrigatória do nosso clã familiar Vila Viçosa, para visitar o Palácio Ducal. Pelo menos duas vezes por ano percorríamos a mansão senhorial que, à época, por falta de meios financeiros e até humanos, não possuía o actual apuro de instalações e recheio, fruto de felizes intervenções que de então para cá foi sofrendo e lhe restituíram o antigo brilho.
Nessa época, era eu menina, o Palácio era devotadamente cuidado por um reduzido número de funcionários e os visitantes não eram muito numerosos. Chegou a acontecer, quando lá íamos pelo Natal, sermos só nós a percorrer os aposentos então abertos ao público, acompanhados por um guarda/guia, que, num tom quase familiar, nos ia mostrando um pouco de tudo, ilustrando a visita com algumas historietas ou curiosas anedotas relacionadas com os espaços e os seus régios habitantes.

Havia um ponto alto na visita: era quando, no quarto de cama da Rainha D. Amélia, evocando o regicídio, o guarda abria com solenidade um gavetão da cómoda e retirava a camisa que o “Senhor D. Carlos” vestia na tarde do atentado. Mostrava um orifício no cós do colarinho, atrás, na nuca. E apontava: “Estão a ver aqui o buraco da bala? E o sangue aqui todo à volta? Não voltou a ser lavada...” E, de uma vez, até acrescentou: “E afinal não é azul...” E riu-se mansamente. Eu era muito pequena e não percebi aquela do azul.

O que eu via eram umas manchas empastadas cor de chocolate à volta de um buraco que até não era assim tão grande! A mim parecia-me que deveria ser muito maior. Coisa que se visse... Para matar uma pessoa assim tão importante como era um Rei...! Mas que me impressionava, impressionava. E um dia, muito furtivamente, estendi o dedo, e toquei de fugida e ao de leve na dobra da camisa. Logo o guarda admoestou: “Isto não é para mexer, menina! É só para ver!” E guardou-a ciosamente, de novo, na gaveta da cómoda de onde a tirara.

Não muito tempo depois deixaram de a mostrar e creio que não mais voltaram a fazê-lo. No entanto, ainda hoje me parece sentir nos dedos aquele choque de curiosidade e susto de uma tão bárbara visão de morte. Afortunadamente no mesmo quarto, instalado num desvão à cabeceira da cama da Rainha, brilhava (literalmente, porque era de latão amarelo com colchoaria e enfeites em seda e veludo azul claro) o berço dos principezinhos ... E a vida falava mais alto!

***************

A segunda história tem a ver com meu Avô. Meu Avô era republicano. Confesso, reconhecido e louvado a seu tempo. Mas era um homem de coração grande, aberto por natureza e profissão – era médico – aos outros, a todos os outros. Era compassivo e compreensivo. Só convivia mal com a hipocrisia e a estupidez. No resto, militava ardentemente pela tolerância e pela concórdia.
Foi nesse espírito que falou aos manifestantes que o foram vitoriar a sua casa aquando da implantação da República, pedindo que não se cometessem excessos nem retaliações. Diz-se que teria sido por isso que, na sua cidade, onde avultavam das maiores carências sociais e económicas do País e uma classe operária das mais numerosas e reivindicativas, não tenha havido distúrbios, perseguições e outros atropelos de monta tal como aconteceu pelo País fora.

Mas meu Avô tinha os seus gostos e os seus padrões estéticos. E tinha um hábito sagrado: quando havia festa em sua casa ou razão de especial alegria ou comemoração, mandava hastear a bandeira nacional no varandim da sua residência. Só que, com a República, a bandeira mudou. E meu Avô passou a ter um problema: apesar de todo o feliz simbolismo que lhe reconhecia, não conseguia aceitar a solução estética da bandeira verde rubra. O seu coração ficara com a bandeira azul e branca. Era mais “distinta”, dizia ele.

Foi republicano até à morte, festejou sempre, portas a dentro, o 5 de Outubro e outros aniversários. Só a bandeira deixou de aparecer na fachada de sua casa.

terça-feira, fevereiro 05, 2008



Terra mística dos faraós

Braz Ferreira
Mais uma vez por motivos profissionais me desloquei ao Egipto, a terra dos faraós. A minha viagem de negócios me levava do Cairo até BeniSuef uma cidade a mais ou menos 150 km a sul da capital. Sendo a segunda vez que me deslocava pelas terras das pirâmides, já sabia ou por outra sabia mais ou menos o que me iria acontecer durante a minha viagem rodoviária. Por tal razão não comi muito ao pequeno-almoço com medo de vomitar durante o percurso. E às 7:30 em ponto lá estava o meu motorista preparado para esta aventura do volante.

Logo no inicio após me ter instalado no veículo, o proposto a manejar o volante me disse num inglês quase, quase impecável. «Inchallah (isto não é inglês) we arrive safe» (isto é inglês). E se Allah não quiser? quase perguntei ao motorista. Porém, baseado na minha experiência da última viajem, de imediato fiquei de acordo com ele e pensei com os meus botões, que por acaso estavam brancos talvez de medo: Que Deus nos ajude, a nós e sobretudo aos outros motoristas que encontraremos na estrada. E lá nos lançámos pela estrada em direcção a Al Minya.

Ao sair da cidade, passando em frente do Demersdash Hospital, consegui verificar a eficiência dos polícias de trânsito do país. São verdadeiramente, como o nome do hospital, uns merdas. Com uma calma faraónica (o que não é de admirar) um polícia de trânsito estava encostado ao poste de um semáforo. Encostado é um pouco de exagero, pois estava quase abraçado ao tal poste, como a Marilyn Monroe ao John Kenedy, que de raiva passou ao vermelho.

E como ele, o poste, quase todos os motorista passavam no vermelho sem se importarem nada, ou quase nada, com o agente da autoridade rodoviária. Alguns deles abrandavam para depois virar à direita numa rua de sentido proibido. O portador do quepi, simplesmente pestanejava, olhando os carros passarem a velocidades próximas da fórmula 1.

