quinta-feira, agosto 16, 2007




SOMBRA DA GUERRA COLONIAL

Carne Fresca


Antunes Ferreira
T
irou a folga do gatilho e voltou a apurar a mira. A palanca, imóvel, levantou o focinho, parecia cheirar algo, não sabia o quê. Raspou o solo capinado, com um tanto de nervosismo, os cascos restolhando nos cotos da erva segada. Lingrinhas pensou um, dois milésimos de segundo, quiçá três, mesmo cinco. Assim faziam os touros mansos antes de investirem. Por isso disparou.

O animal saltou para a frente, como que começando a corrida, mas ficou-se no arranque, como que suspenso no ar, parado no tempo e no espanto. Caiu de lado, esperneando, nos estertores de quem acaba, seja bicho ou homem. Caralho, Lingrinhas, deste-lhe na mouche! Dois pontos para o Lisgás! Porra, essa foi do suco da barbatana!

Os cinco soldados – tinha saído uma secção incompleta a ver se abastecia de carne fresca a companhia, farta de enlatados, de bacalhau sem batatas e linguiça em pão duro e bolachas Capitão – quase o levavam aos ombros. Ó pá tu és um meia-leca, se os turras te atacassem, punham-te debaixo do braço e ala que se faz tarde… Mas, no fogacho ninguém te bate!

Por alguma razão o capitão Malveira tinha mandado o Cristóvão Lingrinhas, mais o quinteto de camaradas ao açougue da mata. Era quase certo. O trinca-espinhas traria bifes e costeletas e lombo e perna e todas essas coisas que um homem quer ter quando voa para o rancho. Já não apanhamos mais nada, o eco assustou os animalejos, vamos embora.

Nem pó. O caçador cheirava presa, algo mais viria para enriquecer a despensa do aquartelamento e os desejos gastronómicos da soldadesca. Os cinco, entre o medo de uma qualquer merda – já bastava o que bastava – e a gula de cascata na boca, começaram a falar fininho, por causa das moscas – e do resto.

Andavam por ali uns quantos cabrões, que se intitulavam a eles próprios guerrilheiros, comandados por um tipo que infundia cagaço ao mais pintado. Era um tal Mata-Mata, mulato, dono de uma carabina Mauser de precisão, com mira telescópica, prenda do pai branco, que onde punha o olho punha o chumbo. Era igualmente caçador, mas de soldados tugas, não se sabendo se se dedicava a outras sortes cinegéticas.

Ó pá, talvez fosse mais seguro pegarmos no animal e leva-lo para a esfola e a panela. Basta pensar que nos podemos meter em trabalhos, uma alhada nunca vem só. Depois, com estes filhos da puta, nunca fiando. Chico Cristóvão nem lhes dava troco. Vamos apanhar a palanca, meter-lhe umas varas para ser mais fácil de transportar, tipo padiola. Quatro levam-na para o quartel; o Sebastião vem comigo. Não se desorientem, seus atrasados mentais. E voltem logo para levar mais caça.

O silêncio ouve-se

Sebastião deitou contas à vida. O sacrista do Lingrinhas ainda lhe arranjava uma valente enrabadela. E os pretos, dizem as meninas do Bairro Operário, têm a piça grande. Da-se, nem pensar nisso que lhe sobe um arrepio pela espinhela acima. Ó camarada, e se nos puséssemos na alheta? Medricas, sempre me saíste um bom mariquinhas pé-de-salsa. Aqui não morre ninguém, muito menos te tocam no cu, estamos quites.

Mas de alimária – nada. Até os macacos, empoleirados em seus galhos, deixaram de guinchar. O silêncio na mata ainda é mais opressivo. O silêncio ouve-se. Tal como o barulho. Os dois deitam-se no leito de folhas secas da floresta. Vai um cigarrito, Lingrinhas? És mesmo uma besta-quadrada! Lume aqui? Mas foste tu que acabaste de dizer que não nos pode acontecer nada. Cala-te e nada de piriscas.

Emboscados, por entre troncos apodrecidos, pensavam que confundiam o camuflado com os tons do que os rodeavam. Esperavam. Presa ou os transportadores de carne fresca. Quem seria o primeiro? Sebastião, a quem chamavam na companhia o come-tudo, sem ou com colher, lembrança da canção dos putos, avançou um tímido estou cheio de larica. O comparsa nem lhe respondeu. Se calhar nem lhe ligou nenhuma.

A ramaria deixava coar uma luz cada vez mais esparsa, avermelhada do poente. Um tiro, um só. Sebastião nem soltou um pio. Pedaços da mioleira esfacelada saltaram sobre o Lingrinhas que se enfiou ainda mais, se possível, pela podridão vegetal. Segurou com força a G3 de mira também telescópica, como a da arma do Mata-Mata. E se fosse o gajo?

Houve um tropel de cascos misturado com botifarras calcando o solo pegajoso. Eram os militares que voltavam e tinham ouvido a detonação. Pelo ruído, corriam. Mas, por trás de uma moita agigantada surgira um burro do mato, grande e encorpado, fora do normal. Um verdadeiro desafio para o Portuga. Uma provocação.

O Chico não podia levantar-se, o bandalho fuzilá-lo-ia, mas o vício era desmesurado. Ou lhe atirava a matar ou as entranhas saíam-lhe pela boca, pelo olho de trás, pelos poros. Os soldados gritavam por ele, aguenta-te Lingrinhas que estamos a chegar, não te vás abaixo! E chegaram, ofegantes, disparando um tanto à toa, assim os turras não respondiam, tinham medo de dar a posição deles. Ou dele, pensou Cristóvão, enquanto mecanicamente disparava – mas sobre o animal. Qual Sebastião, este caiu de chofre, sem qualquer hipótese.

Já um pouco afastado ouviram um berro de ameaça – eu volto! Promessa sangrenta que sabiam que iria ser cumprida. E uma gargalhada de bazófia, mas também da consciência do medo que infundia. Era o Mata-Mata, não havia dúvidas, a maneira de falar dos brancos, mulato fino, voz rouca. Ele voltaria, não se sabia quando, mas voltaria. Cumpriria o prometido, era homem de palavra.

Dois cadáveres

Regressaram os soldados, com dois cadáveres aos ombros: o burro do mato e o Sebastião. Ou vice-versa. A recepção que se antevia eufórica no pressuposto de mais carne fresca, enlutou-se com a carne também fresca – mas do magala desditoso. A tudo assistia o Lingrinhas, esbodegado, como se lhe tivesse passado um cilindro das estradas por cima, lágrimas ensacadas, um homem não chora.

O capitão Malveira chamou-o ao seu «gabinete» numa jotacê e perguntou-lhe se achava bem o que tinha causado. O Sebastião, de resto, era um gajo porreiríssimo e um paz-de-alma. Tocador de acordeão. Se não tivesse sido a tua estúpida ideia de dar mais uns tiros, o rapaz ainda estava vivo. Mas tu pensaste, cabeça de atum em lata, que estavas no Parque Mayer com as putéfias a regougar – vai um tirinho, freguês? A pensar morreu um burro, meu sacana!

Não estou a gozar. Isto não é para brincadeiras. Estou fulo. Estou fodido! Vou mandar levantar-te um auto de corpo de delito por homicídio involuntário. O nosso alferes Lucindo trata disso. Vais ver como elas te mordem. Nunca mais vais esquecer isto. E, a partir de agora, só sais com a canhota para combate. Meia volta, volver. Rua!

Estava metido numa boa alhada. Maldita a hora em que cheirara presa. Maldita a hora em que a mãe o parira. Esperava-o um futuro bem negro. Um auto de copo de litro, como os taratas gostavam de arremedar, atropelando a versão correcta. Como os que diziam auga em vez de água. Caraças, todo este torvelinho de ideias lhe vinha à cabeça – de atum em lata?

E o Sebastião? E a mulher do Sebastião, Gracinda de seu nome, 23 anos empinados? E a filhinha do Sebastião, Laurinda, a Laurindinha, doze meses incompletos, fazia anos a 22 de Setembro? E os pais do Sebastião? Que fora um camarada ali para as curvas, não dizia mal de ninguém, nada de coscuvilhices, nem intrigas, muito menos fum-funs ou gaitinhas. Estava para ali a cismar no seu futuro, quando o do desgraçado não era nenhum. Apagado, como fósforo queimado.

Uma grande cagada. Não tivesse ele mandado os outros levar a palanca e o Sebastião que ficasse com ele e outro galo cantaria. Assim, o galo fora do come-tudo, para ali espapaçado nas folhas podres, descapotado, os miolos espalhados em redor, até nele, Chico Cristóvão. Um arrependimento, tardio e enviesado, espalhava-se-lhe pela casquimónia. Que lhe restava agora? Nada. Mas, muito menos do que ao Sebastião.

Não te mortifiques

Muitos praças olhavam-no de viés. Já não bastavam os terroristas, também este cabrão, resmoneou o Marques açoriano da Fajã, às vezes nem se entendia o que dizia, mas agora não. O Fagundes, apontador de morteiro, agarrou-lhe um braço e afastou-o da censura quase generalizada. Ouve, Lingrinhas, ouve. Ouve-me e não me copules. Escuta-me filho duma pega.

Toma nota. O destino já tinha marcado a hora do Sebastião. Não tens que te mortificar e assumir a culpa. Limitaste-te a tentar trazer mais paparoca para os dentes da malta. Estivesse eu no teu lugar e, se calhar, fazia o mesmo. Essa gajada – deixa-a falar. O que tu bem sabes é que eles cobiçam-te a pontaria. O olho, salvo seja. Atira para trás das costas e não te enterres a ti próprio.

