sexta-feira, setembro 21, 2007




SOMBRA DA GUERRA

Um novo atoleiro

Antunes Ferreira
O
camião, uma GMC da Segunda Guerra Mundial, está atolado na lama barrenta da picada. Vinha carregado de cunhetes de munições para diversas armas, pesadíssimo vinha, o que ajudara a enterra-lo no solo empapado em água. Até meio dos pneus foi engolido numa armadilha quase fatal. Quase? Verá-se, como diz o ceguinho. Daí que o pessoal tenha descarregado, à unha, o material. À mistura, uns caixotes de uísque e gin. Guerra é guerra.

Manuel Martelo é condutor do Metro de Lisboa. Aliás, o único comboio subterrâneo. Meses depois dele ter sido inaugurado, ou seja em meados de 1960, ele era um gandulo que vinha do liceu e apanhava o animal para regressar a casa. O grupo era porreiraço e os seus elementos entretinham-se durante a curta viagem. Estava na moda uma canção do Marino Marini, El telegrama. Quando o senhor da cabina avisava pelos altifalantes «a próxima estação é Rotunda», logo eles cantavam em coro o refrão «Ya lo sabia, ya lo sabia…»

Daí lhe viera aquela ideia peregrina de vir a ser condutor do Metro. Que, a bem dizer, era tão pequeno que o pessoal graçolava sobre o ir apanhar o centímetro. O Costa, Joaquim, filho do Costa dos Frangos, Eleutério, que, depois das aulas, ajudava o pai a churrascar os bichos, ainda o tentou demover. Que merda de vida seria a sua, sempre debaixo do chão, como as toupeiras.

Qual quê?! Concorreu; o progenitor Martelo, Raimundo, meteu uma cunha de peso a um Senhor conhecido do primo Rogério, o Ximbica, que era pessoa grada na empresa. Ficaram apurados, ele e mais 27 gajos. Empenho? Ná. Ele nascera para aquilo, sem empurrão entrava – sem empurrão entrou. Ainda que as más-línguas, sobretudo da família, dissessem que sem o Ximbica…

Começou a namorar com a Jacinta, dactilografa, dos escritórios de Sete Rios. Onde passeavam, onde haviam de passear? Pois, no Metro, de mão dada, os túneis eram escuros mas as carruagens muito iluminadas, nem um beijinho ao de leve podiam trocar. Quando havia lugar, sentavam-se lado a lado, o calor de um passava para o outro, era quase orgástica a situação. Moravam na mesma rua, isto é, ela na da Aguada, ele na da Aguada, mas Travessa da.

Vingavam-se no átrio das escadas da moça, esconsas, a lâmpada do tecto apagara-se, se calhar fora ele dizia a vizinhança, era um fartote. Mão na mão, mão na coisa, coiso na mão, coiso na coisa é que não, dizia a Ritinha apanhadeira, uns anos bem puxados, 43 sussurrava ela, upa, upa, somassem-lhe mais uns, largotes, em cima. De resto, em cima gostaria ela que se lhe pusessem, mas isso já fora. Ninguém lhe queria já saltar para a espinha.

Aqueles momentos de êxtase ninguém os via. Mas já corria na rua comum, que muita gente sabia dos combates amorosos sem luz. Um dia, quando vinham da estação, uns tipos que se diziam amigos do Martelo entraram de cantar trova muito em voga na boca dos do Ouro Negro. O Milo e o Raul, acompanhados de coro, avançavam num «É só marmelada, é só marmelada» que caíra no goto. Era isso que essa gajada entoava com requebros sacanas.

Tinham jurado reciprocamente que, com o rebentar da guerra do Ultramar (havia quem disse colonial, citando que até havia um Bairro das Colónias), se ele fosse para África, o mais provável, ela esperaria por ele para, na volta se casarem. Coisa que ficou rigorosamente entre os dois, não fosse o diabo tecê-las. Os pais dela - nem pensar. Não queriam um chofer de cano de esgoto para a filha, que até fizera a Patrício Prazeres e com boas notas.

Os Martelos – tanto se lhes dava. Se a Jacintinha fizesse feliz o Manel, estava tudo bem. Ainda que a Dona Benvinda tivesse as suas dúvidas, uma mulher que trabalha com homens num escritório, não sabe fazer umas pataniscas e um arroz de feijão, não passa a ferro umas calças a precisarem de vinco, não passaja, pior, não prega um botão. Mas isso era lá com ele. Quem boa cama fizer, nela se há-de deitar.

Vai daí vieram as sortes, apurado para todo o serviço, mal parecia que assim não fosse. Na bicha de homens nus, tinha à sua frente um tipo alto, esgrouviado, com ar de pacato e um coxo, um perneta, pois lhe faltava o pé esquerdo. Este sorria, na perspectiva da escapadela por mor da deficiência. O coronel da Junta, mesmo antes da pronúncia dos médicos – este está apurado para os Serviços Auxiliares.

Interrogações pairaram no ar? Sem um pé e apurado? E um dos médicos, por certo miliciano, arriscou, ó meu coronel, mas o homem não tem um pé. Deixe-se disso, doutor. Na recruta fica dispensado de marchas e formaturas. Depois, no quartel, sentadinho a uma secretária, não precisa das patas para escrever guias de marcha e outros papéis. Na vida militar há soluções para tudo. Só para a morte é que… Mas disso, encarregam-se os cangalheiros - e já está.

Entreolharam-se os actores daquela estúpida comédia. Muito mal deviam ir as coisas para que tal acontecesse. Na tropa, tudo se resolve, ou quase. Ao mancebo alto o sargento do livro de registos, esferográfica à merceeiro, atrás da orelha, perguntou se sabia nadar. Sei. Então vai para a Marinha. E o calmeirão: porquê? Já não há barcos? Vais ver se há ou não há, fuzileiro nas bolanhas da Guiné. A ameaça saiu qual rajada de Breda.

Resumindo e concluindo: ali fora parar, a Nambuangongo, que só se dera conta o Martelo de que tal existia, lá no cu do Mundo, através da RTP e das fotos de um tal Fernando Farinha. Ouvira contar os feitos do coronel Maçanita, já lendários, que comandara a coluna saída de Luanda e reconquistara aos cabrões da UPA a localidade. Agora, está ele, Manel para os amigos e camaradas de armas. Nesta situação inconcebível tempo atrás, mas real, palpável e preocupante.

O pessoal afadiga-se no afã de safar o camião da enrascada em que se metera. Soldados, camionistas e ajudantes destes bem empurram, assoprando pelo esforço desumano. A besta metálica, porém, à tona da terra movediça quase tanto como as areias, não se move. Pelo menos, não aparenta. Nem faz nada por isso, na sua inércia ferrugenta. Parece.

Já se tentou com os macacos hidráulicos de diversas viaturas do MVL, se calhar de todas. Mas o atoleiro não permite apoios. Resvalam e há o perigo da camioneta cair pela ribanceira que tem de um lado. Estão agora a tentar meter sob os pneus (?), se lá se conseguir chegar, ramos de árvores e os tapetes de outras viaturas da coluna. Para o rodado se agarrar e não girar em vão, atabalhoadamente.

Na frente está uma Matador, velhíssima, o cair de podre disfarçado pela tinta de camuflagem. Mais provecta do que a GMC, talvez da guerra dos cem anos, quem sabe. Pelo menos, das invasões napoleónicas... Que, porem, possui um guincho potentíssimo, a correntes. Um camionista mais engenhocas conseguiu arranjar um cabo de aço, fortíssimo, ainda que fino. Mas maleável. Enrosca-se o mesmo na argola da frente da corrente e logo surgem as cordas mais diversas que vão cobrindo e manietando o engate.

C’um escafandro, recomeça a chover. Aumenta o chiqueiro. Não aumenta. Foi só uma ameaça, uns pingos mais gordos, chuva passageira, vá malta, arriba, vamos tirar esta merda daqui. Range o guincho em sons metálicos de arrasar ouvidos sãos mas incapazes de aguentar tamanhos decibéis. O motor da Matador rosna violentamente e há mais três camionetas a puxar pela GMC ao mesmo tempo – ou quase.

Uma chinfrineira monumental, a que se juntam as pragas do pessoal, os incitamentos, agora é que é, puxem seus macacos. Os pneus da enterrada continuam a girar em vão, fazendo saltar sobre a gajada pedaços esponjosos de lama. Vendo que a gente está quase a baixar os braços e desistir, o Manel solta um grito: desencavem-na que eles chegam. E, no meio da confusão, dispara umas rajadas para o ar.

Entre a fuga e o desenterro, os homens, cientes de que, de uma ou outra forma podem ser trucidados pelos turras, incham peitos e respiram fundo – e puxam, porra!, como puxam. A Matador estremece. Será que o guincho se vai soltar de tanta força e podridão? A GMC treme, oscila, arfa-lhe o motor que o Zequinha seu condutor ligou e calca o prego a fundo.

A enorme caranguejola parece animar-se. Os pneus, prenhes, tentam agarrar qualquer coisa. E um dos ajudantes, o Chipande, mete-se-lhe por baixo e bota uma lona de cobertura. Um estrondo e um brado: a puta mexe-se! Mexera-se a prisioneira do lodo pantanoso e vem penosamente para fora dos enormes buracos que abrira no chão. Malta, não a deixem escorregar! Ninguém arreda, muitos escorregam – mas a GMC não.

Quando param e a camioneta está salva, aí lembram-se todos do chegam eles! Fazer segurança, seus sacanas, que os capados tramam-nos. Prás valetas, já, armas destravadas, culatra atrás. Só o Martelo, consciente do que fizera, não entra na contradança. O alferes que comanda o MVL dá-lhe um berro: alapa, capado! Estás que te borras! Nem te mexes!

Porem, o capitão Salzedas, do SGE, lateiro como lhe chamam, curtido de muitas vidas, levanta a voz: ó nosso amigo (não se pode dizer a patente, nem trazer galões ou divisas) não grite mais. Se safámos a viatura – e de que maneira! – foi graças a este senhor gajo. E, na calma dos seus 51 anos, explica o artifício do Manel, o chegam eles como empurrão último para se atingir o objectivo: desenterrar a GMC.

Há um suspiro de alívio, tão fundo que se deve ouvir no aquartelamento de Nambuangongo, ali a uns doze quilómetros. O furriel Castanho até comenta que o desabafo da adrenalina foi mais ruidoso do que o cagaçal feito para exumar o camião. Voam pelo ar gargalhadas, muitas nervosas, foda-se, assim é mais porreiro. Eles não chegaram, nem vão chegar. Não andam por ali.

Gente, se andassem estava armada uma maka de três em pipa. Teriam limpado o sebo a toda a malta, empenhada no esforço hercúleo, as canhotas abandonadas no capim, segurança uma ova. E eles nem esboçariam um arremedo de defesa. Seriam caçados como coelhos à boca da lura. Teriam sido, sim senhores, mas, felizmente não foram.

