sexta-feira, julho 13, 2007




À RODA DOS DIAS

Julho

Maria Lúcia Garcia Marques

Que supersticioso e mágico nos saiu este mês de Julho!

Uma 6ª feira 13 (dia de todos os perigos)
e, sobretudo, um 7 do 7 de 2007 que, em rima absoluta, inflama, nesta sua conjunção, os espíritos mais crédulos. E foi um corre-corre de casamentos e festas de aniversário – não contando os felizes acasos de alguns nascimentos – acontecimentos que, pela sua natureza própria, são altamente mobilizadores dos bons auspícios. É que sete invade a vida; vai da conta dos dias aos contos de fadas: sete são os dias da semana, as cores do arco-íris, as notas da gama diatónica ..., os anõezinhos da Branca de Neve, Polegarzinho e os seus irmãos ...

De facto e definitivamente o 7 é supersimbólico. A merecer uma consulta ao Dicionário dos Símbolos que nos lembra, a propósito: “Cada período lunar dura sete dias e os quatro períodos do ciclo lunar (7x4) fecham o ciclo. Por outro lado, a soma dos sete primeiros números (1+2+3+4+5+6+7) chega ao mesmo total: 28. Sete indica, por isso, o sentido de uma mudança depois de um ciclo concluído e de uma renovação positiva”.

Visto de outra perspectiva temos que “tendo criado o Mundo em seis dias, Deus descansou no sétimo e fez dele um dia santo: o sabbat – que não é verdadeiramente um descanso desligado da Criação mas o seu coroamento, a sua conclusão na perfeição. Este sétimo dia em que Deus descansou significa como que a restauração das forças divinas na contemplação da obra concluída, e marca um pacto entre Deus e o Homem”, entre o Criador e a sua Criatura. O sete simboliza assim a conclusão do Mundo e a plenitude dos tempos. São também sete as virtudes: as três teologais – Fé, Esperança, Caridade – e as quatro cardeais – Prudência, Temperança, Justiça e Força.

E acrescentam as minhas leituras: “No Islão, o sete é igualmente um número auspicioso, símbolo de perfeição: sete céus, sete terras, sete mares, sete divisões do Inferno, sete portas. Os sete versículos da Fatiha (surata que abre o Corão), as sete letras não utilizadas do alfabeto árabe que “caíram debaixo da mesa”, as sete palavras que compõem a profissão de fé muçulmana, a Shahada, etc. Durante a peregrinação a Meca deve-se dar sete voltas à Caaba
e fazer sete vezes o percurso entre os montes Cafa e Marnia”.

Também em África, o sete é o símbolo da unidade e da perfeição; “soma o “4”, símbolo da feminilidade e o “3”, símbolo da masculinidade, pelo que representa a perfeição humana – é o sinal do homem completo (com os seus dois princípios espirituais de sexo diferente), do mundo completo, da criação terminada, do crescimento da natureza. É, ainda, a expressão da Palavra Perfeita e, por isso, da unidade original”.

Se acreditarmos no Talmude, os hebreus viam também no número sete o símbolo da totalidade humana, masculino e feminino ao mesmo tempo; e isso pela soma de “4” e “3”: com efeito, Adão, nas horas do seu primeiro dia, recebe a alma que lhe dá existência completa na hora quarta e é na hora sétima que ele recebe a sua companheira, isto é, que ele se desdobra em Adão e Eva. Aliás, toda a Bíblia está repleta da simbologia do “sete” que a tradição judaica ainda preserva. Lembremos como exemplo o candelabro dos sete braços ...

E creio que tem também a ver com esta tradição um facto curioso acontecido comigo. Foi assim: herdeira de uma velha casa na aldeia de meus sogros e pai, na Beira Alta, decidi recuperá-la, conservando-lhe as características e restituindo-lhe a visibilidade dos materiais típicos da zona. Nessa intenção, mandei retirar o reboco caiado, tratar adequadamente a pedra agora posta a descoberto e picar o granito dos cunhais e molduras de portas e janelas “criminosamente” pintadas de cinzento.

A casa é tipicamente beirã: lojas em baixo com duas grandes portas térreas, habitação no andar superior a que se acede por uma porta ao nível das lojas, ladeada à esquerda por um pequeno óculo. Construção modesta, possui, no entanto, numa janela do 1º andar e numa das portas das lojas, um trabalho de cantaria na moldura superior: arco de quilha quebrada na janela, ornamento gótico do meias bolas na porta da loja. Ao observar este último, alguém comentou: “É engraçado, só tem cinco meias bolas ...! Se fosse casa de judeu teria sete”. Fiquei alerta.

Estávamos numa aldeia em pleno perímetro dos judeus fugidos à perseguição dos tempos de D. Manuel I (entre Belmonte e Escalhão) e, olhando bem, além das características gerais da casa – as lojas e o janelo junto à porta, que permitia ver quem batia antes de se lhe franquear a entrada – que indiciavam ter ela pertencido a um comerciante (e os judeus eram-no preferencialmente), divisava-se um remate assimétrico nas ombreiras da porta ornada com as referidas meias bolas. Do lado direito o sulco do remate inferior do friso formava um ângulo recto perfeitamente visível, enquanto que do lado esquerdo desaparecia subitamente sob uma espessa camada de argamassa pintada de cinzento.

Recomendei então ao artista que iria picar o granito das ombreiras que o fizesse com o máximo cuidado pois o friso poderia não acabar ali. E, de facto, três dias depois, estavam a descoberto mais duas meias bolas, o remate adequado do friso com o sulco em ângulo recto descendente e uma falsa segunda ombreira colocada ao lado da primitiva estreitando a porta e rebocada de forma a apagar os relevos denunciadores. Eram sete as meias bolas e estávamos de facto perante uma casa de antigos judeus.

Lançada, porém, no afã de lhe desvendar mais história, esquadrinhei cantos e recantos, lajes e cantarias e acabei por descobrir, meio apagada e toscamente gravada no granito da ombreira esquerda da porta de entrada, à altura média dos olhos de qualquer visitante, uma cruz – envergonhada, reticente ou arrependida, quem sabe? – ténue e sofrida protecção de quem morava lá dentro e a custo sobrevivia a zelos fundamentalistas. Mandei também avivá-la na pedra, feliz por, na minha casa e na minha terra, hoje um símbolo de fé já não excluir o outro.

terça-feira, julho 03, 2007




Clima económico em Portugal
atinge máximo de cinco anos

em Junho


Maria João Soares
mjsoares@mediafin.pt
O
indicador de clima económico em Portugal apresentou em Junho a quinta melhoria consecutiva, prolongando a tendência ascendente iniciada em Outubro de 2005 e atingindo o máximo desde Junho de 2002, divulgou o Instituto Nacional de Estatística (INE).
O indicador de clima económico subiu para 1,4 pontos em Junho, contra 1,2 em Maio, apresentando o quinto aumento consecutivo.

O indicador de confiança dos Consumidores melhorou ligeiramente em Junho, tal como já acontecera no mês anterior, evolução que interrompera a tendência descendente iniciada em Novembro.

"As perspectivas sobre a situação económica do país foram a componente do indicador que apresentou a maior recuperação, à semelhança do sucedido nos dois meses anteriores", revela o INE.

A confiança das empresas melhorou no sector da Construção, estabilizou na indústria transformadora e deteriorou-se ligeiramente nos serviços e no comércio.


NETranscrevo, muito simplesmente, o texto da jornalista Maria João Soares, do Jornal de Negócios. Não são precisos quaisquer considerandos, muito menos adjectivos qualificativos (se calhar já não é assim que se diz…, mas foi assim que aprendi com a Dona Clélia Marques, minha Professora da Instrução Primária… que também já não se diz). Agradecendo à jornalista, ao DE e, uma vez mais, ao seu Director e bom Amigo, Pedro S. Guerreiro, aqui fica o artigo. A.F.

domingo, julho 01, 2007



Joaquim Barradas de Carvalho

Um lutador pela Liberdade

«Meu caro Antunes Ferreira,

Por mero acaso, encontrei no teu blogue (que não conhecia) uma referência à minha pessoa. Agradeço a referência, mas sou obrigado a fazer uma correcção: o meu pai foi o Joaquim Barradas de Carvalho, historiador, exilado político em Paris e em São Paulo, e não o Rómulo de Carvalho.
E como andas?
Um grande abraço
Alberto Arons de Carvalho»


Engano lamentável
Hoje mesmo, acabo de receber uma mensagem do meu bom Amigo e camarada (creio que ainda se pode dizer assim… Eu, pelo menos, digo. E tenho a certeza que ele também) Alberto Arons de Carvalho*. Publico-a acima, pois o erro que cometi é lamentável e o esclarecimento do Alberto é mais do que justificado. Como quase sempre, ele tem razão. Não posso, entretanto, deixar de lhe pedir aqui as minhas desculpas por esta falta imperdoável. Não podia confundir as duas pessoas – mas fi-lo. A César o que é de César.

