terça-feira, setembro 04, 2007



Goa pode ser uma mais-valia

para Portugal na Índia

- diz Sérgio Mascarenhas da Fundação Oriente





O Constantino Hermanns Xavier é um faz-tudo. No bom sentido do termo, é claro. Filho do Aurobindo Xavier, Professor Universitário e Goês, Amigo de longa data - vivia na antiga capital do chamado «Estado da Índia» dos Portugueses, no mesmo prédio habitado por minha mulher, Raquel - e da Margarte Hermanns Xavier, alemão «convertida a Goa» que até cozinha à moda da terra, ele está a fazer a sua tese de doutoramento em Deli.

É um entusiasta por todas as causas, nomeadamente as do relacionamento luso-indiano. E um privilegiado, pois vive na capital da Índia. Tem tempo pata tudo o que se possa imaginar. Até para ser um excelente jornalista. O «Expresso», a «Revista Atlântico», a «Voz de Goa», a Rádio Renascença (colabora em todos) são disso o testemunho. Cada vez mais que o dia, para ele, tem 36 horas bem contadas...

É deste bom Amigo - ainda tem tempo para o ser, o que muito me honra - que hoje o Travessa publica uma interessante entrevista. E que, estou certo, os leitores Goeses (tenho alguns...) terão interesse em ler aqui. Que pode ser lida já de seguida. Obrigado, Constantino.
A.F.



Constantino Hermanns Xavier
Numa entrevista exclusiva para o Supergoa.com, o delegado da Fundação Oriente na Índia faz um balanço dos seus sete anos passados em Goa. Em vias de regressar a Lisboa, observa um crescente interesse português pela Índia e sublinha a importância estratégica que Goa poderá vir a ter nas relações luso-indianas.


Sete anos depois de ter chegado a Goa, Sérgio Mascarenhas dá por terminado o seu mandato, representando a Fundação Oriente na Índia. Regressa a Lisboa nos próximos dias, deixando vasta obra feita pela promoção da língua e cultura portuguesa em Goa. Acima de tudo, assumiu-se como uma das figuras-chaves no relacionamento luso-goês e conhecedor profundo das principais dinâmicas políticas, sociais e da vida cultural goesa, onde colhe grandes simpatias.
Sérgio Mascarenhas será substituído por Paulo Varela Gomes, igualmente conhecedor profundo de Goa e da história luso-indiana, actualmente professor na Universidade de Coimbra, que assim volta a ocupar o posto que deteve nos anos noventa.


Supergoa - Qual o balanço pessoal que faz da sua estadia em Goa?
Sérgio Mascarenhas - Estes sete anos na Índia e em Goa foram muito enriquecedores para mim pela diversidade de gente com quem contactei, contacto com culturas diferentes, políticas diferentes e sensibilidades diferentes. Além disso, Goa oferece um estilo de vida muito confortável e agradável.
É certo que temos que aprender a lidar com os inconvenientes da falta de eficiência dos serviços básicos, mas também somos poupados a muitos dos inconvenientes da vida ocidental.

Sg - Sai num momento em que emerge em Portugal um interesse renovado por Goa, e a Índia em geral. Num olhar prospectivo, como antevê as relações luso-indianas, particularmente em Goa?
SM - É-me praticamente impossível antever o que vai suceder. Desde logo, parece-me que o interesse actual é comparativamente muito pequeno quando equacionado com o que despertam a Europa, as Américas ou África. Por outro lado, pode ficar-se por um entusiasmo passageiro, desfeito ao primeiro embate com os «particularismos» indianos.
Finalmente, disponho de muito poucos dados sobre o que é verdadeiramente significativo para podermos antever um futuro risonho para aquele interesse e relações: Qual o investimento que foi feito em Portugal, ao longo destes sete anos em que estive ausente, num conhecimento profundo da Índia? Que estruturas, investigação, intercâmbio, circulação de pessoas, etc. é que foram criadas? Há sete anos não havia quase nada. Se o panorama de hoje for o mesmo, não antevejo grande futuro para as relações luso-indianas.
Mesmo assim penso que o futuro será melhor do que o passado. Embora, como disse, não disponha de muitos dados, posso constatar uma maior circulação de portugueses por estas partes, quer ao nível de turistas, quer ao nível de representantes de interesses económicos; a nossa embaixada foi reforçada com mais pessoal diplomático o que reflecte uma mudança na política do Estado para a Índia; sei de centros de interesse académico em Portugal centrados na Índia.
Deste lado há também sinais positivos: foram abertos recentemente vários consulados honorários (Bombaim, Calcutá, Catmandu) e há novos ou renovados centros dedicados à língua e cultura portuguesa.


Sg - Durante a sua estadia, que projecto mais o aliciou e cativou?
SM - É difícil seleccionar um em particular, pois ao longo de sete anos houve vários que me marcaram. Desde logo, a conclusão da obra de conservação e restauro da Capela de N.S. do Monte. Embora o maior e mais importante papel tenha sido desempenhado pelo meu antecessor, Adelino Rodrigues da Costa, coube-me acompanhar uma fase particularmente interessante, a respeitante ao restauro da arte sacra.
A Capela da N. S. do Monte tornou-se também o centro de um dos mais interessantes desafios da Fundação na Índia, a criação de raiz de um festival de música clássica ocidental e indiana. É uma iniciativa única em Goa que já teve 5 edições e se prepara para ter a sétima no próximo ano. É organizado em parceria com o Hotel Cidade de Goa, o que assinala outro dos domínios que caracterizaram a acção da Fundação, a procura de colaborações estáveis e produtivas.
Ao nível da divulgação da cultura portuguesa as iniciativas mais interessantes têm sido o concurso da canção portuguesa de Goa que está neste momento a ter a sua 9ª edição e que é organizado com o Rosary College de Navelim.
Devo também referir o esforço de formação de guitarristas de guitarra portuguesa e de cantores de fado goeses que já nos permitiu criar um grupo de músicos e cantores com actividade regular, incluindo uma bem sucedida digressão a Deli, Calcutá e Bangalore em Julho último.
Foi-me sempre muito grato levar a nossa cultura e presença cultural a espaços hoje afastados da presença portuguesa como Bangalore, Calcutá, Querala, etc. Penso que é importante apostarmos em destinos diferentes dos que marcaram a presença portuguesa na Índia ao longo dos últimos três séculos.


Sg - Goa é um peso ou uma mais-valia nas relações luso-indianas?
SM -Tudo depende da forma como for encarada e «trabalhada». Se nos deixarmos enredar nas lutas ideológicas do passado, torna-se um peso. Se, pelo contrário, apostarmos no capital de conhecimento mútuo e nos pontos fortes de Goa na Índia ela torna-se uma mais-valia a nível político, económico, social e cultural.
A nível pessoal, um dos aspectos mais interessantes da minha actividade situou-se precisamente na necessidade de lidar com estas duas linhas de enquadramento da intervenção da Fundação na Índia.

segunda-feira, setembro 03, 2007

A língua - uma afirmação de poder
- defende Seixas da Costa

*Em entrevista ao Diário Económico o embaixador de Portugal no Brasil
diz que precisamos de mais organização para pôr o País a funcionar


Na edição da passada sexta-feira, 31, o Diário Económico publicou uma entrevista com o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa. Nela, chamou a atenção para o valor da língua portuguesa como elemento estratégico no plano internacional. Para o diplomata, a imagem de Portugal no Brasil tem vindo a mudar. "Imagine-se a surpresa dos brasileiros quando surgiu a ideia de que a TAP poderia comprar a Varig...", afirmou.
Já aqui o escrevi: Francisco Seixas da Costa é um bom Amigo. Mas isso não quer dizer que, fosse ele diplomata menos bom ou, mesmo, assim-assim, não o dissesse. Tenho perdido muito e muitas vezes por ser frontal. E tento ser objectivo – o que, por vezes, é complicado. Por isso, reafirmo: para mim Seixas da Costa é o melhor embaixador português actualmente. Por isso, e com a devida vénia ao Diário Económico, aqui transcrevo a entrevista, para que conste.
A.F.


DE - Sempre quis ser diplomata?
Francisco Seixas da Costa -Não. Foi uma mera casualidade. Estava no serviço militar como miliciano. Era adjunto da Junta de Salvação Nacional, na Cova da Moura. Um dia num café da Av. Infante Santo encontrei um diplomata que me disse que havia um concurso para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Concorri. Era funcionário da Caixa Geral de Depósitos, quando terminasse o serviço militar regressaria. Achava graça às questões internacionais, mas concorri por acaso.

DE - E ficou.
FSC - Fiquei. Éramos umas largas centenas para cerca de vinte lugares. Fez-me prova oral o então assistente de Económicas Aníbal Cavaco Silva e fui aprovado.

