sábado, abril 21, 2007




A LÍNGUA NOSSA

O Direito, a Lusofonia e Macau



José Augusto Garcia Marques
H
istoricamente, a internacionalização do Direito iniciou-se e foi-se realizando através da celebração e aplicação entre os Estados de acordos internacionais – tratados e convenções -, a nível bilateral ou multilateral. Esse “direito pactício” passou a regular o conjunto de matérias que constituíam o seu objecto, vinculando os Estados signatários que, no exercício dos seus poderes soberanos, assim aceitavam obrigar-se.

A Internacionalização do Direito

O Direito Internacional clássico, a que nos estamos a referir, regulava, assim, os direitos e os deveres recíprocos dos Estados, assumindo a natureza de um puro direito interestadual. A sua construção assentava na soberania dos Estados, os quais, não reconhecendo nenhuma instância superior, eram, ao mesmo tempo, os “makers” (criadores) e os “brokers” (violadores) do Direito Internacional.

Podemos apontar três factores essenciais para a internacionalização do Direito. O primeiro diz respeito à necessidade, na sociedade dos nossos dias, de uma crescente cooperação entre os Estados visando a resolução de questões com implicações transnacionais. Cooperação económica, cooperação política, social e assistencial, cooperação judiciária e policial.

Um segundo factor da internacionalização do Direito reside no fenómeno da globalização. O desenvolvimento tecnológico na Sociedade de Informação em que vivemos, suscitou problemas novos, a exigirem novas respostas do Direito. Está-se, por definição, num domínio do Direito caracterizado pela sua dimensão internacional. O carácter transnacional das tecnologias da informação e comunicação está presente a todo o momento na regulamentação. Aliás, é assinalável a influência de organizações internacionais – Nações Unidas, União Europeia, OCDE, Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), Organização Mundial Aduaneira -, na tentativa de regulamentação de alguns aspectos.


Bastará pensar na resolução das dificuldades jurídicas resultantes de questões com um marcado carácter técnico – protecção dos dados pessoais e da vida privada, tutela do bom nome, honra e consideração, defesa dos direitos de autor, do software e das bases de dados em face da Informática e da Internet, compatibilização entre os valores da liberdade e da segurança, por exemplo na gestão de sistemas de videovigilância ou de vigilância electrónica, no âmbito da luta contra o terrorismo, relativamente à utilização de complexos procedimentos transnacionais de recolha de informações (como é o caso do sistema de espionagem ECHELON), interligação de redes postais ou telefónicas, liberalização do mercado de telecomunicações, conservação dos dados de tráfego.

Generaliza-se o crime informático, a reclamar a cooperação cada vez mais estreita entre diferentes Estados e organizações internacionais. Os importantes desenvolvimentos da bioética e da genética reclamam, porém, a adopção de cuidados particulares em áreas como a do trabalho e dos seguros. Como consequência da globalização da sociedade, generalizam-se certos princípios jurídicos que passam a funcionar como bitola do correcto exercício dos direitos. É o caso dos princípios da necessidade, da proporcionalidade e da adequação.


Um terceiro factor de internacionalização do Direito consiste naquilo a que podemos chamar o esforço da sociedade internacional para o seu progressivo aperfeiçoamento e humanização, isto é, na sua utilização para a promoção de um mundo melhor. A aprovação dos instrumentos internacionais levada a cabo após a II Grande Guerra – a Carta das Nações Unidas em 1945, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948 e tantos outros – permitiram o nascimento do embrião de uma nova comunidade internacional juridicamente organizada, isto é, submetida ao direito.

Foi o choque da II Grande Guerra, com as violações maciças dos direitos humanos, que tornou inevitável a consagração do direito de ingerência. A soberania passou a exercer-se no quadro do Direito Internacional, que lhe limitou as manifestações discricionárias. Com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) “a questão dos direitos humanos não releva mais do domínio interno mas do domínio internacional”. Os direitos humanos foram assim erigidos em matriz identificadora dos Estados de Direito durante a segunda parte do século XX. Até ao advento (será uma utopia?) de um “direito mundial”, temos o “direito dos grandes espaços geográficos” e o “direito das comunidades” ligadas pela língua, pela história e/ou pela cultura. Aqui entronca o “Direito do mundo lusófono”.

A Lusofonia e a CPLP

O
conceito de Lusofonia repousa sobre o significado de dois elementos que formam a palavra que exprime: Luso equivalente a lusitano ou Lusitânia, o mesmo é dizer português, Portugal. Quanto a fonia significa o mesmo que fala, língua. Vem do verbo foneo, falar (“Dicionário Temático da Lusofonia”, ACLUS e Texto Editores, 2005, pp. 652 e ss.). A Lusofonia é uma realidade em crescimento todos os dias, a partir daquilo que, em qualquer fonia, é básico e essencial: a comunicação e o diálogo, que aproximam as pessoas e as instituições.

De acordo com o “Dicionário Temático da Lusofonia”, a dimensão da Lusofonia no mundo pode ser calculada de várias formas. Mais frequentemente costuma ser calculada, com a das outras fonias, a partir do número global da soma das populações dos oito países. Utilizando o critério tradicional da contagem global das populações, estima-se que, segundo o Instituto Camões, de Lisboa, na sua página on line, acedida em Janeiro de 2004, «a população dos países de língua portuguesa que, de acordo com estatísticas do PNUD (1999) era, em 1998, de 208.402.000 milhões, irá conhecer aumento significativo, prevendo-se que, no ano de 2025, atinja os 285.831.000 milhões de indivíduos».

De acordo com o AtlasEco (2002), Atlas Economique Mondial (données des bulletins mensuels de l´ONU, mi 1999; à l´exception de Timor Oriental), era de 210.188.430 milhões. Acrescente-se que a população de Timor, em 2001, era estimada em 820.000 habitantes. Quanto aos lusófonos espalhados pelos cinco continentes, segundo dados disponíveis, constantes do “Dicionário Temático”, os brasileiros, por informação do Itamaraty, no site do consulado do Brasil, em Lisboa, em 2004, eram 1.342.189; os cabo-verdianos, em conformidade com informação publicada na Internet, eram, em 2004, 478.000; os portugueses, segundo publicação da Divisão de Informação e Documentação do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE/DGACCP), eram estimados em 4.631.482, em 1997 (Cfr. Dicionário Temático, p. 656).

A Lusofonia compreende também diferentes comunidades – maxime, de lusofalantes – que não constituem Estados ou Países. Embora em situações diversas, e em inúmeros lugares da diáspora, falam ou falaram português, suas variantes ou crioulos, a Galiza, Casamansa (no Senegal), ilha de Ano Bom, Ajudá (no Benim), Goa, Damão, Diu, Mangalor, Mahé, Fort Cochim, Tellicherry, Chaul, Korlai, Coromandel. Ainda nos são próximos os crioulos de Malaca, Vaipim, Batticaloa e Puttalan, no Sri Lanka. Na Oceânia, os de Bali, Java, de Kuala-Lumpur, Penang, Jehove, Taiping. E os de Curaçau, Aruba e Bonaire, além do de Suriname, da Guiana Holandesa (loc. cit, pág. 654).



A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é aquilo a que podemos chamar o “rosto político” da Lusofonia. A 17 de Julho de 1996, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, rubricaram os documentos constitutivos da CPLP os Chefes de Estado e de Governo de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Na Declaração Constitutiva da CPLP é feita referência aos valores da Paz, da Democracia e do Estado de Direito, dos Direitos Humanos, do Desenvolvimento e da Justiça Social, e é apontado, entre outros, o objectivo de consolidar a identidade cultural nacional e plurinacional dos sete países de língua portuguesa. Timor-Leste viria a integrar a CPLP como oitavo Estado-membro, tendo constituído relevante factor de aproximação afectiva no seio da comunidade lusófona.

A CPLP é, assim, e desde logo, uma associação de Estados. Uma eventual alteração da sua composição fica condicionada por um critério formal: a “decisão unânime da Conferência de Chefes de Estado e de Governo e ainda por três critérios materiais – a qualidade de Estado, que a sua língua seja o português e que esse Estado candidato adira sem reservas aos Estatutos. Ora, em face da exigência do requisito “qualidade de Estado”, fica a CPLP fechada ao seu alargamento por Macaenses, Goeses, Galegos e, bem assim, por outras comunidades luso-falantes ou com fortes raízes culturais lusíadas (como acontece em Malaca e no Sri-Lanka).


Um Conselheiro de mão cheia

Ora sejas muito bem aparecido, querido Amigo! O Conselheiro José Augusto Sacadura Garcia Marques foi do Liceu Camões para a Faculdade de Direito de Lisboa, sempre meu companheiro. Os anos cimentaram – se necessário fosse – os laços afectivos que temos entre nós. Em Angola, estivemos na tropa, como milicianos. E por aí fora.

Magistrado ilustre, a sua passagem pela Direcção Nacional da Polícia Judiciária foi sinónimo de êxito, aliás como habitualmente. Uma incursão no campo da Política levou-o a Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Justiça, Mário Raposo. Sol de pouca dura, pois que voltou logo que possível à sua carreira de magistrado. Onde alcançou o topo: Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça. É considerado um dos nossos mais brilhantes juristas no domínio do Direito e a Informática.

