quinta-feira, maio 01, 2008



Small blue pill
Antunes Ferreira

De vez em quando, dou uma volta pelos Spam que o zeloso guardião do Gmail arquiva para futuro delete. Bendita invenção essa, que nos limpa por antecipação os mails mais sujos, propagandísticos, caricatos e outros que tentam penetrar um tanto à sorrelfa nas nossas caixas de correio informático.

Há de tudo nestas curiosas mensagens que centrais omnipotentes e omnipresentes remetem a um cidadão cumpridor dos seus deveres fiscais, sem lhe dar hipótese de defesa, aliás legítima. Não fora esta invenção dos anti Spam e outro galo cantaria. Anda uma mãe carinhosamente a criar um filho sem saber para o que este está guardado.

Nesse circuito informático-quase-quotidiano, um dos temas mais aliciantes, pelo menos aparentemente, são os produtos miraculosos oferecidos a troco de uns miseráveis dólares (normalmente a dita publicidade provem dos EUA) e que trazem a felicidade mais risonha aos machos que se sentem diminuídos, pelo menos da cintura para baixo.

Hoje caiu-me em rifa uma mensagem – ou, para ser mais preciso, cair-me-ia sem a protecção referida e abençoada – com grande súmula de pormenores, enviada pela Dona Gertrude Conway com um título muitíssimo apelativo e sucinto simultaneamente, o que, nos dias que vão correndo, é obra acabada. Reza então: Just a smal bluepill will turn you to Casanova!




Para alcançar esse salutar e aliciante propósito basta entrar no site http://cyberdiscountpharmacy.com. É tiro e queda. No estabelecimento cibernético há de tudo, como na loja que, ainda que virtual, termina a frase feita. A versão, como se sabe é há de tudo como na farmácia, mas aqui semântica e semioticamente seria como o vestido ou a pescada.

As pílulas «endireitadoras» vão do Viagra ao Cialis, passando pelo Levitra. Não tem nada que enganar. Uma azulinha, outra que é mais cápsula, outra amarela, são verdadeiros agentes recuperadores de uma eficácia notável no que concerne à actividade do órgão masculino. Não há disfunção eréctil que lhes meta medo. Mezinhas duma cana! O sempre em pé da minha infância, o pau de Cabinda ou as cantáridas frente a elas são peanuts envergonhados.


Diga-se em abono da verdade que a cyberdiscountpharmacy.com tem também remédios de todas as qualidades, cores e feitios para doenças que vão da hermes até à Parkinson, passando pela gripe mais ou menos virulenta (não encontrei nenhuma para a das aves, lamentavelmente), pela dor de cabeça agravada, a cefaleia, o peso a mais, as infecções pulmonares e urinárias, as dores de dentes, o mau hálito, as viroses mais destrambelhadas, enfim, o cardápio completo. Não; nada encontrei para os bicos de papagaio.

Voltando às pílulas do Casanova, e dada a cor anunciada, o azul, penso que a publicidade deveria ser Just a small bluepill will turn you to Blue Bear. Perceberam: azul com azul. Penso mandar oportunamente à ciberfarmácia esta minha proposta que, quem sabe, será o princípio de uma bela e auspiciosa carreira no domínio da publicidade farmacêutico-virtual.


Um Casanova, um Barba Azul, um Sade, um Valentino e muitos mais, tornaram-se arquétipos que os senhores elegeram para modelos do machismo e da performance sexual. A prática, porem, é quase inalcançável… A utilização destes nomes é, por conseguinte, uma iniciação à quimera masculina, um atentado ao que resta residualmente do que se chamava o pudor, uma artimanha publicitária.

As coisas são o que são. A este propósito, há aquela estória do cavalheiro super machão (luso) que afirmou que ia bater o recorde universal de damas, não de tabuleiro, mas daquelas com quem conviveria intimamente na cama. Parangonas surgiram do pé para a mão, tudo o que era comunicação propagandeou a proposta, o público, nomeadamente os homens, avolumou-se nas bilheteiras do pavilhão com dez mil lugares onde iria decorrer o evento.

Face à desmesurada procura [o mercado, dizem, tem sempre razão (?)], os organizadores decidiram mudar para um campo de futebol com o dobro da capacidade. Nada. As filas aumentavam quotidianamente, não havia game boxes, era o impensável. Foi-se para o maior estádio da terra, 65 lugares nas bancadas e mais uns no relvado.

Daí que os do clube pseudo-proprietário da instalação aumentassem a sua percentagem na receita do espectáculo, pois era absolutamente necessário, mesmo indispensável, preservar o tapete verde. E, mesmo assim, poderia ser preciso proceder à sua reparação, quiçá até a substituição, para o campeonato que se aproximava a passos largos. Estava-se no defeso, o calor apertava e, consequentemente, a prestação amorosa com o Guiness no horizonte, era perfeita ao final da tarde e a céu limpo.

Chegou o dia D. No relvado, ao centro, um estrado de dimensões amplas, sobre o qual estava colocada uma cama também ampliada. Os altifalantes berravam decibéis imensos, a assistência esperava, ansiosa, impaciente, histérica e eufórica, pela hora H. Uma jovem, descalça até ao cocuruto, estendia-se, langorosa, no leito.

O locutor mandou que se fizesse silêncio, os espectadores amansaram, e avisou que o cidadão se propunha fornicar com mil companheiras. Um ahahahah vibrou no ar, fruto de quase 70 mil gargantas, de muita cervejola e outros ingredientes. E o artista, outrossim em pêlo, naturalmente, aproximou-se, sorriu para os assistentes, acenou-lhes vitoriosamente e atirou-se à dama.

E o animador, pelo microfone: uuuuuumaaaaaaaaaa!!!! E a populaça: bravooooo!!! Por aí fora, alternando os numerais com a intensidade dos aplausos, uma loucura. E as partenéres sempre peladinhas e sempre a afluírem, uma por uma, ao altar do incansável herói. Trezentas e noventa e seteeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!! Hurraaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!

Lá pelas setecentas e picos começou a instalar-se uma dúvida atroz na multidão que consumia, furiosamente, pastilhas para a garganta vendidas por indivíduos mais oportunistas ou mais previdentes. Mas o praticante emérito continuava, impávido e sereno, a copular, sem um esgar de esforço, muito menos desfalecimento.

Novecentas e noventa e oitoooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! O tsunami estrondoso instalara-se na multidão frenética. O locutor já quase não se percebia, mas os algarismos tinham-se amontoado num ritmo espantoso. Novecentas e noventa e noveeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Impossível descrever o ensurdecedor aplauso.

Milllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Calaram-se as bocas numa expectativa galopante, o livro dos milagres estava no papo, só um Portuga alcançaria tal feito, qual Vasco da Gama, qual Cabral, qual Camões??? E, de repente, o cavaleiro sentou-se na beira da cama, esboçou uma tentativa de sorriso e desmaiou. Mesmo assim batera e por larga margem, o almejado recorde.

Mas a plebe, a nobreza e algum clero, que se espremiam nas bancadas, nos camarotes (incluindo o do presidente e das altas individualidades), no gramado, soltou um último grito tonitruante, impressionante, lancinante, fatal: Maricaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas!!!!!!!!!!!!!!! Vae victis.

quarta-feira, abril 30, 2008

Antigos foros
e costumes de Portugal

Quasi todos os nossos historiadores e chronistas [raríssimas são as excepções] se deram exclusivamente ao trabalho de escrever a historia dos príncipes e dos exércitos: paços e campos de batalha são os únicos logares por onde elles sabem andar ; as noticias acerca da maneira de existir do povo nos diferentes séculos da monarchia é cousa de que nada ou pouquíssimo curaram. Deste desleixo, ou, diremos antes, ignorância do verdadeiro fim e caracter da historia , nasceu o não possuirmos hoje dos annaes de Portugal senão a parte militar, e a consagrada ás acções dos reis:, partes em verdade importantes, mas insufficientissimas para com ellas só se haver de compor uma acabada historia nacional.


Todavia em nossos tempos tem-se começado a fazer serias indagações sobre os usos, costumes , instituições, e usanças de nossos avós:, emfim sobre todas aquellas cousas que podem servir de materiais para a verdadeira historia — a dos progressos da civilisação entre nos.
Deste género de trabalho devemos a maior e melhor parte á Academia Real das Sciencias , e mais de certo lhe deveríamos, se esta corporação não tivesse sido desajudada, menoscabada, e esquecida , por aquelles a quem cumpria anima-la , e incitar esses poucos homens grandes que nos restam a consagrarem os seus últimos annos a desenterrarem do pó do esquecimento vivas e inteiras as gerações que passaram.