Acalmados os ânimos, refaz-se cuidadosamente a coluna – os filhos da puta não vêm por ali, definitivamente – e ala que se faz tarde para Nambo. Onde, três horas depois, são recebidos com palmas e hurras. Salvaram a GMC e salvaram-se eles. O coronel comandante vem cumprimentar o alferes Figueiredo pelo feito, mas este chama o Martelo que se chega e faz a continência.

Vossa Excelência, meu Coronel, saiba que foi este homem que nos safou. O coronel franze o cenho. Junta-se ao grupo o capitão Salzedas e à compita com o Figueiredo, quase se atrapalhando um ao outro, contam, tim-tim por tim-tim, o feito do Manel. O comandante ouve. Puxa uma fumaça do cachimbo que, entretanto se apagou – caso raro com tal proprietário – remexe no fornilho, chega-lhe um fósforo dos grandes, Quinas.

Ouve, cada vez com mais atenção, no meio do silêncio que se fez, a malta esbodegada calou o vozear e segue, impressionada, o relato sincopado, mas perfeitamente perceptível. Os kikos que andaram pelo ar, estão agora nas cabeças dos seus donos ou nas passadeiras dos ombros das fardas. Um soldado fuma no côncavo das mãos para disfarçar, porque não pedira licença ao coronel para o fazer.

As vozes dos relatores vão subindo de tom, acicatadas pelo entusiasmo de ambos. Nem o Amadeu José de Freitas, a relatar um Benfica-Sporting na final da Taça de Portugal, no Estádio Nacional, chegaria a tais exaltações. Vão chegando ao fim os cronistas daquela batalha. Salzedas, que passou com mérito o seu exame para oficial na Escola Central de Sargentos, em Águeda, já lá vão uns anitos, sorri.

Admirador confesso do Fernão Lopes, do Gomes Eanes de Zurara e afins, até do Mendes Pinto, grande inventor, revê, naquelas frases encomiásticas que ele e o Figueiredo usaram, a escrita de tais autores. Quase se sente – não em Nambuangongo – mas na corte, com o rei sentado no trono, o queixo apoiado numa mão, escutando os feitos contados pelos historiadores. Que, naquelas alturas, ainda não sabiam o que eram bem, muito menos que ficariam para a História. Estórias.

Jacinto Figueiredo, aluno de Económicas do ISEF, alferes miliciano atirador, está mais cansado do discurso do que estava aquando da cena na picada. Talvez não seja bem assim, mas parece-lhe. Esfumam-se os últimos arranques e a soldadesca rompe em aplausos agora próximos da loucura. O coronel Machado levanta-se e do alto do seu metro e oitenta e muitos, manda que se faça silêncio.

Que cagada, pensa o furriel Castanho, nem se pode aplaudir um sacana com eles no sítio. A tropa é mesmo assim, nem uma bufa baixinha se pode soltar. E pensava ele que o comandante não dava essa impressão, mas era um gajo pachola. Agora, porém, manda e a maltosa obedece. Quando voltar à vida civil, ele que é cafuso do Lobito, vai deixar o escritório onde trabalha, da Companhia Nacional de Navegação, e pira-se para Benguela, onde entrará no Rádio Clube, a estagiar como locutor.

Então, sim, então já não estará às ordens dum filho da mãe de um coronel qualquer, e poderá dar largas ao microfone de elogios ou de críticas. Claro, com conta, peso e medida, para que a Censura não o trame. E imagina-se nas ondas hertzianas, a dar verdades, só verdades, nada como o Ferreira da Costa que arrota quotidianamente excrementos de mentira no seu «Rádio Moscovo não fala verdade». Seu, dele. Que cabrão! Ele, não, ele dirá tudo o que puder. Mas, sem falar, obviamente, no direito a ser indendente que a sua terra tem. Porra!


O coronel abre, finalmente a goela, ao mesmo tempo que dá um passo em frente e, sem cerimónias, abraça um Martelo aparvalhado. És um gajo valente, esperto, inteligente e oportuno. O soldado, meio envergonhado, retribui o amplexo, enquanto o oficial lhe dá palmadinhas nas costas. Vou propor-te para a Medalha dos Serviços Distintos, de oiro e com palma.

E, claro, vais gozar uma licença alargada, quase uma graciosa como as dos funcionários públicos. No Puto, está bem de ver, bem a mereces. Para já, vou mandar-te ao nosso general CEMRMA, em Luanda, para que ele te conheça. Martelo, liberto dos braçorros do comandante, se tivesse um buraquinho de formiga ali ao pé, enfiava-se pelo chão dentro.

Carago, ele não fizera mais do que desenrascar-se a si próprio e ao pessoal e à GMC e à Matador e às outras camionetas da coluna. Fora só isso. Pede autorização ao comandante e diz-lho mesmo. Ó meu safado: ainda por cima és modesto, nada de emproanços, para ti foi tudo simples, apenas uma artimanha. Foi, mas muito bem engendrada, rápida e coroada de êxito. Oportuna. Tens de ser recompensado, ó Martelo.

Já o trata pelo nome, deixou de ser o 1674/68, mais um bocadinho era de 69, sabe-se lá para o que um homem está guardado. O coronel volta-se para a maralha: bebidas à discrição. Nada de Mosca, Constantino ou L34. Hoje emborca-se o uísque e o gin que vinham e vieram na GMC. Graças ao Manuel Martelo. Não quero bebedeiras! No entanto, os que se enfrascarem não dêem nas vistas. Metam-se nas casernas, xixi e cama.

As sentinelas e o piquete bebem só umas pinguinhas. Serviço é serviço, conhaque é conhaque. Voltam os vivas! Castanho rectifica rapidamente o curso do pensamento. Afinal, o nosso comandante também se emociona. Quase jura que lhe viu os olhos embaciados, mas, pode ter sido da chuva miudinha que voltou. Sempre tinha razão, o homem era outra loiça, afinado, duro, mas competente. Humano.

Um homem, mais a mais coronel, não chora. O Martelo também não chorou, nem chora. Gajo com um par de tomates maior que os do padre-inácio. Em tempo de guerra não se limpam armas e o tipo provou-o. Quem sabe, se calhar nem se deu conta do que fizera. O oficial chama-o. Ó Castanho, venha ali ao meu quarto que vou fazer a informação e o despacho e você tem jeito para isso, embora seja atirador. O furriel faz, muitas vezes, esse serviço, Machado tem absoluta confiança nele.

Assim fazem. Mário Machado dita e João Castanho começa a escrever. Meu comandante, isto já é tarde, também não é dado e arregaçado. Não há pressa. O Martelo não segue já. Vá-se deitar, durma, sossegue. Foram muitas e alterosas emoções, que eu bem vi. De uma só vez. Não é por mim, sabe que estou sempre pronto e, nomeadamente com uma pessoa como o meu coronel não se pode dizer que não; eu, pelo menos, não posso. E veja, não lhe estou a passar a mão pelo pêlo.

Sei, Castanho, sei. Já lhe tenho dito que você é insubstituível, embora saiba que os cemitérios estão cheios desses insubstituíveis… Mas, sabe, eu não gosto de deixar para amanhã o que posso fazer hoje. E, inesperado, uma confidência: desde miúdo que aprendi isso com o meu avô, depois com o meu pai e depois ainda com a minha mãe, já viúva. Vá, continue e se tiver algumas dúvidas do que eu disse, corrija-as e venha mostrar-me para assinar.

O furriel acaba os apontamentos, ele sabe alguma coisa de estenografia, assim é mais fácil. Estranho, o gajo ditou mais depressa do que o Manuel Faria a correr e a ganhar a São Silvestre de São Paulo. Não é costume. Mais pausado, mais pensado. Mas, que se lixe. Assim quis o comandante, assim se faz. Manda quem pode. Sai e vai passar à máquina do Canelas, esse sim, escriturário, mas que dá erros que são barbaridades. O sacrista diz que é da máquina de escrever, uma Remington, que tem as teclas tortas. Olha lá, bandalhote: um mau dançarino diz sempre que o soalho está inclinado.

Volta. O Coronel lê, concorda e assina com a sua letra cursiva e regular. Castanho cobre o nome com o carimbo da ordem, meio azul meio roxo, a guerra não dá pra mais. Pra armas sim, agora pra carimbos de borracha… Despede-se, pede licença para se retirar, vai meter a papelada no malão respectivo e entra na farra que está ao rubro. O Vat69 e o Gordons escorrem pelos gorgomilos que é uma festa. E o Boresford e o Jonnhy Walkers, até o Monkies.

O Martelo aproxima-se, um tanto zonzo mas não encarraspanado. Alegre. Ainda. Ó Castanho – tratam-se assim, de tu, tinham feito serviços, guardas, emboscadas, golpes de mão, sempre juntos, daí o terem deixado cair o meu furriel da ordem – achas que isto é um sonho ou quê? ‘Da-se, não é sonho nenhum. É uma realidade bem verdadeira. O nosso coronel já assinou tudo. Podes emborrachar-te à vontade… Vais ver a tua Jacinta, com medalha ao peito, os teus futuros sogros ainda tiram uma foto de braço dado com o quase genro herói. Vais ver.

No dia seguinte, de manhã, como o comandante se atrasasse para o mata-bicho foram dar com ele estendido na cama, um meio sorriso na face fria. O Capitão Salzedas, chamado a correr, comentou em surdina, coitado, acordou morto. O médico da Força Aérea, o tenente Castilho mais não fez do que confirmar o óbito. Foi ataque de coração enquanto dormia. Dispenso a autópsia.

Castanho está desesperado. Compreende, de repente, quanto gostava do coronel, quase um segundo pai, para ele. E rumina. Se tivesse ficado um tempo mais com Mário Machado, talvez lhe tivesse podido valer, sabe-se lá, a sorte é uma puta desmiolada. Um copo de água, uma aspirina LM, um uísque e poderia ser que o comandante tivesse escapado. Guardou para si o pensamento e não disse nada. Descanse em Paz.

O Martelo, esse, nem quer acreditar. Lá se vai tudo por água abaixo com o falecimento do nosso comandante. Chiça!, ele bem sabia que não fora mais do que um sonho, os prémios, a viagem, sabe lá ele mais o quê. O Castanho sossega-o. Está tudo escrito, assinado e carimbado. Às duas da tarde o heli leva-te a Luanda. Depois da visita da praxe ao nosso general, o Boeing leva-te para Lisboa. Não te precipites. Não te amofines. Ainda não levas a medalha, mas lá chegará.

Ora bem, sendo assim, ainda ia pensar se tirava ou não a fotografia com os pais da Jacinta. Sim, isto porque um herói é um herói e um cão é um bicho. E, calha bem, talvez eles nem ficassem no boneco.


quarta-feira, setembro 19, 2007





ORA TOMA...