Não é estreante neste blogue. Já aqui escreveu duas crónicas sobre a sua experiência na guerra colonial, assinando então com os seus três primeiros nomes: José Augusto Sacadura. Desta feita e para o futuro, será o J.A. Garcia Marques, meu colega e Amigo. Anoto que a sua mulher, a Professora Maria Lúcia Garcia Marques é, também, colaboradora regular do Travessa. Gente boa é assim como as cerejas: vem uma atrás da outra.



Os dois participaram em Macau numas jornadas sobre a Lusofonia, organizadas pelo Instituto Internacional daquela cidade. O texto que hoje a Travessa do Ferreira se orgulha de publicar é a primeira parte de um conjunto de dois em que Garcia Marques apresenta as linhas força das suas intervenções na Região Especial.

Naturalmente se publicará a segunda. E, para que conste, a colaboração deste jurista de mão cheia, mais dia, menos dia, revestirá a forma de regular. Penso que as suas experiências na Polícia Judiciária dariam boas estórias.
Quid juris, Conselheiro amigo?
A.F.


quinta-feira, abril 19, 2007



As gajas são lixadas

José Fanha
O meu amigo Helder levou ontem um medíocre da nossa professora e, quando chegou ao recreio, pôs-me uma mão no ombro e disse-me com cara de quem sabe muito bem do que é que está a falar: “Sabes o que eu te digo, pá? As gajas são lixadas!”

Fiquei.-me com aquela. Se o Helder dizia é porque devia ser verdade. Eu é que andava distraído e nunca tinha pensado a fundo nesses assuntos relacionados com gajas. Mas pensando bem, pensando bem, o Helder tinha toda a razão. Verdade, verdadinha: “As gajas são lixadas”.

Bastava lembrar-me da Armandinha que em vez de me dar os cromos das pastilhas elásticas preferia deitá-los para o caixote do lixo só para me irritar. E da Célia, a quem pedi namoro e se desatou a rir. E da Joana que todos os dias me dizia que eu tinha cara de sapo engasgado.

O Helder tinha mesmo razão. Quando fui para casa, ia a repetir cá para comigo: ”As gajas são lixadas! As gajas são mesmo lixadas!” Olhava para cada mulher que passava por mim na rua e pensava: “Tu és uma gaja lixada!” Vinha outra... “Tu também és uma gaja lixada!”

Cheguei a casa a repetir baixinho “As gajas são lixadas! As gajas são...”, e olhei para a minha avó, “As gajas são...” “O que é que vens a dizer, filho?”, perguntou-me ela. Eu nem disse nada. Fiquei corado desde o calcanhar até ao alto da cabeça. Ela a querer saber o que é que eu tinha, e eu que não tinha nada. Nadinha.

Ai não que não tinha! Fui logo a correr para o meu quarto e pus-me a pensar muito depressa que é a única maneira de pensar quando estamos aflitinhos.


Até o Fanha

Antunes Ferreira
Há um montão de anos que não encontrava o Zé Fanha. Conhecemo-nos, vejam lá, por alturas da Cornélia, uma Senhora Vaca de saudosa memória, de quando a RTP era a Um e a Dois e ponto. Mas, este modesto escriba foi seguindo sempre com atenção o percurso do bigodaças, e, sobretudo, quando ele plantou na face uma barba hirsuta e desorganizada. Tal pai…

E, de repente, no jantar das I Jornadas da FAÚMA, a Associação que reúne voluntários amigos e familiares dos doentes mentais do Júlio de Matos e da qual já aqui falei, eis que surge, vindo do antanho, mas não envolto em nevoeiro, abrenúncio, o dito cujo. Foi o reencontro de dois gordos assumidos, um célebre, outro um servidor modesto e desinteressado. E desinteressante.

O propriamente dito Fanha vinha fazer uma das mil e tantas coisas que, tal como se cozinha o bacalhau, ele sabe fazer, faz e faz muito bem: declamar poesia. Desnecessário e despiciendo seria enumerar aqui os itens da panóplia que o tipo usa. Dir-se-ia um plágio, aliás miserável, da Lista Telefónica, das páginas brancas e das amarelas, sem necessidade de ir pelos nossos dedos, pois ele vai.

Uma assistência atenta, mas nunca veneradora e obrigada, seguiu os momentos mágicos que o Zé lhe transmitiu, como sempre acontece. O raio do Homem é um perigoso rival do Vinho do Porto – e não digo porquê. Está cada vez melhor. Porra: disse. Cresceram-lhe a barriga, os apêndices capilares e o engenho e a arte.

No meio da enorme alegria do reencontro, uma se possível ainda «mais grande», pleonasticamente falando: os textos. Os poemas foram desfilando, à solta, enroupados na voz inconfundível do Fanha e na forma excelente de os dizer. Aí, seu homem! O João Villaret, o Manuel Lereno, o Mário Viegas, o José Jorge Letria, e tantos outros, estavam ali presentes para o ouvir também.

No fim, por entre cumprimentos e agradecimentos, ainda tive tempo para lhe pedir permissão para publicar neste blogue excertos de uma coisinha deliciosa que o bom malandro – perdoa-me, Zambujal – editou recentemente: «Diário Inventado de um Menino já Crescido». Pois o Zé fez mais do que dar-me a autorização: mandou-me os textos do grande livrinho. Está dito.

É assim que o Travessa do Ferreira passa a publicar textos assinados pelo José Fanha. Desvanecimento e honra é o que não me falta, bem pelo contrário. Babadinho. Nova colaboração que se junta a outras que já conferem a este blogue uma dimensão que ele nem sonhou ter. E não esperas pela demora, companheiro: fico à espera de originais. Quando tiveres tempo, pachorra e disposição. Não escapas, camarada. Mas as coisas são o que são. Até o Fanha…

Um abração, Amigo, e o obrigado deste escriba. Só – e basta.

domingo, abril 15, 2007




Uma pocilga infecta

Antunes Ferreira
Tenho, forçosamente, de escrever este texto, ainda que não o quisesse fazer. Não gosto de estrumeiras, muito menos de pocilgas onde os porcos cevam e roncam. Sublinho: chiqueiros não são para mim.

Vem isto a propósito de uma infecta situação que me causou uma enorme indignação a princípio. Depois, fiz por esquecer o imbróglio, mas tal foi-se tornando impossível. Muitos Amigos e muitos leitores que eu nem conheço começaram a mandar-me missivas inquirindo qual o motivo porque me metera numa esterqueira que dá pelo nome de «Portugalclub».

Outros disseram-me que estavam a receber esse escarro «internético» em quantidades colossais e que não queriam que tal sujeira lhes fosse enviada. Acentuaram muitos que, além do mais, os escritos lhes enchiam as caixas de correio, impedindo-os de acolher coisas decentes.

Comecei por esclarecê-los da enorme deselegância de um tal Casimiro Rodrigues, patrão do pasquim informático. E especifiquei que, escassos dias depois de ter publicado ali uns textos, porque um Amigo (que julgava muito bom…) me dissera que eu deveria fazê-lo para contrabalançar a sujeira que ali saía a público, dera expressamente por acabada a minha colaboração. Por escrito.

E disse-lhes também que fora eu o culpado de que tal lhes estivesse a acontecer, pois o homúnculo roubara a minha lista de endereços, não sei como o fez – mas fê-lo. E aconselhei-os a escreverem para o gatuno (à frente explico este nome) dizendo que não lhe permitiam que lhes enviasse o folhetim sujo.

Santa ingenuidade, a de um velho com 65 anos já feitos, estúpido procedimento, insana veleidade tive, pensando levar algo diferente do saudosismo, salazarentismo, fascismo que enxameiam a folha de couve. Não sabia do problema em que metera. Passo a explicar. Depois me dirão os que se me dirigiram ou, até, os que escreveram algo sobre isto neste blogue.

O já citado Casimiro, analfabeto praticante, revelou-se-me igualmente um chantagista contumaz. Ele que fora todo amabilidades quando eu entrara (que asneira!!!!!!!...) na desrazoada publicação (?), começou a telefonar-me e a mandar-me msns dizendo (tenho gravações e cópias) que era o Partido Socialista que me proibira de escrever ali. Só numa escassa hora e meia nocturna, tentou invadir-me o Messenger com 27 chamadas. Disso também tenho provas.

Como lhe mandara o meu curriculum vitae para que ele soubesse quem eu era (infelizmente só iria descobrir depois desses três ou quatro dias de colaboração, o carácter do infame) e apenas para isso, o sôr Casimiro publicou-o na íntegra, congratulando-se com o novo elemento que vinha prestigiar o já mencionado e intragável PClub. Disse-lhe então que ele procedera mal, mas que já estava feito. Por isso... Aliás, outros colaboradores (entre os quais alguns conhecidos meus e até amigos) felicitaram igualmente o patrão e a sua «obra» pela minha entrada…

Face à minha auto-exclusão da folha incrível, pois o proibira de publicar o que quer que fosse mais, o infecto começou um novo arrivismo: foi (e vem) a este blogue, roubando textos que publica como se eu fosse seu colaborador. Alguns mesmo assinando-os com Tenente Antunes Ferreira. O que é um acinte, para além do mais. Fui tenente miliciano, por ter prestado cinco anos de serviço militar obrigatório. Fui. Já não sou. Não quero interpretar o que o homenzinho (?) quer com tal parvoíce.

Acrescento que, e muitas vezes o disse já, esses cinco anos fardado – fruto de ser considerado um perigoso subversivo naquele tempo – não me originaram qualquer trauma nem servem de justificação para o clássico tempo perdido com o SMO. Tenho muito orgulho e honra de o ter sido. Não concordava com o chamado Estado Novo/Velho, bati-me contra ele - mas entendi que devia respeitar a farda do Exército Português. Não desertei. E aprendi muito com a vida militar e com os militares.

