terça-feira, abril 01, 2008

RAIO DE VIDA

Despoletar
• A praga da asneira

Antunes Ferreira
V
ocês sabem alguma coisa de tropa? Estiveram no serviço militar? Consultaram, ainda que episodicamente, uma Enciclopédia? Mesmo a Wikipédia? E como vamos de conhecimentos de Português? Leram o Fernando Pessoa? Já ouviram, pelo menos, citá-lo quando escreveu que «a nossa língua é a nossa Pátria»?

Homessa. Que saraivada de perguntas. E, ainda por cima, aparentemente, não teriam muito a ver umas com as outras. Está visto: o cronista pifou, apagou as lâmpadas incandescentes, apesar das campanhas da EDP, ainda não as substituiu pelas económicas, de longa duração e poupadoras de energia. Resumindo: está cada vez mais parvo.

Como visado, o escriba tem (ainda) o direito de se defender. Isto não é a Carolina Michaëlis. Nem se está a utilizar qualquer telemóvel, apenas um teclado inofensivo de um modesto computador XP, por obra e graça de Mr. Bill Gates. Mas pago, não de graça. Daí que não venham para aqui chamados quer a aluna, quer a professora, muito menos o jovem que filmou, empolgado, a cena canalha. Estrumeira. Sarjeta. No more comments.



Que pretende, então, o escrito? Alto, e pára o baile. O dito cujo está a abarrotar de pontos de interrogação, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ter-se-á, pois, de seguir em frente, sem considerandos mais ou menos espúrios, se não mesmo ininteligíveis. Já basta o que basta, e, ainda que não pareça, pode continuar-se a pensar que a linha recta é a que une mais directamente dois pontos.

Continua a ser expressão usada (e abusada) - que é um crasso erro, de qualquer ponto de vista. É o calino despoletar. Oradores, escribas, jornalistas, locutores, políticos, numa esmagadora maioria são militantes dessa asneira. Despoletar uma situação. A agressão despoletou consequências péssimas. O golo despoletou a recuperação do clube que perdia ao intervalo.

No fundo, uma constante: algo originou que um processo se activasse, se desenvolvesse, ou aumentasse a sua importância ou dimensão. Ou seja, algo fez explodir a coisa que se encontrava mais ou menos em estado larvar. Está profundamente errada a utilização do termo. Profunda, não, completamente errada. Se a análise fosse feita em termos religiosos, tratar-se-ia de um pecado capital. Em termos jurídicos, um crime, no mínimo por ignorância.

Tome-se uma granada, por exemplo, uma de mão, defensiva. O seu corpo metálico, em forma de pinha recortada (invólucro), é «recheado» de explosivo. Ao ser deflagrada, são os estilhaços dela que deverão atingir o inimigo. Para que isso funcione, rezam os manuais da arma, acentuam os instrutores, que os utentes têm de usar cuidados especiais. Se os não respeitarem, podem eles próprios ser vítimas dela. Muitíssimas vezes isso tem acontecido, infelizmente.

Explique-se o funcionamento do artefacto bélico. Para que o detonador origine a explosão é necessário que algo o percuta. Assim no interior da granada, existe um objecto seu componente; pode dizer-se de modo mais simples, que é uma espécie de prego com uma ponta, naturalmente. É o percussor. Nem mais, nem menos.

A granada está armada, com a espoleta (às vezes existem duas) no seu lugar, a qual quando detona faz explodir o artefacto bélico, por força do movimento vertical e para baixo do percussor que acciona o detonador. Aquele é envolvido por uma mola helicoidal. Na sua extremidade, no cimo da granada, tem um orifício seguro por uma «argola» ou pino, que trava a acção da mola. Além disso, uma alavanca colocada lateral e longitudinalmente no exterior da arma é outra garantia para o militar que a arremessa.

Deste modo, o atirador, retira o pino, segurando firmemente a alavanca para que a mola não prima de imediato o percussor sobre o detonador. Leva o braço atrás, conta até dez, para temporalizar o acto e lança a granada para o inimigo. O restante, é óbvio. A não ser assim, não existiriam tais objectos letais. O que, aliás, seria excelente.

Ora muito bem. Espoletar uma granada é ter a espoleta colocada no seu lugar, pronta a actuar, ou seja a originar a explosão. Se o Português ainda tem regras – e tem-nas, ainda que bastas vezes esquecidas, ignoradas ou, até, vilipendiadas – o que se ensinava sobre o prefixo des era que da sua junção à palavra base resultava a negativa desta.

Organizado. Desorganizado. Elegante. Deselegante. Ocupar. Desocupar. Não vale a pena continuar com exemplos, aliás despiciendos. Espoletar. Despoletar. Sendo assim, despoletar significa tirar a espoleta de uma granada. O que quer dizer que ela não explodirá, pois fica inerme. Sem grande margem para dúvidas, refira-se. Militares e linguistas, ou vice-versa, não podem estar mais de acordo.


Donde, a expressão estar a ser utilizada (e já há bastante tempo, infelizmente) com significado absolutamente oposto ao que suposta e aparentemente se pretende com ela. Despoletar é desarmar, é impedir que a detonação se verifique, é, em boa hora, impedir que corra sangue. É abortar a violência.

Este, hoje, é um texto que foge ao habitual. Já lá vão uns anos, um Senhor chamado António Valdemar escreveu sobre o tema no Diário de Notícias e o escriba, na altura seu camarada de lides jornalísticas, mais uma vez aprendeu com ele. Refere-se aqui a circunstância, citação que se entende inteiramente justa, correcta e, portanto, em absoluto, pertinente.

Foi, no entanto, a voz que clamou no deserto. Valdemar, um Homem cultíssimo, sabedor, cabeça prestigiada, memória prodigiosa, maçon sem peias, académico de mérito, foi à estacada, esgrimiu com mestria, desancou nos ignorantes – mas o erro crasso prosseguiu, dir-se-ia, impávida e tranquilamente. Debalde, por conseguinte.

Nós, os Portugueses, somos assim. A calinada, de tantas vezes repetida, entrou no corriqueiro do dia-a-dia. Esmerou-se na alarvidade linguística. Para ser mais correcto: esmerámo-nos, pois o cronista é tão luso como todos os restantes cidadãos. E compatriotas. Só que, no caso vertente, tenta usar correctamente o despoletar. Quer na Língua, quer na guerra, há que despoletar, sim, mas no sentido correcto.

(Tambem publicado no blogue SORUMBATICO)




segunda-feira, março 31, 2008




NA ROTA DO CALENDÁRIO


Março das Primaveras

Maria Lúcia Garcia Marques

Nasci com Março e com as primaveras. Tempo final das grandes germinações, do rebentar das águas, do eclodir das cores. Tempo feminil e quase frívolo em que a Natureza compõe seu rosto, se adorna e floresce. Histórias de sementinhas com final feliz como estas com que Aquilino abre a sua “Casa Grande de Romarigães” e que deliciadamente aqui resumo:

O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!

Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balançou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima de uma fraga, ligeiro como um tira-olhos.


Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse.

Também ali perto, por uma tarde fosca de Outono, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça. (…) Trazia no bico uma bolota (…) mas deixou cair a glande. Esta foi bater na face zenital dum velho toro, saltou de ricochete para o lado, e aninhou-se muito aninhada num monte de folhas secas e argalhos. (…) ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir ?!




Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe ?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim? Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas?

Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava o flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser. Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta.


