segunda-feira, outubro 15, 2007



SOMBRA DA GUERRA

Morteirada

Antunes Ferreira
E
stava na latrina quando caiu a primeira morteirada. O estrondo, que já se lhe tornara habitual, foi desta vez enorme. Agachado estava, agachado ficou, à espera de outros. Sucederam-se mais três. Nenhum lhe causara danos. Adão Francisco Mucondo sabia que haveria outro, uma norma de disparos do inimigo. E ele veio, aparentemente mais próximo, fazendo-o quase cair no buraco cheio de trampa.

Limpou-se, levantou-se, e puxou para cima as calças do camuflado. Se tivesse fugido, tê-lo-ia feito em trusses ou tê-las-ia primeiro vestido? Seria a dúvida um resquício de pudor? Para cavar, um sujeito até o podia fazer nu, como acontecera com o seu irmão Mateus, quase apanhado por marido cornudo, em pleno Marçal. O muceque tinha má fama, os moradores é que lhe faziam e dar às de vila Diogo era dia sim, dia sim.

Poça! Nestas alturas um homem não pensa nem se questiona. Agarrou a Kala que nunca abandonava e saltou para o meio do acampamento. Uns quantos buracões abriam as goelas ressumando nuvens de pó. Detritos espalhados por tudo o que era sítio e duas cubatas sumárias, de rama, ardendo. Uns camaradas jaziam no chão, aparentemente mortos. Teriam desaparecido todos? Os tugas lhes tinham descobrido.

De sob um ex telhado de folhas de palmeira saiu um gemido. Precipitou-se e levantou a ramaria. Era o Lucas Cangala, do Caxito, esvaindo-se em vermelho vivo. Guenta, rapaz, não desfaleça! A seu lado surgiu outro guerrilheiro, Francisco Silipa, do Huambo. Afinal, não era ele o único sobrevivente. Os dois ajoelhados sobre o ferido, que perdera uma perna e sangrava duma órbita vazia, pareciam entoar uma extrema-unção desesperada.

Levanta a cabeça dele, camarada, assim não sufoca, e deixa que ele morre. Garrote não pode, não tem que estancar é só ajudar nele a morrer. Adão sabia perfeitamente que era assim. Mas doía-lhe que o Lucas se fosse, bom companheiro, preto calcinhas, janota, roupa da Saratoga na Mutamba, nenhuma camisa de Macau, que rompe na segunda lavagem.

Alheados do que estava a acontecer? Olha, tem tempo pra tudo, tempo pra viver e tempo pra falecer. Os soldados devem vir pelo trilho, ainda que os nossos o tenham camuflado. Dá para assistir o Cangala nos últimos momentos e lhe acompanhar na terra já que na viagem é impossível. Ele abre muito o olho que lhe resta, dá dois esticões e já está. Bateu a bota.

Ouvem-se ainda longe sinais do inimigo. Haverá mais dos nossos salvos? Dão os dois uma volta por entre os destroços e aparentemente só eles escaparam, aiué. Então, vamos-lhes esperar. Destravam as espingardas, contam as granadas de mão. De repente passaram a falar em sussurro, boca de um encostada na orelha do outro. Adão, tem mina no caminho, foi o Cangalo que lhe pôs lá.

Não diz nada, camarada. Se tem, está boa, o Lucas era um especialista em armadilhas, fio esticado, castanho e verde, pra se confundir com o que está à volta. Não terá rebentado com os morteiros? Não, esta é das que precisa que lhe pisem pra rebentar. Boca calada, irmão, eles nem vai perceber o que lhes acontece. Depois, nós lhes damos cabo dos couros. Se não forem eles a limpar-nos o sebo.

Vêm porreiros, os militares de camuflado. Os sacanas dos turras devem ter entregado as almas sujas ao Criador, se é que as têm. Não escapou um, por certo, aquilo foi uma tempestade de obuses que dava cabo de um regimento inteiro, foi canja. Que sirva de lição aos outros gajos que por aí andam. Estes aprenderam que não podem atacar-nos de surpresa e fugir. Descobrimo-los e aqui vai disto. Puta que os pariu. Nem souberam do que lerparam.

Manuel Tomás, soldado, apontador de morteiro, é de uma terra de onde não é ninguém: Freixo de Espada à Cinta. Dizem os próprios transmontanos que, uma vez, um senhor doutor conversava, no Porto, com uns amigos. Bota pra cá, bota pra lá, segue-se que um deles, já não se sabe a propósito de quê, talvez de nada, afirmou que o que fora dito nem um gajo de Freixo de Espada à Cinta o diria. E acrescentara no meio da galhofa – isto porque não há ninguém dali.

E o senhor doutor: eu sou. Você é – de quê? De Freixo de Espada à Cinta. Olhares duvidosos, deixe-se de brincadeiras, isso nem parece de um homem da sua posição, até assistente universitário foi e anda a preparar o doutoramento. Não estou a mangar com nenhum dos senhores. Mostro-vos o meu Bilhete de Identidade, querem ver? E lá estava, atestado pelo Arquivo de Identificação de, natural de Freixo de Espada à Cinta. Emudeceram os contrincantes.

Manuel, o Zimbro, como é conhecido pela malta e até pelos superiores. Tipo pachola. O pai era ferreiro, daqueles de fornalha e ferraduras para calçar as bestas. O cachopo habituara-se, desde catraio, ao calor da forja e às marteladas nos sapatos metálicos das alimárias. E, claro, aos cravos, iguais aos que tinham sido empregues para pregar o Cristo na cruz. Só que estes usavam-se nos cascos.

Escolhera mester de metal, mais precisamente funileiro. Era o rei dos pingos nos fundos das panelas mais renitentes. A solda era para ele uma seiva que escorria, fundida, lhe percorria uma circulação em cano de chumbo e que manuseava a preceito. O ofício começava a rarear, os alumínios e os aços inox tomavam corpo e dimensão, o ferro de pingar ficava no canto da oficina. A latoaria, que o Tomás também dominava com fluência, ainda se safava. Mas.

Conversa com o Gomez, filho de espanhol e de alentejana, vivia em Olivenza ou Olivença, ao gosto do freguês, mas decidira vir às sortes a Elvas. Foi logo apurado e ele todo inchado: era português, falava e escrevia, tinha apelido a terminar em z – mas era do pai. Pero chaval, puede que te vas a la guerra colonial. Quédate con nosotros, que no pasa nada. Tu mama y yo mismo estamos muy preocupados contigo, por supuesto. ¡Vaya con Dios! Tu tranquilo. Pobre Sancho que nem pança tinha, apenas Gomez Peralta. Essa estranha mania que os castelhanos tinham de pôr o apelido do pai antes do que era o da mãe.

Pedro Gomez, o Fronteira, e Manuel Tomás, o Zimbro, tinham feito a recruta juntos. Quando iam começar a especialidade, chegaram os papeis, certidões, certificados, anotações que davam ao primeiro a equivalência dos estudos espanhóis aos portugueses. Passou para o CSM, o Curso de Sargentos Milicianos, e saiu furriel, ao passo que o transmontano se quedara pela soldadesca.

Quando isto acabar, ó Fronteira, que vais fazer? Eu, por mim, não quero voltar para o ofício, o funil vazou, não há pingo que o arranje. E tu? O hispano-luso sorria. Eu vou meter o chico, vou continuar na tropa. O pré não é mau, sobretudo aqui no Ultramar, o rancho deixa-se comer, abicham-se umas garrafitas de uísque e de gin. E a farda impressiona as muchachas. Saio sargento e mais uns anitos estou em Águeda para passar a oficial. Simples, como vês.

E vai caminhando, tranquilamente, ainda que não muito atento, como todos. Não é uma tropa fandanga, mas quase. E o Zimbro continua. Passarás a vida a saltar pela África, que Goa, Damão e Diu já foram. Podes safar-te ainda em Cabo Verde, tudo tranquilo, falaram-me dum tal Tarrafal, nem sei bem o que é. Sorte boa é ires parar a Timor, um paraíso. Mas a taluda do Natal é abancares em Macau, chinesas por todo o lado, jogo, casino, tudinho.


E não te queixas com as gueixas. Parvalhão. As gueixas são no Japão, Macau é encostado à China, foi uma oferta dum mandarim qualquer a quem nós safámos dos piratas que quase lhe davam cabo do canastro, depois de lhe levarem a fazenda. Pedro Gomez sabia muito. Até que as tais meninas eram japonesas. Aliás, para ele, Manuel, que diferença tinham as chinesas das japonesas. Olhos em bico, as duas. E, dissera-lhe até o Fronteira que tinham as coisas atravessadas, ao contrário das nossas.

Então, como seria dar uma cambalhota com elas? Um homem não está preparado para essas manigâncias. O malandreco sempre lhe foi impingindo que um sujeito, depois de se ter deitado com uma e de a ter lambido por baixo, até vinha com a cabeça a dizer que não, de um lado para o outro. Carago, homem! Eu cá não faço coisas dessas. O Pedro, nas calmas, olha pá, quanto a isso, só há os que fazem – e os que dizem que não fazem.

Adão e Silipa, escondidos no capim, também conversam. O plano está desenhado. Quando os militares pisarem na mina, poucos escaparão, ainda que sejam muitos. Já chegaram a acordo sobre as artes do falecido Lucas. É uma anti-pessoal, daquelas que soltam metralha toda à volta, mas está ligada a uma bomba de avião portuga, que não rebentou ao cair na lama. De duzentos e cinquenta quilos, aka!

