segunda-feira, julho 28, 2008




REFERÊNCIAS



A língua do mar

Francisco Seixas da Costa*
N
o ano em que todos quantos se exprimem em Português celebram o nascimento, há quatro séculos, do Padre António Vieira, um dos seus mais brilhantes cultores, não deixa de ser interessante que a reunião de cúpula da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), realizada em Lisboa, tivesse, precisamente, o tema da língua no centro da sua agenda.

O Português é, sem sombra de dúvida, uma das quatro grandes línguas de cultura do mundo, não obstante outras poderem ter mais falantes. Nessa língua se exprimem civilizações muito diferentes, da África a Timor, da América à Europa – sem contar com milhões de pessoas em diversas comunidades espalhadas pelo mundo.

Essa riqueza que nos é comum, que nos traz uma literatura com matizes derivadas de influências culturais muito diversas, bem como sonoridades e musicalidades bem distintas, traz-nos também a responsabilidade de termos de cuidar da sua preservação e da sua promoção.

A Língua Portuguesa não é propriedade de nenhum país, é de quem nela se exprime. Não assenta hoje – nem assentará nunca – em normas fonéticas ou sintácticas únicas, da mesma maneira que as palavras usadas pelos falantes em cada país constituem um imenso e inesgotável manancial de termos, com origens muito diversas, que só o tempo e as trocas culturais podem ajudar a serem conhecidos melhor por todos.



Mas porque é importante que, no plano externo, a forma escrita do Português se possa mostrar, tanto quanto possível, uniforme, de modo a poder prestigiar-se como uma língua internacional de referência, têm vindo a ser feitas tentativas para que caminhemos na direcção de uma ortografia comum.

Será isso possível? Provavelmente nunca chegaremos a uma Língua Portuguesa que seja escrita de um modo exactamente igual por todos quantos a falam de formas bem diferentes. Mas o Acordo Ortográfico que está em curso de aplicação pode ajudar muito a evitar que a grafia da Língua Portuguesa se vá afastando cada vez mais.

O Acordo Ortográfico entre os então “sete” países membros da CPLP (Timor-Leste não era ainda independente, à época) foi assinado em 1990 e o próprio texto previa a sua entrada em vigor em 1 de Janeiro de 1994, desde que todos esses “sete” o tivessem ratificado até então.


Quero aproveitar para sublinhar uma realidade muitas vezes escamoteada: Portugal foi o primeiro país a ratificar o Acordo Ortográfico, logo em 1991. Se todos os restantes Estados da CPLP tivessem procedido de forma idêntica, desde 1994 que a nossa escrita seria já bastante mais próxima.

Porque assim não aconteceu, foi necessário criar Protocolos Adicionais, o primeiro para eliminar a data de 1994, que a realidade ultrapassara, e o segundo para incluir Timor-Leste e para criar a possibilidade de implementar o Acordo apenas com três ratificações.

Na votação que o parlamento português fez, há escassos meses, desse segundo Protocolo, apenas três votos se expressaram contra. Isto prova bem que, no plano oficial, há em Portugal uma firme determinação de colocar o Acordo em vigor, não obstante existirem, na sociedade civil portuguesa – como aliás, acontece em outros países, mesmo no Brasil -, vozes que o acham inadequado ou irrelevante.

O Governo português aprovou, recentemente, a criação de um fundo para a promoção da Língua Portuguesa, dotado com uma verba inicial de 30 milhões de euros e aberto à contribuição de outros países. Esperamos que esta medida, ligada às decisões comuns que agora saíram da Cúpula de Lisboa da CPLP, possa ajudar a dar início a um tempo novo para que o Português se firme cada vez mais no mundo, como instrumento de poder e de influência de quantos o utilizam.

A Língua portuguesa é um bem precioso que une povos que o mar separa mas que a afectividade aproxima. Como escrevia o escritor lusitano Virgílio Ferreira

Da minha língua vê-se o mar.
Da minha língua ouve-se o seu rumor,
como da de outros se ouvirá o da floresta
ou o silêncio do deserto.
Por isso a voz do mar
foi a da nossa inquietação.

* Embaixador de Portugal no Brasil

Um Embaixador bué da fixe

O Travessa tem muito prazer e muita honra de abrir uma nova secção REFERÊNCIAS com um excelente texto do Francisco Seixas da Costa, Embaixador de Portugal no Brasil - e meu grande Amigo. O artigo foi hoje mesmo (2008/07/28) publicado no diário «O Globo» e aqui o transcrevo, mesmo sem a autorização do jornal, muito menos do Autor. Sabe-se, porém, como sou um desavergonhado.


O Chico Seixas da Costa, é bué da fixe, como me ensinaram os meus netos, e, quiçá, o melhor diplomata português na actualidade. Para mim, é. (A Amizade não é lisonja, garanto, e quanto a exagero, nem pó...). E tem vindo a fazer uma obra magnífica em terras de Santa Cruz. As relações ente os dois países muito lhe devem, e em todos os domínios. Ele sabe dinamizá-las, desenvolvê-las, entrosá-las de uma maneira que nunca é demais referir e encomiar.
Quando este blogue engatinha ainda no que pretende vir a ser uma caminhada firme e apoiada - o PONTO DE ENCONTRO que tenho vindo a referir e que, felizmente, muitos já apoiam - a publicação deste trabalho do Embaixador é muito importante. A nossa Língua, comum a muitos milhões de seres humanos, encontra-se em momento crucial: o de alcançar, de pleno, o lugar a que tem inteiro direito . Com Acordo - ou sem...
Volte por aqui, querido Amigo. Para continuar. A.F.

sexta-feira, julho 25, 2008



O cheiro da feira

Antunes Ferreira
A
inda me lembro do cheiro da feira das Cebolas. Em Portalegre. Era muito puto, um criançola, ia com o meu Avô Braz, pela mão dele não fosse o diabo tecê-las, em busca de carrinhos de madeira trabalhados à mão, que os catraios apontavam, deslumbrados, e bonecas de papelão moldado, com olhos a fingir de verdadeiros que enlevavam as garotinhas.
Podia recordar-me de tudo o mais, dos cavalos do carrossel, das cores da barraca do circo que embandeirava ali perto, dos ciganos que, lá no fundo do terreiro, vendiam pilecas como se de baios se tratasse, do homem que engolia espadas a troco de meio tostão no chapéu.