Os veículos cruzam, à (boa) vontade dos proprietários, a rodovia - em sentido normal e contrário - utilizando a buzina como autorizante do desrespeito às leis de trânsito. Aqui até acredito que a buzina é mais importante que o motor do carro. Carros na mão, na contra mão e até no contra pé obrigam os outros a manobras que além de perigosas, estão no limite do espectacular. Por vezes, tais as acções são tão incríveis, que podemos pensar estar em episódios dos apanhados.
Pelo contrário, os pisca-piscas são inoperantes, há muito devem ter decidido aposentar-se. Ainda se devem lembrar do tempo dos faraós onde deveriam ter tido necessidade de horas extraordinárias para virar nas curvas do deserto e alcançar as caravanas de camelos vindas do Oriente.

Mais adiante, na nossa frente, um táxi preto e branco, um Fiat dos anos 90, executava uma dança do ventre de deixar com inveja qualquer eximia dançarina árabe. O passeio serviu-lhe de apoio, umas três ou quatro vezes, obrigando alguns transeuntes a abandonar o local de forma repentina. Os táxis pretos e brancos, já com idade de frequentarem um lar da terceira idade, com os porta malas metálicos soldados no tecto, tal como a coroa do Ramsés II, ainda conseguem transitar sem muletas.


O desrespeito pelas leis de trânsito é tanto que até hoje não consegui entender porque gastam dinheiro a instalar sinais. Onde se diz que é proibido ultrapassar, se ultrapassa em terceira mão; onde é proibido parar, existem praças de táxis e parkings. Estes com pagamento. E onde é proibido exceder a velocidade de 60 km, é raro e o veículo que transita a menos de 110… Na verdade, só as carroças puxadas por burros famélicos conseguem burricar e respeitar a velocidade regulamentada. Os carros passam tão perto uns dos outros que, se deixássemos cair uma nota de dez libras egípcias, ela com certeza não conseguiria cair no chão.

Deixamos o Cairo no meio deste pandemónio rodoviário (um amigo meu inglês disse-me que na realidade isto era uma Organised complete mess (uma verdadeira cagada organizada). Com carradas de razão. Já na estrada nacional, na nossa frente, seguia uma camioneta carregadíssima de melancias. Devido ao excesso de velocidade e aos solavancos, estas deviam estar bastante enjoadas e algumas delas decidiram suicidar-se atirando-se para o asfalto. E este, que normalmente era adepto da Académica, tornou-se, em escassos segundos, torcedor da equipa nacional. Talvez outras companheiras das suicidas tivessem tido a mesma intenção, mas uma cobertura de lona as impedia de o fazer.


Logo em seguida duas vacas viajavam numa camioneta, onde os solavancos eram tantos que de certeza ao chegarem ao destino, produziriam manteiga pasteurizada. E este dois ruminantes passavam largamente o corpo da balaustrada do veículo e mostravam de maneira ameaçadora a vontade de evacuar a erva comida antes do embarque. Pois não aconteceu que na altura que ultrapassávamos a camioneta uma delas resolveu liberar os intestinos. E eu - que tinha tido vontade de abrir o vidro segundos antes. Allah estava comigo.

O carro ficou como se imagina. Parámos para uma lavagem completa e lá estávamos nós de novo na estrada. Durante a lavagem pude observar um camião de uma marca alemã pintada com carinho e amor pelo seu proprietário num dos taipais laterais: MER CEE DES BENZE. Pois é, é preciso benzer-se mesmo, para poder conduzir nas estradas egípcias. E além diss, estava também mencionado que esta marca era fabricada na falecida Comunidade Económica Europeia.

Mais adiante, a polícia tinha dividido a estrada em duas para poder controlar melhor o trânsito rodoviário. Para tal utilizara duas barricas de óleo, dois bidons de plástico para transportar azeitonas, algumas latas de tinta, umas caixas de madeira para transportar tomates e até um carrinho de mão.

E numa curva na auto-estrada o nosso motorista foi obrigado a travar de maneira radical. Um autocarro tinha parado numa curva e no meio da rodovia para permitir a um dos clientes que esvaziasse a bexiga. E na volta de Beni Suef para o Cairo me destinaram um outro veículo, um Daewoo. Mas ,visto o estado do carro, pois assim, o primeiro era uma verdadeira espada, decidi que nele não vinha, não. E não vim mesmo.
GOA, AMOR MEU

Uma noção, nunca uma nação

Antunes Ferreira
Encontro Mário Cabral e Sá na Fundação Orienteali nas Fontainhas, bairro tipicamente em estilo colonial português que hoje aparenta querer ultrapassar a decadência em que estava. Casas antigas renovadas, outras a serem reformadas, com mais comodidades, ainda que mantendo a traça antiga.
Como acontece com a casa onde viveu minha mulher, na Rua do Natal, que o novo proprietário, da família Botelho me disse que estava a assim fazer.

A vivenda onde Paulo Varela Gomes dirige a delegação da Fundação presidida por Carlos Monjardino é airosa e bonita. O seu interior, cuidado, é funcional. Diz-me o responsável que se aproximam obras para ainda a melhorar, a serem feitas antes da monção, de outra forma seria impensável dadas as condições meteorológicas desse período do ano.
Se calhar até já começaram, pois a nossa conversa decorre em finais de Novembro. De 2007, claro.

É ali que, muito gostosamente, conheço pessoalmente o jornalista goês, que escreve para diversos órgãos de comunicação indianos, e também é correspondente da Lusa. Do que ele se lamenta, por receber pouco, esparsas vezes e, mesmo assim, com atrasos. Mas não é esse o tema da nossa conversa, ainda que registe o desabafo. Por diversas vezes - nas andanças que tenho feito pelos lugares a que os Portugueses chegaram e, mesmo, se fixaram – me tenho confrontado com uma constante que não resisto a registar neste blogue.

Noutra altura esmiuçarei a questão. Não deixo, porém, de a enunciar agora. Será que nós estamos a deitar pela borda fora (ou, o que é pior, já quase deitámos), esse tesouro da cultura miscigenada e da convivência com as gentes locais? Por agora, devo sublinhar que Mário Cabral e Sá é um profundo conhecedor de Goa e da sua História. Investigador de gabarito, senhor de uma cultura enorme (apenas de conversar com ele disso me apercebo), escreve em Inglês, Português e Konkanim. Quanto às duas primeiras, fá-lo excelentemente. No que toca à terceira, passo. Santa ignorância a minha na língua de Goa.