Lisboa «deambulada»
pelo Victor Nogueira

Antunes Ferreira
O Victor Nogueira é impagável – e imparável. No seu blogue ao (es)correr da pena (que já recomendei, recomendo e recomendarei) vai, desde há uns tempinhos deambulando por Lisboa. É obra, minhas Senhoras e meus Senhores. O nosso homem não pára. Tudo o que encontra nesta capital que é nossa, vá de registar. Constrói, assim, uma cidade de muitas colinas e muitas obras de arte e outras, até nas artérias.
Este apontamento é uma homenagem a Lisboa, mas também ao Victor que no-la traz de forma airosa, interessada e interessante. Recria-a perante os nossos olhos, o que - pelo menos para mim, alfacinha e orgulhoso de o ser – é cometimento para longa duração porque longo é o caminho a percorrer, sedimentado pelo já percorrido. Vai em frente, Victor. Não te alerto para eventuais distracções – porque tu não te distrais. Vai, Victor, vai. Continua.

quinta-feira, setembro 13, 2007


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O APANHA BOLAS

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¡Qué puñetazo!


Antunes Ferreira
Hoje pela uma da tarde, entrei numa loja da Plaza Mayor. Madrid ia começando, um tanto sorumbática, a ver-se invadida pelas folhas pré-outonais, com quem os homens da limpeza lutam denodada, mas um tanto improficuamente. É assim por toda a parte desta Europa dita unida, por que bulas não havia de ser na cidade do medronheiro e do urso?
«Buenos días caballero. ¿En que puedo servirle?» «Yo quiero una gorra de esas de marinero, sin embargo impermeable, para el invierno». «¿Como no? Las tenemos en Teflón, no hay lluvia que les preocupe, por supuesto». «Vale». «¿Y Usted - donde?» «Yo soy Portugués». Don Fernando Vasquez não acredita. «No puede ser…» ¿Quiere que le enseñe mi carnet d’ identificación?»
«Pues que sí. ¡Tiene Usted un entrenador de fútbol, el brasileño ese, el señor Scolari que ha pegado un puñetazo ayer en uno de los nuestros! Ni hablar…» «¿Cómo de los vuestros? El tío es serbio, no es español…» «Pero fíjese que Drago es jugador del Sevilla. ¿Sabe lo que le digo yo? Scolari tiene que ir de entrenador de boxeo…»
É isto, Vou a correr comprar a Marca, traz a fotografia do puñetazo de Scolari. Sem comentários. Chego a Lisboa, à tarde, e o taxista que me traz do aeroporto diz-me que o Scolari já pediu desculpas – mas que desculpa não cura. Também acho.
Só nos faltava esta. Scolari? Que venga otro, aunque sea español. Mas que não seja o Luis Aragonés. Para tristezas – já basta.
(A capa do Record de hoje é prova flagrante do desvario do brasileiro. E o título: um achado. Com a devida vénia ao diário desportvo aqui a reproduzo.)

sábado, setembro 08, 2007


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O APANHA BOLAS
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Ou oito ou oitenta

Antunes Ferreira
Ora cá temos o célebre duche escocês. Perante a multidão que enchia literalmente o estádio da Luz, e com o jogo aparentemente controlado, tudo parecia serem rosas no regaço dos Portugas. Mas, eram espinhos. O público, tipicamente lusitano, nos momentos difíceis cala-se, ou, pior, assobia; nos de alegria transfigura-se euforicamente. Ou oito, ou oitenta.

Veja-se o comportamento dos três mil polacos que se encontravam nas bancadas: o apoio à sua selecção, sobretudo no período em que se viram em palpos de aranha face à endiabrada pressão dos lusos. Pareciam 300 mil. No entanto, após o golo milagroso de (quem havia de ser) Cristiano Ronaldo, o pessoal começou a cantoria calina: só mais um! Só mais um! E os polacos fizeram-lhe a vontade…

Não interessa aqui acusar o Ricardo de ser frangueiro, tanto se tem dito, repetido, tripertido a anedota. Não me detenho aqui a criticar Scolari porque devia ter posto o Quaresma desde o primeiro minuto, porque devia ter convocado mais um ponta de lança, porque tardou nas substituições. A selecção nacional podia ter ganho – mas não ganhou. Nem perdeu, só para acompanhar o Amigo Banana. Empatou.

Parece que nos especializamos em ser uns empatas. Nos relvados e noutros locais e horários. Louve-se uma circunstância: muito fizeram os nossos para alcançarem a glória. Ficou-se pelo insípido 2-2. Como dizia o rifão, adaptado, ontem, na segunda circular, há dias em que não se pode sair de casa… à noite.

(Foto Maisfutebol.iol.pt)



O PC passou-se.
Perdeu toda a legitimidade para criticar, mesmo de forma ambígua como é habitual, os terroristas.



Emídio Rangel
Setembro vai começar a arder. Este fim-de-semana é a Festa do Avante. Independentemente do arraial, sardinhas assadas e vinho a copo, das cantigas, conferências e debates, a Festa do Avante é, tem sido sempre, a rentrée do PCP com uma muito escutada intervenção política do secretário-geral dos comunistas.

Hoje, como sempre, o discurso do líder do PCP não sofrerá grandes alterações. Desde a primeira Festa do Avante até agora os discursos são quase todos tirados a papel químico. É a crítica mais dura do ano ao primeiro-ministro que está então no Governo. Todos são brindados de maneira semelhante pelo PCP, com tiradas muito parecidas como “o primeiro-ministro X, Y ou Z desferiu um ataque feroz aos direitos dos trabalhadores e às liberdades políticas”. Ninguém se salva.

Todos os primeiros-ministros que tivemos até hoje, na opinião do PCP, são maus, gastam o seu tempo em maquinações contra a classe trabalhadora. O deste ano, ao que dizem, vai um pouco mais longe, ao afirmar que no Governo de Sócrates há “sinais de um cariz fascizante”, obviamente, prosseguindo a “política de direita” dos governos anteriores.

Estou em crer que haverá muito boa gente que adivinhará o teor do discurso, o seu alinhamento, até mesmo as suas frases (sound bytes) para títulos nos jornais. É curioso... Para o PCP todos os governos são iguais... mas para os cidadãos todos os discursos do PCP também são iguais. Este ano porém, haverá uma novidade que julgo figurará no discurso de Jerónimo de Sousa – o acolhimento político e fraterno às FARC (Forças Armadas e Revolucionárias da Colômbia), uma organização terrorista, condenada por todos os membros da União Europeia e por todos os países democráticos, que tem praticado sinistras acções de guerra sem quartel, aumentando as dificuldades da população mais pobre da Colômbia.

O PC passou-se. Perdeu toda a legitimidade para criticar, mesmo de forma ambígua como é habitual, os terroristas que procuram atingir alvos na Europa e em todo o Mundo e que criam aos governos sérias dificuldades no combate a esses activistas. Veja-se o que se passou nos últimos dias na Alemanha, relembrem-se os cenários de horror em Londres, Espanha e Nova Iorque, onde morreram inocentes de todas as faixas etárias, extractos sociais, credos religiosos e convicções políticas.Não é possível ter uma posição dúbia nesta matéria.

O PCP precisa urgentemente de se reformar, actualizar conceitos, para poder continuar a ser o partido que defende os trabalhadores portugueses. É que os trabalhadores repudiam, com elevado grau de certeza, a homenagem que o PCP vai fazer na Festa do Avante aos terroristas da Colômbia. O PC vai pagar um preço político por isso. Nem os jovens, nem os trabalhadores, nem as mulheres, nem os intelectuais, nem os velhos, nem os reformados.

Ninguém em Portugal aceita o terrorismo, muito menos depois do 11 de Setembro. Vive-se agora a fase mais intensa de uma luta surda contra grupos terroristas que dispõem de todos os meios para criar cenários de tragédia. Portugal não está fora desse cenário. Como é possível nesta ocasião difícil vitoriar grupos terroristas? A lista de crimes das FARC é extensa e sanguinária. Se tivéssemos em Portugal o juiz Baltasar Garzón estes ‘FARC’ já não saíam do País. Iam responder em tribunal pelos seus crimes.
(In Correio da Manhã)


A minha concordância

Sou amigo do Emídio Rangel há muitos anos. Desde Angola, mais precisamente. Trabalhei com ele – e tive muito prazer e orgulho de o fazer – na nossa TSF. Na SIC, ainda tentei colaborar, mas não deu.
Lembro-me de, numa noite qualquer, na Trindade, onde ambos jantávamos, mas em mesas separadas, me ter levantado, ido ter com ele, e lhe ter dito da minha vontade de participar nessa nova aventura. O Rangel, para além de ser um excelente profissional, sempre foi homem de iniciativas múltiplas e eu, nessa altura fazia comentário sobre política internacional nos dois canais da RTP. Aliás também os produzia na TSF. Era pois, muitíssimo sugestiva para mim, tentar uma nova televisão que nascia. Adiante. Chorar sobre o leite derramado é, cada vez, mais estúpido.

O Travessa do Ferreira transcreve hoje, a sua habitual coluna no Correio da Manhã. Não pedi autorização para o fazer, ó Emídio desculpa-me, mas se o tivesse feito era certo que teria o seu ámen.

Concordo com o que o Rangel escreve, neste particular, como em muitos outros. O Partido Comunista Português defende a solidariedade internacional, o chamado internacionalismo proletário, que já Lenine pregava e que continua a ser uma bandeira sua. Concordo, como princípio; não, como dogma. Sou pela fraternidade entre os homens, sem distinções de credos religiosos, sexuais ou políticos. Não é o mesmo. O PCP fica na sua – eu na minha.

Já no que concerne à Festa do Avante – que por diversas vezes visitei – neste ano não volto lá. Posso encontrar-me, a uma esquina desconhecida, com terroristas ou seus representantes para exportação. Duvidam? Então leiam o que se tem publicado sobre o assunto FARC e, em especial, este texto do Emídio Rangel.

Quanto às críticas ao actual Governo – eu, ralado, como diria o Vasco Santana. Volto a estar com o Rangel. De tão repetidas, de sempre repetidas, já não chegam a nenhum lado, exceptuados, obviamente os comunistas. Mas, quantos entre estes já terão também as suas dúvidas? Como ninguém do partido com paredes de vidro diz nada, até posso pensar que o silêncio é concordância. Ou então, estão todos proibidos de o fazer. Liberdades…A.F.


terça-feira, setembro 04, 2007



Goa pode ser uma mais-valia

para Portugal na Índia

- diz Sérgio Mascarenhas da Fundação Oriente





O Constantino Hermanns Xavier é um faz-tudo. No bom sentido do termo, é claro. Filho do Aurobindo Xavier, Professor Universitário e Goês, Amigo de longa data - vivia na antiga capital do chamado «Estado da Índia» dos Portugueses, no mesmo prédio habitado por minha mulher, Raquel - e da Margarte Hermanns Xavier, alemão «convertida a Goa» que até cozinha à moda da terra, ele está a fazer a sua tese de doutoramento em Deli.

É um entusiasta por todas as causas, nomeadamente as do relacionamento luso-indiano. E um privilegiado, pois vive na capital da Índia. Tem tempo pata tudo o que se possa imaginar. Até para ser um excelente jornalista. O «Expresso», a «Revista Atlântico», a «Voz de Goa», a Rádio Renascença (colabora em todos) são disso o testemunho. Cada vez mais que o dia, para ele, tem 36 horas bem contadas...

