sexta-feira, janeiro 11, 2008



HISTÓRIAS DA PJ

Memória de Adriano

José Augusto Garcia Marques
N
ão era aquilo a que se costuma chamar um “homem de acção”. Reflexivo, quase contemplativo, era um homem sereno, triste, solitário e paciente. Um “trabalhador de gabinete”. Sentado à sua pequena secretária, incansável nos interrogatórios com vista à recolha dos depoimentos, escrupuloso na sua passagem a escrito.

Quem o conhecesse fora da Gomes Freire, nunca o imaginaria agente da PJ. Talvez um escriturário ou contabilista, sempre discreto e bem arranjado, sério e calmo, era uma pessoa em quem era fácil confiar. Estava nos antípodas do “modelo” típico, do retrato “robot” traçado – tantas vezes, precipitadamente -, para os investigadores criminais: havidos como impulsivos, voluntaristas, impacientes, irreverentes, se bem que solidários e generosos.

No entanto, já era, naquela Primavera de 1970, agente de investigação criminal de 1ª classe, com mais de quinze anos de carreira, colocado numa Secção de investigação de homicídios, na Directoria de Lisboa. E era um excelente profissional. Desde que colocado no lugar certo, a fazer aquilo para que estava vocacionado!

Aliás, uma das coisas que mais me fascinaram na PJ foi a constatação da multiplicidade de perfis psicológicos e comportamentais dos seus profissionais da investigação criminal. Fundamental, todavia, era adequar essas tão diferentes personalidades e sensibilidades às concretas formas de acção e de funcionamento mais ajustadas às suas características, enquadrá-las em termos de chefia e de parceiros de brigada, dar-lhes tarefas onde pudessem evidenciar as suas capacidades, prevenir os excessos e estimular as boas iniciativas.


Gestão de pessoal

Uma adequada gestão de pessoal é, assim, condição indispensável para uma maior eficácia da acção e para uma melhor realização pessoal e profissional dos investigadores. Erro grave seria colocar em missões no “terreno” unidades mais viradas para a reflexão, para a análise e para a recolha e o tratamento da informação ou castigar sistematicamente com actividades de “gabinete” personalidades mais orientadas para a acção, para a aventura ou até para o “risco”.

Serve isto para explicar as razões por que o Agente Adriano era o nosso “homem dos envenenamentos”. Por outras palavras: era ao Adriano que confiávamos a investigação da maior parte dos casos em que havia suspeitas de administração de substâncias venenosas, com ou sem ocorrência da morte da vítima.

Crime insidioso e cobarde, o sucesso da sua investigação assentava em muitos casos na admissão da culpa, primeiro passo para a confissão do(a) suspeito(a). Justa ou injustamente, o envenenamento era, ao tempo, considerado um crime essencialmente feminino. E, na verdade, um grande número de envenenamentos era praticado por mulheres casadas, vítimas, muitas vezes, ao longo de anos, da violência doméstica por parte dos maridos.

O Adriano era possuidor de duas qualidades inestimáveis para a função: uma paciência sem fim e uma invulgar capacidade de empatia, baseada numa atitude de grande compreensão, quase de simpatia, que lhe permitia ganhar a confiança da pessoa interrogada, particularmente se se tratasse de uma mulher. Era um homem alto, algo curvado, de grandes olhos salientes de um azul quase branco, que se humedeciam sempre que se emocionava. Falava pouco e a sua voz tinha um tom baixo e um timbre suave e pausado, quase de um confidente.

Tinha um tique, quando em stress, que lhe fazia subir e descer ligeiramente uma das maçãs do rosto e um traço grosso castanho-escuro, um esboço de bigode, que lhe dividia ao meio o lábio superior, largo e carnudo. O cabelo ia começando a faltar-lhe, o que, associado ao seu andar pesado, às costas curvadas e às olheiras pronunciadas de permanente insónia, lhe davam um ar envelhecido e cansado. Era, ao tempo, um solteirão de trinta e muitos anos e, que eu soubesse, vivia apenas para o seu trabalho. Mas o que nele se destacava, o que acordava nas mulheres o instinto maternal, eram aqueles olhos aguados, aquele olhar líquido de velho menino triste, como um grito sufocado a reclamar consolo e mimos.

Nem bonita, nem feia

Naqueles meados do mês de Abril, encontrava-se presa nos calabouços da PJ. Era uma mulher de meia-idade, modesta, de origem e hábitos rurais. Não era bonita nem feia, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra. Olhava-se para ela e não se via mais do que uma mancha a preto e branco, silenciosa e sumida, receosa de dar trabalho e incómodo àqueles Senhores de Lisboa.

Era suspeita da morte por envenenamento do marido. Chamava-se Joaquina, e vestia de negro, um chale preto sobre a cabeça, quase a tapar-lhe todo o rosto. Vivera, com o Álvaro, seu marido, durante vinte e cinco anos, numa freguesia do concelho de Alcobaça. Os filhos, já criados, tinham partido para França. Durante muitos anos teve um casamento de que não se podia queixar. Era igual aos outros – com ralações, mas sem especiais razões de queixa.

Só era pena que o marido passasse tanto tempo nas tabernas, a beber e a gastar dinheiro. Mas o Álvaro sempre tinha gostado dos copos e, por vezes, apanhava a sua bebedeira. Com a partida dos filhos, o marido passou a meter-se cada vez mais no vinho, tendo-se tornado violento. Passou a bater-lhe e a ofendê-la com insultos e injúrias, quer em casa quer na rua. Dera-lhe para passar a ter ciúmes dela, o que mais contribuía para a sua agressividade.

Nas últimas semanas que antecederam a morte do Álvaro, este começou a queixar-se de dores de barriga e a perder peso. A mulher levou-o algumas vezes ao Hospital e, como as dores aumentassem e o marido se sentisse cada vez pior e mais fraco, chegou a trazer o médico a casa. O mal foi-se agravando, até que o Álvaro morreu, sempre medicamente assistido. Ainda não tinha sessenta anos. A natureza súbita e não diagnosticada da doença, conjugada com o facto de não lhe serem conhecidas doenças anteriores, obrigaram à realização de autópsia. O relatório do exame às vísceras, chegado à PJ, três ou quatro semanas depois do óbito, revelou a existência de arsénico, em dose susceptível de ser causa da morte.


As desconfianças, não só da PJ mas também da aldeia, recaíram logo sobre a Joaquina, que foi detida. Ao longo dos dias de prisão preventiva (sem culpa formada), era diariamente inquirida pelo Adriano, em longas sessões de interrogatório que começavam mais ou menos à mesma hora, ao fim da tarde, e decorriam no silêncio do gabinete do agente. Sem pressas, sem gritos, mais se diria o relato murmurado de acontecimentos vividos em horas más, feito, em confidência, por uma Mulher que sofria a um Amigo disponível para ouvir, aconselhar e guiar.

Conquistar a confiança

O Adriano começou por conquistar a confiança da Joaquina, que lhe foi relatando, primeiro entre longos silêncios, depois de forma cada vez mais fluente, o seu dia-a-dia, em casa e no campo, a educação dos filhos e a sua posterior saída de casa em busca de melhores condições de vida, a convivência com o marido, a sua grande fé em Nossa Senhora de Fátima.

Depois, pouco a pouco, foi-se abrindo acerca da relação com o marido, da fraqueza do Álvaro pela bebida (“coitado, era mais forte do que ele”), da agressividade de que, nos últimos anos, foi revelando para com todos e até para com ela (“eu perdoava-lhe porque ele não era mau homem”). Descreveu a doença do marido, a promessa que fez, se ele se salvasse, de ir a Fátima fazer de joelhos vinte e quatro voltas em redor da Capelinha das Aparições, dos médicos que tinham consultado.