Enterrar. Enterro seria o do Sebastião, caixão desembarcado no Puto, a viúva em ânsias, os pais amarfanhados, a menina no carrinho, já dando os primeiros passos, nunca junto à cova do pai. Assim, não vais a nenhum lado, Lingrinhas. Assim consomes-te por dentro, comes-te a ti próprio, dizia o Prof. Candeias que serias um autofágico, lembras-te?

De passagem: enterrar sim, mas outra coisa, naquela moça do bengaleiro do cinema Império, mestiça danada, calças justas, segunda pele a azul ponteado, um par de mamas viçosas e tesas, sem sutiã, que nós bem lhe vimos os mamilos desenhados na camiseta encarnada debruada a preto. Aí sim, aí enterrava até aos tomates e tenho a certeza de que ela se rebolaria como uma cabra no cio.

Repara Chico, e só estivemos em Luanda, no Grafanil, oito miseráveis dias e umas horas. A fita era a mesma, A Revolta na Bounty, com o Marlon Brando, mas fomos lá cinco vezes. Já sabíamos de cor o enredo, o motivo do desatino era a moça morena. De canela, Lingrinhas, morena de canela, mulatinha. Mau. Mulato era o Mata-Mata que enfiara o balázio na fronha do Sebastião. Ele dissera que voltaria. Quando o fizesse, ele, Chico Cristóvão estaria lá, à sua espera.

Com o rodar dos dias, as folhas do calendário que tinha à cabeceira - com uma louraça abonada e de peito ao léu, rapariga muito cobiçada ainda que de papel, frente à qual muito boa gente esgalhara uma pívia à maneira – foram-se arrancando. No mato, sem sanzala perto, era uma merda, e mais a mais as palmas das mãos não tinham cabelos. Mas era o que havia.

O fradalhão de Santa Comba

Filha da puta de guerra era aquela. O Fagundes, pela calada da noite, abria-se em palavras sussurradas – à sorrelfa. Os gajos tinham razão em quererem a independência. O Brasil era um exemplo. E os africanos estavam agora a dar cabo da colonização. Isto não são províncias ultramarinas, são colónias. Em Lisboa até há um bairro das colónias, se não sabes, aprende que eu não duro sempre.

E acrescentava, cada vez mais baixinho, que o maricas do fradalhão de Santa Comba – quem? – o Salazar, meu animal, o Botas, é que mandava o pessoal apanhar no cu, sacrifício ignóbil e inútil, porque aquilo ia acabar mal para a malta. Destas conversas de cobertor participava o Machado, sacristão na civil, até comentava que o Fagundes era comunista, igualzinho ao tio Serafim, que fora apanhado pela PIDE e estava a ferros em Peniche. Não sou, mas podia muito bem ser. Bons sonhos.

José Malveira, capitão de Infantaria (QP), decidira, face aos constantes ataques, agora já não apenas na picada, mas ao aquartelamento, que um pelotão reforçado iria montar uma emboscada, junto ao carreiro da água. Dali vinham disparos nocturnos e, até, pelo entardecer, barbaramente certeiros, eu cá seja ceguinho se não é o Mata-Mata.

Cristóvão ofereceu-se, o grupo de combate nem era o dele, mas foi. O comandante – águas passadas não movem moinho – aceitou, já que se tratava de acção de combate e a pontaria do Lingrinhas fazia muito jeito. E como em tempo de guerra não se limpam armas, o caçador seguiu. Fagundes, agarrado ao seu eterno morteiro, ainda lhe disse que não se devia ter metido naquilo pelo que quer que fosse.

Agachados, ajoelhados, deitados por trás de sebes de verdura húmida, os emboscados aguentaram horas. Que já pareciam dias, senão mesmo semanas. Nisto, um restolhar manso e suave, quiçá um descuido sem razão, entrou pelos tímpanos da malta. Eram eles, não havia dúvidas. Por gestos, passaram palavra. Uma secção por ali, outra por acolá, aqui ficam os restantes. Chico à cabeça da primeira, o alferes Janica em seguida.

Os guerrilheiros, sem disso se aperceberem, já estavam cercados. A um berro do capitão, voaram as primeiras granadas de mão, encheu-se a mata de fogachos, gritos e insultos, fumo e metralha. E sangue. Chico nem disparara. Mexia-se sorrateiro, pé após pé, arma em riste, dedo no gatilho. Pela cabeça – de atum em lata? – passava-lhe o Sebastião tocando o acordeão, nisso era um alho. Mas igualmente o desejo lancinante de encontrar o Mata-Mata, que devia andar por ali.

E, de chofre, ficaram cara-a-cara, espingardas expectantes, quase a dois metros um do outro. O Lingrinhas e o Mata-Mata. Quando dispararam, em simultâneo, ainda disseram um para o outro – é o Chico, porra!, é o Lourenço, foda-se! Ficaram de papo para o ar, a linfa vermelha esvaindo a vida aos borbotões, empapando o solo ele próprio revoltado.

Tinham andado na mesma escola, veio depois a saber-se, o Francisco da Costa Cristóvão e o Lourenço da Silva Mendes tinham feito a primária juntos, sentavam-se na mesma carteira. Eram como irmãos, melhor, eram amigos. Que diria a Dona Alzira se soubesse que se tinham matado um ao outro, em Angola, na mata, no caminho para o Quitexe?

segunda-feira, agosto 13, 2007



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SALTEADO
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Hotel no espaço

Antunes Ferreira
Informa a agência Lusa que «o primeiro hotel no espaço deverá abrir em 2012 e a viagem de 450 quilómetros até lá, mais uma estadia de três dias, deverá custar cerca de três milhões de euros, revelaram dirigentes da Galactic Suite, a empresa espanhola responsável pelo projecto. O preço da viagem, que poderá começar a ser reservada a partir de 2008, incluirá 18 semanas de preparação numa ilha dos trópicos, para onde os turistas espaciais podem viajar com a família e onde se treinarão para a experiência espacial».
O Mundo também é isto. No meio de homens-bomba, de famintos, de desalojados sem Pátria nem lei, de experiências nucleares, de sexo, de drogas, de ignomínia, de crimes, de baixa política, de corrupção, ainda há projectos como este. Caríssimo – mas aliciante. A tecnologia ao serviço do Homem. Milionário, é claro.





Saudades do futebol

Helder Fernando
A
depto do Benfica, pratico o benfiquismo desde criancinha. Não sendo encarnado fanático (também gosto do ManUnited, do Liverpool, do Atlético de Madrid, do Leixões e do Sporting de Braga), acho que todos os outros clubes depois do Benfica são excelentes, embora deseje, com fervor, que percam sempre que entrem em campo. E, como sou português, sou masoquista em circuito fechado, entretenho-me alegremente a dizer mal do meu Clube de cada vez que ele resvala para o disparate, coisa que acontece frequentemente há para aí duas gerações. Para falar coisas feias sobre o S.L.B. basto eu, os de outras camisolas que se calem à minha frente. É por isso que sou benfico-masoquista em circuito fechado.

Mas isto agora não interessa para nada nem mesmo em crónica de Verão. O que realmente interessa é encontrar urgentemente soluções - e não lenitivos - para que, de uma vez por todas, não se repita este enorme, monstruoso, angustiante espaço em branco sem o desporto-rei, sem uma única jogada de mestre, sem o passatempo "Com o Santos na Liga Portuguesa de Futebol", sem os fantásticos relatos na rádio e as denunciadoras imagens em câmara lenta na televisão, para que fixemos na nossa memória presente e futura a arte, a inteligência, a dedicação, a alegria, a emoção do maior espectáculo do mundo.

Lamentavelmente, estamos a muitos milhares de quilómetros de qualquer terreno onde, na verdade, se jogue futebol, fora ou dentro da época. Bastava que as estrelas jogassem para a televisão e para os relatos na rádio, ficava feliz. Se cada equipa tem mais de vinte jogadores, só sendo necessários, à partida, onze, enquanto uns descansavam nas férias, os outros iam-nos deliciando em jogos exclusivos.

Assim é que o futebol de alta competição correspondia, na mesma medida, ao amor-com-amor-se-paga. Existirão coisas na vida mais empolgantes do que um poderoso remate à trave, uma cabeçada de cima para baixo, um voo felino do guarda-redes, a exibição técnica e táctica de todo o conjunto, uma finta de fazer sentar o adversário, meia-equipa balanceada no ataque com passes de bola teleguiados, levando tudo à frente, aproximando-se da baliza contrária, o estádio em pé...o golo!!?

O goooooollloooooooooo!!! O tal orgasmo de que falam alguns protagonistas. E os másculos jogadores aos abraços e beijos entre eles, uns por cima dos outros, os bamboleares de quem atinge o êxtase para lá da linha de golo.

E os penteados dos atletas, as fitinhas no cabelo, as suas tatuagens, o beijo no dedo anelar, o gesto de embalar, na dedicatória do golo em direcção ao rebento que nasceu, o rodopiar a camisola na mão exibindo, viris, o tronco atlético, a saliva que se fartam de cuspir para regar a relva, as cotoveladas, as rasteiras assassinas, as discussões com o árbitro. E os gestos dos treinadores para dentro do campo, o lago de beatas de cigarro à sua volta, as expressões de espanto, alegria, tristeza ou de guerreiro, sabendo que as câmaras estão a mostrar tudo.

E as manobras da arbitragem para disfarçar a asneirada mas garantir a emoção nas bancadas. E os bilhetes no mercado negro, a linguagem de guerra dos presidentes dos clubes, os insultos ao árbitro, o aliviante palavrão à solta, dentro e fora do campo, as coreografias das claques organizadas, o seu clubismo extremo, as cadeiras que mandam pelo ar, as bombas de Carnaval, o aplauso fogueteiro com labaredas, o modo como se libertam de paus e garrafas em direcção às claques inimigas. E, nas conferências de imprensa, os jogadores e dirigentes tapados quase na totalidade por garrafas de vários tamanhos, placas gigantes coladas ao microfone para lhes cobrir os rostos mas nos obrigar a ler os nomes das empresas ou dos produtos.