É deste bom Amigo - ainda tem tempo para o ser, o que muito me honra - que hoje o Travessa publica uma interessante entrevista. E que, estou certo, os leitores Goeses (tenho alguns...) terão interesse em ler aqui. Que pode ser lida já de seguida. Obrigado, Constantino.
A.F.



Constantino Hermanns Xavier
Numa entrevista exclusiva para o Supergoa.com, o delegado da Fundação Oriente na Índia faz um balanço dos seus sete anos passados em Goa. Em vias de regressar a Lisboa, observa um crescente interesse português pela Índia e sublinha a importância estratégica que Goa poderá vir a ter nas relações luso-indianas.


Sete anos depois de ter chegado a Goa, Sérgio Mascarenhas dá por terminado o seu mandato, representando a Fundação Oriente na Índia. Regressa a Lisboa nos próximos dias, deixando vasta obra feita pela promoção da língua e cultura portuguesa em Goa. Acima de tudo, assumiu-se como uma das figuras-chaves no relacionamento luso-goês e conhecedor profundo das principais dinâmicas políticas, sociais e da vida cultural goesa, onde colhe grandes simpatias.
Sérgio Mascarenhas será substituído por Paulo Varela Gomes, igualmente conhecedor profundo de Goa e da história luso-indiana, actualmente professor na Universidade de Coimbra, que assim volta a ocupar o posto que deteve nos anos noventa.


Supergoa - Qual o balanço pessoal que faz da sua estadia em Goa?
Sérgio Mascarenhas - Estes sete anos na Índia e em Goa foram muito enriquecedores para mim pela diversidade de gente com quem contactei, contacto com culturas diferentes, políticas diferentes e sensibilidades diferentes. Além disso, Goa oferece um estilo de vida muito confortável e agradável.
É certo que temos que aprender a lidar com os inconvenientes da falta de eficiência dos serviços básicos, mas também somos poupados a muitos dos inconvenientes da vida ocidental.

Sg - Sai num momento em que emerge em Portugal um interesse renovado por Goa, e a Índia em geral. Num olhar prospectivo, como antevê as relações luso-indianas, particularmente em Goa?
SM - É-me praticamente impossível antever o que vai suceder. Desde logo, parece-me que o interesse actual é comparativamente muito pequeno quando equacionado com o que despertam a Europa, as Américas ou África. Por outro lado, pode ficar-se por um entusiasmo passageiro, desfeito ao primeiro embate com os «particularismos» indianos.
Finalmente, disponho de muito poucos dados sobre o que é verdadeiramente significativo para podermos antever um futuro risonho para aquele interesse e relações: Qual o investimento que foi feito em Portugal, ao longo destes sete anos em que estive ausente, num conhecimento profundo da Índia? Que estruturas, investigação, intercâmbio, circulação de pessoas, etc. é que foram criadas? Há sete anos não havia quase nada. Se o panorama de hoje for o mesmo, não antevejo grande futuro para as relações luso-indianas.
Mesmo assim penso que o futuro será melhor do que o passado. Embora, como disse, não disponha de muitos dados, posso constatar uma maior circulação de portugueses por estas partes, quer ao nível de turistas, quer ao nível de representantes de interesses económicos; a nossa embaixada foi reforçada com mais pessoal diplomático o que reflecte uma mudança na política do Estado para a Índia; sei de centros de interesse académico em Portugal centrados na Índia.
Deste lado há também sinais positivos: foram abertos recentemente vários consulados honorários (Bombaim, Calcutá, Catmandu) e há novos ou renovados centros dedicados à língua e cultura portuguesa.


Sg - Durante a sua estadia, que projecto mais o aliciou e cativou?
SM - É difícil seleccionar um em particular, pois ao longo de sete anos houve vários que me marcaram. Desde logo, a conclusão da obra de conservação e restauro da Capela de N.S. do Monte. Embora o maior e mais importante papel tenha sido desempenhado pelo meu antecessor, Adelino Rodrigues da Costa, coube-me acompanhar uma fase particularmente interessante, a respeitante ao restauro da arte sacra.
A Capela da N. S. do Monte tornou-se também o centro de um dos mais interessantes desafios da Fundação na Índia, a criação de raiz de um festival de música clássica ocidental e indiana. É uma iniciativa única em Goa que já teve 5 edições e se prepara para ter a sétima no próximo ano. É organizado em parceria com o Hotel Cidade de Goa, o que assinala outro dos domínios que caracterizaram a acção da Fundação, a procura de colaborações estáveis e produtivas.
Ao nível da divulgação da cultura portuguesa as iniciativas mais interessantes têm sido o concurso da canção portuguesa de Goa que está neste momento a ter a sua 9ª edição e que é organizado com o Rosary College de Navelim.
Devo também referir o esforço de formação de guitarristas de guitarra portuguesa e de cantores de fado goeses que já nos permitiu criar um grupo de músicos e cantores com actividade regular, incluindo uma bem sucedida digressão a Deli, Calcutá e Bangalore em Julho último.
Foi-me sempre muito grato levar a nossa cultura e presença cultural a espaços hoje afastados da presença portuguesa como Bangalore, Calcutá, Querala, etc. Penso que é importante apostarmos em destinos diferentes dos que marcaram a presença portuguesa na Índia ao longo dos últimos três séculos.


Sg - Goa é um peso ou uma mais-valia nas relações luso-indianas?
SM -Tudo depende da forma como for encarada e «trabalhada». Se nos deixarmos enredar nas lutas ideológicas do passado, torna-se um peso. Se, pelo contrário, apostarmos no capital de conhecimento mútuo e nos pontos fortes de Goa na Índia ela torna-se uma mais-valia a nível político, económico, social e cultural.
A nível pessoal, um dos aspectos mais interessantes da minha actividade situou-se precisamente na necessidade de lidar com estas duas linhas de enquadramento da intervenção da Fundação na Índia.

segunda-feira, setembro 03, 2007

A língua - uma afirmação de poder
- defende Seixas da Costa

*Em entrevista ao Diário Económico o embaixador de Portugal no Brasil
diz que precisamos de mais organização para pôr o País a funcionar


Na edição da passada sexta-feira, 31, o Diário Económico publicou uma entrevista com o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa. Nela, chamou a atenção para o valor da língua portuguesa como elemento estratégico no plano internacional. Para o diplomata, a imagem de Portugal no Brasil tem vindo a mudar. "Imagine-se a surpresa dos brasileiros quando surgiu a ideia de que a TAP poderia comprar a Varig...", afirmou.
Já aqui o escrevi: Francisco Seixas da Costa é um bom Amigo. Mas isso não quer dizer que, fosse ele diplomata menos bom ou, mesmo, assim-assim, não o dissesse. Tenho perdido muito e muitas vezes por ser frontal. E tento ser objectivo – o que, por vezes, é complicado. Por isso, reafirmo: para mim Seixas da Costa é o melhor embaixador português actualmente. Por isso, e com a devida vénia ao Diário Económico, aqui transcrevo a entrevista, para que conste.
A.F.


DE - Sempre quis ser diplomata?
Francisco Seixas da Costa -Não. Foi uma mera casualidade. Estava no serviço militar como miliciano. Era adjunto da Junta de Salvação Nacional, na Cova da Moura. Um dia num café da Av. Infante Santo encontrei um diplomata que me disse que havia um concurso para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Concorri. Era funcionário da Caixa Geral de Depósitos, quando terminasse o serviço militar regressaria. Achava graça às questões internacionais, mas concorri por acaso.

DE - E ficou.
FSC - Fiquei. Éramos umas largas centenas para cerca de vinte lugares. Fez-me prova oral o então assistente de Económicas Aníbal Cavaco Silva e fui aprovado.

DE - Nunca se arrependeu?
FSC - Não. Fui gostando mais à medida que evolui na profissão. Contrariamente ao aspecto glamouroso da diplomacia, há situações de vida e percursos diferenciados que criam uma certa tensão, o que pode ter consequências na abordagem da carreira, no entusiasmo com que se olha para o futuro. No meu caso, os desafios complicados acabaram por ser estímulos.

DE - Ser diplomata é também ser político?
Em certa medida é. Os diplomatas têm de representar no exterior a política do Estado e acabamos por nos aproximar de uma afirmação política no sentido mais nobre do termo, que é o da defesa do interesse nacional.

DE - E ser político é ser diplomata?
FSC - Alguns políticos têm vocação para a acção diplomática, mas a política não é a melhor escola para a diplomacia.

DE - Sente-se a encarnar as duas peles?
FSC - Tive um período de tentação pela política. Julgo que o cumpri da forma mais profissional e entusiasmada possível. O ciclo fechou-se.

DE - Fecha a porta a uma nova experiência?
FSC - Não a tenho no horizonte. Estou a poucos anos do final da minha carreira diplomática. A partir dos 65 anos não podemos continuar no exterior. Espero ter a oportunidade de até lá me realizar na profissão.

DE - Não gosta da linguagem ‘sanitizada’ da diplomacia tradicional. O que é um diplomata menos tradicional?
FSC - Talvez a circunstância de ter passado algum tempo na política me tenha aculturado a uma forma de expressão pública um pouco atípica. Sinto, por vezes, uma tentação para a franqueza que é superior ao que procura seguir a generalidade dos que utilizam o discurso diplomático. Até hoje ainda não vi grandes desvantagens nisso.

DE - Um ‘não’ de um diplomata é diferente dos outros ‘não’?
FSC - Há um pouco a ideia de que aquilo que um diplomata diz não significa aquilo que quer dizer. Isso está ligado a uma precaução e a um cuidado da diplomacia com a linguagem. No entanto, o principal elemento que caracteriza o sucesso da vida diplomática é a credibilidade. Quando se diz um ‘não’ é preciso que os outros acreditem que é efectivamente um ‘não’. Na relação entre Estados, é preciso que quem nos ouve saiba claramente o que queremos dizer. Por exemplo, uma deadline, ‘não podemos aceitar isto’… Temos de ter a certeza de que quem o diz está a reflectir a posição do Estado que representa.

DE - Pela sua experiência internacional, o ‘não’ de um português é diferente de outros ‘não’?
FSC - A minha experiência diz-me que os diplomatas portugueses têm um comportamento mais ou menos idêntico aos seus colegas. Vivem num mundo em que a maneira de dizer as coisas varia mais do que acontece nas diplomacias de países mais organizados. Procuram ter uma margem de afirmação que, por vezes, apresenta diferentes sensibilidades. O diplomata português tem hoje uma liberdade que pode conflituar com a passagem de uma mensagem unívoca.

Não há no MNE uma cultura organizacional

DE - Porque é que isso acontece?
FSC - Porque, infelizmente, há muito tempo, não há no MNE uma cultura organizacional que traduza uma forma disciplinada de funcionamento dos diplomatas portugueses. Assumo isto com total frontalidade. Eu próprio também funciono nesse registo porque é inescapável. Vivemos uma excessiva liberdade no modo como o diplomata português interpreta a afirmação da política externa portuguesa. O que permite alguma criatividade menos consentânea com o que o rigor imporia.

DE - Isso tem a ver com alguma instabilidade política?
FSC - Tem a ver sobretudo com a perda de alguma cultura organizacional interna.