Terá efeito devastador. Por isso, os que se safarem, atordoados, borrados de medo, aparvalhados, eles vão lhes abater a rajadas de Kala. Não tem que enganar, porque não tem nada de saber. Vingarão os seus, principalmente o do Caxito. Adão diz ao camarada que não lhe dá nenhum prazer matar soldados tugas. Ele próprio já foi, antes de desertar. Mas como não pode limpar o sebo ao Salazar… Esse sim, esse é o culpado de toda esta maka.

Alheia-se, os dedos sobre os lábios, pede silêncio ao Chico Silipa, bailundo mas porreiro, e diz-lhe que quer pensar. Camarada, sabes. Eu precisa mesmo de meter na casquimónia tudo o que nós vai fazer pra receber bem esses gajos. Não fala, não, deixa-me endrominar tudo, cada coisa no seu sítio, é como jogar ao galo com bolinhas e cruzinhas. Nós com as bolas, eles com as cruzes.


Não se trata disso. Mas, a verdade é que lhe deu de repente para recordar os dias de Luanda, o RIL, primeiro, a CCS do QG, depois. Não só. A sua meninice, primeiro no Casa Branca, da Dona Maria Rangel, depois no Marçal, onde fora na escola, mas não fizera muito, a terceira classe nem completara, fartara-se dos livros e dos cadernos de duas linhas, pr’aprender a calugrafia ou lá o que é, por mando da Dona Marmela, assim chamada pelos peitos enormes, quase nem lhe chegava o sutiã. Só de cimento armado, galhofava o Simão carpinteiro de cofragens.

Gente bonita, aquela do Casa Branca. Tinha muitas meninas lá. Davam o que era delas aos homens que pretendiam despejar os sacos cheios. Rapazes sem namorada, até com, maduros mesmo com mulher, até velhos de carapinha branca sem grandes esperanças. Contavam-se estórias de fazer abrir as goelas, de espanto. O que aquela fazia, quando demorava, o que a outra e a outra e as outras. Uma havia que se dava ao luxo de escolher parceiro de ocasião entre os candidatos ao vale dela e dos lençóis.

O Marçal era diferente, as barracas iguais mas as pessoas tinham outros ares, outras necessidades, outros desejos. Também trabalhavam lá mulheres, que, deitadas, olhavam mais nos tectos de madeira ou de folha de zinco, pouco nos fregueses, que lhes pagavam. De uma, a Mariquinhas, fã incondicional do Elias diá Kimuezo, se contava um episódio, não se sabia se era verdadeiro, ela há tanta invencionice.

Um branco, soldado do Casão Militar, fora na Mariquinhas para os devidos efeitos. Branco apessoado, camisa de manga larga, de quando em vez gravata, mais no cacimbo, mas dessa não levava. Acostumara-se a ser frequentador do muceque e das raparigas. Um dia entrara na casa da Mariquinhas (ele dissera que lhe lembrava um fado de um não sei quê) e fora no quarto com ela.

Não demorou nada a função. O homem saiu disparado, quase caiu por causa das calças em baixo, nem as chegara a despir, estava só no começo. Tropeçou no empecilho de tecido, mas se aguentou. E atrás a Mariquinhas, combinação amarela rendada enrolada na cintura, sacana de merda! Na minha cu de cagar, no meu boca de comer – nem se foras tenente! Inventado ou não, o episódio grotesco ficou registado nos anais do bairro. E nos orais, comentou o Juca vendedor de ginguba torrada, muito dado a piadista e tocador de marimbas nas horas semi vagas.

Uma tarde, na paragem do maximbombo da carreira 9 nas Ingombotas, Adão Francisco fora abordado pelo irmão Mateus, homem de fazer nada, ajudante de auxiliar de praticante, volúpia do mulherio, sobretudo do casado e herege contumaz para os cônjuges adulterados. Mano lhe venho perguntar se você achas bem que eu me case com a Mariquinhas. O Mucondo mais velho olhou nele. Repara só. Ela é puta.

Mateus soltou risada, olha, calha bem, tem muitas por aí que também são, só ela diz que é, de resto aprendeu com o protector dela, o patrão Rodrigues da Casa Inglesa que é prostiputa, lhe disse o chulo que é mais civilizado e de boas maneiras. Ou então mulher de vida fácil. Eu não entende como uma dona que está todo o dia deitada abrindo os perna pra muitos homens pode ter vida fácil.

Olha Mateus, o problema é teu, se o nosso pai Sebastião ainda vivesse, você lhe devias perguntar essa pergunta. Não a mim, que nem sou casado. Ainda, acrescentara Mateus, carregando no aí, em tom de acrescento que pretendia completar a transitoriedade do estado civil do irmão. Casamento tem que se lhe diga, prosseguiu Adão Francisco, é responsabilidade, tem de dar alambamento e criar as crianças que vão chegar.

Vê só, mano, casamento de papel, com padre e tudo no Igreja, não é coisa fácil, não é mesmo. Você tens de pagar os certidões, esses documentos todas, tens de pagar no sacristão que vai ajudar o cura, tens de pagar no ourives para comprar alianças, tens de pagar nos mulheres que vão fazer o pirão, o funje, o feijão de óleo de palma, o saca-folha, o arroz e os galinha do mato que são mais gostosas. E os cacussos. E o gindungo e o sal e o gengibre e essas coisas todas.

Para não falar já nos bebida. Vinho de capacete, aguardente, cachipembe, muita cerveja, quem sabe uns uísques, tem SBELL que é mais barato. Mateus puxa fumaça do cachimbo de cana. Essa aí não. Não? Porquê? Lhe perguntou Adão. É puro veneno. Você sabes o que quer dizer SBELL? Depois que os escoceses chegaram no Lobito, todo o Mundo sabe: Sociedade de Bebidas Espirituosas do Lobito Limitada. E o mano mais novo continuou arreganhando a cepa. Não, irmão. É Se Bebes Este Líquido Lixas-te, SBELL, você tás a entender? Riram-se os dois de tal tamanho que uns patrícios que passavam a caminho dos muceques comentaram que o que faz o álcool nos bêbado, pópilas!...

Um ruído despertou-o do devaneio. Parecia bota pisando no capim; não era. O Silipa cochichou: os tugas devem estar a entrar na zona da morte. Tapa as orelhas, camarada, que o barulho vai ser grandalhão. Mas, de rebentamento nem um pum. Vamos sair de fininho, Silipa. Eles podem dar a volta e nos apanhar descalço. Quando saltarem, saltaram. Já lhes chega. Já nos chega.

Abandonaram o ar empestado do esqueleto do acampamento, carregando três Kalas que estavam pouco avariadas e dois pares de botas que se safavam. Não enterraram ninguém. Os bichos lhes comem, camarada. Não faz mal, eles já foram, estão mortos, falecidos mesmo. Os gajos nunca vão nos apanhar. Nem pelos tomates, sibila Silipa, nem pela pele dos tomates.

Foi o pisteiro Julião quem descobriu o fio. Alertou só com a mão levantada, nem disse alto, o gesto suficiente. Gomez chegou-se à frente da malta que ia desfazendo a bicha de pirilau. E o Zimbro ao lado. Pessoal, tudo para trás. Afastar uns largos metros, esta merda parece ser potente. O furriel ainda miliciano, vai espetando devagarinho o terreno coberto de erva. Cum escafandro, é grande, deve ser bomba de avião.

O Fronteira organizou as coisas, de seguida. Recuou ele mesmo e foi dispondo os soldados em filas como se fosse um anfiteatro, uns duzentos e picos metros atrás. De preferência escudados por árvores mais robustas. Todos deitados, canhotas destravadas, culatra atrás, dedo no gatilho. Tomás, tu plantas a plataforma do morteiro e prepara as granadas que o Severino te passa. O rotineiro. Com estes filhos das putas, cuidado.

Cordão detonante? Havia. Está aqui, meu. Não é muito comprido, mas chega. Eu encarrego-me de fazer saltar esta cabronada. Olha, veio-lhe o castelhano à cabeça. Na volta, irá passar uns dias com os pais na cidade portuguesa ocupada pelos espanhóis – e de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Começou a desenrolar o fio, estendendo-o. Ó Zimbro, deixa-te de merdas, vai lá para trás como os outros, não me fodas.

Resmungando, o transmontano cumpre a ordem. Preferia ajudar o amigo a desactivar a armadilha, fora uma sorte o Julião ter olho de lince, de contrário teria sido uma mortandade do caralho. Há momentos assim. Num deles, o Sporting eliminou os lampiões na Luz, com um autogolo do Germano, vejam bem, logo o careca, barrando-lhes a final da Taça no Estádio Nacional. Os encarnados tinham ficado a rogar pragas aos de Alvalade, baba e ranho que chegava.

Aqui, porém, a eliminatória poderia ser outra – mas não era, quem sabe, graças ao Santo Padre Cruz, trazia uma relíquia dele na carteira ensebada, fora-lhe dada pela mãe, ele protege-te, filho, tem fé. O pai Sancho, pues que sí, si no te hace bien, tampoco te hará mal. ¡Hombre, cuídate, con santo o sin santo, coño!

Pedro Gomez vai desempenhando o seu papel com todos os cuidados. O cabrão que montou isto sabe da poda, diz de si para si. Tínhamos ido todos pró galheiro com o esticão. Concentração e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. E por algum motivo ele foi o primeiro classificado no pelotão de minas e armadilhas. Capim esmagado, à volta, sinal que por aqui pisaram pés, logo sem perigo. O Lucas, onde quer que estivesse riu-se, escarninho, da artimanha.