E o modo, à moda, como são colocado nos cabelos gelatinados dos jogadores vindos do duche, os bonezinhos com os símbolos publicitários - ainda não na estridente profusão dos fatos-macacos dos pilotos motorizados, mas lá chegaremos - a tradicional eloquência dos conferencistas, as perguntas tão oportunas e tão inteligentes dos repórteres, as imagens inesquecíveis dos artistas da bola ao volante dos seus bólides topo de gama, para os espatifarem, de vez em quando, no final de uma merecida noitada contra o stress. Vestindo, o futebol, todas as camisolas de todas as cores, incluindo a cor-de-rosa,
oferecendo a milhões e milhões de pessoas, mesmo às que nunca assistiram a uma partida, drama e júbilo, grandes tristezas e enormes alegrias... que doce vício é o futebol!
(In Macau Hoje)

Ó Senhor Oliveira

Antunes Ferreira
O Hélder Fernando é um gajo quase porreiro. E não o é em absoluto – porque é benfiquista. Mais, confessa-o despudoradamente. Claro que toda a gente sabe que não se pode ser perfeito e que no melhor pano cai a nódoa. Porém é triste ver um cavalheiro tão prendado prostrar-se reverencialmente perante um Vieira, andar de braço dado com um eng.º Santos (agora já não há o Veiga, tadinho), chorar a partida de um Simão, aplaudir as camisolas cor-de-rosa, ai, ai.

Mas enfim, é a vida. Apesar desse tremendo handicap, registo aqui e hoje uma crónica que regularmente, o sujeito publicou no Macau Hoje. Na verdade, este moçambicano colonizado virou macaense – e ficou por aquelas bandas do Rio das Pérolas. Se mais não houvesse, este era um verdadeiro testemunho da pluralidade deste blogue.

Mas não descanso enquanto não o convencer a colaborar no Travessa com textos próprios – mas sem pagamento… E estou certo de que o Oliveira (o tipo também é, mas não usa) fará parte desta equipa. Que não é do Benfica, de jeito nenhum, como diria o portuguesíssimo Deco. Em tempo: já começou a doer. Que o diga o FêCêPê.

sexta-feira, agosto 10, 2007




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SALTEADO
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Enquanto Salazar dormia

Antunes Ferreira
L
eio no blogue do Seixas da Costa, isto é, da Embaixada de Portugal no Brasil, que o Domingos Amaral pula o Oceano e aterra no lado de lá. Conduzindo um voo de sucesso que se chama «Enquanto Salazar dormia», o Autor, das melhores coisas que a ficção portuguesa tem produzido nos últimos anos, Domingos Amaral vai de vento em popa. As edições aqui neste País sem grande apetência pelos livros, já vão em onze. Trinta mil leitores, o que, numa gente que desaprendeu de ler, é obra.

Li-o de um sopro, de fio a pavio. Li-o na cama até o sol raiar, li-o no café, li-o na casa de banho. Li-o. Estou certo de que os Brasileiros o vão ler e aplaudir, tal como por aqui acontece. A melhor sorte do Mundo para o Domingos Amaral. Que, do êxito, já está habituado.

quarta-feira, agosto 08, 2007




O Português que nos pariu

Um crítico literário brasileiro perguntou: «Além de um casal luso, alguém sabe fazer um português?» E, logo, respondeu. «A receita está no livro O Português que nos pariu - Uma viagem ao mundo dos nossos antepassados, de Angela Dutra de Menezes. Junto com a receita, o leitor leva, de brinde, "estórias" da História portuguesa. Factos que, de um jeito ou de outro, marcaram o carácter brasileiro.
Tudo narrado com bom humor, já que a história oficial é insossa e arrastada. Por que não jogar na mesa que o grande Afonso Henriques
provavelmente amargava um insolucionado Complexo de Édipo? Que dom Henrique, o Navegador, não sabia navegar? Que dom Sebastião, o tal do messianismo, não passaria em psicotécnico de nenhum Detran da vida? Descontracção não anula a verdade dos factos. Se o livro dá um "jeitinho" de colorir a História é porque nosso "jeitinho" também é herança lusa».






Angela Dutra de Menezes
C
oloque uma vasilha dentro de água. A massa só alcançará o ponto exacto se os ingredientes forem misturados em recipiente mergulhado na água salgada. Senão, a receita desanda.

Ingredientes:

• Homens pré-históricos do vale do Tejo e do Sado.
• Um punhado de povos indígenas, principalmente lusitanos. Se possível, da tribo liderada por Viriato.
• Celtas – apenas para polvilhar.
• Romanos.
• Bárbaros: alanos caucasianos, vândalos germânicos e escandinavos, suevos e visigodos germânicos – estes últimos dissolvidos na civilização romana.
• Mouros: tribos islamizadas do Marrocos e da Mauritânia.
• Uma pitada de árabes.
• Judeus sefarditas (ibéricos) – coloque um punhado entre um ingrediente e outro. Reserve a porção maior para o fim da receita.
• Cristãos a gosto

Modo de fazer

Coloque na vasilha os pré-históricos. Dê preferência aos que apresentarem características físicas do Português contemporâneo: estatura mediana e dolicocéfalos. A arqueologia prova que pré-históricos ibéricos já se assemelhavam aos gajos pós-modernos – ora pois.

Tampe a vasilha com um pano húmido. Espere fermentar até se transformarem em tribos pacíficas e receptivas a ondas migratórias oriundas de vários pontos europeus. Não se preocupe se alguns, sorrateiramente, fugirem pela borda da vasilha. O ancestral do Português já cultivava vocação viajeira, muitos chegaram à Inglaterra e à Normandia. Apenas oriente os neofujões para não tomarem o rumo de Brasília. Nunca se sabe o que lhes pode acontecer.

Polvilhe um pouco de celtas. Além do charme, você vai introduzir o domínio da metalurgia e a vocação para o exoterismo. Afinal, quem não gosta de druidas? Além de estarem em moda, eles acrescentarão o toque exotérico ao paladar do prato.


Lentamente despeje os romanos. Atenção: vai sair pancadaria. Maneje com calma a colher de pau para driblar Viriato e outros caudilhos que não apreciarão o novo ingrediente. Cuidadosamente misture os revoltosos, os romanos e as tribos que se lixaram para a invasão romana. No fim dará certo. É questão de paciência.

Bata levemente durante 500 anos. A massa crescerá e revelará um povo urbano, meio escravo/meio livre, que falava latim vulgar e sofisticou o comércio e a agricultura. Enfim, quase um luxo.

Introduza os bárbaros. Primeiro os alanos, vândalos e suevos. Capriche nos suevos pois eles chegam para marcar presença: adoram trabalhar com enxadas e logo escolherão terras para cultivar. Por favor, convença-os a abandonar os instrumentos agrícolas às margens da vasilha. Alguém pode quebrar o dente quando o Português for servido. (…)

Adicione os visigodos romanizados (…) Espere inúteis três séculos – visigodo é um chuchu histórico, só faz volume, não larga gosto – e jogue os árabes e os mouros. A massa ficará mais encorpada, adquirirá novos contornos, novas falas, novas técnicas, uma nova arquitectura.

E por aí adiante. Não digo mais. Leia e aprecie. Se não gostar, ponha na beirinha do prato.


Obrigadissimérrimo

Êta livro fascinante. A Civilização Editora que o publica em Portugal merece um muito obrigado, à vontade. Firme. Sentido. Permitiu aos Portugas a leitura de um texto primoroso, cheio de graça, ironia e, sobretudo, Amor. Angela Dutra de Menezes, a autora, não leva um obrigado, não, ainda que muito. Dou-lhe um obrigadissimérrimo, que bem o merece.

Falo de uma obra, neste caso perfeitamente prima, vinda de quem vem, 189 páginas magníficas – «O Português que nos pariu». Linda de morrer. Alto lá. Estou influenciado pela Angela, sem circunflexo. Arrisco-me mesmo a sentir-me tentado pelo plágio. Daí este escrevinhar luso-brasileiro, ainda que com a grafia da banda de cá. Se mais houvesse a encomiar, prosseguiria de grato que estou. Porém, basta. Vamos ao que interessa.

Nunca convido ninguém para o que seja, sem ter a certeza de que experimentei a coisa e gostei. Daí a proposta que considero impositiva, até, se mo permitem, obrigatória: Amigas e Amigos, leiam «O Português que nos pariu». Aliás, parido no ano da graça de 2000, no cuzinho do século XX, trata-se de uma belíssima despedida do milénio. Um brinquinho.

Tomo a liberdade, depois de ter obtido a anuência da Livraria Civilização Editora, do Porto (
www.civilizacao.pt), de publicar acima, só para aguçar o apetite de possíveis leitores, um trecho do livro. Nestes transes, o que melhor que há a fazer é entrar direito pela obra e segui-la até ao fim, com os intervalos necessários para satisfazer algumas das necessidades mais elementares do ser humano.

A última indicação sobre a aceitação do que nos pariu no Brasil é que já tinha sido ultrapassada a sexta edição. Se calhar, registo por defeito, porque talvez já haja mais. De acordo com «O Globo», foi «um dos dez melhores livros do ano» esta «visão brasileira sobre a História dos Portugueses». Pudera, não.