DE - Alguma vez existiu?
FSC - Existiu em alguns momentos. Se calhar, foi a própria liberdade que o 25 de Abril trouxe que acabou por tornar menos densa essa matriz de afirmação comum dentro do Ministério. Até agora, não tem prejudicado verdadeiramente a política externa portuguesa, permitindo alguma criatividade, mas entre aquilo que um diplomata português diz e aquilo que um diplomata de países mais organizados reflecte vai uma grande diferença. Há uma latitude de afirmação que, por vezes, pode confundir o interlocutor estrangeiro.

DE - De Nova Iorque para Brasília foi um salto inesperado?
FSC - Foi via Viena [na OSCE]. O salto não foi, obviamente, programado. Pensava poder continuar por mais algum tempo a função que estava a exercer e que me parecia não estar a correr mal…

DE - Como foi recebido no Brasil?
FSC - Os embaixadores portugueses são sempre bem recebidos em Brasília.

DE - Portugal continua a exportar produtos tradicionais: azeite, bacalhau e vinho são as principais exportações. Que podemos exportar mais?
FSC - Um dos grandes problemas com que um diplomata se confronta é saber, à partida, qual é a oferta portuguesa, o que é que tem para colocar no mercado exterior. Nos últimos 30 anos, a exportação portuguesa concentrou-se nos países da UE. Tem havido falta de imaginação e uma procura de mercados mais confortáveis. No Brasil, estamos a crescer a níveis de 30% ao ano, mas partimos de uma base ridícula. O comércio português com o Brasil nos anos 70 estava zerado, como dizem os brasileiros. Determinados produtos como o calçado ou os têxteis, que faziam parte da produção tradicional portuguesa e que hoje estão em contra ciclo com a pressão da globalização, não têm espaço no Brasil. Neste momento, talvez seguindo o velho conselho de Porter, Portugal está a fazer melhor aquilo que já fazia bem. O vinho e o azeite significam alguma coisa, mas não têm reflexo significativo na balança comercial. Qualquer maquinaria dá logo um salto quantitativo. Por mais que possamos subir no vinho, e não podemos subir muito mais (somos o primeiro exportador europeu e o terceiro mundial), por mais que possamos crescer no azeite (72% do que se consome no Brasil é português), por mais que possamos crescer no bacalhau, nada disso terá consequências significativas no comércio bilateral. Temos de encontrar outros nichos de mercado, nomeadamente equipamentos com valor acrescentado, e precisamos de mais empresas a trabalhar para o Brasil.

DE - Que conselho dá a um português que queira investir no Brasil?
FSC - Que se informe bem relativamente à cultura administrativa e de trabalho brasileira. Tenho receio de que muitas pequenas e médias empresas portuguesas seduzidas por um contacto acabem por ter algumas desilusões. Estou a tentar encontrar uma maneira de garantir algum apoio, em termos de massa crítica informativa. O ICEP está a caminho de criar esses elementos de informação. Tenho um projecto de uma parceria entre as grandes associações empresariais portuguesas e as câmaras de comércio portuguesas no Brasil para se dar uma ‘almofada’ informativa de apoio ao trabalho dos empresários portugueses.

DE - Teve eco essa ideia?
FSC - Ecos relativos. Ainda não consegui montar essa operação, mas espero consegui-la.

Relações bilaterais mudaram

DE - Que mudou nas relações bilaterais nestes dois anos?
FSC - Seria pretensioso se dissesse que mudou muita coisa. Houve uma adaptação e melhor conhecimento dos titulares políticos dos dois países. O Governo português tem cerca de dois anos. No Brasil houve alguma tensão política no último ano e meio. Há agora um melhor conhecimento entre o Presidente Lula e o primeiro-ministro José Sócrates, que está a aplainar as relações de uma forma única nos últimos anos. Desapareceram pequenos conflitos de natureza técnica e comercial, no azeite, no vinho do Porto… Há um descrispar da situação dos brasileiros que vivem em Portugal, mesmo que o problema não tenha desaparecido e, eventualmente, até se tenha agravado. Vivem-se momentos de maior realismo.

DE - Houve uma nova vaga de imigrantes clandestinos
FSC - Em 2003 havia 30 mil brasileiros inscritos na Casa do Brasil, dos quais 20 mil quiseram legalizar-se e 10 mil não se apresentaram para o efeito, eventualmente regressaram ou mudaram de país. Hoje, as estimativas apontam para 70 mil brasileiros ilegais em Portugal. Isto significa que tivemos nos últimos quatro anos um surto ilegal de presença brasileira altamente significativo. O facto deste caso não ter assumido proporções públicas dramáticas diz bem da sensibilidade do Governo português no tratamento desta questão.

DE - A imagem do português no Brasil alterou-se ou ainda se confunde com o homem da padaria?
FSC - A imagem do português e de Portugal no Brasil tem vindo a mudar não só com uma presença diferente de empresários portugueses, mas também com a circunstância de haver muitos brasileiros em Portugal que levam para o Brasil a imagem do Portugal contemporâneo.

DE - Dessa imagem que ressalta mais?
FSC - A surpresa. Aquilo que mais surpreendeu os brasileiros, desde que cheguei, foi a percepção de que a TAP podia comprar a Varig.

DE - Mesmo que a TAP seja liderada por um brasileiro…
FSC - Esse é o elemento compensatório brasileiro!

DE - Porque é que o negócio não se fez?
FSC - Houve um grande realismo da TAP face à complexidade do sistema Varig. Tem uma dinâmica organizativa muito complexa e que acabou por se balcanizar em várias empresas. A TAP comprou uma delas, que aparentemente está a ter sucesso.

Um bom relacionamento

DE - Há equívocos que permanecem no relacionamento bilateral?
FSC - Há um bom relacionamento. O Brasil sabe que Portugal é na Europa um defensor dos seus interesses garantido e automático. Sabe, no entanto, que Portugal tem o peso que tem no contexto europeu e mundial. Temos de cuidar de um aspecto que talvez possa beliscar a prazo o relacionamento com o Brasil. Está a desaparecer a última geração que tinha uma afectividade natural com Portugal. Hoje há menor ligação à diplomacia da retórica… Até a nova classe política brasileira, que não passou por Portugal ou pela Europa, que não esteve aqui exilada, tem hoje referências e formas de olhar para Portugal diferentes. Há ainda um olhar negativo para o antigo colonialismo, o que é normal nos países que foram colónias, mas talvez não o seja num país emergente como potência mundial. É preciso cuidarmos da afectividade. Como dizia o Alberto Costa e Silva, que está encarregue das comemorações dos 200 anos da chegada de D. João VI ao Brasil e foi embaixador em Lisboa, a afectividade foi o que nos permitiu manter vivas e alerta as nossas relações nos momentos em que nada se passava ou em que a conflitualidade emergia. Aprendi a apreciar esse aspecto positivo da afectividade natural, mas que tem de se trabalhar e aculturar.

DE - Além da retórica, a língua une-nos tanto como poderia? A cultura portuguesa continua a ter dificuldades de penetração no Brasil. É um problema económico ou dificuldade de comunicação?
FSC - Há um problema estratégico sobre a língua portuguesa no mundo que temos de discutir. Temos de perder o sentido patrimonialista da língua. Se o português tem futuro esse futuro está no modo maioritário como ela é falada. E esse é o modo brasileiro de falar português. É preciso que se comece a dizer isto de uma forma clara. Temos hoje quatro grandes línguas internacionais de afirmação cultural: o inglês, o francês, o espanhol e o português. O resto são línguas que podem ter uma grande dimensão de falantes ou um grande peso económico (como sejam o chinês, o russo ou o alemão), mas não têm uma grande dimensão de natureza cultural. Devemos olhar para o português como elemento de natureza estratégica no plano internacional. Brasil e Portugal têm de o encarar como elemento constitutivo da sua afirmação de poder no mundo.

DS - Que se passa com a aplicação do acordo ortográfico no Brasil?
FSC - Vai entrar em vigor talvez mais rapidamente do que em Portugal. O debate é muito activo no Brasil. Por maior que seja a vontade política de caminharmos em conjunto na grafia das palavras, o que não tem a ver com a maneira de falar que será sempre diferente, o acordo tem impactos de natureza editorial muito significativos, que não podem ser descurados. Em Portugal as alterações de grafia serão maiores do que no Brasil. É preciso um tempo de adaptação, que varia de país para país. É muito mais fácil em São Tomé porque as obras aí editadas são muito limitadas…

Escritores e músicos com visibilidade

DE - Que escritores e músicos portugueses têm visibilidade no Brasil?

FSC - A Mariza e a Teresa Salgueiro são as cantoras mais conhecidas. Apesar de ter apresentado música portuguesa em programas de rádio brasileiros ainda não consegui impor Sérgio Godinho, Jorge Palma, Fausto… Confesso o meu insucesso até agora. Mas fico muito contente a ver outros avançar. Há bastantes escritores portugueses nos escaparates brasileiros: Saramago, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, José Rodrigues dos Santos… Numa livraria de Porto Alegre contei 38 escritores portugueses nas prateleiras, o que é muito bom. Há um espaço de crescimento e uma grande apetência pela escrita portuguesa. Na música é mais desigual. A grande qualidade da música brasileira não ajuda a abrir espaço à música portuguesa…

DE - Foi responsável pela política europeia nos governos de António Guterres e teve particular envolvimento na segunda presidência portuguesa da UE. Que expectativas tem sobre a actual presidência?
FSC - Creio que vai ser tão rigorosa e prestigiante como foram as anteriores. Esta começou bem com a Cimeira UE-Brasil…

DE - Como foi recebida no Brasil?
FSC - Bastante bem. Notou-se que havia da parte de Portugal, nesta que será provavelmente a sua última presidência, pelo menos nestes moldes, a vontade de corrigir uma anomalia no relacionamento da União com um país da importância do Brasil. Julgo que o gesto foi apreciado. Temos agora a responsabilidade de contribuir para aprofundar este relacionamento.

DE - Há quem afirme que o mandato que recebemos da presidência alemã sobre o novo tratado não é tão claro e exequível como muitos disseram. Há condições para aprovar o tratado de Lisboa?
FSC - Temos de ser prudentes e não pensarmos que o mandato é tão claro como alguns querem fazer crer. Na UE as coisas são sempre mais complicadas do que parecem. Mas o ambiente político que se criou à volta da aceitação do mandato como que isolou os principais problemas que possam surgir. Sabemos de onde podem vir os problemas e onde se podem centrar. Esperamos que os mesmos países que ajudaram a Alemanha a fixar este mandato sejam capazes de ajudar também Portugal a resolver as questões que possam surgir. Portugal tem a oportunidade de ligar o seu nome a um momento tão importante da UE.

DE - Como deve ser ratificado o tratado?
FSC - Não tenho opinião. Tenho apenas uma opinião pessoal contra qualquer tipo de referendo.

