sexta-feira, março 09, 2007




REGISTO

Siza Vieira ganha Prémio Secil
* Aos 74 anos, o arquitecto reincide…

Antunes Ferreira
Siza Vieira, aos 74 anos, volta a ganhar – o que se lhe tornou já um hábito. O mais famoso arquitecto português deu-se, agora, ao luxo de «reincidir», o que torna o caso mais grave, pois a reincidência é considerada uma agravante de qualquer falta cometida. Pelo menos, assim dizem os juristas.

Isto porque Álvaro Siza Vieira foi o vencedor do prémio Secil Arquitectura 2006, um dos galardões nacionais mais importantes para os arquitectos. Foi escolhido por unanimidade com o Complexo Desportivo Ribera Serrallo, em Cornella de Llobregat, um município nos arredores de Barcelona. A obra de Siza Vieira, 74 anos, foi encomendada pelo município espanhol e edificada entre 2003 e final de 2005. É constituída por um pavilhão multiusos com capacidade para 2500 pessoas, duas piscinas – uma interior e outra exterior – e uma área de ginásio e serviços comuns.

Em declarações à TSF, o arquitecto afirmou que estava «muito satisfeito» com o prémio, porque é «importante ver o nosso trabalho reconhecido, sobretudo quando recebemos tantas críticas». Siza explicou que a obra, erguida entre 2003 e 2005, é um complexo desportivo multiusos com capacidade para 2500 pessoas, feita à base de «materiais económicos».

«Tem um recinto para desporto, uma piscina (que pode estar ligada ou separada do recinto, que assim é dupla), e tem também um restaurante», disse à estação de rádio. É a segunda vez que Álvaro Siza Vieira recebe o prémio Secil Arquitectura. «Considero este prémio muito importante, já existe há muito anos e o júri é composto por pessoas muito competentes». O galardão, cujo júri foi presidido pelo arquitecto Sergio Fernandez, será entregue pelo Presidente da República a 30 deste mês, na Cidade Universitária, em Lisboa.

Recorde-se que Siza já havia vencido em 1992 o Prémio Secil de Arquitectura, com o auditório e biblioteca infantil da biblioteca pública municipal do Porto. Em 1993 recebera uma menção honrosa da Secil pela Casa de Miramar. Este galardão pretende “incentivar e promover o reconhecimento público de autores de obras” que, incorporando o cimento, “constituam peças significativas no enriquecimento da arquitectura portuguesa”, explica um comunicado da Secil.

A cimenteira atribuiu ainda os prémios Universidades e Concurso de Arquitectura. Na primeira modalidade foram distinguidos os projectos de Francisco Romão, da Universidade Lusíada de Lisboa, (Museu de Escultura de Caxias); Rafael Verhaeghe Marques, da Universidade Autónoma de Lisboa, (Escola de Música e Dança, no Convento do Salvador em Alfama) e Ana Filipa Simões da Silva, da Universidade de Évora (Hammam, “Casa-pátio” em Évora).

No Concurso de Engenharia Civil, foram distinguidos João Marcos Lavos e Romeu Gomes Reguengo, da FCT-UNL (Museu Oceanográfico no Portinho da Arrábida); António Silva Braga, Hugo Ribeiro e Joana Pascoal Teixeira, da FEUP (reconstrução da ponte Pênsil) e Luis Santos Conceição, Sílvia d’Assunção Dias, Sílvio Assis Fernandes e Pedro Campos Leal, da Academia Militar (estudo prévio de um passadiço sobre o rio Nabão, Tomar).

Quem é quem

Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira, nascido em Matosinhos, a 25 de Junho de 1933 é um arquitecto de prestígio internacional, sendo o mais consagrado português. Realizou obras emblemáticas como o Pavilhão de Portugal da Expo'98, em que avulta a famosa pala, a Igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses ou o Museu de Arte Contemporânea da Galiza. Mas a sua obra pode ser encontrada em muitos pontos do Mundo além de, naturalmente, Portugal.

Formou-se na Escola Superior de Belas Artes do Porto, que frequentou de 1949 a 1955. Influenciado, numa primeira fase da sua obra, por nomes internacionais da arquitectura como Adolf Loos e Frank Lloyd Wright, cedo Siza conseguiu afastar-se dessas influências claras e traçou a sua própria linguagem que nos remete tanto para influências clássicas como para o desenho claro e limpo que definiu a obra de Mies van der Rohe, os planos horizontais, a clareza das formas, o requinte do espaço.

Cria verdadeiros marcos na história da arquitectura portuguesa como a Casa de chá, as Piscinas de Matosinhos, o Museu Serralves, a igreja de Marco de Canavezes, ou mais recentemente, o Museu para a Fundação Iberê Camargo no Brasil, onde marca uma nova linguagem arquitectónica, muito à semelhança de Le Corbusier - que, na sua terceira fase, afasta a racionalidade das villas. Siza consegue reinterpretar-se ou mesmo redesenhar-se, procurando uma linguagem que, até então, tinha vindo a mostrar em alguns apontamentos de obras recentes com uma complexidade formal aliada a uma aparente simplicidade do desenho.



Genialidade reconhecida

Os génios são assim. Das coisas mais fúteis fazem obras-primas. Essa sua aparente simplicidade é uma marca que nos permite classifica-lo desta maneira. É uma simplicidade visível tal como o foi o ovo de Colombo. O navegador conseguiu pô-lo em pé, no meio da admiração geral. Álvaro Siza tem posto em pé uma obra que demonstra a sua genialidade.
Para ele, como para alguns outros – estou a lembrar-me de Manoel de Oliveira que em Dezembro completa 99 anos e continua a fazer filmes e, mais importante ainda, projectos para o futuro – a idade não conta. Siza Vieira não pára, porque não pode parar, mas igualmente porque não quer parar.

Estamos perante um coleccionador de galardões. Já recebeu a Medalha de Oiro de Alvar Aalto, bem como o prémio Pritzker que disputam entre si o mais apetecido a nível mundial na Arquitectura. Ambos reivindicam serem os Nobel da arte de desenhar monumentos, edifícios, instalações diversas e afins. Siza guarda-os em meio a uma panóplia impressionante. É, indiscutivelmente, uma figura de Portugal e do Mundo.

Este registo do Homem, da sua Obra e do Prémio ora recebido, não pretende ser mais do que isso mesmo, um registo. Mas também é uma homenagem modesta, mas sincera a um grande Português que tem levantado bem alto pelo orbe terráqueo o nome do nosso País. Parabéns Siza Vieira. Obrigado Siza Vieira.
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Este texto escrevi-o socorrendo-me de fontes diversas. Desde a Wikipedia até à minha TSF, muito me ajudaram essas entidades. E especial à última, a que recorro frequentemente, deixo aqui um abraço de gratidão e de Amizade. O responsável pelo Travessa do Ferreira – que sou eu –não esquece os bons momentos profissionais que viveu na TSF, durante anos. Por isso o adjectivo minha que me permiti escrever.

quinta-feira, março 08, 2007

DESTINO: MÚSICA

Mais um colaborador se junta, a partir de hoje ao Travessa do Ferreira. Há quem diga que se trata de um enciclopedista da Música. Estaremos, portanto, perante um Rousseau em sol maior? Nem pensar. É, sim, o Tapman, um Senhor que sabe realmente de sons, de claves, de pautas, de melodias, de executantes, de intérpretes, enfim e que, a meu convite, passa a estar aqui quinzenalmente. Com uma enorme satisfação de todos, espero.

Diz ele, na proposta que me fez e que, obviamente, aceitei também, que «quinzenalmente mando-lhe uma colectânea original com aproximadamente vinte faixas em ficheiro .rar, com indicação do link onde se encontra para download. Aceito pedidos». Avancem, minhas Senhoras e meus Senhores. É fácil, é de borla e dá… muita música. Tapman tem mais de 190 mil títulos. Só…

O interessante da questão é que as coisas não se ficam só por textos e fotos. Se o leitor melómano quiser ouvir as canções de Johnny Mercer só tem que clicar no link que aqui também se apresenta - está a andar.

http://www.mediafire.com/?cme1yudkwwg
Essa é, neste particular, mais uma aliciante, alem das que constituem os pequenos textos de Tapman. Penso que será muito interessante esta viagem pela Música. As faixas só podem ser ouvidas depois de se fazer o download do album inteiro. Isso faz-se em cinco-dez minutos, consoante a velocidade da net de cada um, e é gratuito. outro.

Está na hora do embarque. Tomem os vossos lugares, não necessitam de apertar os cintos de salvação, mas preparem-se para a descolagem. Não é proibido fumar nos lavabos nem em qualquer outro lugar (enquanto não sair legislação sobre o assunto…) – mas também não é aconselhável. Por mor da saúde.