Se não existisse a Wikipedia – ela teria de ser inventada, actualizando o ditado calino. Assim, Angela Dutra de Menezes (
Rio de Janeiro, 1946) é uma romancista e jornalista brasileira. Com o seu primeiro romance, Mil anos menos cinquenta (1995), a saga de uma família em dez séculos de civilização (de Portugal à vinda para o Brasil), filia-se à corrente do romance histórico moderno, trabalhando uma linguagem colorida e rica em nuances.
Na linha de um
Luiz António de Assis Brasil ou de um Tabajara Ruas, realiza uma ficção reflexiva e crítica da História. O seu segundo romance, Santa Sofia (1997), mergulha no imaginário de Minas Gerais do século XIX.
Os seus livros mais recentes são O avesso do retrato (1999), romance ambientado no Rio de Janeiro, que explora a dualidade do
carácter humano, e O Português que nos pariu (2000).

Só mais um aditamento. José Adelino Maltez – desnecessária a sua apresentação – escreveu: «Li esta semana o pequeno livro da jornalista e romancista brasileira, Angela Dutra de Menezes, dito "O português que nos pariu", onde é contada uma história lusitana, na qual as falhas científicas são compensadas pelo ardor imaginativo de quem nos ama e nos conhece de raiz. Afinal, os Estados Unidos da Saudade, também podem ser saudades de futuro.» Está tudo dito.
Antunes Ferreira

segunda-feira, agosto 06, 2007




HISTÓRIAS DA PJ

Aconteceu pelo Natal...


(Conclusão)


José Augusto Garcia Marques
D
ir-se-ia que estava à espera dessa pergunta. Nada perturbada, limitou-se a dizer não terem tais suspeitas qualquer fundamento. Considerava-se uma vítima da sua maneira de ser, espontânea e extrovertida e da inveja das cunhadas.

Fizemos-lhe ver que não seria só isso. A recusa em ir viver para a França não podia deixar de levantar suspeitas. Além disso era uma mulher vistosa, muito mais nova do que o marido. Perguntámos-lhe se, nesta sua última viagem, o António não lhe manifestara dúvidas acerca do comportamento dela ou se não se revelara particularmente ciumento. Se não seria justamente essa desconfiança que estava na origem da própria viagem e se não seriam aquelas preocupações que explicavam as decisões que tomara.

A Sílvia foi perdendo a serenidade. Levantou-se, passeou pela sala, foi buscar um maço de tabaco, tirou um cigarro, hesitou e voltou a metê-lo no maço. Pareceu-me ser o momento psicológico de “atacar”. Levantei-me também, aproximei-me dela – era quase da minha altura - e murmurei num tom de voz muito baixo, quase confessional: “Então e o Rodrigo? Onde é que costumam encontrar-se?”

Um rubor intenso invadiu-lhe o rosto claro, ao mesmo tempo que balbuciava: “O Rodrigo... foi meu namorado em solteira. Gostávamos muito um do outro. Mas depois casei, ele esteve na guerra e agora somos amigos. Só isso!” Pareceu-me desnecessário manter aquela tensão emocional. Afinal de contas, qualquer que fosse a verdade acerca da vida pessoal e amorosa da Sílvia, isso seria possivelmente estranho à matéria de facto envolvente do acto criminoso.

Recuperado o auto-domínio, e parecendo ler-me o pensamento, estranhou o interesse que toda aquela história acerca do seu namoro antigo poderia ter para a descoberta da verdade e para a identificação dos autores do crime. Sempre foi dizendo que o marido nunca lhe dissera com clareza que desconfiava dela. Mas que a desconfiança, qual “água mole em pedra dura”, deve ter-se ido instalando, pelo que não era de estranhar o progressivo distanciamento por parte dele.

Herdeiro – o filho

Quanto aos assaltantes, afirmou não fazer a mínima ideia de quem eram, de onde vinham, para onde iam e ao que andavam.

Antes de nos retirarmos, perguntámos-lhe se ela estava a par dos negócios do marido, das vendas em concretização, seus montantes e formas de pagamento. Disse que só sabia do que se estava a passar em termos muito gerais. Ou seja, percebia que o marido se queria desfazer do que possuía em Torres Vedras, mas ignorava quem eram os compradores, se já tinham pago os preços acordados e o que é que o marido projectava fazer com o dinheiro.

Observei apenas que, agora, morto o marido, todo o património se transferia para o filho. Na verdade, à data, o cônjuge sobrevivo era preterido na sucessão pelos descendentes. Mas cabendo-lhe o exercício do poder paternal sobre o filho menor, ela seria a administradora dos bens e, de facto, sua “usufrutuária”.

Voltámos à sede, tendo preparado e difundido por todas as autoridades policiais do País e, através da Interpol, para Espanha, uma folha informativa relativa ao homicídio do emigrante, contendo a fotografia e os dados nominativos conhecidos do Ângelo e ainda os dados sinaléticos dos outros dois assaltantes e o modus operandi utilizado na prática do crime. Passados uns dias, já em meados de Janeiro, recebemos um telefonema da GNR da Malveira informando que tinha acabado de ser preso, numa feira, um tal Rui, o cigano mais alto do bando. Uma viatura da PJ partiu de imediato para o ir buscar.

Ainda não tinham regressado à sede e já muitos ciganos, familiares do detido, se aglomeravam na Gomes Freire ou no pátio do Arquivo de Identificação, junto da porta de entrada da PJ, num procedimento colectivo muito próprio de tais comunidades nestas circunstâncias. Bastou uma conversa com o Rui para concluir que ele nada tinha que ver com o crime. Era efectivamente um homem muito alto e magro, com vinte e poucos anos, o aspecto sofrido de quem já está habituado a ser vítima de discriminações e injustiças. Percebia-se, porém, que tinha tido conhecimento do homicídio do emigrante e que, sobre o assunto, tinha informações, porventura, relevantes. Só que logo percebemos que não iria falar.

Vigorava, ao tempo, um regime legal que permitia a prisão sem culpa formada durante cerca de um mês. Embora condenável, sob a óptica dos direitos humanos, o certo é que a PJ, que não era instância legisladora, aproveitava, dentro de parâmetros tidos como razoáveis, as possibilidades de investigação que um tal regime lhe proporcionava. Quer isto dizer que, apesar da convicção de que o Rui estava inocente, foi decidido mantê-lo sob prisão, nos calabouços da PJ, durante alguns dias. As nossas expectativas vieram a ter concretização.

Um velho cigano


Um dia, um cigano, já com cerca de sessenta anos, todo vestido de preto, a barba grisalha, longa e espessa, com aspecto de “patriarca”, pediu para falar com o Chefe de Brigada, seu antigo conhecido e polícia com bom nome na comunidade. Apresentou-se como tio do Rui.

Conhecia bem a família que adoptara o Ângelo de Jesus. Em virtude da sua conduta, este colocara-se à margem da comunidade, de que acabou por ser expulso, até porque punha em permanente risco as crianças e as mulheres que a integravam e que viviam no acampamento. Segundo o “patriarca”, o Ângelo já não era “um cigano”. Ao abandonar a família, fora, porém, acompanhado pelo seu “irmão de leite”, o Simão, um “bom gigante”, seu incondicional seguidor. Formaram um bando de malfeitores, onde o “Beiço Rachado” pontificava, secundado por um tal Alfredo, delinquente com largo cadastro. Segundo o nosso informador, teriam sido estes os três matadores do António.

Libertado o Rui e recolhidos, no ARI, os abundantes dados existentes acerca do Alfredo, incluindo uma fotografia relativamente actualizada, foram actualizadas as fichas biográficas e sinaléticas dos suspeitos. Apenas o Simão não tinha antecedentes policiais nem dele existia fotografia disponível.

O tempo passou. Chegou o Verão de 1970 e o nosso agente Adérito Guerreiro (nome fictício), natural de Odeceixe, foi passar férias à sua terra. Sentado a uma esplanada, deliciava-se com os sabores da sua juventude e conversava com os amigos, que queriam conhecer as aventuras da vida profissional do patrício que, ainda muito jovem, fora trabalhar para a “Judite”. Ao segundo prato de caranguejos, o Américo falou do crime de Torres Vedras. Referiu-se então ao “Beiço Rachado” e ao “calmeirão” de quase dois metros que o acompanhava. Eis senão quando um dos amigos lhe disse: “Mas esses gajos andam por aí”! Tinha-os visto algumas vezes nos últimos dias, sempre juntos, ou acompanhados por um terceiro indivíduo, mais velho e de má catadura. Alguns dos presentes confirmaram a informação.

O agente Adérito (utilizo obviamente as designações da época, quer quanto a cargos, quer quanto a serviços da PJ) contactou a GNR e, com os maiores cuidados, dirigiram-se ao local onde os suspeitos acampavam. Não havia dúvidas. Eram mesmo eles. Mas não estavam sós. Avistaram ainda uma mulher jovem com um rapazinho “escarranchado” na anca. A perigosidade dos meliantes, a quase certeza da resistência que iam oferecer e a presença de inocentes que importava proteger tornavam a operação particularmente delicada.

A caça ao homem


Obtidos os reforços necessários e assegurado o comando adequado, o cerco foi realizado. Aproveitando-se a providencial ausência dos três homens, recolheram-se a mulher e o bebé. A seguir foi preparada a emboscada. Houve a resistência esperada. No tiroteio que se seguiu, o Simão deu o corpo às balas para salvar o Ângelo. Ficou gravemente ferido e, em consequência, paraplégico. Os outros dois acabaram por se render.

Interrogados, disseram que o assalto de que resultou a morte do emigrante fora da sua exclusiva iniciativa, tomada no local e no momento em que divisaram a aproximação da bicicleta. Desconheciam quem fosse a vítima ou que trouxesse tanto dinheiro consigo. Embora tal relato fosse, para eles, o mais favorável do ponto de vista da tipificação do crime cometido, uma vez que excluía a premeditação ou, mesmo, a preparação antecipada da emboscada, pareceu-nos merecedor de crédito. O infeliz emigrante tinha-se limitado a passar no local errado, na hora errada!