DE - Nunca se arrependeu?
FSC - Não. Fui gostando mais à medida que evolui na profissão. Contrariamente ao aspecto glamouroso da diplomacia, há situações de vida e percursos diferenciados que criam uma certa tensão, o que pode ter consequências na abordagem da carreira, no entusiasmo com que se olha para o futuro. No meu caso, os desafios complicados acabaram por ser estímulos.

DE - Ser diplomata é também ser político?
Em certa medida é. Os diplomatas têm de representar no exterior a política do Estado e acabamos por nos aproximar de uma afirmação política no sentido mais nobre do termo, que é o da defesa do interesse nacional.

DE - E ser político é ser diplomata?
FSC - Alguns políticos têm vocação para a acção diplomática, mas a política não é a melhor escola para a diplomacia.

DE - Sente-se a encarnar as duas peles?
FSC - Tive um período de tentação pela política. Julgo que o cumpri da forma mais profissional e entusiasmada possível. O ciclo fechou-se.

DE - Fecha a porta a uma nova experiência?
FSC - Não a tenho no horizonte. Estou a poucos anos do final da minha carreira diplomática. A partir dos 65 anos não podemos continuar no exterior. Espero ter a oportunidade de até lá me realizar na profissão.

DE - Não gosta da linguagem ‘sanitizada’ da diplomacia tradicional. O que é um diplomata menos tradicional?
FSC - Talvez a circunstância de ter passado algum tempo na política me tenha aculturado a uma forma de expressão pública um pouco atípica. Sinto, por vezes, uma tentação para a franqueza que é superior ao que procura seguir a generalidade dos que utilizam o discurso diplomático. Até hoje ainda não vi grandes desvantagens nisso.

DE - Um ‘não’ de um diplomata é diferente dos outros ‘não’?
FSC - Há um pouco a ideia de que aquilo que um diplomata diz não significa aquilo que quer dizer. Isso está ligado a uma precaução e a um cuidado da diplomacia com a linguagem. No entanto, o principal elemento que caracteriza o sucesso da vida diplomática é a credibilidade. Quando se diz um ‘não’ é preciso que os outros acreditem que é efectivamente um ‘não’. Na relação entre Estados, é preciso que quem nos ouve saiba claramente o que queremos dizer. Por exemplo, uma deadline, ‘não podemos aceitar isto’… Temos de ter a certeza de que quem o diz está a reflectir a posição do Estado que representa.

DE - Pela sua experiência internacional, o ‘não’ de um português é diferente de outros ‘não’?
FSC - A minha experiência diz-me que os diplomatas portugueses têm um comportamento mais ou menos idêntico aos seus colegas. Vivem num mundo em que a maneira de dizer as coisas varia mais do que acontece nas diplomacias de países mais organizados. Procuram ter uma margem de afirmação que, por vezes, apresenta diferentes sensibilidades. O diplomata português tem hoje uma liberdade que pode conflituar com a passagem de uma mensagem unívoca.

Não há no MNE uma cultura organizacional

DE - Porque é que isso acontece?
FSC - Porque, infelizmente, há muito tempo, não há no MNE uma cultura organizacional que traduza uma forma disciplinada de funcionamento dos diplomatas portugueses. Assumo isto com total frontalidade. Eu próprio também funciono nesse registo porque é inescapável. Vivemos uma excessiva liberdade no modo como o diplomata português interpreta a afirmação da política externa portuguesa. O que permite alguma criatividade menos consentânea com o que o rigor imporia.

DE - Isso tem a ver com alguma instabilidade política?
FSC - Tem a ver sobretudo com a perda de alguma cultura organizacional interna.

DE - Alguma vez existiu?
FSC - Existiu em alguns momentos. Se calhar, foi a própria liberdade que o 25 de Abril trouxe que acabou por tornar menos densa essa matriz de afirmação comum dentro do Ministério. Até agora, não tem prejudicado verdadeiramente a política externa portuguesa, permitindo alguma criatividade, mas entre aquilo que um diplomata português diz e aquilo que um diplomata de países mais organizados reflecte vai uma grande diferença. Há uma latitude de afirmação que, por vezes, pode confundir o interlocutor estrangeiro.

DE - De Nova Iorque para Brasília foi um salto inesperado?
FSC - Foi via Viena [na OSCE]. O salto não foi, obviamente, programado. Pensava poder continuar por mais algum tempo a função que estava a exercer e que me parecia não estar a correr mal…

DE - Como foi recebido no Brasil?
FSC - Os embaixadores portugueses são sempre bem recebidos em Brasília.

DE - Portugal continua a exportar produtos tradicionais: azeite, bacalhau e vinho são as principais exportações. Que podemos exportar mais?
FSC - Um dos grandes problemas com que um diplomata se confronta é saber, à partida, qual é a oferta portuguesa, o que é que tem para colocar no mercado exterior. Nos últimos 30 anos, a exportação portuguesa concentrou-se nos países da UE. Tem havido falta de imaginação e uma procura de mercados mais confortáveis. No Brasil, estamos a crescer a níveis de 30% ao ano, mas partimos de uma base ridícula. O comércio português com o Brasil nos anos 70 estava zerado, como dizem os brasileiros. Determinados produtos como o calçado ou os têxteis, que faziam parte da produção tradicional portuguesa e que hoje estão em contra ciclo com a pressão da globalização, não têm espaço no Brasil. Neste momento, talvez seguindo o velho conselho de Porter, Portugal está a fazer melhor aquilo que já fazia bem. O vinho e o azeite significam alguma coisa, mas não têm reflexo significativo na balança comercial. Qualquer maquinaria dá logo um salto quantitativo. Por mais que possamos subir no vinho, e não podemos subir muito mais (somos o primeiro exportador europeu e o terceiro mundial), por mais que possamos crescer no azeite (72% do que se consome no Brasil é português), por mais que possamos crescer no bacalhau, nada disso terá consequências significativas no comércio bilateral. Temos de encontrar outros nichos de mercado, nomeadamente equipamentos com valor acrescentado, e precisamos de mais empresas a trabalhar para o Brasil.

DE - Que conselho dá a um português que queira investir no Brasil?
FSC - Que se informe bem relativamente à cultura administrativa e de trabalho brasileira. Tenho receio de que muitas pequenas e médias empresas portuguesas seduzidas por um contacto acabem por ter algumas desilusões. Estou a tentar encontrar uma maneira de garantir algum apoio, em termos de massa crítica informativa. O ICEP está a caminho de criar esses elementos de informação. Tenho um projecto de uma parceria entre as grandes associações empresariais portuguesas e as câmaras de comércio portuguesas no Brasil para se dar uma ‘almofada’ informativa de apoio ao trabalho dos empresários portugueses.

DE - Teve eco essa ideia?
FSC - Ecos relativos. Ainda não consegui montar essa operação, mas espero consegui-la.

Relações bilaterais mudaram

DE - Que mudou nas relações bilaterais nestes dois anos?
FSC - Seria pretensioso se dissesse que mudou muita coisa. Houve uma adaptação e melhor conhecimento dos titulares políticos dos dois países. O Governo português tem cerca de dois anos. No Brasil houve alguma tensão política no último ano e meio. Há agora um melhor conhecimento entre o Presidente Lula e o primeiro-ministro José Sócrates, que está a aplainar as relações de uma forma única nos últimos anos. Desapareceram pequenos conflitos de natureza técnica e comercial, no azeite, no vinho do Porto… Há um descrispar da situação dos brasileiros que vivem em Portugal, mesmo que o problema não tenha desaparecido e, eventualmente, até se tenha agravado. Vivem-se momentos de maior realismo.

DE - Houve uma nova vaga de imigrantes clandestinos
FSC - Em 2003 havia 30 mil brasileiros inscritos na Casa do Brasil, dos quais 20 mil quiseram legalizar-se e 10 mil não se apresentaram para o efeito, eventualmente regressaram ou mudaram de país. Hoje, as estimativas apontam para 70 mil brasileiros ilegais em Portugal. Isto significa que tivemos nos últimos quatro anos um surto ilegal de presença brasileira altamente significativo. O facto deste caso não ter assumido proporções públicas dramáticas diz bem da sensibilidade do Governo português no tratamento desta questão.

DE - A imagem do português no Brasil alterou-se ou ainda se confunde com o homem da padaria?
FSC - A imagem do português e de Portugal no Brasil tem vindo a mudar não só com uma presença diferente de empresários portugueses, mas também com a circunstância de haver muitos brasileiros em Portugal que levam para o Brasil a imagem do Portugal contemporâneo.

DE - Dessa imagem que ressalta mais?
FSC - A surpresa. Aquilo que mais surpreendeu os brasileiros, desde que cheguei, foi a percepção de que a TAP podia comprar a Varig.

DE - Mesmo que a TAP seja liderada por um brasileiro…
FSC - Esse é o elemento compensatório brasileiro!