Esta é uma estória para esquecer. A última diligência que fiz foi solicitar à nossa Embaixada em Brasília para fazer o favor de tentar junto do energúmeno o possível para que ele não continue a incomodar-me. Já o avisei de que levaria, sendo necessário, o caso aos tribunais. Ripostou-me, no abjecto objecto, que eu estava a tentar intimidá-lo.

Acabou-me a paciência. Bato com a mão no peito, repetindo a contrição pela minha argolada, reforço o pedido de desculpas aos que são meus Amigos e aos que me lêem, prometo que tudo farei para que o procedimento pulha do mencionado sujeito seja eliminado. Mais – não posso. Infelizmente.

Um abração para todos. Veremos o que isto vai dar. Quousque tandem?

sábado, abril 14, 2007




DESTINO: MÚSICA

Gilbert & Aznavour

Tapman
Do tempo em que ainda havia música francesa, recordamos Gilbert Becaud e Charles Aznavour no seu melhor. Gilbert estará nas faixas ímpares e Charles nas pares. A qualidade será sempre ímpar.

01 Dimanche à Orly
02 Que c’est triste Venise
03 Et maintenant
04 Qui
05 Au revoir
06 La mamma
07 Je reviens te chercher
08 La bohème
09 L’important c’est la rose
10 Hier encore
11 Mes mains
12 For me … formidable
13 Nathalie
14 Et pourtant
15 Quand il est mort le poète
16 Avec
17 Rosy and John
18 Ay mourir pour toi
19 Seul sur son étoile
20 Bon anniversaire

... E o link de hoje é:

http://www.mediafire.com/?4mjnoegxwmt

Informações

O Tapman, como lhe é habitual, honra lhe seja, escreve-me: «A última contribuição com Música Italiana teve menos êxito que as antecedentes, provavelmente devido ao problema do link. Julgo que será necessário certificar-se sempre se ao colar o link ele fica activo, isto é, se a seta do rato se transforma em mão. Caso tal não aconteça peço-lhe que acrescente esta nota "Pelo processo copiar/colar, colocar este link como endereço de nova página do Internet Explorer".
Já agora, a leitora Ângela Gonçalves, de Silves, pergunta onde poderá comprar CDs do Marini e do Carosone. Cá não deve haver, mas pode comprar pela net em http://www.amazon.co.uk/music-rock-classical-pop-jazz/b/ref=topnav__w_h_/203-0249512-2110338?ie=UTF8&node=229816
Passe o que possa ser considerado publicidade, saem mais baratos do que comprados aqui (com portes e tudo).




Ó tempo volta…

Repito, que me desculpem os leitores, quiçá já fartos de me aturar: este Tapman é um perigo! Não contente de nos levar a ouvir coisas de chorar – de saudades e por mais – ainda nos obriga a ir buscar o LP (muita malta que anda por aí, que me perdoe o Sr. Lopes, S., o plágio, nem sabe o que esta sigla quer dizer) do António Mourão.

O pérfido especialista musical está sempre a fazer-nos crer que o «tempo volta pra trás» e a pedir que este nos dê tudo o que perdemos, bem como a solicitar-lhe que tenha pena de nós e nos dê a vida, a vida que já vivemos. Ora reparem: o malandro traz-nos o Carosone, o Marino, o Aznavour e o Becaud e não cita o fadista que alegadamente entende que esse tempo miserável matou as «nossas esperanças vãs» e recorda-lhe que veja bem «que até o próprio Sol volta todas as manhãs». Não se faz.

Numa altura em o Botas é eleito «o melhor português de sempre» (ainda que o Cristiano Ronaldo seja o melhor do Mundo e com um pagamento satisfatório, isto é, qualquer coisa como uns míseros sessenta euros, sessenta por segundo; ainda que o Mourinho por lá ande também, fora as massas das publicidades), numa altura em que o sor Zé Pinto Coelho tenta reeditar o D. João II e expulsar os imigrantes, numa altura em que o País se rebola na mediocridade de saber coisas sobre o engenheiro, numa altura em que muita gente do PPD/ PSD apostrofa o sor Marques Mendes, definitivamente pequenino – é quando o acenar ao tempo para que volte para trás se torna verdadeiramente pornográfico.

Daí o repetir da periculosidade do dito Tapman. Bem vistas as coisas, trata-se de um agitador
a anteriori. Abro parênteses. Uma latinada de quando em vez fica sempre bem, tal como andar com o Sol debaixo do braço ao sábado. Desta feita, com aspas e apenas semanalmente. Fecho parênteses.

Quando se entra por estes labirintos, há que ter muita atenção e cuidado correspondente. Tive uma namoradinha, eu 15 aninhos, ela 16, mais coisa, menos coisa, a Elsa, que um belo dia me confidenciou que não podia amar-me muito porque se tinha enamorado perdidamente pelo Gilberto. Nunca saberei o que queria ela dizer com o «amar-me muito». Será que há bitola? Ferido no meu amor próprio – na altura ainda não sabia o que era o ego e, se calhar, ainda não sei – e no centro do coração, lá conseguiu ultrapassar a crise que me entrara a galope e perguntei-lhe quem era esse tal Gilberto e, naturalmente, que tinha ele mais do que eu. Os aspirantes a homens eram assim.

E a perjura respondeu-me, com a altivez de quem pensava que eu era uma besta, que se tratava do bécou. Levei uns dois anos para descobrir que afinal se tratava do Becaud, meu rival nos amores – e nas canções. Sim, porque eu sempre fui mais Carosone. Até cantei o Torero na festa dos finalistas do Camões. O Tapman é um perigo. Um tsunami.
Antunes Ferreira


segunda-feira, abril 09, 2007



POSTO DE OBSERVAÇÃO

“Câmara Clara" só vê Lisboa

João Figueira
É
óbvio: vemos a partir do nosso ângulo de observação. Daí, que ao olharmos para a diversidade que é este nosso Portugal o vejamos segundo o respectivo ponto de observação. Se o observador não mudar o seu posto de observação isso significa que ele olha a mesma realidade, mesmo que esta mude. Mas é dela e só dela que ele pode falar, visto que é ela que ele vê e presta atenção.

Vem isto a propósito do programa "Câmara Clara", que acabei de telever no Canal 2 da RTP. Tema interessante, convidados inteligentes e cativantes, mas a informação veiculada pela apresentadora e seu programa deixa-me mais do que irritado. Eu explico.


Ao longo de todo o tempo que dura o programa, cerca de uma hora, são desfiados vários tópicos culturais e informações preciosas para quem vive em Lisboa. Depois de uns justos, mas, convenhamos, exagerados superlativos gastos (ok, direi investidos) com a "Festa da Música" do CCB, a que se seguirão, minutos mais tarde, referências à Culturgest, à Gulbenkian, ao S. Carlos, ao teatro Camões, Paula Moura Pinheiro alerta a sua audiência para um conjunto de bons espectáculos culturais. Todos em Lisboa. Excepção feita, em último lugar, à institucional Serralves, situada nas longínquas terras nortenhas, nada mais se passa em Portugal que mereça uma referência, uma atençãozinha por parte da equipa que faz "Câmara Clara".




Onde é que eu quero chegar? Em Coimbra, onde vivo com pena dos que perdem centenas de horas por ano no trânsito lisboeta, há um magnífico espectáculo de teatro, "Tchékhov e a arte menor", pela companhia Escola da Noite, cujas sessões esgotam há mais de uma semana. Onde é que em Lisboa há um caso assim, sem ser o Emanuel no Pavilhão Atlântico?

Mas está claro, para quem vive fora do desmesurado centro de decisão que é Lisboa, que exemplos como este são insignificantes. Importante é falar sempre dos mesmos, como se a cultura (porque é de um programa cultural que estou a falar) vivesse e respirasse apenas o ar da escassa meia-dúzia de nomes e instituições que têm acesso privilegiado aos media. Como se apenas eles habitassem o Mundo e este terminasse ali, um pouco acima de Braço de Prata.

Portugal é um País pequeno. Mas há quem o torne ainda mais pequeno, ao limitar a Lisboa uma realidade que é, felizmente, muito mais vasta, rica e diversificada. Para ver isso basta mudar, de vez em quando, o posto de observação. Ou os interesses exclusivos do observador.

NE - Promessa cumprida. Começa hoje a colaboração regular do Jornalista e Professor Universitário em Coimbra, João Figueira. Melhor será que adite - ou, até mesmo, deveria ter começado por aí - que é um grande Amigo, de muitos anos, ainda que seja um jovem ao pé de mim.

Falar do João é falar de Coimbra, mas é também falar da Paula, sua mulher e médica, do filho também João, do Diário de Notícias, de Macau e de outros lugares onde estivemos juntos. Por exemplo: de Castanheira de Pera, onde vivem os sogros Coutinhos, ou de Pukhet onde passámos um memorável fim de ano. Estória que um dia destes contarei.

É com enorme satisfação que o temos na nossa equipa cada vez mais alargada. E é, outrossim, uma honra para o Travessa. Só espero que a sua presença frequente (que ora começa) se vá repetindo sem hiatos, muito menos soluções de continuidade. O enriquecimento deste blog passa pelo João Figueira da Silva.