Mas, o que perdurou para sempre foi o cheiro. Do algodão doce enrolado nuns pauzinhos, das farturas a sair das frigideiras imensas, gordas de azeite, por vezes um tanto esturricadas e dos filhos menores delas, os churros da autoria com direitos de propriedade de Don Pablo, espanhol de Badajoz. Da carne de porco frita, com muito colorau, alho e louro, uma carne que - dizia a malta – era ós códradinhos. Na verdade, cubos mal amanhados.


Do peixe seco e salgado, algum era bacalhau, outro pixelim, outro ainda sei lá o quê. Dos pasteis do dito cujo, mais batata e salsa e cenoura do que o peixe propriamente referido. Das iscas com o bofe a adubar o molho, com elas ou sem elas, sendo que estas últimas eram as batatas cozidas. Na ausência do tubérculo, o fígado cortado fino, macerado em vinha-d’alhos e convenientemente frigido comia-se em cima de fatia de pão – alentejano, óbvio. De resto, o melhor do Mundo – e arredores. E do chouriço assado – em álcool.

Para mim, gaiato de seis anos, mais coisa, menos coisa, o mais importante da feira, para além dos cheiros que dela se evolavam, era a mão segura do meu Avô, o Senhor Tenente da Guarda-fiscal reformado, de bigodes brancos encerados, que ia nas procissões sob o palio, ao lado do Reverendíssimo Bispo e do Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara Municipal. Digníssimos representantes das forças vivas da cidade.


Era uma mão forte, rugosa, segura. Mão que agarrara contrabandistas raianos e que passara revista segurando a espada, aos guardas de Kropatchek ao ombro, em sentido. Era uma mão simultaneamente acolhedora, até mesmo carinhosa, fértil em carícias. E a plebe que connosco se cruzava, tirava o chapéu e dizia deus o salve Senhor Tenente. Nessa altura, empanturrava-me de poder. Gente boa e respeitosa, comentava ele. Eu não compreendia lá muito bem – mas gostava.


Até que um dia o Avô Braz me comprou um balão de gás, azul e cheio que nem zepelim. Olha lá, menino, deixa que te ate o cordel na ponta do dedo para que não voe. E nunca mais o apanhas. Mas o ninho de travessuras que eu era corria sem dar execução à ordem do Avô Senhor Tenente. E o balão, no uso do direito que muito justamente lhe assistia, soltou-se e voou. Lá para cima, num céu cada vez mais longe – sem nuvens.

Foi uma choradeira. Do vendedor nem o rasto. Esgotara a mercadoria, ainda talvez lhe tivesse restado um pouco de hélio, mas fechara os taipais, no dia seguinte haveria mais, ponto final, parágrafo – na outra linha. Bem se afadigou o distinto Oficial na tentativa vã de calar-me a berraria correspondente. Parecia a sirene dos bombeiros, comentaram depois, uns quantos mais chistosos.

Só se calou a boca com um torrão d’Alicante, a que os galfarros chamavam de alicate, cortado em fatias com um facalhão de matar porcos, por Doña Mercedes, também fronteiriça, que montava banca em todas as feiras da zona e adjacentes. Lá voltei, mastigando el turrón de azucar y almendras, sem hipóteses de choradeira.

Mas, no dia seguinte, Domingo, de manhã bem cedinho, antes da missa, levou-me, sempre pela mão, o magnífico e imponente Avô - para comprar outro balão. Desta feita, verde alface. Com o nó do cordel bem apertado no dedo indicador, que era o mais indicado. Com tudo isto, o que ainda de quando em vez me entra pelas narinas – é o cheiro da feira. Das Cebolas.

quinta-feira, julho 24, 2008




Orgulho Português

Há quem diga que, às vezes,
até dá gosto ser Português



Num hotel para esquiadores na Suiça havia um cartaz informando as condições da neve:

- Neuchatel, 12 cm, mole;

- Lausanne, 18 cm, escorregadia;

- Schaffhausen, 15 cm, consistente.

Entretanto, por baixo, alguém acrescentou:

- Sebastião da Silva, 24 cm, rija.

(Mais uma colaboração, caríssimo Leonel Gonçalves. Espero outras!!!!)



A Divina Providência

Antunes Ferreira
N
ão há fome que não dê em fartura, diz o Povo na prática da sabedoria que lhe é característica – e milenar. Mas, não trato aqui de escalpelizar os rifões populares, coitados, que para o assunto só servem mesmo de termo de iniciação do escrito. Seja-me relevada a falta.

Entro ao que vim: a Divina Providência – cautelar. Houve um tempo, não tão afastado como isso, em que o cidadão comum, quando ouvia a expressão, franzia o cenho e perguntava – mas que raio é isso? De que se trata? Os ínvios percursos jurídicos davam – e dão, e darão – motivos mais que sobejos para essas inquirições vindas da plebe. Da plebe – e não só. (Há que tempos que não usava esta expressão, de tal forma que, ao fazê-lo hoje, sinto um gozo avolumado).

Uns quantos privilegiados sabiam do que se tratava e outros, em número ainda menor, até sabiam como apresentá-la aos doutos tribunais. A síndrome do Santo dos Santos vigorava e ninguém diria que esse quase mistério insondável das escrituras judiciais caminhava a largos passos para o vulgar de Lineu. O que acabou por acontecer.