DE - Porque é que o negócio não se fez?
FSC - Houve um grande realismo da TAP face à complexidade do sistema Varig. Tem uma dinâmica organizativa muito complexa e que acabou por se balcanizar em várias empresas. A TAP comprou uma delas, que aparentemente está a ter sucesso.

Um bom relacionamento

DE - Há equívocos que permanecem no relacionamento bilateral?
FSC - Há um bom relacionamento. O Brasil sabe que Portugal é na Europa um defensor dos seus interesses garantido e automático. Sabe, no entanto, que Portugal tem o peso que tem no contexto europeu e mundial. Temos de cuidar de um aspecto que talvez possa beliscar a prazo o relacionamento com o Brasil. Está a desaparecer a última geração que tinha uma afectividade natural com Portugal. Hoje há menor ligação à diplomacia da retórica… Até a nova classe política brasileira, que não passou por Portugal ou pela Europa, que não esteve aqui exilada, tem hoje referências e formas de olhar para Portugal diferentes. Há ainda um olhar negativo para o antigo colonialismo, o que é normal nos países que foram colónias, mas talvez não o seja num país emergente como potência mundial. É preciso cuidarmos da afectividade. Como dizia o Alberto Costa e Silva, que está encarregue das comemorações dos 200 anos da chegada de D. João VI ao Brasil e foi embaixador em Lisboa, a afectividade foi o que nos permitiu manter vivas e alerta as nossas relações nos momentos em que nada se passava ou em que a conflitualidade emergia. Aprendi a apreciar esse aspecto positivo da afectividade natural, mas que tem de se trabalhar e aculturar.

DE - Além da retórica, a língua une-nos tanto como poderia? A cultura portuguesa continua a ter dificuldades de penetração no Brasil. É um problema económico ou dificuldade de comunicação?
FSC - Há um problema estratégico sobre a língua portuguesa no mundo que temos de discutir. Temos de perder o sentido patrimonialista da língua. Se o português tem futuro esse futuro está no modo maioritário como ela é falada. E esse é o modo brasileiro de falar português. É preciso que se comece a dizer isto de uma forma clara. Temos hoje quatro grandes línguas internacionais de afirmação cultural: o inglês, o francês, o espanhol e o português. O resto são línguas que podem ter uma grande dimensão de falantes ou um grande peso económico (como sejam o chinês, o russo ou o alemão), mas não têm uma grande dimensão de natureza cultural. Devemos olhar para o português como elemento de natureza estratégica no plano internacional. Brasil e Portugal têm de o encarar como elemento constitutivo da sua afirmação de poder no mundo.

DS - Que se passa com a aplicação do acordo ortográfico no Brasil?
FSC - Vai entrar em vigor talvez mais rapidamente do que em Portugal. O debate é muito activo no Brasil. Por maior que seja a vontade política de caminharmos em conjunto na grafia das palavras, o que não tem a ver com a maneira de falar que será sempre diferente, o acordo tem impactos de natureza editorial muito significativos, que não podem ser descurados. Em Portugal as alterações de grafia serão maiores do que no Brasil. É preciso um tempo de adaptação, que varia de país para país. É muito mais fácil em São Tomé porque as obras aí editadas são muito limitadas…

Escritores e músicos com visibilidade

DE - Que escritores e músicos portugueses têm visibilidade no Brasil?

FSC - A Mariza e a Teresa Salgueiro são as cantoras mais conhecidas. Apesar de ter apresentado música portuguesa em programas de rádio brasileiros ainda não consegui impor Sérgio Godinho, Jorge Palma, Fausto… Confesso o meu insucesso até agora. Mas fico muito contente a ver outros avançar. Há bastantes escritores portugueses nos escaparates brasileiros: Saramago, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, José Rodrigues dos Santos… Numa livraria de Porto Alegre contei 38 escritores portugueses nas prateleiras, o que é muito bom. Há um espaço de crescimento e uma grande apetência pela escrita portuguesa. Na música é mais desigual. A grande qualidade da música brasileira não ajuda a abrir espaço à música portuguesa…

DE - Foi responsável pela política europeia nos governos de António Guterres e teve particular envolvimento na segunda presidência portuguesa da UE. Que expectativas tem sobre a actual presidência?
FSC - Creio que vai ser tão rigorosa e prestigiante como foram as anteriores. Esta começou bem com a Cimeira UE-Brasil…

DE - Como foi recebida no Brasil?
FSC - Bastante bem. Notou-se que havia da parte de Portugal, nesta que será provavelmente a sua última presidência, pelo menos nestes moldes, a vontade de corrigir uma anomalia no relacionamento da União com um país da importância do Brasil. Julgo que o gesto foi apreciado. Temos agora a responsabilidade de contribuir para aprofundar este relacionamento.

DE - Há quem afirme que o mandato que recebemos da presidência alemã sobre o novo tratado não é tão claro e exequível como muitos disseram. Há condições para aprovar o tratado de Lisboa?
FSC - Temos de ser prudentes e não pensarmos que o mandato é tão claro como alguns querem fazer crer. Na UE as coisas são sempre mais complicadas do que parecem. Mas o ambiente político que se criou à volta da aceitação do mandato como que isolou os principais problemas que possam surgir. Sabemos de onde podem vir os problemas e onde se podem centrar. Esperamos que os mesmos países que ajudaram a Alemanha a fixar este mandato sejam capazes de ajudar também Portugal a resolver as questões que possam surgir. Portugal tem a oportunidade de ligar o seu nome a um momento tão importante da UE.

DE - Como deve ser ratificado o tratado?
FSC - Não tenho opinião. Tenho apenas uma opinião pessoal contra qualquer tipo de referendo.

DE - Está em férias, de regresso ao país. De que é que Portugal precisa mais?
FSC - Rigor e organização do trabalho. Portugal vive numa atitude relativamente impressionista face ao futuro. Os sinais de que o país está preparado para aceitar um conjunto de reformas difíceis, quase consensualmente necessárias, significam que também deve estar preparado para assumir uma nova atitude em termos organizacionais. Precisamos de mais disciplina, menos laxismo, mais pontualidade, para nos tornarmos um país moderno e sermos uma sociedade de sucesso. Estamos a fazer as mudanças sobre a pressão da globalização e isso obriga-nos a queimar etapas.

DE - Sente-se isso quando se está fora?
FSC - Não tanto quando se vem do Brasil… Mas fui sentindo isso ao longo da minha vida: quando vinha da Noruega, da Inglaterra, da Áustria ou dos EUA.

DE - Será pela pressão e necessidade de ajustamento que muitos põem em dúvida o carácter socialista deste Governo? É essa a sua convicção?
FSC - Não sei se podemos ligar a actividade dos governos a uma determinada ideologia. Podem ligar-se os partidos que estão nos governos, mas a conduta governamental não deve ser vista como uma prática socialista ou liberal sistemáticas. Não vale a pena ter ilusões. Há um padrão com margens muito limitadas de flexibilidade, uma espécie de um template que se aplica às políticas europeias e que faz com que os governos não tenham espaço significativo de explicitação ideológica. Aqui ou ali é possível aos governos aplicar medidas mais liberais ou sociais e aproveitá-las para ‘vender’ a sua imagem junto da comunicação social…

DE - Quem está a falar é o político ou o diplomata?
FSC - Fala o cidadão que olha para estas questões de uma forma mais compreensiva, experiente e pragmática, desde que o pragmatismo não signifique cinismo.

Passarinho pelos blogues

DE - O que é que o seduz na blogosfera?
FSC - Seduz-me o imediatismo: ser rápida, perecível, a que muita gente acede para informação ou um apanhar de sensibilidades. Passarinho um pouco pelos blogues, ajuda-me a perceber o Portugal contemporâneo, particularmente os de jornalistas. Esmagadoramente, em Portugal, a blogosfera é conservadora. A progressista é minoritária.

DE - Pode confessar os seus grandes prazeres?
FSC - A mesa, a leitura e as viagens. Os outros são secretos…

DE - Que diferencia o gourmet do consumidor comum?
FSC - É a angústia de poder comer mal! O gourmet vive sempre no drama de ter uma desilusão na mesa seguinte.

DE - Considera-se um bom gourmet?
FSC - Não. Até porque há vários tipos de alimentos que não como. Não sou de grandes experiências gastronómicas. Sou muito clássico. Não ando à procura de coisas muito sofisticadas.

DE - De que gosta mais?
FSC - Da cozinha tradicional portuguesa.

DE - Come-se bem no Brasil?
FSC - Muito bem. Come-se melhor bacalhau em muitos restaurantes brasileiros do que na maioria dos restaurantes portugueses. A comida brasileira também é muito boa.

DE - Que mais aprecia na comida brasileira?
FSC - Gosto da comida mineira, muito ‘pobre’, mas muito saudável quanto à pureza dos produtos. Está próxima do nosso paladar, o que facilita.