Assuntos os mais diversos vieram à baila. Esta salutar prática da oralidade dialogante é típica da terra. Já o escrevi muitas vezes, mas não me canso de o repetir. Varela Gomes é, igualmente, um interlocutor muito interessante, os anos que leva por ali, em mais de uma permanência, conferiram-lhe a habilidade de saber coloquiar. O que faz na maravilha.

Eu, é o que se nota logo à primeira vez. Perco-me pela cavaqueira, bastas vezes me excedo, depois penso, tarde piaste, que quase monopolizo a palra. Esta confissão e a correspondente contrição pouco adiantam. Já cometi o pecado, resta-me esperar pela hipotética e quimérica absolvição. Mas, na manhã ensolarada de Panjim, creio não ter ultrapassado os limites.

Veio à baila a Índia e o seu percurso, naturalmente decorrendo o tema do que anterior fora igualmente leitmotiv de Goa. Ultrapassada estava a lição que Mário Cabral e Sá me proporcionara sobre Gomantak, o nome por que foi chamada no período védico tardio. O jornalista acrescenta que tal época decorreu entre os anos 100 e 500 a. C. e em sânscrito significava «terra semelhante ao paraíso, fértil e com boas águas». Razão tinham - acrescento eu em voz off - em tempo de antes de Cristo. E pasmo.

Já no concernente à Índia, chega-se, fatalmente, à luta pela independência, a Gandhi, a Nehru, a Jinah, a Tagore. Explica Mário. A Índia, separada do Paquistão, contrariando o sonho do Mahatma, foi, alcançada a libertação, de imediato considerada União Indiana. Era difícil que assim não fosse; ela foi sempre uma noção, jamais uma nação. Espanto.

Quando me retiro, Varela Gomes e Cabral e Sá têm assuntos para tratar, já bastou de paleio, penso para mim mesmo, não se me afasta do bestunto essa afirmação. E vou andando em direcção ao Palácio do Hidalcão e cada vez convertido ao que o jornalista goês afirmou. Nestas coisas, apenas tenho de recordar o que o Povo diz: aprender até morrer. Que, juntamente com o pagar, quanto mais longe, melhor.

Fotos, de cima para baixo:
Antiga casa de minha mulher, em reconstrução
Fontaínhas - Fundação Oriente
Fontaínhas - Casa já recuperada
Fontaínhas - Pormenor
Independência da Índia - Gandhi e a roda de fiar

segunda-feira, fevereiro 04, 2008




Subsidio pela hora da morte

Antunes Ferreira

Somos um País de marinheiros – subsidiados. Dizem que desde o Dom Fuas Roupinho.
Será? Pelo menos, Henrique o Navegador sabia da poda. Afirmam os entendidos nestas coisas que a subsidio-dependência é um factor que enforma o quotidiano dos Portugueses que, de tão habituados, já consideram o acto de subsidiar como uma obrigação. O subsídio tornou-se, assim, obrigatório e faz parte de nós. E, alem de enriquecer o bolso, também enriquece o ego. Um destes dias, quando entrar em funcionamento o tão falado e prometido documento único, no respectivo chip deverá existir uma alínea para especificar o subsídio de cada cidadão.

Tornou-se um émulo do padre-nosso, se não mesmo, vencedor na comparação ou na compita. Ou não é já santificado? Santificado, o subsidio. Ou não se deseja que nos seja dado o nosso de cada dia? Nosso, o subsídio. Ou não estará já santificado? Santificado, o subsidio. Sem passar, sequer, pela beatice, isto é um intermédio de andamento, para o caso verdadeiramente despiciendo. Ou não se aspira a que venha o nós o reino dele? Dele, do subsidio. E não se deseja que seja feita a sua vontade? Vontade, dele, subsídio. Obviamente.

Alem do mais, os candidatos a subsidiados não pedem, exigem. Trata-se de um direito adquirido, expressão que me causa sempre uns certos engulhos, porque não sei bem como se processa tal aquisição. Por compra? Por doação? Por herança? Por outorga? Mas, é também um direito humano, coisa inultrapassável, ainda que um tanto repetitiva de tão citada. Nada de mão estendida, pois; nada de requerimento em papel selado, que, aliás, já nem há; nada de abaixo-assinado, de tantos, já nem se lhes liga, não se os lê, quanto mais assiná-los.

Há-os de todas as qualidades, para todas as cores, e em quantidades – é o que se sabe. Para arrancar vinhas; para plantar novas vinhas, o néctar está a dar, nunca houve tantos rótulos, que nascem como cogumelos, naturalmente não espontâneos. Para construir uma fábrica; para não a encerrar, a deslocalização é tramada, há que manter a unidade industrial dita produtiva. Para um pavilhão desportivo; para patrocinar os desportos que nele se praticam, até no futebol eles acontecem, veja-se o que se passa na Madeira do Senhor Jardim.

Na passada semana, o Jornal do Fundão, símbolo e bandeira desde há muitos anos da imprensa regional (António Paulouro o deu à luz em 1946), publicou uma curiosa reportagem sobre o negócio das agências funerárias. Que tem de ser bom, tal o número que existe entre nós. É, na realidade, mais do que bom: é óptimo. De acordo com o texto, movimenta qualquer coisa como 400 milhões de euros por ano.



Diz o Povo, na sua infinita sabedoria, que a morte é a única coisa certa que um homem tem na vida. Não era preciso que o fizesse, porque é mesmo assim. Parece que essa inevitabilidade é, por muitíssima gente e por muitíssimas vezes, conservada em verdadeira obnubilação. Não vale a pena pensar nela, há também imensos cidadãos que o referem – mas tal como o São Tomás, fazei o que eles dizem, não o que ele faz.

Já pensaram alguma vez, uma que fosse, na imensidão de pessoal que sateliteliza o óbito? Não são apenas os gatos-pingados e, sobretudo os respectivos patrões. Despiciendo seria enumerar aqui a quase multidão, desde os agentes hospitalares que dão conhecimento imediato às funerárias, sempre em cima do falecimento, até aos periódicos que, nas páginas de publicidade, plantam anúncios encimados pela clássica cruz negra, algumas vezes valorizados pela fotografia do de cujus. Para já não referir as floristas – que ganham coroas com as coroas – finerárias. Disse bem, finerárias, ou não é a morte o fim?