Voltou, seguindo atentamente o seu próprio trilho, para junto do engenho. Detonador, fita adesiva, mãos suaves, limpou-lhes o suor para serem mais sensíveis no contacto com o metal. Aqui meto o estopim, isto vai dar tudo cert!!!... O estampido gigantesco, levou os homens a esmagarem-se contra a terra barrenta e vermelha. Ganda porra!

Quando se levantaram e a medo se aproximaram da cratera, ainda ela fervia. Um vulcão não teria feito melhor. Isto é, pior. Manuel Tomás vê na sua frente a imagem açoriana dos Capelinhos da sua infância.
Fotos no Diário de Notícias, nuvens escuríssimas, a jorrarem do mar. Mas, agora, o que tenta descortinar é o Pedro, seu amigo, seu irmão. Ficaram só as solas das botas, nem os polainitos escaparam. Uns sangues por aqui e ali, umas coisas nojentas, uns restos de gente. Puta de sorte!

No quartel comenta-se o acontecido. Tinham voltado de rastos, escorropichando os últimos cantis vazios, amaldiçoando a vida, filho da puta, paneleiro, cabrão, o gajo que montou aquilo. Zimbro, encarregado para o efeito, relatou ao capitão o ocorrido. Teria, depois, de assinar o depoimento que o Francelino, escrivão de autos ocasional, registaria. Agora, podia ir descansar.

Entrou na caserna metálica, mas saiu de seguida. Foi meter uns copos, sozinho, a boca amarga, amarga a alma. Já bem atestado, levantou-se e foi ao outro lado do jotacê. Onde dormiam os sargentos. Entrou e postou-se em frente da cama do Pedro Gomez Rodrigues, furriel miliciano, quem contaria aos velhos, lá em Olivença, o que lhe acontecera, nem corpo restara para meter no caixão. Para quê? Para manter a fé e o império? Sacanas!

O sonho da carreira esvaíra-se em fumo. Foi-se ao armário esverdeado, abriu a porta com uma chave que o Fronteira lhe tinha dado para o caso de que lhe acontecesse algo, longe fosse o agoiro. Na parte de dentro, entre umas quantas fotos coladas de mulheres nuas, mais mamas menos pelos, uma reprodução, pequena, do cartaz do Che Guevara, a boina ao lado, os olhos sonhadores mas faiscantes, o cabelo em guedelhas, a barba mal semeada. Por baixo, uma frase do gajo: Em caso de dúvida, mata!

sábado, outubro 13, 2007




A Nininha

Marina Dinis
Nunca entrou sozinha neste parque. Sempre houve alguém a acompanhá-la. Tinha cinco anos da primeira vez que atravessou os seus portões. Acompanhava sua mãe e avó, ambas em sofrimento. Desconhecia o que se passava, porém, nunca se sentiu atemorizada, pois para si era apenas mais um belo jardim onde brincava à vontade.

Trinta anos mais tarde, já mulher, regressou de novo ao parque. Mais uma vez acompanhada - e desta feita por necessidade de apoio para iniciar uma nova caminhada na sua vida. Entrou com receio. Não daquilo que iria encontrar, mas de falhar numa árdua missão imposta a si própria.

Muitos anos passou caminhando diariamente no parque, percorrendo os seus jardins, entrando em cada edifício, conhecendo cada canto, cada personagem e inúmeros relatos de vidas suspensas no tempo, sonhos nunca realizados e sofrimento sufocante num cenário tranquilo e quase paradisíaco. O seu trajecto no parque foi, desde o seu início uma viagem difícil, repleta de lágrimas e sorrisos, quedas e êxitos, mas sobretudo lições de vida.


Aqui aprendeu muito daquilo que sabe, muitos dos princípios que regem a sua vida, assim marcando os traços largos da pessoa que hoje é. Neste espaço tudo pôde aprender, sendo condição prévia o envolvimento e a dedicação. Percebeu que era fundamental deixar-se tocar pelos outros, pelas suas vidas e os seus trajectos, mas também pela sua dor e pelas suas desilusões. No parque ninguém estava só embora houvesse muitos mundos. Sempre existiram companheiros de percurso, fosse este breve ou aquele mais prolongado.

Cedo percebeu que os aspectos mais repugnantes da vida estavam fora deste recinto. Este foi, também para si, um espaço protector, um asilo para quem sofre e desespera, um lugar onde se podia retemperar o ânimo e renovar a coragem para continuar a longa caminhada da vida. No ar que se respirava pairava uma certa tolerância que raramente tem par na sociedade existente para além dos gradeamentos que ainda hoje delimitam o parque. A maioria dos visitantes do parque fazem-no de forma transitória, porém, nunca esquecendo a sua passagem, por mais efémera que tenha sido. Em todos as histórias vividas no parque deixavam marcas indeléveis, constituindo lições de vida relembradas por longos anos, património da memória colectiva da experiência do drama humano.

Também ela cresceu neste parque. No parque de árvores frondosas, de flores e folhas exóticas.

quinta-feira, outubro 11, 2007





A prova do crime

Diz o ditado que o creme não com pinça; corre também a versão apócrifa que reza que o crime não compensa - o que é falso, leia-se perjúrio, até malandrice. Compensa, sim senhor, compensa. Se não, vejam-se imagens da doutora/autora do texto imediatamente abaixo. Outras foram obtidas por paparazi sem pudor (tal como estas que o Travessa publica). Mas, o seu teor pecaminoso impede que as revele. De qualquer forma, o riad mabrouka de Marrakesh deve ser realmente o céu. Sétimo? Cuidado: o Povo, na sua insuperável sapiência diz que o céu dos pardais é a barriga dos gatos. Volta, Marina, estás perdoada. A.F.

quarta-feira, outubro 10, 2007



Chega e sobeja


Marina Dinis
Pôr-do-sol sereno num terraço da medina. Clima ameno sem uma nesga de vento. Cores de bege alaranjado, branco e verdes escuros e secos das plantas. Um silêncio absoluto no coração de uma pequena cidade confusa e barulhenta. Gatos sem qualquer receio das pessoas, surgem-nos vindos de todos os lados. Gatos amarelos e brancos, pequenos, ágeis e elegantes.

Os riad são os locais ideais para um refúgio em Marrakesh, onde apetece permanecer para sempre. Os terraços estão dispostos em vários níveis, com acessos através de pequenas escadarias estreitas e tortuosas. Os espaços estão cobertos de buganvílias de várias cores, limoeiros, oliveiras, palmeiras e diversas trepadeiras.

Os riad são casas tradicionais restauradas, inseridas no âmago da medina. Numa viela surge uma porta de madeira escura e pesada, com grandes pregos de metal polido. Através desta acede-se a uma casa de três andares dispostos em torno de um pátio interior frondosa e acolhedor. No topo há um terraço com alpendre e grandes chapéus-de-sol de lona branca com camas, sofás e espreguiçadeiras em recantos intimistas, abrigados do sol.

O silêncio no terraço é inexplicavelmente total e quando cai a noite, o céu transforma-se num manto estrelado. Há candeeiros árabes com vidros coloridos, porém a iluminação essencial provem de pequenas velas espalhadas por recantos do chão. Pétalas de rosa vermelhas cobrem o chão em diversos pontos do riad.

Os quartos, sete no total, têm nomes e não números e à porta de cada um está uma pequena mesa baixa de madeira escura, com dois cadeirões também de madeira, com almofadas forradas a pano-cru. Aqui toma-se chá de menta. As portas dos quartos dão para recantos do pátio interior, onde existe uma abundância de plantas altas e frescas em grandes vasos bojudos, nos tons das paredes.

O riad possui uma pequena biblioteca e uma luxuriante sala de convívio, mas as refeições são tomadas no terraço sob as coberturas de pano-cru. O meu quarto chama-se DAMAS... não sei o significado e é-me irrelevante. Tem paredes altas, caiadas de branco, com três longos candeeiros árabes pendurados no tecto, donde jorra uma luz suave e ténue. Uma cama dupla simples, com uma coberta vermelha de tear tradicional e uma longa mesa de madeira escura aos pés da cama.
Aquela fica encaixada numa espécie de arcada em frente à pesada porta dupla de madeira antiga que fecha com uma simples tranca em barrote de ferro forjado. À direita há uma chaise-longue vermelha, ao lado da qual ficam três degraus de pedra que dão acesso à porta da casa de banho. Esta é um pequeno encanto, toda em pedra polida com um pequeno lavatório sobre o qual está pendurado um espelho emoldurado em ferro forjado trabalhado. Em recantos variados escavados na pedra, estão colocadas toalhas e cestas de verga grossa forradas a pano-cru.

Num recanto semi-isolado por uma parede de pedra arredondada está o duche, com um antigo chuveiro de latão de boca enorme. Na parede ficam duas minúsculas torneiras antigas, igualmente em latão. Do lado oposto, noutro recanto, escondida por uma pequena parede, está a sanita. A higiene é total e o aroma é sempre de rosas. Os pequenos sabonetes artesanais cheiram intensamente a rosas e num pequeno suporte de latão estão três tubos de vidro com gel de banho de aroma a amêndoa.

Pela manhã está fresco na cobertura do terraço, mas nunca frio ou vento. De madrugada acordo espontaneamente com o chilrear persistente de um bando de passarinhos que poisam numa das altas buganvílias do pátio interior, até que um

gato amarelo vindo de outros terraços, os assusta cessando o chilrear e deixando-me de novo dormitar. Não há relógios, telefones ou calendários, nem preços ou números. Todo o contacto com o pessoal é informal e pessoal, parecendo que estes apenas aparecem quando necessitamos de alguma coisa.