Entre os monumentos dos séculos antigos da monarchia , são os foros e usos de varias povoações do reino, porventura, os mais curiosos, e delles foram já publicados alguns pela Academia. Eram estes foros leis municipaes, que do principio da monarchia até o reinado de D. Alfonso 2.° foram as únicas que houve, e que continuaram ainda a ter vigor, não encontrando as leis geraes do reino. Foi então que os concelhos começaram a servir-se de uma espécie de ordenações particulares, em que lançavam primeiro o foral da terra, depois os usos até ahi não escriptos , e ás vezes apoz isto as leis geraes do reino, que podiam importar á boa administração da justiça dentro dos limites do concelho.

Um dos mais notáveis entre os já publicados são os foros e costumes de Santarém , de que daremos aqui um extracto tirado daquelles artigos , que mais podem caracterisar essas epochas semi-barbaras.

Foros.

Se aquelle que travava uma briga era morto, e isto diante de homens bons [pessoas graves e principaes], o que o matava tinha que pagar um maravedim ao dono da casa, onde fora a morte, e metade se o perturbador só ficava ferido. — Homicídio, ou violência contra mulher , sendo o caso publicamente feito pagava-se com 500 soldos! Quem punha a outrem sujidade na boca [afronta grandíssima, mas mui frequente nos primeiros tempos da monarchia] pagava 60 soldos.

Para se fazer cabal idéa da conta em que os primeiros portuguezes tinham os mouros seus escravos, pondo-os em valia abaixo de bestas de carga, é interessantíssimo o artigo do foral que diz respeito ao pagamento da dizima : nelle se vê que a sua cathegoria, na escala dos animaes domésticos, era entre o burro e o porco. " Do cavallo ou da mula, que venderem ou comprarem homens de fora, por mais de dez maravedins, dêem um maravedim, e sendo por menos de dez , dêem meio : da egua vendida ou comprada dêem dois soldos : do burro e da burra, um soldo : do mouro ou da moura, um soldo meio maravedim : do porco ou do carneiro dois dinheiros : do bode ou da cabra um dinheiro &c. "

O clérigo gosava foro de cavalleiro : se o achavam, commettendo actos torpes com uma mulher, podiam prende-la a ella, mas no clérigo, nem pôr-lhe a mão.


Costumes.

Nenhuma mulher que recebesse preço de “más manhas”, podia fazer cousa que fosse válida, “sem mandado de seu marido”.

Nenhuma mulher podia queixar-se de ter sido violentada dentro da villa, salvo se a mettessem em logar onde não podesse gritar :, e nesse caso apenas saísse d’ahi devia vir chorando e bradando pelas ruas, e ir logo ter com a justiça , e dizer : " Vedes, o que me fez fulano? Se o caso era fora da villa, devia vir todo o caminho chorando e gritando, e dizendo a todos os que encontrasse, quer fossem homens, quer mulheres : " Vedes o que me fez fulano?" — e ir do mesmo modo queixar-se á justiça.

Quando qualquer mulher casada era condemnada a levar açoutes ou varadas, por ter brigado com outra, vinha o alvazil com ella a casa :, punha um travesseiro no meio do chão, e começava a dar arrochadas em cima delle : o marido estava defronte com a mulher, e com outra vara ía repetindo nas costas della a mesma solfa, estando á vista a justiça e a queixosa. Se o marido não dava as varadas na mulher com a mesma ancia com que o alvazil batia no travesseiro, dava-lh'as a justiça nelle.


Entre outras significações que antigamente tinha a palavra homicídio, ou “omezio”, era a de rixa que ficava entre o assassino de qualquer homem e a família deste, que por costume de muitas terras, e talvez geral, tinha direito de matar o matador , vendo-se este, portanto, obrigado a andar fugido ou escondido. Disto nos veio, segundo parece, a phrase vulgar de andar homiziado.

Quando a família do morto se compunha com o matador ou lhe perdoava, chamava-se a isso “fiir omezio”, isto é, acabar a rixa com o homiziado. Pelos costumes de Santarém, a ceremonia que neste caso se usava era a seguinte : o criminoso punha-se de joelhos, e mettia o seu “cuitello” na mão do queixoso: então o outro lhe pegava na mão, erguia-o, e beijava-o, ficando d'alli avante amigos. Isto se fazia perante homens bons.

Quando os alvazis condemnavam um homem á morte, o alcaide servia de algoz. Os filhos bastardos de peão, isto é, de homem não nobre , podiam ser reconhecidos , e nesse caso tinham na herança parte egual á dos filhos legítimos. Se o sayom [beleguim] ía fazer alguma penhora a casa de cavalleiro, e lá o moíam com pancadas, mandava o costume da terra que ficasse com ellas, sem coima.

Se alguém dizia “paravoas devedadas” [palavras prohibidas] a alguma mulher honrada, era obrigado a jurar-lhe diante de doze “mulheres boas”, ou doze “homens bons” que nunca viu aquilo que della dissera, que mentira, e que soltava aquellas palavras com sua paixão.


(in " O Panorama - Jornal Literário e Instructivo” – editado pela Sociedade Propangandeora dos Conhecimentos úteis, pag 379, Vol II, 1838)


Actual (com as adaptações óbvias...)

O Ricardo Charters mandou-me este texto. Unem-me ao remetente laços de Amizade de mais de meio século, vejam lá. Ou seja, de meninos e moços. Ricardo Charters d'Azevedo (que ainda recentemente publicou um livro sobre a sua Família de séculos, que tem vindo a reunir muitas opiniões encomiástica a significar o sucesso da obra) tem destas coisas.

Já o convidei por diversas vezes para colabora aqui, no Travessa. Mas, o «malandro» tem-se furtado, continuamente, alegando que sim, mas que também e etcoetera. Por isso, sempre que posso, aproveito algum do material com que me mimoseia - e publico-o, como hoje é o caso.

Engenheiro, homem da Cultura e de muitas facetas e correspondentes qualidades, é suficientemente conhecido não só neste País, mas a nível internacional. Adepto ferrenho da Europa e, por conseguinte, da UE, já foi - e muito bem - o Representante Permanente da Comissão Europeia aqui em Portugal. Isto bastaria para lhe conferir a dimensão política e profissional que tem.

Porém, é na qualidade humana, de Amigo, que lhe presto, aqui, a minha homenagem. O Ricardo é, realmente, Amigo do seu Amigo, não enjeita arrogantemente (quando no desempenho de funções muito altas é figura pública) os da sua criação. E quantos foram. Permito-me aqui lembrar, sentida e comovidamente os Câmaras Oliveira, também Charters, seus primos, que para mim foram, todos, mais do que irmãos: Amigos.

Penso que já vai longo este texto. O verdadeiro mimo que publico acima (respeitando, obviamente, a ortografia e a construção sintáctica da época) , de 1838, é, direi, perfeitamente aplicável na actualidade, obviamente com as devidas adaptações... Não lhe faço mais comentários. Deixo aos leitores essa oportunidade, arrisco-me até a dizer, esse dever... No entanto, mal ficaria comigo próprio, se não terminasse como faço no parágrafo seguinte.

Em Portugal, onde se cultiva a memória curta (e disso há muitos políticos que servem de exemplo), é bom recordar escritos como estes, trazê-los à superfície e, consequentemente, publicá-los. Esta é a minha opinião, que poderá ser contestada, considerada mal, criticada - mas é a minha. Pior do que uma péssima opinião é, tão só, não ter nenhuma.

Com um obrigado, mais um, ao meu Amigo Ricardo Charters d'Azevedo
Antunes Ferreira

terça-feira, abril 29, 2008

NA ROTA DO CALENDÁRIO

Abril e as Mentiras

Maria Lúcia Garcia Marques

Abril abre com o “Dia das Mentiras”. E se, à semelhança dos outros “Dias de ...”, o seu espírito é o de louvar, acarinhar e, eventualmente, promover, então estamos, sem dúvida, perante uma manobra do calendário a consagrar o lado transgressor, licencioso, quando não apenas picaresco, do dual balanço em que se move a alma humana desde os alvores da vida.