Ganha a confiança da mulher, o Adriano passou a acentuar a vida de martírio da Joaquina, os maus-tratos, as brutalidades, os insultos, as injúrias, o medo, as noites sem dormir... Tendo começado por minimizar esse tempo de sofrimento, a Joaquina passou a reconhecer sem custo a verdade do quadro que aquele “Senhor Agente” – “tão simpático e humano” – lhe descrevia.

Um peso na consciência

E passou ela própria a relatar com pormenor os actos de maior violência que sofreu e as circunstâncias de tempo e lugar em que os mesmos tinham ocorrido. Passada essa etapa de auto-comiseração, partilhada em confidência, era chegado o momento de explorar o sentimento de culpa da Joaquina: “Não compreendo como uma Mulher como a Senhora consegue dormir com esse peso na consciência”...

E, perguntado sobre que peso seria esse, ele continuava, como se não a tivesse ouvido: “Verá como se vai sentir muito melhor depois de contar tudo, mas tudo, o que fez. A Justiça saberá avaliar o seu sofrimento, o martírio que sofreu, o estado a que chegou”. O interrogatório do Adriano não esqueceu o sentimento de superstição religiosa da detida, sempre associada à noção de culpa, ao remorso.

Assim: “o Álvaro não lhe aparece em sonhos? O que é que ele lhe diz? Não acha que ele também precisa de ter sossego no outro mundo?”. Ou então: “Se tem fé em Nossa Senhora de Fátima, porque não lhe promete que irá ao Santuário logo que cumpra a sua obrigação para com a sociedade?” “A propósito: desde quando não vai a Fátima?”. A resposta surpreendeu-o: “Fui lá já depois que o meu homem morreu – levei uma vela de cera com a altura dele”. “Foi lá pedir perdão a Deus e a Nossa Senhora?”. A mulher não respondeu.

No dia seguinte, ao cair da noite, bateram à porta do meu gabinete. A porta entreabriu-se e o Adriano espreitou. Mandei-o entrar. Vinha emocionado, com os olhos marejados de água. “O que é que se passa?”, perguntei eu. “Já confessou, Senhor Dr., a Joaquina já confessou”.


Uma lágrima escorreu-lhe pela face, ao mesmo tempo que o tique lhe fazia subir e descer a maçã do rosto. “Porque é que está a chorar, Sr. Adriano?”, não resisti a perguntar. Olhou-me com surpresa: “É o meu trabalho, é a vida de um polícia, Senhor Doutor.”


GOA, AMOR MEU



Cataratas e camaradas

Antunes Ferreira

O jeep salta sobre um caminho de cabras que me faz recordar as picadas de Angola, onde, por vezes, passei por momentos angustiantes, com a adrenalina em explosão, no receio de uma outra, mas esta de mina armadilhada na terra vermelha ou no capim. Aqui não há bombas. Há um solo pedregoso, esburacado de crateras, plantado de calhaus, debruçado sobre ravinas, atravessado por cursos de água limpidissima.
E o verde matizado numa paleta gigante da mata que nos abraça e nos acaricia.

Partíramos de Panjim com a finalidade de visitar algumas coisas interessantes do interior de Goa. Em especial, a Cascata de Dudhsagor, uma das maiores da Índia. Em Konkanim significa "mar de leite" (dudh=leite e sagor=mar) que se encontra no distrito de Sanguém, na fronteira com o estado vizinho, Karnataka.


Cedinho para, no caminho para a catarata, chegar logo que possível onde nos desse a realíssima gana. Ao volante do Tourist Taxi o seu proprietário
o Premanand, de apelido Pednekar. É uma carrinha Maruti-Suzuki, pequenota mas agradável, escrupulosamente limpa, o que já começa a ser vulgar por aquelas bandas. O nosso condutor é um tipo simpatiquíssimo, hindu. Ele diz orgulhosamente que é goan. De Fattawada, Bardez. Um dia inteiro – oitocentas rupias. Carro e condutor, sem esmiuçar as quilometragens. Pouco mais de 13 euros. Leram bem – treze.

Em casa os pais, agora falecidos, falavam Português. Por isso entende umas coisas, o que lhe permite exibir um teclado impecavelmente branco na boca aberta, rodeada por pele morena escura. Quando apanha uma palavra, uma expressão mais fáceis. Ri-se, assim, quase continuamente, o que não o impede de conduzir excelentemente, num tráfego que se pode caracterizar por um só qualificativo: caótico. O meu Pai sempre me disse, filho não troques um Amigo por uma punhada de rupias. Concordo. Bom Pai.

Percorrer as estradas do mais pequeno estado da Índia não é muito aconselhável para quem tenha o coração maricas, não habituado a tais trotes. As vias são, normalmente, estreitas, para não dizer mesmo muitíssimo apertadinhas. Quando estive pela primeira vez, lá vão 27 anos, na antiga colónia portuguesa, já então parte integrante da Índia, foi um susto permanente que se apossou de mim. Durou dois dias.

Ao terceiro – ponto final, parágrafo. Já me habituara à confusão desorganizada do trânsito. Disse-me então um familiar de minha mulher, natural de Raia, Margão, Salcete, como consta de certidão de nascimento que refere ainda, do sexo feminino e raça ariana, que era preciso entender o que ali se passava. E explicou-me que havia terras em se circulava pela direita, outras pela esquerda e em Goa… pelo centro. Palavra de honra que nunca conduziria naquelas paragens. Ainda para mais, o que não me abunda são qualidades de condutor com o volante… à direita.

Experiência adquirida em múltiplas viagens à Índia, levou-me a concluir que essa desorganização organizada das roads do país era regra geral. A partir daí, paciência, resignação, desprendimento e impassibilidade q.b. polvilhados de laivos de cagaço à vontade do freguês, tornaram-se na minha bíblia rodoviária. Matso upcar cor, façam o favor de acreditar.

Passamos por Pondá, a caminho de Molem. É ali que deixamos o Premanand e o seu táxi para tomarmos um todo-o-terreno bom. Com molas a preceito, para se ultrapassar cursos de água – naturalmente a vau – ou atravessar para a outra margem por diminutas pontes que não sei se vos diga se vos conte. Para arrostar com as crateras do solo, para pisar os calhausões do mesmo. Uma viagem interessantíssima, o condutor e guia são magníficos, estabelece-se de imediato uma cumplicidade sem fronteiras. Esta malta de Goa é bué de fixe, diriam os meus netos. E é, acrescento eu. Excelentes camaradas


Chegados ao estacionamento antes da cascata – que se vê ao longe, escorrendo pela montanha, posso sentir o seu espumar como se estivesse junto dela, há que seguir um trilho a pé. Vão minha mulher e um Amigão, o António Guimarães. Eu, gordo, King Kong size, receoso da circulação duvidosa (pior que a das estradas) das minhas pernas – e das minhas banhas – não me aventuro, fico-me ao pé de macacos brincalhões. Faço uns bonecos com a digital. De Dudshagor, à distância. Confio nos valorosos aventureiros para ultrapassar a falta de mais fotos motivada por este descanso. Preguiça é o que é.

O guia, que ficou a acompanhar-me, vai-me falando da ponte do caminho-de-ferro que passa por cima das quedas. Sublinha que foi feita no tempo dos Portugueses, aliás para recordar, sempre foram 451 anos que estes pequenotes do extremo sul da Europa por ali andaram, por ali viveram, por ali casaram, por ali fizeram filhos, por ali repousam no solo eterno.


À volta, os goeses – bons camaradas – cantam um mandó, que minha mulher acompanha numa toada de mais ou menos. Para a música, Raquel dixit, tem pouco ouvido. Nenhum, acrescento. Esqueceu praticamente o Konkanim, mas vai readquirindo alguma coisa, pequena. Diz ela, bastas vezes, que eu sou mais goês do que ela, nada e criada naquela terra bendita. Feitios. Respondo-lhes com É uma casa à Portuguesa, com certeza, cuja música eles sabem de cor. E até algumas palavras. Cenas de um quotidiano gargalhado e sensacional.