DE - Tem uma lista dos melhores restaurantes brasileiros?
FSC - Tenho. Faço parte do júri da revista Veja para os restaurantes de Brasília. Estou, com um amigo, a pensar criar um blogue sobre restaurantes brasileiros. Fora do Rio e de São Paulo, os bons restaurantes são muito poucos. São Paulo é provavelmente, depois de Nova Iorque, a melhor cidade do mundo na qualidade dos restaurantes.

DE - O que é para si um bom restaurante? Que valoriza mais?
FSC - Naturalmente, a comida, mas também o serviço e o ambiente.

DE - Qual é o melhor restaurante português?
FSC - Há um critério que costumo seguir: chegado ao aeroporto de manhã e apetecendo-me ir a um restaurante, onde vou? Vou ao Poleiro, na Rua de Entrecampos, em Lisboa.

DE - Se estiver no Rio de Janeiro ou em São Paulo?
FSC - Em São Paulo, Bela Sintra, que é um restaurante português. No Rio, o Mosteiro, um restaurante tradicional português, cujo proprietário nasceu em Monção e é pai do actual ministro da Saúde do Brasil.

DE - As férias de um diplomata têm um significado diferente?
FSC - Costumo passar férias quase sempre em Portugal. É o momento de recuperação do país que perdi em 11 meses que estive fora. Conheço Portugal muito bem, de norte a sul. Considero-me um especialista em Portugal. Tenho um mapa de estradas onde vou marcando as estradas que conheço e onde quase já não há espaço. Conheço as localidades praticamente todas. Foi isso que me levou a fazer um guia gastronómico para amigos…

DE - Como são as férias deste ano?
FSC - Mais prosaicas. São passadas em Vila Real com o meu pai, que tem 96 anos e que tenho de acompanhar.

Chego aos dois livros por dia…

DE - Que anda a ler?
FSC - «A Década de Sampaio em Belém», de João Gabriel; «Nos Bastidores da Diplomacia –O bife de zinco e outras histórias», um livro delicioso do diplomata brasileiro Leite Ribeiro; «Portugal e a Integração Europeia», de António Costa Pinto e Nuno Severiano Teixeira; e um pequeno livro de Eduardo Lourenço, também sobre a Europa. Em férias chego a ler dois livros por dia. Vou ler e reler alguns das estantes do meu pai…

DE - E quanto à escrita?
FSC - Estou a escrever sobre a vida diplomática, algo que poderá ser chamado «Cartas a um jovem diplomata». Ainda está no início. Tentarei, não sei se vou conseguir, escrever um pequeno livro sobre a Europa para publicar no Brasil, uma Europa para brasileiros.

DE - O Brasil é inspirador para outras escritas?
FSC - Um colega meu, Luís Filipe Castro Mendes, escreveu no Brasil muita poesia. Mas eu sou incapaz de escrever ficção. E não tenho tempo.

DE - Memórias ficam para mais tarde?
FSC - Mas ficam para ser escritas.

DE - Se estivesse perante uma plateia que o desconhecesse, que auto-retrato faria?
FSC - Sou um servidor público, um profissional do serviço público. Não sou burocrata e olho para a vida de uma forma lúdica. É isso que procuro ser. Não sei se é assim que os outros me vêem.

(NE - O título e os subtítulos são da responsabilidade deste blogue)


Tentação para a franqueza

É quase impossível não gostar dele. Francisco Seixas da Costa é simpático, culto, franco e informado. Percebe-se isso quando o observamos no Brasil: a atenção com que é ouvido e os laços fáceis que estabelece com toda a gente. Percebeu-se isso quando foi secretário de Estado dos Assuntos Europeus, nos governos de António Guterres. Foi um dos obreiros da segunda presidência portuguesa da União Europeia e deixou marcas de grande profissionalismo. Não se esqueceu sequer de coligir, pelo seu próprio punho, um pequeno guia dos melhores restaurantes portugueses para distribuir aos seus pares comunitários… Casado, tem 59 anos, nasceu em Trás-os-Montes, Vila Real. Licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas na Universidade Técnica de Lisboa. O 25 de Abril apanhou-o na tropa e um acaso, como gosta de dizer, levou-o à carreira diplomática em 1975. Entre outros lugares, passou por Londres, em Nova Iorque foi representante permanente de Portugal junto da ONU e em Viena representante permanente junto da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Foi o negociador português dos tratados de Amesterdão e de Nice. Gosta de blogues, além dos pessoais centrados na gastronomia, criou um na Embaixada de Portugal no Brasil, muito útil para se perceber o relacionamento bilateral. Consciente da importância dos afectos, diz não se ter dado mal, enquanto diplomata, com a «tentação para a franqueza». Frontal, apoiou Mário Soares nas últimas presidenciais. Chegou a ser criticado por poder pôr em causa o relacionamento institucional com o futuro Chefe de Estado. Foi o primeiro embaixador recebido em Belém pelo novo Presidente Cavaco Silva, curiosamente o mesmo homem que lhe fez a prova oral no concurso de admissão para a diplomacia.


sábado, setembro 01, 2007




SALTEADO

Só faltavam os ratos!

Antunes Ferreira
Um calino ditado portuga diz que de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Quer no domínio da meteorologia, quer no que concerne a bodas transfronteiriças, nada há de concreto e científico que justifique o rifão. É certo que, durante séculos, como vizinhos que somos, andámos quase permanentemente à tapona; mas isso são outros contos.
Porém agora, só nos faltava mais esta: entre 450 e 700 milhões de ratos têm-se dado à destruição de centenas de culturas de nuestros hermanos. É uma verdadeira praga. E há quem diga que o pior está para vir: os roedores tentarão passar para o lado de cá, por, alega-se, já estarem fartos das dietas castelhanas; crê-se, porém, que a razão principal de tal objectivo é a falta de (re)pasto.
De Zamora até Bragança não é assim tão longe. E os espanhóis já alertam que a onda roedora se voltará para Portugal. Tiveram a devida resposta: agora já não entra ninguém aqui, a não ser as multinacionais, a UE e similares. E o Douro é guardião desse impedimento à rataria. No resto – só a convite.

Só nos faltava mais esta; já não bastavam os ventos e, principalmente, os casamentos. Desta feita, os ratos. (Estes, sublinhe-se, não têm nada a ver com os automóveis). Remédios? Os gatos? Fora de razão. Muitos seriam poucos, mesmo com horas extraordinárias. Assim, uma sugestão. Pelo sim, pelo não, ainda que os luso-governantes digam que não há perigo e é só fumaça, talvez não fosse disparate contactar os editores dos irmãos Grimm para que eles mandassem avançar o mais actualizado descendente do flautista de Hamelim.
Si non e vero…

sexta-feira, agosto 31, 2007

SOMBRA DA GUERRA COLONIAL

Sanfona dum raio


Antunes Ferreira
S
ou de Boivão. Não entendo esse franzir da testa. Toda a gente sabe onde fica, isto é, quase. É uma freguesia de Valença, que continua a mirar Tui. E faço parte do Rancho Folclórico de lá. Fazia. É melhor explicar. Hoje faço parte da Companhia de Caçadores que está colocada em Pedra Verde. Assim, só quando voltar ao Puto é que também voltarei aos viras e aos malhões. Até lá, a música é outra.

Os instrumentos são muito diferentes. Não cavaquinho, sanfona, ferrinhos ou bombo. Não senhor. Há costureiras, há granadas de mão, há G3, há bazucas, há morteiros, todos afinados para a guerra mas desafinados para a música. Sons completamente diferentes, diapasão diferente, decibéis diferente e por diante. Mais a mais, sem pauta, sem claves, sem colcheias.

Estão, se calhar, admirados de eu saber tudo isto no que ao musical diz respeito. Mas, se eu vos disser que alem de instrumentista e bailador, também era ajudante do regente, então percebem. Até já substituíra o maestro por algumas vezes. Não foi muito difícil. Com batuta devia ser muito mais; mas, nestas andanças das danças não se usa o pauzinho.

Ah, é importante que diga para completa elucidação de todos vós, que a minha conversada, a Maria dos Anjos, também faz parte do grupo. É bailadora e muito gira. Fica-lhe bem o vestido de noiva que usa nos espectáculos. Roliça, alta, bonita, tem tudo o que uma mulher deve ter e nos sítios do costume. Não conto mais nada, senão lá volto à pívea aqui do mato. É o que há.

É engraçado. O contraste do branco da vestimenta com os outros, vermelhos, fica-lhe bem. Muito bem mesmo, As arrecadas são, até, mais vistosas. Se calhar é do olho do artista, cá do Epifânio que sou eu. Epifânio dos Santos Carvalho, um criado às vossas ordens. Aliás, bem criado, com catequese e tudo, que o meu Pai que Deus tenha e a minha querida Mãe não eram de modas.