Estou no céu? Não, não acredito em céu, mas para mim isto chega e sobeja.

A doutora até escreve bem

Ora cá temos mais uma colaboradora, a Marina Dinis, psiquiatra e Amiga. A Marina não é de modas: «Presidenta» da FAÚMA, que tantas vezes tenho referido e a que também pertenço. Mulher de armas, pois deita a mão a tudo. Diz ela que gosta de ser agente de relações públicas, pois, no domínio das doenças mentais, é mais das ralações públicas (e privadas).
Viajante intimorata, a Marina ainda tem tempo, depois de se desdobrar em quefazeres os mais diversos, para dar consultas. Conheci-a por intermédio da minha Santa da Ladeira, a Alice Nobre. São duas queridas. Colegas de sempre, desde a faculdade até à especialidade médica. São verdadeiramente inseparáveis, muito piores do que gémeas. Férias compartilhadas, por exemplo; tanto quanto sei de fonte segura, os respectivos «caros-metados» não se queixam. Aqui fica o primeiro texto da Marina. Outros virão, estou certo. Porque, alem de tudo o mais, a doutora até escreve bem. A.F.

quarta-feira, outubro 03, 2007



Saúde vai mal

Marta Bilro
O
sistema de saúde português ocupa o 19º lugar na tabela dos mais amigos do consumidor, entre os 29 países europeus analisados, segundo os resultados do Índice Europeu do Consumidor de Serviços de Saúde divulgado na segunda-feira.

A Áustria mereceu o primeiro lugar, com o seu serviço de saúde a arrecadar 806 dos 1000 pontos possíveis, seguido pelo sistema holandês (794 pontos) e pelo francês (786 pontos). De acordo com o ranking estabelecido pela organização Health Consumer Powerhouse, Portugal obteve 570 pontos.


As leis dos direitos dos cidadãos, o acesso directo a médicos especialistas ou o direito a uma segunda opinião foram alguns dos parâmetros considerados para estabelecer um ranking dos países cujos sistemas de saúde são mais favoráveis aos utentes. No que diz respeito ao tempo de espera, o serviço de saúde português obteve nota negativa, com apenas sete pontos num máximo de 15 pontos.

Na análise à mortalidade por ataque cardíaco, às operações às cataratas e aos cuidados dentários no sistema público os resultados relativos a Portugal são também negativos. Pela positiva destacam-se os baixos níveis de mortalidade infantil, a vacinação na infância e o sistema de informação de saúde por telefone. O direito a uma segunda opinião médica, o acesso a medicamentos inovadores e a sobrevivência ao cancro durante mais de cinco anos são indicadores que surgem em Portugal com resultado "intermédio".

O relatório sublinha os bons resultados no que diz respeito à mortalidade infantil em Portugal, porém frisa que o sistema de saúde português "não é tão avançado como o dos vizinhos espanhóis". De acordo com os dados do documento relativos ao gasto público anual por pessoa com cuidados de saúde, por cada espanhol o Governo gasta mais 15 por cento do que no caso português.

Doentes e desempregados

A notícia que transcrevo acima, do Farmácia.com.pt, não é agradável para nós, Portugueses. Primeiro porque somos os mal tratados – e os maltratados; segundo porque continuamos a coleccionar maus resultados em muitas disciplinas; finalmente, terceiro, porque a saúde é o maior bem dos homens. Que, muitas vezes, especialmente os que detêm o Poder, se esquecem disso. O que é lamentável.

Já sabíamos, quase todos, que o Serviço Nacional de Saúde estava longe de ser suficiente, quanto mais bom. A avaliação internacional põe em cheque não apenas Correia de Campos e o Governo de que é ministro da pasta, mas igualmente todos os Executivos que os antecederam. Um registo bem pouco simpático, num dia em que também veio a público a informação, igualmente negativa sobre o desemprego no nosso País.

Bem se pode tentar contrapor as estas realidades, tristes, que os primeiros três meses da nossa Presidência são considerados - igualmente a nível internacional - muito satisfatórios. Se as diligências que estão a concluir-se levarem a que seja assinado o novo tratado europeu, então outro galo cantará?

Nada disso. São dois temas e dois desempenhos muito distintos, direi até que não têm nada a ver um com o outro. É um exemplo típico dos alhos e dos bugalhos. Tem de se olhar para os indicadores em causa (e para outros) de frente, e pega-los de caras. A não ser assim, seremos louvados pelo desempenho europeu – mas, doentes e desempregados.
A.F.

(Fotos do Expresso)

terça-feira, outubro 02, 2007



SOMBRA DE GUERRA


Morabeza com gelo


Antunes Ferreira
Cabo Verde é África, ou não é? Cabo Verde é Portugal – ou… Vou mas é deixar-me de interrogações destas, por via das dúvidas. O Malaquias, inspector ou lá o que é da PIDE, ainda não consegue ler o pensamento das pessoas; mas lá chegará. Portanto, é melhor que varra da moleirinha tais questões, pois quando isso acontecer – quem sabe não vem longe? – lá vou eu de cana, com muita porrada à mistura.

É como falarmos o nosso crioulo. Em Lisboa, no Instituto, tinha mais uns quantos patrícios. Cabo Verde é, das Províncias Ultramarinas, a par de Goa, a que tem um maior índice de alfabetização e de escolaridade. Também não admira: enquanto se espera pela chuva e o trabalho é raro, as pessoas têm de ocupar o seu tempo, um tempo que escorre, langoroso, pelas paredes nuas dos dias e das ilhas.
Entre nós, quase às escondidas, conversávamos em crioulo. Para matar saudades? Sei lá. Prefiro dizer que para convivermos. À nossa maneira. Um dia, no Campo Grande, aluguei um bote para passear com a Guilhermina. Uma jóia de moça, tenho de dizer. Fui remando, aliás sem muito entusiasmo, de tal forma que ela me perguntou, risonha, irónica, atrevida: vamos até à tua terra?

Voltámos daquele descobrimento laguítimo, qualquer Dias faria melhor, aos remos, claro, do que eu, também Bartolomeu, mas Ulpiano. Não admira. Para além dos navios ao largo de Mindelo, no Porto Grande, aguardando as barcaças de desembarque e que me limitava a ver, nativo de Chã de Alecrim, uma das zonas mais bonitas da cidade, apenas embarcara no Niassa para ir para Lisboa. Enjoei.

Sentados na relva bem aparada, ficámos, de mão dada, conversando sobre o tudo e o nada, aprofundando erraticamente minudências. Farolámos, em busca de um pontão imaginário, onde pudéssemos atracar. Gostava mesmo da Mina, Maria Guilhermina de Melo e Menezes, com z, (tinha mais uns quantos apelidos, mas não valia a pena conta-los, muito menos usa-los…), damanense, estudava Românicas, vinda de Nagar Aveli, onde o subchefe Aniceto do Rosário perdera a vida ao tentar impedir a entrada dos indianos no enclave.

Fiz-lhe festinhas na mão de pele morena, parecida com a minha, mas mais acetinada, cheirando a malagueta e canela, mistura rica e sensual que me inebriava. Se calhar era apenas a minha imaginação, ela usava água-de-colónia Ach. Brito, do Porto, em frascos verde escuros. Para mim, porém, o seu perfume moreno era o dessa mescla arrevesada. Havia quem dissesse que,
se vires uma cobra e uma indiana – foge para o lado da cobra. Más línguas. Eu escolhera – e de que maneira! – a indiana.

Ia escurecendo. Meu, temos de ir andando, bem gostava de ficar aqui contigo, mas as freiras lá do lar são umas chatas e linguarudas. Vão-me perguntar porque chego tão tarde, ao lusco-fusco, se não tenho vergonha na cara, foi para isso que os teus paizinhos contraíram o empréstimo na Caixa Postal de Damão – para vires estudar na Universidade? E agora, depois da invasão, ainda se esfalfam em Moçambique, com a guerra dos comunistas, para te mandar a mesada?

Ficámos só mais um pouquinho, tempo para darmos um beijo camuflado – mais do que o tecido desta farda que agora envergo – os seus lábios carnudos e escuros sabiam a mel e manga, como as de São Vicente.
Rápido, não fora andar por ali alguma informadora das filhas do convento, a que se chamava as irmãs de caridade. Porra! Nem irmandade, muito menos carinhosa. Vícios da língua, no caso em apreço com dois sentidos, pelo menos.

Voltámos juntinhos, de mão na mão, e ela, ligeiramente inclinada para mim, a cabeça meio apoiada no meu ombro, a camisola de Inverno realçando-lhe os seios modelados em concha, à espera das minhas mãos, via-lhe os mamilos erectos desenhados na lã, que me deixavam adivinhar (e assim entusiasmar-me) como seriam nus. Entesar-me, era o termo mais correcto.

Um destes dias, disse-me, vamos fazer uma patuscada, queres? Se queria. Afiancei-lhe que sim, jurei-lhe pelas cinco chagas de Cristo que adoraria e tanto ardor transpareceu das minhas afirmativas entusiásticas, que se apressou, com um sorriso pouco menos que libidinoso, a esclarecer que se trataria de um pic-nic ou um almocinho, com mais umas amigas e amigos. Como a Mina compreendera a minha euforia e o meu entusiasmo, aliás comprovados por olhar atrevido que pousou na braguilha das minhas calças, tumefacta e suficientemente esclarecedora.