E esta floresta assim nascida faz-me lembrar o como se tece e urde o tecido/texto da nossa fala. De como, das clareiras do silêncio, se parte, pelos trilhos da memória e do engenho, ao encontro das palavras na pujança das suas inflorescências semânticas, numa “expedição” em que, como diz Ramos Rosa , de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem / trémulas ainda de silêncio e de desejo. E são muitas. Infindas. Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo, dirá Almada Negreiros. E há-as úteis, imperativas, apaziguadoras, apaixonadas ou frias, difíceis ou arrogantes, de misericórdia e de luto, secretas ou segredadas, gastas ou já esquecidas, que unem e que separam, de prisão e de alforria, de justiça e de oração, de rogo e de promessa, de culpa e de perdão, de fúria e raiva como no poema de Sophia:


Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra” ( Junho de 1974 )

Mas há palavras lindas que nos salvam, nos lavam e nos saciam.
Palavras-de-março que, como um fio de água bonançoso e limpo, trazem nelas a Primavera.



sexta-feira, março 21, 2008




Ditados a granel

Antunes Ferreira
Um homem não é de pau, diz rifão bem conhecido. Cuidado: os provérbios são, normalmente certíssimos. Não se podem desdenhar, absolutamente. De resto, também afirma o povo que quem desdenha quer comprar. A ser assim... Se um cidadão cai na zona demarcada de um adágio, está tramado. É um pouco como os vinhos, também originários de zonas equivalentes: quando se bebem em excesso, ou se vai dormir, ou há uma cena triste. Ou umas.

Ora bem: a luxúria que está na base da máxima popular é um dos sete pecados capitais, que, de acordo com a Wikipedia são uma classificação de vícios usada nos primeiros ensinamentos do catolicismo, para educar e esclarecer os crentes, de forma a compreender e controlar os instintos básicos. Não há, no entanto, registo dos sete pecados capitais na Bíblia. Mas são, para além da luxúria, a gula, a preguiça, a avareza, a ira, a soberba e a vaidade.

São Tomás de Aquino escreveu sobre eles. Mais faltaria que o não tivesse feito. Na sua doutrina sobre os pecados capitais - ou vícios capitais -, ele repensou a experiência acumulada sobre o homem ao longo de séculos. Sempre voltado para a experiência e para o fenómeno, é sobretudo, quando trata dos vícios que o seu pensamento mergulha no concreto, e, citando o sábio Dionísio, escreve que "malum autem contingit ex singularibus defectis", ou seja para conhecer o mal é necessário voltar-se para os modos concretos em que ele ocorre.


É bem sabido que o fruto proibido é sempre o mais apetecido. O pecado da carne é, quiçá, o melhor exemplo deste dito. Nos mandamentos está gravado que ninguém pode cobiçar a mulher alheia. Afirmação machista, há que o dizer. Então, se a mulher cobiçar o homem alheio não existe pecado? E se duas fêmeas se cobiçarem uma à outra? E se dois marmanjos procederem idem, idem, aspas, aspas? Vistas as coisas por este prisma, temos, realmente, o caldo entornado. O caldo da carne, evidentemente.

As sociedades humanas encaram os capitais de forma habitualmente severa. Sublinhe-se que umas mais do que outras. Não há forma de se encarar estas questões similarmente. Já não se usa o velho e obsoleto papel químico. (Ainda existe quem o faça, mas a ser assim, é um homem das cavernas, da pedra lascada). Porém, existem outros recursos. A ovelha Dolly foi o primeiro exemplo da clonagem animal. Mas isso são outros quinhentos mil réis, como dizia o meu falecido grande Amigo e enorme Jornalista, Victor da Cunha Rêgo.


Daí que haja grupos mais puritanos do que outros, grupos mais liberais do que outros, grupos mais praticantes que outros, grupos mais condescendentes que outros, grupos, enfim, para todos os gostos e paladares, como os chupa-chupas da nossa infância. Aqui há uns anos, não tão longe quanto se possa pensar, as «coisas feias» não se faziam às claras, eram predominantemente às escuras. Onde vai isso?

Hoje, peca-se a céu aberto. Ouve-se que acabou a hipocrisia. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Hipócritas sempre houve, há e haverá. Nem mais. Por todo este Mundo desrazoado ela viceja, benza-a um qualquer deus. É pá, ganda intervenção no Parlamento, quer dizer, olha, filho, o teu discurso foi uma bosta; malta a dormir, quase toda, maioria e oposição. Sarzedas avançou, fintou um, fintou dois, tirou um terceiro da frente e chutou: um golaço, significa: o guarda-redes deu um frango maior do que uma avestruz, foi pura sorte, o gajo nunca mais marca um igual.


Mais exemplos – para quê? É tudo à vista de todos, nada de tentar fingir que não foi assim, que não é assim, que não será assim. A luxúria é, então, uma prática aberta, obviamente sem cobertura de qualquer qualidade? O desejo satisfaz-se na via pública, sem se dar atenção às placas de sentido proibido, nem de proibição de estacionamento? Depende.

Se há terra onde o falso puritanismo dita leis, ela é os Estados Unidos da América, EUA, USA, escolha-se. Advirta-se: há mais, evidentemente; mas por lá, exagera-se. Com hipocrisia q.b.. Práticas que se verificam à sorrelfa, vêm a público e toca a rebate. As mais das vezes, as coisas endireitam-se, honni soit qui mal y pense, mas quando saem à luz do dia é um vê-se-te-avias. A classe política é, disso, freguesa frequente.

Não se recue muito, basta recordar 1998, quando Bill Clinton se deparou com a «ingratidão» da boca da Mónica Lewinsky. O caso da Sala Oval bradou aos céus.
Caiu o Carmo-e-a-Trindade, mas não caiu o Presidente. No entanto, o escândalo correu o Mundo, as anedotas proliferaram, na net foi um corrupio. A vingança serve-se fria. Hoje, Hillary bate-se apenas para derrotar Obama? Ou para limpar o apelido?

Outros casos foram fatais para quem os interpretou. A esmo. Em 2004, o governador de New Jersey, Jim McGreevy, foi apeado por ter sido descoberto em prática homossexual. Ou por intenções de tal natureza. Mataram-no, óbvio que politicamente. Passou a fazer parte do time dos ex qualquer coisa. Corria o ano da graça de 2006, quando Mark Foley, deputado pela Flórida, integrou a equipa. O homem (que até presidia a uma comissão contra a pornografia infantil) andava a atirar-se a menores que estagiavam na Casa Branca.

Já no ano passado, o senador Lerry Craig, pelo Idaho, terá sido apanhado com a boca na botija, salvo seja, num aeroporto. Para mal dos seus pecados, kogo se havia de meter com um agente da autoridade, avesso a tais aproximações. Olho da rua. A sociedade norte-americana cobrava os dividendos que entendia, a moral pública não se permitia ofensas de tal quilate.

Agora, estala mais uma bomba. Começa pelo governador de Nova Iorque, melhor dizendo o ex-governador Eliot Spitzer. O senhor terá gasto uns largos milhares de dólares com umas raparigas mais complacentes.
A última, já em Fevereiro, a miss Kristen, nome de guerra profissional, na realidade Ashley Alexandra Dupré deu à dica sobre um alegre convívio no Hotel Mayflower, nome histórico que também era marca de tabaco para cachimbo. Apagou-se. O cachimbo e o governador ex.

Vai daí, o seu número dois, o senhor David Paterson, que com ele integrava o ticket democrata vencedor, ascendeu ao posto. Uma novidade na política do tio Sam. Paterson é cego e negro. Algum dia isso podia acontecer. Foi agora. Mas, espanto dos espantos, o novo governador da Big Apple, logo no dia seguinte à posse, deu uma entrevista acompanhado da esposa amantíssima Michelle, durante a qual declararam ambos que se tinham corneado mutuamente. Os casamentos têm os seus maus momentos, afirmaram.

