domingo, julho 13, 2008

Conto de fadas

O melhor e o mais pequeno do Mundo



Era uma vez um rapaz que pediu a uma linda rapariga:
- Queres casar comigo?
E ela respondeu:
- Não!
E o rapaz viveu feliz para sempre… Foi à pesca, jogou futebol, conheceu muitas outras miúdas, fez amor com quase todas, viajou, visitou muitos lugares, estava sempre a sorrir e de bom humor, nunca lhe faltava caroço, não discutia nem nunca brigava, bebia cerveja com os amigos sempre que estava com vontade e ninguém mandava nele...
A rapariga teve celulite, varizes, engordou, os peitos caíram, lixou-se e ficou sozinha...

(Outra amável colaboração - por imeile - do Maia Figueiredo)

sábado, julho 12, 2008




A MELHOR E MENOR REDACÇÃO DO SÉCULO


Redassão:
O mano

Cuando eu tiver um mano,vaisse chamar Herrar, porque Herrar é o mano.

(NE: Mais uma preciosíssima colaboração do Maia Figueiredo, via mail)

terça-feira, julho 08, 2008


Cotovelo da vovó...


Uma avó judia está ensinando o seu endereço ao neto, que irá visitá-la, com a sua mulher. «Quando vocês chegarem no prédio, na porta da frente há um grande painel. Eu moro no apartamento 301. Pisem o botão 301 com o cotovelo, que eu abro a porta. Entrem, o elevador está à direita. No elevador, pisem o 3 com o cotovelo. Quando vocês saírem, meu apartamento está à esquerda. Com o cotovelo, apertem a campainha». «Vovó, me parece bem fácil, mas... porque terei que pisar todos esses botões com meu cotovelo?»«O quê???... Vocês pensam vir de mãos vazias???Não pode...»


Quero fazer Amizades internéticas

Antunes Ferreira
H
á avós e avós. Esta estória foi-me enviada por um Amigo brasileiro e tem imensa piada, digo eu. Quem não concordar está no seu pleno direito: Liberdade e Democracia são isso mesmo – discordar e discutir ideias. Tem mais, como é sabido. Mas, parecem-me muito importantes estas componentes. Adiante.

Tenho Amigos Brasileiros, o que é, para mim, excelente. Também os possuo em Angola, em Cabo Verde, em Moçambique, na Guiné-bissau, em Cabo Verde, em S. Tomé e Príncipe, em Macau, em Timor e em Goa. A minha mulher, Raquel, é goesa. Adoro Goa, costumava dizer que, se o pudesse fazer, gostaria de ali passar os meus últimos dias. Agora, a caminho dos 67, já não penso muito nisso. E pure

O Embaixador de Portugal em Brasília, Francisco Seixas da Costa é um Amiguíssimo. Além de óptimo diplomata. Tem um blogue sensacional: embaixada-portugal-brasil.blogspot.com em que dá conta de tudo o que se passa em terras do País nosso filho (como gosto de dizer) no que respeita ao relacionamento com Portugal e, naturalmente, com os Portugueses.

Nele podem encontrar uma série de coisas interessantíssimos, como os 400 anos do nascimento do Padre António Vieira (que tem blogue próprio) até à despedida de Luiz Felipe Scolari, que foi seleccionador de Portugal durante cinco anos, passando pelos investimentos portugueses no Brasil, pelas comemorações da ida da corte lusitana para terras de Vera cruz (do que resultaria a Independência brasileira), pelos problemas da língua portuguesa – em especial pelo famigerado Acordo Ortográfico… - e por aí fora, tudo nele se pode encontrar. Recomendo-o vivamente.


Desde o Rio até S. Paulo, desde Santa Catarina até Brasília, passando por Minas Gerais, pela Bahia, por Pernambuco, eu sei lá que mais, conto Amizades. Aliás, conheço uma boa parte dos que apontei. Atravessei muitas vezes o nosso «lago» Atlântico. E acredito vivamente no reforço da convivência luso-brasileira.

Por isso quero alargar este meu blogue à(ao)s nov(a)os Amiga(o)os internéticos brasileiros. Por isso os convido a contactar-me, a deixar comentários neste blogue, a nele colaborarem se o quiserem fazer. Serão acolhida(o)s com o maior prazer, o gosto mais feliz, que o mesmo é dizer com a Amizade de sempre e para sempre. Fico à vossa espera. E dos vossos Amigos a quem recomendem este blogue e o meu endereço.

www.travessadoferreira.blogspot.com

ferreihenrique@gmail.com

(Gravura: Capa da Ilustração Portuguesa - 1922)

sábado, julho 05, 2008




Bahia de Todos os Santos


Antunes Ferreira
Mais uma do Jorge Correia Jacinto, almirante desembarcado e Amigo do Peito. Desta feita temos uma homenagem ao Pedro Álvares Cabral, que, para a malta do Pedro Nunes (do era quando era Liceu, agora é da Escola), é o Pedrinho da Bandeira. (Cf estátua ao cimo da Avenida do mesmo nome, na praceta ladeada pelo Jardim da Estrela, oferecida pelo Brasil a Portugal em 1941. Trata-se da réplica da que existe no Rio de Janeiro, datada de 1940 e da autoria de Rodolfo Bernardelli). Por ser mais conveniente, porque o corpo da estória é pequeno, aqui a transcrevo. Tem imensa graça.


Preguiça???

Chegado em Porto Seguro, Pedro Álvares Cabral foi ter com um índio:

-Ora, pois... Nativo desta terra tão bela... Como te chamas?

- Índio chamar Bah! - respondeu ele, rispidamente curto e grosso.

-Bah? - perguntou o português, surpreso. Tudo bem, tudo bem!

- Preciso de um favor seu, Senhor Bah!

- Bigodudo falar, Bah escutar...

- A vela do meu barco rasgou. Sabe como é, venta muito por aqui... Preciso que você vá nadando até aquele outro navio e avise os meus companheiros que descobrimos uma nova terra!

- O que Bah ganhar com isso?

- Como homenagem a vossa senhoria e para que todos se lembrem que Bah foi até ao outro lado da praia para oficializar esta descoberta, esta terra se chamará Bahfoi!

- Ah, não, Bah não querer ir... Bah ter muita preguiça... Bah não ser muito chegado a trabalho! Melhor o senhor chamar esta terra de Bahia!!!!!!!!!

O texto é de origem brasileira, logo não tem qualquer intenção contra a gente di lá. Mas reflecte bem, em síntese anedótica, o relacionamento, ab initio, dos Portugueses com os nativos, caricaturando excelentemente a forma como se terá desenrolado. E bem assim, o pé atrás dos autóctenes, face às exigências dos peles claras que ali tinham chegado. Até hoje, há resquícios desse tipo de comportamentos.
Aqui fica o registo com mais um muito obrigado ao Jorge Correia Jacinto.



terça-feira, julho 01, 2008




Aristóteles dixit


Amar é ter dois corpos desiguais
Fundidos numa alma partilhada,
É percorrer a mesma caminhada
Vivendo em comunhão seus ideais.