O nosso percurso será tão excitante quanto cada um de nós o entender. O nosso destino é a Música, onde chegaremos no espaço do clic e no tempo correspondente. O comandante já levantou o polegar direito. Está tudo ok. Levantamos. Voamos. Se fosse o Domenico Modugno, seria…
e incominciavo a volare nel cielo infinito... Volare...oh, oh; Cantare...oh, oh, oh, oh; Nel blu, dipinto di blu; Felice di stare lassù; E volavo, volavo felice più in alto del Sole ed ancora più su… Se os mais novos pretenderem saber quem foi o Modugno, consultem o google, sil us plau (sff em catalá vernáculo). Os da minha idade e eu próprio não precisamos. São os anos… A.F.

NR – Se quiserem sugerir ou solicitar algo neste assunto, tal como o refere Tapman, façam-no através de comentário neste blog ou, ainda, pelo ferreihenrique@gmail.com. Serão, como sempre, bem vindos.


As canções de Johnny Mercer
(1909-1976)


Tapman
Um dos mais consagrados liricistas de todos os tempos. Compositor, cantor e actor, foi na escrita de letras para canções que mais se distinguiu. Poucos como ele têm tantos standards no American Songbook. Nesta colectânea foram reunidos 20 temas, todos compostos e interpretados por individualidades diferentes.

01. Come Fly With Me (Jimmy Van Heusen) – Frank Sinatra
02. Dream (Johnny Mercer) – Ella Fitzgerald
03. Ac-Cent-Tchu-Ate The Positive (H. Arlen) – Susannah McCorkle
04. Moon River (Henry Mancini) – Nancy Wilson
05. Jeepers Creepers (Harry Warren) – Tony Bennett /Count Basie
06. Goody Goody (Matt Malneck) – Rosemary Clooney
07. Tangerine (Victor Schertzinger) – Dean Martin
08. Day In, Day Out (Rube Bloom) – Diana Krall
09. Too Marvellous For Words (Richard Whiting) – John Pizzarelli
10. Laura (David Raksin) – Julie London
11. Early Autumn (Woody Herman) – Billy Eckstine
12. P.S. I Love You (Gordon Jenkins) – Billie Holiday
13. Satin Doll (Duke Ellington) – Johnny Hartman
14. Once Upon A Summertime (Michel Legrand) – Carmen McRae
15. Skylark (Hoagy Carmichael) – Mel Tormé
16. Autumn Leaves (Joseph Kosma) – Doris Day
17. Emily (Johnny Mandel) – Andy Williams
18. And The Angels Sing (Ziggy Elman) – Louis Prima/Keely Smith
19. Dearly Beloved (Jerome Kern) – Bing Crosby
20. The Glow Worm (Paul Linke) – Johnny Mercer

terça-feira, março 06, 2007



NO MACHINA SPECULATRIX

Sócrates e a Imigração

Porfírio Silva edita um blog muito bem concebido e concretizado, o Machina Speculatrix. O Ricardo Charters d’Azevedo, apesar de alguns ameaços que me dirigiu quanto à minha veia bloquística (que, vindos dum malandro de um Amigo que ele é, são elogios encapotados…) foi quem me alertou para o texto que transcrevo e, naturalmente, para o blog.

Este já está firmemente plantado e implantado nos meus FAVORITOS –e bem o merece. E até já lá deixei um comentário/aviso, dizendo que assim acontecera e que tinha muito gosto nisso. Espero que o Porfírio Silva – que penso nem conhecer – não me bata ou, sequer, me invective por esta liberdade. Penso que me consigo safar.

Renovo o convite que lhe fiz no referido comentário/aviso: venha conviver connosco e colabore (como quiser e lhe apetecer) neste Travessa do Ferreira. Desde já, os meus agradecimentos e, estou certo, os dos que têm a paciência de nos visitar e, pasme-se, até, de nos ler… A.F.


Porfírio da Silva
Começou hoje, e continua amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, a conferência internacional Imigração: Oportunidade ou Ameaça? O Primeiro Ministro, José Sócrates, proferiu na sessão de abertura uma intervenção que ilustra o facto de Portugal ter, entre todos os países da União Europeia e mesmo do mundo, uma das políticas de imigração mais inteligentes e mais progressivas.

A largueza de vistas com que o governo de Portugal trata a questão da imigração nota-se bem quando, nesse discurso, Sócrates explicita que a imigração tem de ser entendida à luz de questões centrais para as nossas sociedades actuais, como sejam a evolução demográfica, o crescimento e o emprego, as dimensões civilizacionais e culturais que permitem dizer que "a miscigenação construtiva de civilizações e de culturas é um dos mais importantes efeitos criativos de longa duração do fenómeno da imigração" (palavra de Primeiro Ministro).

A dado passo, disse Sócrates: "A nossa visão deste fenómeno é uma visão positiva, optimista e aberta. Vemo-lo mais como um desafio e uma oportunidade do que como um risco, apesar de termos bem consciência de que ele também implica uma dimensão de ameaça, própria dos fenómenos globais e do intercâmbio humano. É por isso que não podemos partilhar das concepções que querem a Europa como uma fortaleza de difícil acesso a quantos a procuram com o objectivo de melhorar honestamente a sua vida e a dos seus filhos. Não!"

"A nossa é uma visão diferente. São, por isso, bem-vindos todos os que quiserem comungar dos nossos valores constitucionais, das nossas leis e do nosso esforço de construção de uma sociedade partilhada, desenvolvida, justa e solidária." A isto eu chamo falar claro e sem demagogia: nem ignoramos os riscos, nem aceitamos que queiram subverter a nossa sociedade e os nossos valores fundamentais, nem nos fechamos numa falsa fortaleza que só os fracos e os ignorantes podem desejar ou pensar que seja possível.

Como de costume, com Sócrates temos sempre coisas concretas. Não esquecendo a próxima presidência portuguesa no âmbito da União Europeia, eis o cardápio de Sócrates para gerir de forma segura e ágil os fluxos migratórios, respondendo à pergunta "que fazer?": "Em primeiro lugar, controlando com rigor as fronteiras para que os dispositivos de acolhimento possam funcionar com eficácia, proporcionando boas condições de integração a todos os que aspiram a viver legalmente entre nós.

Em segundo lugar, definindo com rigor os limites quantitativos e qualitativos no interior dos quais se deve processar o acolhimento. Em terceiro lugar, desburocratizando e simplificando os pedidos de ingresso de modo a favorecer a procura legal e a evitar as entradas clandestinas.

Em quarto lugar, promovendo - quer no interior da União quer nos principais países de proveniência - uma política de informação clara, rigorosa e ampla sobre as normas que regulam a imigração e desenvolvendo acordos bilaterais com os países de proveniência com vista a uma adequação dos fluxos migratórios às capacidades de absorção nacional dos pedidos de ingresso.

Em quinto lugar, promovendo condições de facilitação do retorno voluntário e de repatriamento condigno aos que se encontram em situação de ilegalidade insanável. Em sexto lugar, incrementando políticas de desenvolvimento recíproco entre países de acolhimento e de proveniência, sendo certo que a imigração regulada e controlada se constitui como factor de crescimento e de desenvolvimento.

Em sétimo lugar, promovendo condições para uma eficaz coordenação europeia do fenómeno, designadamente, para uma acção concentrada sobre as fronteiras de maior risco quer na imigração clandestina em massa quer no tráfico."

Bravo!(Eu não sou de entusiasmos com governos, mas não posso deixar de aplaudir quando, numa questão onde grassa tanta demagogia e tanta irresponsabilidade, um PM fala claro e com lucidez.)

Não fui eu o autor destas linhas que aqui ficam. Ainda que muito boa gente, carregada de «excelsas intenções» gostasse de o afirmar. E por aqui me fico, na esperança de ter mais Porfírio um destes dias.

domingo, março 04, 2007


Quanto a dinheiro…

Antunes Ferreira
Esta «adaptação» do provérbio chinês tem que se lhe diga. O meu Amigo Fernando Teixeira dos Santos, cujo fair play eu conheço perfeitamente (mas não lhe falem ironicamente do seu FêCêPê…) deve ter-lhe achado graça. Mas, ó autor desconhecido, tem muito cuidado com o que destila esse teu cristalino bestunto: a DGCI é gaja para aproveitar… Com Macedo ou sem.

Um dia, antes de ser nomeado Director Geral das Contribuições e Impostos, o meu igualmente bom Amigo António Nunes dos Reis, transmontano da mais pura cepa e fumador inveterado, vinha de Bruxelas, integrando a comitiva do ministro Sousa Franco, de que eu também fazia parte, como habitualmente.

Nunes dos Reis que se sentava nos lugares mais à frente da Executiva, deslocou-se para a última fila, a fim de fumar o seu cigarrito. Dada a excelente relação que se estabelecera entre nós, ele é um porreiraço natural de Freixo de Espada à Cinta (terra de onde ninguém é, mas eu sou, costuma afirmar de puro gozo), solidarizei-me com ele e acompanhei-o, abandonando a cadeira ao lado do ministro.