De facto, desde a história da Cobra e da Maçã e da falência do paraíso terreal, tudo se tornou duplo e co-relativo. Da edénica concórdia passou-se para a dilemática e incessante luta entre o Bem e o Mal, entre a Verdade e a Mentira, num jogo de equilíbrios em que os pobres humanos buscam encontrar o fio que lhes permita passar (apesar de tudo e mesmo assim) pelo fundo da agulha.

Só que a Verdade não nos pertence. Não é obra nossa. Temos de buscá-la e respeitá-la. É-nos um Dever. Enquanto a Mentira, podemos criá-la, tecê-la, afeiçoá-la ao nosso jeito e propósitos, urdi-la meticulosamente e, cúmulo da ousadia, servi-la com os temperos da Verdade. É-nos uma Tentação. Por isso a Verdade é árdua e seca, enquanto a Mentira, a genuína, pode ser uma obra de arte, de artifício e deleite.

A que Eça chamou “fantasia”, preconizando no seu receituário de artista:
... Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.

Ou, na óptica de Fernando Pessoa, mais intrincada e mais íntima, encastrada no próprio retrato do poeta: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que de-veras sente. Isto é, evidentemente, o lado “luxuoso” da Mentira – refinado e excepcional, louvado e até, para poetas e escritores, modo de vida. Chamam-lhe então “ficção”.

Mas há o trato caseiro da Mentira – e aí há uma graduação. Não é mentira – mas é já uma boa aproximação... – a ocultação da Verdade, o fazer-se desentendido ou a resposta enviesada. E aí temos o delicioso exemplo, numa das pérolas do nosso barroco repentista, na satírica pena de Nicolau Tolentino (1740-1811):

Chaves na mão, melena desgrenhada
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena
A filha o ponha ali ou a criada.


A filha, moça esbelta e aperaltada
Lhe diz co´a voz que o ar serena:
“Sumiu-lhe o colchão? É forte pena;
Olhe não lhe fique a casa arruinada!”

“Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter o pai embarcado
Já a mãe não tem mãos?” E, dizendo isto

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!.

Já me parece uma “proto-mentira” o dizer-se apenas parte da Verdade, ainda que com as mais pacificadoras intenções como decerto foi a do aviso feito pela Avó espanhola de uma das minhas amigas no dia em que esta se casou: Hija, fija-te: A su marido solo se dice la mitad de la mitad! Prudentíssima Senhora! O mesmo serve para quando digo: Muito obrigada por esta agradabilíssima noite!, quando me aborreci de morte. Aí não estou a mentir, estou apenas a ser educada. Coisas destas como por exemplo os preços aldrabados do regateio, não são mentiras mas simples regras de convivência num consentido e com sentido apagamento da Verdade ...

A Mentira “verdadeira”, porém, é mais que isso. Pressupõe uma escolha deliberada, uma tentativa de colher algum benefício sem que, do outro lado, haja nada que alerte as pessoas para o facto de estarem a ser enganadas. Pressupõe a intenção de enganar, de induzir o outro em erro e não é de todo gratuita. Mente-se para fugir ao castigo, para acertar num exame, para ganhar uma aposta, um jogo ou umas eleições, em última instância para salvar a pele ... Mas também se mente para não magoar as pessoas – as mentiras “carinhosas” – ou para as proteger – as mentiras “caridosas”.


E há mentiras históricas como, por exemplo, a de Deu-la-deu Martins na praça forte de Monção, lá pelo século XIV, que, vendo-se na contingência de se render pela fome, pegou nos últimos pães e, das muralhas, atirou-os ao inimigo, gritando-lhes que, se quisessem mais, era só pedir. Julgando os castelhanos a praça farta quando a tinham por esfomeada, levantaram o cerco e retiraram. Mentira heróica ou simples bluff, que importa? Foi saída redentora.

Apesar da ocasional utilidade da Mentira, teimam os sábios em dizer que “se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo”. Mentira! Um bom mentiroso é um grande andarilho, um viajeiro imaginoso, um indutor de verdades “segundas” que, por serem quase-quase conformes às “originais”, lhe garantem largos raios de acção e destinos felizes – a prazo, mas felizes ...
E devo confessar que, excluindo o caso de mentiras malevolentes, nada me tira o prazer de uma boa mentira, porque – deixemo-nos de coisas – uma boa mentira dá-nos lustro ao ego, restaura-nos o amor próprio e é intimamente muito divertido!

Daí que o “Dia das Mentiras”, ao abençoar-nos este apetite, ponha uma pitada de humor matreiro na sisudez do calendário.

quinta-feira, abril 24, 2008



Um bom 25 de Abril !

Antunes Ferreira
D
e novo, o 25 de Abril. Há muito boa gente que se recorda dessa data em que o Movimento dos Capitães avançou contra a ditadura e a tirania que sobreviviam, estrebuchavam, lancinantes, em Portugal. Essa aventura épica traria como consequência a Liberdade e a Democracia ao nosso País. Por isso, o 25 de Abril ficou, fica e ficará para sempre na História. Na deste rincão à beira-mar plantado – e na Universal.

São passados 34 anos e, para mim, como para muitos outros, parece que foi ontem. Estava, então, em Luanda, onde ficara a viver depois de cumpridos os cinco anos de serviço militar obrigatório que me couberam em sorte. Os meus filhos recordam-se perfeitamente de me verem com os ouvidos colados ao rádio Sony que tinha em casa, e com as lágrimas correndo-me pela cara.

O do meio, o Paulo, perguntara à Mãe por que motivo o Pai estava a chorar. Foi um tanto difícil explicar-lhe que era de alegria. Ele tinha, na altura, acabado de fazer oito anos… Mas, como já então, quer ele quer os irmãos se debruçavam sobre livros e jornais (o Miguel estava a caminho dos dez e o Luís Carlos dos cinco, mas já sabendo ler bem, para ver o que eu escrevia…) as coisas foram-se tornando mais fáceis de explicar e de entender.

Soubera da madrugada redentora do dia 25 de Abril, ao meio dia, mais coisa, menos coisa, do dia… 25 de Abril. Foi uma correria. A alegria que me penetrou sem pedir autorização (ai dela que o fizesse!) e me encheu o corpo e o espírito todos, foi, se possível, aumentando à medida que chegavam, via radiofónica principalmente, catadupas de notícias, qual delas mais empolgante e emocionante. Donde, as lágrimas.

No dia 3 de Maio estava caído em Lisboa. Falhara até o primeiro Dia do Trabalhador em Liberdade, sem a salazarenta opressão. Mas, a TAP entrara em… greve. Liberdade, liberdade, quem a tem chama-lhe sua. Eu não tenho liberdade nem de pôr o pé na rua, cantava a Maria da Graça.

Isto é tão-só um registo e uma homenagem. Os que já se esqueceram que houve um 25 de Abril, façam o favor de recordar-se – e ser felizes. Os que não sabem (ou não querem saber) o que foi – façam o obséquio de se informar. A todos – um bom dia 25 de Abril. Ponto. De exclamação e de aclamação.

(Também publicado no blogue www.sorumbatico.blogspot.com)

sábado, abril 12, 2008

A loja do Abdul




Antunes Ferreira
As grandes cidades têm sempre zonas que, em tempos, eram chamadas de má fama. As pequenas grandes cidades, também. Naturalmente, portanto, Lisboa também as tem. Algumas entre essas problemáticas, evoluem; outras, consideradas até ao seu momento fatal de sanidade acima de qualquer suspeita, involuem. Ou regridem, ou lá o que quiserem. Gosto mais do in, mesmo que não exista o vocábulo. E se tal acontece, vou já à SPDA e ao Prof. Malaca Casteleiro para fazer os respectivos registos. C’os diabos: não se parem neologismos todos os dias.

Rezaram os media que, a PSP, através do Comando Metropolitano de Lisboa desencadeou há uns dias a operação «Vasco da Gama». Com um nome destes, forçosamente que teria de haver conotações orientais no acontecido. Pormenorizando, e sempre de acordo com a comunicação social, ela contou com efectivos bastantes. E qualificados.A saber: o Grupo de Intervenção e o Grupo Operacional Cinotécnico; a Câmara, com elementos da Polícia Municipal e da Área Social; a ASAE (podia lá faltar a Autoridade); o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; a Direcção de Finanças da capital; a Inspecção Tributária; a Direcção Geral das Alfândegas e Impostos Especiais sobre Consumo e, ainda, a Autoridade para as Condições do Trabalho. Não faltou ninguém.