Eis-nos de regresso. Premanand volta a sorrir abertamente, voltámos safe and sound, sãos e salvos, comenta no seu inglês muito aceitável. And in good shape, acrescenta. Respondo-lhe Deu borem korum, muito obrigado, e ele atira um de nada acompanhado de sonora gargalhada. Ainda dá tempo para passarmos por um templo da altura da dinastia Kadamba, que hoje é título dos autocarros de uma transportadora que usa esse nome.

Vamos até Margão, para fazer visita de médico a primas da minha mulher. Que nos têm preparado uns bojés com chutney de coentros e, espanto para quem não está habituado, croquetes à boa maneira portuga. Eu estou e por isso não me atendo a frioleiras e avanço nuns e noutros. Elas, que já me conhecem de ginjeira nem se admiram com o meu gosto – e apetite – por picantes. Sou mesmo um pacló goês.

O sol vai caindo no poente, a caminho de um descanso que só terminará na alvorada do dia seguinte. São lindos os poentes de Goa. Como é tudo lindo por aqui. Deu bori ratt dium, boa noite. Diziam os antigos que quem viu Goa não precisa de ver Lisboa. Para um lisboeta empedernido mas um tanto farto desta cidade das sete colinas, a antiga Gomantak é na verdade um paraíso. E não é preciso os guias turísticos e as agências de viagens carregarem na tónica. É que Goa é mesmo.

E o Premanand à despedida, face à ausência de programa para o dia seguinte: amanhã não tem. Em bom português. E, vejam lá, sorri. O malandro não perde pitada.

(Fotos do António Guimarães, as boas, e minhas, as menos boas. Cada um é pró que é e não vás sapateiro alem da chinela)


quinta-feira, janeiro 10, 2008

À ESQUINA DE HOJE

Computas & computas

Antunes Ferreira
Juvenal diz que os seus cinco netos são todos dados às informáticas. Nos almoços familiares lá na casa, que decorrem desde há uma caterva de anos – há mesmo quem diga que assim acontecia logo no Paleolítico Inferior - com uma regularidade impassível, muitas vezes se tem discutido, naturalmente com bons modos, que a família é civilizada e cívica, a questão.



Dona Deolinda, mãe extremosa, mesmo um tanto galinha, tem uma opinião que brande como se fosse o Rolando a combater com a Durandal na mão destra. As crianças, quando nascem, já vêm dotadas de um chip, daí que saibam tanto de computadores, telemóveis, game boys, ipods, internetes e coisas dessas. Para eles é tudo natural. Na generalidade, regista-se um apoio quase sem reticências à digna Senhora. Já na especialidade o caso fia mais fino.

Seja permitido ao escriba uma nota complementar, dir-se-ia mesmo uma adenda. Abra-se, portanto, aqui e agora um parêntese que oportunamente se fechará. Isto porque, sabendo-se que há pessoal com dotes culturais acentuados, alguns perto, mesmo, dos enciclopedistas, que o Senhor Rousseau não leia esta heresia, muito do Povo comporta-se ainda como arraia-miúda que foi e ainda é.

Ora muito bem. Trata-se da espada antes mencionada. Perguntarão – mas que espada? A Durandal. Ora essa, tínhamos passado por cima disso, ao jeito corrido da leitura despretensiosa e vem agora este com erudicites agudas. Homem, tenha maneiras. O autor, ciente da razão que lhe assiste, bem como de algumas carências a esse nível, apesar das Novas Oportunidades, dá por bom prosseguir na senda do esclarecimento adicional.

Anda por aí muita discussão sobre a iliteracia dos Portugueses, ou, pelo menos, de uma boa parte deles. Saber ler é importante; mas entender o que se lê é ainda mais, diz quem sabe destas coisas a que, por vezes, uns quantos energúmenos chamam frioleiras. Não se afaste, porem, o escrevinhador, do rumo que traçou, ainda que deva ser breve e conciso, para voltar aos informáticos.

Conta a Chanson de Roland que, na sequência da tentativa de invasão pelo exército de Carlos de França à Espanha, então muçulmana, que se iniciara no ano de 778, e face à revolta dos saxões em terras francas, o rei decidiu retirar para apagar esse fogo que ameaçava consumir-lhe internamente o reino. Deixou, porem, para trás, o seu sobrinho, o grande cavaleiro Rolando, comandando um grupo especial, para defender a retaguarda.

Nos Pirinéus, as passagens eram e são estreitas. Rolando recua cuidadosamente. Mas, em Roncesvalles acontece o inesperado. Os mouros que aproveitavam o momento para uma contra-ofensiva, foram substituídos pelos bascos, os quais, aos milhares, depois de emboscada terrível, e já acompanhados pelos sarracenos, deram cabo da tropa de Rolando, segundo a Canção o último a morrer.

Coisa estranha essa aliança de cristãos, os bascos, com infiéis, os mouros. Mas que foi, foi. De tal sorte que, na arrevesada língua da região, o nome por que ficou conhecida a Batalha de Roncesvalles foi Orreaga’ko Gatazca. Vá lá compreender-se essa gente, dona de um idioma quase tão complicado como o húngaro ou o finlandês. Feitios.

Terminando. Vendo-se perdido e com a morte já bem chegada a ele, Rolando não quis que a sua fiel espada Durandal caísse em mãos inimigas. Num último esforço, tentou quebrar-lhe a lâmina contra a rocha do local. Mas ela não se partiu. Reza outra versão da lenda que o cavaleiro chamou então em sua ajuda o Arcanjo São Miguel, ao mesmo tempo que ainda conseguiu arremessar para o vale a Durandal que tantas glórias lhe tinha propiciado.

No entanto, a malfadada arma, pior do que um fórmula um ainda que com espionagem industrial, atravessou miraculosamente centenas e centenas de quilómetros, indo finalmente fixar-se no rochedo de Nossa Senhora de Rocamadour, onde ainda hoje pode ser admirada. Si non e vero, e bene trovato. Fecha-se, como há sete parágrafos se prometera, o parêntese. Só agora?

Por conseguinte, os infantes hodiernos – bonita expressão, não acham? – já saem da linha de fabrico dotados de chip especial. Daí a aptidão natural para esses temas que metem (ou metiam, corre tudo tão depressa) circuitos integrados e correlativos, deixando a anos-luz de distância um qualquer pobre e infeliz Silicone Valley.

Dando de barato que assim é, e concordando, assim, com a Dona Deolinda Carvalho Marques e Mendes, e, acentua-se, não admira a ninguém que esta seja uma geração cibernético-informático-internética. Ou pior. Tente-se pedir a um bebé que começa a balbuciar os primeiros sons vocálicos que diga otorrinolaringologista e ver-se-á a reacção da amantíssima progenitora da criancinha.

Perfeito. (Para alem de andar com o leão ao peito). Estamos, por conseguinte, perante o Homo Interneticus, ou Homo Senhorbillgaticus. Já havia muitas outras categorias de Homo ao longo do percurso histórico. Desde já, uma advertência: isto, por mor do H nada tem a ver com afirmações publicitárias, por mais detergente que a questão seja.

Vejam-se, na decorrência dos homínios, quando começaram a descer das árvores, (muitos ainda parecem lá estar) o Homo Habilis, o Homo Erectus, o Homo de Neandertal, o Homo Sapiens, o Homo Sapiens Sapiens. Longa lista que ultrapassa os tempos, calcorreia os séculos, dá água pelas barbas aos calendários, relógios & afins.

Sendo assim hoje em dia, o que está a dar – ou, pelo menos, parece que – é o engenheiro informático. Há uns decénios era mais o advogado, o médico, o arquitecto, paulatinamente ultrapassados pelo economista. Logo seguido pelo financeiro e pelo auditor, tudo carreiras de êxitos, ainda que o desemprego em Portugal venha aumentando. São assim as coisas.