É o verdadeiro paradigma do pôr as barbas de molho. E duplamente, e ao quadrado. Não só porque foi o ilustre casal a contar os seus feitos extra-conjugais, mas também porque Mister Paterson usa... uma barba cinematográfica que lhe fica a matar. Continuando na senda dos ditados, o (ainda?) governador novaiorquino é como a pescada ou o vestido: antes de o serem já o eram.

Por causa das moscas, esta confissão da insigne parelha é antecipação a uma mais do que provável investigação jornalística que poderia resultar em parangonas assassinas. Resta saber se, quando esta crónica for publicada, ele ainda é governador, ou se já faz parte da sociedade dos ex. A vida dá muitas voltas.

Legendas por ordem de inserção
Casal Paterson
Os sete pecados capitais - de Yeronimus Bosch
A gula - de Milo Manara
Pecar às claras ou às escuras?
A soberba - de Milo Manara
Bill & Monica
Os Spitzer


* (Também publicada no blogue SORUMBÁTICO)

quarta-feira, março 12, 2008




Morte na Picada - Lançamento

É com muita satisfação que anuncio que o lançamento do me(a)u livro será em 15 de Abril, pelas 18:30 na Fnac do Colombo.

Três grandes jornalistas e meus excelentes Amigos, o Joaquim Furtado, o Joaquim Vieira e o Fernando Farinha acompanham-me nesta empreitada.
O primeiro fará a apresentação da obra, o segundo assina o Prefácio dela e o terceiro é o autor das fotos da capa e do miolo do livro. O que lhes agradeço, pois a companhia deles foi imprescindível.

A Editora é a Via Occidentalis, do Júlio Sequeira, que agora descobri, mas com quem estabeleci uma cumplicidade notável.
Trata-se de contos (short stories) da guerra colonial de Angola em que, infelizmente, estive envolvido como oficial miliciano. Foram publicados neste blogue, como devem saber.

Gostarei muito de os ter lá. Por isso peço que não faltem. Ora essa? Peço, não, ordeno!!! E não há faltas justificadas, nem de mau comportamento. Têm de (e devem...) estar lá. Ponto.

terça-feira, março 04, 2008

Nó matrimonial

Antunes Ferreira

Moça bem lançada, a Ermelinda. Com tudo nos devidos lugares. Boa pra milho dizia-se na tasca do Jaquim, a malta era lixada, a Rua Maria Pia uma confusão, a Meia Laranja uma porra! Droga de toda a qualidade (?), dimensão e feitio, desde o charro até à pastilha, e raparigas da vida, ou melhor, putas. Os carros estacionados fora de qualquer lei, uma boa parte de foras-da-lei, dificultam o trânsito «normal» e os condutores «saudáveis» sabem que, ao passar por ali, enfrentam provas de rali que nem o mais pintado Loeb enfrentaria com destemor q.b..


Continuando. A jovem até já fora candidata a miss não se sabe exactamente o quê, num concurso organizado por revista – hoje diz-se magazine, muito mais bué de fixe – supostamente feminina e patrocinado, vejam lá, por uma marca de telemóveis e por um crédito pessoal pelo telefone, antes deveria ser via pombo correio. Arrancara um honroso terceiro lugar, subira ao pódio, levara faixa. E ramo de flores, está bem de ver.

Como escrevia a Maysa do Correio do Coração do Diário Ilustrado em papel cor-de-rosa (lembram-se? Não? Eu trabalhei lá e, na doença do Roussado Pinto, Ross Pyn para efeitos de livros policiais, dei corpo à hipotética conselheira amorosa. Nos anos cinquenta e tais. Justificado, portanto: não se recordam, nunca o viram, não entram na categoria do Palyentosaurus Akromagnonicus. Eu, sim.), pois, como escrevia a suposta pitonisa, miss sem ramalhete – não chega.

Ermelinda, consequentemente, era objecto de cobiças as mais despudoradas, dos dichotes mais insinuantes e alguns mesmo até menos elegantes, despertava desejos inconfessados, sonhos lubrico-sensuais e assim. Babadinhos, muitos. Presos pelo beicinho, mais. Começaram a surgir os pedidos de namoro. E as propostas mais ousadas, para não dizer indecorosas. Em pleno século XXI, em que o sexo perdera quase todo o encanto que anteriormente tinha, os avanços da malta eram constantes e persistentes.

Abro aqui uma parentética. Na Proto História, mais coisa, menos coisa, em que comecei a olhar para as miúdas, era proibido, por exemplo, o biquini. Havia muito mais coisas interditas aos cidadãos, mas esta é apenas a demonstração da estupidez e do obscurantismo do regime salazarento. Contava-se, então, a anedota do cabo-de-mar que, na praia de Carcavelos, se deparara com uma jovem em tais preparos. A autoridade avançou logo com um severo «minha senhora, é proibido o uso de fatos de banho com duas peças»!

A donzela era francesa, o seu aspecto denotava isso, mas o brioso agente não se intimidara. A lei é lei, há que cumpri-la. Dura lex, sed lex diziam os Romanos – e diziam bem. O caso era que a gaulesa biquinizada tinha os avós naturais de Mirandela e, por isso, entendia perfeitamente o Português e falava-o bem, ainda que carregando nos erres e anazalando sons que não o deviam ser. «Senhorr Põlicia, qual das duas peças querre que eu tirre»? Galhofa, só galhofa. Andava uma mãe a criar um filho, para que ele viesse a sujeitar-se a tais desmandos.

Isto para vos dizer que era mais o mistério que envolvia um tornozelo bem torneado, que permitia considerar como seria o resto, um ombro menos tapado que possibilitava imaginar a continuação dele, uma blusa mais cingida que levava a sonhar com o conteúdo bem dimensionado. Quando entrei para a Faculdade de Direito, a malta atravessava a terra de ninguém, ou seja o largo entre a nossa e a de Letras, encimado pela nova Reitoria, para ir ver as meninas. Era o que então se chamava empernanço de pestana...

Hoje, a nudez e a cópula andam por aí, como o Dr. Santana Lopes, sem peias nem adivinhações. O fruto proibido é sempre o mais apetecido, vox populi. Era, pelos vistos. Agora, todas (ou quase) as práticas sexuais são às escâncaras, nem sequer à média luz. O tango correspondente já foi, será que terá existido o Carlos Gardel? Já basta de parênteses sobredimensionado e sem sustentação aparente. Ponto final, parágrafo. Na outra linha.

Hermenegildo era um dos aspirantes à terceira classificada, sem coroa, mas com buquê. Um trinca-espinhas, tão, tão, tão, que os amigos dele diziam que conseguiria, se o tentasse, tomar banho num carril de eléctrico da Carris. Exagero. Os mais comedidos apenas afirmavam que ele mesmo sob uma bátega de água, não se molhava pois podia passar por entre os pingos da chuva. Nada, não. Era mais um gozo, face ao esquelético.

Para obviar a tais enxovalhos, ainda que amigáveis, o rapaz, no Inverno que corria, passou a usar quatro camisolas sobrepostas, por cima da camisa e da camisola interior. O que lhe dava uma massa corporal aceitável, no mínimo. Ceroilas, dois pares, calças de pijama e a forrar isso tudo, os jines. Não se tornara num hércules-de-bairro, mas estava muito mais apresentável. Feitios.

A verdade é que a Ermelinda atentou nele. E ele, claro, nela. Foi um namoro de fórmula um, terminado na igreja, que os pais dela eram praticantes de missa semanal e comunhão. Hermenegildo, ainda que respeitador e pacato, não se dava muito a essas práticas, nem sequer tinha algum amigo sacerdote. Mas, o dever assim o exigira, e ala que se faz tarde, fato preto e arcaboiço enchumaçado convenientemente, como se lhe tornara habitual.