Isenta de culpa, ficava, assim, a sua bela viúva. Passados cerca de dois anos, soube casualmente que a Sílvia voltara a casar. Com o Rodrigo...

domingo, agosto 05, 2007











O novo Spiderman

Braz Ferreira
D
urante a minha última estadia em Africa, mais precisamente na Zâmbia, passei as noites dormindo descoberto pois fazia um certo calor, esse calor africano que embriaga qualquer europeu. Ora durante uma dessas noites, sem ter dado autorização a nenhum visitante, recebi um ou uma bastante indesejável.

No dia seguinte comecei a sentir comichão nas costas e vi aparecerem uns pontos vermelhos bastante inchados. Não prestei muita atenção. Mas um dia depois, elas tinham quase duplicado de volume e comecei a ter problemas de visão. Falei com uns amigos que me aconselharam a ir ao hospital. Receoso, mas sem poder dormir tranquilamente, decidi me dirigir aquela instituição de saúde. Já a estrada de acesso ao hospital me deixou ainda mais receoso.

Terra batida, vermelha, onde alguns buracos deixavam aparecer rasgos de alcatrão que deviam ter sido parte de uma estrada do tempo do colonialismo britânico. Mas, se bem que mal, mais mal que bem, diga-se de passagem, pois nos solavancos originados por tão estranha “auto-estrada” minhas costas sofriam cada vez mais, lá cheguei ao dito cujo hospital.

Uma enorme mansão de mais ou menos 150 metros quadrados onde as letras anunciando o lugar, se encontravam descansando no chão de terra sobre a sombra de um mangueiral. As paredes externas recentemente pintadas de branco, mostravam ainda por lugares as camadas da antiga pintura que devia ter sido verde ou esverdeada. Parecia-se mais com as camisetas dos treinos do SCP. Como meu clube predilecto é o Belenenses, meti a marcha-atrás para voltar de onde vinha. Mas as dores eram tantas que decidi entrar no campo de treinos do Sporting.

Na recepção que era uma saleta de mais ou menos vinte metros quadrados uma mesa carregada de papeis e de um livro do tamanho dos antigos mapa-mundo. Atrás encontrava-se uma recepcionista que quando viu um branco esboçou um sorriso acolhedor (e era mesmo para acolher a minha dor). Deveria ser uns dos poucos brancos a frequentar este lugar e ela deve ter pensado que era o momento de se vingarem do tempo dos colonialistas. Deve ter sido o motivo de tão amplo sorriso.

Nos bancos ao lado da mesa estavam seis zambianas, todas grávidas. Na minha cabeça fermentou, e olhem que nunca fui padeiro, um pensamento: será que é uma clínica ginecológica. E se o é, o que estou eu a fazer aqui? Me tranquilizei quando vi que havia uma médica e um médico. A tal menina do tal sorriso, me perguntou a idade. Quando lhe dei a informação, uma das duas enfermeiras que preenchiam papeis na mesma mesa olhou para mim e disse: “Nem parece”. Ou foi uma frase lisonjeira ou o início da anestesia para o que iria sofrer.

Batas e buracos

As enfermeiras tinham batas azuis sem mangas, mas para compensar com alguns buracos tipo obras lisboetas. Uma delas, a que se ocupou de mim, tinha mais cara de mulher-a-dias (perdão a noites), pois devia ter passado a noite a limpar casas de banho tal a enormidade dos bocejos que mostrava a cada minuto. De imediato me pediu para ir para uma salinha onde me pesou, me mediu a pressão e pediu para tirar a temperatura.

Para tal efeito me mostrou um daqueles termómetros dos anos 50, de mercúrio, que desinfectou precariamente com um algodão embebido com um produto meio azul meio roxo. Apavorei pela centésima vez, e perguntei: “Onde verifico a temperatura?” Depois de uns segundos de reflexão respondeu: “Debaixo do braço...” Aliviei de contentamento. Puxa e se tivesse pedido noutro sítio? Depois destes exames sumários, sentei-me esperando o médico.

E o médico nem vos conto. O indiano que me trata do jardim, tem melhor aspecto do que este especialista da saúde. Levou-me até ao consultório, onde alguns cartazes de publicidade médica deviam ter tido hepatite ou febre amarela. Estavam mais amarelos do que ela. Havia um armário branco (bom, quase branco), com vidros rachados que mostravam algumas caixas de medicamentos e uns livros que pareciam espantados de ver um branco num lugar destes.

Com a falta de comunicação do médico tive até vontade de iniciar uma conversa com eles, mas o tempo escasseava e a dores aumentavam proporcionalmente. A cadeira onde me pediu que me sentasse mais parecia uma atracção do Parque Mayer. Uma das quatro pernas devia ter sofrido de paralisia infantil, pois era bastante mais curta do que as outras. O movimento provocado por esta disparidade podia competir com o balançar de qualquer navio cruzando o cabo Horn. O que não ajudava em nada as dores das minhas costas.

Logo no inicio quando me pediu para ficar de pé, quase que estava enjoado. Perguntei se precisava tirar a camisa ao que me respondeu negativamente com um balançar de cabeça. Ou por outra, só precisava levantar um pouquinho. A consulta deve ter durado mais ou menos uns três minutos onde a minha explicação do meu caso dominou quase completamente a conversa. O Doutor (será mesmo?) apenas proferiu umas dez palavras.
Perguntei se era a larva das moscas das mangueiras.

Uma fêmea venenosa

Me disse que não, que era a fêmea de uma aranha venenosa que me tinha picado seguramente durante a noite.
A tal visitante nocturna sem convite. Ainda que fosse uma fêmea, nunca teria pensado em passar a noite com uma viúva negra (lembrem-se que estamos na Africa) ou fosse la o que fosse. Depois começou a rabiscar febrilmente uma receita e me acompanhou até à enfermeira a dias. Ela me convidou para entrar de novo na tal sala de tratamento.

Não sabia bem porque mas o meu coração me pedia de voltar para casa. Mas decidi não ceder aos desejos do bicho e lá entrei eu de alma e coração (seguramente ainda zangado comigo) na tal salinha onde a enfermeira preparava uma injecção. Perguntei-lhe se era na veia e ela disse-me que não... Fiquei mais tranquilo.

A sala era composta de uma cama coberta por um lençol cuja integridade deixava a desejar. A cor e os remendos davam vontade de rezar dois Pais Nossos e duas Avé Marias. Pensei, se quando entrar aqui não estivesse contaminado, o ficaria quando sair. A enfermeira me indicou que não precisava deitar-me, o que me deixou tão feliz como se tivesse ganho o Euromilhões. Olhei à volta da salinha e vi a mesa onde ela preparava a injecção. Um pano verde, mais escuro que a antiga pintura do edifício, cobria as seringas e outros apetrechos médicos.

Consegui saber que eram seringas e apetrechos pois os buracos que o pano possuía permitiam uma óptima ventilação e uma visualização adequada para poder controlar os possíveis desaparecimentos. O armário que terminava o mobiliário da sala devia ser um parente da cadeira do consultório. Uma das pernas era curta demais e um livro a ajudava a manter ao mesmo nível das outras três. Dentro dele encontravam-se algumas revistas africanas, e na última prateleira os sapatos da enfermeira.

Nas do meio alguns frascos com líquidos coloridos, fazendo lembrar a época natalícia.
Tive subitamente vontade de cantar o Jingle Bells, o que não fiz pois ainda não tinha levado a tal injecção. Pois bem a mulher a dias, soube perfeitamente injectar-me o medicamento sem sequer ter sentido nada.
Quase que a beijava, por ter sido tão eficaz, mas não o fiz pois uma dúvida invadiu o meu cérebro: será que ela me deu mesmo a injecção?

Depois de ter desinfectado o local com o tal algodão roxo, pude verificar que não havia traço de sangue. Talvez devido ao pavor o meu sangue se tivesse recusado a circular.
Até achei normal, pois lembrem-se que já o coração me tinha pedido para voltar para casa. Depois de ter recebido os outros remédios, regressei, e o coração voltou a bater de felicidade. Ainda que “inacreditavelmente” as dores tinham desaparecido e a febre começava a baixar. Veio ao meu espírito o folhetim televisivo Daktari... e ri mesmo mas de alivio e satisfação.


Tive até vontade de subir as paredes pois devo ser o novo Spiderman.

NE - Este meu irmão sempre foi um «maricas» no que respeita a saúde e doenças. Um dia, quando lhe pretendiam fazer um TAC, saiu a correr do aparelho e da sala - e não fez o raio do exame. Assim já se compreende melhor o texto. E, não querem lá ver: o gajo até foi forcado dos Amadores de Santarém, capitaneados pelo saudoso Rhodes Sérgio. Esta vida...


sexta-feira, agosto 03, 2007




SORUMBÁTICO

Viva o «precariado»

Alfredo Barroso
E
m abono da verdade se diga que era a direita que queria pôr este país nos eixos. Mas a incompetência e o descrédito dos seus governos (Durão Barroso e Santana Lopes, ambos com Paulo Portas) fez com que eles caíssem, isto é, fugissem ou fossem corridos por indecente e má figura, para utilizar uma das expressões do povo fora dos eixos.

Criou-se, assim, um nicho (político) de mercado, propício a quem quisesse pôr o país na ordem - ou a pôr ordem no país, se optarmos por uma versão mais suave. Ordem nas contas públicas, no deve e haver do Estado, nos lucros das grandes empresas e nas perdas dos pequenos cidadãos, nos salários de quem ainda tem emprego, nos subsídios de quem já não o tem e nas reformas dos que estão a ficar com os pés para a cova.