É ter a força imensa de ter mais
Que aquele que, sózinho, não tem nada,
É ter uma união alicerçada
Em passos conjugados e iguais.


É nunca magoarmos quem amamos
E partilhar sorrisos e tristezas
Sem nunca se perder em incertezas.


É ser fiel às juras que trocamos
E, porque se alimenta a mesma chama,
Quem ama não magoa nem engana.


28/09/05 José Manuel Pimentel Serra



Em Junho
andam livros pelo Parque...

Maria Lúcia Garcia Marques
E
sta frase-título veio-me, assim num rufo, na toada do consagrado Andam Faunos pelos Bosques do nosso Aquilino, ao divisar a Feira do Livro marinhando pelo Parque Eduardo VII acima. Bloquinhos multicores, de um lado e outro do ajardinado central, subiam até à glória do patamar onde Cutileiro implantou, irreverente, o falo e o cravo da sua peculiar evocação da Revolução de Abril. À volta, envolvente e propiciadora, a mancha sombria do arvoredo onde se acendiam as copas dos jacarandás em flor.

Árvores e aves / livros e letras
Verba volant / scripta manent
são binómios que nos calores de Junho por aqui reinam, prazerosos.

Levanta-se esta efémera biblioteca a céu aberto num acalorado convite à decifração da escrita e ao prazer da (sua) leitura. É um jardim de palavras em exuberante inflorescência por onde parecem deambular os versos de Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 1901-1964):

>Ai, palavras, ai, palavras
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,
e quedais com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota ...>

A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora ... (...)



E nesta oferta à leitura que se abre num jardim ao vento, no afã de quem quer ler, parece esquecer-se ou ignorar-se o esforço de quem escreve e o poder encantatório que se lhe exige. É que, de facto, a escrita é uma via sacra, quando não uma via crucis e só poucas vezes uma via aurea. A escrita é uma habilidade e o “escrevente” é um iniciado num tipo de diálogo que o “escritor” cultiva como arte. E é esta uma postura singular: elegendo-se inter-locutor (com o seu indispensável leitor), no entanto, o escritor mantém-se afastado, postando-se por detrás do silêncio das palavras, comandando-as por sinais que o prolongam e mascaram.

Qualquer que seja o instrumento – lápis, pena ou computador -, ele “desenha” o sentido mudo do seu verbo. Vestimenta ou disfarce, nenhuma escrita é inteiramente sincera, espontânea, ingénua. Serve para fixar, ordenar, obrigar, legar (como dom, previsão ou profecia), narrar contando – e aumentando, sabe Deus e a imaginação do Homem quantos pontos...! – factos e feitos, criando referências e efeitos, construindo, finalmente, patrimónios e imaginários comunicantes.

O sentido conquista-se duramente. Coisa difícil é contar e encantar, dizer e convencer, por detrás da letra sem rosto nem voz... Trabalho esforçado de forçado. Com esse suor invisível se faz um livro e se faz dele um objecto único que, na coragem da sua exposição, merece – sempre – todo o respeito e o preito de uma crítica honesta.

Para não falar da auto-crítica, das profundas interrogações que os escritores sempre se fazem, das radicais escolhas a que se obrigam. Tal Vergílio Ferreira, um dos mais visceralmente ESCRITOR que conheço e que, na sua Conta-Corrente, nova série, IV, testemunha:

[Inês Pedrosa] disse uma coisa curiosa que eu não sabia ou já esquecera e era que não havia razão em vituperarem-me pela «pobreza de vocabulário». (...). Inês esclareceu que o meu vocabulário era o que eu fui seleccionando para a identificação da minha prosa. E com efeito. Cada qual “escolhe” o seu vocabulário próprio em referência à sua funcionalidade para se ser quem se é. (...). Não tenho o dicionário todo na cabeça e por isso eu o uso com frequência. Mas tenho dele muitíssimos mais vocábulos do que os que me vão servindo.


A palavra é a nossa sensibilidade expressa e eu não estou aqui para sentir como o Camilo ou o Abel Botelho ou o Fialho das manigâncias vocabulares. Se o meu projecto se identificasse ao do Eça, a minha instrumentalidade verbal seria outra logo à nascença. Mas sobretudo o que eu procuro na escrita é que ela me exprima o que vou sentindo e que isso seja realmente expressivo para que ressoe na emotividade do leitor. Palavras não expressivas e ditas ricas pela raridade são uma variante de usar muitos anéis, quando basta só um para quem o usa e se chama “aliança”. (...).

E, em plena faina criativa, decide (veja-se que belo texto):

Creio que vou suspender o romance: e retomar a sério o que há dias comecei. Escrita fugaz translúcida evanescente. Poema de amor. Vou chamar-lhe “Balada”. Talvez me esvazie nele de uma certa evocação obsessiva. Sem nomes, cenas, narrativas. Coisa dada em fragmentos como breves visões. Coisa escrita em palavras sem peso. Aéreas, fluidas. E um imponderável e profundo encantamento. Já disse tudo, já viajei tudo, apetece-me agora sentar-me no recanto de mim e olhar, e ceder à ternura da memória, da toada de uma longínqua melodia.

Porque LER é um diálogo amoroso de largo espectro, com vários estádios e desfechos – da rendição ao abandono, do frívolo comércio ao prazer intenso da procura e da conquista – cabe ao LIVRO aquele amor exclusivo do bibliófilo, aquele zelo meticuloso do bibliotecário ou, ainda, aquele enraizado anelo dos leitores compulsivos, como o foi Clarice Lispector (1925-1977), no texto com que vos deixo:


Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar a casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido, pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais comendo pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Como demorei! Eu vivia no ar ... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.



segunda-feira, junho 30, 2008



Sem comentários

Ora cá temos o meu cunhado de Chêteaugay, Montréal, Québec, com mais uma colaboração no Travessa. Por mail - mas boa. Como sempre. Já se sente falta dos seus comentários, mas esta foto vale por milhões. Este é o exemplo de um País em crise, ainda que eu continue a considerá-la muito estranha e enigmática com atrás disse. Por mais que me tentem desdizer, contradizer, insultar ou, até, ameaçar, reafirmo: nós não prestamos. E nem são necessários exemplos de ignorância, analfabetismo (hoje amaciamos para iliteracia...) ou estupidez aguda - e congénita. Somos, desgraçadamente, assim. A.F.

sábado, junho 28, 2008

Guia Prático da Ciência Moderna

Antunes Ferreira
Este miminho, de origem brasileira como se vê, foi-me enviado pelo Jorge Correia Jacinto, almirante na boa vida, o que quer dizer desembarcado da Marinha. Por outras palavras: na Reserva. O Navegador, ex, é um dos mais assíduos correspondentes que tenho. Não estou bem certo, mas por vezes penso que a nossa amizade é coeva do Vasco da Gama, para não dizer mesmo do Dom Fuas Roupinho. Um destes dias, com mais tempo, hei-de averiguar.