Segundo andar na Falagueira, por cima de uma loja de móveis e electrodomésticos, olha que novidade por tais bandas, entrada inicial como prenda dos sogros do nubente, mobilias e afins da responsabilidade dos da noiva, os padrinhos dela avalizaram o empréstimo bancário e os dele, gente apessoada e com bagalhuço, um carrito coreano, ar condicionado, GPS e avisadores sonoros da marcha atrás, porreiros para o estacionamento em espaços mais apertados.

Depois da fuga estandardizada no final do copo de água, ei-los no lar, doce, lar. O Hermenegildo, se se despisse a descoberto, seria uma catástrofe, pensava. Quanto ao resto, não tinha dúvidas: a fornicação era tiro e queda, nisso era ele seguro. Mas, na ossadura é que estava o busilis. Que diria a recém casada?Por isso, entre os primeiros beijos e os correspondentes ensarilhansos linguais, sussurrou- lhe ao ouvido cujo lóbulo mordiscava, que se metesse na cama, despidinha, e apagasse a luz, que era um fetiche dele. Assim se fez.

O macho despojou-se das camadas de roupa, ficou em pelota, afastou o lençol matrimonial e com um entusiasmo desmedido atirou-se à esposa. Esta, na escuridão, deu um grito lancinante: Hermenegildooooooo!!!! Porra, que aconteceu , meu amor, tens assim tanto medo? E ela, não meu querido, caiu-me em cima o crucifixo que estava pendurado na parede, por cima da cama. Ele há dias em que um homem não pode deitar-se, à noite.


(Também publicado no blogue SORUMBÁTICO)

sábado, março 01, 2008






HISTÓRIAS DA PJ


Aconteceu

na Primavera marcelista

(conclusão)


José Augusto Garcia Marques


O Dr. Rui Oliveira era um homem sisudo, com pouco mais de trinta anos, alto e muito magro, com um rosto comprido, de olhos cinzentos e maçãs de rosto salientes. Era o tipo acabado do homem duro, determinado, lutador. Era um defensor de causas. Prático no vestir, tinha todo o aspecto de um intelectual dos finais dos anos sessenta. Vim a saber muito mais tarde que era irmão de um oficial da Marinha que eu havia conhecido em Angola, com o qual tinha, aliás, semelhanças fisionómicas, sendo, porém, bem mais alto.

Tive a oportunidade de constatar o estado em que ficou a cara do médico, em consequência das agressões que sofreu.
Toda a zona por debaixo dos olhos, incluindo as maçãs do rosto, encontrava-se, quando o vi pela primeira vez, negra-arroxeada, em virtude das hemorragias causadas pelas pancadas que lhe foram aplicadas. Porque foi assim que ele foi agredido – à coronhada, ao soco e a pontapé.

Para uma adequada identificação dos agressores, convoquei todos os legionários que, no dia da ocorrência dos factos, tinham passado pelo Quartel do Rato
, os quais se deslocaram à sede da PJ, para uma diligência de reconhecimento.

Eram cerca de uma dúzia, e foi-lhes ordenado que se colocassem em fila, num dos gabinetes da brigada do Chefe Daniel, ficando numa extremidade, um pouco à frente, o respectivo Comandante – cuja cabeça pequena e cara de adolescente destoavam no cimo de um corpanzil flácido e mal equilibrado.

A generalidade dos legionários era constituída por arruaceiros de terceira categoria, e alguns deles apresentavam-se fardados. O facto de se encontrarem em grupo e de estarem habituados a praticar desmandos e provocações que ficavam impunes dava-lhes uma sensação de à vontade, própria de quem julga que “está em casa”. Estavam relaxados, trocando sorrisos e graçolas. Pensavam estar na iminência de participar numa mera formalidade, sem consequências.


">O
médico, homem muito frio e dotado de grande auto-domínio, passou em frente da fila, encarando cada um dos legionários cuidadosa e demoradamente, olhos nos olhos, e identificando aqueles que o tinham agredido ou os que, não o tendo feito, se recordava de ter visto no Quartel da Legião. Quando tinha dúvidas, dizia não estar seguro na respectiva identificação. (
Este estava lá e agrediu-me; deste não me lembro; este andava por lá mas não foi um dos agressores; este insultou-me e agrediu-me; este bateu-me com os punhos e com a coronha da G3; e assim sucessivamente até chegar ao comandante de quem disse que entrava e saía da sala).

Em dado momento, principiou a gerar-se e a crescer um burburinho de indignação por parte dos identificandos. Começou em surdina, mas rapidamente as vozes se tornaram audíveis. Visavam, já não o médico, mas a própria PJ, e, mais em concreto, a minha pessoa e a dos agentes que estavam presentes na identificação. Às tantas, ouvi dizer, com intenções nitidamente provocatórias: “agora quem manda já são os comunistas”.

Entendi, para evitar males maiores, apelar à autoridade e ao sentido de chefia do Comandante, a quem me dirigi com aspereza e em tom de comando. Disse-lhe que ou ele era capaz de impor a compostura e a disciplina, ou eu me via obrigado a tomar as medidas que a lei me proporcionava para agir contra desordeiros e insubordinados.

Não sei se por receio de que eu pudesse ordenar alguma detenção, se em virtude da postura militar com que fiz a exortação ou se por espírito de corpo para com a Legião Portuguesa (que ali representavam), o certo é que o apelo surtiu efeito. Metido em brios, o Comandante resolveu impor-se e, em face das suas ordens, os homens mudaram de atitude, tendo passado a comportar-se com o correcção devida às circunstâncias.

Entre os presentes havia indivíduos de muito baixo nível social ou com manifesta falta de capacidade de discernimento, a par de outros, recrutados entre veteranos da guerra colonial.
Lembro-me de um deles, figura conhecida da noite de Lisboa - e adepto ferrenho do Sporting -, que era um dos mais barulhentos e incorrectos. Procedia assim em grupo, porque, como tive a oportunidade de constatar mais tarde, numa diferente investigação, quando interrogado sozinho, transformava-se num autêntico cordeiro. Penso ter subido muitos degraus na escala da sua consideração quando alguém o informou de que eu era adepto do Sporting e que também tinha passado dois anos na guerra de África.

Na sequência da sessão de reconhecimento e de outras diligências realizadas, foi-nos possível identificar a maior parte dos autores do assalto à sede da CDE e das agressões na pessoa do médico Rui Oliveira. Entretanto, antes de terminar a minha comissão de serviço na PJ, o que aconteceu em meados de 1970, pus os meus directores ao corrente das conclusões das investigações nos processos em referência.

Foi-me então perguntado se os factos provados não se limitavam a simples “bagatelas penais” - ofensas corporais ligeiras, injúrias e simples danos? Confesso que a pergunta me deixou surpreendido, em face do desconhecimento que revelava do progresso das investigações – que eu, como me cumpria, ia reportando periodicamente a quem de direito. Respondi, esclarecendo que havia também ofensas corporais graves, além de um crime de cárcere privado. A estupefacção apoderou-se dos meus interlocutores: “Mas o cárcere privado está provado? E foi praticado por legionários?” Respondi afirmativamente.

Antes de deixar a PJ – à qual haveria de voltar no final da década de setenta, então para o exercício de funções de direcção -, deduzi as competentes acusações, com a previsão da totalidade dos crimes praticados, incluindo o de cárcere privado, a que correspondia uma pena de prisão maior – de três anos a oito anos.

Qual não foi o meu espanto, quando, já no exercício das minha novas funções, tomei conhecimento, pelo “Diário do Governo”, que, no elenco dos crimes amnistiados aos estudantes de Coimbra que tinham recebido com insultos e imprecações o “Venerando Chefe do Estado”, Almirante Américo Tomás, no que foi um episódio de resistência ao regime com grande impacto mediático, se encontrava incluído o crime de cárcere privado. Escusado será dizer que os beneficiários desse “gesto magnânimo” não foram os estudantes da Lusa Atenas, mas sim os legionários do Quartel do Rato.