A Amizade que nos une não me impede de aqui exarar que o admiro. Profissional, mas também humanamente. É o que se chama um gajo porreiro, além de competentíssimo. Tem um senão público e notório: é benfiquista. Aqui se aplica com propriedade o não se pode ter tudo. Ou, no melhor pano... AF

domingo, abril 08, 2007





Cartaz e cartaz


Antunes Ferreira
O
assunto ainda vai fazer correr muita tinta – agora, em suporte papel e a laser… - e bem merece que assim seja. O Gato Fedorento respondeu com humor ácido ao miserável cartaz do Partido Nacional Renovador (PNR), colocado na Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, com um cartaz satírico a apoiar a imigração. Porém, só lá esteve um dia.
Explico-me - ainda que muita gente já saiba do acontecido. A Câmara Municipal de Lisboa mandou retirar o cartaz, que, de acordo com a autarquia lisboeta, foi colocado "ilegalmente" ontem na Rotunda. De acordo com um comunicado do gabinete do

vereador dos Espaços Públicos, António Proa, que a Lusa menciona, o cartaz do Gato Fedorento "não possui licença camarária".

A informação do gabinete de Proa explica também que em relação ao cartaz do PNR, cujas mensagens ficaram praticamente ilegíveis depois de ter sido vandalizado, "não tem capacidade legal" para o remover, e especifica que "a lei confere total liberdade" às forças políticas e que a CML não pode agir "mesmo quando a razoabilidade e o bom senso assim o pareçam exigir".
Em poucas palavras, e socorrendo-me do que a Comunicação Social deu a lume, ao lado do polémico cartaz xenófobo do PNR, colocado na quarta-feira passada, onde se pode ler "Basta de Imigração!", foi logo na quinta colocada a mensagem do Gato Fedorento: "Mais imigração!". Porque "a melhor maneira de chatear os estrangeiros é obrigá-los a viver em Portugal", completam os do Gato.

À imagem do outdoor do PNR, o cartaz dos humoristas também tinha um avião, mas nele podia-se ler "bem-vindos". E em vez do fundador e presidente do partido nacionalista, aparecem Ricardo Araújo Pereira, Tiago Dores, Miguel Góis e José Diogo Quintela, vestidos a rigor, parodiando a imagem do líder do PNR. Os humoristas foram mais longe: "Com portugueses não vamos lá!", diz o cartaz. Porque se, para uns, nacionalismo é solução, para outros "é parvoíce". Segundo o jornal Público esta acção de "humor de intervenção" é custeada pelos próprios elementos do Gato Fedorento.

Ameaças na internet

Por outro lado, publicou o Correio da Manhã que «a Polícia Judiciária (PJ) já estava a investigar as ameaças contra Ricardo Araújo Pereira, o principal rosto do Gato Fedorento». E mais, disse ainda o quotidiano que «o humorista tem protecção policial, classificada de “não intrusiva” e assegurada pelo corpo de protecção pessoal da PSP». Para além disso, e ainda de acordo com o CM, «a Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) está a acompanhar as movimentações da extrema-direita, nomeadamente as ameaças a Ricardo Araújo Pereira».

Um dia depois do aparecimento do cartaz do Gato, no site Fórum Nacional – espaço cibernáutico da Juventude Nacionalista – os ‘posts’ de ameaça sucederam-se, sob anonimato. Algumas, como triste exemplo: «Creio que terei de fazer um destes dias uma visita à hora de saída do colégio [...] onde um destes burgueses esquerdistas tem os seus filhos a estudar». Nuno NS; «Acidentes acontecem... e para mais sendo fedorentos... é muito fácil dar com eles». Desperta88; «Caso eles não tenham moderação no que dizem, poderão vir a ter consequências». Cidadão oculto, e «A minha vontade era vandalizar a tromba a esses quatro anormais... anti25/4». José Pinto Coelho, líder do PNR, lamentou as ameaças, mas, disse que só respondia pelo partido.

Tanto quanto sei, e apesar de uma censura generalizada ao inusitado cartaz da extrema direita, só conheço a reacção do Bloco de Esquerda à retirada do outdoor do Gato Fedorento. Os bloquistas insurgiram-se contra o executivo lisboeta e entenderam preocupante a celeridade que se registou quanto à retirada do painel.

Referiram, especialmente, que deveria, antes de tudo, ser consultado a figura principal do Gato, Ricardo Araújo Pereira, que talvez se tivesse disposto a sanar a alegada “ilegalidade”. Isto apesar da Câmara afirmar que o humorista considerado o número um de Portugal não tinha estado contactável. Apetece aqui dizer que, tal como há meio século começou a acontecer nos ecrãs televisivos – “o programa segue dentro de momentos”.


Os buracos das leis

Decididamente, é-se preso por ter cão, mas também por não o ter. A lei, uma qualquer lei, mal acabou de ser parida, promulgada e entrada em vigor é, imediatamente, objecto de estudo dos juristas, nomeadamente de advogados para que se descubra qual o parágrafo, a alínea, o número através do qual é possível escapar a ela própria.

Os pessimistas dizem mesmo que o furinho salvador, mais ou menos ínvio, já se encontrou antes mesmo do lexto legal ver a luz do dia. Outros, ainda mais acintosos, referem com absoluto descrédito na produção legislativa, que, antes mesmo da redacção ou, até da congeminação do diploma já se encontrou essa via de fuga. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

Tanto quanto me consigo aperceber a proa do Proa ficou bastante amolgada com este assunto. Desculpe o Senhor Vereador o trocadilho, mas não fui eu que o levei à pia baptismal. No entanto, o apelido de um cidadão é sagrado e esta ironia pode ser considerada descabida. Porém, escrevi – está escrito. O vereador Proa naufragou? Só ele o pode dizer.

Não foi uma intervenção muito brilhante. Nem muito, nem pouco. Foi um «esclarecimento» sem necessidade de Ray Ban. A preto e branco, seria cinzento incaracterístico; noutras circunstâncias, poderia ser da cor de burro quando foge. Os três mosqueteiros do Gato Fedorento – que são quatro, como os do Senhor Dumas eram – ainda não disseram a última palavra. Deles.

Já agora, o caso engenheiro



Penso que se está – estamos – longe disso. O cartaz execrável do PNR ainda vai motivar muitos mais desenvolvimentos. Os Portugueses, estou certo, esperam por eles, do mesmo modo que aguardam a conclusão do dossier Sócrates/licenciatura. Tanto quanto dizem os órgãos da Comunicação Social, o primeiro-ministro virá esta semana a público esclarecer o imbróglio.

É bom que assim aconteça. Tal como diz o João Miguel Tavares no DN, não é por ser engenheiro, licenciado, bacharel ou outro grau qualquer, que José Sócrates se comportará melhor do que se tem comportado como chefe do Governo. E, para mim, ele continua a ser o chefe do melhor Executivo depois do 25 de Abril – e de antes.

Não podia, porém, não pode, muito menos poderá enganar os Portugueses, isto é, enganar-nos, no que respeita a título académico. Se se apresentou como engenheiro – e se permitiu que assim o venham tratando – assuma-se e explique. Um exemplo, ainda que apenas académico: um bom sapateiro pode perfeitamente dar um bom, um excelente mesmo, primeiro-ministro. Um remendão – não.

Volto ao Gato Fedorento e ao placar. Um bom cartaz, ainda que “ilegal”, como era o caso do que os gatos humoristas produziram, pode levar a água ao seu moinho, isto é, elucidar o público, mesmo que mordaz à enésima potência. Um mau cartaz, como é o caso do afixado pelo PNR, até pode conduzir à violência pelo seu chauvinismo. Ainda que “legal”.

quarta-feira, abril 04, 2007



Abril para o mundo


Nelly Carvalho
Agora em abril, comemora-se 507 anos da chegada da língua portuguesa em terras da América. Não foi imediatamente adotada. A princípio, era a língua dos degredados que ficavam penando em terras estranhas. Depois, passou a ser a língua do colonizador, falada esporadicamente, até que um decreto do Marquês de Pombal , no século XVII, tornou seu uso oficial e obrigatório em terras brasílicas. Adotamos a língua do colonizador e apagamos da memória e da comunicação a língua do colonizado, o índio. A língua que falamos é na sua essência a mesma falada em Portugal, sendo um instrumento que facilitou e abriu nossa cultura para o mundo. Já pensaram se ainda falássemos tupi?

Em 1922, intelectuais nacionalistas quiseram denominá-la língua brasileira e na década de 40 houve um projeto de lei que criava a denominação de brasileira como obrigatória nos livros didáticos. Mas o lingüista Antenor Nascentes acabou com a festa, logo depois afirmando que o português brasileiro é apenas uma variedade do português europeu. O assunto saiu de pauta como proposta oficial, porém as diferenças entre as duas formas de expressão continuaram a incomodar, e as explicações fizeram-se cada vez mais necessárias.

As línguas se modificam no tempo e no espaço mas as alterações sofridas pelo português no Brasil não foram suficientes para constituir uma nova língua. Da América à Ásia, cada povo que fala a língua portuguesa modelou-a e recriou-a à sua imagem. E nenhum exemplo é mais relevante que o do Brasil. Essa modelagem é uma questão sociológica e advém da formação do povo brasileiro, caminhando lado a lado com sua história. Somos peritos em criar modelitos novos. Recebemos influências do exterior em todos os campos e sabemos recriá-las em novos padrões.