Essa verdadeira instituição que são os velórios é exemplo acabado dos que acabaram, mas, principalmente, dos que ficam. Até aí se podem quantificar os gastos mais diversos. Antigamente, e volta não volta era a cera das velas; hoje é a voltagem fornecida pela EDP. Mas, para da energia do Senhor Mexia, há tudo o resto, uma panóplia complexa e cara.

Ora, perguntarão – mas que têm a ver os subsídios com os passamentos? O cu nada tem a ver com as calças, também refere o Povo supracitado. No caso vertente, que me desculpe a arraia-miúda, não é verdade. Não se refere o subsídio por morte, a quem resta sempre calham bem, são diminutos, mas a cavalo dado…, Será bom que o Senhor Vieira da Silva não se aperceba disto.

Aqui, trata-se de uma outra pergunta e, quiçá mesmo, de uma sugestão (leia-se como se quiser). Que não se me afigura de todo impertinente. Seria um subsídio para morrer. Um sujeito receberia, atempadamente, um subsídio para se finar. Si non era vero, era bene trovato. Quem o disse não foi o Senhor Berlusconi, vem mais de trás.

PUBLICADO TAMBÉM NO BLOGUE O SORUMBÁTICO

domingo, fevereiro 03, 2008




A ROTA DO CALENDÁRIO

Luar de Janeiro


Maria Lúcia Garcia Marques
Em Janeiro, a lua levanta-se cedo. Quando a noite se fecha já ela lá está, de sentinela. Não deleitosa e deliquescente, em cenários de amor, subindo enorme e lenta, sorvendo as estrelas e a Via Láctea – isso é lá mais para Agosto – mas fria e altaneira, régio espelho do Sol no seu manto negro orvalhado de astros. Uma Senhora!

Mas com fases. Ou faces ... Cada noite sua cara: uma vez mais um bocadinho, outras menos um bocadinho, outras ainda coisa nenhuma e, de quando em vez, eclipsa-se! Artifícios de mulher bonita! E poderosa. Regula o mundo, comanda o tempo, pauta até as vidas das mulheres regendo-lhes os ciclos férteis. Vinte e oito dias – de lua a lua, de cheia a vaza com os quartos pelo meio. Nasce, cresce, diminui, desaparece... Renasce e recomeça, num eterno retorno, marcando numa periodicidade sem fim os ciclos da vida. Símbolo dos ritmos biológicos controla todos os planos cósmicos regidos pela lei do devir, é a rainha dos três ceptros: o da fertilidade, o do tempo que passa, o do saber teórico, conceptual, racional, espécie de conhecimento por reflexo tal como ela própria é reflexo do Sol.

Foi aliás esta dualidade universal que Sophia de Mello Breyner condensou no “Poema de Amor de António e Cleópatra”:

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua


Ela, Sophia, a mais solar das vozes, toda poesia, toda mulher, celebra ainda em verso as felizes núpcias da sua condição:

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua
(Poesia 1, 1944)

E há algo de feminil e trágico, entre véu e sudário, que se desprende do halo da esfera lunar, algo que nos lembra os versos dos poetas excessivos:

Vai alta a lua na mansão da Morte
Já meia noite com vagar soou
(...), Soares de Passos (Noivado do Sepulcro, 1856)
ou dos poetas doloridos:

A lua sobe no horizonte
E a minha infância feliz acorda, como uma lágrima em mim
(...), Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (Ode Marítima, 1915).


Mas tal como há quem diga que o que faz bonitos os olhos é o olhar, também o que faz da lua o seu encanto é o... luar, em que a magia lhe vem daquela pureza envolvente, daquela superior distância que tudo perece desculpar, acendendo uma liberdade transgressora feita de todas as ingenuidades do mundo Foi assim que na singeleza da sua pena de poeta popular, Augusto Gil tão bem o retratou no seu poema “O Passeio de Santo António” que incluiu na obra a que chamou precisamente “Luar de Janeiro”:

(...) O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais ...
Os rouxinóis ouviam-se distantes.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito
(...)



Sem suspeitarem de que alguém os visse
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Oh, Frei António, o que foi aquilo?

O santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada
(...)

Gracioso e comovente o quadro, a reconciliar-nos com o gosto e o prazer das coisas simples e a entrar de concerto com o velho adágio:

Lua, a de Janeiro
Amor, o primeiro!

sábado, janeiro 26, 2008


Assim, sem mais comentários, aqui fica o registo. Veio num mail do meu Amigo/irmão Edmundo Campos, a quem me ligam laços eu diria eternos. Já vivemos, juntos, momentos excelentes, inesquecíveis, já sofremos, juntos momentos dolorosíssimos, sangrentos, inesquecíveis. Obrigado, Edmundo, muito simplesmente – obrigado. A.F.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Festa é festa

Ainda que já esteja de entrada o Entrudo, o Natal é quando o homem quiser, cantou o Paulo de Carvalho e ficou para sempre, e por isso não posso deixar de aqui publicar um texto delicioso que me foi enviado pela minha querida Amiga e camarada de profissão Alice Vieira, com quem tive o prazer e a honra de trabalhar bastantes anos no DN, que ao tempo ainda era o Diário de Notícias. A Alice, para muitíssima boa gente – e em particular para mim – já o escrevi e repito-o, é a maior escritora para crianças de sempre em Portugal.

Estávamos na Redacção do matutino da Avenida da Liberdade quando ela publicou «Rosa, minha irmã Rosa», um livro encantador, lindíssimo, emocionante, que viria a ser galardoado, muito justamente, com toda a panóplia de prémios possíveis e imaginários.

A Alice Vieira domina a nossa língua de forma perfeita. Cronista saborosíssima, com páginas excelentes – recordo aqui dois livros preciosos, «Bica Escaldada» e «Pezinhos de Coentrada, que li de jacto - tem feito parte, naturalmente, do bando dos sete que já pariu «Os Novos Mistérios de Sintra», «O Código d’Avintes» e o «Eça agora», imperdíveis.

A brincadeira que se segue creio que não é da sua autoria, é tão-só um FW. Mas, com a graça que tem, bem poderia ter sido. A Alice é capaz disso e de muito mais. Acreditem.