Um irmão do Juvenal, que é técnico de contas, tem uma técnica muito especial de contar contos. Histórias, quer-se dizer, que os outros já passaram à História. Ou, melhor, estórias. Juvenal Pinto Mendes, no caso sem e, que o referido e último apelido é dele, herdado do Pai que Deus tenha, tem barrigadas de riso com as anedotas do mano Cristóvão.

Dê-se, portanto, a palavra a este Mendes que numa dessas reuniões familiares avançou. Com a importância da Informática, surgem a todo o momento situações nas quais convém atentar. Muito se fala de computas, de modems, de baterias de note bukes, dessas coisas todas. Um exemplo era o engenheiro Malaquias.

Galguista, por vezes a roçar a impertinência, o chefe dizia a má educação, mas competente, ainda que um tanto desactualizado. Numa tarde de Inverno, chuvosa e fria, lá no escritório, a engenheira informática Gabriela Sarda, sua colega na empresa Ratosofte, estava a ajudá-lo a configurar o computador e perguntou-lhe que password ele queria utilizar. Malaquias Matias, tentando atrapalhá-la, disse: - Pénis.

Ela, sem dizer uma palavra, muito menos rir-se ou rir ou dar parte de fraca,introduziu a palavra-chave no computador. Desde então, corre à boca pequena na companhia que nunca ninguém vira – e nunca mais tornaria a ver – o Malaquias tão envergonhado. Os risos foram tantos que até o Presidente do Conselho de Administração saíra do seu gabinete para apreciar o que estaria na origem daquela girândola de gargalhadas. Aliás, a Gabriela foi a primeira a não conseguiu resistir e quase que morria de riso quando a máquina deu a resposta: "PASSWORD REJEITADA: NÃO TEM TAMANHO SUFICIENTE".

(Com a amável colaboração da Filomena Caetano, a quem agradeço ser tão boa Amiga e me ter enviado a mensagem que está na origem deste escrito).

terça-feira, janeiro 08, 2008

MAIS EMBRULHO NOVO


Três Amigos do peito

Antunes Ferreira



Manuel Parto era um advogado do mais alto gabarito. O seu escritório Parto, Parto, Dores, Ambrósio & Associados tinha uma dimensão de alto lá com o charuto. No fundo, era o maestro de uma orquestra que tinha todos os instrumentos e já tocava de cor as pautas mais difíceis. Do Civil ao Crime, do Comercial ao Fiscal, incluindo naturalmente o Comunitário, nada tinha segredos para o Parto, etc. & Associados.

Ocupava um edifício moderníssimo, ali para os lados do Rego, todo vidros/espelhos, inteligente, funcional, super eficiente e carregado de dignidade com os gabinetes dos causídicos, a começar pelo do boss, em carvalho maciço ou outras madeiras carregadas de carácter, alcatifados em tons discretos como discretas eram as paredes.


Numa atmosfera de ar condicionado central, colaboradoras e colaboradores demonstravam à saciedade a competência profissional que tinham como atributo para a lida quotidiana. Do equipamento informático, nem falar. Plasmas, internet e coisas assim tinham-se tornado tão importantes que nem valia a pena acentuá-las. Existiam porque eram necessárias, úteis, essenciais, incontornáveis.

Aos clientes à espera da consulta, em salas de conforto absoluto, eram proporcionados todos os mimos e mordomias. Nas paredes, quadros de artistas contemporâneos com grandes molduras doiradas proporcionavam-lhes a possibilidade de conviverem com a beleza, de acordo com os parâmetros mais actuais.

João Direito era médico. Professor universitário, especialista em urologia, operador no Hospital Central e na sua clínica privada, empunhava o bisturi ou a faca de laser com o mesmo à vontade com que ensinava na Faculdade de Medicina. Os pacientes, quando a ele recorriam, podiam ter a certeza absoluta de que estavam em boas mãos.

O consultório, na Avenida da Liberdade ocupava três andares, tantos os gabinetes e as salas de doentes, tantos eram os especialistas que ali trabalhavam sob a sua direcção. Música ambiental, empregadas impecáveis nos seus uniformes alvos, alem disso boas, atendimento verdadeiramente personalizado, um luxo.

E que dizer da Clínica do Rosário? Maria do Rosário, sua esposa, também médica, obstetra, era a homenageada. Quatro filhos, os Carpinteiros eram católicos, tinham votado não, obrigado, no referendo, todos licenciados, todos com mestrados, todos a caminho da cátedra. Pois a Clínica era um brinquinho. Um verdadeiro mini hospital. Trinta camas, bloco operatório, laboratório de análises, exames os mais sofisticados, até ressonância magnética.


Os seus doentes confiavam nele, uma sumidade, no diagnóstico, excepcional, na terapia, inexcedível, no cuidado posto na consulta, em tudo, resumindo e concluindo, incontornável. Para além disso, um Mestre que dava aos seus alunos uma contribuição importantíssima para cumprirem o juramento de Hipócrates.

De resto, tinha-o em pergaminho emoldurado na parede por detrás dele, no consultório e no gabinete de Director da clínica. Sem jactâncias, muitos menos enroupado de arrogante, que não era, dizia a quem o queria ouvir que sempre se esforçara por cumprir esse excelso documento, mesmo ainda, quando estudante, já participava nas visitas aos pacientes acamados no Hospital Universitário. Usava o estetoscópio como quem usa uma camisa, naturalmente.



José Tendeiro era engenheiro civil, verdadeiro, obviamente com diploma, do Técnico, inscrito na Ordem, também professor, no seu caso do IST, com uma empresa de consultoria de alto gabarito e um atelier que nem sei se vos diga, se vos conte. Não se pense que se ficava apenas pela construção, o que já seria muito.

Por isso, tinha a trabalhar com ele mais colegas de profissão, civis, electrotécnicos, de ambiente, electrónica, industriais, informáticos, de materiais e sei lá que mais. Quase esgotava o rol de licenciaturas do Instituto. Além disso, arquitectos, também de todas as qualidades, feitios e tamanhos, desenhadores, um Mundo.

Contar as obras em que fora, e era, e seria responsável máximo, era tarefa impensável. Só por exemplo, em pontes, comparavam-no ao Edgar Cardoso, o que ele dizia ser um exagero, se bem que com um sorriso condescendente na face glabra. Concurso público em que a firma entrasse era meio caminho andado. Por isso, os amigos chamavam-lhe, por vezes, Código Postal.

Postal, o tanas, respondia sem o eterno sorriso afivelado na face, mas antes com uma sonora e saudável gargalhada: no meu caso é mais… portal. No último Dia da Raça – condecoração graúda da Ordem do Infante. Fora, por duas vezes, bastonário, mas abandonara. É muita areia para a minha camioneta, dizia, com mais umas gargalhadas altissonantes.

Estou velho, ainda uso expressões decrépitas, os meus netos chama-me cota, mas dizem que sou bué de fixe, porque me acham muito divertido. Tinham razão, os putos, Tendeiro era alegre, amigo da brincadeira, com uma ironia por vezes muito subtil, de outras mais espalhafatosa, pois, pois, J. Pimenta.

Exímio contador de anedotas, como sublinhava, de todas as estruturas, desde as mais contáveis – agora dizia-se politicamente correctas – até às arde e core. Que reservava para ocasiões muito especiais, por vezes só para homens e adultos com sólida formação moral e cívica, outras perante a gulosa atenção de senhoras sem falsos pruridos.

Os três eram Amigos com caixa alta desde os bancos primários da Escola Mouzinho da Silveira, ali frente ao antigo horto de Lisboa, de onde tinham transitado para o Camões, sempre na mesma turma até ao quinto ano, a partir do qual seguiram alíneas diferentes. Nem quando estavam na guerra colonial – em que participaram por não terem cunhas para a não fazerem – haviam deixado de se corresponder.

Hoje, sessentões, costumavam-se reunir no Grémio, de que eram sócios. Era ali, aliás, que o Tendeiro, beberricando o seu uísque velho, perguntar: vocês sabem a última? Se não disseres, não sabemos, claro. Como vinho tinto, acrescentara o engenheiro. Então, lá vai. Qual a diferença entre um sexagenário e um septuagenário?