Claro que me meti com ele, pois já corria à boca pequena que ia ser nomeado para aquele importantíssimo lugar. «António, não tens vergonha nenhuma: vais passar a fod…-me todos os meses…». E ele, nada, impávido e sereno, puxando deliciado as suas fumaças. «Nunca pensei – prossegui – que um gajo à maneira como tu pudesse fazê-lo…». E o bicho, vejam lá, também portista dos sete costados, moita-carrasco.

«É pá, não me estás a ouvir ou queres que faça um boneco?». «Ó Henrique, eu era lá capaz de uma coisa dessas. Eu até nem gosto de homens!...». Caímos na gargalhada, de tal forma ruidosos que o Rodolfo Lavrador, chefe de gabinete do MF, também foi lá atrás, «ó Antunes Ferreira, conte outra vez a anedota, para eu também me rir. E olhe que o ministro, se calhar, igualmente gostaria de a ouvir…». E avisei-o de que não se tratava de uma piada minha.

Repeti-lhe a pergunta e o Nunes dos Reis reafirmou a resposta. As risadas, se possível, subiram de tom. E o malandro do transmontano: «é pá, deste-me uma ideia para a campanha que quero lançar. Só os termos…» E eu: «usas tramar, com um não a antecedê-lo, como é óbvio, e acrescentas para que você não se chateie todos os dias. Espera lá, é melhor aborreça. Mas não terá tanto impacto…».

Desta feita, até o comandante saiu do cockpit. Alegadamente para cumprimentar o governante. Mas, hoje, à distância de uns anos, quase juro, que foi para ver se descortinava a origem e o porquê da risota meio desbragada. Receio de desvio do avião, com tais efusivas manifestações vocálicas, não foi. Aqui – tenho a certeza.

Juro mesmo que não fui eu o autor do sugestivo cartaz.

sábado, março 03, 2007



LER & ENTENDER
A Índia no Século XXI
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Pretende-se noiva, ASPECTO DE FADA, elegante, muito alta, educada, MODERNA, extremamente bela, de família industrial para 27/187 jovem elegante, esguio, muito belo, filho único de um abastado Ministro do Governo da Índia, de casta hindu elevada, actualmente muito apreciado. O jovem é vegetariano, tem bons hábitos, está bem estabelecido em Londres com o seu próprio negócio. A casta não é impedimento. Se estiver disposta a fornecer primeiro pormenores sobre a sua pessoa, responda por favor para…
In Hindustan Times, 15 de Setembro de 2000
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Antunes Ferreira
Pavan K. Varma é diplomata de carreira, indiano, tendo desempenhado funções nessa área em Nova Iorque, Moscovo e Nicósia. É considerado hoje um dos autores de não ficção mais lidos e admirados na Índia. Neste momento é o Director do Centro Nehru, em Londres e Director-Geral do Conselho Indiano para as Relações Culturais.

Autor do livro A Índia no Século XXI, dado à estampa pela Editorial Presença na sua colecção Sociedade Global, Pavan Varma adquiriu através dele uma notoriedade que se tem vindo a espalhar pelo Mundo. A obra, datada de 2004, começou por ser publicada na Índia. No ano seguinte, sai em Londres a edição inglesa. Em Outubro do ano passado é o mercado livreiro português que a acolhe. E muitas latitudes mais vão-na consumindo.

Para quem, como eu, gosta muito do Oriente, era essencial ler o livro. Fi-lo. Além do mais, casado com uma goesa, como já tenho dito e redito, a Índia tem em mim um especial observador, atento tanto quanto possível. De resto, aquando da minha permanência profissional no Diário de Notícias, entrevistei Indira Gandhi e, depois, seu filho, Rajiv Gandhi, ambos na qualidade de primeiro-ministro daquele imenso território, parte esmagadoramente maioritária do subcontinente.


Além disso, tenho muitos Amigos, para alem de familiares de minha mulher que tão bem me acolheram, espalhados um pouco pela União Indiana. Desde Goa, naturalmente, a Nova Deli, desde Mumbai (antiga Bombaim) a Bhubaneshwar, desde Bangalore a Shrinagar, desde Madras a Calcutá, desde Cochim a Amritsar, desde Calecute a Jaipur, desde Haiderabade a Agra percorri aquele imenso país que é actualmente o segundo maior do Mundo em população.

A Índia (Bharat, em devanágari) tem uma história riquíssima, uma cultura milenar, tradições enormes. No seu seio nasceram quatro das mais importantes religiões: hinduísmo, budismo, jainismo e siquismo. Contraste vivo entre os extremos da riqueza e da pobreza, ela é já hoje, a décima segunda maior economia mundial. E está considerada como uma das Grandes potências emergentes do século actual. É detentora do poder nuclear, o que lhe confere uma importância muito grande no contexto internacional.

Mistério quase impossível

N
o entanto, para muita gente – e boa – ela persiste em ser um mistério quase impossível de entender. Pelo menos, dificílimo. As contradições que nela existem, os sectores que nela coabitam, as raças que a integram, as 22 línguas que são usadas, os dialectos às centenas, tudo isso leva a que o imbróglio continue a deixar muito cenho franzido, muitas dúvidas quase existenciais, muitas interrogações permanentes.

É neste contexto que o livro de Pavan Varma é uma verdadeira obra-mestra. Tal qual o Taj Mahal? Longe vá a comparação, mas que o diplomata, escritor e homem da cultura, produziu coisa de enorme vulto – lá isso produziu. Propôs-se delinear o que será a Índia no século XXI. Para tanto socorreu-se da análise do Indiano, ou seja, debruçou-se sobre ele mesmo, numa introspecção árdua mas conseguida.

Daí partiu para os caminhos que o país vem trilhando, nomeadamente nos finais do século passado, mais precisamente a partir das enormes reformas de 1991, desenhadas e já iniciadas no governo de Rajiv Gandhi. Honestamente, o autor não pretende escamotear nada da realidade, desde a subsistência, ainda que mais atenuada, das castas, até ao espírito que enforma aquela que é chamada a maior democracia do Mundo.

E com razão. Independentemente de curar de saber se os milhões e milhões de cidadãos indianos são todos aptos a entender o direito de voto, o que ele representa e, logo, para o que serve, o facto incontroverso é que através de eleições onde cada ser humano é igual ao parceiro do lado, são escolhidos os órgãos do Poder na Índia. Processo que, com mais ou menos acidentes de percurso, vigora desde a independência, em 1947.

Os actos eleitorais no país são, sem grandes dúvidas, a «actividade política organizada mais extensa da história da Humanidade» escreve Sibal Kanwal, na sua obra Understanding India, edição da Indian Horizons, uma edição em vários volumes de que ele faz parte. A publicação que é feita regularmente em Nova Deli, é da responsabilidade do Conselho Indiano para as relações Culturais que já atrás citei.

A dicotomia mais gritante

N
a verdade, se há país em que a dicotomia mais gritante pode ser constatada, ele é a Índia. Onde, nos dias de hoje, o software é dos melhores do orbe terráqueo, onde os especialistas neste domínio se contam por alguns milhões, onde uma grande parte das maiores multinacionais, transportadoras aéreas, seguradoras, bancos e outras realizam a sua gestão administrativa e informatizada.

Por outro lado, o gigante do subcontinente tem vindo a desenvolver empreendimentos que rapidamente se transformaram em fontes de receita muito volumosas. É o caso do chamado turismo de saúde. Não se trata aqui da actividade dos homens santos; é uma realidade científica, médica e hospitalar. A preços muito razoáveis, homens e mulheres de muitos países industrializados deslocam-se à Índia para se submeterem a check ups completíssimos e excelentes.

De igual modo, os tratamentos mais sofisticados, realizados em instalações a roçar a perfeição, realizam-se em profusão cada vez maior. Profissionais de saúde de grande capacidade, desde médicos a enfermeiros, desde paramédicos a operadores de equipamentos são inúmeros e muito qualificados. E baratos, se comparados com outros igualmente competentes mas de outras zonas do Mundo.

Mas a antítese é também verdadeira. Bastou-me visitar o bairro dos leprosos de Calcutá, a que chamam a Cidade da Alegria, a que Dominique Lapierre deu dimensão mundial no seu livro do mesmo nome, para ver o que é o drama da doença e da miséria mais espantosa. Aliás, tive o prazer e a honra deter tido o jornalista e escritor francês como meu cicerone pelas ruas onde uma outra celebridade, a Madre Teresa, exerceu o seu múnus de tamanha importância.

Dominique, que inclusive deu o nome a uma fundação destinada a auxiliar os habitantes do bairro, disse-me que fora ali que sentira o maior impacto humano que alguém pode receber, mas também aí fora o local em que encontrara, a par de rivalidades sanguinárias e criminosas, a maior demonstração de solidariedade entre gente desgraçada e sofredora. «Já não volto a escrever com o Larry Collins, não porque nos tenhamos afastado, muito menos zangado», disse-me. «Simplesmente porque descobri este Mundo; o Mundo».