O despropósito e despautério da direita lusíada fizeram com que esse formidável nicho de mercado viesse a ser ocupado, rapidamente e em força, pela chamada esquerda moderna (seja lá isso o que for), que se diz muito amiga dos pobres, mas prefere deitar-se com os ricos (certamente porque não cheiram mal da boca). E é nisso que estamos.

Sejamos sérios: para conservar a nação em bom estado, é preciso pôr o país nos eixos e meter o povo na ordem. O pedigree de esquerda (como diz o outro) é um óptimo disfarce e ajuda muito a convencer um país que é (pau) para toda a obra e por isso gosta de ser (pau) mandado. Um país que refila, mas amocha. Está habituado a resignar-se.

Ora, num país resignado e sem alternativas (o engenheiro Sócrates tirou o tapete programático ao doutor Marques Mendes e este foi espojar-se no Chão da Lagoa), conta bastante o ar severo de quem discursa, a catadura sombria de quem manda, a capacidade de indignação espectacular de quem está no poder. Indignação – imagine-se! – perante o atrevimento dos que não se resignam a ser tramados pelo poder e a ficar mais pobres e desamparados em consequência das reformas corajosas (?) que esse poder lhes impõe. (Já repararam que o nosso primeiro-ministro está sempre zangado quando discursa?).

Mas vejamos. Os partidos políticos que constituem o chamado bloco central (PS e PPD/PSD) ou o arco da governabilidade (expressão inventada pela direita para incluir também o CDS/PP, e, sobretudo, para excluir os que estão à esquerda do PS, ou seja, o PCP e o BE), estabeleceram dois critérios essenciais (ditados pela ortodoxia neo-liberal em voga) para avaliar o estado da nação, a saber: a redução (rápida e brutal) do défice orçamental; o aumento (mesmo que muito pindérico) da taxa de crescimento do PIB.

Pois bem. À luz destes dois critérios, ninguém duvidará de que a performance do governo da esquerda moderna chefiado pelo engenheiro Sócrates é bastante superior às performances dos patéticos governos da direita chefiados pelos doutores Durão Barroso e Santana Lopes (o que fugiu e o que anda por aí). Para já não falar da performance dos outros governos da esquerda moderna chefiados pelo engenheiro António Guterres
(que se refugiou entre os refugiados das Nações Unidas). Agora é que a direita rejubila! Quer dizer: a direita dos interesses, das empresas, da alta finança, em suma: da massaroca!

Claro que, se avaliarmos os resultados deste governo da esquerda moderna à luz de outros critérios totalmente legítimos (embora não caros ao neo-liberalismo em voga) – por exemplo: o poder de compra dos cidadãos, que continua a diminuir; e a coesão da sociedade, que continua a degradar-se à medida em que cresce o desemprego, aumenta a precariedade e se alarga o fosso entre ricos e pobres –, é evidentemente desconsolador o balanço dos que estão acocorados no nicho político deixado vago pela direita lusíada.

Digamos que aquilo que este governo da esquerda moderna tem estado a fazer, com mais eficácia do que os governos anteriores e mais aplauso da direita da massaroca, é aplicar, à classe média em geral e aos trabalhadores em especial, a técnica da banda gástrica (novo método político cujos direitos de autor vou registar): já não se trata só de apertar o cinto, mas também de reduzir artificialmente a vontade de comer. No fundo, o propósito é o de reformatar a modernidade económica, banindo do vocabulário corrente as perigosíssimas noções de desenvolvimento humano, equidade e bem-estar social.

Estamos, assim, a assistir à emergência de uma nova classe social, a que alguns sociólogos já chamam «precariado». Uma espécie de neologismo que resulta da síntese dos termos proletariado (ao qual fora arrancada grande parte da classe média, no século XX) e precariedade (do emprego, do salário, da vida quotidiana e, portanto, do futuro). Viva, então, o precariado! Uma nova classe social tanto mais vulnerável quanto menos solidários e mais solitários forem os seus putativos membros – política e sindicalmente incapazes de se organizarem, envergonhados pela sua despromoção social, com receio de serem tratados como comunistas pela esquerda moderna e, por isso, já resignados.

Eu, que nunca fui comunista nem alguma vez pertenci à esquerda moderna (sou, mais prosaicamente, social-democrata genuíno, nada fictício), não tenciono resignar-me. Mas tenho perfeita consciência de que pouco ou nada posso fazer, para além das linhas desta prosa sorumbática - que não agrada ao poder do dia, seja ele político ou outro. Fui varrido há meses dos lugares de estilo onde se escreve prosa política convencional, isto é, atenta, veneradora e obrigada, ou, então, vagamente irreverente e inconformista q. b.. Pus agora a cabecinha de fora. Espero bem que não seja cortada. E viva o precariado!

NOTA: Como habitualmente, esta crónica está também afixada no blogue «Traço Grosso»



Olá, Amigo

Meu caro Alfredo

Há quanto tempo não te vejo, em pessoa, porque não faltam por aí escritos e fotos tuas. O que, de resto, bem mereces. Por mim, reformado e mal pago, o que é o normal e o natural, bem tento encontrar alguma coisa que complementasse os euros que. Não estou, não estamos, a Raquel e eu, a morrer de fome, nem estendemos a mão à caridade – ainda. Porém, as respostas que me têm «oferecido» resumem-se muito simplesmente: sou um ancião, caduco, já passou a minha época, sou bué de velho, enfim. Desculpa-me o desabafo, tanto mais que não vinha por ele. Adiante.
Como podes ver, venho refugiando-me neste blogue. Se o Pacheco Pereira tem – por que bulas não haveria eu de ter um também? Cá estamos. No cerne da questão. O resto conta-se num fósforo. O Ricardo Charters d’Azevedo, meu Amigo desde os bandos (e os bancos) do Lyceu Camões, mandou-me por mail esta crónica tua. Que achei bué de fixe. (NR – Os meus cinco netos meteram-se o bué nos cromossomas e, agora, não consigo ver-me livre do gajo). Por isso, decidi publicá-la aqui no Travessa do Ferreira.
Para tanto «imeilei» o Sorumbático, para que me fosse dada autorização. Este antigo Chefe de Redacção do Portugal Socialista, do DN & correlativos, ainda se atem a coisas dessas. Porreiro. Na volta do correio (inletrónyco), um tal Medina Ribeiro apressou-se a dizer-me que achava que sim. E até me deu o teu endereço. Nos dias que vão correndo, isso é cada vez mais raro. Registei-o. Boa! Na verdade, apesar dos epítetos atrás enunciados, ainda creio que estou dentro do prazo de validade.
Ela aqui fica, com a homenagem de quem sempre te leu com admiração e amizade. Porque tu, Alfredo, és mesmo bom a escrever. Um dia, já lá vão uns largos anos, disse isso à tua tia Judite. Ela, fez que sim com a cabeça, nem sequer bateu palmas. O marido, esse, um grande Homem e Amigo que se chamou José Manuel Duarte, acompanhou-me no entusiasmo com que eu me referia a ti. Daí para diante, já deixei de contabilizar opiniões idênticas, mais ou menos entusiásticas.
Meu querido Amigo: se tiveres, de quando em vez, um buraquinho no teu tempo, muito gostaria que escrevesses umas linhas, ainda que poucas, aqui no Travessa. Poucas – mas óptimas, que boas é miniatura que não se te aplica. Se não – ficamos amigos como dantes e como sempre. E eu continuarei a roubar alguns dos teus escritos para aqui os transcrever. Até que mo proíbas. Basta; nem é preciso bateres-me…
Antunes Ferreira



segunda-feira, julho 30, 2007




HISTÓRIAS DA PJ

Aconteceu pelo Natal ...

(2ª parte)

José Augusto Garcia Marques
O António tinha sido emboscado na estrada florestal, à saída de uma curva, quando seguia de bicicleta a caminho de casa. A ténue luminosidade do crepúsculo desaparecia lentamente para dar lugar a uma tranquila noite de Dezembro. Os sinais de calçado deixados na terra batida denunciavam a presença provável de, pelo menos, três assaltantes. A pedrada na cabeça deve-o ter derrubado do veículo em que seguia. Os golpes nos braços denunciavam a desesperada tentativa de defesa perante os ataques desferidos. Os resultados da autópsia vieram a revelar que, no assalto, foram utilizadas, pelo menos, duas facas diferentes. Um golpe fatal atingiu-lhe o coração. Descobriram-se no terreno sinais reveladores de que o corpo teria começado a ser arrastado para fora da estrada, provavelmente para ser escondido numa mata próxima.

Todavia, o eventual receio de serem surpreendidos terá levado os assaltantes a desistir desse propósito, tendo acabado por abandonar o corpo, sem preocupações de ocultação, alguns metros além do local do assalto, na berma da estrada. A cerca de trinta metros, à entrada da mata, foi encontrada a carteira que o António trazia consigo. Ali foram recolhidas algumas impressões digitais bem nítidas, que, de imediato, foram enviadas para a sede, bem como a bicicleta desconjuntada. Paralelamente, iniciámos a recolha dos depoimentos relevantes.

A GNR local informou acerca da presença na zona de três ciganos com aspecto nada tranquilizador. Tinham sido vistos a comprar pão numa padaria e outros mantimentos em estabelecimentos das redondezas. Dois deles, com cerca de vinte e cinco anos, davam particularmente nas vistas: um, moreno e muito alto, com mais de um metro e noventa de altura e uma ligeira malha branca no cabelo; o outro, muito mais baixo, de pele e olhos claros, com barba crescida procurando disfarçar o lábio leporino. O terceiro era muito mais velho – andaria pelos cinquenta anos - e tinha estatura média.