Ora pronto. Termino o prolegómenos, alias apenas necessário para enquadrar o Jorge Jacinto no lugar que lhe compete – e que merece em absoluto. O que aqui fica registado - e que se verifica no País nosso filho (coitado) -, poderá perfeitamente aplicar-se universalmente. O que implica que isso também acontece neste este Portugal em crise.

Curiosa crise, de resto. Os apartamentos de luxo, T muitos com áreas de 680 metros quadrados e mais, vendem-se nos alicerces aquando do começo da construção. Automóveis de grande cilindrada, é um vê-se-avias. Um só exemplo: em Guimarães, onde a cutelaria está na tal crise, há uns tempos um amigo levou-me a contar Maseratis: seis. Com os donos a fechar as respectivas fábricas. Claro que os brutais aumentos dos combustíveis fazem parte da crise. No entanto, os bólidos continuam na ordem do dia – e a circular. E as gasolineiras, coitadas, continuam a ter lucros indescritíveis.

Restaurantes caros, para não dizer caríssimos, estão cheios. Lagostas, faisões, caviares das mais diversas origens e qualidades enchem as mesas desses locais em crise. E as bebidas pornograficamente cobradas (e caritativamente pagas) não deixam de acompanhar essa desgraçada crise. Que afecta igualmente os Bancos, com resultados de que se queixam todas as assembleias-gerais deles. E as roupas de marca? E o resto, em crise?

Poderia continuar. Não o faço. A crise, essa, continua. Estranho, não é? Desta feita, porém, deliciem-se com o texto. Com a sua grafia original. Ainda não existe o famigerado acordo. Apesar do pesar, o preço dele não subiu. Isto – porque não tem preço.

GENERALIDADES

1. Se mexer, pertence à biologia.
2. Se feder, pertence à química.
3. Se não funciona, pertence à física.
4. Se ninguém entende, é matemática.
5. Se não faz sentido, é economia ou psicologia.
6. Se mexer, feder, não funcionar, ninguém entender e não fizer sentido, é INFORMÁTICA.

LEI DA PROCURA INDIRETA

1. O modo mais rápido de se encontrar uma coisa é procurar outra.
2. Você sempre encontra aquilo que não está procurando.

LEI DA TELEFONIA.


1. Quando te ligam: se você tem caneta, não tem papel. Se tiver papel, não tem caneta. Se tiver ambos, ninguém liga.
2. Quando você liga para números errados de telefone, eles nunca estão ocupados.
Parágrafo único: Todo corpo mergulhado numa banheira ou debaixo do chuveiro faz tocar o telefone.

LEI DAS UNIDADES DE MEDIDA.

Se estiver escrito 'Tamanho Único', é porque não serve em ninguém, muito menos em você.

LEI DA GRAVIDADE.

Se você consegue manter a cabeça enquanto à sua volta todos estão perdendo, provavelmente você não está entendendo a gravidade da situação.

LEI DOS CURSOS, PROVAS E AFINS.

80% da prova final será baseada na única aula a que você não compareceu, baseada no único livro que você não leu.

LEI DA QUEDA LIVRE.

1. Qualquer esforço para se agarrar um objeto em queda, provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente.
2. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do carpete.

LEI DAS FILAS E DOS ENGARRAFAMENTOS.

A fila do lado sempre anda mais rápido.
Parágrafo único: Não adianta mudar de fila. A outra é sempre mais rápida.

LEI DA RELATIVIDADE DOCUMENTADA.

Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual.

LEI DO ESPARADRAPO.

Existem dois tipos de esparadrapo: o que não gruda e o que não sai.

LEI DA VIDA.

1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada.
2. Tudo que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda.

LEI DA ATRAÇÃO DE PARTÍCULAS.

Toda partícula que voa sempre encontra um olho aberto


sexta-feira, junho 27, 2008

O homem que derrotou Sócrates


Antunes Ferreira
H
á um Português que desde há alguns dias tem levado mais porrada na Internet do que o primeiro-ministro Sócrates. Um espanto, um verdadeiro espanto, como diria o Jô Soares, exclamação que ficou indelevelmente marcada na nossa língua. Uma adenda: optou-se pelo termo porrada, calão assumido, vulgaríssimo, convenhamos, e o mais expressivo. Pancada, tareia, agressão são demasiado soft para o caso vertente.


Não se prolongue a explicação. Não se estenda a prosa em jeito de suspense. Hitchcok só houve um. Com copyright e tudo. É muito difícil esquecerem-se filmes como «O homem que sabia demais», «Psycho» ou «Os pássaros». Quem diz pássaros, diz aves. E quem diz aves, diz frangos. E quem diz frangos, diz Ricardo. O tal que conseguiu derrotar, ainda que momentaneamente, o chefe do Governo, no sofrimento.

De seu nome completo Ricardo Alexandre Martins Soares Pereira, tem vindo a ser, com Scolari, o guarda-redes da Selecção Portuguesa de Futebol. A sua actuação no Euro 2008 e, em especial na partida contra a Alemanha, foi um desastre. Entre os postes, fora dos postes, de olhos abertos ou de olhos fechados, foi uma capoeira inteira. De frangos? De perus, dizem as más-línguas. De avestruzes, afirmam as péssimas. Isto, porque não maiores.

Futeboleiros como somos, Ricardo foi crucificado, nomeadamente a nível internético. Conseguiu ultrapassar Sócrates. Olá, também a equipa eliminada pelos germânicos parece ter suplantado o dito Executivo que nos governa (?). Mas, o expoente, o mais «mal amado» tem sido, inegavelmente, o homem que é conhecido por ter especial queda para os penaltis. Para os defender – e para os marcar. Há crise? Há. Ricardo.

Para já, Ricardo devia receber uma condecoração e uma proposta para o Guiness Book. Bater Sócrates por ser tão batido – é obra.

Legenda da foto: Ricardo vai para o Inter... marché

(Também no www.sorumbático.blogspot.com)

sábado, junho 21, 2008




Acabou-se a estória,

acabou-se a glória,

acabou-se a vitória

Por Antunes Ferreira
Somos, realmente, muito mauzinhos, pois nem mauzões sabemos ser. Por vezes, porém, a maldade, ainda que rasteirinha e videirinha, origina galhofas duras, dolorosas, mas que fazem sorrir - ou mesmo rir, ainda que não seja à gargalhada. Vitória e glória acabou-se a estória. No caso presente poder-se-ia dizer - estória e glória acabou-se a vitória.

Nós, os Portugazinhos não prestamos. Disse-o, escrevi-o, digo-o, escrevo-o e repeti-lo-ei as vezes que bem entender e que julgue que sejam as necessárias. Reafirmo - nós os lusitanitos, nos quais me incluo, infelizmente, pois creio não fazer parte das honrosas excepções - algumas, bastantes, mas percentualmente diminutas, que, na verdade, só servem para confirmar a regra atrás enunciada - não P-R-E-S-T-A-M-O-S. O governo também não? Mas esquecemo-nos que integra Portugas depois de nós termos elegido o partido que de onde saiu. Qualquer que seja.