Já tinha vivido o drama dos inquilinos dos passeios na então Bombaim. Uma prima de minha mulher, também goesa, em casa de quem vivi uma semana, morava no Bairro de Baycula. Da janela do seu segundo andar, tive a primeira imagem nocturna das lutas entre pessoas que estendiam as suas esteiras em «lugares marcados» dos passeios. Onde não apenas dormiam, mas viviam, defecavam, pariam e morriam. Se algum «invasor» lhes tentasse usurpar o «microterritório», podia até ser eliminado fisicamente.

Já vira em Haridwar, «situada onde o Ganges termina a sua descida dos Himalaias e inicia a sua longa viagem para o mar, entre planícies, cidade sagrada para os hindus», no dizer de Varma, como os crentes mais esqueléticos, famélicos, escanzelados, se banhavam nas águas infectas do rio e bebiam com as mãos em concha, ao lado de restos de cadáveres mal cremados que o caudal ia levando.

Pois Pavan faz a equação impossível entre tudo isto. De uma forma notabilíssima, com um engenho descritivo e uma análise crítica tão perfeitos que deixam um leitor, como é o meu caso, espantado à enésima potência. Se algo posso indicar dessa síntese sincrética e amalgamada, o anúncio que acima publico, transcrito, comentado e explicado pelo autor, é um exemplo extraordinário.

Mesmo que não se tenha estado na Índia, mesmo que não se goste do Oriente, mesmo que os preconceitos ocidentais nos levem a rejeitar esse pot pourri a que os Ingleses chamaram Índia – deve ler-se A Índia no Século XXI. Façam-no, naturalmente se o quiserem – e, depois, digam-me coisas. Desde já vo-lo agradeço.

sexta-feira, março 02, 2007




QUID JURIS?
Tiro nos cornos…

O Ricardo Charters d’Azevedo volta a atacar… Desta feita, o senhor gajo mandou-me este naco de prosa, verdadeiro mimo inserto na Jurisprudência indígena, que já está registado nos Anais de Bem Ler, Escrever e Interpretar a Língua Pátria. Para além do evidente assento na Colectânea que também se indica.

Para quem entenda que o Fernando Pessoa, para além do seu absinto no Martinho da Arcada e dos heterónimos e da Mensagem e de todas essas coisas importantes, escreveu a frase que se tornou lapidar, a nossa Pátria é a Língua Portuguesa. E o resto é paisagem. O recurso que o Ministério Público entendeu fazer, face à sentença inicial do magistrado da primeira instância, vingou – e bem.

Os Desembargadores lisboetas encheram-se de brios. E produziram um Acórdão que bem merece divulgação, mesmo muito para além e naturalmente do âmbito deste blog. Os Portugueses e, naturalmente, as Portuguesas bem andam necessitados de aprender a nossa língua. Já não se trata da odiosa tarefa dos meus tempos de moço: dividir as orações dos Lusíadas e passar por cima do Canto IX do poema, aliás «inexistente» para a censura moralisto-salazarista. A Ilha dos Amores era indecentemente pornográfica…

Fiquemo-nos por aqui. Não sem encomiar ainda o trabalho do João Simas, de Évora, que enviou o primoroso excerto do documento exemplar ao meu Amigo Ricardo. Nem faço ideia de quem seja; mas tem de ser um tipo porreiro, isto é, um senhor tipo porreiro. Esteja atento, João Simas, esteja atento, como agora demonstrou estar. Continue. Descobertas destas, pelo menos, cabem no Travessa do Ferreira. E em muitos mais lugares. A.F.

Por conseguinte, e com a devida vénia, transcrevem-se a seguir extractos do Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 9 de Abril de 2002, publicado na Colectânea de Jurisprudência, Ano XXVII (2002), tomo 2, página 142 e seguintes.

O Ministério Público deduziu acusação pela prática de crime de ameaças porque " durante uma discussão, o arguido ameaçou o ofendido, dizendo que lhe dava um tiro nos cornos". "Com tais palavras o visado sentiu intranquilidade pela sua integridade física".

O Juiz (de julgamento) decidiu não receber a acusação " porque inexiste crime de ameaças (…) simplesmente pelo facto de o ofendido não ter «cornos», face a que se trata de um ser humano. Quando muito, as palavras poderiam integrar crime de injúrias, mas não foi deduzida acusação particular pela prática de tal crime ".



O Ministério Público recorreu da decisão, tendo o Tribunal da Relação de Lisboa acolhido o seu recurso, dando-lhe razão, remetendo-se o processo para julgamento, entre outros, pelos motivos que de seguida se descrevem, em breves extractos.

"Como a decisão (recorrida) não desenvolve o seu raciocínio – talvez por o considerar óbvio -, não se percebe quais as objecções colocadas à integração do crime. Se é por o visado não ter cornos estar-se-ia então perante uma tentativa impossível? Parece-nos evidente que não ." "Será porque por não ter cornos não tem de ter medo, já que não é possível ser atingido no que não se tem ?"

"Num país de tradições tauromáquicas e de moral ditada por uma tradição ainda de cariz marialva, como é Portugal, não é pouco vulgar dirigir a alguém expressão que inclua a referida terminologia. Assim, quer atribuindo a alguém o facto de "ter cornos" ou de alguém "os andar a pôr a outrem" ou simplesmente de se "ser como" (…) tem significado conhecido e conotação desonrosa, especialmente se o seu detentor for de sexo masculino, face às regras de uma moral social vigente, ainda predominantemente machista ".

"Não se duvida que, por analogia, também se utiliza a expressão "dar um tiro nos cornos" ou outras idênticas, face ao corpo do visado, como "levar nos cornos", referindo-se à cabeça, zona vital do corpo humano. Já relativamente à cara se tem preferido, em contexto idêntico, a expressão «focinho» ".

"Não há dúvida de que se preenche o crime de ameaças (…) uma vez que a atitude e palavras usadas são idóneas a provocar na pessoa do queixoso o receio de vir a ser atingido por um tiro mortal, posto que o local ameaçado era ponto vital ".

Ora vivam, Senhores Desembargadores! A Justiça é vendada – mas não é cega.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007



BARÓMETRO MARKTESTE

O PS reforça maioria
e Sócrates popularidade


Antunes Ferreira
A Comunicação Social dá hoje relevo aos resultados do Barómetro da Markteste para o DN e a TSF, do corrente mês. Escreve a este propósito a Jornalista Paula Sá no matutino da Avenida da Liberdade um artigo noticioso, do qual me permito transcrever alguns trechos. Desde já agradeço, quer à autora, quer ao jornal, onde já tive o prazer e a honra de trabalhar.

O dia 11 de Fevereiro, que deu a vitória ao "sim" no referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez ditou o ritmo do Barómetro da Marktest do corrente mês. Os socialistas, que se bateram pela alteração ao Código Penal no que diz respeito ao aborto, conseguem reforçar a maioria absoluta, passando dos 43% nas intenções de voto obtidas no primeiro mês do ano para os 47%, mais dois pontos do que obtiveram nas legislativas de 2005. Curiosamente, é o eleitorado masculino o mais rendido ao partido de José Sócrates, por comparação com o feminino.

O secretário-geral dos socialistas e primeiro-ministro - que foi considerado pelos opinion makers como o grande vencedor do referendo, devido ao seu empenho na causa - consegue mesmo a proeza de duplicar a subida do PS no índice de popularidade dos líderes, ao arrecadar mais oito pontos percentuais na consideração dos portugueses auscultados.

Ao invés, o PSD, que não teve uma posição oficial neste combate político, embora o seu líder acabasse por fazer campanha pelo "não", (…) desce um ponto percentual nas intenções de voto relativamente ao mês anterior, ao quedar-se nos 27%. Menos um ponto percentual do que o PSD conseguiu nas últimas legislativas.


O partido de Ribeiro e Castro (CDS/PP), que tinha vindo a subir inexplicavelmente nas intenções de voto desde o final do ano passado, (…) sofre agora uma queda relevante, ao passar dos 8% para os 5%. Neste caso, a descida poderá justificar-se pelo fenómeno de arrastamento do resultado da consulta popular e nunca por qualquer nova divisão interna. Tanto mais que Paulo Portas, que tem vindo a movimentar-se nos bastidores no sentido de avançar para a liderança do partido, também fez campanha, discreta é certo, pelo "não".

(…) O PCP e Bloco de Esquerda sofrem uma pequena oscilação. O primeiro ganha um ponto percentual (dos 9% para os 10%), o segundo desce esse mesmo ponto (dos 8% para os 7%). O que quer dizer que o empenho de Jerónimo de Sousa na campanha da consulta popular não trouxe grandes dividendos ao PCP. O líder comunista sofre mesmo um tombo no índice de popularidade.