DE - Está em férias, de regresso ao país. De que é que Portugal precisa mais?
FSC - Rigor e organização do trabalho. Portugal vive numa atitude relativamente impressionista face ao futuro. Os sinais de que o país está preparado para aceitar um conjunto de reformas difíceis, quase consensualmente necessárias, significam que também deve estar preparado para assumir uma nova atitude em termos organizacionais. Precisamos de mais disciplina, menos laxismo, mais pontualidade, para nos tornarmos um país moderno e sermos uma sociedade de sucesso. Estamos a fazer as mudanças sobre a pressão da globalização e isso obriga-nos a queimar etapas.

DE - Sente-se isso quando se está fora?
FSC - Não tanto quando se vem do Brasil… Mas fui sentindo isso ao longo da minha vida: quando vinha da Noruega, da Inglaterra, da Áustria ou dos EUA.

DE - Será pela pressão e necessidade de ajustamento que muitos põem em dúvida o carácter socialista deste Governo? É essa a sua convicção?
FSC - Não sei se podemos ligar a actividade dos governos a uma determinada ideologia. Podem ligar-se os partidos que estão nos governos, mas a conduta governamental não deve ser vista como uma prática socialista ou liberal sistemáticas. Não vale a pena ter ilusões. Há um padrão com margens muito limitadas de flexibilidade, uma espécie de um template que se aplica às políticas europeias e que faz com que os governos não tenham espaço significativo de explicitação ideológica. Aqui ou ali é possível aos governos aplicar medidas mais liberais ou sociais e aproveitá-las para ‘vender’ a sua imagem junto da comunicação social…

DE - Quem está a falar é o político ou o diplomata?
FSC - Fala o cidadão que olha para estas questões de uma forma mais compreensiva, experiente e pragmática, desde que o pragmatismo não signifique cinismo.

Passarinho pelos blogues

DE - O que é que o seduz na blogosfera?
FSC - Seduz-me o imediatismo: ser rápida, perecível, a que muita gente acede para informação ou um apanhar de sensibilidades. Passarinho um pouco pelos blogues, ajuda-me a perceber o Portugal contemporâneo, particularmente os de jornalistas. Esmagadoramente, em Portugal, a blogosfera é conservadora. A progressista é minoritária.

DE - Pode confessar os seus grandes prazeres?
FSC - A mesa, a leitura e as viagens. Os outros são secretos…

DE - Que diferencia o gourmet do consumidor comum?
FSC - É a angústia de poder comer mal! O gourmet vive sempre no drama de ter uma desilusão na mesa seguinte.

DE - Considera-se um bom gourmet?
FSC - Não. Até porque há vários tipos de alimentos que não como. Não sou de grandes experiências gastronómicas. Sou muito clássico. Não ando à procura de coisas muito sofisticadas.

DE - De que gosta mais?
FSC - Da cozinha tradicional portuguesa.

DE - Come-se bem no Brasil?
FSC - Muito bem. Come-se melhor bacalhau em muitos restaurantes brasileiros do que na maioria dos restaurantes portugueses. A comida brasileira também é muito boa.

DE - Que mais aprecia na comida brasileira?
FSC - Gosto da comida mineira, muito ‘pobre’, mas muito saudável quanto à pureza dos produtos. Está próxima do nosso paladar, o que facilita.

DE - Tem uma lista dos melhores restaurantes brasileiros?
FSC - Tenho. Faço parte do júri da revista Veja para os restaurantes de Brasília. Estou, com um amigo, a pensar criar um blogue sobre restaurantes brasileiros. Fora do Rio e de São Paulo, os bons restaurantes são muito poucos. São Paulo é provavelmente, depois de Nova Iorque, a melhor cidade do mundo na qualidade dos restaurantes.

DE - O que é para si um bom restaurante? Que valoriza mais?
FSC - Naturalmente, a comida, mas também o serviço e o ambiente.

DE - Qual é o melhor restaurante português?
FSC - Há um critério que costumo seguir: chegado ao aeroporto de manhã e apetecendo-me ir a um restaurante, onde vou? Vou ao Poleiro, na Rua de Entrecampos, em Lisboa.

DE - Se estiver no Rio de Janeiro ou em São Paulo?
FSC - Em São Paulo, Bela Sintra, que é um restaurante português. No Rio, o Mosteiro, um restaurante tradicional português, cujo proprietário nasceu em Monção e é pai do actual ministro da Saúde do Brasil.

DE - As férias de um diplomata têm um significado diferente?
FSC - Costumo passar férias quase sempre em Portugal. É o momento de recuperação do país que perdi em 11 meses que estive fora. Conheço Portugal muito bem, de norte a sul. Considero-me um especialista em Portugal. Tenho um mapa de estradas onde vou marcando as estradas que conheço e onde quase já não há espaço. Conheço as localidades praticamente todas. Foi isso que me levou a fazer um guia gastronómico para amigos…

DE - Como são as férias deste ano?
FSC - Mais prosaicas. São passadas em Vila Real com o meu pai, que tem 96 anos e que tenho de acompanhar.

Chego aos dois livros por dia…

DE - Que anda a ler?
FSC - «A Década de Sampaio em Belém», de João Gabriel; «Nos Bastidores da Diplomacia –O bife de zinco e outras histórias», um livro delicioso do diplomata brasileiro Leite Ribeiro; «Portugal e a Integração Europeia», de António Costa Pinto e Nuno Severiano Teixeira; e um pequeno livro de Eduardo Lourenço, também sobre a Europa. Em férias chego a ler dois livros por dia. Vou ler e reler alguns das estantes do meu pai…

DE - E quanto à escrita?
FSC - Estou a escrever sobre a vida diplomática, algo que poderá ser chamado «Cartas a um jovem diplomata». Ainda está no início. Tentarei, não sei se vou conseguir, escrever um pequeno livro sobre a Europa para publicar no Brasil, uma Europa para brasileiros.

DE - O Brasil é inspirador para outras escritas?
FSC - Um colega meu, Luís Filipe Castro Mendes, escreveu no Brasil muita poesia. Mas eu sou incapaz de escrever ficção. E não tenho tempo.

DE - Memórias ficam para mais tarde?
FSC - Mas ficam para ser escritas.

DE - Se estivesse perante uma plateia que o desconhecesse, que auto-retrato faria?
FSC - Sou um servidor público, um profissional do serviço público. Não sou burocrata e olho para a vida de uma forma lúdica. É isso que procuro ser. Não sei se é assim que os outros me vêem.

(NE - O título e os subtítulos são da responsabilidade deste blogue)


Tentação para a franqueza

É quase impossível não gostar dele. Francisco Seixas da Costa é simpático, culto, franco e informado. Percebe-se isso quando o observamos no Brasil: a atenção com que é ouvido e os laços fáceis que estabelece com toda a gente. Percebeu-se isso quando foi secretário de Estado dos Assuntos Europeus, nos governos de António Guterres. Foi um dos obreiros da segunda presidência portuguesa da União Europeia e deixou marcas de grande profissionalismo. Não se esqueceu sequer de coligir, pelo seu próprio punho, um pequeno guia dos melhores restaurantes portugueses para distribuir aos seus pares comunitários… Casado, tem 59 anos, nasceu em Trás-os-Montes, Vila Real. Licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas na Universidade Técnica de Lisboa. O 25 de Abril apanhou-o na tropa e um acaso, como gosta de dizer, levou-o à carreira diplomática em 1975. Entre outros lugares, passou por Londres, em Nova Iorque foi representante permanente de Portugal junto da ONU e em Viena representante permanente junto da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Foi o negociador português dos tratados de Amesterdão e de Nice. Gosta de blogues, além dos pessoais centrados na gastronomia, criou um na Embaixada de Portugal no Brasil, muito útil para se perceber o relacionamento bilateral. Consciente da importância dos afectos, diz não se ter dado mal, enquanto diplomata, com a «tentação para a franqueza». Frontal, apoiou Mário Soares nas últimas presidenciais. Chegou a ser criticado por poder pôr em causa o relacionamento institucional com o futuro Chefe de Estado. Foi o primeiro embaixador recebido em Belém pelo novo Presidente Cavaco Silva, curiosamente o mesmo homem que lhe fez a prova oral no concurso de admissão para a diplomacia.


sábado, setembro 01, 2007




SALTEADO

Só faltavam os ratos!

Antunes Ferreira
Um calino ditado portuga diz que de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Quer no domínio da meteorologia, quer no que concerne a bodas transfronteiriças, nada há de concreto e científico que justifique o rifão. É certo que, durante séculos, como vizinhos que somos, andámos quase permanentemente à tapona; mas isso são outros contos.
Porém agora, só nos faltava mais esta: entre 450 e 700 milhões de ratos têm-se dado à destruição de centenas de culturas de nuestros hermanos. É uma verdadeira praga. E há quem diga que o pior está para vir: os roedores tentarão passar para o lado de cá, por, alega-se, já estarem fartos das dietas castelhanas; crê-se, porém, que a razão principal de tal objectivo é a falta de (re)pasto.
De Zamora até Bragança não é assim tão longe. E os espanhóis já alertam que a onda roedora se voltará para Portugal. Tiveram a devida resposta: agora já não entra ninguém aqui, a não ser as multinacionais, a UE e similares. E o Douro é guardião desse impedimento à rataria. No resto – só a convite.

Só nos faltava mais esta; já não bastavam os ventos e, principalmente, os casamentos. Desta feita, os ratos. (Estes, sublinhe-se, não têm nada a ver com os automóveis). Remédios? Os gatos? Fora de razão. Muitos seriam poucos, mesmo com horas extraordinárias. Assim, uma sugestão. Pelo sim, pelo não, ainda que os luso-governantes digam que não há perigo e é só fumaça, talvez não fosse disparate contactar os editores dos irmãos Grimm para que eles mandassem avançar o mais actualizado descendente do flautista de Hamelim.
Si non e vero…

sexta-feira, agosto 31, 2007

SOMBRA DA GUERRA COLONIAL

Sanfona dum raio


Antunes Ferreira
S
ou de Boivão. Não entendo esse franzir da testa. Toda a gente sabe onde fica, isto é, quase. É uma freguesia de Valença, que continua a mirar Tui. E faço parte do Rancho Folclórico de lá. Fazia. É melhor explicar. Hoje faço parte da Companhia de Caçadores que está colocada em Pedra Verde. Assim, só quando voltar ao Puto é que também voltarei aos viras e aos malhões. Até lá, a música é outra.

Os instrumentos são muito diferentes. Não cavaquinho, sanfona, ferrinhos ou bombo. Não senhor. Há costureiras, há granadas de mão, há G3, há bazucas, há morteiros, todos afinados para a guerra mas desafinados para a música. Sons completamente diferentes, diapasão diferente, decibéis diferente e por diante. Mais a mais, sem pauta, sem claves, sem colcheias.

Estão, se calhar, admirados de eu saber tudo isto no que ao musical diz respeito. Mas, se eu vos disser que alem de instrumentista e bailador, também era ajudante do regente, então percebem. Até já substituíra o maestro por algumas vezes. Não foi muito difícil. Com batuta devia ser muito mais; mas, nestas andanças das danças não se usa o pauzinho.