Os deuses que a esmagadora maioria de nós idolatrou são chutadores na canela, uns quantos muito bons, um, muitíssimo bom, os outros mais ou menos, sendo que alguns, poucos, escapatórios. Não ganharam o Euro2008. Também já não tinham ganho o Euro2004 que decorreu em casa. Será a famigerada pouca sorte dos Cabrais, que se cita perante os falhanços?
Serão os árbitros contra a selecção Portuga? E os árbitros auxiliares? E os quartos árbitros? E os delegados da UEFA? E os apanha-bolas? E os roupeiros? E os agentes da autoridade? E os stewards vigilantes? E os bombeiros? E os maqueiros sanitários? E os homens das bilheteiras?

Será, portanto, uma cabala ciclópica contra os futebolistas nacionais - e mesmo contra os naturalizados? A ser assim, minhas Senhoras e meus Senhores, não se abateu sobre nós, futebolisticamente falando, um terramoto de 9,8 na escala de Richter. Foi mesmo um tsunami.
Os bonecos que aqui publico e me foram enviados pelo Zé Oliveira, são testemunhos de que, além do mais, somos masoquistas, adoramos fazer graça com o revolver do punhal nas nossas entranhas. Um harakiri a la portuguaise. Talvez seja melhor dizer graçolas. Já dizia o Otto Glória que o treinador que hoje ganha é bestial; o mesmo técnico que amanhã perde é uma besta. Mas já o Cândido de Oliveira, anos antes, também assim afirmava.

Enfim, acabou-se a estória, acabou-se a glória e acabou-se a vitória. Em 2012 há mais.
Para já, segue-se a crise. Segue-se? Acorda-se.

(Também em http://www.sorumbatico.blogspot.com/ )

quarta-feira, junho 18, 2008



Três bons malandros


Antunes Ferreira
O
Carlos Pinto Coelho é boa praça. O Mário Zambujal, idem. Sou muitíssimo amicíssimo dos dois. Que querem? Uma desgraça nunca vem só. Que os que me lêem – parece que ainda os há, poucos, mas há, e certamente bons cidadãos – me relevem o tom intimista deste escrito. Porém, não podia ser outro. Passo a explicar, justificar não, que a Amizade não se justifica.


Um destes dias, mais precisamente na sexta-feira, uma tal Luísa Barragon mandou-me um mail. Transcrevo a parte que para o caso interessa. «Dr. Antunes Ferreira: O Carlos Pinto Coelho teria um enorme prazer de o poder entrevistar para o programa de rádio "Agora Acontece" a propósito do seu livro "Morte na Picada". Temos gravação na próxima 2ªfeira, dia 16 de Junho, às 11H00. Diga-me, por favor, se poderemos agendar»?


Claro que pois claro, disse logo à Senhora, cuja amabilidade e simpatia me deixaram desvanecido. Naturalmente, pedi-lhe para retirar o Dr. E, apesar do telemóvel dela se estar a ir abaixo das canetas, ainda tive a oportunidade de saber, naturalmente por ela, ser filha do Salvador Ribeiro, fotógrafo de mão cheia, com quem eu trabalhara no «Jornal Novo». E fizera um Amigo.


Encurtando. O CPC, o malandro, já me dissera que me estava a preparar a armadilha microfónica. Um carinho dele, no que é especialista. Desta feita para comigo, seu amigo de decénios, etc. e tal. Lá fui a Miraflores, ao Estúdio Tcha Tcha Tcha. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a Luisinha, «uma querida», de acordo com o meu editor.


Veio o Carlos e ipso facto estávamos na cabine de gravação, entretidos numa conversa de compinchas, a que também se podia chamar entrevista. Conduzida pela mão de mestre do meu interlocutor. E a ser difundida por toda a parte (até por Macau). São 84 (eu escrevi oitenta e quatro, não haja dúvidas) as Rádios que a emitem. Só o Pinto Coelho.


De resto, um aparte. Nunca compreendi como a RTP se deu à estupidez crassa de acabar com o Acontece que, anos a fio, o Carlos produziu, escreveu, apresentou e sei lá mais o quê. O melhor programa cultural da televisão em Portugal. Ponto. Nada. O melhor, o mais ágil, o mais audaz – o mais vivo. E posso assegurar que não é de agora que o escrevo, nem por força do CPC ser meu Amigo. Já o fiz e repeti-lo-ei.




Terminámos. Pareceu-me que a coisa tinha corrido bem, mais por mérito do entrevistador do que do entrevistado. Mas, quando saía da sala do estúdio, há um gajo, perdão, um Senhor gajo que comenta assim a charla. Estava parvo. Era o Mário Zambujal. Há quantos anos o não via. Noites a fio passámos juntos (salvo seja…) no «Diário de Notícias»; ele, chefe da Redacção; eu, Chefe Adjunto. O maior fazedor de títulos que encontrei em toda a minha vida profissional.
De resto, assistira ao seu lado à facilidade de escrita – escorreita, directa, irónica – que tinha. Por ali passaram textos e ideias da «Crónica dos Bons Malandros» que seria classificada de óptima, (apenas…) e já vai na 34.ª edição. Se não assisti ao parto, acompanhei a gestação.


Foi uma festa. O Carlinhos ia entrevistá-lo de seguida. «Já não se escrevem cartas de amor», o motivo do encontro. Que, vejam lá, decorreu excelentemente. Como nos desafios de futebol, a segunda parte foi melhor do que a primeira, opinião minha. O malandro do Zambujal acabara de me fazer mais uma acintosa maldade: só às quatro da matina correra os taipais da leitura sem parança. Dormira umas escassas quatro horitas, portanto, e por mor da entrevista.


Teríamos ficado por ali uns bons cinquenta e sete anos, cinco meses, três dias, oito horas, 27 minutos, 43 segundos e dois décimos na costura das lembranças – e das malandrices. É que eu, ainda que em patamar mais abaixo, também me enquadro nesse quadro dos malandros. Dos bons, Mário dixit. Mas, tudo tem um fim. O Zambujal jurou-me que iria ler o «Morte na Picada». Acreditei e acredito, ainda que com algumas reservas. E, para fechar com chave electrónica, trouxe-me a casa no seu BMW. Gente fina é, realmente, outra coisa.


Pronto, está feito. Ninguém tem nada a ver com esta prosa. Ou, quem sabe, se calhar, terá. Não bati no Sócrates, o que é já tão banal de tantas repetições, que já é um ponto a meu favor. Não critiquei a des(união) laranja, que já se tornou calina. Não encomiei a selecção portuga de futebol, o que poderia parecer seguidismo da sua omnipresença. Não falei da crise, de tal forma é óbvia. Nem sequer aflorei o miserável índice de confiança na economia nacional.


Limitei-me a fazer a crónica do reencontro de três bons malandros. Sem que nisso se veja qualquer tentativa soez de plágio, pois o Mário é único e implagiável. Até me dando ao luxo de uns quantos neologismos espúrios. Porra! Os Amigos são, sobretudo, para as ocasiões.