***

Os factos ocorridos no desfecho da história que acabei de relatar constituíram a minha primeira revelação de quão vulnerável pode ser o “mundo da Justiça”, em certas conjunturas. Naquele ano de 1969 eu tinha renunciado ao gozo de férias, seguro da importância em concluir tão depressa e tão bem quanto possível algumas investigações que me tinham sido distribuídas, entre as quais se contavam os dois processos a que me referi. Não obstante, uma vez realizadas as eleições de Novembro, o “mundo” voltou ao que era antes – e à “Primavera da nossa esperança”


sucedeu o “Outono da nossa desilusão”. A amnistia que branqueou os crimes dos legionários deu razão àqueles que, afinal, pensavam que tudo não era mais do que uma simples formalidade. Afinal, apesar do esforço da PJ, eles estavam efectivamente em casa ...



terça-feira, fevereiro 26, 2008





GANDA LATA

A esperança

da Esperança


Antunes Ferreira

Será que realmente a esperança é a última coisa a morrer? Pergunta ontológica esta, que encerra uma concepção essencial do ser. Boa. Heidegger diria ôntico. Ser ou não ser, eis a questão, de acordo com o Shakespeare. A cultura é muito bonita. A terminologia, idem. A conceptologia, aspas. Mau. Por que bulas isto está a ir por tal caminho? Que razão para tantas interrogações? Deixe-se o autor de modos amaneirados, salvo seja, e vamos ao que interessa.

A esperança é sentimento que não se deve deitar fora – quanto mais morrer. Bem vistas as coisas, esperar é confiar. Mas nem sempre a esperança é o que parece. Por exemplo, uma tia do escriba tinha o que então se chamava uma criada, de nome Esperança. A senhora Esperança. Mulher de força, apta para todo o serviço, simpaticíssima, uma mãos-de-fada em tudo o que bulia, da cozinha à costura.

Era casada com o senhor Alberto, pessoa de bem, um tudo nada atreito aos copos, mas nada que causasse grande preocupação, mesmo entornado continuava a ser bem educado, atenciosos e prestável. Trabalhava de electricista
em obras diversas, dava sempre um jeitinho no que fosse necessário, desde uns pingos de solda nos fundos das panelas, até ao uso da almotolia em dobradiças menos colaborantes. Um habilidoso. Nato, ainda que por aquelas alturas não se tratasse da OTAN.

Nascera, tal como se disse, para o desenrascanço. O que só lhe ficava bem e o tornava um digno representante da raça portuga, desenrascada como ela, só... ela. Tinham três filhas e cinco filhos. Outros tempos, outras práticas, televisão nem vê-la e rádio, ouvi-la de noite era incómodo, o pessoal deitava-se cedo, com as galinhas, ainda que esta qualificação deixe sempre uns certos engulhos, pois que as referidas aves de capoeira não se pronunciaram – ainda – sobre o tema.

A senhora Esperança, um dia, chegou-se à patroa e segredou-lhe que a Julinha, a mais velha do rancho, uma rapariga muito atinada, com os seus 19 aninhos, estava de esperanças. Ó mulher, retorquira-lhe a Dona Mafalda, muitos parabéns. Já não era sem tempo; um casal perfeito como é o vosso caso, mais dia menos dia teriam a benção dos netos. Deus Nosso Senhor, na sua infinita bondade, decidiu que assim fosse. Graças lhe sejam dadas.

Nada, nada, minha Senhora. A galdéria - atente-se na evolução semântica, antes fora donzela exemplar – nem sequer me tinha dito ter conversado, quanto mais pensar em casamento. É a vergonha que se abate sobre os Santos. Homessa, Esperança. Os santos não são para aqui metidos e, tal como o Pai do Céu, os nomes deles não devem ser invocados em vão. Além disso, que tem a ver a gravidez da sua filha Júlia com a corte celestial?

Saiba a minha Senhora, com mil perdões da minha parte, que está a fazer uma grande confusão. Quem, eu? Veja lá como fala, ó Esperança. Espero que se explique convenientemente e não diga asneiradas. Confusão? Eu? Desculpe-me Senhora Dona Mafalda, eu referia-me aos Santos que somos nós. Nós? Está taralhouca. O caso deu-lhe volta à cabeça.

Nós, os Santos, porra! O nosso apelido é Santos, e mil desculpas por ter dito o que não devia ter dito. Estava, assim, instalada a confusão mais enviesada. Santos de casa, é bem sabido, não fazem milagres, estes Santos muito menos, e a desgraçada da Julinha bem se podia ter dedicado a actividades mais meritórias, sabe-se lá, à Pia Conferência de São Vicente de Paula, ou a aprofundar os conhecimentos que tinha da História de Portugal, até fizera a admissão. Vinha, assim, à mente da boa Esperança o Cabo homónimo do Bartolomeu. Há dias – ou Dias – em que não se pode sair de casa, nem de caravela, quanto mais de nau.

Acalmados os ânimos da Senhora Dona, olhe Esperança, há que saber o nome do pai da criança, trata-se da boda, o Senhor Doutor e eu seremos os padrinhos da rapariga e a Leninha será a madrinha do rebento. Tudo se pode curar e resolver, menos a morte, livre-nos Deus, Nosso Senhor. Muito obrigada, minha Senhora, eu sabia que podia contar consigo, mas. Aqui não há lugar para mases, logo acrescentou dona Mafalda. Para a frente é que é o caminho.

Esperança, (para com os seus botões, naturalmente, já bastava de alarvices e não fosse o diabo tecê-las) e para trás mija a burra. Adiante. E o que vai dizer – agora, sim, em voz alta – o meu Alberto desta desgraça? Tão bom pai e igual como marido, nem quero pensar no que fará! Até pode pôr a desavergonhada fora de casa, expulsá-la, que é o que ela merece. E se lhe dá para lhe arraiar uma sova? Que ele, mesmo com uns copitos, não é para esses preparos, mas, vistas as coisas... E os irmãos?...

Tudo se havia de resolver pelo melhor. A Esperança não conta diz nada e diz-lhe que eu ela própria, quiçá mesmo o Senhor Doutor, lhe daremos uma palavrinha. Renasceu a esperança à Esperança. No entanto - mas a propósito de quê, minha Senhora? Pois, diga-lhe que se trata de assunto do vosso interesse e que crê ser uma surpresa. Será, minha Senhora, será, pode estar certa. E, agora, despegue as mãos do avental e vá-se ao arroz de pato. Com certeza, minha Senhora, no forno. Como? No forno? O arroz de pato, está bem de ver.

Resolveu-se o imbróglio à boa maneira lusitana. A Julinha ainda levou um par de lambadas, o Leonardo veio às boas (que filho da puta de nome de genro que lhe havia caído na rifa, Leôncio seria pior), o casamento decorreu nos Jerónimos, linda celebração, até o coro cantou coisas lindíssimas, a noiva de vestido de, branco, com cauda não muito alambazada, grinalda e ramo. Tudo nos conformes.

Mãe Esperança não disfarçou a felicidade. Era toda ela um sorriso. Da dentadura resplandecente, branco mais branco não havia, incluindo o do traje nupcial. E foi no decurso do copo-de-água, que o Guedes enfermeiro-chefe, padrinho do nubente, já tocadote tal como o amigo Alberto, se dirigiu aos padrinhos da Júlia, para lhes contar, perdoem-me Vocências o que se segue, uma estória de esperanças. Dona Mafalda olhou-o de lado. Mais esperanças?