A nova modelagem da língua portuguesa começou com a influência e a contribuição das línguas indígenas do litoral que interagiram com os portugueses recém chegados e já nomeavam muitas das realidades existentes aqui. Além da dificuldade mútua de compreensão, havia a disparidade de hábitos fonéticos, que modificava a pronúncia de termos portugueses e indígenas. A seguir, com a escravidão, novos hábitos e termos foram introduzidos, com a chegada dos africanos de várias etnias, entre elas os bantos e iorubás.

E a língua por estas plagas foi ficando cada vez mais diferente da que se falava em Portugal. É verdade que com as significações básicas, como os verbos de sentido vital ( viver, morrer, nascer, etc), a nomeação dos acidentes geográficos, do parentesco, das partes do corpo, dos fenômenos atmosféricos, da divisão do tempo, continuamos na trilha conjunta.

O mesmo acontece com as palavras ditas gramaticais, preposições, conjunções, pronomes, como também terminações verbais e flexões de gênero e número, o que significa que continuamos como um sistema lingüístico único obedecendo a duas modelagens. Com o mesmo material criaram-se modelitos diferentes. Esses modelitos divergem especialmente: no vocabulário e na fonética, ou seja, na pronúncia, o que é facilmente constatável no contato com a língua falada em Portugal. O vocabulário cultural é bem diferenciado: berma, acostamento /camisa, camisola /bica, cafezinho. As escolhas nas construções frasais também divergem , mas trazem menos dificuldades.

O modelito brasileiro, no entanto não é uniforme, não permanece uno. Há uma grande dificuldade de seguir, na língua coloquial ou popular, as rígidas regras de um modelo centralizado. Há distância entre os falares cultos e os populares, com o predomínio marcante destes últimos em todo o território nacional. Este predomínio deve-se ao grande contingente de população africana e afro-descendente que atingia o patamar de 60% a 70% dos habitantes no Brasil do século XVII ao XIX.

Obrigados a abdicar das línguas de origem, tiveram de aprender num processo de transmissão irregular a língua do colonizador e criaram uma forma de português popular divulgado nem todo o país. O branco não logrou impor sua norma como única, o que resultou na criação dos modelitos lingüísticos folgados que vestimos, sobretudo na língua falada, e que tanto se afastam do que rezam as clássicas regras gramaticais da língua portuguesa .


A nossa Língua e a nossa Pátria

Antunes Ferreira

A Professora Doutora Nelly Carvalho dá aulas na Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, desde 1974, no Departamento de Letras.

É doutorada pela Sorbonne, e isso diz tudo. Foi através do blog da Embaixada de Portugal no Brasil – isto começa a tornar-se repetitivo, mas é uma verdade incontornável – que tomei conhecimento do seu artigo que aqui publico. Aliás, sem lhe pedir previamente autorização, ainda que tenha dado conhecimento à pe360graus.globo.com, onde é colunista.



Nunca é demais acentuar o prazer que tenho quando me deparo com textos sobre a nossa língua. Uma língua rica que, inclusive, através da escrita, já ganhou um Nobel por José Saramago, mas que tem nomes que são conhecidos no Mundo inteiro. Um Jorge Amado, um Lobo Antunes, Um Manuel Bandeira, um Fernando Pessoa, um Aires de Almeida Santos, um José Craveirinha, um Corsino Fortes, para já não falar num José de Alencar ou num Luís de Camões, são elementos de uma panóplia imensa e excelente.

Nelly Carvalho tem uma vida dedicada à língua portuguesa. É uma verdadeira personalidade. Foi das que se insurgiram contra a tentativa felizmente falhada de se considerar a «língua brasileira» como um novo idioma. A Professora pernambucana num texto primoroso de que transcrevo também uns passos afirma que «no Nordeste, a língua portuguesa aportou primeiro. Aqui chegou com os donatários das capitanias, quando o Brasil, ou melhor, a Terra de Vera Cruz era apenas uma faixa estreita, limitada pelo Tratado de Tordesilhas.»
(…)
«Assim, fomos nós, os nordestinos, que demos início à saga da língua portuguesa no Brasil, adaptando-a a novos hábitos fonéticos, recheando-a de termos de origem indígena e, mais adiante, de origem africana, e guardamos esta modalidade de língua transplantada, como um tesouro, sem quase modificá-la, até porque, diferente do Sudeste, não recebemos contingentes de imigrantes, falantes de outras línguas.»

«O melhor de tudo é que os verbetes do dicionário são abonados com letras de músicas regionais, receitas diversas e frases dos escritores que por aqui viveram e se expressaram no linguajar rico de metáforas e metonímias de nossa gente, que assume uma visão de mundo diferente das demais regiões, pelas expressões que emprega, criadas a partir da vivência, e na maioria vindas da boca do povo, pois como diz Bandeira ele é que fala o português gostoso do Brasil.»


Conjugam-se, portanto, nestas palavras de Nelly Carvalho, duas homenagens: à língua portuguesa e à sua saga no Brasil. Já aqui, num modesto comentário se lhes junta uma outra: ao blog da Embaixada de Portugal no Brasil. Merecem-no a Autora e o Embaixador Seixas da Costa. Daí o registo que a Travessa do Ferreira tem o grato prazer e a honra de publicar.

sábado, março 31, 2007

Salazar e Lúcia
reunidos na RTP


João Miguel Tavares jmtavares@dn.pt
E de repente, parecia que estávamos numa versão a cores do Estado Novo: Salazar transformado no mais popular dos portugueses e a irmã Lúcia elevada à santidade nos altares da televisão pública. Alguém que me belisque, porque só pode ter sido um sonho mau. Foi tão descabida esta semana da RTP que ela deveria corar de vergonha e devolver o cheque a quem a sustenta. E não me venham dizer que a vitória esmagadora


do homenzinho de Santa Comba numa votação telefónica não pode ser assacada à estação do Estado - eu digo que pode. Pode, porque a simples existência de mais de 60 mil pessoas que acreditam que Salazar foi o melhor que tivemos em 870 anos de História só é justificável por sermos uma pátria sem heróis nem referências, e por já ninguém se lembrar do que foi a ditadura, o lápis azul, Caxias e o Tarrafal, e sobretudo o país miserável, analfabeto e subdesenvolvido que nos foi deixado por quatro décadas de clausura geográfica e mental. Ou seja, mesmo que a RTP não tenha pecado por acção, ela certamente pecou por omissão: na altura em que a estação comemora 50 anos de vida, e que tanto se orgulha de ter contribuído para a construção de uma memória colectiva, eis o seu brilhante legado: Salazar e a irmã Lúcia.


Sim, a irmã Lúcia. Porque, na mesma semana em que embaraçadamente elegeu Salazar, a RTP mudou-se de armas e bagagens para o santuário de Fátima, para cobrir o centenário da vidente. E fê-lo com a mesma atitude com que há 50 anos cobria os actos do presidente do conselho: com muita devoção e nenhum sentido crítico. Desde logo, pareciam ser mais os técnicos da RTP do que os peregrinos, mas sobretudo nada desculpa o tom sabujo e diabético com que a emissão foi conduzida logo pela manhã. Ainda espreitei pelo canto do televisor, a ver se o cardeal Cerejeira não estava a passar lá ao fundo. Muito há a contar sobre Fátima. Tudo está ainda por dizer sobre Lúcia. Mas a esse trabalho a RTP não se deu. Preferiu colocar o terço na mão e cantar hossanas à indigência intelectual do país. A imagem é hoje a cores, mas a cabeça, essa, continua a preto e branco.

NE - Desta vez, tratei de fazer as coisas com mais cuidado. Telefonei para o meu Diário de Notícias e pedi para falar com o João Miguel Tavares. Resposta clássica e dolorosa: está de folga. Mau, eu com tão nobres intenções, decidido a solicitar a sexa autorização prévia e catrapumba - o homem folgava. Acontece.

Quem me informou foi o Nuno Azinheira, boa praça pelo menos ao telefone. Disse-lhe quem era e dos meus 16 anos de DN ao peito. Por ele, claro que sim. Acentuei que poria o nome do jornalista e bem assim o do quotidiano, como qualquer pessoa de bem faria. Ficàmos óptimos. Inscrevi-o na minha lista de endereços.

Amanhã, falo com o João Miguel Tavares. Dir-lhe-ei o que fiz e o prazer que tenho em o transcrever aqui, no Travessa. Porque me parece excelente o seu texto (o senhor gajo escreve muito bem) e ainda porque lhe quero pedir para fazer o favor de ler o meu sobre a fradenta criatura. Emitimos no mesmo comprimento de onda, digo eu. Assim, aqui fica o texto, aqui ficam os parabéns ao autor e, ainda, um pedido - que lhe farei também amanhã. Quando tiver um tempinho livre, escreva umas coisas neste blog. Bem haja, João. AF









DESTINO: MÚSICA

Link italiano

Têm-se nos dirigido, por mail e outros meios, leitores que dão conta de que o link da Música Italiana do último DESTINO: MÚSICA não está a funcionar bem. Disso, como é conhecido, quem sabe é o Tapman. Que, imediatamente, me mandou um outro. Aqui vai ele:

http://www.mediafire.com/?2ykeyefjdog

sexta-feira, março 30, 2007


RODA DE FIAR

A condição diaspórica e a sua crítica


Referência:
METAHISTÓRIA
Autor: Vários (org. Charles J. Borges, S. J. & Michael N. Pearson)
Nova Vega, Lisboa, 2007
Colecção: Documenta Historica/Série Especial



Constantino Xavier
Não é habitual um investigador júnior intrometer-se numa homenagem a um reputado académico sénior. À partida, reconheço, portanto, as minhas joviais limitações, agravadas pelo facto de eu me situar numa área disciplinar diferente da da História, que tanto tem merecido a
atenção do Professor Teotónio de Souza. Mas é, talvez, justamente esta condição jovem que me faz merecer esta oportunidade, aliada ao facto de ambos partilharmos uma condição diaspórica goesa. O Professor uma de primeira geração e eu uma de segunda. É sobre esta condição
diaspórica, e sobre a urgência da sua permanente crítica, que eu pretendo reflectir neste espaço.
Professor Teotónio de Souza

(...)