Entrámos de fazer menu antecipado, ela faria umas espetadas (o que, na verdade, era a minha intenção, o meu altaneiro desejo…) à maneira de Damão, de leitão, com muito louco, malagueta q.b., alho e todas essas especiarias encantadas, com chetni e outras delícias. Eu assegurava uma cachupa rica e, se possível, um xerém aprimorado. Estava lançado o desafio e como ainda fossemos a caminho do Saldanha e o lar era na D. Pedro V, continuámos nos mais salutares propósitos.

Olha lá, Meu, vocês têm uma língua própria lá em Cabo Verde, não têm? Claro que sim, era o crioulo, parecido e diferente com o falado na Guiné. Mas, o nosso tem mais sabor, acrescentei, deliciado pela oportunidade de lhe contar particularidades da minha terra natal. Sabes, Mina, o crioulo de São Vicente é o mais lindo de todos, porque há mais, ainda que seja tudo o mesmo.

E ela, chegadinha a mim, ambos à espera de que caísse o verde semaforiano para os peões, diz lá uma frase em crioulo, mas coisa decente, nada dessas malandrices de que tanto gostas. E eu a pensar que ela também, algum dia mo diria, agora não, que tínhamos de atravessar para a Duque d’Ávila. Já no passeio, passei-lhe o braço pela cintura. Ah ela é isso? Sou assim tão indecente?

E, sem me deter, avancei. «Nos avôs era ou eh ti inda kampion na morabeza, si nu konsigui trazi kes manera la pa nu infrenta bida e midjora condisson di nos guentis nada ka podi paranu». Que quer isso dizer, querido? Depois explico-te em pormenor, mas anda à volta do que diziam os nossos avós sobre a maneira de enfrentar a vida e melhorar a condição das pessoas. E vocês, seus indianos de má raça? É o concani ou algo assim, não é?

Nós somos damanenses, de Damão, e não de Goa. Nesta é que se fala o concani. Nós falamos gujarate, completamente diferente. Mas continuamos com o nosso português, arcaico, foi assim que ele lá chegou, assim continua, tem uma maneira gira de encantar. Por exemplo, e já que estamos nos Santos Populares, diz-se festa di Sam Pedru. Os candeeiros bruxuleiam um amarelo deslavado.

Maldito o tempo que não sabe parar. Chegámos ao lar. Para que as madres não a esfolassem viva, ainda que tivessem as suas dúvidas, separámo-nos no Rato, na esquina com a Braamcamp, esperando pelo próximo encontro que antevíamos logo no dia seguinte. Que não houve. Mila sentira-se mal quando se preparava para a deita, uma dor no braço esquerdo que subira qual relâmpago ao peito.

Ainda a tinham levado, no primeiro táxi que passara, ao hospital de São José, no meio de alarido e choros das freiras e das estudantes. Chegara já morta, um ataque cardíaco, quem poderia imaginar, uma jovem de 21 anos, estuante de vida, alegre, comunicativa, sempre bem disposta, amiga do seu amigo, como se irá dizer aos pais, em Marracuene? Parece que tem uns primos para a Cruz Quebrada.

Gostassem ou não - quer as putas das freiras quer os parentes do canal do esgoto - fui ao funeral, todo de preto, o Viegas emprestou-me o fato, a camisa, a gravata e até as peúgas que usara no luto pelo pai dele, iam fazer dois anos. Viúvo e órfão, não me podia apresentar de outra maneira. Na igreja – aguentei-me. Mas nos Prazeres – sacana de nome, quais os prazeres da morte, que grande cagada – jorraram-me as lágrimas, quem será o tipo que assim chora?

As monjas, finalmente davam de si, conheciam-me ainda que de longe, sabiam quem eu era, um cabo-verdiano estudante do Técnico, amigo da falecida, pelo pranto quiçá mais, por vezes suspeitávamos. Embora a Maria Guilhermina não se abrisse muito connosco. Sabem como é, rapariga vinda do Oriente, do Estado Português da Índia, que ainda é assim, só que invadido pelo Nehru, não é de grandes falas a tal propósito.

Quando os coveiros atiraram a primeira terra sobre o caixão, os gatos-pingados da Magno já se tinham retirado, o padre também, tinha um casamento ou um baptizado ou coisa que o valha já de seguida. Se fico mais não chego a tempo e eu sou muito cumpridor dos meus horários, tenho de defender a minha reputação, fugi dali, os soluços não paravam, muito menos as lágrimas.

Na Ferreira Borges, entrei na Tentadora, uma bica e um copo de água para duas aspirinas, o trivial, a noite em claro no velório no Rato, enxuguei o sal que me correra dos olhos e, talvez estupidamente, dei por mim a recitar para dentro «vai alta a Lua na mansão da morte…». O Soares dos Passos, de que nunca gostara nem um bocadinho, entrara-me pelos poros suados. Eu vinha de protagonizar o hediondo Noivado do Sepulcro.

Nesse mesmo dia, decidi. À tarde, fui à Avenida de Berna, ao Distrito de Recrutamento e ofereci-me para onde quer que fosse, no Ultramar. Bem me ralava com o que me calhasse. COM em Mafra, IST já era, a GAM, ginástica de aplicação militar, a ordem unida, as operações da guerrilha, os golpes de mão, as patrulhas, as emboscadas, o armamento, desmontar e montar pistolas, espingardas e metralhadoras, a carreira de tiro, em tudo me empenhava – para passar os dias cada vez mais longos.

À noite, enfronhava-me nos cartapácios que esmiuçavam a construção e a origem do convento. Parecia-me sentir na epiderme morena escura a promessa do rei João V, de que erigiria o mosteiro se a rainha Maria Ana de Áustria lhe desse herdeiro que tardava. O nascimento da princesa Maria Bárbara determinou o cumprimento do voto.

Palavra de rei não volta atrás, como escrevia Joaquim da Conceição Gomes na sua «Descrição minuciosa do monumento de Mafra, ideia geral da sua origem e construção e dos objectos mais importantes que o constituem». A que eu descobrira era uma segunda edição, «correcta e aumentada com muitas notas e com uma notícia de Sintra, seus edifícios e arredores», uma edição da Imprensa Nacional, datada de 1871.

Depois da instrução, fortíssima, enquanto os outros cadetes iam de rastos para as camaratas, eu visitava a imensa mole. E continuava a ler tudo sobre o que ela tinha sido publicado. Comecei, até, a tomar notas num caderninho der espiral, par que nada me faltasse sobre o tema. Tinha a certeza de que a Mina me acompanhava pelos salões ciclópicos, alertando, meu Meu, repara neste quadro, atenta naquele cortinado de brocado, levanta os olhos para o fresco do tecto. Até trocávamos beijos, saborosíssimos – no ar.

O trabalho começara a 17 de Novembro de 1717. Era, ao princípio, um modesto projecto para abrigar 13 frades franciscanos. Mas o dinheiro do Brasil começou a entrar nos cofres, pelo que D. João e o seu arquitecto, Johann Friedrich Ludwig, um germano que estudara na Itália, iniciaram planos mais ambiciosos. Não se pouparam a despesas.

A construção tinha empregado qualquer coisa como 52 mil trabalhadores de todos os mesteres e ofícios, e o projecto final acabou por abrigar 330 frades, um palácio real, umas das mais belas bibliotecas da Europa, decorada com mármores preciosos, madeiras exóticas e incontáveis obras de arte. A magnífica basílica foi consagrada no 41.º aniversário do rei, em 22 de Outubro de 1730, com festividades que duraram oito dias.

Terminado o curso, saí aspirante – miliciano, é óbvio – e daí até ao Santa Maria e Angola foi um pulo. No cais da Rocha não tinha ninguém de família para me despedir. Vieram, apenas, o Miguel Reineta Funá, um fula de Bissau, que tinha uma bolsa da Mocidade, a Mariquinhas Demétrio, da Praia e o Domingos Matombe, moçambicano de Marracuene – que não conhecia os pais da Mina, mas a ela, perfeitamente.

Este morava na Calçada da Ajuda, perto do Depósito Geral de Adidos, onde me tinha apresentado e me fora entregue a guia de marcha para Luanda. Matombe era meu colega no Técnico, ainda que fosse de Civil e eu de Electrotecnia e Máquinas. Passara os meus últimos nove dias lisboetas no quarto dele, uma cama no chão, de cobertores sobrepostos que eu queria para mim, mas que fora conquistada por ele.


Eu dormia na sua cama de ferro com bolas de latão. De resto, dormimos pouco, tal o afã da conversa, tal a vontade de contarmos tudo um ao outro, dos mais diversos assuntos e temas. Sabes uma coisa, Meu, foi na minha parvónia que decorreu o combate em que o Caldas Xavier utilizou a táctica do famoso quadrado. Eu sabia. E também conhecia que, ao lado do major, enfileirava um outro militar, Joaquim Mouzinho de Albuquerque, que, em Chaimite, iria derrotar e capturar o Gungunhana.

Há, porém, muitas mais coisas que não sabes. E as noites transmudavam-se em madrugadas e estas em matinas, não havia mais nada para fazer, Domingos só frequentava duas cadeiras atrasadas. Por isso me acompanhava nessas veladas. Revelara-me então que Ngungunhane, Mdungazwe Ngungunyane Nxumalo, N'gungunhana, Gungunhana ou Reinaldo Frederico Gungunhana que fora o último imperador de Gaza. Da dinastia Jamine.