Permito-me fazer notar a forma directa, mas educada e sincera como o Arons se me dirige. Ele não é – como nunca foi nem será – de farroncas ou de arrogâncias. Muito pelo contrário. Podia censurar-me (e com toda a razão, porque não se deve esperar uma falha destas de um amigo de muitos anos) mas, não o fez. Limita-se, apenas, a corrigir o erro. Simplesmente, com objectividade.

Tenho a maior honra e satisfação de aqui exarar que conheci o Alberto Arons de Carvalho nas fileiras do PS, logo a seguir ao 25 de Abril libertador. Ele era, nessa altura, um jovem porreiríssimo e empenhadíssimo, secretário-geral da Juventude Socialista, a JS. Não haja dúvidas: um digno herdeiro de seu Pai, o Professor Joaquim Barradas de Carvalho, um lutador pela Liberdade e pela Democracia. À sua maneira, à maneira do comunista que era, mas de mentalidade aberta e, portanto, vistas largas. E que por isso sofreu nos tempos da ditadura personificada na salazarenta personagem.

Confundi-lo com Rómulo de Carvalho/António Gedeão não lembra ao diabo – mas lembrou-me; a mim!!! Até porque tive o privilégio de ter conhecido o historiador Barradas de Carvalho pessoalmente. Que tendência para a asneira, confesso. Daí esta correcção, este repor da verdade que atropelei incompreensivelmente. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. E dispenso-me de acentuar que bato no peito, mas devagarinho, porque posso fazer-me doer as duas costelas que in illo tempore a PIDE me partiu.

Um apelo final. Meu caro Alberto: já que descobriste (ainda que por mero acaso) este blogue – não quererás, de quando em vez, colaborar nele? Ficaria eu e ficariam os já bastantes leitores que ele tem, muito satisfeitos. Vá lá, camarada: um pequeno esforço e responderás antecipadamente, tu próprio, à pergunta que me fazes com a Amizade de sempre. Ando bem, ando reformado, escrevo como sempre fiz e tudo isso se sublimará com a tua colaboração. Se te for possível e se o quiseres.

Um abração do

Henrique Antunes Ferreira



* O Alberto Arons de Carvalho é um Homem multifacetado. Licenciado em Direito, já foi Jornalista e membro do Conselho de Imprensa, secretário de Estado para a Comunicação Social e muitas outras ocupações. Autor de várias obras sobre a Comunicação Social, o que já fazia nos tempos da Outra Senhora. Entre os seus diversos livros, tenho uma especial predilecção pelo 2Direito da Comunicação Social", para mim uma referência incontornável. Hoje é deputado por Setúbal à Assembleia da República e professor da Universidade Nova.


HISTÓRIAS DA PJ


A morte do cauteleiro

José Augusto Garcia Marques
Eram aproximadamente duas da manhã de uma noite abafada do mês de Junho de 1969 quando fui acordado pelo chefe de piquete da PJ. Tinha sido encontrado um corpo sem vida, num descampado para os lados do Lumiar. Combinámos que uma viatura com dois agentes das secções de homicídios e um técnico do laboratório viria buscar-me a casa. Chegados ao local – ermo e sem iluminação -, dirigimo-nos a dois guardas da PSP que, munidos de uma lanterna, estavam postados junto de uma pequena elevação do terreno.

Perto deles encontrava-se o corpo de um homem magro, de cinquenta e tal anos, deitado de barriga para baixo, tendo ao lado uma tesoura comprida e pontiaguda, manchada de sangue. Tinha uma ferida profunda no pescoço e uma poça de sangue ao lado da cabeça, que se misturava com vomitado com forte cheiro a vinho. O corpo encontrava-se estendido numa rampa de terra batida, havendo, porém, no terreno seco e duro, sinais de calçado de diversas origens, rastos com diferente definição, mais claros uns, outros mais indefinidos e alongados.

Nos bolsos das calças do morto havia algumas notas de 20, 50 e 100 escudos, além de um porta-moedas com algum recheio. Por sua vez, no bolso da camisa, algumas “cautelas da Santa Casa” denunciavam a actividade da vítima: tratava-se de um vendedor de lotaria. Além destas peças de roupa, o homem vestia ainda, apesar do tempo quente, um casaco leve e muito gasto. Não trazia qualquer documento. Feitas as recolhas de vestígios e as fotografias da praxe, o corpo foi removido para o Instituto de Medicina Legal.

Um dos agentes da PSP, melhor conhecedor do local, deu-nos conta da existência de uma taberna nas imediações. Apesar da hora tardia - ou matutina, dependendo dos pontos de vista -, fomos ainda bater à porta, tendo sido atendidos pelo patrão que vivia ao lado do estabelecimento e que, mal encarado, tinha vindo informar-se do que se passava.

Cheirar o ambiente

Perguntámos-lhe a que horas tinha fechado na noite anterior e se lá tinha estado um cliente, vendedor de lotaria, com sinalética correspondente à da vítima. Foi altura de o homem perguntar: “Quem? O Ti Jerónimo?” E logo informou: “Chegou tarde, comeu pouco mas bebeu mais do que de costume. Tive que o pôr na rua, porque estava implicativo por causa dos copos e eu queria fechar”.

Recolhemos a identificação do nosso interlocutor – Raul (nome fictício) - e, depois de explicarmos o que nos levava ali, informámo-lo de que voltaríamos no dia seguinte à hora de almoço, a de maior movimento do estabelecimento. Ainda protestou, alegando que era a pior altura para nos prestar atenção. Interessava-nos, porém, respirar a atmosfera, cheirar o ambiente e conhecer alguma da clientela habitual.

No dia seguinte, de manhã, com mais tempo, voltámos ao local. O terreno foi minuciosamente analisado, recolhendo-se indícios que depois seriam cotejados com os resultados médico-forenses e de polícia científica. Na taberna, à hora do almoço, encontrámos o Raul, acompanhado pela mulher e mais meia dúzia de fregueses. O assunto da conversa era, como não podia deixar de ser, a morte do “tio Jerónimo”. Dos elementos recolhidos pudemos traçar-lhe o retrato. Era um homem solitário e estimado, não lhe sendo conhecidos inimigos. Vivia numa barraca próxima, para onde se devia dirigir quando a morte o ceifou.

Procurámos saber se, na noite da véspera, o “tio Jerónimo” tinha tido alguma discussão com alguém. Reparámos com estranheza que a mulher olhou para o marido, ao mesmo tempo que um e outro baixavam o tom da voz, evitando responder directamente à pergunta. Limitaram-se a dizer que o Jerónimo estava quezilento e mais nervoso do que era costume.

Insistimos. Pedimos à patroa que nos levasse à cozinha e aí, fora do olhar dos fregueses, confirmou-nos que o Jerónimo tinha discutido longamente com um vendedor ambulante que, de longe em longe, parava por aqueles sítios. Gaspar de seu nome. A desavença incidira em redor de uma tesoura para cortar a lotaria, que o outro lhe tinha vendido tempos atrás. Queixava-se de que tinha sido enganado e que a tesoura se tinha estragado ao fim de pouco tempo. A desavença subiu de tom, tendo levado o patrão a zangar-se com os dois. Todavia, como tudo continuasse na mesma, resolveu pô-los na rua, tendo fechado a porta da taberna pouco antes da meia-noite. Mais nos disse que tinham sido os últimos clientes a abandonar o estabelecimento, tendo saído juntos e prosseguido a discussão no exterior até que deixou de lhes ouvir as vozes.

O “Paga-Pouco”

Perguntámos à nossa interlocutora como era a tesoura do “tio Jerónimo”, tendo-nos dito que era relativamente curta e romba na extremidade, ou seja, um objecto muito diferente do que encontrámos junto ao corpo – uma tesoura comprida e com as lâminas afiadas. Confirmámos esta informação junto de alguns clientes, que identificámos. As coisas pareciam, assim, apontar para um suspeito: o referido vendedor ambulante, mais conhecido como o “Paga-Pouco”. O mistério foi esclarecido no dia seguinte.

Localizado o Gaspar, confirmou-nos a discussão com o Jerónimo, que se queixara asperamente de uma deficiência no parafuso que devia permitir a junção das lâminas da tesoura que lhe tinha vendido em tempos. Para não o ouvir mais, propôs-se o “Paga-Pouco” emprestar-lhe uma tesoura nova – longa e muito afiada -, que o Jerónimo utilizaria, enquanto ele, antigo amolador de tesouras, procedia ao arranjo da velha. E assim foi. Deslocou-se, com o vendedor de lotaria, à sua “carripana” onde escolheram a tesoura nova que o Jerónimo guardou. Segundo disse na PJ, o Gaspar ainda teria prevenido o Jerónimo, dado o estado em que o viu, quanto aos cuidados a ter com um objecto perigoso a que não estava habituado. Ter-se-iam despedido cordialmente. Pedimos ao vendedor ambulante que nos exibisse a tesoura romba do falecido, o que ele fez sem demora, tendo o objecto ficado apreendido junto aos autos.