Hoje, qualquer fulano interpõe uma providência cautelar. Não acreditam? Uns exemplos, a esmo. A CMP e mais precisamente o seu presidente Rui Rio, decidiu-se pela requalificação do tristemente conhecido Bairro do Aleixo. Onde a droga circula com uma olímpica serenidade. Na prática, demolir-se-ão cinco torres de muitos andares.

O pessoal não gosta. Diz que Rio disse que não demolia (para ganhar a Câmara, em tempo eleitoral) e vai mesmo demolir. Toma lá com uma providência cautelar. O edil desvalorizou a hipótese/ameaço: «é normal que metam uma providência cautelar, hoje em dia em Portugal mete-se uma providência cautelar por tudo e por nada».


O Senhor Gonçalves Pereira, presidente do incrível CJ da FPF não ficou satisfeito com a cegada, mais uma, que foi a reunião a dois tempos do órgão federativo. Ora toma lá com uma providência cautelar. Uma não; duas. O Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa deu provimento às duas, suspendendo a efectivação das deliberações surgidas da tal sessão. Os campeonatos que esperem.



A Airplus TV Portugal requereu à Autoridade Nacional das Comunicações (Anacom) a nomeação de uma nova comissão de avaliação para reapreciar as propostas para a Televisão Digital Terrestre (TDT) paga, depois de concurso em que a Portugal Telecom (PT) conquistou o primeiro lugar. "Este júri não demonstrou ter as qualidades de competência e de isenção necessárias para avaliar um processo desta natureza", afirmou o presidente da operadora sueca em Portugal, Luís Nazaré. E, desde logo, se aventou nova hipótese: ora toma lá com uma providência cautelar.

Providências cautelares são, nos dias que vão correndo neste Portugal taciturno, corriqueiras. Andam por aí, como ameaçou o outro. Divinas Providências.

(Também publicado no www.sorumbatico.blogspot.com onde colaboro todas as semanas, normalmente aos Sábados)



Bruxa é bruxa

Um homem vai à bruxa.
Chega lá e bate á porta. Do outro lado ela pergunta: - Quem é?
O homem responde: - Hum, já estamos a começar mal !

(Enviada por imeile pelo Esteves Quina. Venham mais!...)

terça-feira, julho 22, 2008


O julgamento da velhinha

Juiz: Qual sua idade?
Velhinha: Tenho 86 anos.
Juiz: A senhora pode nos dizer com suas próprias palavras o que lhe aconteceu no dia 1º de abril do ano passado ???
Velhinha: Claro, doutor. Eu estava sentada no balanço de minha varanda, num fim-de-tarde suave de verão, quando um jovem sorrateiramente senta-se ao meu lado.
Juiz: Você o conhecia?
Velhinha: Não, mas ele foi muito amigável...
Juiz: O que aconteceu depois?
Velhinha: Depois de um bate-papo gostoso, ele começou a acariciar minha coxa.
Juiz: A senhora o deteve?
Velhinha: Não.
Juiz: Porque não?
Velhinha: Foi agradável. Ninguém nunca mais havia feito isto comigo desde que meu Ariovaldo faleceu, há 30 anos.
Juiz: O que aconteceu depois?
Velhinha: Acredito que pelo fato de não tê-lo detido, ele começou a acariciar meus seios.
Juiz: A senhora o deteve então?
Velhinha: Mas claro que não, doutor...
Juiz: Por que não?
Velhinha: Porque, Meritíssimo, ele me fez sentir viva e excitada. Não me sentia assim há anos!
Juiz: O que aconteceu depois?

Velhinha: Ora Sr. Juiz, o que poderia uma mulher de verdade, ardendo em chamas, já de noitinha, diante de um jovem ávido por amor? Estávamos à sós, e abrindo as pernas suavemente, disse-lhe: Me possua, rapaz!
Juiz: E ele a possuiu?
Velhinha: Não. Ele gritou: 1º de abriiiiiiiiiiiiiiiiillllllll! Foi aí que eu dei um tiro no filho da puta!!!

Esta estória deliciosa foi-me mandada pelo meu cunhado Raul Palhau, que reside em Chateauguay, junto de Montreal. Mas, que continua a ser de espírito e de comportamento, na esmagadora maioria das vezes, Portuga. Ela é de origem brasileira e por isso mantenho a grafia e os termos utilizados. Um destes dias, temos aí o estrambólico Acordo e então é que vão ser elas. Desfrutem. A.F.


«Morte na Picada»
Contos da guerra em Angola


Antunes Ferreira
Como certamente já sabem, dei à estampa o me(a)u primeiro livro de ficção, «Morte na Picada», numa edição da Via Occidentalis, (occidentalis@netcabo.pt). Que parece – manda a decência e a prudência que o não diga eu, mas... – que vai indo bastante bem junto do público. O editor «ameaça» uma 2.ª edição. Espero, para ver. De qualquer modo, o que só se poderá verificar, naturalmente, depois da análise das vendas.



Aquando do seu lançamento na fnac do Colombo, no dia 15 de Abril (mais de 200 pessoas presentes), Joaquim Furtado – um grande Jornalista, autor da série A Guerra Colonial, um enorme êxito na RTP - afirmou, na apresentação que fez, que o livro, «de que gostei mesmo muito», em seu entender, «é o melhor que, no género, e sobre o tema, foi publicado em Portugal». E acrescentou que alguns dos contos mereceriam «uma adaptação televisiva e, até, cinematográfica.

Tenho de acentuar o meu prazer e o meu orgulho pela disposição do Joaquim Furtado para apresentar o livro. E nunca é demais acentuar que o Grande Prémio Gazeta do Jornalismo do ano de 2007 foi concedido ao trabalho televisivo. Foi o reconhecimento da qualidade da obra produzida, mas também do seu autor. Por vezes, neste nosso País, acerta-se. Foi o caso do júri do prémio. Como também tenho de sublinhar o gosto, a satisfação e o agradecimento ao Joaquim Vieira

e ao Fernando Farinha.