Ora fora Marracuene, ou mais precisamente Guaza Muthine, que antecedera Chaimite. Foi ali que o príncipe ronga nuãMatidjuana caZixaxa Mpfumo lançara a voz de comando às suas tropas: «…Fambane pambene va-landííí – nhimpííí!»… Que queria dizer «Para a frente gente da terra – guerra – ataque!» Mas nuãMatidjuana viria a ser traído pelo chamado Leão de Gaza e entregue aos militares portugueses. Ironicamente, traído e traidor acabariam os seus dias exilados nos Açores.

Era uma viagem por acontecimentos de que nem suspeitava. Domingos ainda me revelaria uma outra particularidade. O intérprete do major Caldas Xavier fora um cabo-verdiano, Pedro Baessa, que depois partira para Tete, vindo a fixar-se em Nampula, com família local numerosa. Muitos descendentes deixou e um Pedro Baessa ainda andou comigo no liceu. Conheces?

Nada, não sabia nada daquilo, nunca ouvira falar de um qualquer Baessa, a História de Portugal que nos ensinavam era só um somatório de feitos e vitórias e nem os 60 anos filipinos tinham sido péssimos, ora bem, e tinham motivado os conjurados de 40, com o João Pinto Ribeiro à frente que haviam de levar o duque de Bragança a rei. De São Mamede a Aljubarrota, de Castelo Rodrigo à Linha de Torres, tudo que nos ensinavam eram sucessos.

Em Luanda estive três dias. Ia em recompletamento tomar o lugar de um alferes que morrera numa emboscada, qualquer coisa Fidalgo, em Mucaba, lugar de hecatombe no norte da província, em 1961, aquando dos ataques terroristas da UPA de Holden Roberto. Fui numa coluna enorme, 78 camiões civis, enquadrados por 14 viaturas militares.

Aqui estou, agora, congeminando sobre a africanidade ou não do arquipélago de Cabo Verde, do grogue de noss’ terra, da seca e da coladera. Parva congeminação, tenho de o dizer, que não me aquenta nem me arrefenta, como dizem os militares na gíria que lhes é peculiar. Voltei a fumar – parara a pedido dela, sempre a minha Mina, omnipresente a Mina minha.

Por isso me entretenho chupando a pirisca meio apagada, enquanto aguardo a volta de uma secção que saiu para dar protecção à tonga do café. Na fazenda já estava um destacamento da OPVDCA, mas era tal a intensidade dos ataques do inimigo e a sua pertinácia que eu decidira assim fazer. Estou a comandar interinamente a companhia, a CC 1002, porque o nosso capitão Lourenço está no Hospital Militar em Luanda, com uma tifóide. Dizem os de lá que o gajo se safa. É bom homem, oxalá.

Regressa a tropa, arrebentada, mas incólume, o furriel Barrigas, miliciano como eu, que chefiou a secção de atiradores reforçada por um apontador de morteiro 82, o Sangana, cuanhama gigante, mede quase dois metros e come que nem um frade porteiro – não sei de onde me vem a imagem, mas acho-a porreira – diz-me que correu tudo bem, só com uma pequena merda.

Feliciano Barrigas diz-se angolano. Nado em Monção, veio com os pais para o colonato da Cela quando tinha apenas quatro meses. Nem sabe, quase, onde fica o Vale da Gadanha, local onde veio à luz do dia, nunca lá voltou, diz que nem está interessado nisso. Quer lá saber do Alto Minho. Já o mesmo não diz do vinho verde. Mas isso – são outros quinhentos mil réis.

Então o que houve? Pergunto-lhe enquanto lhe estendo um uísque, damo-nos muito bem, até sabe da Mina, de quem lhe mostrei uma foto, a covinha da face sobressaindo, a dentadura alva e regular, o cabelo de azeviche, escorrido, liso, e o resto. Ó pá, quando lá chegámos aquilo era uma sanguineira desatada. Os pretos – não é nada contigo ou contra ti, tu és cabo-verdiano – que andavam na colheita tinham sido ceifados, ainda por cima na hora da comida.

A um, que tinha uma lata de margarina Vaqueiro em que cozinhava a fuba derrubada sobre ele mesmo, emporcalhando-o ainda mais do que já estava, descobri-o eu, um tanto afastado de outros. Tinha um buraquito redondo no peito, nada de especial, escorrera-lhe um fiozinho de sangue, já coagulado. Pareceu-me morto. Mas…

Por isso, meti-lhe a minha mão pelas costas para o levantar, podia ser que. Bartolomeu Ulpiano, nunca mais me vou esquecer disso, até que a terra me coma os olhos que tal presenciaram. Apalpei o nada, tentei agarrar o vazio. O pobre não tinha costas, era só um buracão sustentado por alguns restos de costelas, órgãos nenhuns, nem coração nem pulmões, nada.


O gajo dos Voluntários, um tal Seixas, da Costa da Caparica, explicou-me que fora uma bala explosiva. Filhos da puta! Escorropicha o uísque. Sirvo-lhe outro. Se ainda tiveres, bota mais uns pedregulhos de gelo. Tenho, a coisa funciona. E a Mina ao meu lado, dengosa, meio à vela: olha, amor, lá dentro há mais. Gelo. É o que não me falta… que o pariu!

domingo, setembro 30, 2007



A Energie do Sol

Antunes Ferreira
A
notícia vem em toda a Comunicação Social, a começar logo pela Lusa. A Póvoa do Varzim assistiu à inauguração daquela que será a maior fábrica de painéis solares do Mundo. É a Energie, empresa de capitais portugueses, que investirá cerca de três milhões de euros naquela instalação industrial. Cerca de 40 por cento da produção é para exportação. «Já não estávamos a conseguir responder à crescente procura, nomeadamente estrangeira, que tínhamos e só não estávamos a exportar mais por incapacidade de espaço», afirmou à agência noticiosa nacional Luís Rocha, o presidente da empresa familiar.

Boa! Sempre que o queremos, nós, os Portugueses somos tão bons como os outros. Por vezes, até melhores. Daí que aqui registe o acontecimento. A tão falada «crise», que ainda subsiste, vai, pouco a pouco, dando sinais de que está a desaparecer. Gostaríamos todos que fosse mais depressa. Mas, diz o Povo, Roma e Pavia não se fizeram num dia.

Transcrevo o essencial da notícia vinda a público. A primeira fase do projecto abrange uma área de 3.000 metros quadrados e um investimento na ordem dos três milhões de euros, prevendo-se que, para o ano, a nave industrial aumente para o dobro. A expansão da Energie começou a ser pensada em 2004 em virtude das inúmeras solicitação que chegavam à empresa. Em 2006 a primeira fase da construção da nova unidade, situada na Zona Industrial da Póvoa de Varzim, arrancou, com um investimento total de dois milhões de euros, com capitais próprios da empresa.



Deste modo, a dimensão das instalações triplicou, passando a ter, actualmente, uma área de três mil metros quadrados, com capacidade de produzir 12 mil painéis por ano para captação e aproveitamento da energia solar. O próprio aquecimento do edifício fabril é aquecido por 40 painéis solares naturalmente Energie.

Actualmente, a empresa canaliza para o mercado português 60 por cento da sua produção, exportando os restantes 40 por cento para países como a Espanha, França, Inglaterra, Bélgica, Irlanda, Luxemburgo e Estados Unidos. O México também se perfila para entrar nesta lista, que deverá receber novos países à medida do crescimento dela.

Aqui fica o registo, sem necessidade de mais comentários. Na frente da energia solar fica, assim, a portuguesa Energie. Só há que congratular-se e felicitar Luís Rocha e os seus.

sexta-feira, setembro 28, 2007

SOMBRA DA GUERRA


Voltar atrás…

Antunes Ferreira
C
avalga uma zebra às riscas brancas e pretas, aos solavancos, e no meio de um verdadeiro pandemónio. À sua volta cruzam-se elefantes, bisontes, girafas, leões e até corvos, montados por seres extra qualquer coisa que berram, impenitentes. Não se trata de um sonho – se o fosse deveria ser um pesadelo – mas também não sabe muito bem o que é. A noite desceu de repente, o poente, lindo, foi-se de apagão.

De repente, o tormento pára. E pára o zumbido tonitruante. Mais uma voltinha, meus senhores e minhas senhoras, só mais uma voltinha. Damas com cavalheiros (no caso deveriam ser cavaleiros, não fosse a má interpretação que poderia ser dada ao trocadilho brejeiro) só pagam meio bilhete. É mais uma voooooltiiiiinhaaaaa! Dá-se conta de que a Punta del Pazo está, como sempre, profusamente iluminada e os clientes, também como sempre, discutem as últimas do campeonato nacional.

Poderia ser a política o tema principal, mas não é. Está visto. É impossível. Um fabiano vai dentro se se meter nela. Aqui, em Luanda, em Lisboa, em Lourenço Marques ou no cu-de-judas. Há um provérbio sírio, muitíssimo mais velho do que as Cruzadas, mas que nesse estranho e longo período histórico era muito citado. Representa, na enorme sabedoria da civilização muçulmana, uma extraordinária maneira de dizer, contrária à nossa expressão – se não os puderes vencer, junta-te a eles.

Repetia-se nas vésperas de 1100, obviamente DC, quando os seguidores do Profeta se deparavam com os bandos de Franjs – assim chamavam os locais aos invasores brancos e de cabelos e barbas loiras, maioritariamente Francos. Face ao destemor, violência extrema e à valentia e crueldade desses inimigos do Islão, bem como à sua superioridade em trajes de guerra e armamento, não era possível dar-lhes grande combate.