O nosso capitão Salvado, quando estávamos na especialidade de Caçadores Especiais, na Amadora, disse-me que levasse o acordeão para Angola. Assim fiz. Já no barco fora uma amante dedicada, sem protestos nem amuos, sempre à disposição. Sanfona dum raio! O Nunes, sapateiro na vida civil, classificara a instrumento. Melhor do que uma mulher: está sempre de perna aberta. E não tem o Benfica todos os meses…

Aquelas do António Mafra

Quando andámos a construir os jotacês, a estender o arame farpado e a cavar os abrigos, mal dava a noite, era um primor. O pessoal pedia-me coisas do arco-da-velha. Ó Epifânio, sabes aquela do António Mafra, no baile da dona Ester? Sabia. Sei, meus, sei. Com o Dom José de Vicente; que é de São Pedro da Cova; pra mostrar qu’inda é valente; foi dançar a bossa nova. Escorregou no soalho, caiu foi pró hospital; eram praí sete e picos, oito e coisa nove e tal.

E o carrapito da Dona Aurora que é tão bonito – fica-lhe bem. E o papagaio, tu não te metas na vida do Joaquim; ó papagaio, tem cautela ó papagaio; que a bebedeira do velho te transforma em pinguim. Outros pediam a Eugénia Lima. Alto lá, tive de explicar-lhes que era uma Senhora, rainha do acordeão, eu era apenas um mísero tocador de sanfona.

Mesmo assim, o breu era mais fácil de passar. Até ao primeiro ataque. Os gajos vieram de mansinho, se fosse o mestre diria mesmo soto você, piano, piano, pianísimo, chegaram à beirinha do arame e vá de despejar chumbo em quantidades industriais. O furriel Mendonça nem soube do que morrera, um buraquito no meio da testa e a parte de trás da cabeça – zero.

O Quim Cuecas, assim mesmo, natural de Malange, terra do feijão branco, que se auto-apelidava Castanho e era da incorporação da Província (colónia não havia), depois de passada a fuzilaria, disse tratar-se de bala de ponta romba, para elefante, entra direitinha e sai a romper tudo, mioleira e ossos, Cortam a ponta, os filhos da puta.

Abatidos foram, ainda, o Chico Rodrigues, o Caté, meu vizinho de Gondomil, ficou um passador, as tripas de fora, duas ou três rajadas de Kala ou outra assim; o António Martins, de Viana uma morteirada, andámos a varrê-lo para juntar os bocados dele e a minha concertina. Furada de lado a lado, inchada da chuva que caía, pior do que vaca prenha.

A todos se fez o funeral, com o capitão capelão, um tal Bragança. Todos foram ensacados e metidos nos caixões que ali tínhamos, com o nome e o endereço pregados por fora, a fim de seguirem para a Metrópole. Menos a desditosa sanfona. Bem tentou o Raimundinho, que arranjava pneus na civil e não era especial adepto do mulherio, tapar os buracos, nas zonas dos foles. Em vão.

Rabo de homem

Por isso, agora, já não há. Nem instrumento, nem música, nem cantigas, nem mulherio. Dizem que o Raimundinho dá um jeito… Eu nunca tentei. Rabo de homem tem pelo como o do macaco. Bom, se calhar menos. Mas, mesmo assim, como nunca experimentei… Porra! Nem conto!

Hoje estou de sentinela. Nesta altura do campeonato, o hoje repete-se indefinidamente. Com os turras aqui ao lado, a gente não os vê e, de supetão, dá merda. Sobretudo, de noite, como é o caso. Mal sonhava eu, em Boivão ou em Valença onde trabalhava de barbeiro – bom, para ser verdade, de praticante de – que meses depois estaria aqui, de quico na cabeça e arma aperrada, temendo ter de soltar um quem vem lá?

Mas, prontos. Um homem tem de pensar noutras coisas, e estar alerta ao mesmo tempo. A esta hora, por certo, o Rancho não está a actuar. São três e meia da matina e a Maria dos Anjos já deve estar no segundo sono. Deve estar a sonhar comigo, penso. Na última carta diz-me que está à minha espera, mas que não vá de licença, é caro e temos de juntar para o casório.

Pode ser que esteja descascadinha, é tempo de calor, só com o lençol por cima, nunca a vi assim, mas é como se tivesse olhado, guloso. Pelo andar da carruagem, deve ser um espanto, estendida, oferecida, eu a cobri-la de beijos, pau no ar, agora é que vai ser, amor, não te assustes, que o padre Joaquim já nos deu a bênção. Pronto.

De pau feito estou eu agora e sem a possibilidade de o desfazer. O meu padrinho Zeferino, que fez as vezes do meu falecido Pai, um dia disse-me que um homem de pau feito não é a mesma coisa que um homem feito de pau. Gostei. Aprendi. Os cabrões são meninos para vir por aí, nos bicos dos pés como as dançarinas e darem-me cabo do canastro. Era bonito, um tipo morto de piça em punho…

Vai clareando. Ouço um restolhar. São eles. Não são. É o Freitas de Sanfins que me vem render, acompanhado do cabo Felismino. Barriga. Tomates. Senha e contra-senha. Tudo nos conformes. Vou até à caserna, estou cansado de tamanha vigília, mas não tenho sono. O maluco lá de baixo também acalmou, é capaz de se preparar para dormir. Se não pensar na minha conversada, é gajo para isso.

Ainda não se pode dar umas fumaças. Tiro um AC do maço, espeto-o na beiçola, a fingir que sim. Caralho, isto é tudo um fingimento. São as colónias que não são, são províncias ultramarinas. Nas esplanadas em Luanda é o vinho que não é vinho, é banga-sumo. Ainda por cima, de abacaxi. Que devia ser ananás, mas é só abacaxi. Que mistela. É a PIDE que não é, é a DGS. Nisso, o Marcelo é que a sabe toda. Com as conversas em família vai-nos enrabando de fininho. Ganda cabrão, igualzinho ao Salazar.

O tio-avô Serafim

Sabem? Eu, para alem de gostar da música, do som, do espectáculo, também gosto do meu tio-avô Serafim que lá em Boivão dizem que é comunista. O velhote, com setentas e muitos, foi-me contando ao longo dos últimos anos, a sua vida durante a República. A primeira, avô (sempre o tratei assim, não conheci nenhum dos verdadeiros), a primeira.

O menino cala-se muito caladinho. República só há uma; melhor, só houve uma. Isto que temos é caca pura. Que rima com ditadura. Aprende, meu catraio, deixa de roçar os fundilhos pelos bancos, levanta o cu e aprende que eu não duro sempre. O Senhor Serafim fora contínuo num ministério, conhecera o Bernardino Machado, o Afonso Costa, o Manuel de Arriaga, o Brito Camacho, o Cunha Leal. Ensinou-mos todos. O Sidónio Pais, não. Era um bandido.

Toma nota, rapazinho: eu não sou comunista, mas podia muito bem ser. Só que não sou e está dito. Mas estes sacanas situacionistas, se um homem não entoa loas ao Salazar – é comunista. Lembro-me perfeitamente de ele me dizer que não podia ouvir o quem não está connosco… E acrescentava, entre duas gargalhadas acintosas – é contra nosco!...

Deu-me a ler o Capital do Marx, uns discursos do Lenine, mas também outros do Churchill. É um grande homem, não é da Esquerda, mas é um tipo com tomates, comentou. E oferecera-me umas Illustrações Portuguezas, sem e já com fotografias. Fez-me descobrir o assassino Hitler, como lhe chamava e deu-me uma História da Guerra de Espanha, editada na clandestinidade. Com um prefácio de Manuel Azaña.

Sim, porque o Leopoldo Nunes, o José Augusto – que depois viria a escrever uns escarros intitulados carta de Paris – o Cunha Júnior o Aprígio Mafra, eram todos pró Franco, o galego caganito, e as reportagens deles eram fascistas, dizia o avô Serafim. Até o Norberto Lopes, o Portela e o Mário Neves, mais inclinados à esquerda…

O Gaiolas corneta já tocou para o pequeno-almoço, que o Cuecas já nos ensinou que é o mata-bicho. O sol levantou, vai estar mais um dia de calor de ensopar um marmanjo. Com autorização do nosso capitão, os gajos que saem de sentinela podem ir comer sem fazer a barba. E o homem é duro como o aço, não brinca em serviço, mesmo aqui na mata, se um tipo mija fora do penico – é ecada à máquina zero. Do que me encarregou, o que é chato. Até para mim.

Uma mina – das nossas

É então que estala a maka. São só tiros e granadas, a esmo, para cima da malta de caneco na mão. Aproveitando a rendição das sentinelas, os paneleiros vieram atirar-nos como a bonecos de feira. Enfio-me num buraco de morteirada, mas saio, logo de seguida, rastejando até à caserna, para ir buscar a canhota. Aqui é o Inferno, cabrões dos mafarricos.