A importante Medicina Legal

O depoimento do “Paga-Pouco” pareceu convincente, tendo sido confirmado por uma testemunha merecedora de crédito. O mistério continuava por resolver. Foi aí que entrou a sempre competente intervenção do Mestre da Medicina Legal de Lisboa, o Professor Arsénio Nunes, amigo e precioso auxiliar dos investigadores da PJ: estava-se claramente na presença de um acidente e não de um homicídio. O falecido, talvez em consequência dos “copos” escorregara ao subir a rampa de terra dura e batida, tendo feito um movimento amplo com os braços em rotação para trás, para tentar manter-se em pé. Trazia a tesoura, que o “Paga-Pouco” lhe emprestara, no bolso de cima do casaco, do lado esquerdo. Ao fazer o referido movimento, empurrara a tesoura, comprida e pontiaguda, há minutos na sua posse, que fora espetar-se-lhe no pescoço perfurando a carótida, tendo provocado a hemorragia que lhe causou a morte.

O Professor Arsénio Nunes deu-se ao trabalho de fazer uma simulação com um manequim, tendo exemplificado o movimento que esteve na origem da morte do infeliz. Se conto este episódio, isso deve-se à circunstância de pretender prestar uma sincera homenagem a esta especialidade da Medicina – a Medicina Legal -, que é, por definição, área privilegiada de confluência da Medicina e do Direito. Por ela passam e nela se debatem temas e questões da mais transcendente importância para o homem, não só enquanto vítima ou autor de factos criminosos, mas também enquanto profissional daquelas ciências. No dia a dia das respectivas existências, Medicina e Direito cruzam-se e amparam-se nas suas respectivas competências, para melhor conhecer, defender e fazer respeitar o Homem integral, na intangibilidade dos seus direitos e na integridade da sua pessoa física e moral.

A Polícia Judiciária e a Medicina Legal devem caminhar, assim, irmanadas e sem desfalecimento na senda que possa conduzir à descoberta da Verdade e à realização da Justiça.

terça-feira, junho 12, 2007







Afinal havia outra


Pedro S. Guerreiro*
O
dogma da Ota caiu. O país saúda, porque sente que a escolha será mais acertada e porque se desvanece a imagem de teimosia do primeiro-ministro. Mas não é certo que Portugal tenha ficado a ganhar. Sobretudo se, como parece possível, é preciso que tudo mude para que tudo possa ficar na mesma.

A Ota tornou-se o tema forte da Oposição, uma repetitiva aliteração no seu discurso: a bota não bate com a perdigota; a anedota do deserto deu risota e foi a gota que faltava; até a Jota que ainda não vota pôs um camelo e uma gaivota a fazer chacota. E um estudo que se desencaixota o ministro boicota, o plano sabota e esgota uma rota em troca de uma derrota. Em vez de Ota! Ota! Ota!, agora é Alcochete que brota.

Pois é. Só que o assunto é mais sério do que todos os trocadilhos e do que a utilização política com que a Oposição reclama vitória. O Governo recuou. Mas recuou para quê? Para admitir mudar de opinião ou para saber desde o início que vai mantê-la livrando-se da pressão e da acusação de autismo?

O que mudou para que de uma semana para a outra o ministro que dissera que "a Ota é irreversível" reabra o processo? Que quem disse que a sul do Tejo "jamais" agora mande estudar Alcochete (que até está habituada a grandes especulações imobiliárias)?

Que quem tenha dito que ninguém consulta um engenheiro para saber onde se localiza um aeroporto agora entregue o dossier aos técnicos do LNEC? Que o Governo cujo primeiro-ministro dissera que parar para estudar seria um erro o faça agora? Que se adie a privatização da Ana? A Naer ainda pensa que estudar outras paragens "é um erro brutal"?

E os fundos comunitários, sempre ficam comprometidos, como se argumentava? E o que mudou para que as questões ambientais (aves que chocam com aviões, sobreiros a arrancar, aquífero a preservar) que eliminavam as hipóteses a Sul do Tejo percam a sua "condição mortal"? Mudou a pressão do Presidente da República. Foi Cavaco Silva quem viabilizou o fim do dogma. É ele quem gere sabiamente a relação com o Governo mas não se resigna e faz um discurso no 10 de Junho que de inócuo e irrelevante tem pouco.

Mas é inútil arremeter para o rol de derrotados José Sócrates e Mário Lino, colocando no pódio do dia Cavaco Silva, Marques Mendes, o bastonário Fernando Santo ou Francisco van Zeller, um evidente "cavaleiro branco" de lóbis que prefere não identificar (mas que a CIP não subscreve nem paga) porque, diz, assumiu esse compromisso com o primeiro-ministro.

O que interessa é se isto é ou não melhor para o País. Ninguém duvida que estudos nunca são demais. Nem que a ilusão dos consensos eterniza as não-decisões. E o pior de todos os cenários é o da não construção do novo aeroporto. Os estudos do aeroporto são uma boa notícia para o País. Mas podem ser uma vitória de Pirro. Porque ou tudo o que se disse nos últimos meses era mentira, ou este adiamento só serve para esvaziar um balão político que se encheu. Em qualquer dos casos, não é apenas um ministro que fica mal na fotografia.

(*Director do Jornal de Negócios)

NE - Cá temos o Pedro S. Guerreiro, de novo. O Editorial é de hoje, 12 de Junho. Creio que basta para que os leitores deste blogue vejam o que é escrever a sério sobre um tema tão quente como é o novo aeroporto de que Lisboa precisa como de pão para a boca. O texto assinado pelo Director do Jornal Económico diz quase tudo. Claro que muita água passará ainda sob as pontes. Mas, o enunciado é estupendo.

Amigos e Leitores: Para alem dos comentários que aqui queiram deixar, poderão escrever directamente para o Pedro Guerreiro, cujo endereço é psg@mediafin.pt, que, de resto, vem no quotidiano. Comentários são bem vindos, como sempre. Mas creio que o jornalista gostará de ter a vossa opinião. E, entretanto, leiam o Jornal de Negócios on line. A.F.

domingo, junho 10, 2007



Uma forma de comemorar o 10 de Junho
Ruy Barbosa e a nossa língua

D
iz a lenda que Ruy Barbosa, ao chegar em casa um certo dia, ouviu um
barulho estranho vindo do seu quintal.

Chegando lá, constatou um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:

"Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes
palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da
minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes
isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada
prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala
fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te
reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada."

E o ladrão, confuso, diz:

"Dotô, eu levo ou deixo os pato?"

NE - Ruy Barbosa de Oliveira (1849-1923) é, por muitos, considerado o Pai da República no Brasil. Natural de São Salvador, logo baiano dos sete costados, ele foi jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor, orador e jornalista. Por duas vezes foi candidato à Presidência do seu País. Foi, ainda, Presidente da Academia Brasileira de Letras. A forma como tratava a língua portuguesa dez dele um dos mais importantes filólogos.

Foi, sem dúvida, um dos mais importantes personagens da História do Brasil; era dotado não apenas de inteligência privilegiada, mas também de grande capacidade de trabalho. Essas duas características permi¬tiram-lhe deixar marcas profundas em várias áreas de actividade profissional. Participou em todas as grandes questões de sua época, entre as quais a Campanha Abolicionista, a defesa da Federação, a fundação da República e a Campanha Civilista.

Já em 1891 fora nomeado Primeiro Vice-Chefe do Governo Provisório. Em 1892 abandona a bancada do Senado, depois de o ter justificado num discurso. Ainda nesse ano lança um manifesto à Nação no qual diz a famosa frase: "Com a lei, pela lei e dentro da lei; porque fora da lei não há salvação. Eu ouso dizer que este é o programa da República". A sua independência, a sua verticalidade, a sua competência motivam invejas, conluios, campanhas contra ele. Por isso se exilou dois anos depois.

Sempre considerou e afirmou-o repetidamente, que o Jornalismo era a sua grande paixão. Aquando do seu exílio, viaja para Londres, de onde envia as "Cartas da Inglaterra" para o Jornal do Commercio a partir de 7 de Janeiro de 1895. Escreve então na imprensa:
"E jornalista é que nasci, jornalista é que eu sou, de jornalista não me hão de demitir enquanto houver imprensa, a imprensa for livre (...)"

Dele se contaram e contam e julgo que contarão muitas estórias, qual delas mais interessante do que as restantes. O domínio da nossa língua, a utilização que fazia esmeradamente dos vocábulos mais requintados e inusuais está na base de muitas delas. Que já passaram mesmo à lenda.

Num dia tão importante como é hoje, o dez de Junho, a língua que é a nossa Pátria, como disse Pessoa, fica bem aqui registada, penso, através de um desses contos inventados pelo Povo Brasileiro. Por isso e uma outra vez respeito a grafia usada do lado de lá do Atlântico. Assim, o que aqui publico foi-me enviado pelo compincha que é o
António Gravelho, também ele jurista. Para mim, tem carradas de piada. Donde, só me resta o agradecimento devido ao remetente que, assim, também assenta arraiais no Travessa. A.F.

quinta-feira, junho 07, 2007




À RODA DOS DIAS

Junho

Maria Lúcia Garcia Marques
A meio do ano, Junho parece nascer da paixão violácea dos jacarandás em flor. Incendeiam as ruas da cidade, juncam o chão num tapete festivo. Talvez por isso, este seja um mês em festa. Ele é o Dia de Portugal … Ele são os Santos populares … Ele é Portugal a cantar!