O dito, sagaz, era: «O braço que não puderes partir, abraça-o e ora a Deus para que Ele o parta». Querem melhor, perguntava ele, Emanuel Crispim da Silva, natural da freguesia de São Sebastião da Pedreira, concelho de Lisboa, tal como constava do BI. Ao que acrescentava – mas não nascido na Alfredo da Costa. Em casa, na cama materna, assistida no parte pela menina Ermelinda, aparadeira de vão de escada, partos & desmanchos, SARL.

Vão perguntar de onde lhe vêm essas sapiências, a ele, segundo cabo amanuense, carteiro na vida civil e furioso do Atlético, não tivesse ido morar para Alcântara, ali ao Largo das Fontaínhas, quase pegado à refinaria a que os catraios chamavam a fábrica do açúcar. Mais uma coisa a reter: toda a malta era do Benfica, do Sporting, muitos do Porto, alguns da Académica, uns quantos do Belenenses e bastantes da CUF, para não falar já no Barreirense. Mas do Atlético?...

O vício da História

Pois muito bem. Crispim andara na Escola N.º 84, ao cimo da rua dos Lusíadas e tivera com professora a Dona Matilde da Purificação, viuvíssima de fel e vinagre, chata como a potassa, mas que ensinava como ninguém. Gramática, redacções, ditados, fracções, geografia e, sobretudo, história. O sobretudo era para ele, e não se tratava da peça de vestir invernal, que nem sequer tinha.

A virago injectara-lhe no sangue uma transfusão histórica e o Emanuel – não confundir com Manuel, leva um E no princípio do nome – dera em ler tudo sobre a disciplina, está bem de ver tudo o que lhe viesse parar às mãos sobre feitos e efeitos destes, não só da História de Portugal, mas igualmente de outros povos. E o seu tio Dionisio, professor primário em Marvão foi-lhe dando os seus livros, para que os lesse e os guardasse.

Uma biblioteca interessante, a do tio Dionisio. As obras completas do Júlio Verne, uma edição da Bertrand, do Emílio Salgari, desde o Sandokan até aos Corsários de variadas cores, o «John, o chauffeur russo», do Max du Vezit, os livros do Campos Monteiro e, sobretudo, umas quantas coisas de História, desde o Herculano até ao Mattoso. Entre estas, descobrira uma preciosidade: as crónicas de Ibn al-Qalanissi, um historiador de Damasco, a primeira das quais datada de 1099, altura da primeira Cruzada.


Vertidas para Português por um tal Fernão de Souza, corria o ano de 1623, o tio professor tinha-as em velho alfarrábio dos finais do século XVIII, publicado no Porto. Relatavam as Cruzadas vistas do lado dos Árabes. Coisa fina, a princípio difícil de ler para o Emanuel, mas, decorridos uns meses, já perfeitamente por ele inteligíveis. Tornara-se num verdadeiro livro de cabeceira, forrado a papel grosso pelo leitor empedernido em que o Crispim se tornara.

É estranho. Embrulhado na noite quente de Luanda, no terreno vago em frente ao Punta, do outro lado dos combatentes, onde assentam arraiais circos diversos, com os palhaços Botil & Pipoff e o Quinito, os trapezistas voadores Irmãos Gentili, os ilusionistas Dom Carlo e Gino Francescotti, os domadores Karl Schmidt e Tarzan Jones - o cabo Crispim envolve-se agora no carrossel dos irmãos Simões.

Que, além disso, têm ao lado o famoso Poço da Morte, onde o mano Francisco atinge «velocidades espampanantes» em redor das paredes cilíndricas do seu interior, montado na sua moto Leopard. Assim brada, de microfone em punho, o Martins das Ingombotas, apresentador oficial do «estrondoso sucesso», enquanto na barraquinha das bilheteiras o Jaquim Quizombo vai vendendo os ingressos.

O carrossel é um espectáculo de três em pipa. Entrem, senhoras, senhores, meninos e meninas, brancos, pretos e mulatos, tomem os vossos lugares que vamos dar início a mais uma corridaaaaaaaaaaaaaaaaa! Emanuel conhece o dono do divertimento, o Chico Perdiz, nado e criado em Tortosendo, mas levado até às últimas por Angola inteira com os seus jogos e os espectáculos de tudo o que seja visível.

Há que dizer que, para alem da História, o nosso segundo cabo é um aficionado ao mais alto grau de circos e correlativos. Já na Metrópole assim era, aqui reincide prazenteiramente. Mais nestas bandas, quiçá, como refúgio - ainda que transitório – das bolandas da guerra na mata, na chana, nas picadas. Quando saiu pela primeira vez numa coluna, o tal MVL, ao Quitexe, para servir de escrivão num auto de copo de litro, gozo com o auto de corpo de delito, ao voltar, ainda assustado, foi aos Combatentes aliviar-se. E não é que deu certo?


Cuecas castanhas

Regressa ao presente. Nada. Não. Tem de recordar o que lhe surgiu na cabeça durante a safada da coluna. Logo a caminho do Quibaxe, toma lá, uma flagelação com morteiros. Saltar da camioneta, alapar na berma, encolher-se em posição fetal ou quase, para tentar escapar à morteirada. Tiros dos de cá, tiros dos de lá, os gajos nem se deixam ver, só o silvar das balas mete um susto medonho.

No QG, o sorja Benevides tinha-lhe dito para levar cuecas castanhas. Na sua santa ingenuidade e desconhecimento das graçolas soltara um porquê subliminar. Risota geral. Quando te borrares de medo, já não se nota no castanho. O pior é o cheiro. O pessoal quase rebenta de tamanhos risos. Galhofa total. A juntar-se a uma tremedeira incipiente, veio a vergonhaça. Esperem-lhe pela pancada, resmoneou.

Mas os slipes cor-de-merda, ainda que não tivessem sido emporcalhados por qualquer descarga psico-intestinal, bem podiam ter tido a sua utilidade quando, no dia seguinte e depois de uma noite tormentosa, em plena picada de terra solta e seca, um estrondo se fez ouvir na frente da bicha de camiões. Enorme, acompanhado de nuvem de fumo a corresponder.

Mina! Mais disparos – dos nossos, principalmente, e diga-se, em abono da verdade, um tanto ao calhas – mais confusão, mais gritos, mais ordens desencontradas. Porra, se isto começava assim, o que seria o resto? O enxame de camuflado começou a voltar à colmeia, ainda que sem rainha. Os graúdos, deu-se a congeminar, ficavam sempre na ZIAC – a Zona de Intervenção no Ar Condicionado. Daí.

Foi-se a ver, a rebenta-minas improvisada numa Berliet carregada de blocos de betão e sacos de areia e o fundo por cima do eixo coberto de placas metálicas, o que tornava a viatura muito pesada, fizera realmente detonar um engenho criminoso. Nada de muito grave. Umas amolgadelas no camião, e umas esfoladelas nos dois militares que seguiam ao lado do condutor. Este – nem uma beliscadura. Porreiro.

Antes do diabo esfregar um olho, nova paragem de supetão, mais metralha, mais alarme total. Pela primeira vez Emanuel Crispim ouviu a troca de mimos entre os nossos e os turras. Vai na tua terra, portuga de merda, beijar o cu do Salazar, cruzando-se com venham cá a baixo, seus paneleiros, para nós os enrabarmos a sangue frio. E com muitos que te pariu e montes de coisas das mães de cada um, parecia um teatro de fantoches de feira.

Não era – mas era. Que mais seriam do que marionetas os tipos de um lado e do outro? Quem puxaria os respectivos cordéis? Só que os dons robertos de tenda de pano não morriam, nem matavam. Estes bonifrates, sim. Estes procuravam o sangue dos inimigos, de um lado e do outro, movidos sabe-se lá porque manivela.

Os que atacavam, faziam-no pela independência que tentavam conquistar; os que se defendiam atrás das viaturas, defendiam alguma coisa, também, para se sujeitarem a tais galopes. Os governantes regougavam que era em nome do Portugal uno e indivisível, do humanismo e da fé. Vá lá saber-se quem estava do lado da razão. Quem sabe se os primeiros?... E os lobos cerebrais continuavam a contorcer-se. Não haveria outra solução para esta cagada em três actos?

Outra solução

No meio de uma refrega enlouquecida e kafkiana, ocorreu-lhe de novo o islamita. «Os nossos e os vossos estão a morrer, o país enche-se de ruínas e a situação escapou-nos completamente a todos. Não achas que já basta?» contava o cronista que dissera Ricardo Coração de Leão a al-Adel, vali de Saladino, quando tentavam um entendimento pacífico para as carnificinas em nome da cruz ou do crescente.

Raio de altura para pensamentos históricos, mas, boa ou má, o certo é que assim congeminara. E continuava a remoer aquando da chegada ao Quitexe. Terra em que os sinais do ataque criminoso da UPA em 61, os branco é galinha, os amuleto nos livra das bala, e essas terríveis consequências dos canhangulos e das catanas - mulheres esventradas depois de violadas ao lado dos filhos decepados, à mistura com as cabeças dos bailundos «fieis», por mais que pinceladas a cal, continuavam presentes.

A guarnição – entre militares e civis - que defendia a povoação tinha os seus quês e os seus porquês. Nada mais justificado para quem se via em tal situação. No bar taberna «Os Cornos da Palanca» em cujas paredes se viam perfeitamente os buracos das balas, toscamente rebocados a cimento cinzento, remendos impassíveis, mas também impossíveis porque sem remédio, os homens discutiam enquanto engoliam Cucas ou Nocais tiradas do frigorífico a petróleo.