Como já disse acima, a editora da obra é a Via Occidentalis, (www.via-occidentalis.blogs.sapo.pt) de Lisboa. No blogue podem ser consultados todos os dados sobre o livro, cujo preço de capa é € 14,70. Pode ser comprado pela Internet. A equipa que me acompanhou nesta aventura é excelente. O prefácio é assinado por outro grande Jornalista, o Joaquim Vieira e a capa e as fotos do interior são de Fernando Farinha, para muitos o maior repórter fotográfico da guerra de Angola.



«Morte na Picada» tem sido, felizmente, muito bem recebido junto de ex-combatentes das guerras coloniais que, apesar de se tratar de ficção, vêm nas suas páginas um retrato muito próximo da realidade. O que não admira, pois que nela participei. E, por isso, costumo dizer que, para mim, foi uma infelicidade, sobretudo porque estava contra esse crime. Aliás, deixem que vos diga que, para mim, uma guerra é sempre sinónimo de crime. A ADFA, Associação dos Deficientes das Forças Armadas, aplaudiu a obra e já deu nota dela por dois meses consecutivos no seu jornal mensal Elo.

Se já o adquiriram e leram, muito obrigado E se, por singular acaso, tiverem gostado dele, terão de comprar muitíssimos mais exemplares. São excelentes prendas de aniversários, casamentos, divórcios, baptizados, Natais, Carnavais, Anos Novos, Páscoas, Pentecostes, vinte e cincos de Abris, cincos de Outubro, dezes de Junhos. Até para funerais. Oferecer o «Morte» na morte fica bem em qualquer velório que se preze. E, além disso, recomendem-no, publicitem-no, propagandeiem-no, impinjam-no aos vossos Amigos, conhecidos, desconhecidos & outros, SARL. Os euros estão tão raros e... caros...

Fotos (de baixo para cima)

Capa

Joaquim Furtado

Joaquim Vieira

Fernando Farinha - inauguração de uma exposição sua






domingo, julho 20, 2008


Estória Chinesa
Os dois vasos

Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela levava ao ombro para ir buscar água ao rio. Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito.
Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada do rio até casa, enquanto o rachado chegava meio vazio. Durante muito tempo a coisa foi andando assim, com a senhora a chegar a casa somente com um vaso e meio de água.

Naturalmente o vaso perfeito era muito orgulhoso de si e dos resultados que alcançava, enquanto que o pobre vaso rachado se envergonhava do seu defeito, isto é, de só conseguir fazer metade daquilo que deveria fazer. Depois de vários anos, reflectindo sobre o que considerava a própria amarga derrota por ser rachado, o vaso falou com a senhora durante o caminho: «Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até à sua casa...»
A velhinha sorriu: «Reparaste que lindas flores há somente do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todos os dias, enquanto a gente voltava, tu regava-las. Assim, durante estes anos pude colher aquelas belíssimas flores para enfeitar a mesa. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa. Cada um de nós tem o seu próprio defeito. Mas é o defeito que cada um de nós tem, que faz com que a nossa convivência seja interessante e gratificante.»

É preciso aceitar cada um pelo que é... E descobrir o que há de bom nele.

(Enviado por imeile pelo Pedro Jorge Veloso Amaro de Oliveira, Amigão há mais de meio século. Espero que a próxima colaboração seja escrita mesmo por ti, Pedroca. Que venha, para tomar parte no PONTO DE ENCONTRO.)

sexta-feira, julho 18, 2008




Portugal e Brasil
Ponto de encontro neste blogue

Antunes Ferreira
Tenho vindo a pedir os telemóveis de muita gente boa, para poder contactar com o pessoal mais facilmente, a fim de implementar e desenvolver o projecto que tenho para o meu www.travessadoferreira.blogspot.com e que, como já sabem, é conferir ao meu/vosso/NOSSO blogue a característica de PONTO DE ENCONTRO entre os nossos dois Países fraternalmente ligados. No que estou, pela minha parte, a desenvolver todas as diligências que, naturalmente, me forem possíveis.
>Vou solicitar a colaboração da Embaixada de Portugal em Brasília, que tem à frente dela um diplomata
fora de série, o meu querido Amigo, Dr. Francisco Seixas da Costa e na qual se integram mais dois bons compichas de longos anos: o Adriano Jordão e o Carlos Fino. Seixas da Costa criou um blogue magnífico Embaixada de Portugal no Brasil, www.embaixada-portugal-brasil.blogspot.com, que vos recomendo vivamente visitar. Tem tudo sobre as relações entre as duas Nações.


Este é um desejo que já ultrapassa a simples intenção. Ambiciosamente, neste momento possui muitos comparticipantes – como é o vosso caso. Mas, com o vosso empenhamento, a ajuda, o entusiasmo e a alegria que tenho encontrado da vossa parte – iremos longe. A internet (apesar dos aspectos negativos que ainda apresenta) tem uma força incomensurável e desenvolvimento tecnológico que se actualiza dia a dia.

PS – Quando navegarmos em velocidade de cruzeiro, quero alargar o Travessa aos outros PALOP. Que acham?


O quelima de trásosmontes
é munto montanhoso

E
u axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem
direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q
á razões qd um aluno não vai á escola. primeiros a peçoa n se sente motivada
pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.


Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto
montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?

E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os lesiades', q é um livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.

Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???

O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. tarei a inzajerar?