Os outros dois entreolharam-se, vinha aí galhofa, ó pá conta lá que deve haver marosca. Não sabem, ponto. Deixa-te de fitas e continua. Bem, o sexagenário ainda se tenta; o septuagenário só se senta. Uma risada geral, de tais decibéis que os outros sócios olharam de viés para eles, numa crítica silenciosa.

Foi então que o Parto avançou, com coisas sérias. Estive a pensar que os anos vão passando, quando vinha para cá, no carro. Até falei ao motorista que ficou horrorizado ou, pelo menos, fingiu que sim. A questão é muito simples, mas creio que pertinente. Em julgado, defensável. O que é que vocês mais gostavam que as pessoas dissessem no vosso velório?

Porra de ideia! Só tua, és um chato. Não se chateiem, começo eu disse disse João Direito. Está ali um grande benfeitor da Humanidade. Um médico ilustre, sabedor, precioso. E, sobretudo, magnífico no trato com as pessoas. Consultas gratuitas aos pobres – um ror delas. Alma boa, espírito brilhante, profissional incomparável. Um Verdadeiro Senhor.

Parto, para alem de ter sido o da ideia, sorriu. Um verdadeiro apóstolo da Verdade e da Justiça. Homens assim já não existem. E, para alem do mais, profundo conhecedor. Desde a barra dos tribunais como advogado sublime, uma oratória empolgante, até jurisconsulto de gabarito internacional, sabia de tudo. É uma enorme perda para este País e para o Mundo.

Era a vez do Tendeiro, que não se fez rogado. Pois meus Amigos, o que eu mais gostaria que dissessem no meu velório era, muito simplesmente – olha parece que o gajo abriu os olhos. Nessa altura sim, nessa altura os outros presentes reclamaram das gargalhadas altissonantes. Um verdadeiro escândalo.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

COM NOVO EMBRULHO

Que tu mates

Antunes Ferreira
Aos 15 anos, Julinha era a imagem viva da mulherzinha a desabrochar. Os seios tinham crescido na medida certa, pontudos, firmes, a prometerem futuro mavioso – e ela sabia disso. Curvas não lhe faltavam, nos locais certos, distribuídas harmoniosamente, verdadeiro refrigério para os olhos dos rapazes que voltejavam em redor dela, borboletas deslumbradas pela luz que distribuía em cada sorriso ou, mesmo, num que outro beicinho de amuo, aliás passageiro.



Frequentava o Liceu Nacional D. Filipa de Lencastre, plantado ali no meio do bairro social do Arco do Cego. Boa aluna, popular entre as colegas, ia então no quinto ano, com exames finais a letras e a ciências. O ano lectivo aproximava-se do fim, um quase Verão temporão dava-lhe um calorzinho a prenunciar praia. Era mister, porem, ultrapassar a época das dores de barriga que se avizinhava perigosamente.

Rezava o Bilhete de Identidade que o seu nome completo era Júlia Maria dos Santos Carvalho, filha de e de e por aí fora, natural da freguesia de São Sebastião da Pedreira, concelho e distrito de Lisboa. Diga-se já que dali era um ror de gente, por mor da Maternidade Alfredo da Costa, empresa fornecedora de meninas & meninos, SARL. Lisboeta que se prezasse era da dita freguesia e no Arquivo de Identificação os registos eram já feitos de olhos fechados.

Mocinha ainda, ela começara a encabeçar um bando de raparigas que, por tal motivo, era conhecido no Filipa e não só como o gang da Julinha. E a sua melhor amiga, Célia, era a vice.


Corria o ano de 1960, e o Liceu aprestava-se para comemorar o seu vigésimo aniversário. Coisa fina, aquela ideia do ministro Duarte Pacheco de construir um novo edifício, de raiz, para substituir o velho palacete que durante alguns anos albergara as alunas excedentárias do Maria Amália, rebentado pelas costuras.

Daí o facto de o alvoroço da preparação festiva se juntar às preocupações das candidatas a examinandas. Daí a razão das miúdas andarem, muito mais do que habitualmente, numa verdadeira roda-viva. Daí a excitação concomitante, daí tudo o que a acompanhava e as acompanhava, a elas, protagonistas de segundo plano, a boca de cena reservada aos que iriam botar faladura, rezar missa solene, ou assim.

De qualquer modo, o orfeão e o grupinho de teatro da Mocidade Portuguesa tinham programadas intervenções destacadas nos actos comemorativos. E Julinha era solista (o Carlos, do Camões, pretendente a namorado incipiente gostava mais de lhe chamar vocalista, mas o termo era um tanto a modos de como quem diz, lembrava logo a Madalena Iglésias, a Simone de Oliveira, a Maria de Lurdes Resende…) e gostava de o ser. Adorava cantar.

Qualidades não lhe faltavam, portanto. Mas, há sempre um mas, não há bela sem senão. Era uma conversadeira profissional, do que não vinha mal ao Mundo, mas… nas aulas. A sôtora Margarida, de matemática, engalinhava com isso. Paleio, paleio, nisso é especialista, rapariga! Notas boas, mas quanto ao procedimento, torço o nariz. Vê lá se te calas, pelo menos para as outras poderem ouvir o que eu digo!

Era assim a vida por aqueles tempos, em que a guerra ainda não começara no «nosso Ultramar», vinda de fora, programada e executada pelos criminosos comunistas, e Portugal preparava-se para defender a civilização ocidental a todo o custo e ao preço correspondente. Porem, Julinha não era dessas coisas. Em casa, o pai defendia sempre que não era político, nem queria sê-lo. E rematava, solene: para mim, o essencial é o chuto na canela. Quem não é do Benfica – não é bom chefe de família!


Para chegar ao Filipa, de manhã, e voltar para casa, no Restelo, da parte da tarde, ela tomava a carreira 12, que saía de Algés, passava pela Meia Laranja, na Maria Pia e pelo Marquês, até chegar ao Arco do Cego. Viagem rotineira, sem motivos para exclamações, uma que outra discussão em redor de um lugar vago, coisas assim, confidências de vizinhas que trabalhavam fora, alguma cena entre vale de lençóis, em voz camuflada, está visto.

Tinham acabado de aparecer, à moda de Londres, os autocarros de dois andares. Uma admiração, por vezes boquiaberta. Julinha deliciava-se com a possibilidade de viajar no piso de cima. Outras vistas sobre a parte da cidade que atravessava, sobretudo Alcântara, lá em baixo, a estação dos comboios, ao longe o aqueduto. Lisboa sabia-lhe bem, sabe-se lá a quê, se calhar a castanhas assadas ou a algodão doce.

A mãe passara a recomendar-lhe atenção reforçada, cuidado redobrado, vê se cais, as escadas para o andar de cima são muito estreitinhas, melhor era que viajasses cá em baixo, é outra coisa. As galdérias é que gostam dessas alturas parvas, uma menina como deve ser, o teu caso, não deve subir, podem ver-se-lhes as roupas íntimas, os homens cá em baixo não perdem pitada – e são todos iguais.

Não dizia, (o respeitinho era muito bonito) obviamente, mas comentava para dentro de si mesma, e eu ralada, tal como afirmava o Vasco Santana na Canção de Lisboa, só que para ele era e eu ralado. Mas, nada de confusões. Olha, quem diria, também lembrava um slogan publicitário apelando ao civismo: nada de confusões; ruas prós automóveis, passeios para os peões. Por isso, boca calada, não fosse a progenitora chatear-se – e segundo andar no autocarro.


Nessa manhã, colada ao vidro da janela embaciado pelo frio e chuva, quando o bicharoco se preparava para começava a subir a Maria Pia – o espanto. Na paragem, a receber passageiros, bastantes, imobilizara-se, ainda que transitoriamente. E, de repente, olhando para fora, vira através de uma janela aberta um homem todo nu, a fazer ginástica sueca.