(…) Pior resultado apresentam os bloquistas, que também se envolveram na campanha. Os tempos de antena do BE foram os mais assertivos na defesa da despenalização a bem da dignidade das mulheres. O eleitorado não parece ter reconhecido este esforço e o BE desce um ponto percentual relativamente ao Barómetro de Janeiro. Mas Francisco Louçã, que tem vindo a cair no índice de popularidade - em Janeiro descia três pontos no ranking de popularidade dos líderes e em Fevereiro volta a descer mais dois pontos -, ainda se mantém à tona, ou seja, num nível positivo de reconhecimento público.

«Sosseguem», portanto, os que dizem ser o governo socialista a maior desgraça que podia ter acontecido ao nosso País. Esses arautos do pessimismo podem – se o quiserem fazer – anotar estes resultados, ainda que lhes causem azia ou dores de cabeça, ainda que os abominem. Tantas vezes já o escrevi, mas repito-o sem qualquer pejo: os Portugueses, afinal, confiam no Executivo chefiado por José Sócrates e dar-lhe-iam até, se as eleições se realizassem agora, uma maioria absoluta mais… absoluta.

Não sou eu, por consequência, quem embandeira em arco – se assim acontece, são os cidadãos deste País. A quem os arautos da desgraça e os saudosistas de outras eras e outro regime auguravam a queda mais abissal. Os velhos do Restelo serão sempre assim: sentados, para não se cansarem muito, predizem, qual Profetiza de Delfos, as desgraças que descortinam quanto mais não seja no horizonte. Têm falhado.

Quer isto dizer que Portugal já atingiu um patamar de bater palmas? Só um tonto o faria. Eu, que não me considero completamente assim, registo os resultados e congratulo-me com eles. Não porque sou filiado e velho do Partido Socialista (N.º 1033…), mas porque desejo para o nosso Portugal as melhores e maiores felicidades.

Porque quero para os meus netos (os meus filhos são já crescidotes…) um País mais desenvolvido, onde o bem estar seja ambição concretizada, onde se viva com maior satisfação, onde se tenha orgulho de viver. E parece que vamos avançando no que concerne a esse desiderato. Passo a passo, devagarinho, mas aparentemente de forma sustentada. O que quer dizer que todos nós temos de acelerar. Milagres não existem. Trabalho, produtividade, qualificação, pertinácia são a chave do sucesso. Que temos direito a alcançar.

Por agora, fico-me por aqui. Os dados da Markteste são significativos. As sondagens e os inquéritos valem o que valem, mas, de qualquer forma, indiciam sempre qualquer coisa. Para os que gostam dos resultados um só pedido: continuem a seguir em frente e aumentem a velocidade. Para os que não gostam: não comam. Ponham na beirinha do prato. Estão no seu direito. Deles, obviamente.

domingo, fevereiro 18, 2007


O ano do Porco- ou porco?

*祝你豬年笑口常開
Que o Ano o mantenha sorridente, apesar de tudo
的一年行好運 ,快快樂樂 ,身體健康 ,事業有成
Boa sorte, felicidade, saúde e sucesso



Antunes Ferreira
Diz a lenda mais antiga da China que Buda, antes do Nirvana, chamou todos os animais para uma grande festa de despedida. No entanto, e apesar do aliciante, apenas vieram 12. Então, o Senhor, decidiu agraciar esses apoiantes e deu o nome de cada um, pela sua ordem de chegada, aos 12 anos que se seguiriam. Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco foram os contemplados. Tudo começou assim.

Mas, as coisas não ficaram por aqui. Além destes animais, que estão na base dos signos do Zodíaco Chinês, consideram os asiáticos que, para se complementar os horóscopos há que juntar-lhes cinco elementos da Natureza: Metal, Água, Madeira, Fogo e Terra. Enquanto o animal «regente» muda todos os anos, o elemento muda apenas de dois em dois. Logo, ciclos de 60 anos que se foram sucedendo até aos nossos dias. Hoje inicia-se, assim, o ano do Porco do Fogo.

É a maior festa chinesa, o ano novo lunar. As comemorações transbordam para as ruas; os panchões, o fogo de artifício, os pratos especiais, as bebidas mais refinadas, a alegria mais eufórica pintada a vermelho enfim, são, mais que obrigatórias, imprescindíveis. E, desde logo, não apenas no antigo Império do Centro. Veja-se a quantidade de chineses que se dispersaram pelo Mundo em diáspora imensa. Eu, que já assisti às festas na China e em diversas comunidades chinesas, posso atesta-lo.

Daí que se preveja que 2007 vai ser um ano fértil em eventos para comemorar. Este Ano do Porco do Fogo será tempo para assinalar os 200 anos da 1ª invasão francesa, de Junot, os 100 anos da criação dos escuteiros, os 50 do Tratado de Roma que criou a CEE e do aparecimento da televisão em Portugal, ou ainda os 50 anos do Sputnik e da criação da piña colada.

O Diário Digital publica hoje um curioso trabalho produzido pela Revista Macau, cuja síntese foi distribuída pela Lusa. O reinado do Porco tem significados assaz diferentes para os principais políticos portugueses. Ideia original, que há que saudar. De acordo com ela, 2007 parece mais favorável a Cavaco do que a Sócrates. Transcrevo, a esmo, algumas passagens do artigo.

Nascido a 15 de Julho de 1939, Aníbal Cavaco Silva é do signo Coelho e, segundo, as previsões dos almanaques chineses no trabalho, recebe «influências favoráveis» que abrem o caminho do sucesso, neste ano em que os nativos de Coelho «terão a visão e a determinação necessárias para alcançar os objectivos que definirem» e se tornarão «poderosos» se aceitarem desafios.

Com menos energias positivas e mais trabalho - ainda que, neste particular, será «provavelmente a área com maiores potencialidades», referem os almanaques - parece estar José Sócrates, do signo Galo.

No campo político poderá contar com a «ajuda» do seu «rival», Marques Mendes, igualmente Galo - os dois nasceram, respectivamente, a 06 e 05 de Setembro de 1957. E os astrólogos chineses lá têm as suas razões…Mesmo assim, para o primeiro-ministro, «apesar de previsíveis obstáculos e rivalidades, há a registar o surgimento do “homem nobre”». Mas fica o aviso: «os nativos do Galo devem preferir o sucesso real e discreto ao sucesso espectacular, já que este último atrairá rivalidades».

Quem não tem em perspectiva um ano muito positivo é Ribeiro e Castro, nascido a 24 de Dezembro de 1953 e, por isso, nativo de Serpente, que será o signo «mais desafiado ao longo de 2007». Deste modo, o líder do CDS/PP vai ter de continuar a estar com a maior atenção, já que «alguém vai querer impor-se e condicionar o destino dos nascidos sob o signo da Serpente».

Para Francisco Louçã, de 12 de Novembro de 1956 e portanto pertence ao signo do Macaco, o ano pode não ser «formidável, mas será animado» no campo sentimental com «muito convívio e muita festa» embora «pouca capacidade para controlar a evolução dos acontecimentos». 2007 será também um ano de «criatividade» para os nativos do Macaco como o líder do Bloco de Esquerda e, segundo rezam as previsões, o «seu valor profissional será reconhecido». Apesar das previsões positivas aconselha-se discrição «já que o excesso de exposição atrairá problemas».A vida, se for demasiado agitada poderá desequilibrar as «energias vitais».

Jogando «em casa», Jerónimo de Sousa, nascido a 13 de Abril de 1947, vai enfrentar o Ano do Porco num ambiente de incerteza. No campo sentimental, o líder do PCP poderá ter um ano marcado pela mudança. Mas, veja-se, «para os que vêm de uma experiência difícil, a mudança poderá significar o fim dos problemas»; mas a possibilidade de um acontecimento «seriamente negativo será pequena», referem as previsões.O campo do trabalho é o que oferece «maiores potencialidades» e se os nativos do Porco não cederem a dificuldades e mantiverem a serenidade e a confiança «o que parecia inicialmente um problema se transformará, em pouco tempo, em oportunidade e boa sorte».

Os dados estão lançados. 2007 para nós já começou a 1 de Janeiro. Hoje, para os chineses entra o ano do Porco do Fogo. Neste campo das previsões, já lá dizia o portista João Pinto, «só no fim do jogo». Frase que se tornou apologética pela ironia, mas que, bem vistas as coisas… pelo seguro ainda é o melhor…

sábado, fevereiro 17, 2007





Muito mais do que cachaça
* Ninguém – a não ser os próprios brasileiros – levava muito a sério o investimento do país do Carnaval na produção de etanol.

Mónica Bello

Há uns anos, aterrava-se numa cidade brasileira e os sentidos eram invadidos por um estranho cheiro amargo-doce que, ao contrário do que se poderia esperar, não se encontrava no fundo de um copo de cachaça. Nos anos 90, a indústria automóvel europeia (e norte-americana) mantinha-se empedernida, conservadoramente dependente do petróleo, surda aos avisos sobre os efeitos do aquecimento global e a anos-luz dos motores movidos a álcool. Ninguém – a não ser os próprios brasileiros – levava muito a sério o investimento do país do Carnaval na produção de etanol.