O Hino, à sombra da Bandeira, as mais das vezes desentoado e desencontrado, por estádios de futebol, em jornadas de Taça – agora que já o não ouvimos a despedir os nossos soldados, num cais de angústia para uma guerra escusada, mas a encher-nos o peito de lusitana alegria, tal como e quando nos vemos figurados nos nossos Carlos Lopes, Rosas Motas, Vanessas Fernandes e outros, que galhardamente nos têm levado aos pódios do mundo.

Hino que aprendíamos na escola primária e que, no meu tempo de liceu, servia para escolher quem entrava ou não para o orfeão e para que naipe de voz. Era, à sua escala, um momento emocionante: cantar sem acompanhamento e a solo, para um professor bisonho, à frente da “malta” da turma, sem falhar a letra, na voz traiçoeira da “idade ingrata”, era, de facto, uma “operação de risco”. Por isso ficou para o anedotário familiar a história do desempenho, na circunstância, de um primito meu. Filho e neto de gente da música, ele sabia que não era nenhum Pavaroti. Mas vendo-se sem escapatória, puxou dos seus brios e decidiu esmerar-se.

Postou-se firme em frente do Mestre, tossicou para aclarar a voz, abriu a goela e vá de cantar. Cantou os “heróis do mar”, levantou como pôde o “esplendor de Portugal” e, da sua ainda pouco “brumosa” memória (caramba, tinha só dez anos …) tentou chamar a si a voz dos avós – que ele não percebia de todo por que lhes chamavam “egrégios” – para “levar á vitória” aquela Pátria que ele invocou com uma espécie de berro, “marchando” sonoramente “contra os canhões”!

Acabou exausto, mas convencido de que cumprira a contento. Convicção, porém, não partilhada pelo Mestre que lhe perguntou, sarcástico: “O menino tem a certeza de que isso é mesmo o Hino Nacional?” E logo ali o dispensou de quaisquer outras futuras prestações vocais.

Desventuras numa Pátria que canta com unção um “fatum” triste, mas que não deixa de ser um País com-vivente em que os dias de trabalho são “feiras” e os dois que restam são “feriados”: Sábado para repousar, segundo os judeus, Domingo para louvar, segundo os cristãos, em doses iguais, para não estragar a festa …

Porque ela está aí, a Festa, para celebrar os feitos dos homens como os santos do céu.
E então é ver o povo-povo, de alegria na lapela, riso no olho e boca gulosa de caseiros acepipes, regados com o generoso sangue da terra que ainda lhes faz bater o coração. E nesta celebração devotada dos seus santos (por tal chamados “populares”) se conforma o retrato médio do português, médio e nédio, que festeja com o corpo todo, na libação e na libertação (do cansaço e das mazelas com que o trabalho o marcou) em discurso directo com a cidade, alguns dias – ou noites – de alegre comunhão.

Foi um “à la minuta”, desse “português à solta” que Carlos Paião, cantor e poeta popular, nos deixou, solfejado e sofrido, na sua “Marcha do Pião-das-Nicas”. Aqui ficam, por prova, alguns desses versos que, na gíria e no gesto castiço, sem corantes nem conservantes, no lo dão ao natural:

Anda p´la vida à futrica
O estica-larica
O “Mangas Portuga”
Fecha-se em copos e copas,
Cafés e cachopas,
Trabuca e manduca.

Galfarro afiambrado
Pachola, arremelgado,
De grimpa levantada e garrafal.
Amigo do amigo
Farelo e muito umbigo.
Vestiu-se e veio a pé pró arraial.

És tu “pião-das-nicas”
Das bocas e das dicas
Que pegas nos calcantes e te vais
Adeus, leão dos trouxas,
Chupado das carochas,
Que foste no embrulho uma vez mais!

REFRÃO: Viva o Santo António,
Viva o São João,
Viva o 10 de Junho e a Restauração,
Viva até São Bento
Se nos arranjar
Muitos feriados para festejar!

Junho desta “ditosa Pátria minha amada”. Pátria/mátria – aquela parte de nós, indizível e sem data, aquele fio de sangue que vem não importa donde, que nos sustenta e nos sustém. Aquele orgulho inexplicado e íntimo que é nossa amarra e nosso lastro.

quarta-feira, junho 06, 2007




Miséria e riqueza em Lisboa



Pedro S. Guerreiro
Director do Jornal de Negócios
O
caos financeiro da Câmara de Lisboa está finalmente no centro de um debate eleitoral. Não porque os candidatos se tenham tornado subitamente mais responsáveis. Mas porque Lisboa chegou ao grau zero da indigência contabilística. Porque hoje existe uma lei das finanças locais. E porque o líder nas sondagens foi o autor dessa lei.

Sem o problema das finanças autárquicas resolvido, Lisboa não tem qualquer futuro. Só passado. E o passado é tenebroso. Nem é preciso explicar porquê. O país inteiro aprendeu já, à custa de impostos e de desemprego, que sem finanças públicas saudáveis não se faz nada. Em Lisboa não é diferente. Só que pôde ser adiado. E adiar soluções significa piorar o problema.

O passivo duplicou em cinco anos: 2.382 euros por munícipe. Juros: 30 mil euros por dia. O problema está não tanto no que se deve à banca mas aos fornecedores. A tesouraria está vazia. Os investimentos têm receitas abaixo do previsto. Os planos de desinvestimentos (no imobiliário) não são cumpridos. As suspeitas de corrupção estão no Ministério Público.

Quando Manuela Ferreira Leite limitou o endividamento autárquico, referia-se a todo o passivo. O seu primeiro-ministro Durão Barroso desautorizou-a e decidiu que o garrote se aplicava apenas à dívida bancária. O desvario transferiu-se para os "leasings", "factorings", fornecedores, parcerias público-privadas. Ferreira Leite quis que o limite ao endividamento funcionasse para as câmaras como o tecto do défice de 3% funcionou para o País. Mas como não houve Comissão Europeia para as câmaras, muitas delas precisam agora de um FMI. De alguém que entre por ali adentro, viabilize empréstimos e controle a sua aplicação.

O FMI é, neste caso, o Ministério das Finanças. António Costa já disse que, se ganhar, vai requerer ao Governo um "contrato de saneamento": Lisboa precisa de um contrato de reequilíbrio financeiro. O Governo descongela o endividamento bancário da Câmara, que começa a pagar dívidas aos fornecedores; em troca, a Câmara fica sob forte vigilância do Governo, terá de prestar contas, aumentar taxas, tarifas e derramas, não poderá aumentar despesas com pessoal nem despesas correntes. Foi assim com Setúbal (que já incumpriu, sem punição, o acordo) e com o Marco de Canaveses (que renegociou). Também Ourique, Gouveia e Guarda estão perto de pedir socorro.

E Lisboa. Se ganhar, Costa negociará com o seu antigo colega de Governo uma viabilização financeira. Aplicará a lei de finanças locais que desenhou. E terá de aceitar a redução de freguesias, que defendeu enquanto ministro. Nada disto é por voluntarismo, é por necessidade. Cheira a dinheiro em Lisboa. Não é à toa que o candidato do PS reúne tantos apoios. Não é apenas Júdice que vira o volante. Há na comissão de honra de Costa empresários, gestores e banqueiros que nunca devem ter votado à esquerda na vida.
Editorial de 2007/06/05



NE – Já disse ao Pedro Guerreiro quanto o admiro e com que prazer o leio. Trata-se de um grande Jornalista, com caixa alta e tudo. Ele autorizou-me a publicar o seu editorial aqui no Travessa. Fiquei e fico muito satisfeito com isso. Tanto que reincidirei sempre que ache bem fazê-lo... A Travessa tem a grata oportunidade de o concretizar. E eu, a felicidade de o poder anunciar e abraçar o Pedro pelo que de bom nos proporciona.

terça-feira, junho 05, 2007




Boca calada

Antunes Ferreira
Tentou levantar-se, mas caiu para o lado, como um saco de café desamparado. Fechou, de novo, os olhos castigados e passou a língua pelos lábios inchados, gretados e secos. O sabor adocicado do sangue não lhe tirava a sede. Estava acampado por todo o seu miserável corpo em crostas escuras que sobressaíam da cor da pele. Levara muita porrada, aiué.

No entanto, o filho da puta do inspector e os três flechas que o tinham massacrado não haviam tido o prazer de ouvi-lo cantar alguma coisa. Gritara, isso sim, um homem não é de pau. Mas conseguira calar-se, emudecer quanto às perguntas, acompanhadas de murros, pontapés, pauladas. Até lhe tinham ligado o coiso a uma ficha eléctrica, com um fio.