As fotos do crime são da Luisinha Barragon


(Também no www.sorumbatico.blogspot.pt )

sexta-feira, junho 13, 2008



Transportadores rodoviários de mercadorias

Um morto - para quê?...


Antunes Ferreira
S
ejamos francos: foi um episódio tristíssimo que se pode, inclusive, qualificar de criminoso. Dúvidas? Meteu morte, assaltos, privação de liberdade, alteração à ordem pública, foi contra a economia do País. É preciso mais? Além disso, veio, uma vez mais, trazer à superfície uma questão aparentemente colateral, mas incontornável. A saber.

Que raio de gente somos nós, os Portugueses? Já o escrevi, reescrevi e mantenho tudo o que expressei: salvo honrosas e bastantes, felizmente, excepções, nós não prestamos. Assim mesmo, soletrando: n-ó-s----n-ã-o----p-r-e-s-t-a-m-o-s. Se for necessário, exemplificarei noutro escrito o porquê desta afirmação. Para já, porém, não me afasto do que aqui me trouxe.

Se existe representatividade de organizações de classe neste País, ela tem de funcionar. Quero dizer, ela tem de responsabilizar pelos actos praticados pelos seus associados. E estes têm de proceder de acordo com essa relação. A não ser assim, para que servirão elas? Para serem desrespeitadas sempre que as partes assim o entendam? Pobres associações, pobre País.


A Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários de Mercadorias, Antram, terá de, a partir de agora, sublinhar que, supostamente, representa os… transportadores rodoviários de mercadorias portugueses. A Antram terá, presumo, de alterar os seus estatutos para incluir neles essa suposição. Caso estranho? Mas, bem vistas as coisas, o que é que não é estranho em Portugal?

Os transportadores rodoviários de mercadorias, vulgo camionistas ou proprietários de empresas de camionagem devem exigir da Associação que diz representá-los essa alteração estatutária. Ou, em alternativa, continuarem a marimbar-se para a dita e fazerem as greves, paralisações, limitações da liberdade rodoviária, até mesmo originarem a perda de vidas. Com Antram – ou sem.

Daí que talvez seja melhor, se é que isso ainda é possível neste País à beira-mar plantado, correrem os taipais da Associação a quem os associados não ligam peva. Isto é, para quem eles, camionistas/associados, se estão nas tintas. Se nem para conduzir uma greve legal a Antram serve, para quê continuar a dizer que existe e a ser negada durante três dias. Comparado com a auto intitulada Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários de Mercadorias, Pedro, o discípulo sobre o qual seria erigida a Igreja, foi um herói. Apenas negou Cristo por uns momentos. Nunca durante um tal lapso de tempo: mais de 72 horas. É obra.

Estou, convictamente, com a Constituição Portuguesa (apesar de ser Português…, e fazer parte dos que não prestamos. Excepções são outros). Estou, assumidamente, com o direito – contemplado no texto fundamental – à greve. Só as ditaduras, de direita ou de esquerda, o proíbem. E Portugal é uma Democracia e um Estado de Direito.

Nós, porém, esquecemo-nos quase sempre, mas sempre de acordo com as nossas conveniências, do binómio direitos-deveres. Os primeiros têm de cumprir os segundos. Naturalmente, a inversa é verdadeira. Mal seria que assim não fosse. Neste Portugal dos Pequenitos – não é o de Coimbra, do Bissaya Barreto, é este em que vamos sobrevivendo – isso não passa duma apetência – vaga. Lastimavelmente.

Não é caso virgem, recordo. Ainda recentemente, depois do Governo ter assinado com as organizações de classe dos professores um acordo que, ainda que provisório, poria fim, também transitório, à luta dos últimos e logo um grupo de mestres auto-proclamados independentes veio dizer que o dito entendimento não era para eles, porque não o reconheciam. Com Fenprof ou com… nada.

Greve selvagens são excrescências de um passado ditatorial e salazarento. No «Estado Novo» a greve era proibida. Donde, a necessidade de se enveredar por formas de luta grevista ilegalíssimas. Participei – e com alguma, pequena, responsabilidade – na greve estudantil de 1962 e, por isso, falo de experiência própria.



Mário Lino e Antram tinham chegado, ao fim de muitas reuniões e muitas horas, a um acordo que aparentemente punha fim à greve dos transportadores rodoviários de mercadorias. Mas foi necessário ouvir e convencer os mesmos para que findassem a paralisação do País. Que dizer mais desta cegada?

Ainda na quinta-feira fui esperar à Portela um amigo que vinha em voo directo de Viena para Lisboa. Directo, uma ova. Tiveram de parar em Barcelona, para… atestar o depósito. Estou a ver a cena: mire Usted, por favor. A llenar el depósito porqué en Lisboa no hay combustible o casi. Sin embargo, perdóneme por las molestias. Por supuesto. E, o catalão, recordando ao utente: Antenciò: no es permet fumar!...

Disseram as agências que o Executivo de José Sócrates preparava uma requisição civil. E – só? E a manutenção da ordem pública? E o exercício da autoridade democrática do Estado? E a liberdade de circulação? Revelo-me um autoritário? Um facho? António José Teixeira, jornalista de quem sou admirador confesso, não é autoritário, muto menos fascista. E, perante as câmaras da SIC, onde é Director de Informação, fez as mesmas perguntas.

Só me entristece saber que o inefável Portas igualmente o fez. Mas, o bom é inimigo declarado do óptimo. E, para terminar: no melhor pano cai a nódoa.

Também publicado em www.sorumbatico.blogspot.com

sexta-feira, junho 06, 2008




Cavaleiros
do Apocalipse-B


Há novos cavaleiros da desgraça
Que passam cavalgando sobre nós,
Anunciando alto e a uma só voz
Que o pássaro da morte já esvoaça;


Que paira sobre nós uma ameaça
De ver o terrorismo mais atroz
Cobrir com vento fétido e feroz
A pobre gente incrédula que passa.


As nuvens deslizando lentamente
Por sobre a humanidade ameaçada
Carregam ódio e raiva acumulada.


E a chuva que despejam mansamente
São lágrimas do céu molhando a terra
Carpindo o desespero que ela encerra.

12/07/2006 José Manuel P. Serra


Reencontro internético


Ontem mesmo recebi um mail de um cidadão que me dizia que tinha descoberto o meu endereço por meio de mensagem que uma amiga lhe enviara. E perguntava-me se eu era, por acaso, um vizinho dele quando miúdo, no Bairro do Restelo, e que tinha ido, pensava que comigo para a Faculdade de Direito. E, o descarado inquiria informaticamente - se eu era o Rico. Claro que era; claro que sou. Há quanto tempo não o encontrava. Penso que pouco falta para chegarmos a uma distância de quase meio séciulo.


Era, realmente, o José Manuel Pimentel Serra, cuja vivenda, quase em frente da minha, apenas tinha a rua Tristão da Cunha, o quintal das trazeiras dele e o jardim da frente do meu N.º 40. No resto, andavamos em liceus diferentes, mas tivemos a mesma ideia de nos metermos com os Códigos & correlativos. Temos a mesma idade e tivemos as mesmas esperanças e desilusões de juventude. Fomos para a tropa quase ao mesmo tempo. E, agora - a magia da Internet.