Além de vo-la ter remetido por mail, aqui está ela, de pleno direito neste blogue. Já convidei a Alicinha para nele colaborar. Em vão. Diz-me que um dia... E não me posso chatear com aquele sorriso inatacável, com aquela boa disposição crónica, com aquela categoria literária que ela não apregoa. Aliás, não necessita de. Obrigado, queridíssima Alicíssima. Antunes Ferreira

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 2 de Dezembro

Assunto: Festa de Natal

Tenho o prazer de informar que a festa de Natal da empresa será no dia 23 de Dezembro, com início ao meio-dia, no salão de festas privativo da Churrascaria Grill House. O bar estará aberto com várias opções de bebidas. Teremos uma pequena banda tocando canções tradicionais de Natal...sinta-se à vontade para se juntar ao grupo e cantar!


Não se surpreenda se o nosso Vice-Presidente aparecer vestido de Pai Natal! A árvore de Natal terá as luzes acesas às 13:00. A troca de presentes de "amigo secreto" pode ser feita em qualquer altura, entretanto, nenhum presente deverá exceder EUR 10,00, a fim de facilitar as escolhas e adequar os gastos a todos os bolsos. Este encontro é exclusivo para funcionários e família. Na ocasião, o nosso Vice-Presidente fará um discurso bastante especial. Feliz Natal para todos.


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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 3 de Dezembro

Assunto: Festa de Natal

De maneira alguma o memorando de 2 de Dezembro sobre a Festa de Natal pretendeu excluir os nossos funcionários judeus!
Reconhecemos que o Chanukah é um feriado importante e que costuma coincidir com o Natal, mas isso não acontecerá este ano. Portanto, passaremos a chamá-la "Festa do Fim do Ano" pois teremos em conta também todos os outros funcionários que não são cristãos e aqueles que celebram o Dia da Reconciliação. Não haverá árvore de Natal. Nada de canções de natal nem coral. Teremos outros tipos de música que agrade a todos. Felizes agora? Boas festas para vocês e família.


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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 4 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano

Recebi um bilhete (anónimo) de um membro dos Alcoólicos Anónimos solicitando uma mesa para pessoas que não bebem álcool... Terei todo o prazer em atender o pedido, mas, se eu puser uma placa na mesa a dizer "Exclusivo para os AA", vocês deixarão de ser anónimos, não será?... Como faço então? Quanto à troca de presentes, esqueçam. Não será organizada uma vez que os membros do sindicato acham que dez euros é muito dinheiro e os executivos acham que dez euros é muito pouco para um presente.
Portanto não será organizada NENHUMA TROCA DE PRESENTES. De acordo?

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 5 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano

Mas que grupo heterogéneo o nosso!!! Eu não sabia que no dia 20 de Dezembro começa o mês sagrado do Ramadão
para os muçulmanos, que proíbe comer e beber durante as horas do dia. Lá se vai a festa! Agora a sério, entendemos que um almoço nesta época do ano seja um problema para a crença de nossos funcionários muçulmanos... Talvez a Churrascaria Grill House possa assegurar o serviço de buffet até à noite ou então, embalar tudo para vocês levarem para casa nas marmitas. Que acham?


E agora mais novidades: consegui que os membros dos "Vigilantes do Peso" se sentem o mais longe possível do buffet das sobremesas; as mulheres grávidas poderão sentar-se o mais perto possível das casa de banho; os homossexuais podem sentar-se juntos; as mulheres homossexuais não terão que se sentar junto dos homens homossexuais, que terão uma mesa própria, e sim, haverá um arranjo de flores no centro da mesa dos homens homossexuais; teremos assentos mais altos para pessoas baixas; e estará disponível comida com baixas calorias para os que estão de dieta. Nós não podemos controlar a quantidade de sal utilizada na comida, portanto sugerimos que as pessoas com tensão alta provem a comida antes de comerem. E, claro, haverá mesas para fumadores e outras para não fumadores. Esqueci alguma coisa?


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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FILHOS DA PUTA QUE TRABALHAM NESTA EMPRESA

Data: 6 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano da PORRA

Vegetarianos!?!?!??! Sim, vocês também tinham que dar a vossa opinião de merda ou reclamar de alguma coisa!... Nós manteremos o local da festa na Churrascaria Grill House; quem não gostar que se foda! Não vá, desampare a loja! Ou então, como alternativa, seus fedorentos, podem sentar-se afastados, na mesa mais distante possível da tal "churrasqueira da morte" - como vocês lhe chamam. E terão também a vossa mesa de saladas de merda, incluindo tomates ecológicos & arroz pegajoso para comer com pauzinhos. Aqueles que, naturalmente, ainda não gostarem, podem enfiar no sítio onde pensaram Mas como vocês devem saber, os
tomates também têm sentimentos! Os tomates gritam quando vocês os cortam em fatias. Eu mesma os ouvi gritar! Eu estou a ouvi-los gritar agora mesmo!!!!!

Ah, espero que vocês todos, mas todos, os parvos dos crentes e os cretinos dos ateus, os paneleiros, as fufas, as mariquinhas das prenhas, os estupores dos fumadores e os chatos dos não fumadores, os cobardes dos bêbedos anónimos e os fedorentos dos vegetarianos, todos vocês sem excepção, tenham uma merda de fim de ano! E que guiem bêbados e morram todos, todinhos espatifados e esturricados por aí. Entenderam? Da Vaca, directamente para a puta que os pariu.

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De: João Pacheco - Director de Recursos Humanos (Interino)

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS


Data: 9 de Dezembro

Assunto: Patrícia Gomes e a Festa do Fim do Ano

Tenho a certeza de que falo por todos nós, desejando para a Patrícia um rápido restabelecimento para a sua crise de stress, e podem estar certos que me encarregarei de lhe enviar as vossas mensagens para a clínica psiquiátrica

Venho comunicar que a direcção decidiu cancelar a Festa do Fim do Ano e dar folga remunerada a todos os funcionários na tarde do dia 23 de Dezembro.
Boas Festas, João

sábado, janeiro 19, 2008



Acontece em Português – quarto encontro

É já na segunda-feira, 21, que decorrerá na Biblioteca Municipal de Beja, pelas 21h30, o quarto Acontece em Português. Desta feita o meu bom e «velho» Amigo Carlos Pinto Coelho estará à conversa com outro excelente compincha, o Nicolau Santos (jornalista que também é poeta e meu vizinho), o Manuel Freire (cantautor) e o Conferece Quarteto ( constituído por Manuel Lourenço - Saxofone, Francisco Costa Reis – Guitarra, Pedro Pinto – Contrabaixo e Diogo Moreira – Bateria). O tema dominante será a relação entre a Poesia e a Música, mas haverá espaço para debater quaisquer outras questões que surjam durante este encontro que como sempre se pretende informal.