Aka, isso doeu mesmo. Foi um raio que ziguezagueou até ao esqueleto. A corrente eléctrica era danada. E ele sabia-o perfeitamente. Era mulato, mas também enfermeiro. Aliás, estudara em Lisboa, para onde viera com os pais, catraio vindo de Angola, trabalhara no Hospital de Santa Marta, o doutor Figueiredo até lhe dissera um dia – Malaquias, tens de ir para a Faculdade. Com o que já sabes e com o que lá aprenderes, vais sair um bom médico.

Não fora. O pai, viúvo da mãe Zeferina, também insistira com ele. Vai, Jorge, vai. Deixa-te dessas trampas da Casa dos Estudantes do Império e ganha o teu futuro. Sei que és homem para isso. Era. Mas, não ia. Podia aprender mais umas coisas no hospital, mas muitas mais na Casa. Com toda a malta porreira que o introduzia no Marx, no Lenine no Mao, que discutia dialéctica, que coleccionava cartazes do Che e do Comandante Fidel, colados pelas paredes.

Um dia veio a PIDE e fechou as instalações por ser um cóio de subversivos. Portugal que era uno e indivisível, do Minho a Timor, não podia permitir que um grupo de garotelhos conspirasse nas barbas da guardiã política do regime. Todos para o xelindró. Jorge Malaquias foi enrolado nos outros. Em Paço de Arcos, o quartel da Polícia Móvel, um tipo lingrinhas disse-lhe para se pôr na alheta. Se voltas cá, nem sabes o que te faço.

Uns quantos foram directamente para o Aljube. Decidiu ir visitá-los quando pudesse ser. Carlos Almiro Saraiva, da Camabatela, filho dum fazendeiro de café podre de rico, tentara dissuadi-lo. Olha lá, ó pá. Tu só te vais lixar com essa merda da visita. E para já, nem sabes quando a autorizam. Os chuis são uns javardos, toma cuidado.

O passeio da merda

O tanas! Tretas, Almiro, tretas. Mal possa, vou logo. Está-me mesmo a pular o pé para a dança. Eles precisam da nossa solidariedade, aquilo é um nojo, o pessoal não tem quaisquer condições, os nossos cagam e mijam em baldes que depois levam a despejar, com carcereiros a guarda-los. Mesmo assim, disse-me o Soares, é a única altura em que saem das celas. Chama-lhe o passeio da merda.

Acabara por não ir. De modo algum porque o de Camabatela o tinha alertado. Estava-se borrifando para a advertência. Conselhos nem do pai Malaquias, quanto mais do filho dum cabrão dum roceiro. O facto foi que, após umas galhetas a sério, a maior parte dos detidos saiu para a rua e os poucos que ficaram ala para Peniche, onde não havia visitas para ninguém.

Quando voltou ao hospital, a Lena com quem saía há uns tempos, loira de Moimenta da Beira, de onde viera catraia, ainda falava de quando em vez axim, disse-lhe que o Dr. Figueiredo andara à procura dele e soubera umas coisas. Queria falar-lhe. Jorginho, vê lá no que te metes, amorzinho. Calminha jéjé. A sorte não é eterna, bem pelo contrário. E eu quero-te para voltarmos às nossas noites «de serviço».

A Madalena era auxiliar de radiologia, tinha umas pernas de sonho e umas mamas de alto lá com o charuto. Os biquinhos, tesíssimos, eram de um vermelho escuro, mais carregado do que a pele de ele. Ela, pelo contrário era muito branca, só os mamilos, as axilas e a cova do amor coloriam o alabastro acetinado em que ela fora esculpida. Mas, sardenta, clara.


Na cama, era uma perdição. Ele, que se julgava uma autoridade na matéria e andara a rapar atrás dela, quando se viu nu agarrado a tudo o que ela, nuinha também, tinha, decidira ensina-la, instrui-la nas práticas do amor. Falsa partida, pois ficara-se nas boxes. De imediato quem conduzira fora Lena, artista, malabarista, contorcionista .

Aluno obediente e esforçado, Malaquias nem queria acreditar que tal tivesse acontecido. Um hospital, que de certo modo se pode considerar um espaço concentracionário, era o local ideal para se saber tudo. Quando fora falar com o médico, os assistentes dele, os internos estagiários, os enfermeiros segredavam apontando-o entre sorrisos e insinuações. Sortudo. Com uma gaja daquelas...

Eu bem te avisei

Albano Figueiredo, especialista em ortopedia, com o eterno estetoscópio ao pescoço, não fora de modas. Eu bem te avisei. Da Lena? Perguntara Jorge entre o acanhado e o satisfeito. Deixa-te de fitas. Sabes bem que não. Da ramboia da politiquice. Quando devias andar a tirar o canudo, vais-te meter com malta de má fama, para estes gajos que estão no poder. Penso que nem são, apenas idealistas, mas para o caso tanto faz. Para os pides – são uma cambada de comunas. Juízo, caraças, juizinho.

Estava farto de admoestações. Lisboa, a partir de então, já era. Cidade bonita, gente gira, os eléctricos para o Carmo, os passeios empedrados, a ponte que levava o nome do abutre agoirento. Porque era assim que já tratava o malandro de São Bento. Mas que passara a não lhe dizer nada, ele que se considerava alfacinha quanto mais não fosse adoptivo. Ou melhor, adoptado.

Os navios da Colonial e da Nacional andavam transportando tropas. Para Angola, rapidamente e em força, bramara o fradalhão de Santa Comba. Arranjou de enfermeiro no Uige. Cunha do pai Saraiva, para isso eram os amigos dos amigalhaços. A escada de portaló foi o início da aventura, no porto de Luanda.

Em seguida a Marginal espreguiçando-se na baía. Uns dias depois, poucos, entrava na base do MPLA, seu destino final. A malta da Casa dos Estudantes era organizada, não eram em vão as ligações com o PC. Nem queria acreditar na facilidade com que tudo decorrera. Na cabina do camião Dodge, ao lado do Raul camionista, até tinham discutido o Benfica e o Eusébio, que já não era o que fora, quando em 1966 encantara os bifes, mas que ainda ia à selecção.

Na fazenda Maria Fernanda, tal como estava marcado, afastou-se para urinar e – até depois que se faz tarde, adeus minhas encomendas. Foi uma enorme mijadela. Começara então uma nova vida para Jorge Malaquias. Esteve no acampamento uns quantos meses, como enfermeiro e a fazer de médico, do médico que não havia. Mas, a dada altura, não aguentou mais aquela sacana de nova situação confinada.

Disse que queria ir para a guerrilha, na mata, nas picadas, onde quer que fosse. Até em Luanda, sendo caso disso. O comandante Trovão no Escuro, ainda que lamentando a falta que faria na base, os camaradas já se tinham habituado a ele, às suas resoquinas, aos seus adesivos, à sua tintura, ao seu mercurocromo, aceitou. Perdia um homem que dava, assim, a sensação de que lhes cobria a retaguarda. Mas ganhava um combatente.

Mulato Vermelho

E que combatente, diziam os outros. Corajoso, destemido, sabedor, e ao mesmo tempo cauteloso, prudente, excelente analista de situações difíceis, planeador e comandante. Em breve era o melhor da zona, ganhou de golpe a qualificação, chefiou, naturalmente. E os êxitos foram-se sucedendo, aumentando, até chegar a mito. Mulato Vermelho. Só.

A carne é e será sempre… carne. No quimbo ali mesmo ao lado encontrara uma menina de 16 anos, gazela de pernas esguias mas cheias e seios pontiagudos, a Rosinha. Coisa daquelas teria levado um santo – se é que eles existissem – a sair do altar para ir deitar-se com ela. Ao longe, muito longe, cada vez mais longe, a Lena ia-se dissolvendo, liquefazendo, reintegrando-se no plasma universal do esquecimento.

Até já combinara o alambamento a dar ao futuro sogro, de resto o soba do povo, duas cabras, três mantas coloridas, uma bicicleta e uns óculos escuros. Estava tudo bem. Para concretizar a combina tivera de ir a Luanda. Nada de receios parvos. Ninguém o conhecia na capital. Passara, apenas, por lá. E estava informado que nas Ingombotas poderia comprar quase tudo, excepto obviamente as cabras, o que se resolveria na mata.

Na primeira noite luandense, decidira aproveitar a viagem para dar um salto ao Miramar, ver a Revolta na Bounty, com o Marlon Brando. No intervalo, quando as luzes se acenderam, duas mãos pesadas caíram-lhe nos ombros. Ainda tentou levantar-se, opor resistência. Quieto, cão. Mexe um dedinho do pé dentro da bota e enfio-te um tiro nos cornos.

Quem fora o bufo?

Na PIDE, ali ao pé da Meteorologia, tentara fingir que não era nada com ele, tratava-se de um engano, talvez alguém parecido com ele, chipala igualzinha. Seu safado, julgas que nos comes por parvos? Denunciaram-te, apanhámos-te, estás fodido e mal pago. Nem sabes no que te meteste. E agora, deita cá para fora tudo. Tudinho!