A acção decorreu durante três horas na Praça da Figueira, Martim Moniz, Largo de São Domingos, Rua da Palma, Almirante Reis e Intendente. Locais identificáveis e identificados à distância. A investigação, iniciada dois meses antes, pretendeu fiscalizar a actividade comercial na zona e detectar situações ilegais e ilícitas, como a presença de cidadãos ilegais no País, focos de pequeno tráfico de droga e prática de prostituição em albergues e pensões onde são detectados casos de desordem. O texto consta de comunicado do Comando Metropolitano da PSP.

Os resultados, igualmente enumerados, tiveram a expressão que conseguiram ter. Foram identificados 310 estrangeiros, encerrados quatro estabelecimentos e apreendidos dois mil quilos de peixe sem rotulagem, no valor de oito mil euros. Oito desses estrangeiros «foram alvo de notificações de abandono voluntário» do País e «21 foram objecto de notificações de comparência». Presumo que perante as autoridades.Apreenderam-se dez telemóveis e uma máquina de jogos, fiscalizaram-se 129 veículos, foram registadas 16 infracções ao Código da Estrada, 18 autos por contra-ordenação do trânsito e 16 também por contra-ordenação, estes no domínio dos estabelecimentos.

Um rol com uma certa dimensão. Não se pode comentar que foi um mons parturiens, mas também não teve resultados empolgantes. Comparados com o do pesadelo no Alvalade, menos decepcionantes, mas, enfim…A estas coisas, há, no entanto, que dar o devido valor e não se ficar pela nossa mesquinhez habitual, muito menos pela mediocridade que exibimos quotidianamente. Não se fizesse nada e caía o Carmo e a Trindade.

Mas que é isto? Até onde chegámos! É para isso que pagamos os nossos impostos? E a nossa segurança? E a criminalidade? Por este andar, não vamos lá.Desta feita, foi-se. E logo vem o autor destas linhas lançar perfidamente a insinuação torpe, plantar a cizânia ignóbil, apostrofar os autores do feito por mor da debilidade dos saldos que se conseguiram obter. Não presta, portanto, o escriba, confissão que nem com quinhentos actos de contrição e penitência de milhentas orações justificaria a absolvição. Tenho-o dito e escrito: nós, os Portugas, não prestamos.

Dito isto, só me resta o recurso (não para qualquer Relação ou Supremo, nem para ralações supremas) a uma estória que me foi emeilada por um tal Maia Figueiredo, meu correspondente quotidiano e prolífero. Um muito obrigado aqui exaro. Sem ele e o seu contributo, não haveria crónica por crónica e prolongada falta de inspiração do autor. Entretanto foram-me chegando remessas semelhantes. A esmo e por exemplo: da Marina Dinis, psiquiatra encartada na nossa praça.Não me parece necessário entrar em muitos pormenores.

Daí que me detenha, nomeadamente, no Martim Moniz, cujos centros comerciais, sobretudo o da direita (de quem vai para a Almirante Reis, nada de maus pensamentos e ínvias intenções) possuem inúmeras lojas, lojinhas & similares caracteristicamente orientais, do indiano ao chinês.É um centro também de… fumo e de agulha, até mesmo de comprimidos. Consumidores/compradores, é o que não falta. Pequenos dealers (forma bonita de dizer rastejantes e milimétricos vendedores) por lá igualmente andam e proliferam. O ar que se respira já indicia o que se passa.

Alto lá: não sãos todos assim os humanos que por ali cirandam. Nada disso. Há gente boa, honesta e vertical por toda a parte, felizmente. Por que bulas não haveria de existir no Martim Moniz? Aclarado o escrito, vamos à estória.

Um senhor de fato e gravata e, até, de spatos engraxados, entra na loja/cubículo do Abdul, cidadão com autorização de permanência no País. O cavalheiro mira, com ar desprezível, a desarrumação normal: coisas aos montes, caixas de cartão vazias, sacos de plástico das mercadorias, brinquedos mais sofisticados ou absolutamente primários, leques, saris garridos pendurados em cabides de arame duvidoso, barrinhas de incenso para fumigação, quadros e estatuetas de Shiva, de Gandhi, do Padre Cruz, do Cristiano Ronaldo e da Senhora de Fátima, preservativos reforçados, relógios, corta-unhas e outra tralha.

- Ouve lá, senhor, como é o teu olhar com cara de parvo sobre o meu lojinha? Com ela, desde mais de dez anos, já tenho andar no Chiado, casa de campo no Carregado, uma apartamento em Albufeira, terrenos pé de Castro Verde, meu filho estudar medicina nos Estados Unidos, minha filha estágio de moda em Paris, para não te contar dos seis automóveis e quatro computares e telelés com pequena pen e tudo. E conta nos Banco. Ouviste senhor?

- Bom dia. Identifico-me com o meu cartão. Rui Saraiva, funcionário da Direcção Geral dos Impostos, em serviço de fiscalização a bens diversos, incluindo imóveis, móveis e outros.

- Senhor Dótor. Eu me apresento: Abdul Ahmed, monhé maior mentiroso de Martim Moniz. Desejas alguma coisa, senhor?

(Também publicado no blogue SORUMBÁTICO)

quarta-feira, abril 02, 2008



ÀVOLTAKÁTESPERO

Car(g)ta fiscal

Querido Fisco

No meu casamento, que se realizou no dia 18, estiveram presentes 120 convidados: 89 adultos, 9 crianças e 2 bebés. A festa teve lugar na Quinta da Quinta do meu padrinho Luís M. que me presenteou a boda (as cópias dos talões do talho, da mercearia e da peixaria seguem em anexo).
A minha tia Alzira S., que é costureira, fez-me o vestido e não cobrou nadinha, mas gastei 60€ em tecidos, 34,5€ nas rendas e bordados e 18,75€ em linhas, botões e alfinetes. As meias e as ligas ficaram por 35€, conforme recibos que envio. O noivo usou o fato da Comunhão Solene com umas ligeiras alterações (a Tia Alzira não cobrou nada).

O meu irmão foi o fotógrafo de serviço. Todas as fotografias foram enviadas aos convidados por e-mail, que imprimirão as que entenderem por sua conta. Não foi alugada qualquer viatura. Eu fui na charrete do Sr. José M., que andou comigo ao colo e é como um pai para mim. O Manuel (o meu noivo) foi de mota: a mota dele que ainda está a acabar de pagar, conforme se comprova com documento.


As flores foram todas do jardim da minha avó Margarida e a minha prima Mariana F. , que é uma moça muito prendada, fez os arranjos. A animação da festa esteve a cargo do irmão e dos primos do Manuel, que têm uma banda - os "Sempr'Abrir" que merecem ter sucesso.

Não pudemos aceitar nenhum dos presentes, uma vez que não vinham acompanhados dos recibos. Os charutos cubanos que um amigo nosso nos trouxe de Cuba ficaram para nós, porque não os declarou na Alfândega, e assim não os podíamos oferecer; agora não podíamos provar o seu custo.
Os preservativos comprou-os o Manuel naquelas máquinas que estão longas horas ao Sol (porque é um rapaz muito introvertido), mas que não dão recibos, o que me permite escusar-me a revelar o seu número, não vá, daqui a alguns anos, lembrares-te de cobrar retroactivamente uma taxa pelas que foram dadas na lua-de-mel.
Maria Julieta Silva Chibo
Manuel António Sousa Chibo

E as alianças?

Não entendo. Não consigo entender. Que o Fisco se empenhe em combater a fraude fiscal, num País como o nosso, em que enganar o Estado e fugir aos impostos é prática quotidiana, acho muito bem. Ou pagamos todos, ou não paga nenhum, diz o Povo. Ora, ele, o referido Estado, precisa de receitas. Donde, e a cobrança fiscal. E não se trata de uma bisca com euros. O jogo é mesmo a sério. Com trunfos e tudo.

Mas esta estória da fiscalização das despesas com o casamento está muito mal contada. Ainda ninguém conseguiu tirar a limpo o que realmente estaria na mente das Finanças ao conceber a medida e pô-la em prática; e creio que, pelo menos eu, nunca lograrei fazê-lo. Ou se trata de anedota mal amanhada – e nisso não acredito – ou é necessário que seja explicado aos cidadãos o que se pretende alcançar com a disposição. Cabalmente.