Tapou os olhos com as mãos, mas deixou os dedos abertos para não perder pitada daquele espectáculo matinal, flecte, flecte, insiste, insiste, o corpo musculado, via-se tudo, tudinho. E o autocarro arrancou, a imagem desnuda ficou para trás, a excitação apoderou-se dela. No liceu é que havia de ser bonito, quando contasse o que vira às colegas. E revira, tal como nos compêndios de estudo.

Primeira aula, de Português. Verbos, conjugações, conjuntivos. E ela a metralhadar: o rapaz – pois era um jovem atlético, tinha-lhe parecido uma estátua grega, mas viva – era um bonitão, um pedaço de chupar os dedos. E as colegas, Julinha, foi mesmo assim, ele estava despidinho? E tu viste-o bem? Olaré se vira. Nem camisola interior e, sobretudo, nem sombra de cuecas.

Risinhos pouco encapotados, e que tal? E gostaste? Ganda sorte! A mim nunca me aconteceria tal, sou uma desfavorecida desditosa, como seria bom, um homem todo nu e a ginasticar logo de manhã. Sortuda! O arrulho subiu de tom, a sotôra Mariana frisou o cenho, Julinha és sempre a mesma, cada vez mais subversiva. No bom sentido do termo, está visto.

E já que não te calas, vais conjugar o verbo matar no conjuntivo presente. Oxalá não dês para o torto, ainda te ponho na rua, ficas a falar sozinha no pátio, bem mereces. Vá, avança. No conjuntivo presente? Foi isso mesmo que eu disse. Deixa-te de evasivas e ala que se faz pressa. Pronto. Que eu mate, que tu mates, que tu mates, que tu mates… Rapariga, pareces um disco rachado, de repetição. Que se passa? Ai, sotôra, que tu mates, que tomates, que tomates sotôra, que tomates!!!

terça-feira, janeiro 01, 2008

COM NOVO EMBRULHO

Que a Pátria vos contempla


Antunes Ferreira
N
ão havia como ele no que dizia respeito ao respeito, estima e consideração – e permita-se verdadeira adoração – por Sua Excelência o Senhor Professor Doutor Presidente do Conselho. De tal forma que, seguindo escrupulosa e ditosamente as excelsas determinações do Salvador da Pátria, honrava a memória, sublimava os desejos de manter a fé e o império, em resumo, tudo pela Nação, nada contra a Nação.

Feito o Serviço Militar, 38 meses, dois anos a defender o nosso Ultramar na Guiné, como soldado, Jerónimo Perpétuo da Silva era, agora, continuo no Ministério das Corporações. Como sempre, dedicado, trabalhador – cumprindo os estatutos da União Nacional a que pertencia «quase desde a fundação, da UN, não da nacionalidade – atento, venerador & obrigado, era um dos homens de confiança do Senhor Ministro. Alto lá: um dos, não; o homem de confiança, sem mais ressalvas ou dúvidas. E por isso, não hesitava: a minha política é o trabalho. Ponto.

Fazia parte Legião Portuguesa, naturalmente. Terço da Graça, junto ao Regimento dos Serviços de Saúde. E não enfileirara na Mocidade igualmente Portuguesa porque ainda não era nascido quando a prestimosa organização juvenil fora iniciada por Decreto-Lei em 1937. E ele só era da colheita de 47. Uma pena. A LP era uma milícia patriótica que estava sob a alçada dos Ministérios do Interior e da Guerra. O seu objectivo era "defender o património espiritual da Nação" e “ impedir a ameaça comunista”. Excelentes propósitos.

Contavam os mais velhos nacionalistas que durante a II Guerra Mundial a Legião fora o único organismo português que se colocara sem tergiversações ao lado das intenções de Hitler. Nada mais justo e justificado. Nos anos 60 que estavam a terminar, a sua acção caracterizava-se pela perseguição e repressão às forças oposicionistas, principalmente aos malditos comunistas. Para tanto contribuía e bem o seu Serviço de Informações e a sua vasta rede de desinteressados e patriotas informadores.

Na Organização continuava raso como fora na tropa. Um verdadeiro pau para toda a obra. Era diligente, activo, aprumado, disciplinado – mas não passava da cepa torta. Tinha aspirações, quiçá mesmo ambições – subir na vida. Tudo ali o empolgava, a farda esverdeada, o erviço, o apresentar armas. Acresce que, do que nela mais gostava era o hino, que, ainda que desafinado, cantava a plenos pulmões.

«Nós teremos que vencer, nada temos a temer, da invasão comunista. Já existe a Legião, ao vento solta o pendão, dá combate ao anarquista. Não voltamos ao passado, acabou o revoltado, disso temos a certeza. E mais tranquilos andamos, porque todos confiamos, na Legião Portuguesa. Reparai no seu marchar, os braços a oscilar, elevando a mão ao peito. Garbosos e aprumados, são verdadeiros soldados, da ordem e do respeito. Ele é um soldado unido, quer na paz ou quer no perigo, o seu lema é avançar».

E terminava, tonitruante: «Respeita o seu comandante, gritando sempre: Avante!, Por Salazar! Salazar!» Peito feito e cheio, orgulhoso e virtuoso, apenas tinha o senão atravessado – não ter chegado a amanuense, a terceiro oficial, sabe-se lá, a segundo. Mais do que isso, impossível. Um dia, encheu-se de ânimo, coragem nunca lhe faltara, e quando levou o cafezinho ao Senhor Ministro, deu-lhe conta da sua angústia.

Ó Jerónimo, isso resolve-se. Tu só precisas de fazer a quarta classe. Dás muitos erros de ortografia? Nada, alguns, poucos, uns zzz por uns sss, uns sss por uns ççç, coisa pouca, até fechava, assinando, todos os dias os livros de ponto. De contas, fazia as quatro operações e muito gostava de multiplicar. Ora bem. E de História? Aí é que a porca torce o rabo, com o devido respeito, Senhor Ministro. Vossa Excelência sabe, é tudo muito complicado, muitos reis, muitos marujos, muitas guerras, muita confusão.

Vais fazer o curso para adultos, iniciativa meritória da Situação, e se for caso disso, o Dr. Fonseca ajuda-te, explica-te algo de que necessites. O Dr. Fonseca era adjunto do Senhor Ministro – e assim foi. Horas a fio embrenhado no compêndio do José Relvas, decora aqui, esquece acolá, não entendo patavina desta porra, mas se é preciso, o que tem de ser tem muita força.

Exame na Escola 37 ali à Pampulha. O Senhor Ministro dissera-lhe na véspera, que as provas escritas, sabia ele, tinham sido boazitas, agora só faltava a oral. Nada de nervoso miudinho, nada de tremuras: o examinador já sabia quem ele era, estava certo de que lhe facilitaria a vida, mesmo com uma ou outra calinada, a coisa daria para o certo. O próprio Dr. Fonseca falara com o professor e dera-lhe conta do interesse ministerial.

Pelas nove da manhã, ei-lo na carteira de examinando, ciente de que iam ser favas contadas. Bom dia, Senhor Jerónimo Perpetuo da Silva. Sei muito bem dos seus dotes morais, do seu empenho, da sua perseverança. Do seu apegado amor à Causa. Do seu patriotismo. E da sua esperança de melhores dias profissionais. Vai tê-los, estou certo. Não se precipite, pense antes de responder.

Então quem foi o descobridor do caminho marítimo para a Índia. As engrenagens cerebrais, de tanto trabalharem, quase se ouviam na sala apinhada de gente, a maior parte verdadeira claque de apoio, mas respeitosamente calada. Foi o Senhor Professor Oliveira Salazar.

Olhos franzidos, os do mestre. Não se preocupe, não se enerve, respire normalmente, descontraia-se, aqui ninguém lhe quer mal, a começar por mim. Bom, mas uma falha, qualquer um tem. O Senhor Presidente do Conselho é um Homem imprescindível, a maior figura de Portugal, mas daí a ter descoberto o caminho marítimo para a Índia. Adiante. Quem descobriu o Brasil? Pense bem, foi um navegador, foi o Pedro Álvares Cab… Salazar! Quem poderia ser mais?