Alguma coisa mexeu com o Chefe de Brigada, polícia que vivia a tempo inteiro a vida da Polícia, quando se falou num suspeito com “o lábio superior aberto”. Um telefonema para o ARI (Arquivo de Registos e Informações), serviço que, nesses tempos ainda sem computadores, era a verdadeira “memória da PJ”, permitiu-nos, dois dias depois, ter acesso à respectiva ficha policial. Tratava-se de um tal Ângelo de Jesus, também conhecido pelas alcunhas de “o Beiço Rachado” ou “o Fanhoso”, com os dados nominativos e sinaléticos conhecidos. A segunda alcunha resultava da deficiência na fala provocada pela fenda congénita do lábio e do palato.

Irmãos de leite, irmãos de sangue

N
ão era de etnia cigana. Fora abandonado à nascença junto de um acampamento de ciganos, então sedeado perto de Fátima. Foi “adoptado” por uma cigana, Berta de seu nome, uma jovem robusta que dera recentemente à luz um filho, a quem amamentava. O filho da Berta e o Ângelo cresceram assim como “irmãos de leite”, alimentados, acarinhados, repreendidos e castigados pelos “pais” como se fossem “irmãos de sangue”.

A natureza violenta do Ângelo e a sua capacidade de liderança levaram-no, por volta dos dezoito anos, a enveredar pela senda do crime, tendo já antecedentes penais pela prática de alguns assaltos, com roubos e ofensas corporais. À data do crime de Torres Vedras era uma figura em ascensão no “mundo do crime”. Uma mensagem/rádio da PJ dava-o como suspeito, em co-autoria, de um assalto a um casal de namorados dentro de um veículo automóvel, na região da Lourinhã, com a prática de graves ofensas corporais na pessoa do homem.

Obtida a identificação, foram cotejadas algumas das impressões digitais recolhidas na carteira da vítima com as impressões digitais do Ângelo. A comparação não deixava lugar a qualquer dúvida – o resultado foi positivo. Faltava, ainda assim, no plano da investigação, percorrer um longo caminho. Além da identificação dos restantes elementos do grupo de assaltantes, havia que averiguar a possível implicação da Sílvia, viúva do emigrante, enquanto mandante ou autora moral do crime.

Ouvidos os promitentes-compradores das propriedades do falecido, confirmaram a entrega, como sinal, de cerca de trinta contos, correspondentes a vinte por cento do preço acordado para a venda. E exibiram os recibos correspondentes, datados e assinados pelo António. O emigrante metera o dinheiro na carteira, que voltou a guardar no bolso interior do casaco. Perguntados, disseram que não era provável que alguém tivesse presenciado o acto de entrega do dinheiro, uma vez que estavam sentados num local retirado e tinham agido discretamente.

Mais informaram que o emigrante constituíra, no Cartório Notarial, o procurador que o iria representar na celebração das escrituras de compra e venda, já marcadas para o mês de Janeiro. Das informações recolhidas e das circunstâncias do assalto, podia-se ser levado a pensar que se estava perante uma emboscada premeditada, planeada com antecedência por assaltantes informados de que a vítima traria consigo uma considerável soma de dinheiro. O que, mais uma vez, nos remetia para a necessidade de investigar a jovem viúva.

Fomos falar com o procurador, Francisco Lopes de seu nome, natural da Freineda e comerciante estabelecido em Torres Vedras. Tratava-se de um patrício e velho amigo do falecido, sendo de presumir que estivesse bem informado sobre os acontecimentos que antecederam a tragédia.

Descontente com a vida

Começámos por lhe perguntar quais eram os propósitos da vítima, ao desfazer-se do património amealhado ao longo dos anos. Disse-nos que o António estava descontente com a vida, que “as coisas não andavam bem lá por casa” e que projectava vender tudo o que tinha “cá para baixo” e, com o produto das vendas, investir na sua região natal. Falou-nos da carta anónima, prevenindo acerca da eventual infidelidade da Sílvia.

Sem ser conclusivo, referiu um antigo romance de adolescentes entre a Sílvia e o Rodrigo, seu colega de Escola. Romance entretanto interrompido com o casamento dela e com a mobilização do jovem para Angola, de onde regressara, porém, havia já alguns anos. A Sílvia e o Rodrigo teriam voltado a conviver e, segundo alguns, as relações não seriam só platónicas.

Perguntado sobre a fonte do seu conhecimento dos factos relatados, o Francisco disse-nos que o essencial lhe fora contado pelo próprio António, poucos dias antes, quando lhe pedira para ser seu procurador. Estava bem lembrado das palavras amargas e misteriosas proferidas pelo amigo: “Olha, Chico … Não deve o remendão ir além da chinela”. Para melhor esclarecimento, o António teria acrescentado: “Ela não era forma para o meu pé. Sonhei alto de mais e paguei por isso”.

De qualquer modo, o Francisco estava convicto de que a Sílvia não era pessoa capaz de se envolver num esquema criminoso visando o assassínio do marido. Falámos com ela. Era efectivamente, e apesar dos anos passados sobre o seu casamento, uma bela mulher. Engordara alguns quilos em relação às fotografias do casamento. Mas a sua estatura suportava bem aquele aumento de peso, que apenas lhe modelava as linhas sob o vestido preto, tornando mais audaciosa a sensualidade daquela mulher ainda jovem, a caminho da maturidade.

Não se tinha oposto ao desejo da família do marido de que o funeral seguisse para a aldeia natal. Não disfarçou, porém, as más recordações deixadas pela deslocação. Ao desgosto da perda, somava-se a incomodidade da antipatia evidente para com ela. Valera o pequeno Daniel para “fazer a ponte” e derreter o gelo.

Perguntámos-lhe por que razão decidira o marido pôr à venda os seus bens. Respondeu, com aparente tranquilidade, que isso resultaria de ela ter recusado ir viver para França. Admitia, por isso, que o marido, homem de poucas falas, mais de agir do que de falar, estivesse a pensar separar-se dela. Explicava assim a razão da mudança de atitude do António para com ela: “Foi a família dele que o infernizou!”. Confirmou, todavia, que o marido nunca foi violento e raramente usou de linguagem ou modos agressivos. “Era um homem manso”, rematou. E, ganhando, talvez, consciência da associação induzida pelo adjectivo, apressou-se a esclarecer: “pacífico e boa pessoa”.

Mas não podíamos deixar de a interrogar sobre as suspeitas de infidelidade …

(continua)

quarta-feira, julho 25, 2007




Grades e copos

Antunes Ferreira
F
iapos esparsos semelhando escorridos de algodão sujo avançam sem grande vontade pelo azul álacre dum céu a precisar de retoques. Detrás das grades grossas de pau-ferro, Jacinto perscruta o horizonte, mãos enclavinhadas nos madeiros cruzados que parecem mais fortes do que se de metal fossem. Que porra de sorte a sua. Dois anos e picos de comissão, mato fora mato e, que sacanice, quando se chegava à cidade, uma puta duma emboscada e caçado à mão. Foda-se, que era pouca sorte.

Para trás ficavam recordações, muitas boas, algumas más. Lembranças e picadas, capim e saudades, terra vermelha e peles morenas e acetinadas, sangue e Macieira, burros de mato e leite em pó, funje e minas, batatas e camoquina, ligaduras e dolca, unimogs e bacalhau. E grão. E azeite. E vinho canforado. E vinagre. E jindungo, pica mas dá gosto. Ah, e quiabos. Que no Puto não há.

No chão de terra batida da cela está um prato de alumínio amolgado onde lhe puseram uma mistela de peixe seco com ervas boiando em óleo de palma espalhada por cima de arroz empapado. Frio. Também, com uma caloraça daquelas, que mal fazia se aquela bodega estivesse gelada, saída do congelador de uma geladeira imaginária? Esquadrilhas de mosquedo aterram na massa informe. Tem fome o Jacinto da Cruz Felperra, mas de outro manjar que não daquilo.

Está completamente desperto. Quando o tinham apanhado, ia ele a alapar-se na berma enlameada, zuniam tiros por toda a parte, levara uma porrada no toutiço e perdera os sentidos. Quando voltou a si, imerso numa escuridão bolorenta, doía-lhe a cabeça, mas não estava ferido. Apalpara-se para ver se tinha alguma coisa partida, um braço, uma costela, sabe-se o quê; apenas um galo no alto da cachimónia.

Por estas bandas o tempo é incerto, mais seguro no cacimbo, mais instável no calor com chuvas. E que chuvas. Portanto, não lhe admiraria que os farrapos que deslizam no astro, quais trenós em neve compactada, daqui a nada se transformem em borrasca de criar bicho. Mas, que raio de lembrança a dos trenós. Só faltavam as renas e o barbudo, e ainda nem sequer se estava no Outono.

Que aqui, Outono, Inverno, Primavera ou Verão pouco ou nada tinham a ver com iguais termos em Portugal. Cuidado, na Metrópole, já que ali, em Angola, também é. Uma Pátria una e indivisível, do Minho a Timor, nem mais. Nem menos, óbvio, isso queriam os comunas, roubar-nos as Províncias Ultramarinas, territórios sagrados que os antepassados ilustres nos tinham deixado – para que os guardássemos e acarinhássemos.

Vai-se fazendo noite, o pôr-do-sol alaranjado foi um ar que lhe deu. Tem a boca seca, e a sede ganha esporas. Fome, nada, basta olhar o prato para que, mesmo que a tivesse, ela se fosse e depressa. Não há garrafa de água, nem cântaro, nem bidon, nem caneca, nem sequer folha de palmeira que a agarrasse. Encosta-se ao quadriculado da janela e pede água em voz alta. Quase que berra.