Terá sido deturpada a ideia? Terá havido uma má interpretação por parte da Administração Pública? Que diz o Ministro Fernando Teixeira dos Santos? Ou, no mínimo, a Direcção Geral dos Impostos? Ficaremos todos na dúvida? Há que esclarecer, obrigatoriamente, o caso e provar que a deliberação tem razão de ser. O Fisco não pode ser um tubarão de boca permanentemente aberta, mostrando os dentes terriveis.


Entretanto, enquanto paira a incerteza, nós os Portugueses, que somos especialistas no repentismo das anedotas, já pusemos a correr uma substancial quantidade delas, escritas, desenhadas, faladas. Uma das melhores é, em meu entender, esta carta ao Sr. Fisco, que me chegou através de mail enviado pelo Jorge Correia Jacinto, um bom e «velho» Amigo.

Uma nota que se me afigura pertinente: ele está permanentemente contra o Governo, e em particular, contra o Sócrates. Tem, disso, o seu pleníssimo direito, pois estamos em Liberdade e Democracia. Abusa disso? Quiçá. Não da Democracia e da Liberdade, o Jorge não é desses, mas é praticante entusiasta do bota-abaixo. É o que faz e, pelos vistos, gosta de fazer. Militantemente.

Não concordo politicamente com ele, muito menos com algumas das «graças» que quase quotidianamente transmite. Normalmente, deleto-as. Sem me chatear e sem comentários. Outras dão-me gozo, por terem piada. Por vezes até, muita. Esta carta é bem o exemplo. Gostei. Mas acima das divergências políticas, clubistas, religiosas ou outras, coloco (como sempre coloquei e colocarei) o bem precioso que é a Amizade. O resto são cantigas que, ao que dizia a letra, o vento as leva. Aqui fica, portanto, o documento. Divirtam-se.
Antunes Ferreira

terça-feira, abril 01, 2008

RAIO DE VIDA

Despoletar
• A praga da asneira

Antunes Ferreira
V
ocês sabem alguma coisa de tropa? Estiveram no serviço militar? Consultaram, ainda que episodicamente, uma Enciclopédia? Mesmo a Wikipédia? E como vamos de conhecimentos de Português? Leram o Fernando Pessoa? Já ouviram, pelo menos, citá-lo quando escreveu que «a nossa língua é a nossa Pátria»?

Homessa. Que saraivada de perguntas. E, ainda por cima, aparentemente, não teriam muito a ver umas com as outras. Está visto: o cronista pifou, apagou as lâmpadas incandescentes, apesar das campanhas da EDP, ainda não as substituiu pelas económicas, de longa duração e poupadoras de energia. Resumindo: está cada vez mais parvo.

Como visado, o escriba tem (ainda) o direito de se defender. Isto não é a Carolina Michaëlis. Nem se está a utilizar qualquer telemóvel, apenas um teclado inofensivo de um modesto computador XP, por obra e graça de Mr. Bill Gates. Mas pago, não de graça. Daí que não venham para aqui chamados quer a aluna, quer a professora, muito menos o jovem que filmou, empolgado, a cena canalha. Estrumeira. Sarjeta. No more comments.



Que pretende, então, o escrito? Alto, e pára o baile. O dito cujo está a abarrotar de pontos de interrogação, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ter-se-á, pois, de seguir em frente, sem considerandos mais ou menos espúrios, se não mesmo ininteligíveis. Já basta o que basta, e, ainda que não pareça, pode continuar-se a pensar que a linha recta é a que une mais directamente dois pontos.

Continua a ser expressão usada (e abusada) - que é um crasso erro, de qualquer ponto de vista. É o calino despoletar. Oradores, escribas, jornalistas, locutores, políticos, numa esmagadora maioria são militantes dessa asneira. Despoletar uma situação. A agressão despoletou consequências péssimas. O golo despoletou a recuperação do clube que perdia ao intervalo.

No fundo, uma constante: algo originou que um processo se activasse, se desenvolvesse, ou aumentasse a sua importância ou dimensão. Ou seja, algo fez explodir a coisa que se encontrava mais ou menos em estado larvar. Está profundamente errada a utilização do termo. Profunda, não, completamente errada. Se a análise fosse feita em termos religiosos, tratar-se-ia de um pecado capital. Em termos jurídicos, um crime, no mínimo por ignorância.

Tome-se uma granada, por exemplo, uma de mão, defensiva. O seu corpo metálico, em forma de pinha recortada (invólucro), é «recheado» de explosivo. Ao ser deflagrada, são os estilhaços dela que deverão atingir o inimigo. Para que isso funcione, rezam os manuais da arma, acentuam os instrutores, que os utentes têm de usar cuidados especiais. Se os não respeitarem, podem eles próprios ser vítimas dela. Muitíssimas vezes isso tem acontecido, infelizmente.

Explique-se o funcionamento do artefacto bélico. Para que o detonador origine a explosão é necessário que algo o percuta. Assim no interior da granada, existe um objecto seu componente; pode dizer-se de modo mais simples, que é uma espécie de prego com uma ponta, naturalmente. É o percussor. Nem mais, nem menos.

A granada está armada, com a espoleta (às vezes existem duas) no seu lugar, a qual quando detona faz explodir o artefacto bélico, por força do movimento vertical e para baixo do percussor que acciona o detonador. Aquele é envolvido por uma mola helicoidal. Na sua extremidade, no cimo da granada, tem um orifício seguro por uma «argola» ou pino, que trava a acção da mola. Além disso, uma alavanca colocada lateral e longitudinalmente no exterior da arma é outra garantia para o militar que a arremessa.

Deste modo, o atirador, retira o pino, segurando firmemente a alavanca para que a mola não prima de imediato o percussor sobre o detonador. Leva o braço atrás, conta até dez, para temporalizar o acto e lança a granada para o inimigo. O restante, é óbvio. A não ser assim, não existiriam tais objectos letais. O que, aliás, seria excelente.

Ora muito bem. Espoletar uma granada é ter a espoleta colocada no seu lugar, pronta a actuar, ou seja a originar a explosão. Se o Português ainda tem regras – e tem-nas, ainda que bastas vezes esquecidas, ignoradas ou, até, vilipendiadas – o que se ensinava sobre o prefixo des era que da sua junção à palavra base resultava a negativa desta.

Organizado. Desorganizado. Elegante. Deselegante. Ocupar. Desocupar. Não vale a pena continuar com exemplos, aliás despiciendos. Espoletar. Despoletar. Sendo assim, despoletar significa tirar a espoleta de uma granada. O que quer dizer que ela não explodirá, pois fica inerme. Sem grande margem para dúvidas, refira-se. Militares e linguistas, ou vice-versa, não podem estar mais de acordo.


Donde, a expressão estar a ser utilizada (e já há bastante tempo, infelizmente) com significado absolutamente oposto ao que suposta e aparentemente se pretende com ela. Despoletar é desarmar, é impedir que a detonação se verifique, é, em boa hora, impedir que corra sangue. É abortar a violência.

Este, hoje, é um texto que foge ao habitual. Já lá vão uns anos, um Senhor chamado António Valdemar escreveu sobre o tema no Diário de Notícias e o escriba, na altura seu camarada de lides jornalísticas, mais uma vez aprendeu com ele. Refere-se aqui a circunstância, citação que se entende inteiramente justa, correcta e, portanto, em absoluto, pertinente.

Foi, no entanto, a voz que clamou no deserto. Valdemar, um Homem cultíssimo, sabedor, cabeça prestigiada, memória prodigiosa, maçon sem peias, académico de mérito, foi à estacada, esgrimiu com mestria, desancou nos ignorantes – mas o erro crasso prosseguiu, dir-se-ia, impávida e tranquilamente. Debalde, por conseguinte.

Nós, os Portugueses, somos assim. A calinada, de tantas vezes repetida, entrou no corriqueiro do dia-a-dia. Esmerou-se na alarvidade linguística. Para ser mais correcto: esmerámo-nos, pois o cronista é tão luso como todos os restantes cidadãos. E compatriotas. Só que, no caso vertente, tenta usar correctamente o despoletar. Quer na Língua, quer na guerra, há que despoletar, sim, mas no sentido correcto.