Nunca é demais lembrar que a iniciativa
Acontece em Português tem trazido mensalmente à capital do Baixo Alentejo convidados oriundos de vários países de expressão portuguesa que conversam com o Carlos Pinto Coelho. Vão realizar-se dez edições desta excelente iniciativa. No final delas está prevista a realização de uma grande festa da Lusofonia.

O Travessa do Ferreira associa-se ao verdadeiro cometimento a que a marca inconfundível do CPC fica ligada, propiciando a Beja oportunidades para mostrar que o País não é só Lisboa, muito antes pelo contrário. Na segunda-feira, não me será possível deslocar-me ali, o que me daria imenso prazer. Mas, Carlos, não perdes pela demora.

Este blogue irá acompanhando de muito perto o decurso deste
Acontece em Português e, assim, dele irá dando notícia. O Pinto Coelho não me passou procuração, mas posso garantir que os visitantes do Travessa são muito bem vindos à antiga romana Pax Julia, herdeira da céltica Conistorguis, onde, muitos séculos depois, já no século XVI, a freira Mariana Alcoforado teria escrito, do convento as célebres cinco cartas de amor ao Marquês de Chamilly. Ainda que paire a dúvida sobre a sua veracidade… A.F.




sexta-feira, janeiro 18, 2008

GOA, AMOR MEU

Vencer na vida

Antunes Ferreira
S
e me permitem o desabafo, esta é a melhor estória que trouxe de um mês inebriante que passei entre Novembro e Dezembro, em Goa. Faço, para já, um prolegómenos que peço o subido obséquio de aceitarem. Minha mulher é de Raia, concelho de Salcete, Margão e diz que eu sou mais goês do que ela. Com o pedido de desculpas à falecida maternidade Bensaúde, ao tempo ali à avenida de Berna, penso que sim. Alfacinha – pelos vistos, só por erro geográfico.

Não me canso de admirar e encomiar o encanto daquela terra. São as praias, no Índico, com a água a 26º - tomei banho em Varca, ainda que sem termómetro, mas posso garantir que nem para almoçar me apetecia sair daquele bendito mar. E almoçar por ali, nem sei se vos diga, se vos conte. Adiante. São as igrejas portuguesas, espalhadas pelo território, caiadas à maneira tradicional. São os templos hindus que têm vindo a aumentar, pelo menos desde 1980, em que pela primeira vez me desloquei ao paraíso.

Eu sei lá que mais. A cozinha goesa, uma mistura sábia de séculos entre a base lusitana e os temperos locais - o gengibre, o tamarindo, a canela, a malagueta verde, o cravinho, o brindão, a noz-moscada, a mostarda, o cardamomo, os cominhos, a curcuma, o açafrão, a pimenta e outros – é uma delícia de comer e chorar por mais. Um dia, se assim quiserem, volto ao tema.

Ora muito bem. O bairro mais chique de Panjim é o Altinho. Como o nome indica, fica na parte mais elevada da capital. A par com vivendas recentes, encontramos casarões tipicamente coloniais, as suas varandas a envolvê-los, ternamente, nunca a oprimi-los, está bem de ver. Nos quais se podem ver as famosas espreguiçadeiras, para apanhar a brisa da tarde pré-natalícia.

São os locais ideais para a prática de uma arte que, por cá, parece ter caído em desuso e ali é cultivada até ao infinito: conversar. Normalmente bebericam-se uns copos a acompanhar as charlas. As mais das vezes esquecidos pelo interessante dos assuntos, pela verve dos participantes, pelas tardes morenas, pelo Mandovi que se alonga, manso, lá em baixo.

Foi numa delas que conheci a Frederika. Assim, com k. Frederika Menezes. Frederika Raquel Menezes. Pais médicos, o Zito e a Ângela. Nascida a 30 de Setembro de 1979. Com paralisia cerebral. Um drama para ela – e para os progenitores. Paraplégica quase total. E digo quase, porque ela escreve com dois dedos no teclado do computador. E escreve bem.

Fez a escola com a normalidade possível, pela qual lutou e venceu. Apoiada pela família, mas ganhou por ela própria. E, aos 13 anos, descobriu que gostava de escrever. Continua a gostar. Começou pelos poemas, passou à prosa, que foram aparecendo em revistas e jornais locais e nacionais. A Índia olhou para ela. E ela seguiu em frente.

Fala Konkanim, Hindi, Inglês e Português. Um espanto. Por vezes tem dificuldades em articular as palavras, moderar os sons. Com essas e outras, pasme-se. Já escreveu dois livros. Em 1998, uma colectânea de poemas, intitulada The Portrait. Um deles foi seleccionado para publicação numa antologia poética – Fire in the Heart.
E em 2003, editou em prosa, The Pepperns and Wars of the Mind. Pelo caminho, em 99 foi galardoada com o Junior Citizen Arward pela Jaycees Júnior Chamber if Panjim. Tem um terceiro texto pronto. É obra.

Muito conversámos, muito nos descobrimos, muito nos rimos com o que lhe contei com alguma piada. Não é simpática – é simpatiquíssima. Hoje, escrevemo-nos por e-mail e falamos pelo msn. Digo-lhe que namoramos, com a necessária anuência da minha mulher e sua patrícia. Posso ouvir as suas gargalhadas nas teclas. Fiquei a adorá-la. Trouxe, até, o seu livro The Pepperns para ver se algum editor estará interessado nele, obra de uma jovem de 28 anos que soube, e sabe, vencer o desafio que a vida lhe atirou.

E pronto. Esta é uma crónica verdadeira e sentida. Daqui, como nos bilhetes tradicionais, envio um beijo à Frederika. Minha namorada, com a autorização da Raquel. Um dia destes, volto a Goa e vou dar-lhe mais um - sem ser pela Internet.