Este é um texto muito especial que reflecte bem o que hoje em dia os estudantes são capazes de escrever (???). Poderá ter algum exagero, mas quem mo mandou, garante que não. Erros ortográficos - nem vale a pena contá-los. Expressões e abreviações do msn são permanentes e constantes. E isto, num jovem de 14 anos, no 9.º ano do ensino obrigatório, que tem doze. Não me admira. Numa das Universidades onde dei aulas, mais precisamente num curso de pós graduação, uma aluna deu, no primeiro parágrafo do trabalho que lhe cometera – 11 erros de ortografia. Que, para o caso, era mis hortugraphya.
Quando lhe disse que já nem sequer tinha lido o resto da «obra tia» dela, por mor dos erros, respondeu-me: «Sôtor, não se preocupe. Eu até vou para a Televisão…» Donde, as calinadas mis soezes que se ouvem e vêem nos ecrans da nossa praça. Como nas rádios. É fartar, vilanagem! Querem mais ou chega?
A.F.

terça-feira, julho 15, 2008


Ainda não sei bem no que isto dará

Uma barata morta

Antunes Ferreira

O trecho que se segue é o começo de qualquer coisa. Pensei num romance: é lixado. Tem de ser grandote. Romances pequenos, mas bons – só o Mário Zambujal vai parindo. Exemplo: o «Já não se escrevem cartas de amor». Um mimo. Mas, no caso vertente, a preguiça congénita que é a minha assusta-me. Nada, nada, que seja uma novela, muito mais curta, benza-a um deus qualquer.
O facto é que, sendo futuramente isto ou aquilo, até mesmo aqueloutro, é mesmo um início. Que, como é minha norma e prática, irá acontecendo ao sabor da maré em que me encontre, ou para o lado para que estou virado. Gente: Roma e Pavia não se fizeram num dia. Aliás, nem em muitos, de empreitada, ainda que com horas extraordinárias. Mesmo sem o novo Código do Trabalho.

Por isso, a «coisa» irá progredindo na inversa proporcional a uma poole de partida. Aí já os motores resfolegam e ainda a corrida nem começou. Vai arrancar, está visto, mas na altura, ainda é só fumaça, diria o almirante Pinheiro de Azevedo. Que isto de velocidades tem que se lhe diga. Não é que os Alentejanos sejam para aqui chamados, longe disso. A minha Mãe até era. Eu, por conseguinte, tenho uma costela. No mínimo.
Para não me deixar ficar nas boxes, irei publicando bocadinhos da papelada. Sem selo branco, está bem de ver. Tal servir-me-á para, herege praticante, não me meter em copas e deixar que as linhas se vão espalhando, cada vez mais ralas, com a gaveta tentadora (e sedutora) aqui mesmo ao lado. Não juro, pois quem mais jura, mais mente. Porém, o propósito fica exarado.
E lidas estas minhas declarações, as achei conformes, e, perante isso as vou assinar, como se diria nos autos da tropa. Com as testemunhas que são Vosselências, ainda que não as rubriquem, mas sem escrivão. Para tal ofício, já basta o que basta. Eu. Que pensava somente em apor o dedo por não saber escrever. No entanto, e infelizmente, parece que sei rabiscar umas coisas. Ite, missa est. Deo gratias.

«Está uma barata morta, de pernas para o ar, no canto esquerdo para quem entra da casa de banho. Há quatro dias, precisamente, se ele não se enganou na contagem. Sempre a mesma, gorda e negra, incorrupta. É por mor da quitina, que não a deixa apodrecer, pelo menos foi assim que aprendeu na escola primária e confirmou no liceu. Tem de dizer à empregada, quando ela vier daí a bocado, que a tem de apanhar.


Involuntariamente faz uma associação com a visita que o levara há quatro dias a Velha Goa. O corpo do Santo, agora transformado em pergaminho, múmia dentro da sua urna envidraçada, de moldura de prata trabalhada carregada de pedrarias, alegadamente preciosas, encontra-se na Basílica do Bom Jesus De dez em dez anos era exposto publicamente.

Anteontem, ele assistiu à última exposição. Que pode ter sido mesmo a última, pois corria que já não voltaria a ser aberto o caixão – podia esfarelar-se o que resta do corpo. Mas pode ser que seja outra a estória, que segue dentro de momentos, como acontecia na RTP da sua adolescência.
No presente momento dá por si a perguntar-se se o Padroeiro de Goa e dos Goeses terá alguma coisa a ver com a quitina. Nunca se sabe, que nisto de milagres há que ter muito cuidado, apurar a desconfiança, mas também reforçar a fé. Só assim se podem desvanecer as dúvidas como esta que se lhe imbricou no espírito a propósito da relíquia.

As exposições públicas dos restos encarquilhados e cobertos a papiro – ou seria couro? Ou mesmo, como de início lhe parecera, pergaminho, tal a cor que adquiriram - são um grande acontecimento para centenas de milhares de católicos de Goa e de toda a Índia, mas não só, porque são muitos os hindus que ali vão pedir a sua protecção. Essas festas enormes servem também de pretexto para os Goeses espalhados pelos quatro cantos do mundo se voltarem a encontrar com as suas raízes na terra natal.

Rogério da Silva Martins recolheu na basílica um folheto com a biografia do nado Francisco Javier. Viera à luz no dia 7 de Abril de 1506, no Castelo-Solar da família Aguarez y Javier o oitavo filho, a que foi dado o nome de Francisco. A sua família, rica de bens materiais, de títulos honoríficos e com elevada distinção, mantinha junto da população uma excelente reputação, graças à sua generosidade e amizade(...).

Naquele dia, o sol de açafrão penetrava suavemente o Índico. Por aqui não há pores de supetão, o ritmo é outro, mesmo nestas posses astro-oceânicas. Não há que ter pressas, de resto despropositadas. O amor deve ser lento, aquecido em lume brando, polvilhado de canela e temperado de gengibre e banhado em água de lanho, que é o coco jovem. E virgem, pronto para ser comido – e bebido (…)»

segunda-feira, julho 14, 2008




Isto é cultura
não é nenhuma ordinarice...

Numa prova de entrada para a Universidade...

Questão : Interpretar o seguinte trecho de poema de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer".


Uma aluna deu a sua interpretação:


"Ah Camões, se vivesses hoje em dia,
tomarias uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Comprarias um computador,
consultarias a Internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!"

Teve nota máxima. Foi a primeira vez, depois de mais de 500 anos,
que alguém entendeu qual era a ideia do Camões...