O inspector, limpando o ouvido com uma unha comprida e escura, em tons de tabaco e cerume, gozava. Ouve lá, o filho dum cabrão, sabes qual é a diferença entre um branco, um preto e um mulato? És mesmo matumbo, não sabes. O branco é filho de deus; o preto é filho do diabo… e o mulato é filho da puta. Gargalharam. Vá, já chega de recreio. Vomita!

Medo tinha. Muito. Mas vomitar, não. Pelo contrário; engolira o cagaço e fechara a boca, transformada numa linha dura colada a Pattex, dali não saía nada. Falas? Pela última vez – falas? Nós sabemos tudo. Só queremos confirmar. Abres as goelas e cantas meu seripipi do caralho. Senão, cortamos-te as ditas goelas. Mas, antes, arrancamos-te os colhões, ficas capado, lá tem a Rosinha que fazer umas pívias, antes de te pôr os cornos.

Fora tudo muito arrastado, muitíssimo lento, para que o «tratamento» fizesse efeito, os flechas eram especialistas. Porrada atrás de porrada, os olhos iam-se enevoando, o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Mato-te, avançava o chefão, que usava a mesma unha encardida para palitar os dentes. Matamos-te como um cachorro, que é o que mereces.

Horas a fio seguiu aquele tormento. Amanhã há mais, melro. Não perdes pela demora. E as pústulas e as nódoas negras e as dores malditas até na piça. Quem teria sido o bufo? No Puto, os métodos eram iguais. Todos da mesma escola. Mas jurou para si próprio que não diria nem um milímetro. Nem que lhe arrancassem o coração pelas costas como fizera o Dom Pedro aos assassinos da Inês. O Cru.

sexta-feira, junho 01, 2007




HISTÓRIAS DA PJ

What happened to Mr. Hood?

(Conclusão)


José Augusto Garcia Marques
“O
que é que o Senhor Dr. dizia se lhe dissesse que não fui eu que matei o Roy Hood?” “Mas, afinal, foste tu ou não?”, perguntei, por minha vez, num tom severo. “Fui, fui”, respondeu ele. “Então porque é que fazes perguntas parvas?” “Ah, era só para ver o que o Senhor Dr. dizia. É que ele apareceu com uma pedra atada aos pés por uma corda”, acrescentou o Hernâni. “E tu sabes que isso não podia ser, não é verdade?” Hesitou e disse: “Sei lá se podia ser ou não”.

Mas a dúvida ficou a germinar no meu espírito. Fiquei preocupado com a conversa. Já o disse: a única coisa que deve interessar à Polícia Judiciária é a descoberta da verdade – e não encontrar uma versão que possa render dividendos em termos de imagem, de opinião pública, mas que não corresponda ao rigor dos factos. No caso, atendendo à personalidade do Hernâni, tinha razões para ficar inquieto. Questionei-me: será que ele não resistiu à tentação de “simplificar” a vida aos investigadores ou será que sucumbiu à publicidade fácil dos célebres “quinze minutos de fama”?

Decidimos adoptar a seguinte estratégia: por um lado, identificar e interrogar o indivíduo que o vira em correria ao longo da muralha, depois de, alegadamente, ter empurrado o Roy Hood; por outro, contrastar o seu depoimento, o que implicava apurar quem seria o melhor amigo do Hernâni, em quem depositava mais confiança, de quem fazia confidente. Em seguida, haveria que o localizar, explicar-lhe a missão que lhe competia desempenhar e trazê-lo à Gomes Freire para, com total à vontade, falar com o detido, a fim de obter dele a versão dos factos ocorridos. Perguntado, o Hernâni, disse que o seu maior amigo era um tal Daniel, criado numa casa do Estoril, propriedade de uma conhecida família portuguesa ligada à alta finança.

Daniel e a busca da verdade

Dois agentes foram buscá-lo, tendo-lhe sido explicado o que se pretendia dele. O Daniel era uns anos mais velho do que o Hernâni, olhar vivo e inteligente. Entendeu perfeitamente que o que estava em causa era a busca da verdade, e, nesse quadro, percebeu a importância do seu papel. Foi-lhe dito que não tivesse preocupações de tempo, que falasse com todo o à vontade com o Hernâni, que lhe fizesse todas as perguntas que a sua curiosidade suscitasse e que, concluída a conversa com o amigo, relatasse com fidelidade aos investigadores o que lhe tinha sido dito. O Daniel revelou ter instinto policial, tendo “saído melhor do que a encomenda”, isto é, tendo excedido as nossas expectativas, mesmo as mais optimistas.

Ficaram ambos – ele e o Hernâni – a conversar numa sala, com o sistema de escuta interna accionado, para que os investigadores pudessem acompanhar a conversa entre ambos. O Hernâni confirmou ao Daniel a versão que nos narrara, tendo, inclusivamente, dado mais pormenores, até porque o outro era insistente e curioso. “Como é que tiveste coragem para fazer aquilo ao homem, pá?” “Ele ofendeu-me: disse que gastava o dinheiro todo em trapos e que ‘andava ao badejo’. Vê lá tu, um velho!” “Pois, mas ainda ´tava um belo homem e era um senhor distinto. Olha lá, e como é que tu o fizeste cair da muralha abaixo?”

“Dei-lhe um empurrão. Ele ´tava mesmo à beirinha. Mas eu não pensei...; não foi assim por querer, pr´ó aleijar ...” “Um empurrão como? Mostra lá como foi.” O Hernâni terá tentado reproduzir o empurrão, mas não convenceu o Daniel, que lhe ripostou: “Assim nem c´um miúdo, pá! ... o homem nem sequer se desequilibrava!” “Foi com mais força. Aqui é que não dá pra imitar bem, porque ainda partes mas é esse vidro.” Saído da sala, o Daniel repetiu com fidelidade o que ouvira do Hernâni – e que já era obviamente do nosso conhecimento.

Fiquei muito mais tranquilo. Em consciência concluí que os acontecimentos se tinham passado como o arguido os descrevera. Mas era, para mim, quase certo, que o Hernâni, em julgamento, iria negar tudo. Tornava-se, até por isso, indispensável instruir os autos com o maior profissionalismo e com todo o pormenor. Procedeu-se, assim, a uma rigorosa reconstituição dos factos com a presença do Hernâni, que reproduziu com fidelidade os momentos mais relevantes do seu comportamento, tal como o descrevera.

O “engatatão” das arcadas

Faltava localizar o frequentador das arcadas, onde “engatava” turistas estrangeiros. Como habitualmente, os agentes encarregados da investigação cumpriram a tarefa com eficácia e prontidão. Tratava-se de um tal Rafael, um indivíduo com cerca de trinta anos, de aparência máscula, aspecto altivo e postura por vezes agressiva. Era casado e tinha um filho muito pequeno. Dedicava-se, sem que a mulher parecesse saber, ao engate de estrangeiros a quem prestava os favores sexuais pretendidos. Dessa actividade de prostituto provinham os seus rendimentos.

Foi justamente na esplanada das arcadas, sentado a uma mesa com um americano, que os investigadores da PJ o foram encontrar. Trouxeram-no para a sede e, durante mais de duas horas, interrogaram-no sobre o seu modo de vida, tudo com o objectivo de apurar se, naquela noite, tinha efectivamente visto o Hernâni a correr ao longo da muralha da praia do Tamariz. Só que era uma personalidade difícil. Ostentando uma máscara de aparente virilidade e grande arrogância, negava que tivesse contactos com homens, revelando-se uma testemunha nada colaborante.

Em dado momento, postei-me num local de onde, sem ser visto, podia ver o que se passava no interior do gabinete. O indivíduo estava sentado, a ser interrogado por um agente. O Chefe de Brigada, homem de forte compleição, passeava, como era costume, em silêncio de um lado para o outro. De repente, vejo o “Chefe” levantar o braço direito, fazê-lo descer num movimento rápido e aplicar uma estrondosa pancada no tampo da secretária, ao mesmo tempo que, gritava: “Basta de teatro! Põe-te em pé! Vamos lá a falar clarinho!”.

O clima estava tenso, não me sendo possível intervir de imediato. O Rafael levantara-se, mas, acto contínuo, sem conseguir aguentar a tensão nervosa, deixou-se cair de joelhos, chorando convulsivamente. A máscara de virilidade quebrou-se como por encanto. Num acto de quase instintiva descompressão, relatou os seus itinerários “profissionais” ... o seu modo de vida, os maus tratos que dava à mulher de quem tinha um filho pequeno, o que a Polícia já conhecia.

Perguntado sobre o que vira naquela noite, confirmou que tinha ficado muito admirado quando viu o Hernâni, correndo como se tivesse o diabo atrás dele, não tendo sequer respondido quando ele o interpelara para saber o que se tinha passado. Entretanto, o “Chefe”, alertado pela sinaléctica de um agente que sabia onde eu me encontrava, saiu do gabinete, dirigiu-se-me com ar contrito e justificou: “O Senhor Dr. desculpe, mas, se não lhe tivesse berrado, nunca mais saíamos daqui”. Censurei, como me cumpria, a atitude agressiva que presenciara. Embora não tendo havido violência física, tinha havido intimidação. Mas compreendi o que o Chefe – excelente polícia, experiente e intuitivo – queria dizer.

