O cheiro da feiraAntunes Ferreira
Ainda me lembro do cheiro da feira das Cebolas. Em Portalegre. Era muito puto, um criançola, ia com o meu Avô Braz, pela mão dele não fosse o diabo tecê-las, em busca de carrinhos de madeira trabalhados à mão, que os catraios apontavam, deslumbrados, e bonecas de papelão moldado, com olhos a fingir de verdadeiros que enlevavam as garotinhas.

Podia recordar-me de tudo o mais, dos cavalos do carrossel, das cores da barraca do circo que embandeirava ali perto, dos ciganos que, lá no fundo do terreiro, vendiam pilecas como se de baios se tratasse, do homem que engolia espadas a troco de meio tostão no chapéu.
Mas, o que perdurou para sempre foi o cheiro. Do algodão doce enrolado nuns pauzinhos, das farturas a sair das frigideiras imensas, gordas de azeite, por vezes um tanto esturricadas e dos filhos menores delas, os churros da autoria com direitos de propriedade de Don Pablo, espanhol de Badajoz. Da carne de porco frita, com muito colorau, alho e louro, uma carne que - dizia a malta – era ós códradinhos. Na verdade, cubos mal amanhados.
Do peixe seco e salgado, algum era bacalhau, outro pixelim, outro ainda sei lá o quê. Dos pasteis do dito cujo, mais batata e salsa e cenoura do que o peixe propriamente referido. Das iscas com o bofe a adubar o molho, com elas ou sem elas, sendo que estas últimas eram as batatas cozidas. Na ausência do tubérculo, o fígado cortado fino, macerado em vinha-d’alhos e convenientemente frigido comia-se em cima de fatia de pão – alentejano, óbvio. De resto, o melhor do Mundo – e arredores. E do chouriço assado – em álcool.
Para mim, gaiato de seis anos, mais coisa, menos coisa, o mais importante da feira, para além dos cheiros que dela se evolavam, era a mão segura do meu Avô, o Senhor Tenente da Guarda-fiscal reformado, de bigodes brancos encerados, que ia nas procissões sob o palio, ao lado do Reverendíssimo Bispo e do Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara Municipal. Digníssimos representantes das forças vivas da cidade.
Era uma mão forte, rugosa, segura. Mão que agarrara contrabandistas raianos e que passara revista segurando a espada, aos guardas de Kropatchek ao ombro, em sentido. Era uma mão simultaneamente acolhedora, até mesmo carinhosa, fértil em carícias. E a plebe que connosco se cruzava, tirava o chapéu e dizia deus o salve Senhor Tenente. Nessa altura, empanturrava-me de poder. Gente boa e respeitosa, comentava ele. Eu não compreendia lá muito bem – mas gostava.
Até que um dia o Avô Braz me comprou um balão de gás, azul e cheio que nem zepelim. Olha lá, menino, deixa que te ate o cordel na ponta do dedo para que não voe. E nunca mais o apanhas. Mas o ninho de travessuras que eu era corria sem dar execução à ordem do Avô Senhor Tenente. E o balão, no uso do direito que muito justamente lhe assistia, soltou-se e voou. Lá para cima, num céu cada vez mais longe – sem nuvens.
Foi uma choradeira. Do vendedor nem o rasto. Esgotara a mercadoria, ainda talvez lhe tivesse restado um pouco de hélio, mas fechara os taipais, no dia seguinte haveria mais, ponto final, parágrafo – na outra linha. Bem se afadigou o distinto Oficial na tentativa vã de calar-me a berraria correspondente. Parecia a sirene dos bombeiros, comentaram depois, uns quantos mais chistosos.
Só se calou a boca com um torrão d’Alicante, a que os galfarros chamavam de alicate, cortado em fatias com um facalhão de matar porcos, por Doña Mercedes, também fronteiriça, que montava banca em todas as feiras da zona e adjacentes. Lá voltei, mastigando
el turrón de azucar y almendras, sem hipóteses de choradeira.
Mas, no dia seguinte, Domingo, de manhã bem cedinho, antes da missa, levou-me, sempre pela mão, o magnífico e imponente Avô - para comprar outro balão. Desta feita, verde alface. Com o nó do cordel bem apertado no dedo indicador, que era o mais indicado. Com tudo isto, o que ainda de quando em vez me entra pelas narinas – é o cheiro da feira. Das Cebolas.