(Prestimosa colaboração via imeile da Armanda Pires. Venha mais)

domingo, julho 13, 2008

Conto de fadas

O melhor e o mais pequeno do Mundo



Era uma vez um rapaz que pediu a uma linda rapariga:
- Queres casar comigo?
E ela respondeu:
- Não!
E o rapaz viveu feliz para sempre… Foi à pesca, jogou futebol, conheceu muitas outras miúdas, fez amor com quase todas, viajou, visitou muitos lugares, estava sempre a sorrir e de bom humor, nunca lhe faltava caroço, não discutia nem nunca brigava, bebia cerveja com os amigos sempre que estava com vontade e ninguém mandava nele...
A rapariga teve celulite, varizes, engordou, os peitos caíram, lixou-se e ficou sozinha...

(Outra amável colaboração - por imeile - do Maia Figueiredo)

sábado, julho 12, 2008




A MELHOR E MENOR REDACÇÃO DO SÉCULO


Redassão:
O mano

Cuando eu tiver um mano,vaisse chamar Herrar, porque Herrar é o mano.

(NE: Mais uma preciosíssima colaboração do Maia Figueiredo, via mail)

terça-feira, julho 08, 2008


Cotovelo da vovó...


Uma avó judia está ensinando o seu endereço ao neto, que irá visitá-la, com a sua mulher. «Quando vocês chegarem no prédio, na porta da frente há um grande painel. Eu moro no apartamento 301. Pisem o botão 301 com o cotovelo, que eu abro a porta. Entrem, o elevador está à direita. No elevador, pisem o 3 com o cotovelo. Quando vocês saírem, meu apartamento está à esquerda. Com o cotovelo, apertem a campainha». «Vovó, me parece bem fácil, mas... porque terei que pisar todos esses botões com meu cotovelo?»«O quê???... Vocês pensam vir de mãos vazias???Não pode...»


Quero fazer Amizades internéticas

Antunes Ferreira
H
á avós e avós. Esta estória foi-me enviada por um Amigo brasileiro e tem imensa piada, digo eu. Quem não concordar está no seu pleno direito: Liberdade e Democracia são isso mesmo – discordar e discutir ideias. Tem mais, como é sabido. Mas, parecem-me muito importantes estas componentes. Adiante.

Tenho Amigos Brasileiros, o que é, para mim, excelente. Também os possuo em Angola, em Cabo Verde, em Moçambique, na Guiné-bissau, em Cabo Verde, em S. Tomé e Príncipe, em Macau, em Timor e em Goa. A minha mulher, Raquel, é goesa. Adoro Goa, costumava dizer que, se o pudesse fazer, gostaria de ali passar os meus últimos dias. Agora, a caminho dos 67, já não penso muito nisso. E pure

O Embaixador de Portugal em Brasília, Francisco Seixas da Costa é um Amiguíssimo. Além de óptimo diplomata. Tem um blogue sensacional: embaixada-portugal-brasil.blogspot.com em que dá conta de tudo o que se passa em terras do País nosso filho (como gosto de dizer) no que respeita ao relacionamento com Portugal e, naturalmente, com os Portugueses.

Nele podem encontrar uma série de coisas interessantíssimos, como os 400 anos do nascimento do Padre António Vieira (que tem blogue próprio) até à despedida de Luiz Felipe Scolari, que foi seleccionador de Portugal durante cinco anos, passando pelos investimentos portugueses no Brasil, pelas comemorações da ida da corte lusitana para terras de Vera cruz (do que resultaria a Independência brasileira), pelos problemas da língua portuguesa – em especial pelo famigerado Acordo Ortográfico… - e por aí fora, tudo nele se pode encontrar. Recomendo-o vivamente.


Desde o Rio até S. Paulo, desde Santa Catarina até Brasília, passando por Minas Gerais, pela Bahia, por Pernambuco, eu sei lá que mais, conto Amizades. Aliás, conheço uma boa parte dos que apontei. Atravessei muitas vezes o nosso «lago» Atlântico. E acredito vivamente no reforço da convivência luso-brasileira.

Por isso quero alargar este meu blogue à(ao)s nov(a)os Amiga(o)os internéticos brasileiros. Por isso os convido a contactar-me, a deixar comentários neste blogue, a nele colaborarem se o quiserem fazer. Serão acolhida(o)s com o maior prazer, o gosto mais feliz, que o mesmo é dizer com a Amizade de sempre e para sempre. Fico à vossa espera. E dos vossos Amigos a quem recomendem este blogue e o meu endereço.

www.travessadoferreira.blogspot.com

ferreihenrique@gmail.com

(Gravura: Capa da Ilustração Portuguesa - 1922)

sábado, julho 05, 2008




Bahia de Todos os Santos


Antunes Ferreira
Mais uma do Jorge Correia Jacinto, almirante desembarcado e Amigo do Peito. Desta feita temos uma homenagem ao Pedro Álvares Cabral, que, para a malta do Pedro Nunes (do era quando era Liceu, agora é da Escola), é o Pedrinho da Bandeira. (Cf estátua ao cimo da Avenida do mesmo nome, na praceta ladeada pelo Jardim da Estrela, oferecida pelo Brasil a Portugal em 1941. Trata-se da réplica da que existe no Rio de Janeiro, datada de 1940 e da autoria de Rodolfo Bernardelli). Por ser mais conveniente, porque o corpo da estória é pequeno, aqui a transcrevo. Tem imensa graça.


Preguiça???

Chegado em Porto Seguro, Pedro Álvares Cabral foi ter com um índio:

-Ora, pois... Nativo desta terra tão bela... Como te chamas?

- Índio chamar Bah! - respondeu ele, rispidamente curto e grosso.

-Bah? - perguntou o português, surpreso. Tudo bem, tudo bem!

- Preciso de um favor seu, Senhor Bah!

- Bigodudo falar, Bah escutar...

- A vela do meu barco rasgou. Sabe como é, venta muito por aqui... Preciso que você vá nadando até aquele outro navio e avise os meus companheiros que descobrimos uma nova terra!