(Tambem publicado no blogue SORUMBATICO)




segunda-feira, março 31, 2008




NA ROTA DO CALENDÁRIO


Março das Primaveras

Maria Lúcia Garcia Marques

Nasci com Março e com as primaveras. Tempo final das grandes germinações, do rebentar das águas, do eclodir das cores. Tempo feminil e quase frívolo em que a Natureza compõe seu rosto, se adorna e floresce. Histórias de sementinhas com final feliz como estas com que Aquilino abre a sua “Casa Grande de Romarigães” e que deliciadamente aqui resumo:

O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!

Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balançou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima de uma fraga, ligeiro como um tira-olhos.


Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse.

Também ali perto, por uma tarde fosca de Outono, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça. (…) Trazia no bico uma bolota (…) mas deixou cair a glande. Esta foi bater na face zenital dum velho toro, saltou de ricochete para o lado, e aninhou-se muito aninhada num monte de folhas secas e argalhos. (…) ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir ?!




Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe ?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim? Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas?

Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava o flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser. Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta.


E esta floresta assim nascida faz-me lembrar o como se tece e urde o tecido/texto da nossa fala. De como, das clareiras do silêncio, se parte, pelos trilhos da memória e do engenho, ao encontro das palavras na pujança das suas inflorescências semânticas, numa “expedição” em que, como diz Ramos Rosa , de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem / trémulas ainda de silêncio e de desejo. E são muitas. Infindas. Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo, dirá Almada Negreiros. E há-as úteis, imperativas, apaziguadoras, apaixonadas ou frias, difíceis ou arrogantes, de misericórdia e de luto, secretas ou segredadas, gastas ou já esquecidas, que unem e que separam, de prisão e de alforria, de justiça e de oração, de rogo e de promessa, de culpa e de perdão, de fúria e raiva como no poema de Sophia:


Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra” ( Junho de 1974 )

Mas há palavras lindas que nos salvam, nos lavam e nos saciam.
Palavras-de-março que, como um fio de água bonançoso e limpo, trazem nelas a Primavera.



sexta-feira, março 21, 2008




Ditados a granel

Antunes Ferreira
Um homem não é de pau, diz rifão bem conhecido. Cuidado: os provérbios são, normalmente certíssimos. Não se podem desdenhar, absolutamente. De resto, também afirma o povo que quem desdenha quer comprar. A ser assim... Se um cidadão cai na zona demarcada de um adágio, está tramado. É um pouco como os vinhos, também originários de zonas equivalentes: quando se bebem em excesso, ou se vai dormir, ou há uma cena triste. Ou umas.

Ora bem: a luxúria que está na base da máxima popular é um dos sete pecados capitais, que, de acordo com a Wikipedia são uma classificação de vícios usada nos primeiros ensinamentos do catolicismo, para educar e esclarecer os crentes, de forma a compreender e controlar os instintos básicos. Não há, no entanto, registo dos sete pecados capitais na Bíblia. Mas são, para além da luxúria, a gula, a preguiça, a avareza, a ira, a soberba e a vaidade.

São Tomás de Aquino escreveu sobre eles. Mais faltaria que o não tivesse feito. Na sua doutrina sobre os pecados capitais - ou vícios capitais -, ele repensou a experiência acumulada sobre o homem ao longo de séculos. Sempre voltado para a experiência e para o fenómeno, é sobretudo, quando trata dos vícios que o seu pensamento mergulha no concreto, e, citando o sábio Dionísio, escreve que "malum autem contingit ex singularibus defectis", ou seja para conhecer o mal é necessário voltar-se para os modos concretos em que ele ocorre.


É bem sabido que o fruto proibido é sempre o mais apetecido. O pecado da carne é, quiçá, o melhor exemplo deste dito. Nos mandamentos está gravado que ninguém pode cobiçar a mulher alheia. Afirmação machista, há que o dizer. Então, se a mulher cobiçar o homem alheio não existe pecado? E se duas fêmeas se cobiçarem uma à outra? E se dois marmanjos procederem idem, idem, aspas, aspas? Vistas as coisas por este prisma, temos, realmente, o caldo entornado. O caldo da carne, evidentemente.

As sociedades humanas encaram os capitais de forma habitualmente severa. Sublinhe-se que umas mais do que outras. Não há forma de se encarar estas questões similarmente. Já não se usa o velho e obsoleto papel químico. (Ainda existe quem o faça, mas a ser assim, é um homem das cavernas, da pedra lascada). Porém, existem outros recursos. A ovelha Dolly foi o primeiro exemplo da clonagem animal. Mas isso são outros quinhentos mil réis, como dizia o meu falecido grande Amigo e enorme Jornalista, Victor da Cunha Rêgo.


Daí que haja grupos mais puritanos do que outros, grupos mais liberais do que outros, grupos mais praticantes que outros, grupos mais condescendentes que outros, grupos, enfim, para todos os gostos e paladares, como os chupa-chupas da nossa infância. Aqui há uns anos, não tão longe quanto se possa pensar, as «coisas feias» não se faziam às claras, eram predominantemente às escuras. Onde vai isso?

Hoje, peca-se a céu aberto. Ouve-se que acabou a hipocrisia. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Hipócritas sempre houve, há e haverá. Nem mais. Por todo este Mundo desrazoado ela viceja, benza-a um qualquer deus. É pá, ganda intervenção no Parlamento, quer dizer, olha, filho, o teu discurso foi uma bosta; malta a dormir, quase toda, maioria e oposição. Sarzedas avançou, fintou um, fintou dois, tirou um terceiro da frente e chutou: um golaço, significa: o guarda-redes deu um frango maior do que uma avestruz, foi pura sorte, o gajo nunca mais marca um igual.


Mais exemplos – para quê? É tudo à vista de todos, nada de tentar fingir que não foi assim, que não é assim, que não será assim. A luxúria é, então, uma prática aberta, obviamente sem cobertura de qualquer qualidade? O desejo satisfaz-se na via pública, sem se dar atenção às placas de sentido proibido, nem de proibição de estacionamento? Depende.

Se há terra onde o falso puritanismo dita leis, ela é os Estados Unidos da América, EUA, USA, escolha-se. Advirta-se: há mais, evidentemente; mas por lá, exagera-se. Com hipocrisia q.b.. Práticas que se verificam à sorrelfa, vêm a público e toca a rebate. As mais das vezes, as coisas endireitam-se, honni soit qui mal y pense, mas quando saem à luz do dia é um vê-se-te-avias. A classe política é, disso, freguesa frequente.

Não se recue muito, basta recordar 1998, quando Bill Clinton se deparou com a «ingratidão» da boca da Mónica Lewinsky. O caso da Sala Oval bradou aos céus.
Caiu o Carmo-e-a-Trindade, mas não caiu o Presidente. No entanto, o escândalo correu o Mundo, as anedotas proliferaram, na net foi um corrupio. A vingança serve-se fria. Hoje, Hillary bate-se apenas para derrotar Obama? Ou para limpar o apelido?

Outros casos foram fatais para quem os interpretou. A esmo. Em 2004, o governador de New Jersey, Jim McGreevy, foi apeado por ter sido descoberto em prática homossexual. Ou por intenções de tal natureza. Mataram-no, óbvio que politicamente. Passou a fazer parte do time dos ex qualquer coisa. Corria o ano da graça de 2006, quando Mark Foley, deputado pela Flórida, integrou a equipa. O homem (que até presidia a uma comissão contra a pornografia infantil) andava a atirar-se a menores que estagiavam na Casa Branca.

Já no ano passado, o senador Lerry Craig, pelo Idaho, terá sido apanhado com a boca na botija, salvo seja, num aeroporto. Para mal dos seus pecados, kogo se havia de meter com um agente da autoridade, avesso a tais aproximações. Olho da rua. A sociedade norte-americana cobrava os dividendos que entendia, a moral pública não se permitia ofensas de tal quilate.

Agora, estala mais uma bomba. Começa pelo governador de Nova Iorque, melhor dizendo o ex-governador Eliot Spitzer. O senhor terá gasto uns largos milhares de dólares com umas raparigas mais complacentes.
A última, já em Fevereiro, a miss Kristen, nome de guerra profissional, na realidade Ashley Alexandra Dupré deu à dica sobre um alegre convívio no Hotel Mayflower, nome histórico que também era marca de tabaco para cachimbo. Apagou-se. O cachimbo e o governador ex.

Vai daí, o seu número dois, o senhor David Paterson, que com ele integrava o ticket democrata vencedor, ascendeu ao posto. Uma novidade na política do tio Sam. Paterson é cego e negro. Algum dia isso podia acontecer. Foi agora. Mas, espanto dos espantos, o novo governador da Big Apple, logo no dia seguinte à posse, deu uma entrevista acompanhado da esposa amantíssima Michelle, durante a qual declararam ambos que se tinham corneado mutuamente. Os casamentos têm os seus maus momentos, afirmaram.