Quando puxo a culatra, sinto-me no ar. E estou. Pisei qualquer coisa e voo até cair de borco. Não me lembro de mais nada. Acordo no Hospital Militar em Luanda, o médico diz-me que tive muita sorte e só fiquei sem a perna esquerda, por baixo do joelho. Era uma mina, das nossas, caralho, das nossas. Para outros pisarem, que não eu. Mas pisei.

No resto está tudo bem, umas ligaduras, umas tinturas, umas sulfamidas, o pé que me resta engessado, mas não há-de ser nada. O clínico, que é major, conta-me que no Alcoitão me põem uma pata nova. Melhor do que a verdadeira, acentua para me animar. Tu que fazes? Para já, nada. Mas vais começar a fazer. Ginástica e tens de te habituar às muletas. E passas à peluda, logo que estejas bom.

Ele insiste: que fazes na vida civil. Barbeiro, ou seja, ajudante. Não tem problema, podes cortar cabelos e fazer barbas, tens os dois braços e as duas mãos. Se fosses carteiro, isso já era outra coisa, bem diferente. Assim, não te chateies. Vai tudo correr bem. Para os que lerparam acabou-se. Mas para os que ficaram, como tu, que não seja o pior. Vais arribar, moço.

Claro que vou. Quando sair do avião, outra loiça, o barco já foi, vou a mata-cavalos para Boivão, de táxi, nem olho para Valença, nem para a ponte, muito menos para a Galiza. Para ver a Maria dos Anjos, que deve continuar a ter os seios empinados como dois morros de mel. E para encontrar os outros, os amigos, o avô Serafim, dar-lhe um abraço dos grandes. À Maria dos meus amores, arrefinfo-lhe um beijo na boca – de estalo. Ou mais. Na frente de toda a gente, para que saibam que é minha, uma espécie de ferrete de marcar novilhas – mas sem dor, só doçura.

Depois, bom, depois, volto a Valença, visitar o patrão Gonçalves para lhe dizer que estou ali, torno à tesoura, ao pincel e à navalha. Mas, antes, durante uns dias, fico-me pela minha freguesia. Até porque, quero tratar da boda, mesmo que os pais da Maria dos Anjos enjeitem a novidade. Que, no fundo, não é nenhuma, é mais um fingimento a juntar aos outros.

O enfermeiro vem tirar-me a febre, vai na boca ou no sovaco? Aí mesmo meu sargento, sei lá por que cus já passou esse zingarelho. Mede-me a tensão. A outra, sem n, vai voltando só de pensar na moçoila que me espera. E, aí, uma dúvida. Quando ela me perguntar se volto para o Rancho – que lhe digo? Com certeza que não, nesses preparos, infelizmente. Dançarino sem perna, por melhor que seja a prótese (penso que é assim que se chama), corre o risco de pisar chão torto e inclinado. Viras, malhões e quejandos – acabou-se.

Já sei. Percorrendo-lhe a pele de pêssego, vou responder-lhe que sim. E acrescento logo que para tocar sanfona os dois braços chegam. E para a apertar ao peito – também. A perna? Que se foda!

(Fotos da guerra: 4CCE, a quem agradecemos)

quarta-feira, agosto 29, 2007




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O APANHA BOLAS
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Benfica gañou en Dinamarca

Antunes Ferreira
O Benfica venceu – vivó Benfica! Em Copenhaga, num estádio velhinho de cariz batatal, os pupilos do señor José Antonio Camacho, conquistaram a passagem à fase de grupos da Champion’s League. Um grego pôs os dinamarqueses realmente gregos. Katsouranis, o rei da festa, chegou para as encomendas e ainda se deu ao luxo de molhar a sopa.
Analisando bem e independentemente a partida – e que partida, pensarão os Carlsbergs – diria que o resultado mais consentâneo teria sido: Desperdícios nórdicos 14 – SLB – 1. Quim disse à nossa reportagem que, no primeiro tempo livre que tiver, vai fazer uma peregrinação a Fátima e dará 183,7 voltas ao recinto – de joelhos, obviamente. Com joelheiras, idem.
O treinador español declarou à Comunicação Social, no seu mais puro espanholês, que «todos jugaran muito ben, os jugadores estuveran fantasticos y assi tchegaremos à final, por soposto. Sem embargo, o hierro tamben ajudou a nosoutros». O jubilado do Real Madrid? «Nada, nao, o de as balizas, mui amigo».
Entretanto, Vieira tentava a todo o custo contratar o avançado Sargento, pois o Soldado diz que prefere os ares – e os impostos – da banda de lá. ¡Bueno, bueno, no pasarán!
Entretanto, soubemos, de fonte absolutamente segura, que Fernando confessou a amigos que pensa ir treinar a equipa do Vaticano. Para já, encontra-se em recolhimento e oração em convento não identificado.



Entreposto não - entrecosto
A saga do meu último Hyundai

Antunes Ferreira
J
á vou no meu quarto Hyundai. Que é o último. Explico de seguida.O primeiro foi, até dos primeiros que chegaram a Portugal. Comprei-o principalmente por ter estado em Ulsan uns tempos antes, aquando da minha primeira visita à Coreia do Sul. O que era uma pequena e pacata aldeia piscatória cresceu por influência de ali se ter instalado a empresa de fabrico de automóveis Hyundai. Em coreano, Hyeondae quer dizer modernidade. Hoje, a cidade tem mais de um milhão de habitantes e é o centro da maior região industrial do país.

Visitei as instalações fabris e fiquei entusiasmado com a tecnologia (na altura ainda associada à japonesa Mitsubishi), mas igualmente com a absoluta limpeza que nela reinava, para além dos índices de produtividade que me foram apontados. De tal sorte que escrevi então no Diário de Notícias de que era chefe da Redacção que na fábrica «se podia comer no chão» tradição coreana.

De tal forma o impacto muito favorável me atingiu que, tempos depois, nos primeiros anos de 90, comprei o meu Hyundai. E a este, mais dois se seguiram. E sempre satisfazendo-me, o que justificava a «reincidência». Aliás, a muitos familiares e amigos recomendei o automóvel, baseado na satisfação que ele(s) me proporcionava(m). Era só meter gasolina - e andar.


Em Setembro do ano passado comprei um novo Accent (as posses não dão pra mais…). Mal sabia o que me esperava. Já em Fevereiro deste ano, o bicho começou a fazer um «barulhinho» a que comecei por não ligar. Animal novo precisa de adaptar-se ao condutor e vice-versa. E, sobretudo, aos relevos desta nossa cidade das sete colinas, alegadamente. E ao estado das ruas…

Porém a dimensão sonora foi-se ampliando para uns quantos decibéis que não sei quantificar. Vinham os estranhos ruídos lá debaixo da viatura; mas, confesso a minha ignorância, disso – nem pó. Daí que me tenha deslocado às oficinas do Entreposto, o representante da marca, ali aos Olivais.

A via-sacra dos Olivais

Malfadada hora. Resumindo e concluindo: vai para uns três meses, senão mais, que tenho feito uma via-sacra para o local, que já começo a conhecer da frequência. Creio que em noite de breu, com as luzes em black out e os olhos vendados já lá chegarei, mesmo com GPS…

A avaria deixou o pessoal da assistência pasmado. Nunca tal se verificara. Nenhum cliente tinha apresentado tais queixas. Pensei para mim que quiçá estivesse perante um carcinoma ferrugento auto. Não era. Os especialistas disseram-me que eram apenas umas coisas desapertadas. Puseram o desgraçado no ar à força hidráulica – e não era. Uns apertos circunstanciais, mas tinha de lá voltar para substituir umas peças, nada de grave. Dias depois, assim aconteceu. Só que, dias depois também, voltaram… os ruídos. Afigurou-se-me que tinham aumentado. Voltei às oficinas.

Garanti que achava que e por aí fora. Deixei o «bólide» e fui à minha vida, que a morte é certa. Tinha, de resto, uma preocupação e grande. O médico operador de minha mulher queria falar. Felizmente, não passou de um susto. Era só para dar boas novidades. À tarde, quando de novo ali fui, presumi que estava tudo bem, pois me disseram que o 26-CD-86 estava ali fora e podia ir-me. Nem perguntei sobre a doença, muito menos da terapêutica. Saí.

Para voltar uns dias depois. Ó diabo, o perito da casa pôs o boguinhas no ar, uma outra vez. Duas horas depois, que tinha de lá voltar porque era necessário substituir todo o conjunto das peças, de que uma parte fora já mudada. Mas – há sempre um mas… - era preciso pedir autorização ao importador para a vinda das tais peças.

Os clones Entrepostos

Comecei a explodir. O responsável com quem falei (e que, até esse momento, tinha sido de uma gentileza e simpatia notáveis, é preciso que o diga) e a quem disse que, face ao ocorrido, iria protestar junto da Administração e exigir um carro novo, tentou acalmar-me, que não era caso para isso, que das oficinas nunca saíra uma viatura sem estar em condições, que a garantia seria escrupulosamente cumprida.