A Esperança no singular bem tentou afastar o aspirante a contador. Nada feito. O homem tinha adquirido uma embalagem de tintos, brancos, uisques e correlativos que nem um aviso de radar o faria abrandar, quanto mais parar. O Senhor Doutor fingiu que não era nada com ele – mas era. E o Guedes, em aceleração constante, já longe da pole position, contou.

Uma solteirona moradora em monte alentejano descobriu que uma amiga ficara grávida só com uma oração que rezara na igreja de uma aldeia próxima. Ficou em ânsias. Se a Felismina engravidara apenas com a ajuda da reza, pois então ela faria o mesmo, na esperança do tiro e queda.

Dias depois, a que ficara para tia foi a essa igreja e disse ao sacerdote que ali exercia o seu munus eclesiástico: «Bom dia, senhor prior». «Bom dia, minha filha. Em que posso ajudá-la»? «Sabe, senhor padre, soube que uma amiga minha veio aqui e ficou grávida só com uma avé-maria». «Não, minha filha, foi com um padre nosso, mas, pelo sim, pelo não, já foi transferido»...




Tanto quanto consta, a anedota do enfermeiro-chefe teve um êxito assinalável. Até a Senhora Dona Mafalda se riu da graçola. O digníssimo esposo, também. Quem não apreciou por aí alem o episódio foi a Julinha. Isto de padre nossos e de espíritos santos tem que se lhe diga. Para ela, ao Leonardo ninguém levava a palma.



NE – Ora muito bem. Da Alice Vieira chegou-me mais uma estorinha curta mas escangalhante, aliás – tanto quanto me apercebi pela mensagem – originária sabe-se lá donde, mas proveniente directamente de um tal Ribeiro Cardoso, figura sinistra da nossa praça. Continuo no fio do plágio. Mas, penso que ainda não caí nele. Reincido: roupagem nova. Obrigado alicev. Obrigado Rc. Mandem mais, sil us plau (sff) em vernáculo català.

sábado, fevereiro 23, 2008


HISTÓRIAS DA PJ




Aconteceu

na Primavera marcelista

(1ª parte)


José Augusto Garcia Marques


***

Por vezes, nas “histórias da PJ” (de há quase 40 anos) que tenho vindo a contar, o mais importante pode não ser o esclarecimento do “mistério”, mas sim o conhecimento e a reflexão acerca de alguns episódios da história recente do País. Penso ser este o caso da narrativa que agora começo a apresentar.


***

Regressado a Portugal, depois de concluída a minha comissão de serviço no Comando Naval de Angola e de gozar alguns dias de férias, fui desmobilizado da Armada, tendo iniciado as minhas funções como Inspector da PJ, na então Subdirectoria de Lisboa, mais concretamente numa Secção competente para a investigação de homicídios e de ofensas corporais voluntárias.

Era Maio de 1969 e estava-se em plena “primavera marcelista”, designação dada ao período de abertura política e de aparente tentativa de democratização do regime, iniciado com a tomada de posse de Marcelo Caetano como Presidente do Conselho de Ministros, em 27 de Setembro de 1968, e que se prolongou até algum tempo depois das eleições de Novembro de 1969. A promessa de eleições livres, era, de resto, um objectivo essencial do novo Presidente do Conselho, sendo um sinal de liberalização política revelador de uma “ideologia” de modernização, ao mesmo tempo que se pretendia que os seus resultados pudessem constituir uma fonte de acrescida legitimidade de um poder que havia sido “negociado e conquistado na chancelaria”.


A população estava expectante e, em muitos sectores, reinava a esperança. A própria oposição moderada entendeu que devia dar ao governante recém-investido, que foi recebido com entusiasmo inesperado na visita que fez às possessões de África, o benefício da dúvida.

O novo governo ensaiava reformas e adoptava medidas que pudessem proporcionar um novo dinamismo e descomprimir o regime, ainda que sem provocar com isso mudanças de fundo. Estas foram, em muitos casos, de carácter essencialmente cosmético. A Censura foi substituída pelo Exame Prévio;
a PIDE seria substituída pela DGS (Direcção-Geral de Segurança); a UN (União Nacional) pela ANP (Acção Nacional Popular). Algumas medidas inesperadas, mas de natureza fundamentalmente simbólica, foram adoptadas por Marcelo Caetano nos primeiros meses do seu consulado. Foi o caso dos actos pacificadores em que se traduziram as autorizações que permitiram que Mário Soares e o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, regressassem do exílio.

Com estes gestos, Marcelo Caetano, um notável jurisconsulto e Professor de Direito, pretendia dar um sinal de conciliação à oposição moderada que, na sua perspectiva, poderia dar um contributo importante para a liberalização. Além disso, tentava mostrar, no interior e no estrangeiro, a sinceridade do regime em avançar com reformas de abertura e democratização. Por fim, visava tranquilizar as “oposições” que se preparavam para as eleições de 1969. Como já se disse, era fundamental, na óptica do regime marcelista, que “as diferentes oposições” se apresentassem – como efectivamente se apresentaram – às eleições.

Compreende-se que os sectores mais preocupados com a evolução de abertura política então em curso, fossem os grupos e figuras de extrema direita, os “duros” do salazarismo, receosos de que Marcelo Caetano pudesse, no limite, pôr em causa a própria “integridade do Ultramar”. Entre os “falcões” contava-se a Legião Portuguesa, instituição criada em Setembro de 1936, que, até Abril de 1974, quando foi finalmente dissolvida, constituiu a milícia oficial do Estado Novo.

A intenção do Governo consistia na realização de eleições livres – e o acto eleitoral de Novembro de 1969 foi, por certo, o mais livre da história do Estado Novo. Todavia, os cadernos eleitorais estavam longe de traduzir a verdade do eleitorado nacional. Afinal, apenas 10% da população constava dos cadernos eleitorais e, destes, segundo os resultados oficiais, 38,5% não terão ido às urnas.

Além da União Nacional – o partido político único do Estado Novo, mais tarde substituída pela Acção Nacional Popular -, apresentaram-se também às eleições, em Lisboa, no Porto e em Braga, a CEUD e a CDE, ambas de oposição ao regime. A primeira era tida como mais próxima do que veio a ser o Partido Socialista, ao passo que a segunda era considerada como tendo uma feição frentista, com elementos do Partido Comunista em posições de relevo, além de outras figuras de esquerda independente. Tal como os resultados eleitorais vieram a revelar, a CDE tinha, na altura, uma implantação superior à da CEUD.

Apesar das boas palavras (e, admito, das boas intenções do Presidente do Conselho de Ministros), o certo é que, no período pré-eleitoral, incidentes vários de natureza violenta começaram a multiplicar-se. Tratou-se de episódios de cariz criminal, uns mais espectaculares, outros, porém, de maior gravidade penal.


O mais falado foi o que ficou conhecido como o “assalto à sede da CDE”, situada ao Campo Pequeno. Tratava-se de um pequeno edifício na esquina da Avenida da República com o Campo Pequeno, entretanto demolido, onde hoje está instalado o Banco do Fomento Nacional.

Numa noite, um grupo de indivíduos, apoiantes radicais do regime, arrombou a porta do edifício, vencendo a resistência oferecida a partir do interior. Invadiram as instalações, que vandalizaram; injuriaram e agrediram alguns dos militantes que se encontravam na sede, arrancaram cartazes das paredes, rasgaram suportes de propaganda; embeberam em cola uma brocha de colar cartazes e, com ela, humilharam alguns dos presentes, besuntando os seus rostos e vestuário. Ao mesmo tempo, um outro grupo escalou o edifício, tendo, para o efeito, lançado uma escada até à varanda do primeiro andar.

Em face da gravidade política dos factos, praticados num momento em que, como se disse, era intenção visível do Governo dar uma imagem de normalização a caminho de uma via democrática, foram dadas instruções à PJ para investigar rapidamente o ocorrido, identificando os autores do assalto, afim de serem julgados.