A importância do trabalho e da carreira do Professor reside no facto de ele nos lembrar que a segunda face, a mais negra, nos acompanha constantemente. E fá-lo por via da crítica. Questionando a celebração, obriga-nos a voltar a pôr os pés em terra e a enfrentar a realidade,
por mais que isso nos custe. Recorda-nos que a condição diaspórica que glorificamos é, em larga medida, fruto da nossa imaginação e o espelho dos nossos medos e das nossas ânsias identitárias. E urge-nos a interrogarmo-nos sobre as reais vantagens e desvantagens, bem como as
oportunidades e os obstáculos, que rodeiam esta nossa condição.

É justamente aqui que se encontra a explicação pela hostilidade com que alguns sectores da nossa comunidade goesa, mas também da sociedade portuguesa em geral, têm recebido a valiosa obra e as reflexões do Professor. É natural – mas infeliz – que hostilizemos a voz dissidente
e crítica, que nos obriga a repensar e a interrogar aquilo que sempre demos por adquirido. Mas, por mais que se tente, é impossível silenciar essa voz que o Professor adoptou para si. Porque essa voz, cheia de interrogações, reside naturalmente e intrinsecamente em toda e qualquer condição diaspórica. O Professor tem-se limitado a activá-la e resgatá-la da passividade a que a procuramos condenar no seio da nossa intimidade – pessoal, associativa ou comunitária.

(...)


NE – Mais um colaborador – e mais um Amigo. O Constantino, de seu nome completo Constantino Hermmans Xavier é um jovem investigador que está em Nova Deli desde 2004. Conheço-o desde que era estudante, de casa de seus pais, o Aurobindo, goês, e a Margaret, alemã. Trata-se de um «miúdo», pois conta apenas 25 anos, mas já é um nome conhecido e reconhecido no universo goês – e não só.

No meio da sua intensa actividade académica ainda tem tempo para escrever para o Expresso, a Revista Atlântico e orientar e dirigir o supergoa.com que apresenta sobre a hora as novidades de Goa. Além, claro, do seu blog a
Vida em Deli que tem o respectivo link aqui na Travessa e com inteira justiça e justificação.

É do
Vida em Deli que passo a respigar os textos que entenda interessantes para quem lê o Travessa. Isto, como «aperitivo» porque quem estiver interessado vai mesmo ao blog do Constantino, através da linkagem. Aqui, e de acordo com ele, como é evidente, que autorizou tudo isto, eles terão uma «cabeça» própria: RODA DE FIAR. A roda que foi emblema de Mahatma Gandhi e que, por isso mesmo foi inserida no centro da bandeira da Índia.

O Constantino é leitor do Travessa, tal como eu o sou da Vida. Oxalá vão aumentando os que passam a ler um e outro. Um abração, Constantino.
AF

quinta-feira, março 29, 2007


À RODA DOS DIAS


Março

Maria Lúcia Garcia Marques


é pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
[...]
é o vento ventando, é o fim da ladeira
é a viga, é o vão, festa da cumeeira
e a chuva chovendo, é conversa ribeira
das águas de março, é o fim da canseira


- é Tom Jobim
e o meu pé de olaia florindo sem mim.

Março de Marte? Não, ainda que pareça, é de Mercúrio: primeiro mês do calendário romano, ao contrário do que o nome indica, era consagrado a este deus, filho de Júpiter, mensageiro dos deuses e protector dos comerciantes e viajantes.



O calendário gregoriano “terceirizou-o”, mas deu-lhe o tempo das águas benévolas, dos “ventos bailadores” das primaveras. Os verdes rebentam em frágeis euforias promissoras, há flores, há chuvas que são prantos de amor e céus lavados a abrirem-se na frescura de azuis enamorados.

Por isso, para mim, Março é de Marte – o deus da pujança romana – o deus da Guerra mas também o deus da Natureza, dos vegetais, o protector da Agricultura.

Deus tutelar dos filhos do Lácio no que de melhor souberam fazer: a arte da guerra e o cultivo dos campos.

Mês este em que – “esgotada já a primavera do meu tempo”, como diz o poeta – recordo um outro março, velho de 45 anos, o “nosso” Março de 62, em que eu vivi a minha “primaguerra” – a mais sincera e saudosa recordação da juventude, quando ainda acreditávamos que as primaveras refloririam eternamente e que “NUNCA MAIS!”

No entanto (e mesmo quando o coração já me começa a arrefecer), senhor marçagão, com suas manhãs de Inverno e tardes de Verão, nos seus 31 degraus de trono caprichoso, Março é o meu mês: “Pastoral” de um Beethoven largado à solta, continua a levantar-se ao som das armas e a porfiar nos campos de lavra, pigarço e duro como um cavalo dos deuses!

quarta-feira, março 28, 2007

DESTINO: MÚSICA



Os italianos dos 50s-60s

Tapman
A
cedendo a amável solicitação, aqui mando uma selecção com 20 canções do tempo em que ainda havia música italiana. Alguns temas emblemáticos terão ficado de fora, mas há sempre uma segunda chance, assim os passeantes pela Travessa do Ferreira o manifestem. O link, que se insere como habitualmente é

http://www.mediafire.com/?2ykeyefjdog


01 Domenico Modugno – Ciao ciao bambina
02 Gigliola Cinquetti – Non ho l’età
03 Emilio Pericoli – Al di la
04 Betty Curtis – Chariot
05 Arturo Testa – Io sono il vento
06 Corrano Lojacono – Carina
07 Bob Azzam – Romântica
08 D. Marino Barretto Jr. – La piu bella del mondo
09 Edoardo Vianello – Guarda come dondolo
10 Nicola di Bari – Chitarra suona piu piano
11 I Cinque di Roma – Stasera pago Io
12 Iva Zanicchi – Dio come te amo
13 Jimmy Fontana – Il mondo
14 Michele – Se mi vuoi lasciare
15 Mina – Tintarella di luna
16 Pino Donaggio – Come sinfonia
17 Ornella Vanoni – L’appuntamento
18 Renato Rascel – Domenica e sempre domenica
19 Patty Pravo – La bambola
20 Nico Fidenco – A casa d’Irene


A nota do Editor -O pinhal do Restelo

Mais músicas – mais música. O Tapman, cada tiro, cada tordo. Destas também eu gosto, e muito. Muitíssimo. Sou da colheita de 41, mais precisamente de 20 de Setembro, portanto imagine-se o que elas me cantam. Um homem não é de pau, diz-se e diz-se bem; tem memória. Recordar é viver, dizia a canção, aliás a partir de ditado que sei lá quantos séculos tem.

Andava eu pelos meus 16 aninhos bem medidos, nadava no Algés e Dafundo e dava os primeiros passos no rugby encaminhado pelo Dr. Manuel Matias, no Belenenses, quando o caso me aconteceu. Eu morava no Bairro do Restelo, o de baixo, de «casas económicas», onde, um dia, aquando da visita da Isabel II a Portugal aconteceu que um bando de polícias andou de vivenda em vivenda a dar uma ordem.

Qual era? Os pobrezinhos que por ali moravam tinham de tirar os respectivos carros estacionados nas ruas principais, pois no programa da visita de Sua Graciosa Majestade constava uma passagem por um bairro de pescadores (sic). Ora homens habituados às redes e outros aparelhos marítimos não podiam ter automóvel. Daí a intimação. O meu compadre José Hermano Saraiva, vizinho do lado, que viria a ser ministro da Educação e embaixador no Brasil, também tirou o seu Jaguar para as traseiras.

No canto direito das «lojas» – edifício que albergava os estabelecimentos comerciais e que ainda lá está, impávido e sereno, na esquina da rua de S. Francisco Xavier - tinha ficado das obras de construção (uns bons anos antes) um terreno baldio, onde o pessoal ia deitando uns lixos à sorrelfa, bem como cresciam uns cardos alimentados por tal húmus. O que deveriam ter sido os passeios nunca tinham passado do passado. Terra no Verão, lama no Inverno. Nem uma pedrinha de calçada. Apenas os lancis e upa, upa.

Pois na noite que antecedeu a visita real, pelas onze horas, dois camiões da Câmara Municipal despejaram ali um grupo de bacanos bem como um montão de pinheiros cortados no Monsanto ali ao lado. E passada a meia-noite, mais árvores natais serôdias. Os homens, então, convencidos de uma impunidade total, labutaram denodadamente até raiar a madrugada. Três cívicos e dois guardas-nocturnos vigiavam de beata ao canto da boca.

Fazendo o quê? Plantando um pinhal que nem queiram saber e que reduziria o D. Diniz a proporções microscópicas. Como. Espetaram laboriosamente os pinheirinhos no solo, de forma a ocultar a lixeira e os cardos viçosos. Simularam um passeio com umas quantas tábuas onde estavam pintadas pedrinhas mais ou menos alinhadas. E abalaram que o sol já subia no horizonte.