No espaço de uma década, tudo isto mudou e aquilo que era considerado um exotismo, está, hoje, promovido a um dos maiores negócios do novo século – sobretudo depois do grande “empurrão” dado pelo presidente norte-americano no discurso deste ano do “Estado da Nação”, em que Bush estabeleceu a meta de reduzir em 20% o consumo nacional de gasolina nos próximos dez anos. Ou seja, diminuir para 1/4 as importações do petróleo provenientes dessa zona do mundo incontrolável, que dá enormes dores de cabeça e se chama Médio Oriente. Nos EUA, a chamada presidencial pró-etanol não ficou sem resposta, até porque vão chover ajudas aos produtores nacionais de combustíveis mais “limpos”. E da indústria automóvel chegou também um sinal. Uma semana depois do discurso de Bush, as séries Indy arrancaram em Daytona para uma época 2007 “100% etanol”. E se os 650 cavalos de cada um destes Honda V8 de 3,5 litros não se queixam dos vapores alcoólicos, sobram poucos argumentos para a não reconversão da generalidade da indústria dos automóveis de trazer por casa.

No Brasil, maior produtor e consumidor mundial de etanol, a rainha deste novo “ouro verde” é a cana-de-açúcar. Com plantações que cobrem 2,35 milhões de hectares, a produção alimenta três indústrias: a do açúcar, a da energia eléctrica e a do álcool, sendo responsável, ainda, por 6% de todos os empregos do país. É o futuro. Ou é isso, pelo menos, que pensam os multimilionários do costume: ao café e algodão brasileiros, George Soros juntou no ano passado o etanol, Bill Gates investiu em três novas fábricas de etanol e os fundadores do Google também já anunciaram a intenção de seguir pelo mesmo caminho. Ali ao lado, no Peru, com as plantações de cana, de novo, nas mãos dos privados e um acordo de comércio livre assinado com os EUA, sucedem-se os investimentos – espanhóis, norte-americanos e brasileiros. E o panorama repete-se mais a Norte, na Colômbia e República Dominicana.

Quase 500 anos depois do português Martim Afonso de Sousa ter levado a cana-de-açúcar para a América do Sul, não deixa de ser irónica a ausência dos grandes investidores portugueses da energia (onde o Governo de Sócrates mantém a última palavra) neste novo filão do comércio mundial. EDP e Galp têm aumentado a presença no Brasil. Mas, até agora, sem açúcar.

Imperdível mas perdoável

Ora pronto. Mais um a juntar ao de baixo… De novo o blog da nossa Embaixada em Brasília. Daí que, reincidente e contumaz, o que me resta é, tão-só, repetir o que ali digo no que concerne a agradecimentos. Mas também, aplaudir a Mónica Bello (
mbello@economicasgps.com) que aborda uma questão de uma tão grande importância – e fá-lo de forma simples, informada e compreensível para o comum dos mortais. Parabéns Mónica. E, por extensão, ao Diário Económico, onde ela é gente importante. Ao qual não pedi autorização para esta transcrição. Penso que estou perdoado. A.F.



Lisboa - a mais segura da Europa

* Lisboa é a capital mais segura da Europa, segundo uma pesquisa realizada pelo grupo Gallup para o Instituto de Pesquisa Inter-regional de Crime e Justiça das Nações Unidas (UNICRI).

Ao invés de recorrer aos dados disponibilizados pelas autoridades policiais, a pesquisa incluiu entrevistas com 1200 cidadãos de cada cidade sobre as suas experiências. Das pessoas interrogadas em Lisboa, apenas 10% revelou ter sido vítima de delitos comuns. A percentagem foi a mais baixa da União Europeia e Lisboa foi seguida por Atenas e Budapeste (13%) e por Madrid (14%). Em Portugal, os crimes contra imigrantes estão também entre os mais baixos.

A pesquisa revela ainda que 15% da população europeia foi vítima de um crime comum em 2004, o que representa uma queda em relação ao último estudo efectuado em 1995, quando o resultado foi de 21%. Mais informações sobre Lisboa e outros destinos em Portugal em http://www.visitportugal.com/

O blog da Embaixada
O blog da Embaixada de Portugal no Brasil continua a tarefa a que se propôs de forma excelente, persistente e sempre mais completa. O Travessa do Ferreira tem-se socorrido muitas vezes dele, como hoje acontece. E não podia deixar de o registar e acentuar, pois que recorrer a ele torna-se quase obrigatório. A selecção que é feita pela equipa chefiada pelo Chico Seixas da Costa e o permanente empenho posto nos temas que relacionam os nossos dois Países, levam a que, até, despreze outras fontes de informação. O caso acima é paradigmático. Muito obrigado, Amigos.
A.F.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007




Jardim e os tomates

Antunes Ferreira
O inefável Alberto João Jardim está – como costuma estar – ao ataque! Franco atirador, não se pode dizer que seja um sniper. Falta-lhe habilidade, subtileza e pontaria para tal, ele que dispara a peito aberto. Como bom zulu que se preza de ser, vê-lo apontar ao alvo com arco e flechas grandes seria normalíssimo.

Desta feita e a propósito do referendo sobre a IVG, Alberto João diz que os portugueses do Contenente não têm testículos. Podia ter dito tomates ou mesmo…, a sua língua desbragada é capaz de tudo. Parece, no entanto, que falou apenas em falta de testículos. Para quê? Para dizer que o resultado do referendo à interrupção voluntária da gravidez (IVG) não é vinculativo. Ele sim, ele tem-nos e no lugar. Se não o acentuou, pensou-o. Logo, prometeu levar a sua posição – contra a aplicação da futura lei na Madeira – até ao Tribunal Constitucional.

Antes, ou seja, em declarações aos jornalistas depois de ter votado no referendo, no Funchal, afirmara que "se o Estado legislar a favor disso [do sim], vai ter que dar dinheiro à Madeira, nós não estamos preparados, nós não temos dinheiro porque fomos roubados. Quem nos tirou dinheiro vai ter de pagar".

Ora bem. Entre a população capada e a massa que lhe falta por ter sido «roubado», sem especificar porquê, o homem continua a virar-se contra o poder central e a dar as cambalhotas necessárias para que o crime, o seu crime, compense. Entre ameaças e chantagens, ele continua imparável. Até já fala em eleições antecipadas para a Região. Não me restam dúvidas: os pobres de espírito julgam normalmente que conquistam o reino… da asneira.



Liberdade, Segurança
e Terrorismo


José Augusto Sacadura
A guerra contra o terrorismo desencadeada pelo mundo ocidental após os trágicos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001 tem vindo a dar relevo crescente à vertente securitária, alterando o equilíbrio social que tradicionalmente vigora no binómio “liberdade/segurança”, fundado no respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.

Trata-se do interminável conflito entre os valores da liberdade e da segurança. A necessidade de lutar com maior eficácia contra o horror do terrorismo global acaba inevitavelmente por impor a adopção de medidas e a utilização de mecanismos que são, teoricamente, susceptíveis de pôr em risco ou de causar dano às liberdades fundamentais.

Não se discute a utilidade prática da retenção de dados de tráfego, no âmbito da prevenção criminal ou da investigação policial. A mesma encontrava-se já prevista, justamente desde os atentados de Madrid de 11 de Março de 2004, no plano de acção da União Europeia contra o terrorismo.

Também é indiscutível a enorme utilidade das técnicas de vigilância como instrumento de prevenção criminal, de auxiliar da investigação policial e para recolha de meios de prova dos crimes cometidos. Mas é lícito recear as consequências da respectiva utilização abusiva, designadamente para fins atentatórios das liberdades individuais.

Por outro lado, é fácil reconhecer que é nos períodos de maior insegurança social, marcados pelo terrorismo ou por outras formas de criminalidade mais violenta que se torna mais fácil fazer adoptar essas e outras medidas de cariz securitário, mais rigorosas e musculadas.

Será hoje possível a uma democracia lutar com eficácia contra o terrorismo “total” respeitando, ao mesmo tempo, os direitos dos cidadãos, inerentes a um Estado de Direito? Como poderão esses Estados fazer face a este “novo terrorismo” que procura fazer o maior número possível de vítimas, sem renunciar, ao menos parcialmente, aos direitos fundamentais de que se reclamam paladinos? É que a vulnerabilidade dos regimes democráticos perante o terrorismo, em grande medida resultante das liberdades que proporcionam e cujo exercício as democracias tornam possível aos cidadãos não deverá levá-los a reacções excessivas. A questão está em saber se poderão os Estados democráticos escapar a tal excesso.