O processo foi-me distribuído pessoalmente.

Rapidamente se apurou que os meliantes e rufias que se introduziram na sede da CDE pertenciam à Legião Portuguesa, instituição de extrema-direita, de apoio aos “ultras “afectos ao regime.

Dentro do edifício estavam pessoas conhecidas no panorama intelectual e cultural do País, a par de militantes anónimos. Lembro-me, entre outros, do Advogado Vítor Wengorovius e dos Professores Luís Filipe Lindley Cintra e Francisco Pereira de Moura. Deixou-me particularmente bem impressionado o depoimento do Prof. Cintra, pela objectividade da descrição dos factos e pelo rigor da própria linguagem, muito mais sereno e ponderado do que os de outros, que, pela sua exaltação ou evidente exagero, não mereciam o mesmo crédito.

Quase ao mesmo tempo, ocorreu um outro facto de graves contornos criminais. Um médico, o Dr. Rui Oliveira, que estava encarregado de distribuir material de propaganda política da CDE, foi sequestrado e levado à força para o quartel da Legião Portuguesa, no Largo do Rato, e aí mantido em cárcere privado e barbaramente agredido por legionários ali presentes. A sua libertação, ao fim de algumas horas, terá ficado a dever-se a diligências desenvolvidas por familiares, um dos quais Professor de Medicina, que terão informado as autoridades que, dentro do carro do médico, detido, estavam soros, em risco de se deteriorarem.

Feita a queixa-crime, foi-me a mesma também distribuída, dadas as conexões com o assalto à sede da CDE.

(continua)


























quinta-feira, fevereiro 21, 2008




GANDA LATA


Da bebida e da vida

Antunes Ferreira

Há-os de todas as qualidades e feitios, raças e cor da pele, idades as mais diversas. O que os une é o álcool. Diz-se até que bêbados unidos jamais serão vencidos, mas trata-se de aproveitamento ignóbil de palavra de ordem para um outro fim e com dimensão diferente. No entanto, há que o dizer, os ébrios também fazem parte do Povo. É tal a amplitude dos grupos em que se subdividem, que parece que está a caminho uma central sindical que os representará; agrupamentos são muitos, o reconhecimento em Diário da República é que é o busilis.


Esta croniqueta tem origem em anedota curta que o autor recebeu. Daí a advertência primária: a história vem do meu cunhadíssimo excelso Raul Palhau, grande remetente de mensagens, todas engraçadas, algumas íssimas... O culpado, ou seja, o gajo que a assina, apenas a embrulhou em papel multicor para tornar o rebuçado mais comestível. Não podia deixar de aqui colocar o prolegómenos, de outra sorte, quem sabe, cairia o anátema do plágio. E seria muito bem feito. Por isso, e de acordo com regra consuetudinária, o escriba jura pelo que quer que seja, que é a verdade, só a verdade e aos costumes diz nada.

Cautelosamente, não é em vão que se regista que, na dúvida, quer o arguido quer as testemunhas devem ser sempre ajuramentadas. E até os simples declarantes não escapam à determinação.
Salvaguardada deste modo a correcção dos factos, siga a banda em andamento de procissão, com anjinhos e andores, o Senhor Bispo sob o pálio e os dignatários de opas vermelhas, como é uso e costume.

Dito (escrito) isto, volte-se aos embriagados. Uns quantos profissionais dos copos, os mais calinos, consideram que bebem para esquecer. É afirmação cabotina que, quando questionada, tem igualmente resposta consentânea: esquecer de quê? Não me lembro. O esquecimento é a mãe de muitas batalhas cerebrais. Não de todas, sublinhe-se. Por este caminho ínvio não se vai a nenhuma parte. É rua sem saída, com o T sinalético bem visível.

Uma anotação. É esta a altura para se exarar que, também neste particular, os homens e as mulheres têm os mesmos direitos e os mesmíssimos deveres. Se calhar, poderiam os hipotéticos leitores estar pensando que só os sujeitos masculinos se podiam embebedar. Pensamento espúrio, há que dizê-lo. Há notícias de grandes borrachas,
e até fotos das consequências que por vezes resultam. Agradáveis, algumas, diga-se em abono da verdade e sem sombra de machismo.

Os militantes da bebida não usam cartão identificador, nem clubístico, nem partidário, nem de organização mais ou menos secreta. É óbvio que são portadores de BI, de Cartão das Finanças com o Número Fiscal do Contribuinte, de documentos similares no que respeita à Segurança Social, às Eleições e por aí adiante. Um bebedor praticante que se preze não é um indocumentado. Longe disso. Chega a ter carta de condução. Apesar da recomendação que o alerta: se beber, não conduza; se conduzir, não beba. O tanas!

Os especialista consomem produtos os mais diversos e devidamente seleccionados. Desde a bagaceira devidamente engarrafada e fora do frigorífico, que a ASAE é vigilante atenta e cuidadosa, até ao Veuve Clicot, há uma infinidade de rótulos, de design de garrafas, de materiais continentes – vidro, plástico, tetra pak - de tipos de álcool, de rolhas de cortiça e, até, de plástico, de tampas de enroscar, sabe-se lá de mais o quê.

As regiões demarcadas são, igualmente, terrenos para os que se sabem (ou julgam que sabem) embriagar. Nestas coisas, o saber não ocupa lugar, diz o Povo, carregadinho de razão. Apanhar uma narça alentejana é bem diferente de apanhar uma cadela do Douro. Engorgitar JW rótulo vermelho é absolutamente distinto de engolir Four Roses. Ter maneiras, neste particular, é cartão de visita que identifica quem atesta o seu próprio depósito.

Claro que existem os generalistas e outrossim os básicos, entre eles os que ainda pedem nas tabernas que resistem denodadamente às directivas comunitárias o clássico copo de três, escorrido de torneira de barril, um tanto à socapa. Entre eles, avultam os que, questionados sobre se preferem tinto ou branco, sempre respondem convictamente – muito! Calino, mas verdadeiro, e ponto.

Por vezes, bastas vezes, são os titulares da carraspana global, quer dizer, álcool das mais diversas proveniências, melhores ou piores, mas sem pedigri, até sem rótulo, que se confessa ser o melhor.
É o modelo do tudo-ao-molho-e-fé-em-Baco. A grande mistura é quem mais ordena. Bagaço, verde, geropiga, brande, carrascão, medronho, ginjinha, agua-pé, uma infinidade de sabores, de cheiros e de cores, em coqueteis de ocasião – seguem garganta abaixo.

Seria quiçá agora o momento de alardear conhecimentos, falar de escanções, de pesa-sais, de taninos, de decantação, de pesa-espíritos, numa panóplia cuja amplitude é desmesurada. No entanto, não passaria de alarvidade fazê-lo. Arrotar postas de pescada – para quê? Para tanto existem os manuais vinícolas, as revistas especializadas, as provas de bochecho. Ala, que se faz tarde.

Serafim Carrapato era o que se pode chamar um bom copo. Ou, melhor, um não, muitos. Visitante voluntário e obrigatório de todas as capelinhas locais, estendia as incursões a outras latitudes, ainda que próximas. De uma visita transfronteiriça a Mérida, a Badajoz já fora por via dos caramelos, trouxera um azulejo a que achara muita piada e que tinha agora pendurado na sala de jantar. Os amigos das bóbidas compraziam-se em admirar o exemplar que ele dizia ser único. Mentia com quantos dentes tinha na boca.

Rezava assim o exemplar: ESCALA DE LA BORRACHERA – Facilidad de palabra; Exaltación de la amistad; Cantos regionales; Tuteo a la autoridad; Insultos al clero e, a finalizar, Delirium tremens. Carrapato, quando entornava púcaros em número industrial, parava sempre que se sentia avizinhar do tremens. Nos restantes estágios navegava à bolina, sem sobressaltos nem enjôos.