LEGENDAS DAS FOTOS, DE CIMA PARA BAIXO

A vivenda dos Menezes, no Altinho
O sorriso da Frederika
Capa do seu livro The Pepperns

(Esta crónica é também publicada no blogue O SORUMBÁTICO e com ela comecei a minha colaboração semanal, aos sábados, nele. O que muito me honra. Culpados, dois Carlos. O Pinto Coelho e o Medina Ribeiro. Estou tramado. Não me safo. Muito obrigado)

quarta-feira, janeiro 16, 2008



A vitória augusta


Pedro Santos Guerreiro (psg@mediafin.pt)
S
im, é um novo princípio, uma outra dinastia no Millennium, um BCP 2:0; a “second life” de um banco que foi humilhado por accionistas e gestores que sobrepuseram as suas agendas pessoais aos interesses da instituição. A sandice deplorável e degenerativa só podia ter solução externa.

Ei-la: Carlos Santos Ferreira é “ecce hommo”.

A corja passou a troika, a facção virou coligação e há um presidente com salvo-conduto para impor o que quiser. Ter 97,8% numa votação contra Miguel Cadilhe vale mais que todos os 100% que Jardim Gonçalves alcançou em listas únicas vinte anos a fio. Santos Ferreira é o José Sócrates do BCP: alcança a maioria absoluta de quem não suporta mais a instabilidade.

Uma votação tão implacável só pode revelar ou grande confiança ou enorme desespero. É irrelevante: confere uma legitimidade à prova de bala. A todos que acusarem Santos Ferreira e Vara de levarem o PS para a Rua Augusta haverá uma resposta pronta: no-ven-ta-e-sete-por-cen-to. O resto é conversa.

OK, mas um pouco mais de conversa. Continua a ser indisfarçável a politização de todo este processo, desde um Governo que no mínimo anuiu que líderes da Caixa fossem para a concorrência até uma oposição obcecada em liderar uma “Operação Mãos Limpas”, que coloca pressão sobre Constâncio e Teixeira dos Santos e, ironicamente, a desvia dos putativos perpetradores, os administradores do BCP.

Há Estado a mais neste processo? Há. Estado e partidos a mais. Mas a responsabilidade é dos accionistas privados, que tornaram o BCP carente de uma solução como esta. É por isso que Cadilhe se sente vexado. Mas admitamos: o maior vexame dos últimos meses foi dado pelos privados.

Armando Vara tem agora a oportunidade de mostrar que todos os seus detractores estão errados. Santos Ferreira já não precisa disso: ele sai glorificado. E começou de uma maneira sintomática: podia ter saído ontem em ombros da Alfândega, com sorrisos que hoje pintariam todas as primeiras páginas do País; abdicou dessa demonstração de força e de vitória, até dessa vaidade conquistada, para mostrar que daqui para a frente será diferente. É como quem diz: acabou-se o espectáculo, vamos ao trabalho.

E que trabalho: recuperar a credibilidade nos mercados bolsistas, resgatar a dignidade dos trabalhadores, repor a reputação face aos clientes. O “timing” não podia ser pior para Santos Ferreira. A banca americana agoniza com prejuízos aterradores e arrasta as bolsas para o fundo. O “subprime” é um vírus por debelar, que contagia justos e pecadores. Os accionistas continuam cindidos, alguns carregam rancores e feridas de morte, o que supõe uma clarificação accionista, entradas e saídas. O que fará o BPI? E a Sonangol?

É preciso saber quem manda agora no BCP. O que é muito mais difícil do que parece, até porque há accionistas (como os há pequenos investidores) que compraram acções acima dos quatro euros e perderam um terço do seu dinheiro num punhado de meses. Veja-se Joe Berardo: é um enorme vencedor desta sucessão inverosímil de assembleias gerais, mas carrega um enorme prejuízo potencial do seu investimento.

Para que o BCP chegue ao céu, Santos Ferreira vai ter de atravessar o inferno. De resultados financeiros, de motivação, de suspeitas de politização, de investigações ao banco. Mas o BCP passou finalmente a ter um presidente ao volante e não no lugar do morto. Já fomos a votos. Agora vamos lá falar de banca outra vez.

Um Jornalista e um Jornal

Não tenho dúvidas de que se tratou (e trata) de um verdadeiro caso de amor à primeira vista, salvo seja. O Pedro Santos Guerreiro é um Jornalista sério e a sério. Dirige com mão segura, de timoneiro, o barco que se chama Jornal de Negócios. Que não mete água. O navio, diário. Muito menos o comandante.

Nesta farsa – que chegou a drama – do BCP-Millennium, PSG teve oportunidade de demonstrar o valor que lhe é reconhecido. Talvez fosse melhor eu ter utilizado apenas mostrar. Porque quanto à sua qualidade, Pedro Guerreiro não necessita de arguir o que quer que seja em sua defesa, pois não precisa dela, defesa. É o que é – e basta-lhe.

O Jornal de Negócios atingiu esta terça-feira 904.327 notícias lidas, um novo recorde diário, segundo dados auditados pela Marktest. O matutino é líder de audiências na informação económica, com 436 mil utilizadores únicos em Dezembro, pode ler-se na sua edição de hoje, quarta-feira. Só para se fazer uma comparação, estes números são o triplo dos que o "Diário Económico" apresenta.


Uma parte substancial desta performance deve-se a quem dirige, ou seja a Pedro Santos Guerreiro. A marca que imprimiu ao diário é substantiva e directa, não entra por caminhos ínvios, não pactua com aventuras fáceis, não altera o rumo que a si próprio se impôs face a pressões da ordem mais diversa.

O Travessa do Ferreira honra-se de, uma vez mais, registar o editorial de hoje, assinado pelo PSG. Nada de rodriguinhos, nada de circunlóquios, nada de encómios desnaturados. Opinião verdadeira, clara, desinteressada, correcta, independente. O segundo maior banco português, o primeiro dos privados, vai ter de ultrapassar os enormes escolhos que tem pela frente.