Era gente que, nesses dias lixados, se refugiara em Luanda para escapar da chacina. E que, logo que puderam, tinham voltado a casa, à sua casa, seres humanos que nem tendo nascido ali, mas antes bem longe, no Puto, tinham construído as respectivas vidas por tais paragens, de alguma forma inóspitas, mas proporcionadoras de bens e fazendas que, para uns quantos redundaram em fortunas.

Tudo contado – tudo perdido, ou quase. Emanuel admirou-os, ao mesmo tempo que os considerava uns «gandas doidos». Depois da avalanche de terror que tinham sofrido e vivido, a que, no entanto, tinham sobrevivido, era de gajos com tomates ali voltar, em busca do tempo perdido e das massas igualmente malbaratadas. Gente assim era difícil de encontrar. Mas, pelos vistos, havia-a.

Volta a cabeça aos Combatentes. Do outro lado da Avenida ergue-se a massa hercúlea do prédio de cujas lojas faz parte o café, cervejaria e restaurante, normalmente conhecido apenas pelo Punta. Ao seu lado, uma vidraria, cuja dona é a Marabunta, mulher que desembarcara em Lua com a finalidade de exercer a mais velha profissão do Mundo e, graças a ela e a outras manigâncias, enriquecera. Agora, chama-lhe senhora.

É um mastodonte de betão e outros materiais desde o tijolo até às madeiras que conquistou o seu espaço próprio na avenida, principalmente depois do cruzamento com a D. João II. Mais dois ou três prédios adiante, começa a estender-se um pré-muceque, com o seu casario de adobe e cubatas de pau-a-pique. Morre por lá o asfalto, entra-se no reino da terra batida, barrenta e avermelhada.

Lavar as vistas

Um camarada, também desarranchado, vive numa paralela, antes da Paiva Couceiro, alugou um quarto e também frequenta o Punta. Estuda à noite, para fazer o quinto ano liceal no Colégio Viriato, vizinho de paredes-meias. Há noites em que o Fogaça, Armindo Nunes dos Santos Fogaça, de seu nome completo, fica em casa para lavar os vistas. Com a vista que de lá tem. Crispim sabe a estória de fio a pavio.

No primeiro andar do monstro residencial – do outro lado da avenida há mais iguais ou quase, um deles chamado o Muceque Militar porque nele vivem só tropas e suas famílias – moram três jovens, empregadas nos Grandes Armazéns da Baixa, os Quintas & Irmãos, a que o povo chama de chacota, Quintas & Ladrãos, à Rua Direita. Singularmente, uma branca, outra preta cafusa e outra mulata: a Rosinha, a Matildinha e a Luisinha.

O Fogaça instalou, espanto, na sua janela um pequeno telescópio que o maricas do observatório da Mulemba lhe emprestou para poder ver as estrelas, como ele lhe dissera. Mal sabia o astrónomo amador e invertido, que as estrelas do Fogaça usavam sabonete Lux. E faziam grandes farras em casa, naturalmente à noite, pois de dia trabucavam nos balcões do estabelecimento.

Geralmente, têm parceiros entusiastas. Mas quando eles não estão, brincam as três, uma com as outras, outra com as umas, trocando entre elas posições e carícias. Nuínhas, claro, descascadinhas, mamilos e púbis ao leu, tudo, por cima dos divãs de casal que todas têm numa grande sala comum, pois o apartamento só tem mais cozinha e cada de banho. Mas também no chão, coberto com um espesso tapete a fingir de oriental, aos arabescos.

Parece, até, que é mais atractivo quando estão sozinhas na cena debruada pela janela aberto. Tem graça, pensa o Fogaça, se fossem três machos ninguém viria para os espreitar, a não ser que convidasse uns quantos mais pra lá do que pra cá. Nunca o faria, nunca teria instalado a luneta, nunca. Mas, tratando-se de fufas era um montão de candidatos à espreitadela. E ainda dizem que somos todos iguais. Pois.

É tal o espectáculo que o Armindo cobra aos amigos e camaradas que vão ao seu quarto para encostarem o olho ao óculo. É ele que faz a focagem, cuidadosamente, que a bilheteira é cara. Cuidado: não se podem alambazar, muito menos praticar actos menos aconselháveis. «Punhetas são proibidas» diz a negro, traço grosso, um papel A4 branco colado na parede, à guisa de cartaz. Por baixo, mão malandra acrescentou ao impresso manuscrito insidioso: o resto também…

São assim, as noites dos Combatentes, com carrossel, circo ou quejandos, barraquinhas de cacusso seco frito, moamba de galinha-do-mato, feijão de óleo de palma, ou saca-folha de Cabinda. Ginguba, muita, com casca e sem, com sal e, ou gindungo, maçaroca de milho tenro cozida, caju do Golungo e até calulu de São Tomé. Com cerveja, vinho de capacete e uns brandes na moda, principalmente aquele cuja fama já vem de longe.

Crispim vai regressando ao quarto que alugou nas Ingombotas, em prédio a que a gajada chama quilombo, local de reunião de escravos, no Brasil. Não se apressa, que a noite está quente, mais a mais a Lua espreita, metediça, sem nuvens a ensombrá-la. E vai pensando naqueles gajos do Quitexe, em busca deles próprios, tentando denodada e decididamente recuperar um passado que eles quiçá saibam que – já passou.


De uma porta semiaberta sai a voz radiofundida do António Mourão cantando Ó tempo volta pra trás que é um êxito estrondoso. Nunca a dupla Manuel Paião e Eduardo Damas produziu um tal sucesso. «Mata as minhas esp’ranças vãs; vê que até o próprio sol, volta todas as manhãs…». Para a maior parte dos mânfios do Quitexe, o Mourão e o Paião e o Damas enganaram-se. No que respeita ao tempo, está bem de ver.

quarta-feira, setembro 26, 2007



Morreu o Magalhães Mota

Antunes Ferreira
M
orreu hoje o Magalhães Mota. Homem bom, conheci-o quando eu era um catraio e ele um quase homem. Tínhamos seis anos de diferença – era de 35 – e nessas idades era quase um século… Foi em Santarém, mais precisamente no Vale de Santarém, que pela primeira vez nos encontrámos e começámos aí uma Amizade que perdurou pelo tempo fora. Isto porque, ele era natural da cidade escalabitana e o meu Pai era do Cartaxo, ribatejano também, e a família tinha casa no Vale.

Estávamos a passar férias por aquelas bandas. Eu iria nos meus quinze anos espiga dotes. Logo, ele tinha 21. Apesar da «abissal» distância que nos separava, rapidamente nos entendemos. Já estava quase advogado, cursara a Faculdade de Direito da Clássica e terá sido um dos que me levaram a entrar para aquela escola. Passo pouco frutífero, diga-se.

Quando entrou na então Assembleia Nacional, já então apontado como integrante da chamada Ala Liberal (grupo de que constavam também Sá Carneiro, Pinto Balsemão e, depois, Mota Amaral) tive a grata oportunidade de o felicitar pelas suas intervenções no hemiciclo. Almoçávamos no João do Grão e ele acabava de participar, como um dos autores signatários, no Projecto de Revisão Constitucional nº.6/x.

Também subscrevera o pedido de não ratificação do Decreto - Lei 520/71, limitador da actividade das cooperativas, que ficavam reduzidas ao aspecto meramente económico, e esvaziadas de todo e qualquer conteúdo cultural livre, considerado perigoso pelo dito Estado Novo. Na sua última intervenção em que anunciara não regressar à Assembleia, denunciou, designadamente, a utilização de fundos reservados, pelo Ministério do Interior, e respectivo montante, e a actuação política da maioria da Assembleia Nacional.

Já fora sócio fundador e Presidente do Concelho Coordenador da SEDES. Durante o período que assumiu estas funções foi publicado o documento "O País que somos; o País que queremos ser", sobre a eleição presidencial.

Em 74, logo a seguir ao 25 de Abril (de que alguns ainda se vão recordando…), o Quim Jorge, o homem do cachimbo, como lhe chamava, fundou o então PPD, juntamente com Sá Carneiro e Pinto Balsemão. Corria já o mês de Maio. Não perdera tempo. Isto porque logo a 16 desse mês integraria o I Governo Provisório, sobraçando a pasta da Administração Interna. Participou, de seguida, no II, III, IV e VI governos, sempre como ministro. Deputado e membro preponderante do PPD/PSD, desgostoso com a actuação de Francisco Sá Carneiro, em 1979 abandona o partido e integra o grupo que criou a ASDI.

Tantas vezes falámos sobre o andamento da res publica em Portugal. Embora militássemos em partidos diferentes, jamais isso beliscou a nossa Amizade. Com Amigos comuns, muitas vezes abordámos coisas complicadas que, entre outros personagens redundariam em chatices. Entre nós – não. Aponto: as diferenças entre a social democracia e o socialismo democrático. Complicado, hein? Mas ele: olha, Henrique. O um és tu; a outra sou eu. Gargalhadas à solta. Um dia, o falecido Sousa Franco disse-me, em momento de boa disposição e de copos, que nós éramos a única água e o único azeite miscíveis…

O cancro matou-o aos 72 anos. Não irei chora-lo na Estrela, muito menos no cemitério. Porque aí, não dará a sua cachimbada da ordem. Principalmente por isso. E porque, um destes dias será a minha vez – e o Quim Jorge também não assistirá a tais preparos. Amor com Amor se paga. Adeus, Amigo.