Meti travões suavemente ao prólogo da indignação. E então? Muito rapidamente me iriam telefonar a comunicar-me se já estava concluída a operação com o citado importador. Referi ao meu interlocutor que somente as suas atenções para comigo me demoviam de impor coisas à Administração, mas – outra adversativa – não era tudo Entreposto? Importador, vendedor, oficinas – não tocavam pela mesma pauta?

Pois que e mais que, que, mas eram diferentes, mas difícil de explicar. Pensei para mim, de novo, que seria assim uma espécie de clones, de Vieira contra Veiga, tudo no SLB, em família, sem que um falasse mais alto do que o outro, ou, pelo menos, não o tentasse fazer. E fiquei-me a perguntar quem seria o Santos do Entreposto? Na altura, ainda não se materializara o Camacho…

Passou mais de um mês. E de telefonema, nada. Já em estado de ebulição telefonei a saber. Não sabem como é difícil. A central telefónica geralmente leva uns bons minutos a atender. E, quando se alcança o desiderato, a(s) operadora(s) não sabe(m) quem é o senhor por quem procuramos, vai-nos passar, mas talvez não seja.

A espoleta já estava armada. Falei com um cidadão que me disse que tinham estado de férias, mas, dentro em pouco me telefonaria para dizer o que se passava. Se as famosas peças, aqui de um verdadeiro auto teatro trágico/ridículo, já teriam vindo. Isto porque, ainda que encomendadas ao importador pelas oficinas do… importador/vendedor, talvez ainda estivessem… para chegar. Disse-lhe que esperava que o pouco fosse mesmo pouco, senão não me ficaria. Não telefonou.

A ouvir música

Telefonei eu. Primeiro, outro senhor que me atendeu, aliás nenhum dos dois que solicitara á telefonista, a pretexto de que não me conhecia (isto apesar das repetidas visitas ao local), que tentaria encontrar quem eu desejava. E deu-me música pelo telefone, coisa de que não gosto. Mesmo nada. Ao fim de cinco minutos e poucos segundos (cronometrei o invento, digo, o evento) desliguei e voltei a ligar.

Agora, para me chatear com quem quer que me atendesse e informar que daria do caso conhecimento à Embaixada da Coreia do Sul, escreveria um texto pouco simpático para o Entreposto e publicá-lo-ia onde quer que fosse. Logo depois, um telefonema de um dos senhores hyundaicos, a comunicar-me que hoje às nove horas me devia deslocar (adivinhem onde…) aos Olivais, às oficinas etc. e tal.

Assim fiz, tendo perguntado se o meu último telefonema aviso/ameaça fizera com que as peças tivessem sido artilhadas de ontem para hoje, pois já lá estavam. O que representava para mim uma singular coincidência. Nada, não senhor, tivemos de as tirar de outra viatura. Espero que novas, acrescentei. Novinhas em folha. Não jurou.

Ora pronto. Esta é uma longa estória que me proporcionou o grato sentimento de ter passado a conhecer a zona, melhor do que o bairro onde morava há mais de trinta anos e que hoje já não é o meu. Aí, teria de estar agradecido ao Entreposto, não sei se ao importador, se ao vendedor ou se ao reparador das oficinas. Mas não o faço – por motivos óbvios. A minha religião não mo permite, mas, sobretudo, a boa educação proíbe-mo.

Não dei quaisquer nomes porque entendo que (já) não vale a pena. Mas, garanto-vos: este foi o último Hyundai que comprei. Palavra de honra. Do Entreposto – estou farto; agora, só entrecosto.

(NR - As fotos não são das oficinas Entreposto/Olivais)

segunda-feira, agosto 27, 2007




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O APANHA BOLAS
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Mail a Ricardo


Antunes Ferreira
Constou-nos que um grupo de sportinguistas ferrenhos prepara-se para enviar um mail ao guarda-redes Ricardo, no rescaldo do ocorrido ontem no Dragão. Entretanto, e face ao interesse do texto, outros sócios e simpatizantes do clube de Alvalade, já começaram a recolher assinaturas para um abaixo-assinada que, oportuna e tempestivamente, corroborará a mencionada mensagem. Os ânimos fervem e há quem proponha que o Paulo Bento faça mais 250 mil telefonemas, desta feita a aconselhar calma, cautela e caldos de galinha que, como se sabe, nunca fizeram mal a ninguém. «Desde que não nos lixe as finanças» terá sido o comentário de Soares Franco. Para conhecimento dos que nos visitam, segue o texto do supra citado mail: «Ricardo, volta! Estás perdoado!» Espera-se que, após o recebimento, o Bétis de Sevilha emita comunicado a propósito. Mas, uma fonte seguríssima do Real Balompié já nos adiantou, por antecipação, o que será a resposta dos andaluzes: «!No pasarán! Nada, nada, caballeros, y ole. El portero quedará con nosotros. Aun que no salga de la baliza, no saldrá de nuestro Club. Es decir, lo dejaremos salir contra 756,9 millones de euros. Hay que ganar algo !Váyanse a la porra!»
Tentámos ouvir Stojkovic, mas fomos informados pelo porta-voz do Sporting que «é impossível, pois o guardião encontra-se em Caxias, em recolhimento e meditação».

domingo, agosto 26, 2007




Recordando E.P.C.


Maria Lúcia Garcia Marques
Conheci o Eduardo Prado Coelho em 1961, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ingressou um ano depois de mim para o mesmo curso que eu escolhera. Creio que logo no ano seguinte se tornou responsável pelo Instituto de Língua Francesa, que viria a ser, para mim, poiso habitual nos intervalos das aulas – ou substituto daquelas a que não ia – ou lugar de descompressão das actividades associativas (académicas ou da Acção Católica) a que me dedicava à época. O Eduardo estava sempre lá. Senhor tutelar e usufrutuário guloso da respectiva Biblioteca, facilmente embarcava em longas conversas sobre leituras e autores com quem convivia numa avassaladora intimidade. Recordo hoje como único o sabor denso dessas falas apalestradas, temperadas pelo picante das suas críticas a latere, naquela sua voz meio nasalada, meio cantada, com um risinho no fim. Era o tempo das erudições jucundas, na i-reverência dos nossos 20 anos. Mais tarde, em 70, encontrámo-nos no bar da Faculdade de Letras de Coimbra, num intervalo roubado de um dos doutos Congressos a que o dever de ofício nos obrigava.

Estás lembrado? Ofereceste-me uma bica e um pastel de nata. À minha observação de esquiva gratidão de que “julgava que o marialvismo já tinha acabado”, respondeste, gargalhando ao teu modo: “Marialvismo coisa nenhuma – é que preciso dos trocos e a conta assim dá mais jeito …!”. Simultaneamente pragmático e sedutor!

Foste sempre assim na Vida. Atiraste-te a Ela a teu gosto: leste-a nos livros, viste-a no cinema, colheste-a nas artes, viste-a até no futebol. Em miríades de universos entrecruzados. E ofereceste-nos, em registos sabiamente diferenciados, a magnanimidade das suas idiossincrasias.
Amealhaste gostosamente saber e prazer, carreados no esforço e na constância. Mas foste o mais generoso dos Cresos: a nosso favor os reverteste. Foi tudo em pura perda, agora que te foste? Não creio. Desculpa dizer-to, a ti que te querias/crias ateu (agora que cá não estás para me contraditar), mas acho que, no teu diálogo aceso com a Vida, expandindo pela palavra inteligente os valores do Ser e do Estar dos homens, foste – queiras ou não – parte efectiva na concretização da obra de Deus. E por isso te cabe a perene Memória!

sábado, agosto 25, 2007



Eduardo Prado Coelho

Morreu hoje, com 63 anos de idade, o meu Amigo desde a infância, Eduardo Prado Coelho. Sem quaisquer comentários. Não sou capaz de. Até à vista, Eduardo.



Montréal ao fundo
* À atenção de António Costa

Antunes Ferreira
O
meu cunhado Raul Palhau informa-me pelo msn : O centro de Montreal está fechado. Foram descobertas fissuras numa placa de betão subterrâneo situada na rua De Maisonneuve, uma das principais da cidade. O maire Gérald Trembley determinou de imediato o encerramento de diversas ruas da zona, mais precisamente um quadrilátero balizado pelas ruas Sainte-Catherine, Université, Président-Kennedy e City-Councilors. O serviço de metro foi tambem suspenso na Linha 1 (Verde), entre as estações Lionel-Groulx e Berri-UQAM.

Desde sexta-feira ao fim da tarde, altura em que foi assinalado o acontecido, que a interdição da circulação de viaturas e peões se verifica, afectando sete ruas. E ainda que no perímetro não existam residências, apenas escritórios e comércio, as autoridades decidiram evacuar muitos estabelecimentos comerciais.