Já combinámos que amanhã nos abraçaremos na Feira do Livro, onde vou ter uma sessão de conversa sobre o me(a)u livro «Morte na Picada», mais autógrafos que, diga-se de passagem pode saldar-se num enorme flop. Explico: o horário dela é das 18:00 às 19:00. Boas horas, não fora o caso do Portugal-Turquia começar às... 19:45. Mas, alea jacta est. Ponto.


O Zé Manel, quem haveria de dizer, escreve versos. E mandou-me o que aqui fica com o prazer de o publicar e a alegria do reencontro informático. É um soneto, como já viram, e ele avisou-me no seu segundo mail (a tréplica da minha réplica, para nos lembrarmos da linguagem jurídica), que é mais para o clássico. É o que é, este compincha e tem mais do que direito a sê-lo. Mesmo que o poema fosse «desrimado», eu publicava-o. Nem é. Podem atestá-lo. O malandro (bom), se quiser, tem aqui espaço para continuar a «rimalhar». Ou para outros trotes. Tás'ouvir, ó Zé Manel Serra? Antunes Ferreira





terça-feira, junho 03, 2008

Alunos brasileiros

É triste, mas os textos em baixo são citações de alunos brasileiros no Exame Nacional do Ensino Médio, em 2006. E os comentários dos professores que corrigiram as provas vão de seguida entre parênteses. Também poderiam ser de estudantes de cá, mas - não são. E o dito Acourdo Hortugráfico? Não vem para aqui chamado? De todas as maneiras, tenho de agradecer ao Amigão Eduardo Salvado Pena esta contribuição para o Travessa. A.F.


O sero mano tem uma missão...
(A minha, por exemplo, é ter que ler isso!)


O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas..
(Levei uns minutos para identificar o El Niño...)

O que é de interesse coletivo de todos nem sempre interessa a ninguém individualmente .
(?)

Não preserve apenas o meio ambiente e sim todo ele.
(Faz sentido)



O grande problema do Rio Amazonas é a pesca dos peixes.
(Achei que fosse a pesca dos pássaros.)

É um problema de muita gravidez.
(Com certeza. Se seu pai usasse camisinha, eu não lería isso!)

Já está muito de difíciu de achar os pandas na Amazônia
(Que pena! Também ursos e elefantes sumiram de lá.)

A natureza brasileira tem 500 anos e já esta quase se acabando
(Foi trazida nas caravelas, certo?)

O cerumano no mesmo tepo que constrói, também destrói, pois nós temos que nos unir para realizarmos parcerias juntos.
(Não conte comigo)

Vamos mostrar que somos semelhantemente iguais uns aos outros
(Com algumas diferenças básicas!!)

... provocando assim a desolamento de grandes expécies raras.
(é a depressão animal, né?)

Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos que recebemos todo dia.
(Meu Deus! Haja pára-raio!)



Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu, o verde representa as matas, e o amarelo o ouro. O ouro já foi roubado e as matas estão quase se indo. No dia em que roubarem nosso céu, ficaremos todos sem bandeira.
(Ainda bem que temos aquela faixinha onde está escrito 'Ordem e Progresso'.)

... são formados pelas bacias esferográficas.
(Imagine bacias da BIC.)

Eu concordo em gênero e número igual.
(Eu discordo!)



O serigueiro tira borracha das árvores, mas não nunca derrubam as seringas.
(Estas podem ser derrubadas, porque são descartáveis)

A concentização é um fato esperansoso para todo território mundial..
(Haja coração!)

Vamos deixar de sermos egoistas e pensarmos um pouco mais em nós mesmos.
(Que maravilha!)

segunda-feira, junho 02, 2008




A não perder com o Correio da Manhã
A Guerra
Colonial / do Ultramar / de Libertação


Antunes Ferreira
P
ara mim, o melhor programa televisivo sobre o tema. Ponto. Creio que vai ser muito difícil aparecer algo melhor. A RTP acertou no alvo. E de que maneira. Joaquim Furtado, seu Autor e Realizador – que também faz a locução - esgota o assunto. Excelentemente. A esta verdadeira reportagem/documento é difícil colocar adjectivos especiais. Eles estão todos lá e outra coisa não seria de esperar. Não sou fundamentalista, muito longe disso.
Mas o meu Amigo Joaquim Furtado demonstra, com este primoroso trabalho, que não tem igual no espaço jornalístico-televisivo.

Por algum motivo tive a honra de o convidar para apresentar o meu livro «Morte na Picada». E o prazer de ele ter correspondido ao meu pedido. Fez um trabalho tão interessante, tão documentado, tão brilhante – que eu fiquei «envergonhado» com o que de mim e da obra disse. De tal forma que até lhe chamei Joaquim… Letria, no meu agradecimento. O que ele, «magnânimo», me perdoou. Por conseguinte, permito-me «plagiá-los» a propósito da sua série de programas. Que, felizmente, continua.

Por tudo isso, aqui anoto mais esta iniciativa do matutino de grande informação (neste segmento é o jornal de maior tiragem em Portugal) da Cofina. Está a inserir semanalmente, um DVD que é o registo da primeira série de programas. O êxito da apresentação televisiva reflecte-se no que registam os DVD.

vão adiantados. Mas, os anteriores podem ser adquiridos, penso, através de pedidos ao jornal. Já abaixo escrevi que o CM não me paga por este escrito. Eu faço-o com muito satisfação e com muito respeito pela obra e pelo Furtado.


Correio da Manhã está a publicar
Os Anos de Salazar


Antunes Ferreira
O «Correio da Manhã» está integrar semanalmente nas suas edições dois documentos excelentes. E a preços realmente módicos, atendendo sobretudo à categoria deles. Aqui se aponta o primeiro, para que quem assim o entender possa coleccioná-lo. O segundo tem outra nota, já de seguida.

A colecção OS ANOS DE SALAZAR tem como editor-coordenador Afonso Simões do Paço, do qual não se torna necessário fazer a biografia. Mesmo assim, registo que foi editor da revista História (2001) e autor da biografia Salazar (2006). Coordenou a edição e tradução de mais de uma dezena de obras de história. Esta colecção, que tem 30 volumes, já vai no 14.º.

Com uma colaboração excelente, onde se notam as apreciações tão isentas quanto possível e objectivas, bem como o lugar dos diversos autores no quadro político – cada vez mais estou convencido de que não há «independentes» - a obra tem documentação fotográfica e, portanto, documental, que é do melhor e mais completo que tenho visto. Trata-se de um retrato muito bem feito do que foi o «Estado Novo», suas misérias e suas grandezas.

O «Correio da Manhã» (que não me paga esta referência…) está de parabéns. Por mim, vou continuar a coleccionar.

quinta-feira, maio 29, 2008




Encontro gramatical


Fernanda Braga da Cruz

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.

Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento. Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo. Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais. Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular. Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.