Restava a tarefa do enquadramento jurídico dos factos. O caso era extremamente interessante desse ponto de vista. Verdadeiro case study, podia mesmo ser apresentado como hipótese prática num exame escrito de Direito Penal. Não vou entrar em pormenores, que seriam fastidiosos. Estava obviamente afastada a hipótese de premeditação, tanto mais que, no Código Penal ao tempo em vigor, para que ela existisse, era necessária a persistência do “desígnio criminoso” durante um mínimo de 24 horas.

Também considerei excluída a intenção de matar, ou seja, o “dolo”. Ainda que tivesse querido derrubar Mr. Hood, não estava provado que a intenção do Hernâni fosse a de lhe causar a morte. Duas hipóteses se perfilavam então: ou a de homicídio culposo, em virtude da violação de deveres de cuidado, em acumulação com a omissão de auxílio – fuga a seguir à prática do acto; ou (preferível) a de “homicídio preterintencional” (“além da intenção”), a que corresponde hoje a “ofensa à integridade física agravada pelo resultado”.

Hernâni negou no Tribunal

O Hernâni veio a ser julgado no Tribunal da Comarca de Cascais, onde era Juiz um magistrado brilhante, jurista distinto, que eu viria a conhecer e a admirar alguns anos depois. Por sua vez, era ali Delegado do Procurador da República um Colega muito bem classificado, que, como eu, concluíra o seu curso em 1964, mas em Coimbra. Conhecemo-nos no decurso das investigações deste caso e viria a tornar-se um dos meus maiores amigos, tendo feito lado a lado grande parte das nossas carreiras.

Como eu previa, o Hernâni negou em Tribunal a autoria dos factos. Sei que os Magistrados chegaram a ter dúvidas, que depois ultrapassaram. Foi condenado a uma pena de quatro anos de prisão, que entendo ajustada ao que se passou. Mas, tantos anos decorridos, ainda penso no caso. E, de longe em longe, uma réstea de dúvida atravessa o meu espírito. Mas estou certo de tudo ter feito para a descoberta da verdade. Todos os cuidados tidos na confirmação da factualidade ocorrida deixaram-me de consciência tranquila, levando-me a entender que tudo se passou em conformidade com o que ficou a constar da acusação.

O que pensa o leitor, ou, como se diz no latim tão querido dos juristas, quid juris?

terça-feira, maio 29, 2007




HISTÓRIAS DA PJ


What happned to Mr. Hood?

(2ª Parte)

José Augusto Garcia Marques
“Eu é que sou o Hernâni”. O tom era tranquilo, a voz suave, o rosto não denunciava inquietação. Ficámos decepcionados com o perfil do sujeito. Ao contrário do que chegámos a admitir, não se vislumbravam nele sinais de um carácter violento ou agressivo. Era um jovem claramente efeminado, de estatura mediana e compleição frágil.

Trocámos impressões com a dona da casa, que mandou o empregado esperar no seu quarto. A Senhora disse-nos que fora o próprio Hernâni que se lhe dirigira, nessa manhã, dizendo que, “se calhar, o “Ernani” de que os jornais falavam era ele”. Mais lhe relatara que conhecia o Senhor Roy Hood, com quem se encontrava há já algum tempo. Em termos de personalidade, disse-nos tratar-se de um ser inofensivo, paciente e com bons modos, de um criado disciplinado e com vontade de aprender, embora algo limitado intelectualmente. Na sua opinião era um “pobre diabo” impotente, destinado a ser usado e abusado por marginais sem escrúpulos.

No entanto, reconhecia nele, nos últimos dias, uma ansiedade e uma angústia que não eram habituais. Apesar de saber que se chamava Hernâni, a dona da casa não o associara ao “Ernani” a que a comunicação social se referia, uma vez que nunca lhe passara pela cabeça que pudesse ter um envolvimento com um velho pederasta de “sociedade”, como era o caso do Roy Hood, o qual, na sua opinião, deveria andar metido com “companhias de outro quilate”.

Fomos falar em seguida com o Hernâni, o que fizemos no seu próprio quarto. A mesa de cabeceira tinha uma imagem vulgar de Nossa Senhora de Fátima e, na gaveta, havia recortes dos jornais que noticiavam o aparecimento do corpo na praia de Carcavelos. Logo nos deu a sua versão dos factos. Tinha, de facto, um encontro marcado com o Roy Hood, pelas 20 horas, perto de um cartaz publicitário, colocado em frente das arcadas do Estoril. Tratava-se do local de encontro habitualmente escolhido por ambos. Todavia, tendo esperado cerca de uma hora sem que o pintor aparecesse, e porque estivesse muito frio, o Hernâni ter-se-ia cansado e decidido voltar para casa. Pareceu-nos conveniente, no regresso a Lisboa, passar pelos locais por ele indicados.

Das arcadas ao Tamariz

Dirigimo-nos às arcadas, tendo estado junto do referido cartaz. O Hernâni deu-nos conta do seu ressentimento relativamente a Mr. Hood pelo facto de este não o deixar ir ter directamente a casa dele. Segundo ele, era um sinal de falta de confiança, revelador de que o estrangeiro não gostava de ser visto com ele. Pedimos-lhe depois que nos guiasse pelo percurso que costumava fazer com o Roy Hood desde aquele ponto de encontro até ao local de destino, a casa do pintor australiano. A tarde ia a meio, mas não havia tempo a perder, uma vez que, no Inverno, os dias são pequenos.

O encontro dos dois costumava ocorrer cerca das oito horas da noite. Atravessavam então a marginal, entravam na praia do Tamariz e dirigiam-se para a muralha que percorriam, lado a lado, junto à respectiva berma, até ao local adequado para cortarem em direcção à Rua onde estava situado o Palácio em cuja dependência Mr. Hood vivia. Segundo explicou, a muralha, a essa hora, era frequentada por diversos homossexuais, sendo frequente encontrarem caras conhecidas no “engate”. Com o Hernâni fizemos o percurso até ao portão exterior do edifício onde vivia o pintor, tendo seguido depois para a sede, na Gomes Freire.

O Hernâni era uma personalidade fraca, tendo uma natural tendência para ser agradável para aqueles com quem conversava, incluindo para quem o interrogava. Havia, assim, que ter o cuidado de evitar obter versões dos factos que não correspondessem à verdade, sendo importante tratá-lo sem agressividade ou sinal de violência. Para a Polícia, deve ser tão importante chegar aos responsáveis pela prática do crime, como concluir que um determinado suspeito está, na realidade, inocente. Mas, como diz o povo, quem vê caras, não vê corações ...

Interrogado na Brigada, foi mantendo a sua versão originária. No entanto, havia, no seu discurso, algumas contradições manifestas e ressumava das suas palavras um claro azedume para com o pintor australiano, que não era muito conforme com a sua maneira de ser suave e pacífica. Naquele tempo – já lá vão quase quarenta anos - a prisão sem culpa formada não obedecia aos requisitos – processuais e de prazo – a que obedece hoje a prisão preventiva.

Assim, a título de exemplo, não era obrigatoriamente ordenada por um juiz, podendo sê-lo pelos responsáveis hierárquicos da própria PJ – que, por acaso, eram, na generalidade, juízes de carreira, mas que, obviamente, não exerciam a magistratura judicial durante o tempo da comissão de serviço. Em face das suspeitas existentes, foi, assim, determinado que o Hernâni recolhesse aos calabouços da PJ.

O "culpado" confessa

No dia seguinte, de manhã, pediu para falar comigo. E foi a mim que confessou ter sido o “culpado” pela morte do Roy Hood. A sua versão foi, no essencial, a seguinte. Na verdade, estivera cerca de uma hora à espera de que o pintor australiano chegasse. E, quando já se propunha ir para casa, viu-o aparecer. Estava cheio de frio, impaciente, embora muito vaidoso com umas roupas novas que comprara com algum dinheiro que o Roy Hood lhe dera.

Era um canadiana azul escura, com capuz, boa para o frio, e uma camisola grossa, de lã escura com uns motivos claros, que também trazia vestida debaixo da canadiana. Esperara com ansiedade o momento de mostrar ao “velho” a boa aplicação que tinha dado ao dinheiro recebido, aguardando uma palavra de elogio pelo bom gosto revelado na escolha das roupas. A longa espera tinha-lhe tirado, porém, a alegria da expectativa, substituindo-a por um má vontade crescente contra o companheiro. O Roy Hood vinha também de má catadura.

Depois de algumas palavras frias e amargas, dirigiram-se para a muralha, como era costume, e uma vez que o pintor não fazia qualquer referência à roupa nova que ele trazia vestida, o jovem chamou-lhe a atenção para o facto. Ficou desiludido e magoado com a resposta: “Vocês gastam o dinheiro todo em trapos”.