O último patamar da barbárie

Em causa está a análise de diversas questões, girando, todas elas, à volta da necessidade de lutar com eficácia e sem desfalecimentos contra organizações e actividades terroristas que se aproximam desse último patamar da barbárie, que é o “terrorismo “total”, e, ao mesmo tempo, de respeitar os direitos fundamentais da pessoa, trave mestra das nossas democracias assentes no primado do Estado de direito.

Nesta procura de conciliação entre os valores da segurança e da liberdade, importa ter presentes, por um lado, o princípio da necessidade ou da proibição do excesso, e, por outro, os procedimentos respeitantes à harmonização prática dos direitos fundamentais em conflito ou em colisão.
Sendo inquestionável que os Estados democráticos têm o direito, que é também um dever indeclinável, de proteger as respectivas colectividades mediante a adopção das medidas mais eficazes e adequadas para o combate ao terrorismo, isso não invalida, porém, a crítica que devem merecer os procedimentos que, à luz daquela luta, se revelem desnecessários, excessivos ou desproporcionados.

Todavia, a acção dos serviços de polícia ou de informações e o funcionamento dos mecanismos de cooperação internacional podem revelar-se insuficientes para fazer frente ao terrorismo, em termos de prevenção ou no respectivo combate. Tornar-se-á então, porventura, necessário recorrer a medidas excepcionais, tais como o reforço dos controlos pessoais, as escutas telefónicas ou a intercepção das telecomunicações, a vigilância do correio electrónico, a limitação das deslocações dos cidadãos considerados perigosos, a introdução de tribunais de excepção, a generalização da figura do “arrependido”.


Ponderando acerca das medidas de ingerência na vida privada, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) admite que a luta contra o terrorismo permite a utilização de métodos específicos: “As sociedades democráticas encontram-se ameaçadas nos nossos dias por formas muito complexas de espionagem e pelo terrorismo, de modo que o Estado deve ser capaz, para combater eficazmente essas ameaças, de vigiar sob segredo os elementos subversivos que operem no seu território”.

E prossegue: “O Tribunal deve, portanto, admitir que a existência de disposições legislativas visando conceder poderes de vigilância secreta da correspondência, das comunicações postais e das telecomunicações é, perante uma situação excepcional, necessária numa sociedade democrática à segurança nacional e/ou à defesa da ordem e à prevenção das infracções penais”.

O Tribunal admitiu também que a utilização de informações confidenciais é essencial para combater a violência terrorista e a ameaça que pesa sobre os cidadãos e sobre todas as sociedades democráticas. Isso não significa, porém, que as autoridades de investigação tenham “carta branca” para deter suspeitos para interrogatório, sem sujeição a qualquer controlo efectivo por parte dos tribunais internos ou pelos órgãos de controlo da Convenção, sempre que decidam afirmar que ocorre uma infracção terrorista.


A “eliminação física”

P
or outro lado, deve entender-se que o artigo 2º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem não exclui que a utilização intencional de uma “solução de eliminação física” possa ser justificada se for absolutamente necessária para prevenir certas formas de crimes. Isso deve ser, no entanto, efectuado em condições estritas por forma a respeitar o mais possível a vida humana, mesmo a respeito das pessoas suspeitas de preparar um ataque terrorista.

Analisando esta matéria, o TEDH observou o seguinte: “Assim sendo, para determinar se a força utilizada é compatível com o artigo 2º CEDH, o Tribunal deve examinar com muita atenção (...) não só a questão de saber se a força utilizada pelos militares era rigorosamente proporcional à defesa de outrem contra a violência ilegal, mas também se a operação anti-terrorista foi preparada e controlada pelas autoridades de forma a reduzir ao mínimo, na medida do possível, o recurso à força destruidora (force meurtrière)”

Parece concluir-se que estas recomendações não terão sido observadas no âmbito da operação anti-terrorista realizada em Londres pela polícia inglesa, após os atentados terroristas de Julho de 2005, de que resultou a morte de Jean-Charles de Menezes, um cidadão brasileiro inocente.

Receio, porém, que, num cenário de terrorismo global ou de destruição maciça (mass killing, mass murder), caracterizado pela procura do “máximo efeito letal” possível, os Estados sejam incapazes de controlar a medida da sua resposta, balizando-a nos termos expostos. Na verdade, temo que o respeito pelas regras da proporcionalidade e da proibição do excesso apenas possa ter aplicação enquanto o “terrorismo total” for uma simples ameaça, embora preocupante e séria. Mesmo assim, que dizer do transporte de prisioneiros em voos clandestinos ou de práticas de interrogatório ou de tortura desumanas e intoleráveis?

É legítimo, assim questionarmo-nos sobre o que acontecerá se uma manifestação terrorista subsumível ao conceito de “terrorismo total” vier, um dia, a concretizar-se. Nesse caso, será de recear que os ordenamentos jurídicos e policiais das democracias atacadas se munam de medidas de natureza excepcional muito graves, quiçá, radicais, impostas pelo pânico e pela urgência da situação. Queira-se ou não, haverá que admitir como muito provável que, num tal cenário de barbárie, os direitos fundamentais não deixarão de ser restringidos ou violados.

Mas não nos iludamos: entre as cinzas do apocalipse terão ruído também os fundamentos da própria democracia.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007




"Brasil real..."
* Uma entrevista inquietantante em O Globo

Arnaldo Jabor volta, por direito próprio, a este blog. Desta feita, na sua coluna ele publicou uma entrevista dada ao diário brasileiro O Globo por um criminoso conhecido por Marcola**, que é o chefe dos "gangs" brasileiros que puseram S. Paulo a ferro e fogo e que se encontra preso. Leia-se com a maior atenção e com muito cuidado, pois o assunto é terrível. Para quê mais comentários? Como sempre, respeito a expressão e a forma de escrever no Brasil. A.F.

- "Você é do PCC?"*

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias. A solução que nunca vinha... Que fizeram ? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

- Mas... A solução seria...

- Solução? Não há mais solução, cara... A própria ideia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento económico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições.

Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até Conference Calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

- Você não tem medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né?

Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.

Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, Internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.


- O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório. Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... Ha, ha...

Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

- Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas.

O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atómica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?

- Mas... não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída.

Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogni speranza voi che entrate!" "Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno. "

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* PCC – O Primeiro Comando da Capital é uma organização de criminosos existente no Brasil, criada para supostamente defender os direitos de cidadãos encarcerados no país. Surgiu no início da década de 1990 no Centro de Reabilitação Penitenciária de Taubaté, local que acolhia prisioneiros transferidos por serem considerados de alta periculosidade pelas autoridades. A organização também é identificada pelos números 15.3.3; a letra "P" é a 15ª letra do alfabeto português e a letra "C" é a terceira. Hoje, é comandada por presos e foragidos principalmente no Estado de São Paulo. Vários ex-líderes estão presos (** como o criminoso Marcos Willians Herbas Camacho, vulgo Marcola, que cumpre sentença de 44 anos, principalmente por assalto a bancos, no presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes e ainda tem respeito e poder na facção). O PCC conta com vários integrantes, que financiam acções ilegais em São Paulo e em outros estados do país. (Wikipedia)







À VOLTA DO ANO

Fevereiro

Maria Lúcia Garcia Marques
Assim à primeira vista, Fevereiro parece um mês mal amanhado, diria mesmo um mês falhado, dado que manigâncias contabilísticas lhe roubaram dois dias e ele ... ficou-se! Como diz o Rifoneiro, “Fevereiro coxo, em seus dias vinte e oito” e, crítico: “Fevereiro, o mais curto mês e o menos cortês” e insinua: “Fevereiro trocou dois dias por uma tigela de papas”.

Mas aqui, atenção!, há forte injustiça gastronómica porque (digo eu) “Fevereiro, dente no fumeiro”! e aí temos a apoteose dos enchidos – uma boa morcela da Guarda, bem “torrada” mai los grelos e a batata duma horta ribeirinha; um chouriço e umas febras no braseiro da lareira a envolverem a noite do lar em cheiros capitosos ... Um mês assim merece mais do que ficar entalado entre dois confrades, a modos de charneira de almanaque.

E é por isso que Fevereiro tem a sua graça quando lhe desaba o Carnaval, nos seus brilhos e enganos, breve reinado do Faz-de-Conta ardendo no meio de plumas e ouropéis, em corsos e desfiles a alardear um gozo de encomenda mais ou menos desesperado. Toada de um “Orfeu Negro” a morrer na 4ª feira ...
Eu não gosto do Carnaval, como não gosto dos contos de fadas azul-céu porque não são nem verdadeiros, nem definitivos, nem seguros – são falsas passagens anestesiantes por cima do que verdadeiramente a carne vale ... E ela, mesmo sem disfarces, tem perfume e sabor. É concreta e estimulante. Sorve-se e guarda-se como o sumo de uma laranja. A laranja é a glória dos frutos e o triunfo de Fevereiro. No seu surrealismo militante, Paul Éluard globalizou: “A terra é azul como uma laranja “. Eugénio de Andrade casou-a com o Universo: “Na laranja o sol e a lua / dormem de mãos dadas” (in Antologia Breve) e hierarquizou assim uma sua cosmogonia:

“Inventar a cor primeiro
das laranjas
depois o sol escorrendo dos
lábios
só depois o trevo só depois
a neve”
(in Rente à fala)

E este frio último, fixando como um verniz a intensidade do quadro, veste Fevereiro como uma luva. Lembra um desenho de Cruzeiro Seixas, ou o “Samba de uma nota só”, ou o final de Casablanca. Lembra-me as tirinhas de casca de laranja cristalizada, envoltas em chocolate, da saudosa Ferrari, a desfazerem-se-me na boca.