Ah, é importante que diga para completa elucidação de todos vós, que a minha conversada, a Maria dos Anjos, também faz parte do grupo. É bailadora e muito gira. Fica-lhe bem o vestido de noiva que usa nos espectáculos. Roliça, alta, bonita, tem tudo o que uma mulher deve ter e nos sítios do costume. Não conto mais nada, senão lá volto à pívea aqui do mato. É o que há.

É engraçado. O contraste do branco da vestimenta com os outros, vermelhos, fica-lhe bem. Muito bem mesmo, As arrecadas são, até, mais vistosas. Se calhar é do olho do artista, cá do Epifânio que sou eu. Epifânio dos Santos Carvalho, um criado às vossas ordens. Aliás, bem criado, com catequese e tudo, que o meu Pai que Deus tenha e a minha querida Mãe não eram de modas.

O nosso capitão Salvado, quando estávamos na especialidade de Caçadores Especiais, na Amadora, disse-me que levasse o acordeão para Angola. Assim fiz. Já no barco fora uma amante dedicada, sem protestos nem amuos, sempre à disposição. Sanfona dum raio! O Nunes, sapateiro na vida civil, classificara a instrumento. Melhor do que uma mulher: está sempre de perna aberta. E não tem o Benfica todos os meses…

Aquelas do António Mafra

Quando andámos a construir os jotacês, a estender o arame farpado e a cavar os abrigos, mal dava a noite, era um primor. O pessoal pedia-me coisas do arco-da-velha. Ó Epifânio, sabes aquela do António Mafra, no baile da dona Ester? Sabia. Sei, meus, sei. Com o Dom José de Vicente; que é de São Pedro da Cova; pra mostrar qu’inda é valente; foi dançar a bossa nova. Escorregou no soalho, caiu foi pró hospital; eram praí sete e picos, oito e coisa nove e tal.

E o carrapito da Dona Aurora que é tão bonito – fica-lhe bem. E o papagaio, tu não te metas na vida do Joaquim; ó papagaio, tem cautela ó papagaio; que a bebedeira do velho te transforma em pinguim. Outros pediam a Eugénia Lima. Alto lá, tive de explicar-lhes que era uma Senhora, rainha do acordeão, eu era apenas um mísero tocador de sanfona.

Mesmo assim, o breu era mais fácil de passar. Até ao primeiro ataque. Os gajos vieram de mansinho, se fosse o mestre diria mesmo soto você, piano, piano, pianísimo, chegaram à beirinha do arame e vá de despejar chumbo em quantidades industriais. O furriel Mendonça nem soube do que morrera, um buraquito no meio da testa e a parte de trás da cabeça – zero.

O Quim Cuecas, assim mesmo, natural de Malange, terra do feijão branco, que se auto-apelidava Castanho e era da incorporação da Província (colónia não havia), depois de passada a fuzilaria, disse tratar-se de bala de ponta romba, para elefante, entra direitinha e sai a romper tudo, mioleira e ossos, Cortam a ponta, os filhos da puta.

Abatidos foram, ainda, o Chico Rodrigues, o Caté, meu vizinho de Gondomil, ficou um passador, as tripas de fora, duas ou três rajadas de Kala ou outra assim; o António Martins, de Viana uma morteirada, andámos a varrê-lo para juntar os bocados dele e a minha concertina. Furada de lado a lado, inchada da chuva que caía, pior do que vaca prenha.

A todos se fez o funeral, com o capitão capelão, um tal Bragança. Todos foram ensacados e metidos nos caixões que ali tínhamos, com o nome e o endereço pregados por fora, a fim de seguirem para a Metrópole. Menos a desditosa sanfona. Bem tentou o Raimundinho, que arranjava pneus na civil e não era especial adepto do mulherio, tapar os buracos, nas zonas dos foles. Em vão.

Rabo de homem

Por isso, agora, já não há. Nem instrumento, nem música, nem cantigas, nem mulherio. Dizem que o Raimundinho dá um jeito… Eu nunca tentei. Rabo de homem tem pelo como o do macaco. Bom, se calhar menos. Mas, mesmo assim, como nunca experimentei… Porra! Nem conto!

Hoje estou de sentinela. Nesta altura do campeonato, o hoje repete-se indefinidamente. Com os turras aqui ao lado, a gente não os vê e, de supetão, dá merda. Sobretudo, de noite, como é o caso. Mal sonhava eu, em Boivão ou em Valença onde trabalhava de barbeiro – bom, para ser verdade, de praticante de – que meses depois estaria aqui, de quico na cabeça e arma aperrada, temendo ter de soltar um quem vem lá?

Mas, prontos. Um homem tem de pensar noutras coisas, e estar alerta ao mesmo tempo. A esta hora, por certo, o Rancho não está a actuar. São três e meia da matina e a Maria dos Anjos já deve estar no segundo sono. Deve estar a sonhar comigo, penso. Na última carta diz-me que está à minha espera, mas que não vá de licença, é caro e temos de juntar para o casório.

Pode ser que esteja descascadinha, é tempo de calor, só com o lençol por cima, nunca a vi assim, mas é como se tivesse olhado, guloso. Pelo andar da carruagem, deve ser um espanto, estendida, oferecida, eu a cobri-la de beijos, pau no ar, agora é que vai ser, amor, não te assustes, que o padre Joaquim já nos deu a bênção. Pronto.

De pau feito estou eu agora e sem a possibilidade de o desfazer. O meu padrinho Zeferino, que fez as vezes do meu falecido Pai, um dia disse-me que um homem de pau feito não é a mesma coisa que um homem feito de pau. Gostei. Aprendi. Os cabrões são meninos para vir por aí, nos bicos dos pés como as dançarinas e darem-me cabo do canastro. Era bonito, um tipo morto de piça em punho…

Vai clareando. Ouço um restolhar. São eles. Não são. É o Freitas de Sanfins que me vem render, acompanhado do cabo Felismino. Barriga. Tomates. Senha e contra-senha. Tudo nos conformes. Vou até à caserna, estou cansado de tamanha vigília, mas não tenho sono. O maluco lá de baixo também acalmou, é capaz de se preparar para dormir. Se não pensar na minha conversada, é gajo para isso.

Ainda não se pode dar umas fumaças. Tiro um AC do maço, espeto-o na beiçola, a fingir que sim. Caralho, isto é tudo um fingimento. São as colónias que não são, são províncias ultramarinas. Nas esplanadas em Luanda é o vinho que não é vinho, é banga-sumo. Ainda por cima, de abacaxi. Que devia ser ananás, mas é só abacaxi. Que mistela. É a PIDE que não é, é a DGS. Nisso, o Marcelo é que a sabe toda. Com as conversas em família vai-nos enrabando de fininho. Ganda cabrão, igualzinho ao Salazar.

O tio-avô Serafim

Sabem? Eu, para alem de gostar da música, do som, do espectáculo, também gosto do meu tio-avô Serafim que lá em Boivão dizem que é comunista. O velhote, com setentas e muitos, foi-me contando ao longo dos últimos anos, a sua vida durante a República. A primeira, avô (sempre o tratei assim, não conheci nenhum dos verdadeiros), a primeira.

O menino cala-se muito caladinho. República só há uma; melhor, só houve uma. Isto que temos é caca pura. Que rima com ditadura. Aprende, meu catraio, deixa de roçar os fundilhos pelos bancos, levanta o cu e aprende que eu não duro sempre. O Senhor Serafim fora contínuo num ministério, conhecera o Bernardino Machado, o Afonso Costa, o Manuel de Arriaga, o Brito Camacho, o Cunha Leal. Ensinou-mos todos. O Sidónio Pais, não. Era um bandido.

Toma nota, rapazinho: eu não sou comunista, mas podia muito bem ser. Só que não sou e está dito. Mas estes sacanas situacionistas, se um homem não entoa loas ao Salazar – é comunista. Lembro-me perfeitamente de ele me dizer que não podia ouvir o quem não está connosco… E acrescentava, entre duas gargalhadas acintosas – é contra nosco!...

Deu-me a ler o Capital do Marx, uns discursos do Lenine, mas também outros do Churchill. É um grande homem, não é da Esquerda, mas é um tipo com tomates, comentou. E oferecera-me umas Illustrações Portuguezas, sem e já com fotografias. Fez-me descobrir o assassino Hitler, como lhe chamava e deu-me uma História da Guerra de Espanha, editada na clandestinidade. Com um prefácio de Manuel Azaña.

Sim, porque o Leopoldo Nunes, o José Augusto – que depois viria a escrever uns escarros intitulados carta de Paris – o Cunha Júnior o Aprígio Mafra, eram todos pró Franco, o galego caganito, e as reportagens deles eram fascistas, dizia o avô Serafim. Até o Norberto Lopes, o Portela e o Mário Neves, mais inclinados à esquerda…

O Gaiolas corneta já tocou para o pequeno-almoço, que o Cuecas já nos ensinou que é o mata-bicho. O sol levantou, vai estar mais um dia de calor de ensopar um marmanjo. Com autorização do nosso capitão, os gajos que saem de sentinela podem ir comer sem fazer a barba. E o homem é duro como o aço, não brinca em serviço, mesmo aqui na mata, se um tipo mija fora do penico – é ecada à máquina zero. Do que me encarregou, o que é chato. Até para mim.

Uma mina – das nossas

É então que estala a maka. São só tiros e granadas, a esmo, para cima da malta de caneco na mão. Aproveitando a rendição das sentinelas, os paneleiros vieram atirar-nos como a bonecos de feira. Enfio-me num buraco de morteirada, mas saio, logo de seguida, rastejando até à caserna, para ir buscar a canhota. Aqui é o Inferno, cabrões dos mafarricos.

Quando puxo a culatra, sinto-me no ar. E estou. Pisei qualquer coisa e voo até cair de borco. Não me lembro de mais nada. Acordo no Hospital Militar em Luanda, o médico diz-me que tive muita sorte e só fiquei sem a perna esquerda, por baixo do joelho. Era uma mina, das nossas, caralho, das nossas. Para outros pisarem, que não eu. Mas pisei.

No resto está tudo bem, umas ligaduras, umas tinturas, umas sulfamidas, o pé que me resta engessado, mas não há-de ser nada. O clínico, que é major, conta-me que no Alcoitão me põem uma pata nova. Melhor do que a verdadeira, acentua para me animar. Tu que fazes? Para já, nada. Mas vais começar a fazer. Ginástica e tens de te habituar às muletas. E passas à peluda, logo que estejas bom.

Ele insiste: que fazes na vida civil. Barbeiro, ou seja, ajudante. Não tem problema, podes cortar cabelos e fazer barbas, tens os dois braços e as duas mãos. Se fosses carteiro, isso já era outra coisa, bem diferente. Assim, não te chateies. Vai tudo correr bem. Para os que lerparam acabou-se. Mas para os que ficaram, como tu, que não seja o pior. Vais arribar, moço.