- O que Bah ganhar com isso?

- Como homenagem a vossa senhoria e para que todos se lembrem que Bah foi até ao outro lado da praia para oficializar esta descoberta, esta terra se chamará Bahfoi!

- Ah, não, Bah não querer ir... Bah ter muita preguiça... Bah não ser muito chegado a trabalho! Melhor o senhor chamar esta terra de Bahia!!!!!!!!!

O texto é de origem brasileira, logo não tem qualquer intenção contra a gente di lá. Mas reflecte bem, em síntese anedótica, o relacionamento, ab initio, dos Portugueses com os nativos, caricaturando excelentemente a forma como se terá desenrolado. E bem assim, o pé atrás dos autóctenes, face às exigências dos peles claras que ali tinham chegado. Até hoje, há resquícios desse tipo de comportamentos.
Aqui fica o registo com mais um muito obrigado ao Jorge Correia Jacinto.



terça-feira, julho 01, 2008




Aristóteles dixit


Amar é ter dois corpos desiguais
Fundidos numa alma partilhada,
É percorrer a mesma caminhada
Vivendo em comunhão seus ideais.


É ter a força imensa de ter mais
Que aquele que, sózinho, não tem nada,
É ter uma união alicerçada
Em passos conjugados e iguais.


É nunca magoarmos quem amamos
E partilhar sorrisos e tristezas
Sem nunca se perder em incertezas.


É ser fiel às juras que trocamos
E, porque se alimenta a mesma chama,
Quem ama não magoa nem engana.


28/09/05 José Manuel Pimentel Serra



Em Junho
andam livros pelo Parque...

Maria Lúcia Garcia Marques
E
sta frase-título veio-me, assim num rufo, na toada do consagrado Andam Faunos pelos Bosques do nosso Aquilino, ao divisar a Feira do Livro marinhando pelo Parque Eduardo VII acima. Bloquinhos multicores, de um lado e outro do ajardinado central, subiam até à glória do patamar onde Cutileiro implantou, irreverente, o falo e o cravo da sua peculiar evocação da Revolução de Abril. À volta, envolvente e propiciadora, a mancha sombria do arvoredo onde se acendiam as copas dos jacarandás em flor.

Árvores e aves / livros e letras
Verba volant / scripta manent
são binómios que nos calores de Junho por aqui reinam, prazerosos.

Levanta-se esta efémera biblioteca a céu aberto num acalorado convite à decifração da escrita e ao prazer da (sua) leitura. É um jardim de palavras em exuberante inflorescência por onde parecem deambular os versos de Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 1901-1964):

>Ai, palavras, ai, palavras
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,
e quedais com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota ...>

A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora ... (...)



E nesta oferta à leitura que se abre num jardim ao vento, no afã de quem quer ler, parece esquecer-se ou ignorar-se o esforço de quem escreve e o poder encantatório que se lhe exige. É que, de facto, a escrita é uma via sacra, quando não uma via crucis e só poucas vezes uma via aurea. A escrita é uma habilidade e o “escrevente” é um iniciado num tipo de diálogo que o “escritor” cultiva como arte. E é esta uma postura singular: elegendo-se inter-locutor (com o seu indispensável leitor), no entanto, o escritor mantém-se afastado, postando-se por detrás do silêncio das palavras, comandando-as por sinais que o prolongam e mascaram.

Qualquer que seja o instrumento – lápis, pena ou computador -, ele “desenha” o sentido mudo do seu verbo. Vestimenta ou disfarce, nenhuma escrita é inteiramente sincera, espontânea, ingénua. Serve para fixar, ordenar, obrigar, legar (como dom, previsão ou profecia), narrar contando – e aumentando, sabe Deus e a imaginação do Homem quantos pontos...! – factos e feitos, criando referências e efeitos, construindo, finalmente, patrimónios e imaginários comunicantes.

O sentido conquista-se duramente. Coisa difícil é contar e encantar, dizer e convencer, por detrás da letra sem rosto nem voz... Trabalho esforçado de forçado. Com esse suor invisível se faz um livro e se faz dele um objecto único que, na coragem da sua exposição, merece – sempre – todo o respeito e o preito de uma crítica honesta.

Para não falar da auto-crítica, das profundas interrogações que os escritores sempre se fazem, das radicais escolhas a que se obrigam. Tal Vergílio Ferreira, um dos mais visceralmente ESCRITOR que conheço e que, na sua Conta-Corrente, nova série, IV, testemunha:

[Inês Pedrosa] disse uma coisa curiosa que eu não sabia ou já esquecera e era que não havia razão em vituperarem-me pela «pobreza de vocabulário». (...). Inês esclareceu que o meu vocabulário era o que eu fui seleccionando para a identificação da minha prosa. E com efeito. Cada qual “escolhe” o seu vocabulário próprio em referência à sua funcionalidade para se ser quem se é. (...). Não tenho o dicionário todo na cabeça e por isso eu o uso com frequência. Mas tenho dele muitíssimos mais vocábulos do que os que me vão servindo.


A palavra é a nossa sensibilidade expressa e eu não estou aqui para sentir como o Camilo ou o Abel Botelho ou o Fialho das manigâncias vocabulares. Se o meu projecto se identificasse ao do Eça, a minha instrumentalidade verbal seria outra logo à nascença. Mas sobretudo o que eu procuro na escrita é que ela me exprima o que vou sentindo e que isso seja realmente expressivo para que ressoe na emotividade do leitor. Palavras não expressivas e ditas ricas pela raridade são uma variante de usar muitos anéis, quando basta só um para quem o usa e se chama “aliança”. (...).