Nisto a porta abriu-se repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício. Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que, as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

(Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa)

Um mimo

O Florentino Antunes, Amigo de muitos anos (não é meu primo, apesar do apelido), companheiro de muitas vidas, da tropa até a um hipermercado, ressuscitou, por mor de um outro Amigo, o Magalhães Pequito. Foi uma alegria! Vai daí, o gajo bué da fixe aparece-me no lançamento do meu «Morte na Picada». No meio da confusão das mais de 200 almas que foram à fnac do Colombo, nem tive tempo para trocar umas larachas com ele. Para o abraço, indispensável, sim. Mal pareceria.
Acaba de me enviar este primor de texto, um verdadeiro mimo, assinado pela Fernanda, aluna da Faculdade de Letras, portadora de um apelido conceituadíssimo na nossa praça. Penso que não é a primeira vez que nos encontramos, o escrito e este escriba sem eira nem beira. Já mo tinham enviado, nem me recordo quem. Hoje, não escapa. Aqui fica ele.
A. F.

segunda-feira, maio 26, 2008




Homem e mulher
(ou vice versa)

O que a malta inventa!!!! Ainda eu era um jovem e já se contava a estória do homem que inventava as anedotas sobre o Salazar. Um destes dias, boto-a no papel. A ver vamos, que nisto de promessas não quero tirar o lugar aos políticos. A Internet propicia, nos dias de hoje, a difusão ao mícron dessas invencionices. E os autores rejubilam. Para o que lhes havia de dar? Não sei, francamente não sei. Mas as perguntas e as respostas que ficam abaixo – e que vieram pela rede informática – têm a sua piada. Ora apreciem A.F.

Quando é que um homem mostra que tem planos para o futuro?
Quando compra duas caixas de cerveja.


Qual a diferença entre um homem e uma manga verde?
A manga amadurece.


Por que é que as mulheres casadas são mais gordas do que as solteiras?
A solteira chega a casa, vê o que tem no frigorífico e vai para a cama; a casada vê o que tem na cama e vai para o frigorífico.


Por que é tão difícil achar homens bonitos, sensíveis e carinhosos?
Porque normalmente eles já têm namorados.


Como se chama uma mulher que sabe onde está o seu marido todas as noites?
Viúva.


O que existem em comum entre os homens que frequentam bares de solteiros?
Todos são casados.


O que disse Deus depois de criar o homem?
Tenho que ser capaz de fazer coisa melhor.


E o que disse Deus depois de criar a mulher?
A prática traz a perfeição...

domingo, maio 25, 2008




O drama de Pacheco, Brederode

… e dos telespectadores da RTP


Nuno Abreu
C
hegou à praça pública um tremendo rugido de protesto, implacável e ao mesmo tempo desesperado, contra o estado a que chegou a informação nos telejornais portugueses: Pacheco Pereira perdeu a cabeça (ou usou-a como nunca) clamando contra “A cultura da irrelevância (que) está a crescer exponencialmente” (“Público” de 17 de Maio). E escreve, mortificado: “Futebol, futebol, futebol, fumei, pequei, vou deixar de fumar, a Esmeralda entre o pai afectivo e o pai biológico, futebol, directo do acidente na A1 que provocou três feridos, os pais da pequena Maddie, futebol, tenho um cancro-tive um cancro-vou ter um cancro, futebol, futebol, futebol.”


Dias depois, adesão insuspeita: Nuno Brederode Santos junta a sua pena demolidora às diatribes de Pacheco Pereira para lamentar “… ter de saber que, no hotel do estágio, a ementa de hoje foi canja de galinha e carne à jardineira (e o cozinheiro já vai explicar porquê), mas também que o craque A, afectado por uma ligeira indisposição, comeu pescada.” (“Diário de Notícias” e blogue “Sorumbático” de 25 de Maio).

O ridículo elevado ao delírio? A imbecilidade transformada em cartilha editorial dos telejornais? Pode ser, mas resulta muito pior quando praticados na antena do serviço público – vulgo RTP.

Ora eu, que não ostento de Pacheco e Brederode a fama e glória, também tenho a minha história de rebelião contra este filme de massacre futebolisivo.

Enviei a seguinte carta ao Provedor do Espectador da RTP:

“Senhor Provedor,


Às 20 horas de ontem, dia 12 de Maio, os editores do Telejornal já possuíam a notícia e as imagens: oito mil e quinhentos seres humanos tinham morrido, poucas horas antes, num terramoto na China. Sabiam também que novecentas crianças estavam debaixo dos escombros da sua escola. Mais de oitenta por cento das casas de uma grande cidade estavam derrubadas, com gente lá dentro.

Os senhores editores do Telejornal sabiam isto tudo às 20 horas. Até porque as grandes cadeias de televisão mundiais ( BBC, Sky e CNN) já tinham transmitido reportagens sucessivas sobre todo esse horror.

Parece que uma notícia desta magnitude iria abrir o jornal do serviço público lusitano, com devido trabalho jornalístico.

Mas não, senhor Provedor: Os primeiros DEZASSETE MINUTOS do Telejornal foram integralmente dedicados ao anúncio dos jogadores escolhidos para chutar a bola na selecção nacional!

Que valem milhares de mortos ao lado da conferência de imprensa do treinador Scolari ?

Senhor Provedor:

Temos o direito, todos os que ainda nos reclamamos da cultura e da inteligência, de ouvir da boca dos editores do Telejornal de ontem as inqualificáveis razões editoriais para tamanho insulto aos espectadores. Por isso me dirijo a V. Exa, que tantas provas de verticalidade nos tem trazido em cada um dos seus excelentes programas.

Com a maior consideração,

N.”


Chegou resposta, assinada pela chefe de gabinete, D. Fernanda Mestrinho. Em dois secos parágrafos estilo Formulário-Norma-4 agradecia a mensagem e mandava à m…era procura de um programa do Provedor que fora emitido meses antes.

Tenho a certeza cega de que o ponderado Prof. Paquete de Oliveira desconhece esta troca de correspondência, nem que mais não seja pela boçalidade que enforma e ele é, além de inteligente, um homem de finesse.

Que isto se tenha passado assim com um ignoto espectador, diz apenas de quem assessora o Provedor. Mas a coisa fia mais fino quando dois comentadores de nomeada exibem, em dois dos maiores jornais do país, o mesmíssimo cartão vermelho à RTP e… tudo fica na mesma. Aí o povo contorce as mãos, desesperado, e percebe quão majestático é o poder da tv estatal, sem se dignar explicações, mantendo inalterável o rumo soturno do seu navio fantasma. E os telejornais continuam a dedicar os seus primeiros quinze a vinte minutos a banalidades insípidas que rodeiam os treinos da Selecção de futebol em Viseu. Noite após noite, os directos espremem não-notícias, vulgaridades sonolentas, opiniões vazias de passantes sem o menor interesse. E a tal pescada que o jogador comeu, em vez de bife. Puro lixo televisivo. Vejo os telejornais estatais de Espanha, França, Inglaterra e Itália e nenhum se atreve a tamanho desperdício de tempo com tamanhas ninharias das suas selecções de jogadores. Só mesmo a RTP, até à náusea.