Claro que vou. Quando sair do avião, outra loiça, o barco já foi, vou a mata-cavalos para Boivão, de táxi, nem olho para Valença, nem para a ponte, muito menos para a Galiza. Para ver a Maria dos Anjos, que deve continuar a ter os seios empinados como dois morros de mel. E para encontrar os outros, os amigos, o avô Serafim, dar-lhe um abraço dos grandes. À Maria dos meus amores, arrefinfo-lhe um beijo na boca – de estalo. Ou mais. Na frente de toda a gente, para que saibam que é minha, uma espécie de ferrete de marcar novilhas – mas sem dor, só doçura.

Depois, bom, depois, volto a Valença, visitar o patrão Gonçalves para lhe dizer que estou ali, torno à tesoura, ao pincel e à navalha. Mas, antes, durante uns dias, fico-me pela minha freguesia. Até porque, quero tratar da boda, mesmo que os pais da Maria dos Anjos enjeitem a novidade. Que, no fundo, não é nenhuma, é mais um fingimento a juntar aos outros.

O enfermeiro vem tirar-me a febre, vai na boca ou no sovaco? Aí mesmo meu sargento, sei lá por que cus já passou esse zingarelho. Mede-me a tensão. A outra, sem n, vai voltando só de pensar na moçoila que me espera. E, aí, uma dúvida. Quando ela me perguntar se volto para o Rancho – que lhe digo? Com certeza que não, nesses preparos, infelizmente. Dançarino sem perna, por melhor que seja a prótese (penso que é assim que se chama), corre o risco de pisar chão torto e inclinado. Viras, malhões e quejandos – acabou-se.

Já sei. Percorrendo-lhe a pele de pêssego, vou responder-lhe que sim. E acrescento logo que para tocar sanfona os dois braços chegam. E para a apertar ao peito – também. A perna? Que se foda!

(Fotos da guerra: 4CCE, a quem agradecemos)

quarta-feira, agosto 29, 2007




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O APANHA BOLAS
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Benfica gañou en Dinamarca

Antunes Ferreira
O Benfica venceu – vivó Benfica! Em Copenhaga, num estádio velhinho de cariz batatal, os pupilos do señor José Antonio Camacho, conquistaram a passagem à fase de grupos da Champion’s League. Um grego pôs os dinamarqueses realmente gregos. Katsouranis, o rei da festa, chegou para as encomendas e ainda se deu ao luxo de molhar a sopa.
Analisando bem e independentemente a partida – e que partida, pensarão os Carlsbergs – diria que o resultado mais consentâneo teria sido: Desperdícios nórdicos 14 – SLB – 1. Quim disse à nossa reportagem que, no primeiro tempo livre que tiver, vai fazer uma peregrinação a Fátima e dará 183,7 voltas ao recinto – de joelhos, obviamente. Com joelheiras, idem.
O treinador español declarou à Comunicação Social, no seu mais puro espanholês, que «todos jugaran muito ben, os jugadores estuveran fantasticos y assi tchegaremos à final, por soposto. Sem embargo, o hierro tamben ajudou a nosoutros». O jubilado do Real Madrid? «Nada, nao, o de as balizas, mui amigo».
Entretanto, Vieira tentava a todo o custo contratar o avançado Sargento, pois o Soldado diz que prefere os ares – e os impostos – da banda de lá. ¡Bueno, bueno, no pasarán!
Entretanto, soubemos, de fonte absolutamente segura, que Fernando confessou a amigos que pensa ir treinar a equipa do Vaticano. Para já, encontra-se em recolhimento e oração em convento não identificado.



Entreposto não - entrecosto
A saga do meu último Hyundai

Antunes Ferreira
J
á vou no meu quarto Hyundai. Que é o último. Explico de seguida.O primeiro foi, até dos primeiros que chegaram a Portugal. Comprei-o principalmente por ter estado em Ulsan uns tempos antes, aquando da minha primeira visita à Coreia do Sul. O que era uma pequena e pacata aldeia piscatória cresceu por influência de ali se ter instalado a empresa de fabrico de automóveis Hyundai. Em coreano, Hyeondae quer dizer modernidade. Hoje, a cidade tem mais de um milhão de habitantes e é o centro da maior região industrial do país.

Visitei as instalações fabris e fiquei entusiasmado com a tecnologia (na altura ainda associada à japonesa Mitsubishi), mas igualmente com a absoluta limpeza que nela reinava, para além dos índices de produtividade que me foram apontados. De tal sorte que escrevi então no Diário de Notícias de que era chefe da Redacção que na fábrica «se podia comer no chão» tradição coreana.

De tal forma o impacto muito favorável me atingiu que, tempos depois, nos primeiros anos de 90, comprei o meu Hyundai. E a este, mais dois se seguiram. E sempre satisfazendo-me, o que justificava a «reincidência». Aliás, a muitos familiares e amigos recomendei o automóvel, baseado na satisfação que ele(s) me proporcionava(m). Era só meter gasolina - e andar.


Em Setembro do ano passado comprei um novo Accent (as posses não dão pra mais…). Mal sabia o que me esperava. Já em Fevereiro deste ano, o bicho começou a fazer um «barulhinho» a que comecei por não ligar. Animal novo precisa de adaptar-se ao condutor e vice-versa. E, sobretudo, aos relevos desta nossa cidade das sete colinas, alegadamente. E ao estado das ruas…

Porém a dimensão sonora foi-se ampliando para uns quantos decibéis que não sei quantificar. Vinham os estranhos ruídos lá debaixo da viatura; mas, confesso a minha ignorância, disso – nem pó. Daí que me tenha deslocado às oficinas do Entreposto, o representante da marca, ali aos Olivais.

A via-sacra dos Olivais

Malfadada hora. Resumindo e concluindo: vai para uns três meses, senão mais, que tenho feito uma via-sacra para o local, que já começo a conhecer da frequência. Creio que em noite de breu, com as luzes em black out e os olhos vendados já lá chegarei, mesmo com GPS…

A avaria deixou o pessoal da assistência pasmado. Nunca tal se verificara. Nenhum cliente tinha apresentado tais queixas. Pensei para mim que quiçá estivesse perante um carcinoma ferrugento auto. Não era. Os especialistas disseram-me que eram apenas umas coisas desapertadas. Puseram o desgraçado no ar à força hidráulica – e não era. Uns apertos circunstanciais, mas tinha de lá voltar para substituir umas peças, nada de grave. Dias depois, assim aconteceu. Só que, dias depois também, voltaram… os ruídos. Afigurou-se-me que tinham aumentado. Voltei às oficinas.

Garanti que achava que e por aí fora. Deixei o «bólide» e fui à minha vida, que a morte é certa. Tinha, de resto, uma preocupação e grande. O médico operador de minha mulher queria falar. Felizmente, não passou de um susto. Era só para dar boas novidades. À tarde, quando de novo ali fui, presumi que estava tudo bem, pois me disseram que o 26-CD-86 estava ali fora e podia ir-me. Nem perguntei sobre a doença, muito menos da terapêutica. Saí.

Para voltar uns dias depois. Ó diabo, o perito da casa pôs o boguinhas no ar, uma outra vez. Duas horas depois, que tinha de lá voltar porque era necessário substituir todo o conjunto das peças, de que uma parte fora já mudada. Mas – há sempre um mas… - era preciso pedir autorização ao importador para a vinda das tais peças.

Os clones Entrepostos

Comecei a explodir. O responsável com quem falei (e que, até esse momento, tinha sido de uma gentileza e simpatia notáveis, é preciso que o diga) e a quem disse que, face ao ocorrido, iria protestar junto da Administração e exigir um carro novo, tentou acalmar-me, que não era caso para isso, que das oficinas nunca saíra uma viatura sem estar em condições, que a garantia seria escrupulosamente cumprida.

Meti travões suavemente ao prólogo da indignação. E então? Muito rapidamente me iriam telefonar a comunicar-me se já estava concluída a operação com o citado importador. Referi ao meu interlocutor que somente as suas atenções para comigo me demoviam de impor coisas à Administração, mas – outra adversativa – não era tudo Entreposto? Importador, vendedor, oficinas – não tocavam pela mesma pauta?

Pois que e mais que, que, mas eram diferentes, mas difícil de explicar. Pensei para mim, de novo, que seria assim uma espécie de clones, de Vieira contra Veiga, tudo no SLB, em família, sem que um falasse mais alto do que o outro, ou, pelo menos, não o tentasse fazer. E fiquei-me a perguntar quem seria o Santos do Entreposto? Na altura, ainda não se materializara o Camacho…

Passou mais de um mês. E de telefonema, nada. Já em estado de ebulição telefonei a saber. Não sabem como é difícil. A central telefónica geralmente leva uns bons minutos a atender. E, quando se alcança o desiderato, a(s) operadora(s) não sabe(m) quem é o senhor por quem procuramos, vai-nos passar, mas talvez não seja.

A espoleta já estava armada. Falei com um cidadão que me disse que tinham estado de férias, mas, dentro em pouco me telefonaria para dizer o que se passava. Se as famosas peças, aqui de um verdadeiro auto teatro trágico/ridículo, já teriam vindo. Isto porque, ainda que encomendadas ao importador pelas oficinas do… importador/vendedor, talvez ainda estivessem… para chegar. Disse-lhe que esperava que o pouco fosse mesmo pouco, senão não me ficaria. Não telefonou.

A ouvir música

Telefonei eu. Primeiro, outro senhor que me atendeu, aliás nenhum dos dois que solicitara á telefonista, a pretexto de que não me conhecia (isto apesar das repetidas visitas ao local), que tentaria encontrar quem eu desejava. E deu-me música pelo telefone, coisa de que não gosto. Mesmo nada. Ao fim de cinco minutos e poucos segundos (cronometrei o invento, digo, o evento) desliguei e voltei a ligar.

Agora, para me chatear com quem quer que me atendesse e informar que daria do caso conhecimento à Embaixada da Coreia do Sul, escreveria um texto pouco simpático para o Entreposto e publicá-lo-ia onde quer que fosse. Logo depois, um telefonema de um dos senhores hyundaicos, a comunicar-me que hoje às nove horas me devia deslocar (adivinhem onde…) aos Olivais, às oficinas etc. e tal.

Assim fiz, tendo perguntado se o meu último telefonema aviso/ameaça fizera com que as peças tivessem sido artilhadas de ontem para hoje, pois já lá estavam. O que representava para mim uma singular coincidência. Nada, não senhor, tivemos de as tirar de outra viatura. Espero que novas, acrescentei. Novinhas em folha. Não jurou.

Ora pronto. Esta é uma longa estória que me proporcionou o grato sentimento de ter passado a conhecer a zona, melhor do que o bairro onde morava há mais de trinta anos e que hoje já não é o meu. Aí, teria de estar agradecido ao Entreposto, não sei se ao importador, se ao vendedor ou se ao reparador das oficinas. Mas não o faço – por motivos óbvios. A minha religião não mo permite, mas, sobretudo, a boa educação proíbe-mo.

Não dei quaisquer nomes porque entendo que (já) não vale a pena. Mas, garanto-vos: este foi o último Hyundai que comprei. Palavra de honra. Do Entreposto – estou farto; agora, só entrecosto.

(NR - As fotos não são das oficinas Entreposto/Olivais)