No dia seguinte a ilustre visitante, por falta de horário nem pela encenação a la Leiria passou. A sorte é madrasta. Mas os supostos impunes não o eram. Eu fazia parte de um grupo de galfarros que ensaiavam um roça-roça (que o Jean-Jacques também Rousseau) na casa de umas moças que ficava junto do cenário. Vimos tudo, ao som do Modugno, da Cinquetti, da Mina, do Carosone, do Marini, eu sei do que mais. E testemunhámos essa mentira arbórea, obra de um Estado que se dizia Novo, mas que agia como um velho desdentado. Que ainda não começara a sua curva descendente.

Os pinheiros enfezaram e secaram convenientemente
sur place, pois ninguém os foi recolher. Já se fora o casal real, donde. A zona voltou à condição de cloaca temporariamente travestida. E a malta daquele tempo – e eu sou disso um (mau) exemplo – sempre que ouve agora, ainda que rarissimamente os heróis vocálicos italianos, logo relembra o pinhal da rainha isabelinha, assim baptisado sem bênção nem hissope. AF


terça-feira, março 27, 2007


Mais uma anedota
de portugas

Antunes Ferreira
Juro que aconteceu mesmo assim. De tal forma fiquei pasmado, que deixei passar dois dias para me distanciar – poucochinho – da alarvidade. Tenho de o dizer, sem qualquer pejo ou auto limitação: somos, nós os Portugueses, uma gente de merda. Movemo-nos na bosta com o à vontade de quem pratica um tal exercício há tantos séculos que já não sabe sobreviver sem trampa. Eu escrevi somos, não grafei são.

Perdoem-me a terminologia. Garanto-vos que é tal o asco, que ela podia ser muito pior. A Dona Maria Elisa escolheu voltar às lides televisivas com um concurso que já demonstrara, pelo menos a nível europeu, que era abaixo de cão, que me perdoe este animal classificado como o melhor amigo do homem. Até me trato por tu com ela; somos jornalistas, ambos; acho-a uma profissional excelente. Mas, neste retorno ao pequeno ecrã, meteu-se toda na poça. Desde o pé até aos cabelos.

Que os votantes que elegeram o Salazar como «o maior português» se tenham organizado para alcançarem os 41 por cento esmagadores, acho que só fizeram o que entendiam, entendem e entenderão: que é salutar que assim seja. Recorreram ao velho truque das chapeladas? Nada. Apenas se uniram e combinaram a tramoia. Disciplinadamente. Usaram as cliques. Os comunistas fizeram o mesmo, o que, aliás, lhes é habitual. Mas, a Direita usou o argumento calino. Nunca esse Cunhal que comia criancinhas ao pequeno-almoço. A dicotomia é interessante. O maniqueísmo é um tema recorrente, mas concreto. Os restantes candidatos foram meros comparsas.

Alem de serem uns perfeitos desconhecidos. Afonso Henriques? Não joga na Liga Bwin. Vasco da Gama? Há um centro comercial ali para o Parque das Nações que. Luís de Camões? Terá alguma coisa a ver com aquele velho Lyceu ao cimo da Duque de Loulé. Aristides de Sousa Mendes? Esse não existe, nem nunca existiu. Foi inventado ou então anda enredado e embuçado no Apito Doirado. Perguntem ao Pinto da Costa que, coitado, tal como Alberto João Jardim não integrou o lote dos finalistas. O povo é ingrato.

Temos, por conseguinte, aquilo que temos – e que merecemos. Há uns abencerragens, como é o meu caso, que escreveram sob a Censura, que passaram uns maus bocados com a inefável PIDE mais tarde DGS. Não passam, não passamos, de figuras spielberguianas, dinossauros que já deviam estar extintos, mas que, aparentemente, estão, estamos, ainda em vias de extinção.

Concurso e claques

Um concurso miserável vale o que vale – nada. As cliques dos clientes e as claques organizadas são o que são. Basta vermos as que se intrometeram no chamado Desporto-Rei, assim denominado com a permissão e, quiçá, o beneplácito do D. Duarte Pio. As que se incumbiram de dar a vitória ao «ditador paternalista» de Santa Comba são tão más como as que votaram Cunhal. São ambas Portuguesas. Donde – péssimas.

No entanto, a escumalha, os videirinhos, a canalha, os vermes rastejantes são tão vulgares, frequentes, intriguistas e raivosos que se tornaram habituais neste pobre País. Têm uma prática tão regular que o que dizem, de tão repetido, se transforma em verdade. Que não é. Especialistas em ludíbrios e manigâncias, não sabem viver como os homens. Erectos. É assim.

O Doutor António de Oliveira Salazar foi um ditador, ponto final. Dizem dele os saudosistas que foi um estadista de dimensão enorme, um homem honesto e sério que morreu pobre e está enterrado em campa rasa. E daí? Condescendo em aceitar que nos primeiros anos do seu consulado terá feito obra no reequilíbrio das contas portuguesas. Muito bem. Porém, à custa de quê e de quem?

Terminada a II Guerra, quando faltou ao prometido aos Portugueses, pois mandou tranquilamente falsear as «eleições tão livres como na livre Inglaterra» (a afirmação foi dele), não fez mais do que reeditar a fraude nas urnas que vinha sendo seu modelo e marca desde que traçara um percurso insidioso na Sala do Risco do Ministério das Finanças. As pressões dos Aliados para que abrisse o regime foram, uma vez mais, fintadas. De promessas estava o Inferno cheio. E ainda está.

O Tarrafal e a guerra colonial

Pois parece que nós nos esquecemos do Tarrafal, de Caxias, de Peniche, dos Tribunais Plenários, das prisões sem culpa formada, dos crimes, do assassinato de Humberto Delgado, da guerra colonial. Para só enumerar uns quantos itens de uma panóplia gigantesca. E não se venha, de novo, fazer a afirmação de que a sua ditadura não era uma ditadura, era uma dita mole.

Anedotas, num tal contexto, só as que corriam no tempo da Antiga Senhora, a que se chamava o Estado Novo. Juntamente com as revistas do Parque Mayer eram válvulas de escape. O santacombadense não roubou? Mas permitiu que a sua camarilha roubasse – e de que maneira. Morreu pobre a fradesca figura? E aqueles que por ele permitidos fizeram fortunas enormes morreram pobres também? Deixem-me rir, como diz o Jorge Palma na canção.

Que se lixe o concurso, que se trame a RTP, que se fornique a Maria Elisa. Temos mais com que nos preocupar. O voto salazarento significa a rejeição da democracia corrupta e desgraçada, demonstra a rejeição do Povo aos políticos da actualidade? Para quem? Para quantos? Onde? Como? Rejeito liminarmente esta atoarda. Que, no entanto, por aí corre.

Neste nosso Portugal há uma esmagadora maioria que não votou na alarvidade televisiva. Nem dois por cento se pronunciaram. Valha-nos isso. No entanto, tal não nos pode servir de consolo, aos que não demos qualquer voto, ainda que em branco, mesmo que nulo. Muito menos de desculpa. Para consumo interno, estamos conversados. Ruminemos, amigos, para ver se conseguimos digerir sem muito bicarbonato de sódio esta «escolha»…

Contudo, a nível internacional, há mais razões para nos preocuparmos. Já sabemos que, para nós, tudo que vem da estranja a nosso propósito é muito complicado. Se dizem bem – desconfiamos. Se dizem mal – amuamos. Mas, num ponto nós, os portugueses estamos de acordo: para que alguém se faça ouvir intramuros é excelente que a voz venha do exterior. Sem necessidade de microfone, altifalante ou ampliador.

Por tal motivo, arriscamo-nos a que o gozo por esse Mundo seja muito difícil de engolir, quanto mais de deglutir. Eleger como «o maior português» um ditadorzeco de pacotilha é motivo para gargalhadas tonitruantes. Em idiomas diversos, porque a galhofa também tem língua própria.
Acham um exagero? Pois então fiquem-se com o texto distribuído pela Reuters do Brasil e que transcrevo já em seguida. E é dos menos negativos…


Na lata do lixo da história

«LISBOA (Reuters) - O público de um programa de televisão português de grande audiência elegeu o ditador Antonio Salazar como “o maior português” por ampla margem de votos, enfurecendo muitos dos que se recordam de seu regime repressivo.

Salazar foi escolhido por 41 por cento dos espectadores, derrotando o líder comunista Álvaro Cunhal e figuras históricas como o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, o poeta romântico Luís de Camões e o explorador Vasco da Gama, disse a emissora estatal RTP.

"Apenas masoquistas, imbecis ou loucos poderiam ter votado nesse carrasco como o maior português da história", escreveu um espectador no site do programa (www.rtp.pt). "Deixemos Salazar onde ele está: na lata de lixo da história."
Outro espectador prometeu deixar o país, que é uma das democracias mais jovens da Europa ocidental, se Salazar vencesse o concurso.

Antonio Salazar foi o fundador de um regime autoritário de direita que controlou a vida econômica, social e cultural de Portugal entre 1933 e 1974, quando um golpe militar quase sem derramamento de sangue converteu Portugal numa democracia.

Álvaro Cunhal, um dos líderes comunistas mais pró-soviéticos da Europa ocidental e que se tornou uma força política importante após a queda do regime de Salazar, em 1974, recebeu 19 por cento dos votos.

A RTP não informou o número final de telespectadores que votaram, mas na primeira parte do programa, 90 mil espectadores já tinham manifestado suas preferências. O programa foi um dos de maior audiência da RTP nos últimos anos.