E porquê? Acho que sei, e até peço perdão se estou errado.

Sem ofensa pessoal para ninguém envolvido, eu acho que Pacheco e Brederode tiveram apenas um azar de circunstância, que passo a explicar.


A RTP é como o Estado: são todos e ninguém. Preciso é distinguir quem vale e quem não vale. O segurança da RTP não vale para definir telejornais, mas há três pessoas que valem tudo para definir os conteúdos dos telejornais: o Zé, o Luís e a Cristina. Se eles lerem os dois cronistas e se a sua roda de amigos concordar com os cronistas e comigo, tudo vai mudar no telejornal desta noite. O país, em vez de vinte minutos de nha-nha de Viseu, só grama dois ou três minutos de nha-nha de Viseu, se gramar!

Basta que o Zé tome café com o Luís e a Cristina e se ponham de acordo. Podia ser: o Zé Alberto é director de Informação e até pode decidir sozinho. Mas como a matéria é gravíssima para os interesses estratégicos de Portugal, admito que não queira utilizar o seu formidável poder sem ouvir o Luís Marinho que era seu chefe até ontem mas hoje é administrador da empresa. Os dois teriam quórum mais que bastante para colocar o terramoto da China antes das canelas do Petit a abrir o telejornal, mas vamos supor que isso teria implicações formidáveis no orçamento da TV pública e portanto conviria ouvir a Cristina Viegas, a sempre presente directora do subdepartamento comercial da empresa. Que diabo, a campanha publicitária que tem Nuno Gomes aos saltinhos e gritinhos poderia estar-se nas tintas para os mortos na China e exigir prioridade a Viseu Petit.

Portanto, seria superiormente recomendável um cafezinho a três – o Zé, o Luís e a Cristina. Belém reúne o seu Conselho de Estado por bagatelas bem menores do que o primeiro quarto de hora do Telejornal.

Simples, não é? Tudo arrumado em dez minutos de um café de bom senso. Pois não senhor: isso jamais acontecerá. O drama de Pacheco, Brederode e de todos os espectadores da RTP é que um dos três – acho eu – não gosta de café.



O Carlos Pinto Coelho, Amigão de décadas, mandou-me este texto do Nuno Abreu que considero delicioso, mas altamente preocupante. O autor escreve sempre muito bem e carrega na ironia; daí o delicioso. O assunto é infelizmente, actualíssimo, destrutivo à enésima potência, quotidiano, aviltante; donde o altamente preocupante. Passo-vo-lo com a certeza de que, tal como eu, ficareis pior do que estragados. Em Portugal há (ainda?...) o direito à indignação. Estou contigo, Carlos, estou com o Nuno Abreu, estou com outro Amigo, o Nuno Brederode Santos, e até estou com o Pacheco Pereira, de quem normal e habitualmente discordo (e de que nem sou amigo). Mas, desta feita – também estou com ele. Por isso, boto esta triste estória no www.travessadoferreira.blogspot.com. Que fica muito honrado por registá-la e bate palmas. Mesmo sem mãos. A.F.

quinta-feira, maio 22, 2008





NA ROTA DO CALENDÁRIO

Um coração em Maio

Maria Lúcia Garcia Marques

Um coração ou o coração? O Dr. Fernando Pádua, benemérito clínico, chamou a Maio “o mês do coração”.

O que, usando o artigo definido, quer dizer algo de muito concreto: coração – órgão, aquele músculo bruto que bombeia a nossa vida que, por tal facto, parece não passar de um latejo incessante. E se/quando ele cessa, morre-se!

Numa breve viagem ao meu querido dicionário de Rafael Bluteau, datado de 1712, respiguei, do extenso artigo que lhe dedica a seguinte descrição:
CORAC, AM – A parte mais necessária, a mais calida,  a mais nobre do corpo do animal [...]. A substancia do coração he uma carne dura, densa, firme e solida, para conservar o calor natural, para ter mão na penetrante sutileza dos espíritos  para resistir às violentas palpitações e outros preternaturaes movimentos. E dá como sinónimos: centro, meio de alguma coisa; intento, pensamento; ânimo, valor; espírito, alma.

Porque, quando se diz: “aquele homem não tem coração!” e ele continua vivendo, estamos de facto a falar de “outro coração”. É aquele lugar do Ser, misto de alma e sangue, de fervor e memória, de ímpeto e sacrário, âmago e berço, a partir-se de dor ou a afogar-se de júbilo, espiando erros ou pressentindo aconteceres (“diz-me o coração que ...), sede entranhada de todo o sentir, casa do amor e do ódio, bem como de outros sentimentos que por menos clamorosos não deixam de ser igualmente arreigados. Tal a “nossa” Saudade que nas palavras do nosso Rei D. Duarte lá pelo século XV se definia: A ssuydade ... he huu sentido do coraçom que vem da senssualidade, e nom da razom, e faz sentir aas vezes os sentidos da tristeza e do nojo (in Leal Conselheiro).

Da sua polivalência nascem cachos de palavras com raiz no “coração”: coragem, cordura, cordato, cordial e cordialidade, concórdia e discórdia, acordo e desacordo, concordata, recordação e recordar, saber de cor e, vejam bem, recorde e recordista!

Mas bater forte, forte mesmo, é por amor que ele bate! Amor-procura, amor-ternura, amor-tortura ... é, na voz dos poetas que ele se solta. Nos populares:



Toma lá colchetes d´oiro
Aperta o teu coletinho
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho.
(Canta-se num fado tradicional)

Lá se vai meu coração
Partido em quatro pedaços,
Meio vivo, meio morto,
Quer acabar em teus braços!
... (Chora-se numa “modinha” do Brasil novecentista)

Porém é com Camões que, omnipresente, o Amor se expande e se busca no seu difícil entendimento. Oiçamo-lo neste final de soneto:
Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sem onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.





Ou neste soneto todo inteiro:

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente, choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
(Ag)ora espero, (ag)ora desconfio,
(Ag)ora desvario, (ag)ora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um´hora.

Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

“Senhora” que descreve assim, ainda noutro soneto:


Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;
Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;
Um encolhido ousar, uma brandura
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento (...)



Mulheres que nunca existiram assim. De tão virtuosas só virtuais. Travando-nos de razões que só o coração conhece, mas sempre lindas de morrer ... De fazer parar esse coração, atabalhoado e sôfrego, que nos leva pela vida ao sabor dos seus palpites ...

Mas quando ele pára, para onde se vai? Para onde vamos, “de alma e coração”? Pode ser uma resposta a de Frei Bento Domingues, numa das suas crónicas:
[...] onde estarão as pessoas que amamos e morreram? Não aconselho ninguém a ir ao cemitério. Creio que estão no coração de Deus, a casa definitiva de todos. Se me perguntam onde é e como é, atrevia-me a dizer que é tão grande como o amor de Deus, tão invisível e presente como Ele. Não procuro outro Céu.

Amen.