Bom, paciência, prossigamos, o examinador bafejou as lentes, limpou-as ao lenço de assoar, não estivesse o gajo cunhado e bem, de cima, do poder, outro galo cantaria. Pensamento, apenas, porque da boca saíra mais uma benevolência, ó Senhor Perpetuo, isto aqui não é um tribunal (antes fosse, o sacana já estaria a ver o sol aos quadradinhos), responda-me agora, sem medos, tem o tempo que quiser.

Quem foi o rei restaurador da Independência Nacional, contra os espanhóis que tinham usurpado à traição o trono português durante sessenta anos? Recordo-lhe os quarenta conjurados, o Dom João Pinto Ribeiro. Com quem começou a IV Dinastia, de Bragança. Compreendeu? Um aceno que sim, com a cabeça, aparentemente rectilíneo, dúvidas afogadas. E, de novo – Salazar.

O professor não espumou por vergonha e contenção. Assim, não vamos lá, senhor Pacífico – Perpetuo, se faz o obséquio, Perpetuo – assim não leva o diploma por que tanto anseia. Uma última questão, simplicíssima, se não lhe responder correctamente terá de voltar cá no ano que vem. Mas, espero que tal não seja necessário. Quem foi o primeiro rei de Portugal?


E o digno examinador, para com os seus botões, esta não é simples, é simplicíssima, qual é coisa qual é ela, cai no chão fica amarela e é a galinha que o põe? Nem o mais obtuso ignorava que se tratava do Afonso Henriques, que começara tudo, toda esta confusão lusíada, mal começada, de resto, com um filho a bater na mãe. Jerónimo abriu-se num sorriso, desarrolhado a língua, escancarados os lábios. Essa ele sabia. E, sem quaisquer vestígios de dúvidas, hesitações ou tibiezas – Salazar!

Terminou o seu exame. Infelizmente terá de voltar cá. Está chumbado. Chumbadíssimo. Nem todas as cunhas do Mundo, nem a intercepção da União Nacional unida e inteira, nem as recomendações do Senhor Ministro, nem as palavrinhas do Dr. Fonseca. Nada.

Jerónimo Perpetuo da Silva chegou à porta da sala de exame, parou por uma fracção de segundo, virou-se para trás, encarou o mestre como forcado a encarar a besta cornúpeta e desfechou, alto e bom som: Comunista!

sábado, dezembro 29, 2007




Outro ano

O tempo vai andando, os dias escorrem por entre os dedos, o calendário desfolhado e desflorado, as coisas vão passando.
Mais um ano do Travessa do Ferreira. Que continua e pretende chegar cada vez mais longe e a mais gente. Parabéns – para quê. Apenas o registo. Obrigado.
Antunes Ferreira

GOA, DE NOVO








Sem pecado








Antunes Ferreira
D
ona Umbelina morava nas Fontainhas. Na Rua do Natal. Uma casa apalaçada, de estilo colonial, como quase todo o bairro castiço. Uma espécie de Alfama de Panjim, só que plana. A maior subida da capital goesa dava para o Altinho e o resto era chão raso, bordejando o Mandovi e estendendo-se já muito para a outra margem. Porvorim, onde ficavam já os edifícios oficiais, a começar pela Assembleia.

Senhora de virtude, de hábitos e práticas irrepreensíveis, vestidos ocidentais, à boa maneira dos portugueses que por ali tinham estado quase meio século, mais precisamente 451 anos bem contados. Solteira, quando baizinha os pais tinham-lhe vaticinado convento, já havia um mano padre, Salustiano de seu nome, donde a vocação empurrada.

Não fora. Bem lhe dissera o Pai, Marcelino de Souza Menezes e Brito, médico pela Escola de Goa, que, quer ela quisesse, quer não, Doroteias. Ela, porem, recordava a história que a velha aiá Arlinda lhe contava de um battcar que avisara o filho de um seu manducar: rapaz, quer você queira, quer não, vai voluntário para o Seminário. E o chardó não fora. Ponto final, parágrafo.

Assim aconteceu com Umbelina. Nem pensar em tal caminho, ela era muito fiel a Deus e a ele também temente, mas lá hábito é que não. Guardaria castidade para toda a vida, porém noviça não era o seu destino. Por isso, enfrentara a bigodaça paterna, deu borem korum, muito obrigado, mas nesse patmarim não embarcava ela.

Contra o que seria de esperar, Salustiano, já padmestre, apoiara-a na resolução. Para sotaina ou batina, tanto faz, já basta a que envergo, Deus tenha piedade de mim. A mana escolheu, está escolhido. Estou com ela, de alma e coração. Um espanto. E a paclina Ester, esposa do major Mendonça, professora no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, terçara também armas em defesa de Umbelina Delicada Mascarenhas Melo Menezes e Brito.

Se a menina não quer ser irmã da caridade, que não seja. Deus Nosso Senhor não deseja na Sua Igreja gente a isso obrigada. Por coisas assim, já se tinham perdido vidas de caminho são, até soiriques se tinham desfeito, quase em cima da data marcada para o casório, escândalos a que boas famílias brâmanes não se deviam sujeitar. Católicos – mas brâmanes.

Dizia-se então que por ali andaram rondando a casa um tal Marinho, pacló, de Mortágua, e um outro, Monteiro, descendente. Vá lá saber-se da verdade, os gostos são de cada um, ninguém deve ter nada com isso, vão-se os anéis – mas fiquem os dedos. Com pretendentes de tal coturno, não haveria casamento, muito menos torna-boda. Como não houve.

Bab Marcelino foi o primeiro a finar-se, bastos anos depois da nega filial, consta que consumido pela atitude da filha. Se o foi, nada disse a ninguém. O confessor, padre Malaquias, linguarudo praticante e coscuvilheiro militante, no caso não se abriu. Silêncio e recolhimento receitara o sacerdote aos que dele se abeiraram em busca de um indício que fosse. Nada.

O doutor Miranda, médico de casa, também se mantivera mudo e quedo. Morrera de consumido? Deixara-se morrer? Nada comia por último, nem umas bakri, muito menos qualquer baji ligeiro, sequer o péz. Pois que assim corresse, não seria o clínico que achegaria mais lenha para a fogueira. Certidão de óbito – morte natural, de velhice, sempre eram 82 anos.

Ao encomendar o corpo, o filho Salustiano, na homilia da missa respectiva, com mais dois celebrantes e sacristães correspondentes, enalteceu as virtudes do progenitor, perante as lágrimas copiosas de Bai Juliana, na sua negrura de viuvez, e uns soluços sussurrados de Umbelina. Os outros irmãos, Alfredo e Benedito assistiram impávidos e serenos. Compostura e dignidade. Coisas que hoje vão faltando, maus vão os tempos.

Seguiu-se, uns escassos meses depois, Dona Juliana. Enfarte, diagnosticou o galeno Miranda. E depois, e depois, Benedito, Alfredo e o padmestre Salustiano. É a lei da vida, dissera o cónego Mascarenhas, de Calangute, praia apessoada, vacas no areal, à mistura com saris e camisas engravatadas, domingueiras. E recomendara resignação q.b. a Bai Ursolina.

Como se ela precisasse disso. Crente, piedosa e paroquiana ilustre, sabia muito bem como havia de reagir. De resto, do mesmo modo como sempre vivera. Independente, intransigente, imponente – Senhora. De manhã, para a criadagem condescendia num deu boró dis dium e ponto final no konkanim. E já era muito os bons dias altivos e distantes. No resto da jornada, Português correcto, irrepreensível.
Às várzeas mandava o capataz Franquelim, para contar os cocos, olhar os búfalos e ver a apanha do arroz.