Mais de 2.000 nomes tinham sido incluídos na lista dos maiores portugueses, mas, em janeiro, uma lista de dez finalistas foi redigida com base nos votos dos espectadores.

Telespectadores britânicos apontaram Winston Churchill como o maior britânico da história num programa semelhante, e, na França, o escolhido foi Charles de Gaulle».

A agência de Imprensa multinacional britânica caracteriza-se, normalmente, por fazer os textos respeitando escrupulosamente a regra, para mim fundamental, da notícia ser separada do comentário. A César o que é de César. Mas, perante uma tal embrulhada, o serviço é, desta feita, uma quase salgalhada. Percebe-se o espanto do redactor. Que nem faz ironia – porque ela não é precisa. Dá para sorrir. Mas para muito brasileiro dará para rir de boca escancarada. Mais uma anedota de portugas…

domingo, março 25, 2007




Tratado de Roma – meio século

Antunes Ferreira
É
hoje que se comemoram em Berlim (e por toda a União Europeia) os 50 anos do Tratado de Roma, que seis países assinaram: França, Alemanha, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, criando assim no entender do comissário europeu Joaquín Almunia em artigo «as bases para o maior, mais inovador e generoso projecto de integração de Estados soberanos jamais empreendido na história da Humanidade».

No entanto, as comemorações não escondem que a Europa a 27 vive a maior crise deste último meio século. Resultante da reprovação – até quando? – da Constituição Europeia, documento imprescindível para o avanço da integração política. O tratado que a propunha, como se sabe, exigia a aprovação por todos os Estados-membros. A reprovação do documento nos referendos francês e holandês de Maio e Junho de 2005 foi a gota que fez transbordar o copo..

Note-se que a Declaração de Berlim (que a Travessa do Ferreira também publica de seguida) defende, como não podia deixar de ser, a UE. Aliás, Almunia também escreveu que «a Europa é mais do que nunca necessária. Porque unidos somos maiores e mais fortes. Porque só assim poderemos enfrentar os desafios que ultrapassam as fronteiras nacionais, e mesmo da UE, como as alterações climáticas, a dependência energética e a pressão dos fluxos migratórios. Encaremos, pois, o futuro com confiança, porque depois do muito que nos deu, a Europa ainda tem muito para nos dar».



Mas, uma coisa são as declarações mais simpáticas ou mais críticas, os enunciados de intenções, os desejos apetencialmente legítimos. Outra, bem diferente, são a realidade implacável, os desencantos perante a hipótese de falhanço, o receio do desmembramento. A União Europeia alcançou o euro. Muito bem. Mas precisa de ser mais do que um espaço económico e financeiro. Precisa de ser uma verdadeira União em todas as vertentes, nomeada e especialmente, a política.

A cimeira informal de chefes de Estado e de Governo dos 27 assinalou o cinquentenário do Tratado de Roma, acto fundador do que é hoje a União Europeia. As comemorações que decorreram em Berlim, por a Alemanha ocupar actualmente a presidência da UE, tiveram o seu início com uma interpretação da quinta sinfonia de Beethoven pela Berliner Philharmoniker, regida pelo maestro titular, o britânico Simon Rattle, a que se seguiu um banquete oferecido pelo presidente germânico, Horst Koehler.

O ponto alto das cerimónias foi a assinatura, por todos os Estados-membros, da já mencionada Declaração de Berlim, que faz historial do processo de integração europeia, traçando os rumos a seguir e os novos desafios que se colocam a uma Europa bem maior do que a dos seis estados que fundaram, em 1957, a então CEE, a Comunidade Económica Europeia. A capital da RFA está carregada de simbolismo, porquanto foi emblema de uma cidade dividida e, depois, passou a representar a reunificação da Alemanha, após a queda do muro de Berlim, em 1989.

Europeísta convicto, creio que as indecisões e a correspondente paralisação da vertente política terão de ser ultrapassadas com a celeridade possível. Não se podem adiar para as calendas coisas que são essenciais para o projecto europeu. Se não formos todos, Cidadãos da Europa, mal se coloca o futuro deste ciclópico projecto. Vae victis.

Os Homens conhecem-se e reconhecem-se sobretudo nos momentos difíceis, perante as adversidades, na frente dos aparentes pelotões de execução. Para que estes não passem de encenação de uma farsa é preciso que todos prossigamos sem grandes desfalecimentos esta caminhada que tem de ser ganha passo a passo, etapa a etapa. Porem, sem demoras desrazoáveis.
Jean Monet e Robert Schuman
O que já se fez neste meio século é muito e era impensável para Jean Monet e Robert Schuman, chamados e muito justamente os pais da Europa. Mas, não podemos, nunca podemos, viver do passado, muito menos no passado. Este teve a importância que nós lhe atribuímos – mas ir para alem disso é uma atitude impensável.

Respeitemos, portanto, os que nos antecederam, os que deram forma à actual UE, os que avançaram na moeda única, na livre circulação de cidadãos e mercadorias, na abolição concomitante das fronteiras. Outrossim, olhando para o futuro, temos de continuar a construir uma Europa cada vez mais unida, integrada e solidária. Vamos a isso.



A queda do Muro de Berlim


Declaração de Berlim

"A Europa foi durante séculos uma ideia, uma esperança de paz e de entendimento. A esperança tornou-se realidade. A unificação europeia trouxe-nos paz e bem-estar. Criou um sentimento de comunhão e venceu divergências. Foi com o contributo de cada um dos seus membros que a Europa se unificou e que a democracia e o Estado de direito foram reforçados. Se a divisão contra naturam da Europa está hoje definitivamente superada, é graças ao amor que os povos da Europa Central e Oriental nutrem pela liberdade. A unificação europeia é prova de que tirámos ensinamentos de um passado de conflitos sangrentos e de uma História marcada pelo sofrimento. Vivemos hoje numa comunhão que nunca antes se havia revelado possível.

Nós, cidadãs e cidadãos da União Europeia, estamos unidos para o nosso bem.

Na União Europeia, tornamos realidade os nossos ideais comuns: no cerne está, para nós, a pessoa humana. A sua dignidade é inviolável. Os seus direitos são inalienáveis, Homens e mulheres são iguais em direitos.

Aspiramos à paz e à liberdade, à democracia e ao primado do Direito, ao respeito mútuo e à responsabilidade, ao bem-estar e à segurança, à tolerância e à partilha, à justiça e à solidariedade.

É ímpar a forma como juntos vivemos e trabalhamos na União Europeia. Disso é expressão a colaboração democrática entre Estados-Membros e instituições europeias. A União Europeia assenta na igualdade de direitos e na colaboração solidária. Assim se torna possível a preservação de um justo equilíbrio entre os interesses dos Estados-Membros.

Defendemos na União Europeia a autonomia e as diversificadas tradições dos seus membros. As fronteiras abertas e a tão viva diversidade das línguas, das culturas e das regiões são para nós fonte de enriquecimento. Só em conjunto, e não isoladamente, poderemos alcançar muitos dos objectivos que nos propomos. A União Europeia, os Estados-Membros e as regiões e autarquias partilham entre si as diferentes actividades a empreender.

II

Enfrentamos grandes desafios que não conhecem fronteiras nacionais, e a União Europeia é a resposta que temos para lhes dar. Só em conjunto poderemos preservar para o futuro o nosso ideal europeu de sociedade, a bem de todas as cidadãs e cidadãos da União Europeia. Neste modelo europeu conjugam-se sucesso económico e responsabilidade social. O mercado comum e o euro dão-nos força. Deste modo, podemos moldar de acordo com os nossos valores a crescente interpenetração das economias no Mundo e a concorrência cada vez mais intensa que caracteriza os mercados internacionais. A riqueza da Europa reside nos conhecimentos e saberes das suas gentes; é essa a chave para o crescimento, o emprego e a coesão social.

Juntos lutaremos contra o terrorismo e a criminalidade organizada, sem deixarmos de defender a liberdade e os direitos cívicos na luta que travamos contra aqueles que os querem aniquilar. O racismo e a xenofobia jamais poderão voltar a ter uma oportunidade.

Pugnamos por que os conflitos que afligem o Mundo sejam resolvidos pacificamente e por que as pessoas deixem de ser vitimas da guerra, do terrorismo e da violência. É intenção da União Europeia promover a liberdade e o desenvolvimento no Mundo, vencer a pobreza, a fome e a doença. Queremos continuar a assumir um papel de liderança em prol destes objectivos.

Queremos avançar juntos na política energética e na defesa do clima e prestar o nosso contributo para afastar a ameaça global das alterações climáticas.

III

A União Europeia continuará a viver da sua abertura e da vontade dos membros que a integram para, simultaneamente e em conjunto, consolidarem o desenvolvimento interno da União. A União Europeia continuará também a promover a democracia, a estabilidade e o bem-estar para além das suas fronteiras.

A unificação da Europa veio dar vida a um sonho de gerações passadas. Manda a nossa História que preservemos tal fortuna para as gerações vindouras. Devemos para isso moldar, a cada passo e ao ritmo dos tempos, a configuração política da Europa. Por isso nos une hoje, cinquenta anos passados sobre a assinatura dos Tratados de Roma, o objectivo de, até às eleições para o Parlamento Europeu de 2009, dotar a União Europeia de uma base comum e renovada.

Porquanto temos a certeza: a Europa é o nosso futuro comum".