Um preto claudica na sua direcção, saído de cubata mal amanhada. «Qué que você queres, seu portuga?» «Um pouco de água…» «Faz favor, também por cá usa, portuga.» Mancando, o homem volta para a cubata, onde entra, um tanto agachado porque a porta é pequena. Regressa com uma cabaça, entrega-lha por entre as grades. «Não gasta toda, tem de durar até amanhã», avisa-o, displicente.

Agora já é amigo?...

«Olha lá, amigo, e onde faço as necessidades?» O coxo olha-o enquadrado nas barras cruzadas. «Agora já é amigo?... Antes, turra…» Jacinto não sabe que fazer nem que dizer. Tem razão o gajo. (A gente a pensar que estes macacos eram todos burros. Olha-me só pra este. Amigo? Nem sequer conhecido, pensa ele e acertadamente). «Vai-lhe meter um balde e você fazes aí mesmo. Mas não chateia, senão mija e caga no chão…»

Está visto que assim não vai longe. Aliás a prisa nunca o deixaria ir onde quer que fosse, mais a mais com guarda ainda que manco. O homem não tem pinta de carcereiro. Mas, à bandoleira, traz uma kala, e dois carregadores redondos pendurados do cinto. O vestuário puído, está, porem, limpo, dentro do possível e do local, que não prima pelo brilho.

Outra ideia. Rosa pulcra. Na missa dos domingos, em pleno Inverno, o prior bufando do calor da braseira, faz um frio de rachar, afirmava-o com mais obrigação do que convicção. Jacinto bem gostava, agora, de voltar a experimentar nem que fosse uma vez apenas, aquela lida de sacristão que vivera durante um mês, no lugar do Pedro Carrapato que fora ajudar a mãe na azeitona.

Mas agora não se trata disso. Se as recordações são como os baloiços, vêm e vaiem, é melhor afogá-las para que não tenham um só sentido, pior que for apenas de vinda, sem volta. Porque ele quer voltar, ele vai voltar. Há um furriel miliciano, o Marques, que tem a mania de cantar sozinho, sem assistência, no banho de regador, mas em voz baixa, baixíssima, uma coisa que fala num soldadinho que vai numa caixa de pinho ou algo assim.

Porra! Ele vai voltar mas pelo seu pé, abrenúncio, cangalheiros e gatos-pingados não são para aqui chamados, caralho. Do bolso das calças rasgadas do camuflado sai como em passe de mágica de circo, um maço de AC, ainda que amarrotado. Está cheio, ou quase, pois antes do acontecido, ainda tirara umas fumaças, antes da cacetada. Há uns dois ou três cigarros partidos, é por um deles que começa.

Vai uma passa?

Não olha para ele, mas sabe que o seu guarda está de lâmpadas esbugalhadas olhando a pirisca. Como quem não quer a coisa, estende o braço entre os madeiros e na mão a outra metade do fumante. «Vai uma passa»? O coxo agita-se frenético, como aquele tipo de Manteigas que apanhara um raio que não o partiu, mas quase.

Claro que vai. «Tem lume»? O homem apanha um tição da fogueira já a cair para as cinzas e acende-lhe o meio cigarro, sé depois o dele. «Obrigado». E parece-lhe que se derreteu aquele bloco de gelo que o guerrilheiro era. «Olhe, portuga, não sabes quanto tempo eu leva sem fumar. Muito obrigado» reforça. Engole tanto fumo que se engasga e tosse escandalosamente.

«Pareço um miúdo que ainda não aprende como se fuma»… «Deixe lá isso, companheiro, a gente sabe o que são necessidades. Há quem diga que é um vício. A ser assim, é um pequeno, porque também há vícios grandes». E Jacinto ri-se da graçola que aprendeu já não sabe onde. «Patrício, eu chamo Kitombo João, andei na escola industrial na Huila, mas não lhe acabei».

«Pois eu sou o Jacinto da Cruz Falperra, natural de Moncorvo, Trás-os-Montes, se um dia lá for vai provar um buxo de se lhe tirar o chapéu, feito pela minha mãe, acompanhado dum verde tinto ainda melhor. Tiro e queda». «E o que é isso do buxo»? «É assim a modos que um chouriço mas mais gordo e sem tanta gordura. É de comer e chorar por mais»…

«Ó seu Jacinto, lhe gosta de burro do mato»? «Compadre, não me fale nisso senão começo para aqui a babar-me. Se gosto. Assado na brasa, com umas batatas metidas no borralho, com casca, é um vê se te avias. Burro do mato é melhor do que vitela. Um nada acima, só a posta mirandesa». O Kitombo ri-se, faltam-lhe três dentes, quase igual ao seu avô Faustino a quem já se foram quatro da frente. Tal como a este.

«Se tu me promete que não foge eu lhe abro a porta e vamos assar uma perna inteira. Cacei-o ontem, ainda está fresco, coberto com folhas de palmeira por causa das moscas. Tenho sal, óleo de palma e jindungo. Alho não tem. Mas não faz mal, não achas, portuga». «E eu ralado com o sacana do alho. Faz tanta falta como uma viola num enterro».

Não foge, seu Cruz

Agora sai uma gargalhada tonitruante, o João que também é Kitombo – raio de nome, mas o dele, Falperra também não é grande espingarda – quase cai no chão de tamanho gozo. «Não foge, seu Cruz» e vai abrindo a porta, levanta o travão que é um toro pesado, vê-se pelo esforço do preto. Jacinto sai, aspira o ar e dá-lhe uma mão para encostarem o tronco à parede de terra batida.

Não é uma trégua – é uma confraternização. Para eles a guerra não parou, já foi. «Se tivesse aqui o meu bornal outro galo cantaria» suspira o transmontano. «Olha tu, ó Jacinto, o bornal está ali, na palhota, no meio das tuas coisas que te tiraram quando te amachucaram o toutiço. Porquê»? «Já vais ver meu sacana». E corre a buscar algo de especial. Oxalá não se tenha partido…

Não partiu. É uma garrafa de uísque The Monkies, o alferes Daniel diz que quer dizer… E o Kitombo interrompe «quer dizer os monges, os frades, essa gente de hábito. Mas estes bebem-se…» É a galhofa. Entre risadas dedicam-se ao assado, vira daqui, torna dacolá, mais óleo, «não abuses do jindungo que pica como o caraças».

Jacinto, quase inconscientemente, repara que o seu companheiro de farra gastronómica já não fala pretoguês, antes um português correcto, sem pronúncia angolana. «Mas tu já pareces um branco a falar». «Não digas nada. Era a fingir para que não notasses. Eu nasci em Lisboa, pai incógnito, até andei a estudar na Fragata Dom Fernando. A minha mãe voltou com os cinco filhos e ficou em Sá da Bandeira. Onde teve mais três. Percebes»?

Está tudo esclarecido, percebidinho da costa, dá-lhe mais sal e, ainda assim, mais picante. O pernil rescende. Trescende. Coradinho por fora, sem estar queimado, de modo nenhum, e a garrafa vai-se esvaziando. Se outra houvesse. Há. Duas de Constantino que o Kitombo tinha guardadas para ocasião especial, sabe-se lá, boda ou baptizado, até mesmo velório.

Mais especial do que esta? Nada, não, impossível. «Sabes, voltei a Lisboa, estava no Sporting quando chegou o Dinis “brinca na areia” e vaticinavam-me um futuro no chuto. Ainda treinámos juntos. Numa manhã maldita, saltei do eléctrico no Lumiar e um carro apanhou-me, partiu-me a perna, ainda me operaram, mas já não havia Pattex que me consertasse. Fiquei assim, coxo para o resto da minha vida».

Fazer alheiras

Puta de vida. Jacinto adianta-lhe estórias da terra, dos nevões invernais, das castanhas. Kitombo – que, afinal, é Francisco, Kitombo é nome de guerra, o verdadeiro é Francisco João Neto – conhece. Foi uma ou duas vezes por lá, aprendeu a fazer alheiras. Um dia, deixo-me disto. «Quando Angola for livre e independente ainda vou ao Puto». «Espero-te lá, Chico, podes ter a certeza».

«É pá, ó Jacinto, tu vais-te pirar, antes dás-me uma trancada na moleirinha para disfarçar, apanhaste-me à traição… Mas antes despes o camuflado e pões outros farrapos dos meus. Mais: pintas o trombil com a cinza castanha, para pareceres preto e algum dos nossos te topar. Além do mais ainda a noite é uma criança, passas por patrício, com o barulho das luzes».

«Compadre, és um gajo porreiro. Comida feita, companhia desfeita. E bebida também. Estou mais do que zonzo, estou bêbado que nem um cacho…» «Eu também irmão. Mas tem de ser assim. Guerra é coisa péssima, mas é guerra…». Raio de fatalismo, não se pode mudar, mas melhores dias virão. «Chico, podes vir comigo até à picada grande, não vá eu perder-me de noite»?

«Posso, claro» E seguem os dois cambaleantes, arrimados um ao outro, amparando-se, uma risada pegada, a seguir vão separar-se, a picada é já ali, Jacinto terá de dar a cacetada no Chico, para fazer de conta, por causa das moscas. Silêncio – nada. Bem ao contrário.

Jacinto, por entre os vapores do álcool, lembra-se do final da cantiga do furriel. Desta vez o soldadinho (que vai num caixão de pinho) nunca mais se faz ao mar. Ele não tem nada com isso. Volta, direito, com a ajuda do Chico Neto, gajo porreiraço, não fosse ele. Param para um último abraço. O branco levanta o pau, o preto ri-se, não vai doer nada. Nisto, a rajada.

Os flechas saltam do capim da emboscada para a terra batida. Siô Inspector lerparam os dois, se acabou o cagaçal. Estão mortos mesmo, um atrás do outro, sangue os envolve, os irmana, já começa a empapá-los. Olha só patrício: esse preto é branco. Chamuscado.