É o verdadeiro paradigma do pôr as barbas de molho. E duplamente, e ao quadrado. Não só porque foi o ilustre casal a contar os seus feitos extra-conjugais, mas também porque Mister Paterson usa... uma barba cinematográfica que lhe fica a matar. Continuando na senda dos ditados, o (ainda?) governador novaiorquino é como a pescada ou o vestido: antes de o serem já o eram.

Por causa das moscas, esta confissão da insigne parelha é antecipação a uma mais do que provável investigação jornalística que poderia resultar em parangonas assassinas. Resta saber se, quando esta crónica for publicada, ele ainda é governador, ou se já faz parte da sociedade dos ex. A vida dá muitas voltas.

Legendas por ordem de inserção
Casal Paterson
Os sete pecados capitais - de Yeronimus Bosch
A gula - de Milo Manara
Pecar às claras ou às escuras?
A soberba - de Milo Manara
Bill & Monica
Os Spitzer


* (Também publicada no blogue SORUMBÁTICO)

quarta-feira, março 12, 2008




Morte na Picada - Lançamento

É com muita satisfação que anuncio que o lançamento do me(a)u livro será em 15 de Abril, pelas 18:30 na Fnac do Colombo.

Três grandes jornalistas e meus excelentes Amigos, o Joaquim Furtado, o Joaquim Vieira e o Fernando Farinha acompanham-me nesta empreitada.
O primeiro fará a apresentação da obra, o segundo assina o Prefácio dela e o terceiro é o autor das fotos da capa e do miolo do livro. O que lhes agradeço, pois a companhia deles foi imprescindível.

A Editora é a Via Occidentalis, do Júlio Sequeira, que agora descobri, mas com quem estabeleci uma cumplicidade notável.
Trata-se de contos (short stories) da guerra colonial de Angola em que, infelizmente, estive envolvido como oficial miliciano. Foram publicados neste blogue, como devem saber.

Gostarei muito de os ter lá. Por isso peço que não faltem. Ora essa? Peço, não, ordeno!!! E não há faltas justificadas, nem de mau comportamento. Têm de (e devem...) estar lá. Ponto.

terça-feira, março 04, 2008

Nó matrimonial

Antunes Ferreira

Moça bem lançada, a Ermelinda. Com tudo nos devidos lugares. Boa pra milho dizia-se na tasca do Jaquim, a malta era lixada, a Rua Maria Pia uma confusão, a Meia Laranja uma porra! Droga de toda a qualidade (?), dimensão e feitio, desde o charro até à pastilha, e raparigas da vida, ou melhor, putas. Os carros estacionados fora de qualquer lei, uma boa parte de foras-da-lei, dificultam o trânsito «normal» e os condutores «saudáveis» sabem que, ao passar por ali, enfrentam provas de rali que nem o mais pintado Loeb enfrentaria com destemor q.b..


Continuando. A jovem até já fora candidata a miss não se sabe exactamente o quê, num concurso organizado por revista – hoje diz-se magazine, muito mais bué de fixe – supostamente feminina e patrocinado, vejam lá, por uma marca de telemóveis e por um crédito pessoal pelo telefone, antes deveria ser via pombo correio. Arrancara um honroso terceiro lugar, subira ao pódio, levara faixa. E ramo de flores, está bem de ver.

Como escrevia a Maysa do Correio do Coração do Diário Ilustrado em papel cor-de-rosa (lembram-se? Não? Eu trabalhei lá e, na doença do Roussado Pinto, Ross Pyn para efeitos de livros policiais, dei corpo à hipotética conselheira amorosa. Nos anos cinquenta e tais. Justificado, portanto: não se recordam, nunca o viram, não entram na categoria do Palyentosaurus Akromagnonicus. Eu, sim.), pois, como escrevia a suposta pitonisa, miss sem ramalhete – não chega.

Ermelinda, consequentemente, era objecto de cobiças as mais despudoradas, dos dichotes mais insinuantes e alguns mesmo até menos elegantes, despertava desejos inconfessados, sonhos lubrico-sensuais e assim. Babadinhos, muitos. Presos pelo beicinho, mais. Começaram a surgir os pedidos de namoro. E as propostas mais ousadas, para não dizer indecorosas. Em pleno século XXI, em que o sexo perdera quase todo o encanto que anteriormente tinha, os avanços da malta eram constantes e persistentes.

Abro aqui uma parentética. Na Proto História, mais coisa, menos coisa, em que comecei a olhar para as miúdas, era proibido, por exemplo, o biquini. Havia muito mais coisas interditas aos cidadãos, mas esta é apenas a demonstração da estupidez e do obscurantismo do regime salazarento. Contava-se, então, a anedota do cabo-de-mar que, na praia de Carcavelos, se deparara com uma jovem em tais preparos. A autoridade avançou logo com um severo «minha senhora, é proibido o uso de fatos de banho com duas peças»!

A donzela era francesa, o seu aspecto denotava isso, mas o brioso agente não se intimidara. A lei é lei, há que cumpri-la. Dura lex, sed lex diziam os Romanos – e diziam bem. O caso era que a gaulesa biquinizada tinha os avós naturais de Mirandela e, por isso, entendia perfeitamente o Português e falava-o bem, ainda que carregando nos erres e anazalando sons que não o deviam ser. «Senhorr Põlicia, qual das duas peças querre que eu tirre»? Galhofa, só galhofa. Andava uma mãe a criar um filho, para que ele viesse a sujeitar-se a tais desmandos.

Isto para vos dizer que era mais o mistério que envolvia um tornozelo bem torneado, que permitia considerar como seria o resto, um ombro menos tapado que possibilitava imaginar a continuação dele, uma blusa mais cingida que levava a sonhar com o conteúdo bem dimensionado. Quando entrei para a Faculdade de Direito, a malta atravessava a terra de ninguém, ou seja o largo entre a nossa e a de Letras, encimado pela nova Reitoria, para ir ver as meninas. Era o que então se chamava empernanço de pestana...

Hoje, a nudez e a cópula andam por aí, como o Dr. Santana Lopes, sem peias nem adivinhações. O fruto proibido é sempre o mais apetecido, vox populi. Era, pelos vistos. Agora, todas (ou quase) as práticas sexuais são às escâncaras, nem sequer à média luz. O tango correspondente já foi, será que terá existido o Carlos Gardel? Já basta de parênteses sobredimensionado e sem sustentação aparente. Ponto final, parágrafo. Na outra linha.

Hermenegildo era um dos aspirantes à terceira classificada, sem coroa, mas com buquê. Um trinca-espinhas, tão, tão, tão, que os amigos dele diziam que conseguiria, se o tentasse, tomar banho num carril de eléctrico da Carris. Exagero. Os mais comedidos apenas afirmavam que ele mesmo sob uma bátega de água, não se molhava pois podia passar por entre os pingos da chuva. Nada, não. Era mais um gozo, face ao esquelético.

Para obviar a tais enxovalhos, ainda que amigáveis, o rapaz, no Inverno que corria, passou a usar quatro camisolas sobrepostas, por cima da camisa e da camisola interior. O que lhe dava uma massa corporal aceitável, no mínimo. Ceroilas, dois pares, calças de pijama e a forrar isso tudo, os jines. Não se tornara num hércules-de-bairro, mas estava muito mais apresentável. Feitios.

A verdade é que a Ermelinda atentou nele. E ele, claro, nela. Foi um namoro de fórmula um, terminado na igreja, que os pais dela eram praticantes de missa semanal e comunhão. Hermenegildo, ainda que respeitador e pacato, não se dava muito a essas práticas, nem sequer tinha algum amigo sacerdote. Mas, o dever assim o exigira, e ala que se faz tarde, fato preto e arcaboiço enchumaçado convenientemente, como se lhe tornara habitual.

Segundo andar na Falagueira, por cima de uma loja de móveis e electrodomésticos, olha que novidade por tais bandas, entrada inicial como prenda dos sogros do nubente, mobilias e afins da responsabilidade dos da noiva, os padrinhos dela avalizaram o empréstimo bancário e os dele, gente apessoada e com bagalhuço, um carrito coreano, ar condicionado, GPS e avisadores sonoros da marcha atrás, porreiros para o estacionamento em espaços mais apertados.