Porque Fevereiro é-me assim: agridoce, adstringente e breve!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007




A ALICE VIEIRA NÃO TEM CURA

Pezinhos de Coentrada

Antunes Ferreira
Bom. Não quero que julguem que transformei este blog num pulverizador de incenso, muito menos num queimador de mirra, ou até num discurso de elogio eterno e total. Elogio a sério, mesmo, mesmo, mesmo a sério, como diz o Ricardo Araújo Pereira, só há um – o da loucura. Do senhor Erasmo de Roterdão, que o escreveu em 1509 e o publicou em 1511. O Elogio da Loucura, (em grego Morias Engomion, Μωρίας Εγκώμιον, em latim Stultitiae Laus) é considerado um dos mais influentes livros da civilização ocidental e um dos catalizadores da Reforma Protestante, diz a Wikipedia que parece estar em risco de morrer. Estas merdices não acontecem só em Portugal.

Porquê este intróito? Ultimamente quase só tenho escrito bem de obras literárias diversas. E digo quase porque uma excepção abri para um coiso qualquer da Babilónia, livro intragável, na minha modesta opinião do senhor doutor António Lobo Antunes. Mas, há mais a quem vai sair a bola negra. A começar pelo senhor António José Saraiva. Preparem-se.

Desta feita, porem, aqui estou a dar testemunho de gratidão a outra autora que durante uns anos comigo acamaradou no Diário de Notícias. A Alicinha Vieira. Abro aqui um pequena parentética. Naquele jornal de tão grande história e de tamanhas tradições reuniu-se uma plêiade de cultores da arte de bem escrever que, não fora o plágio, quase me atrevia a chamar-lhe a ínclita geração literária. Desde a Alice ao Zambujal, desde o Dacosta ao João Aguiar, havia de tudo – e bom. A ovelha negra era um gordo de óculos e barba, cujo nome não indico por puro falso pudor.

Não me canso de o dizer e escrever. Até porque adoro alinhavar (mal, por certo) umas quantas palavras em frases com algum sentido e correcção q.b.. Só que estes senhores gajos são de outra galáxia, eu sou um ínfimo estagiário de ajudante de auxiliar de praticante da escrita. O Camões diria miserando. Eu, não, pela razão apontada no parágrafo anterior.

Vamos a factos. Foi mais uma corrida contra relógio, na verdadeira acepção do termo. Corrida deitada, que em pé cansa muito. Meti olhos a caminho nos Pezinhos de Coentrada e só parei no fim, desculpem-se o pleonasmo. Porem, foi assim mesmo. Ninguém foge ao seu destino, cantava a Amália Rodrigues, mas neste caso o destino nem marcou a hora. Esta passou, passou, passou-se. Sentença de julgamento sumaríssimo: culpada. A Vieira, Alice. Reincidente, aliás.

Já me lançara uma primeira isca, nesses tempos heroicos do DN, com uma tal Rosa, minha Irmã Rosa. Que era literatura infantil e tal, que ia ganhando tudo o que eram prémios a tal escrita destinados e assim, que não fazia mal a ninguém e por aí fora. E eu, enganado. Engoli isca, chumbo, linha, carreto e cana telescópica. Só me safei do peixe porque detesto suchi. Foi a minha primeira directa com a Alice Vieira, salvo seja, que me perdoe o Mário Castrim onde quer que esteja, não se veja aqui maldade nem pecadoras intenções.

Claro que ofereci a Rosa a tudo que era criancinha mais ou menos crescidota. Os meus netos, de colheita muito mais recente, têm o livro, oferecido pelo tal gajo gordo, de óculos e barba. E os direitos da autora a aumentarem. No entanto, e pese embora essa estória do vil metal (que sabe bem e muito porque é com ele que compro mais livros e coisas assim), a Minha Irmã Alice, maila Rosa, tudo mereceram e merecem. E merecerão, oxalá por muitos anos e bons.

Estes Pezinhos são deliciosos. E a coentrada, perfeita. O estilo leve da Alice lê-se, devora-se e apreende-se sem necessidade de quaisquer tábua de siglas, glossário ou nota explicativa. Uma enorme escritora como a Alice é, não precisa de quem lhe divida as orações tal como no nosso tempo se fazia ao pobre do Zarolho. De resto, ela nem é muito de orações, é mais de corações.

Se me pusesse aqui a citar as estórias, as crónicas, os apontamentos que constituem o livro, entrava por um campo minado de se lhe tirar o chapéu. A inveja é péssima. E lá ficava a Rita a perguntar-se porquê a azia do taxista matinal a considerava eu uns furos acima da Marta almoçareira, ou por que bulas a tia Mafalda me enchera o papinho em detrimento da tia Clara.

Ná, não me meto nessa. Apenas te mando, Alice, um queijo (até rima com beijo que é muito prosaico) e um agradecimento. Ambos telúricos.

terça-feira, fevereiro 13, 2007




DACOSTA CONTINUA

Máscaras de Salazar

Antunes Ferreira
Um sujeito já não está para estes trotes. Mas, diz-se que o homem põe e o deus dispõe. A ser assim, fui eu próprio que me meti nestas alhadas e nada de choramingueiras. Está feito, está feito. Mas não perfeito. Porque em boa da verdade há tempos para fazer e tempos para desfazer, há horas para trabalhar – infelizmente – e horas para destrabalhar. Há momentos de concentração e há momentos nos campos de. E não venham com aquela do Arbeit macht Frei que o Adolf mandava pespegar às portas desses mesmos campos. O trabalho dá a liberdade? Onde é que já se viu isso? O bom povo usa dizer que o trabalho dá saúde; então – que trabalhem os doentes, acrescenta um bom Amigo.

Vem este prolegómenos a propósito de umas directas em que me tenho embrulhado. Já nestas colunas apostrofei devidamente alguns dos desencaminhadores militantes que a tal me têm levado. Não querendo cair no repetitivo parvalhão, vamos ao que me trouxe aqui e neste momento preciso.

Trata-se da quinta leitura, de fio a pavio, das Máscaras de Salazar que o meu Amigo Fernando Dacosta já leva na 16.ª edição. É obra, meninos, é obra. Não apenas as dezasseis edições, mas a leitura número cinco que estou a terminar. E com a quase garantia de que a obra se vai tornar livro de mesinha de cabeceira. Para já – já está na poole position.

O Fernando, que já tive a sorte e o privilégio de ser meu companheiro de trabalho, não escreve muito bem; tem uma escrita divina, fluida, saborosa, que me maravilha e encanta. A mim e a uma grande quantidade de cidadãos. E nem seriam precisos os prémios literários que vai coleccionando para assim se concluir. Aliás, o Dacosta também compila edições esgotadas, outro atestado de culpa e com circunstâncias agravantes.

Recordo-me, estávamos os dois labutando quotidianamente no Diário de Notícias, quando o tipo ganhou o Grande Prémio do Teatro RTP com Um Jipe em Segunda Mão. Ainda íamos no princípio dos abraços de felicitações e, toma!, vem o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos. Continuávamos a congratular-nos e, já que não há duas sem três, junta o Prémio Casa da Imprensa. Nem tivemos tempo para arrumar a euforia. O gajo é lixado.

Porém estas Máscaras de Salazar são «muitíssimo especialíssimas»… Se não conhecesse de longa data o Fernando, perguntar-me-ia onde tinha ele ido arranjar tempo, paciência e pertinácia para registar um tal acervo de informações sobre o ditador de Santa Comba. Mas, o Dacosta é assim. Está sempre, em simultaneidade, a fazer 235,6 coisas, qual delas a mais complicada. Excepto, claro, o escrever - que lhe deve ter nascido com o primeiro dente de leite.

Já o fiz a celebridades, até mesmo a personalidades, muitas vezes por educação, nunca a contra-gosto, porque não gosto de mentir. Tenho de te agradecer, meu Amigo Fernando. Porque, para alem de já neste curto espaço de tempo ter confirmado as Máscaras como livro de cabeceira – com alguns, poucos, mais – tenho de te pedir que continues a parir obras destas – primas? Tias? Madrinhas? – mas que não me lixes as noites que, segundo se afirma um tanto despudoradamente, se fizeram para dormir.

Fizeram? Mas vem de lá um tal Fernando Dacosta – e está tudo tramado.