E, em plena faina criativa, decide (veja-se que belo texto):

Creio que vou suspender o romance: e retomar a sério o que há dias comecei. Escrita fugaz translúcida evanescente. Poema de amor. Vou chamar-lhe “Balada”. Talvez me esvazie nele de uma certa evocação obsessiva. Sem nomes, cenas, narrativas. Coisa dada em fragmentos como breves visões. Coisa escrita em palavras sem peso. Aéreas, fluidas. E um imponderável e profundo encantamento. Já disse tudo, já viajei tudo, apetece-me agora sentar-me no recanto de mim e olhar, e ceder à ternura da memória, da toada de uma longínqua melodia.

Porque LER é um diálogo amoroso de largo espectro, com vários estádios e desfechos – da rendição ao abandono, do frívolo comércio ao prazer intenso da procura e da conquista – cabe ao LIVRO aquele amor exclusivo do bibliófilo, aquele zelo meticuloso do bibliotecário ou, ainda, aquele enraizado anelo dos leitores compulsivos, como o foi Clarice Lispector (1925-1977), no texto com que vos deixo:


Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar a casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido, pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais comendo pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Como demorei! Eu vivia no ar ... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.



segunda-feira, junho 30, 2008



Sem comentários

Ora cá temos o meu cunhado de Chêteaugay, Montréal, Québec, com mais uma colaboração no Travessa. Por mail - mas boa. Como sempre. Já se sente falta dos seus comentários, mas esta foto vale por milhões. Este é o exemplo de um País em crise, ainda que eu continue a considerá-la muito estranha e enigmática com atrás disse. Por mais que me tentem desdizer, contradizer, insultar ou, até, ameaçar, reafirmo: nós não prestamos. E nem são necessários exemplos de ignorância, analfabetismo (hoje amaciamos para iliteracia...) ou estupidez aguda - e congénita. Somos, desgraçadamente, assim. A.F.

sábado, junho 28, 2008

Guia Prático da Ciência Moderna

Antunes Ferreira
Este miminho, de origem brasileira como se vê, foi-me enviado pelo Jorge Correia Jacinto, almirante na boa vida, o que quer dizer desembarcado da Marinha. Por outras palavras: na Reserva. O Navegador, ex, é um dos mais assíduos correspondentes que tenho. Não estou bem certo, mas por vezes penso que a nossa amizade é coeva do Vasco da Gama, para não dizer mesmo do Dom Fuas Roupinho. Um destes dias, com mais tempo, hei-de averiguar.


Ora pronto. Termino o prolegómenos, alias apenas necessário para enquadrar o Jorge Jacinto no lugar que lhe compete – e que merece em absoluto. O que aqui fica registado - e que se verifica no País nosso filho (coitado) -, poderá perfeitamente aplicar-se universalmente. O que implica que isso também acontece neste este Portugal em crise.

Curiosa crise, de resto. Os apartamentos de luxo, T muitos com áreas de 680 metros quadrados e mais, vendem-se nos alicerces aquando do começo da construção. Automóveis de grande cilindrada, é um vê-se-avias. Um só exemplo: em Guimarães, onde a cutelaria está na tal crise, há uns tempos um amigo levou-me a contar Maseratis: seis. Com os donos a fechar as respectivas fábricas. Claro que os brutais aumentos dos combustíveis fazem parte da crise. No entanto, os bólidos continuam na ordem do dia – e a circular. E as gasolineiras, coitadas, continuam a ter lucros indescritíveis.

Restaurantes caros, para não dizer caríssimos, estão cheios. Lagostas, faisões, caviares das mais diversas origens e qualidades enchem as mesas desses locais em crise. E as bebidas pornograficamente cobradas (e caritativamente pagas) não deixam de acompanhar essa desgraçada crise. Que afecta igualmente os Bancos, com resultados de que se queixam todas as assembleias-gerais deles. E as roupas de marca? E o resto, em crise?

Poderia continuar. Não o faço. A crise, essa, continua. Estranho, não é? Desta feita, porém, deliciem-se com o texto. Com a sua grafia original. Ainda não existe o famigerado acordo. Apesar do pesar, o preço dele não subiu. Isto – porque não tem preço.

GENERALIDADES

1. Se mexer, pertence à biologia.
2. Se feder, pertence à química.
3. Se não funciona, pertence à física.
4. Se ninguém entende, é matemática.
5. Se não faz sentido, é economia ou psicologia.
6. Se mexer, feder, não funcionar, ninguém entender e não fizer sentido, é INFORMÁTICA.

LEI DA PROCURA INDIRETA

1. O modo mais rápido de se encontrar uma coisa é procurar outra.
2. Você sempre encontra aquilo que não está procurando.

LEI DA TELEFONIA.


1. Quando te ligam: se você tem caneta, não tem papel. Se tiver papel, não tem caneta. Se tiver ambos, ninguém liga.
2. Quando você liga para números errados de telefone, eles nunca estão ocupados.
Parágrafo único: Todo corpo mergulhado numa banheira ou debaixo do chuveiro faz tocar o telefone.

LEI DAS UNIDADES DE MEDIDA.

Se estiver escrito 'Tamanho Único', é porque não serve em ninguém, muito menos em você.

LEI DA GRAVIDADE.

Se você consegue manter a cabeça enquanto à sua volta todos estão perdendo, provavelmente você não está entendendo a gravidade da situação.

LEI DOS CURSOS, PROVAS E AFINS.

80% da prova final será baseada na única aula a que você não compareceu, baseada no único livro que você não leu.

LEI DA QUEDA LIVRE.

1. Qualquer esforço para se agarrar um objeto em queda, provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente.
2. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do carpete.

LEI DAS FILAS E DOS ENGARRAFAMENTOS.

A fila do lado sempre anda mais rápido.
Parágrafo único: Não adianta mudar de fila. A outra é sempre mais rápida.

LEI DA RELATIVIDADE DOCUMENTADA.

Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual.

LEI DO ESPARADRAPO.

Existem dois tipos de esparadrapo: o que não gruda e o que não sai.

LEI DA VIDA.

1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada.
2. Tudo que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda.

LEI DA ATRAÇÃO DE PARTÍCULAS.

Toda partícula que voa sempre encontra um olho aberto