Depois da fuga estandardizada no final do copo de água, ei-los no lar, doce, lar. O Hermenegildo, se se despisse a descoberto, seria uma catástrofe, pensava. Quanto ao resto, não tinha dúvidas: a fornicação era tiro e queda, nisso era ele seguro. Mas, na ossadura é que estava o busilis. Que diria a recém casada?Por isso, entre os primeiros beijos e os correspondentes ensarilhansos linguais, sussurrou- lhe ao ouvido cujo lóbulo mordiscava, que se metesse na cama, despidinha, e apagasse a luz, que era um fetiche dele. Assim se fez.

O macho despojou-se das camadas de roupa, ficou em pelota, afastou o lençol matrimonial e com um entusiasmo desmedido atirou-se à esposa. Esta, na escuridão, deu um grito lancinante: Hermenegildooooooo!!!! Porra, que aconteceu , meu amor, tens assim tanto medo? E ela, não meu querido, caiu-me em cima o crucifixo que estava pendurado na parede, por cima da cama. Ele há dias em que um homem não pode deitar-se, à noite.


(Também publicado no blogue SORUMBÁTICO)

sábado, março 01, 2008






HISTÓRIAS DA PJ


Aconteceu

na Primavera marcelista

(conclusão)


José Augusto Garcia Marques


O Dr. Rui Oliveira era um homem sisudo, com pouco mais de trinta anos, alto e muito magro, com um rosto comprido, de olhos cinzentos e maçãs de rosto salientes. Era o tipo acabado do homem duro, determinado, lutador. Era um defensor de causas. Prático no vestir, tinha todo o aspecto de um intelectual dos finais dos anos sessenta. Vim a saber muito mais tarde que era irmão de um oficial da Marinha que eu havia conhecido em Angola, com o qual tinha, aliás, semelhanças fisionómicas, sendo, porém, bem mais alto.

Tive a oportunidade de constatar o estado em que ficou a cara do médico, em consequência das agressões que sofreu.
Toda a zona por debaixo dos olhos, incluindo as maçãs do rosto, encontrava-se, quando o vi pela primeira vez, negra-arroxeada, em virtude das hemorragias causadas pelas pancadas que lhe foram aplicadas. Porque foi assim que ele foi agredido – à coronhada, ao soco e a pontapé.

Para uma adequada identificação dos agressores, convoquei todos os legionários que, no dia da ocorrência dos factos, tinham passado pelo Quartel do Rato
, os quais se deslocaram à sede da PJ, para uma diligência de reconhecimento.

Eram cerca de uma dúzia, e foi-lhes ordenado que se colocassem em fila, num dos gabinetes da brigada do Chefe Daniel, ficando numa extremidade, um pouco à frente, o respectivo Comandante – cuja cabeça pequena e cara de adolescente destoavam no cimo de um corpanzil flácido e mal equilibrado.

A generalidade dos legionários era constituída por arruaceiros de terceira categoria, e alguns deles apresentavam-se fardados. O facto de se encontrarem em grupo e de estarem habituados a praticar desmandos e provocações que ficavam impunes dava-lhes uma sensação de à vontade, própria de quem julga que “está em casa”. Estavam relaxados, trocando sorrisos e graçolas. Pensavam estar na iminência de participar numa mera formalidade, sem consequências.


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médico, homem muito frio e dotado de grande auto-domínio, passou em frente da fila, encarando cada um dos legionários cuidadosa e demoradamente, olhos nos olhos, e identificando aqueles que o tinham agredido ou os que, não o tendo feito, se recordava de ter visto no Quartel da Legião. Quando tinha dúvidas, dizia não estar seguro na respectiva identificação. (
Este estava lá e agrediu-me; deste não me lembro; este andava por lá mas não foi um dos agressores; este insultou-me e agrediu-me; este bateu-me com os punhos e com a coronha da G3; e assim sucessivamente até chegar ao comandante de quem disse que entrava e saía da sala).

Em dado momento, principiou a gerar-se e a crescer um burburinho de indignação por parte dos identificandos. Começou em surdina, mas rapidamente as vozes se tornaram audíveis. Visavam, já não o médico, mas a própria PJ, e, mais em concreto, a minha pessoa e a dos agentes que estavam presentes na identificação. Às tantas, ouvi dizer, com intenções nitidamente provocatórias: “agora quem manda já são os comunistas”.

Entendi, para evitar males maiores, apelar à autoridade e ao sentido de chefia do Comandante, a quem me dirigi com aspereza e em tom de comando. Disse-lhe que ou ele era capaz de impor a compostura e a disciplina, ou eu me via obrigado a tomar as medidas que a lei me proporcionava para agir contra desordeiros e insubordinados.

Não sei se por receio de que eu pudesse ordenar alguma detenção, se em virtude da postura militar com que fiz a exortação ou se por espírito de corpo para com a Legião Portuguesa (que ali representavam), o certo é que o apelo surtiu efeito. Metido em brios, o Comandante resolveu impor-se e, em face das suas ordens, os homens mudaram de atitude, tendo passado a comportar-se com o correcção devida às circunstâncias.

Entre os presentes havia indivíduos de muito baixo nível social ou com manifesta falta de capacidade de discernimento, a par de outros, recrutados entre veteranos da guerra colonial.
Lembro-me de um deles, figura conhecida da noite de Lisboa - e adepto ferrenho do Sporting -, que era um dos mais barulhentos e incorrectos. Procedia assim em grupo, porque, como tive a oportunidade de constatar mais tarde, numa diferente investigação, quando interrogado sozinho, transformava-se num autêntico cordeiro. Penso ter subido muitos degraus na escala da sua consideração quando alguém o informou de que eu era adepto do Sporting e que também tinha passado dois anos na guerra de África.

Na sequência da sessão de reconhecimento e de outras diligências realizadas, foi-nos possível identificar a maior parte dos autores do assalto à sede da CDE e das agressões na pessoa do médico Rui Oliveira. Entretanto, antes de terminar a minha comissão de serviço na PJ, o que aconteceu em meados de 1970, pus os meus directores ao corrente das conclusões das investigações nos processos em referência.

Foi-me então perguntado se os factos provados não se limitavam a simples “bagatelas penais” - ofensas corporais ligeiras, injúrias e simples danos? Confesso que a pergunta me deixou surpreendido, em face do desconhecimento que revelava do progresso das investigações – que eu, como me cumpria, ia reportando periodicamente a quem de direito. Respondi, esclarecendo que havia também ofensas corporais graves, além de um crime de cárcere privado. A estupefacção apoderou-se dos meus interlocutores: “Mas o cárcere privado está provado? E foi praticado por legionários?” Respondi afirmativamente.

Antes de deixar a PJ – à qual haveria de voltar no final da década de setenta, então para o exercício de funções de direcção -, deduzi as competentes acusações, com a previsão da totalidade dos crimes praticados, incluindo o de cárcere privado, a que correspondia uma pena de prisão maior – de três anos a oito anos.

Qual não foi o meu espanto, quando, já no exercício das minha novas funções, tomei conhecimento, pelo “Diário do Governo”, que, no elenco dos crimes amnistiados aos estudantes de Coimbra que tinham recebido com insultos e imprecações o “Venerando Chefe do Estado”, Almirante Américo Tomás, no que foi um episódio de resistência ao regime com grande impacto mediático, se encontrava incluído o crime de cárcere privado. Escusado será dizer que os beneficiários desse “gesto magnânimo” não foram os estudantes da Lusa Atenas, mas sim os legionários do Quartel do Rato.

***

Os factos ocorridos no desfecho da história que acabei de relatar constituíram a minha primeira revelação de quão vulnerável pode ser o “mundo da Justiça”, em certas conjunturas. Naquele ano de 1969 eu tinha renunciado ao gozo de férias, seguro da importância em concluir tão depressa e tão bem quanto possível algumas investigações que me tinham sido distribuídas, entre as quais se contavam os dois processos a que me referi. Não obstante, uma vez realizadas as eleições de Novembro, o “mundo” voltou ao que era antes – e à “Primavera da nossa esperança”


sucedeu o “Outono da nossa desilusão”. A amnistia que branqueou os crimes dos legionários deu razão àqueles que, afinal, pensavam que tudo não era mais do que uma simples formalidade. Afinal, apesar do esforço da PJ, eles estavam efectivamente em casa ...