Mas, tal como Pessoa escreveu a propósito da vitória dos Portugueses sobre o Adamastor, Carlos Santos Ferreira vai ter de se suplantar para ganhar a batalha, a guerra, e o Millennium. Vai ter de solucionar, sem medos, mas com o quantum satis inevitável, o imenso problema em que o BCP se converteu, sob pena de ocorrer um naufrágio impensável, mas possível. Recordo o poeta:

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
"Aqui ao leme sou mais do que eu (…)
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo (…)
Manda a vontade, que me ata ao leme” (…)

Penso que o vai conseguir. Oxalá. Por isso, estou, uma vez mais, com o Pedro Santos Guerreiro. Por isso, repito, o transcrevo, uma outra vez, neste blogue. A.F.


domingo, janeiro 13, 2008



GOA, AMOR MEU

Meio século são só 50 anos

Antunes Ferreira
Panjim, capital do Estado de Goa. Dezembro de 2007. No mais moderno hotel da cidade, com uma vista deslumbrante sobre o rio Mandovi, decorreu um jantar muito especial. Comemoravam-se os 50 anos do curso liceal que terminara precisamente em 1957. Festa, alegria, emoção, comoção.

Muitos finalistas presentes. A maioria deles constituída pelos que tinham ficado na antiga colónia a que a Velha Senhora chamava o «Estado Português da Índia». De Portugal, uns quantos, poucos mas bons (a afirmação é deles…). Entre estes, a Raquel Olívia Alcântara de Melo, pelo casamento com este vosso servidor, Ferreira. E, claro, à boleia dela, o dito cujo Ferreira, Henrique A. Antunes. Mais penduras, as caras e os caros metades dos presentes que disso usam. E até da Alemanha, um que ali se encontra radicado. Alguns dos actores desse cinquenterário sétimo ano não se viam há precisamente meio século. Quantas recordações, quanta saudade, quanta satisfação.

A ideia germinara em Lisboa. Crescera, pois tinha pés para andar. Conversas cá, conversas lá, conjugação de esforços e tudo estava sobre os carris. Com um final feliz. E com visita ao velho Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, hoje recuperado excelentemente, agora sede do Supremo Tribunal, ramo de Mumbai, que o mesmo é dizer de Bombaim.

Era um grupo unido, radiante de se reencontrar, recordando as gazetas e as horas em que os professores faltavam e a malta ia para o Altinho, ali mesmo, gozar, namoriscar, liceu misto, ao contrário da separação estúpida que acontecia na então «Metrópole», comer cajus, manguinhas verdes com sal e malagueta, desfrutar de uma vida de adolescentes felizes. Sem distinção de raças, credos ou outras minudências, que em Goa as pessoas e as coisas eram – e são – muito especiais.

Desnecessário, pensei, citar exaustivamente nomes. No entanto, uma menção para os maiores entusiastas da comemoração. De Lisboa, o Ivo Viegas, «eterno» chefe de turma no Liceu; a Elsa Gomes Godinho (que não pôde ir, com muita pena. Mas, os deveres de recém avó contam muito) e a já citada Raquel. De Goa, o Zito Menezes e o Carminho Costa que se esfalfaram para nos proporcionar um acolhimento cinco estrelas, como dizem os meus netos. Aos outros, mil desculpas; a citar todos, corria o risco de ser processado pelos autores das Escrituras.

Tempo especial para se recordarem os colegas que já não se encontram entre os vivos. E para anunciar a concretização de um prémio anual para o melhor aluno do secundário actual em Goa. Para o qual, e na medida das respectivas possibilidades quase todos os ex-finalistas contribuíram, criando-se assim um fundo, cujos juros em cada ano constituirão o galardão. As autoridades de Goa, com o Chief Minister, Shri – o Senhor – Digambar Kamat, à cabeça, acolheram a ideia com as mãos ambas e agradeceram a lembrança e a sua concretização. Da parte do Executivo veio mesmo a sugestão de que o aluno distinguido deveria ser de estudos de língua portuguesa. Bonito.

Numa terra como Goa, já o escrevi e repito-o com sinceridade, tudo é bonito. Desde a vegetação luxuriante até às praias de sonho. Tomei banho na praia de Varga, na costa do Índico, naturalmente, com a água a uns 25/26º centígrados. Nada de invejas. Não sendo perto, bem pelo contrário, quem quiser ir passar umas férias de sonho pode desfrutar do paraíso a preços inconcebíveis, de baratos. Noutro escrito contarei.

Pela noite foram-se sucedendo as conversas, os risos, os apartes, as recordações. Lembras-te de quando?... Noite cálida, suave, terna, acariciante. Lá em baixo, o Mandovi tranquilo acolhe os barcos iluminados por grinaldas de luzes multicores que o percorrem em tours com música, mandos e danças dos Korumbins.

O hotel, com escassos meses de serviço está situado num alto, virado sobre o rio. De noite, como de dia, é um verdadeiro espectáculo. Os seus terraços a três níveis, oferecem a quem neles se encontra, para além da vista deslumbrante, um excelente serviço, que inclui os grelhados mais afamados. Aliás, a cozinha é excelente. O jantar, bufete, com aperitivos, pratos de carne e marisco e outros para vegetarianos, doces e lambuzices mais, um espanto. Bebidas soft e cerveja. Reparem agora: pouco mais de oito euros por cabeça. Não se acredita; só vendo – e comendo.

Romagem e preito de confraternização. Como dizia um dos participantes, a Amizade nunca morre. É bem verdade. Em Panjim, ficou atestado isso. Sem papel selado – mas com muito empenho e coração.

Nota de rodapé

Seja-me permitida uma nota de pé de página, em jeito de advertência a quem quer que seja que ande por esta blogoesfera, cada vez mais populosa, que, ao pé dela, a China é uma criancinha de cueiros e biberão com apenas mais de mil milhões e algumas centenas de milhão de habitantes. Ou a Índia que ali está mesmo à beirinha, com malta a que já ultrapassou também o bilião, como dizem os americanos e outros. Que é isso para a Internet?

Regozijo-me com a aceitação virtual, baseando-me no tradicional quem cala consente. Estratagema, desaforo, álibi? Ultrapassa-se a interrogativa e anote-se: o autor, eu, é, sou, suspeito nesta escrevinhadela. De tal forma esteve, estive enredado (e com imenso prazer) na ocorrência, como diria um qualquer prestimoso agente da PSP. O que fica acima é prova cabal da «desindependência» do criminoso confesso. Mas, presumo que também neste contexto posso citar que pecado confessado…
AF

(As fotos publicadas são da autoria do bom Amigo António Guimarães, um compincha excelente e bom de objectiva, também finalista de 1957, boa colheita. E deste escriba; quem diria?)