A conversa azedou. Queixou-se do frio que tinha passado durante a longa espera, de mais a mais exposto ao olhar trocista de outros conhecidos que ali o viam especado, esperando por uma companhia que não havia meio de chegar, e lamentou o facto de o pintor não lhe dar a chave de casa e de não o deixar ir lá ter directamente. A isso, o Roy Hood teria respondido: “Eu não dou a chave da minha casa a quem anda ao “badejo”!

A gota de água

Teria sido essa a gota de água que fez transbordar o copo. O Hernâni já tinha referido que o Roy Hood, “certamente por uma questão de respeito”, lhe dava sempre a esquerda, pelo que era o estrangeiro que seguia na borda da muralha. Irritado com as observações do outro, o português, sem se aperceber da proximidade da extremidade da muralha, deu-lhe um empurrão com o ombro, fazendo-o desequilibrar.

Na sua versão, teria dado ainda um passo em frente, mas, alertado por uma exclamação surda, olhou para trás, tendo ainda visto Mr. Hood a fazer uma tentativa desesperada de equilíbrio na berma da muralha. Não se conseguindo equilibrar, caiu e terá batido com a cabeça nas pedras que se espalham à beira-mar. A maré estava a encher e o Hernâni, cheio de medo, desatou a correr no sentido de onde vinham, tendo parado só depois de atravessar novamente a marginal. Recuperado o fôlego, voltou a correr até à casa onde vivia.

Perguntei-lhe se alguém o tinha visto nessa correria e, depois de pensar, indicou um nome. Tratava-se de um “arrebenta” que “engatava” turistas, de preferência americanos, nas arcadas do Estoril. Que ainda lhe dirigiu uma pergunta, tendo o Hernâni dito qualquer coisa a despachar.
Concluída a confissão oral, no meu gabinete, passou depois à Brigada onde desenvolveu a seu relato dos factos, que foram reduzida a escrito.

Imagine-se a minha surpresa quando, no dia seguinte, encontrando-nos no gabinete do Chefe de Brigada, o Hernâni me dirigiu a seguinte pergunta: “O que é que o Senhor Dr. dizia se eu lhe dissesse que não matei o Roy Hood?”

(continua)

sexta-feira, maio 25, 2007



Segundo a OCDE no tocante a Portugal
Consolidação orçamental
e revisão do crescimento


A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) reviu ontem em alta as previsões de crescimento para a economia portuguesa alinhando-as com as do Governo e da Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional. A OCDE, nas perspectivas económicas acabadas de divulgar, espera que Portugal cresça 1,8% em 2007, mais 0,3 pontos do que a previsão de Novembro.

A instituição, que agrega as trinta economias mais desenvolvidas, dá também sinais positivos na frente orçamental: espera que o Governo consiga um défice orçamental de 3,3% do PIB, valor que compara com os 3,7% divulgados no final do ano passado. Para isso, estima que o consumo público recue 1%, três vezes o valor estimado há seis meses.

Apesar do aumento de desemprego no início do ano, a OCDE acredita que o ano irá fechar com uma taxa média de desemprego de 7,6%, o mesmo que a estimativa oficial do Governo.

Apesar de um abrandamento face ao ano passado, o bom momento das exportações deverá continuar, ao que se deverá juntar um abrandamento das importações. O resultado será uma contribuição líquida do comércio externo de 0,9 pontos percentuais. No ano passado a contribuição foi de 1 pp.


Inocência ajuramentada

O autor deste texto, publicado no Semanário Económico, é o jornalista Rui Peres Jorge dos quadros do jornal. Não fui eu quem foi à tigela da marmelada, juro. Muito menos inventei os números da OCDE.

Conheço relativamente bem a Organização, já estive por várias vezes na sua sede em Paris, participei ali, até em discussões de trabalho. O que não me foi difícil, muito menos representa mérito próprio. O cargo de Assessor do falecido Sousa Franco, então Ministro das Finanças, foi justificativo natural para tais cometimentos.

Pelos vistos, já há mais de ano o escrevi neste blogue, a OCDE faz parte da cabala internacional que, sem se perceber muito bem porquê, apoia descaradamente o Governo Sócrates. Quem o diria? Aparentemente insuspeita, supostamente independente (quem o é hoje?), vai-se a ver e é um dos tentáculos da máfia que anda por este Mundo a espalhar que as coisas vão melhorando em Portugal. Não com a velocidade desejada, mas Roma e Pavia…

Suponho, assim, que São Bento (não se trata do excelente técnico leonino) anda a treinar mais uns quantos suspeitos para que se apresentem mais favoráveis à conjuntura lusa. Instituições de pouca monta - tais como a CE e o FMI – são outros dos pecadores que batem na mesma tecla. Brada aos céus não haver quem ponha cobro a estes dislates mundiais. Nem mesmo o Executivo português, imagine-se.




Com estas e outras, começo a pensar que tinha alguma razão, pequenina embora, quando aqui escrevi, juntamente com a Eva Gaspar e outros, que a economia de Portugal já não estava em coma, embora ainda não tivesse saído dos cuidados intensivos. Mas, mesmo aí, tudo indicava que passara à condição de convalescença - o que já não é mau. Os outros cresceram mais do que nós, é um facto. Mas, grão a grão…

Dos enganos vivem os escrivães, diz o ditado. Se calhar não terá sido totalmente o caso. Tal como dei a mão à palmatória, também aqui reivindico o direito à correcção – ainda que diminuta. O que, em termos processuais, poderia ser uma inocência ajuramentada. Que não existe – mas fica bem. O futebolista João Pinto, o do FCP, ora treinador, fez uma afirmação que já entrou na panóplia do calino: Prognósticos, só no fim do jogo.
A.F.

quinta-feira, maio 24, 2007




À RODA DOS DIAS

Maio





Maria Lúcia Garcia Marques
M
ês de Maio, mês de Maria. Era assim na minha infância. Minha Mãe rezava o terço todas as noites do mês com quem quisesse acompanhá-la. Eu sentava-me numa cadeirinha baixa, lá no quartinho dos fundos onde minha Mãe armara um pequeno oratório, e ficava a vê-la, na obscuridade recolhida, desfiando o seu terço de contas de vidro que balançavam suavemente ao movimento dos seus dedos lindos. A luz mansa duma lamparina de azeite punha reflexos ondulantes no rosto duma imagem de Nossa Senhora das Graças. Duas jarrinhas minúsculas com raminhos de gipsofila, dois candelabros de prata com suas velinhas de chama simétrica.

Não era um acto de adoração. Era um gesto simples de filial devoção, de piedade familiar, no verdadeiro e ancestral sentido que os romanos davam ao termo pietas e à celebração dos deuses lares. Rezava-se pela paz – minha Mãe vivera as duas guerras mundiais – pela saúde da família, pelos estudos dos meninos, por alguma outra intenção mais particular (lembro-me de termos rezado pela vitória da equipa de que meu irmão era fã ...).

Terminava-se com a recitação da ladainha em louvor da Virgem Maria e ainda lembro o encantamento que algumas invocações deixaram no meu espírito infantil: mãe amável ..., virgem prudentíssima ..., rosa mística ..., torre de marfim ..., estrela da manhã ..., rainha da paz ...

No embalo da longa enumeração, éramos mulheres zelosas pelo bom fim de seus cuidados. Mulheres de trabalho nos seus diversos estatutos e idades. Na mesma cadência de deveres e de desejos que, bastante mais tarde, viria a encontrar nas palavras sofridas de Maria Velho da Costa, em Revolução e Mulheres (1976):
Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume ...
Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde ...
Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra ...

Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

Elas, sempre Elas na frente da luta, subindo e descendo a(s) “Calçada(s) de Carriche” deste mundo, nesse barómetro da vida d´Elas que António Gedeão tão bem soube graduar.
Ela(s) – Maria(s). O nome de mulher mais usado em Portugal. Que a História fixa: Marias – rainhas, Maria(s) da Fonte, Maria(s) Madalena(s). Ou que a linguagem popular aproveita: maria-rapaz, maria-cachucha, maria-mijona, maria-vai-com-as-outras, mariazinha-pé-de-salsa ...

E, a propósito desta última, uma historinha alegre que guardo no coração: era eu adolescente, magricela e “acneica”, vivendo no sobressalto de crescer e ser mulher (fundamentalmente apenas à espera de que dessem por mim ...), estreei umas meias novas, no “grito da moda”. Altas. Verdes-bandeira. Perna fina e pé ligeiro, livros abraçados ao peito, saia rodada apertadinha na cintura (verdadeiramente “de vespa” ...), lá ia eu rumo à lição de francês. Num passo corridinho – mai-las minhas meias verdes – pela borda do passeio. Foi quando cruzei um rapazola, “boina maruja ao lado/louca madeixa ao vento” (cito de cor Pedro Homem de Mello), que, de riso largo e olho aceso, me atirou: Olá, Mariazinha pé-de-salsa!

Ele vira as minhas meias de eleição! Indiferente se estava a gozar. Ele vira-me! ... Ainda hoje me rio de consolação! Mês de Maio, mês de Maria, mês das Marias, e, já agora - porque não? - das mariazinhas-pé-de-salsa, que também são gente!