Não tinha mau vinho, bem pelo contrário. Afirmava com orgulho que era bêbado mas educado, bem comportado em procedimento. Virava-se para o lado, e ressonava como um justo, que, de resto, era. Brigas, palavrões, ameaças não eram com ele. Tinha um lema um tanto sebastiânico, mas seu: beber, sim; mas de vagar. Um bacano.

Já o Sol se pusera quando – convenientemente enfrascado – Serafim passou em frente de uma porta aberta em edifício claro. A curiosidade alcoólica levou-o a entrar. Havia gente em pé, outra sentada e muitos cochichavam numa surdina de poucos decibéis. Sentou-se, sem pedir autorização, aliás não saberia a quem, tudo e todos lhe eram estranhos.


N
isto, começou uma música. Levantou-se, cambaleando, e dirigiu-se a uma senhora de preto a quem pediu: «Hic... a Madama, dá-me o prazer desta, hic..., dança»? E ouviu a seguinte resposta: «Não, e por quatro motivos». «Homessa, hic..., poderá a Madama dizer-me por obstáculo, hic..., obséquio, quais são eles»? E a voz que lhe começara a responder prosseguiu: «Primeiro, o senhor está bêbado; Segundo, isto não é um baile, é um velório; Terceiro, mesmo que o fosse, não se dança o Pai Nosso. E quarto, porque 'Madame' é a puta que o pariu! Eu sou o padre»!!!

segunda-feira, fevereiro 11, 2008



Rosa Mota entusiasmou Goa

+ O Estado pretende organizar os Jogos da Lusofonia em 2013



A campeã olímpica portuguesa Rosa Mota esteve em destaque num encontro com cerca de dois mil alunos do Don Bosco College, de Goa, onde foi recebida entusiasticamente e respondeu, em inglês, a dezenas de perguntas do auditório. Dias depois, Rosinha participou numa corrida popular com centenas de pessoas, incluindo muitos jovens, com ampla cobertura de televisões e outros meios de comunicação da Índia.
Os Serviços de Comunicação do Comité Olímpico de Portugal, COP, divulgaram informações sobre o verdadeiro acontecimento que naquele Estado se verificou. Registo aqui, em súmula, passos dos textos produzidos.


A comitiva portuguesa liderada pelo Presidente do COP, Vicente Moura, de que faziam também parte o Presidente e o Vice-reitor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Jorge Olímpio Bento e Jorge Manuel Gonçalves, teve uma recepção emocionante por parte do responsável pela província da Ordem em Goa, Padre Loddy Pires, e pela Directora de Desportos do Estado, Susana de Sousa.
Vicente Moura, na altura, confessou-se «emocionado pela forma como Rosa Mota representou o Desporto nacional» no encontro com a juventude goesa. «Ela foi recebida em Goa com muito carinho, que chega a emocioná-la, mas é com orgulho que testemunho que tem estado mais uma vez à altura de uma grande campeã olímpica», comentou.



Antes de um jantar oferecido pelo líder parlamentar do Estado de Goa, Pratapsing Raoji Rane (*), a comitiva portuguesa foi recebida oficialmente pelo Ministro Chefe de Goa, autoridade máxima do território, na presença do secretário de Estado do Desporto e de dirigentes da Associação Olímpica de Goa e pelo Centro Internacional de Desportos. Na ocasião, o Chefe do Executivo, Digambar Kamat, anunciou a intenção de Goa se candidatar à terceira edição dos Jogos da Lusofonia, em 2013.


A delegação portuguesa assinou um protocolo conjunto de cooperação com o Don Bosco College of Physical Education, de Panjim, Goa. Esta faculdade, pertencente à Sociedade Salesiana local, dirige, por atribuição da Universidade de Goa, o único curso superior de Educação Física no estado, tendo graduado 115 formandos desde a criação em 2004, mas pretendeu com o protocolo desenvolver e melhorar as competências do curso.


Não se quedaria por aí a intervenção da grande campeã portuguesa. Rosa Mota viveu mais uma experiência inesquecível em Goa, ao participar numa corrida popular com centenas de pessoas, incluindo muitos jovens, e com ampla cobertura de televisões e outros meios de comunicação da Índia. Muitos portugueses residentes ou ali em turismo também presenciaram a «Corrida Rosa Mota», cujo tiro de partida foi dado pelo Ministro da área do Desporto do Estado de Goa.

Ainda de acordo com os S.I do COP, a meta estava instalada junto às instalações da Direcção do Desporto, onde decorreu uma homenagem pública a Rosa Mota e aos restantes membros da comitiva portuguesa, A corrida foi organizada pela Directora dos Desportos e da Juventude, no âmbito do protocolo entre o Don Bosco e a Universidade do Porto, e apoiado pelo COP. Ao englobar esta Missão, a campeã olímpica Rosa Mota deu um grande contributo para a promoção da Lusofonia em Goa e para a divulgação dos segundos Jogos a realizar em Lisboa em 2009.


Este texto foi-me dado a conhecer pelo meu bom Amigo Nuno Cabrita, com quem tive o verdadeiro prazer de trabalhar na Comissão Euro, aquando da preparação do nosso País para a entrada na moeda única.


Maratona do coração


Na minha qualidade de «mais goês do que os goeses», posso imaginar o que terá sido a permanência da nossa Rosinha em Goa. Com a dor de alma de quem não pôde estar lá, é certo. Mas, não se pode ter tudo. Não me consolo com a asserção, mas é o que se pode arranjar…
Sou da opinião de que as relações entre Portugal e a Índia serão sempre muito mais amplas quando ambos os países utilizarem os meios e as vias de que dispõem. E a capital do subcontinente é Nova Deli, não é Panjim. No entanto, esta proximidade de alma, de cultura e de convivência multissecular entre os dois povos pode ser, é, forçosamente, uma componente que não se deve ignorar, sequer subestimar.
Ainda há escassos dias, a comunicação social se fez eco de um acordo entre a Efacec e um grupo industrial indiano muitíssimo importante. As consequências que daí advenham serão, por certo, muito significativas. As visitas recíprocas de responsáveis políticos aos dois países têm sido alavancas para incrementar uma colaboração que se deseja cada vez mais intensa. E o facto de muitos empresários de peso integrarem as respectivas comitivas é a parte mais substancial disso.
No entanto, seria estulto pensar que Goa não ficou nos corações de muitos e muitos Portugueses que por ela passaram, nela viveram, ali constituíram família, ali se radicaram ao longo de cinco séculos. Ficou. Ficou, sem lamechas, sem saudosismos espúrios, muito menos neocolonialismos impensáveis. E igualmente nos dos que hoje a conhecem como viajantes, turistas de máquina digital em punho, e que se maravilham quando ainda gente da terra se lhes dirige em… Português.

Nas estradas de Goa, uma multinacional cervejeira a implantar-se ali, usou o desporto na sua publicidade e plantou cartazes publicitários em que a figura primeira e destacada é o luso Cristiano Ronaldo. Tirei fotos para recordar o facto, já que não é necessário justificar nada. O nosso Ronaldo é ele em qualquer sítio do Mundo. Em Goa, também. Os ganapos adoram-no e as jovens também... Mas vê-lo ali, no meio das várzeas de arroz, tendo por pano de fundo a lindíssima floresta goesa, dá uma alegria inquantificável. A mim, pelo menos, deu.
Já compreendem que me tenha entusiasmado tanto com a Rosa Mota a representar Portugal por aquelas bandas. Foi mais uma maratona conquistada pela nossa campeã. E por Portugal.
A.F.

(*) Entrevistei-o para o Diário de Notícias, nos anos 80, era então Chief Minister.