De pecados, nem falar. A vida espartana, o vestuário sóbrio, mas de alguma forma elegante, as golas rendadas alvejando no negro de sempre, a prática quotidiana do terço acompanhada pelos serviçais, a romagem a Velha Goa para a visitação das igrejas e o culto do Santo Apóstolo das Índias, preenchiam-lhe o tempo que se arrastava sem sobressalto que fosse. Goesa.

Pelo Dia dos Defuntos, coroas de mogarins; pelo Natal, presépio do século XVII e cake, pela Páscoa, a ressurreição alumiada. Noman Moriê, Ave-maria, o Senhor é convosco. Saibinn de Fátima orai por nós. Esmolas e óbulos em tempo certo, também não convinha habituar mal sudras, até mesmo bonguis. A misericórdia e a clemência divinas eram mais do que suficientes para alimentar os inferiores.

Por uma manhã de monção, chuva em bátegas de arrepiar, as carepas das janelas quase estilhaçadas, Dona Umbelina soergueu-se por entre os lençóis, ajeitou-os, persignou-se e finou-se. Assim mesmo, tranquilamente, sem um ai, com a devida sobriedade para momento de tamanha solidão e solenidade. Funeral bonito, missa naturalmente cantada, com bispo e tudo, banda acompanhando os passos do cortejo ao cemitério.

Naturalmente que a alma, libertada da grilheta corporal, nem parou na poole position. Meteu a sétima velocidade, e subiu ao céu em velocidade estonteante, qual gaddi, qual quê, mais rápido que um qualquer vaivém espacial. A ausência de pecado, por menor que fosse, ainda que venial, justificava a celeridade da alma umbeliniana.


De tal modo que São Pedro, à porta do Paraíso, fiscalizando os anjos da recepção e os computadores celestiais, pegou no telemóvel e gritou-lhe, sem hesitações: Dona Umbelina, diga merda, já! Se não, não pára cá, entra em órbita!...

Pequeno glossário Konkanim - Português

Aiá - Aia
Bab - Senhor
Bai – Senhora
Baizinha – Menina
Baji – Estufado de batata, lentilhas, grão e outros
Bakri – Papas de farinha de trigo
Battcar – Proprietário rural, para quem trabalham os seus manducares
Bonguis – Homens de casta inferior que despejavam as latrinas
Carepas – Lamelas duras, nacaradas e translúcidas, depois substituídas por vidros nas janelas
Chardó – Casta segunda, depois dos brâmanes
Descendente – Produto da mestiçagem imposta por Afonso de Albuquerque
Deu boró dis dium – Bom dia
Gaddi – Carrocinha
Konkanim – Língua de Goa, oficial
Mogarins – Florzinhas perfumadas
Pacló – Branco, Português
Paclina (fem. de pacló)
Padmestre – Padre professor
Patmarim – Barco artesanal
Péz – Canja, caldo só de arroz
Saibinn – Nossa Senhora
Soirique – Arranjos para o casamento, feitos por interposta pessoa
Sudras – Casta inferior em Goa, a terceira na hierarquia

Com os meus agradecimentos ao Prof. Teotónio de Souza


Goa – Promessa e adenda
Uma vez mais estive em Goa. Bastantes vezes lá fui, minha mulher é goesa, sou um admirador, mais, um apaixonado pela terra, linda, e pela gente, magnífica. Desta feita 15 anos depois da última estada. Do que vivi e espreitei e conversei por ali, da água do Índico a 25 centígrados, da calma e da tranquilidade, aqui darei conta, com maior ou menor aptidão ou habilidade. Hoje, trata-se de uma adaptação fictícia de anedota com barbíssimas. Que me desculpem os leitores e, sobretudo, os goeses pelas heresias que tenha cometido, nomeadamente no konkanim. Não se esqueçam: sou um pacló… A.F.

quinta-feira, dezembro 27, 2007





À RODA DOS DIAS

Dezembro

Maria Lúcia Garcia Marques
D
e onde quer que se olhe, Dezembro é um mês difícil. Paradoxal, diria eu.

É o último mês do calendário, mas celebra o começo de um tempo novo. Quer se creia quer não, o nascimento do/dum Deus-Menino passou a balizar a contagem do tempo – anno Domini (a.D.) – a ser marco universal da História – antes e depois de Cristo (a.C. e d.C.). E, quer se queira quer não, globalizada a festa deste advento, mercadeja-se um regozijo de circunstância, vive-se de luzes e outros brilhos, e a alegria parece multiplicar-se como que reflectida num jogo de espelhos paralelos. Há o calor das tradições sobreviventes, uma ou outra amizade ressuscitada, reencontros felizes, benevolências e reconciliações. Paz na terra...

Mas porque todos os espelhos têm o seu lado baço, esta é só metade da legenda e é nestes dias de Festas que se querem Felizes, que dói mais a dor do mundo. É o tempo de todos os balanços e os negativos vêm à tona com especial crueza e acutilância – e, quer o queiramos quer não – há uma culpa difusa que nos magoa por dentro e nos embacia o júbilo. São os desastres da Mãe-Terra, as fomes, as pragas e a doença, as injustiças e as humilhações, a exclusão, as solidões – tanto as próximas como as longínquas – que nos assolam a consciência e nos travam o coração.
É o tempo da Caridade induzida (antes esta que nenhuma ...) por esta Pobreza polimórfica cuja fome jamais se mitigará porque é o avesso perene de toda a Abundância e alerta, incessante e vivo, para toda a humana falência.

E por isso se acordam os homens de boa vontade, se chamam universalmente os pastores/curadores dos bens do mundo, nos interpelam a nós, nas nossas posses e poderes, no nosso afecto, para que se acorra aos multiplicados presépios do infortúnio e da exclusão, com as nossas dádivas – não apenas de socorro mas também de irmandade e esperança. Algo que, à nossa escala comum, se assemelhará à imagem que o Poeta (Ruy Belo) traçou de “Um Rosto no Natal”:


(...) Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-de erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto. Era Natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal, pensei, pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia.


Nascer é ter Futuro e futuro é ter Esperança, esperança fide-digna, verdadeiramente digna de Fé. É dizer como Scarlett O´Hara, algures em “Tudo o Vento Levou”, sentados no último degrau deste ano que finda, olhando bem em frente: Amanhã, amanhã é outro dia!


***
E
aqui se me acaba o calendário. (Vitória, vitória, acabou-se a história!)! Foram folhas que caíram num chão amigo. Foram palavras com alma que vos fui encomendando. E agora acendamos a Estrela de 2008 com a esperança de que ela fique brilhando para todos, desanuviada e feliz.

NE - Ora muito bem. Terminou este ano desmiolado, começa um 2008 qual melão: só depois de aberto é que. De resto, o João Pinto portista ficou para a pequena história: previsões... só no fim do jogo.
Maria Lúcia: Está vocemecê intimada a continuar à roda dos dias. Não faltava mais essa que a minha voluntária & ilustre colaboradora acenasse e abalasse. A ser assim, aventava-a pela janela - de rés-do-chão, baixinho, está visto, se não ninguém mais aturava o JASGM. Principalmente, eu.
Por isso, menina: Janeiro, a tempo e horas, sem horas extraordinárias. Dizem que se está em tempo de crise. Crise estranha, em que os restaurantes caros estão a abarrotar de malta em crise; em que os andares de luxo de carradas de euros, são comprados na planta por malta em crise; em que os automóveis, os telemóveis, os computadores, os frigoríficos, o digital recheiam os haveres da malta em crise; em que as férias na estranja, Brasil, Tailândia, Leste, México, Maurícias, eu sei lá, aumentam exponencialmente para a malta em crise. Viva, pois, a crise. Com ela é que se vive bem, de preferência em economia subterrânea, ainda que o Teixeira dos Santos não goste nada.
Donde, querida Maria Lúcia: nem o Apóstolo das Índias a dispensaria da Travessa do Ferreira. Lázara: Levante-se e ande. A.F.