
Anedotas, leva-as o vento
Antunes Ferreira
Estamos perante uma invasão, um tsunami, um verdadeiro excesso na blogoesfera portuguesa. Pode-se perguntar, até, se a portuguesada trabalha, ou, no mínimo, se o faz nos intervalos dos mails que aparecem a uma velocidade tal que, ao pé dela, o Obikwelu é uma tartaruga, ou um caracol. Muito se tem apostrofado a falta de produtividade dos descendentes de Viriato. Este é, felizmente, um caso que é um desmentido de tal atoarda.
Não há blogue que não se preze onde se não poste uma graçola a respeito. O que nem é difícil pois os chistes e anedotas - mais rasteirinhas ou menos chocarreiras – são aos milhões de milhões, ou seja, e mais resumidamente, aos biliões, fórmula estranha de contagem nacional que manda às urtigas os mil milhões. Nisso, valha-nos alguém ou alguma entidade, somos originais. Ao menos.
A grande maioria dos meus correspondentes e Amigos tornou-se especialista neste corrupio informático. Que começa a cansar de tão repetido vezes sem conta. Pelo menos a mim. E não venham os batalhões de snipers dizer que é o que está a dar, que esta metralha incansável é bué de fixe e que é uma ganda cena. Ninguém me encomendou este sermão. Mas que o caso já toca as raias do inconcebível, toca.
Já todos perceberam do que estou a escrever. Do caso do «falso engenheiro». Que até a Procuradoria-Geral da República se prepara para investigar. Fosse Sócrates um ladrão indiciado, um corrupto apetencial, um assassino na sombra e o Ministério Público não fazia mais do que o seu dever. Ora, tanto quanto se sabe, o primeiro-ministro não se enquadra nesta galeria de criminosos mais ou menos comuns.

Para nós, Portugueses, o dizer mal é uma prática sem a qual não conseguimos sobreviver, quanto mais viver. Sabes a última? – era a pergunta dos tempos da Ditadura. Obviamente que era a última anedota sobre o Botas. Era, também, o tempo das revistas do Parque Mayer em que se dizia o pior (possível) sobre o Estado Novo/Velho. O que a Censura deixava. Ou, por vezes, aquilo que não entendera previamente. Censor não precisava de ser inteligente.
Somos militantes do dichote, praticantes do diz-se, associados do Clube da Má Língua. Não temos – ainda – cartão identificador de cada um destes procedimentos, mas quiçá o novo documento único já os inclua no seu chip. E bem que o seja. A insidia, o videirismo, o ultraje, a obscenidade, a par com a galhofa maior ou menor, já deviam estar informatizadas. Não estão. Culpa do Sócrates.
As piadas – de todas as formas, feitios e qualidades, algumas até bem concebidas e bem conseguidas – circulam na Net em tal profusão que não há anti-spam que as consiga reter, já que os McFee e outros não estão preparados para face, a elas, fazer delete. Porem, a esmagadora maioria delas é apenas acintosa, mal intencionada, rasteirinha. Nós que nos gabamos de ser os maiores produtores de anedotas em todo o Mundo, até já chegámos ao cumulo de adaptarmos ao nosso tempo, algumas cujas barbas já chegam a Plutão.

No inicio do consulado de Sócrates, foi implementada a campanha do menos homem. O primeiro-ministro era homossexual, vivia com um actor de nomeada, a mulher até o deixara por esse motivo, os dois filhos que tem não eram mais do que uma capa para cobrir as vergonhas. Até a sua relação com uma jornalista (que, entretanto, acabou) não era mais do que um álibi despudorado.
O boato, difundidíssimo, foi caindo aos poucos, viram quem o começara que já não dava mais nada, é melhor acabar com ele, já fez a sua época, ainda que não tenha tido o êxito esperado. Um aborrecimento. A vida é assim, cada vez menos fácil para os atiradores encapuzados e emboscados. Que nem sequer têm sindicato que os represente, defenda e a quem não pagariam quota.
Estamos, portanto, numa altura em que dar porrada em José Sócrates por mor das alegadas trafulhices dos seus diplomas académicos é o que está na berra. Tenta-se, assim, fazer esquecer o que tem sido a sua forma de governar, a coragem política que vem demonstrando ao avançar contra os grandes interesses e os correspondentes lobbies.
As Oposições não são lá grande coisa, o que Sócrates sabe, como o sabe uma esmagadora maioria dos cidadãos, mas não é por culpa dele. As sondagens – por mais que não se acredite nelas, outra típica postura lusitana – vêm dizendo que, apesar de tudo e das engenhocas engenhocadas, o PS continuaria, nas urnas, a alcançar a maioria absoluta.
Isto mesmo tendo em conta que o Governo socialista chefiado por José Sócrates (engenheiro ou não…) tem vindo a adoptar medidas que são tudo menos eleitoralistas. E os resultados vão, aos poucos, saltando à vista, o que não dá muita saúde aos que a isso se têm tentado opor.

Ainda ontem veio a lume uma notícia (mais uma) que dizia que o Indicador de Clima Económico progrediu em Abril para 101,6 pontos (mais 0,8 pontos) em Portugal, o nível mais elevado dos últimos 12 meses , de acordo com dados divulgados pela Comissão Europeia. Já vejo os habituais críticos de pé ligeiro, os difusores interneticos das anedotas, as carpideiras da crise, a comentarem sobre mais uma encomenda à UE.
No nosso País, a subida registada deve-se fundamentalmente ao aumento da confiança no sector dos serviços, verificando-se uma estabilização na confiança nos sectores industrial, consumidores e construção, e um ligeiro recuo no comércio de retalho. Em termos gerais, Bruxelas sublinha que a confiança também aumentou na Alemanha (mais 1,4 pontos), Polónia (mais 4,0), tendo diminuído na Espanha (menos 2,2), Itália (menos 1,1), e Reino Unido (menos 0,9).
Pronto. Continuem os autores/divulgadores a criar e difundir incansavelmente, as piadas sobre a qualificação académica de José Sócrates. A quem muitíssima gente continua a tratar por engenheiro. É uma verdadeira obra de misericórdia que assim façam. Espera-vos o reino do céu. E ainda que não seja crente, já o tendo sido, recordo aqui palavras de Jesus Cristo: «Muitos são os chamados e poucos os escolhidos». Mais ainda, no Gólgota: «Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem».
Se, porem, o quiserem e puderem fazer, vão-me poupando, aos poucos, no que toca a intromissão informática das ditas piadas. Já que os outros não o fazem - e estão no seu plenissimo direito de assim actuar - deixem-me descansar, ainda que por escassos minutos. Ó diabo. Lembrei-me agora da legenda calina da RTP do começo: «O programa segue dentro de momentos».











