Gilles Ducharme, o mais importante membro do Serviço de Segurança e Bombeiros da cidade, afirmou então que «de acordo com o que se lembrava, era a primeira vez que havia riscos de afundamento subterrâneo tão graves no centro da cidade». E acrescentou que ainda se estava a analisar o problema, para ver se seria necessário um corte de corrente, pois verificavam-se infiltrações de água.

O quotidiano mais destacado de Montreal, La Presse publicava, na sua reportagem, um comentário de um cidadão não identificado: «As nossas infra-estruturas são tão velhas, e há tanta falta de dinheiro na Mairie (a Câmara) que muito brevemente eles vão-nos anunciar que os riscos são muito grandes e o centro da cidade continuará fechado à circulação auto, sabe-se lá até quando.

Um nome conhecido do jornal, Patrick Legacé, escreveu uma crónica na edição de hoje, transcrita igualmente na edição informática Cyberpress, na qual afirmava: «É talvez apenas uma impressão, mas diria que o Québec cai em ruínas. Roído pela gangrena. Neste Verão, festejámos o quadragésimo aniversario da Expo 67. Ah, as belas imagens ! Ah, esse Québec que usava flores no cabelo! Ah, como tudo estava por e para fazer e tudo se construía! Viessem os projectos!».

Montreal tem uma cidade à superfície e outra subterrânea, uma por cima, a segunda por baixo. O Inverno rigorosíssimo é a maior explicação para isto. A primeira vez que ali estive, fiquei impressionado, quase estupefacto. As dimensões da cidade subterrânea são enormes. As da que está à superfície são muitíssimo maiores, é claro. Mas, mesmo assim… Nas seguintes, fui-me habituando. Mas sempre pensei «se um dia há uma chatice…»

Para os montrealenses isto é um pesadelo. Está a ser, pois que ainda não se sabe até ao momento em que escrevo, o que estará na origem da ocorrência, quanto tempo ficarão fechadas ruas e metro, quais as medidas que se irão adoptar – depois de conhecida a dimensão do desastre.

A situação tem de ser seguida com muita atenção, mesmo por cá, em Lisboa. Arrisco-me até a dizer, principalmente por cá, tais as similitudes que existem nas Câmaras das duas cidades. É evidente que a nossa capital não tem uma gémea subterrânea. Mas – e a Baixa? E a estrutura do nosso centro pombalino?

Bem se pode dizer, também que, talvez seja apenas uma impressão, mas Portugal quase cai em ruínas, e em especial, Lisboa. Não será tanto assim, felizmente, trata-se tão-só de uma comparação sem rigor, mas. Já no que concerne às finanças municipais, a CML também não tem dinheiro, ou tem pouquíssimo…

António Costa que atente neste acontecimento. O seu homónimo Trembley parece estar metido numa enorme alhada. A do novo Presidente não será muito diferente. Sem fissuras tão grandes no betão – mas com fissuras enormes no dia-a-dia de todos nós.

As fotos do centro de Montréal encerrado e da estação de metro também fechada são, igualmente do Cyberpress. Merci bien, les Amis

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sexta-feira, agosto 24, 2007

RI-TE, RITA

Portugueses torturam crianças no Iraque
O António Fonseca sempre foi – e é, e será – um tipo discreto. Porreiríssimo, mas soft. Desde o Camões até à Faculdade de Direito – nunca nos abandonámos. E até na tropa andámos juntos. Campeoníssimo de… vejam lá, xadrez, os olhos a luzirem-lhe por trás das dioptrias de que sempre abusou, é um Amigão. Do peito, podem crer. Destinatário de milhentos mails que lhe envio com uma regularidade criminosa e sem atenuantes, ele raras vezes me mimoseia com coisas, mesmo que de ricochete. Agora, aqui está uma delas. Não hesito e meto-a neste blogue. A GêNêRê e o FêCêPê são motivo para uma boa piada. Mais um membro de um gang que se vai alargando, o que só me dá alegria – e espero que aos visitantes também. Continua, Fonseca! Antunes Ferreira

terça-feira, agosto 21, 2007




À RODA DOS DIAS

Agosto



Maria Lúcia Garcia Marques
Agosto habita no coração dos hibiscos. Afogueado e pujante, vibrante e cavo como um tímpano reverbera no ar, acende a cal, ateia o mar, incendeia os poentes.

Agosto é um mês jucundo: arde na pele e afoga-a em águas de puro gozo. É o calor das férias, dos tempos vagos, do Sol a jorros, dos corpos expostos. Porque Agosto é um mês macho – em que a mulher se alteia e Eros se solta. Em que Eva cai deliciosamente no embuste da serpente e se crê ser tudo: o Atlas do mundo e o mais belo bicho da Criação. Em que se expõe à Conquista e à Entrega, num quadro lindo de subtil sedução como naquele poema de Cesário Verde:


[…]
Mas todo púrpura, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas
ou jogando-se toda inteira no ardente convite dos versos de Florbela Espanca:
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços …
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca … o eco dos teus passos …
O teu riso de fonte … os teus abraços …
Os teus beijos … a tua mão na minha …

Se tu viesses quando, linda e louca,
.Traça as linhas dulcíssimas de um beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca …
Quando os olhos se me cerram de desejo …
E os meus braços se estendem para ti …

ou ainda quando, mulher-Ceres, fecunda e mãe, desenhando-se como a opulenta deusa de Agosto, nuns dos mais belos versos de David Mourão Ferreira:

É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada das trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos

nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra

Agosto é dos poetas e dos amantes. Carpe diem, a gosto!

sábado, agosto 18, 2007




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SALTEADO
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Agosto, o mês

Antunes Ferreira
Adoro estar em Lisboa - em Agosto. Quando inúmeros habitantes ulissiponenses saem da cidade, é uma calma notável. Os miúdos, de férias grandes, os pais de férias pequenas, todos juntos, mais os solteirões com subsídio em dia e os velhotes com posses ou reformas chorudas, tipo Banco de Portugal, essas centenas de milhar ausentes deixam, aos que ficam, descansar. Eu, juro-vos, sossego, logo, descanso.
O trânsito é outra loiça. E, agora, com os radares dos 50 quilómetros a ajudar (ó António Costa, devia haver em toda a capital, todinha), circula-se como se se vogasse em colchão de praia – de papo pró ar. Chega-se, até, a dar, misericordiosa e civicamente, passagem fora das passadeiras aos peões educadíssimos que nós somos. E que, mesmo nos outros meses assim procedem. Civismo, é o que é. Mais. Aos carros, poucos de matrícula nacional, que por aí erram.
Por isso esta minha adoração, amor, o que se lhe queira chamar pela minha cidade em Agosto. Ontem, um chofer de táxi quando lhe disse que queria ir para a rua do Zaire, nem me perguntou se era no Bairro das Colónias. Pudera, não. Por mais maçarico que fosse na profissão, nem precisaria de GPS. Há, apenas, um problema: os turistas. Mas como estes trazem ma$$a$, perdoa-se-lhes que nos roubem essa excelente tranquilidade. Não muito, porem, que tudo tem um limite. A paciência, também. Adoro estar em Lisboa – (mas) em Agosto.



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O APANHA BOLAS
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Ah seus Leões!

Antunes Ferreira
O Sporting começou bem a Liga. Antigamente, dizia-se Campeonato Nacional. Hoje, os meus netos, quando me ouvem utilizar a denominação aparentemente ultrapassada, atiram-me com a desavergonhada pergunta: «Avô, o que é isso?» E olham para este kota pré-histórico, quase coevo do Cromagnon. Mesmo assim, os putos são bué de fixes.

Pois começaram bem os Leões. O único mal foi terem aberto a época (4-1) com a minha Académica de sempre, ainda que relegada para segundo plano pelos verde-e-brancos. Ainda por cima, passei a morar à esquina do estádio mais lindo do… Lumiar. Mas o Paulo Bento (ainda) não me telefonou. Um aviso à navegação: não esperem isenção neste cantinho. Ponto.
Só ainda não consegui compreender que só eu sei porque fico em casa. Agora – segue-se o FêCêPê, na remarque desejada. É só um pouco mais acima de Leiria…

quinta-feira, agosto 16, 2007




SOMBRA DA GUERRA COLONIAL

Carne Fresca


Antunes Ferreira
T
irou a folga do gatilho e voltou a apurar a mira. A palanca, imóvel, levantou o focinho, parecia cheirar algo, não sabia o quê. Raspou o solo capinado, com um tanto de nervosismo, os cascos restolhando nos cotos da erva segada. Lingrinhas pensou um, dois milésimos de segundo, quiçá três, mesmo cinco. Assim faziam os touros mansos antes de investirem. Por isso disparou.

O animal saltou para a frente, como que começando a corrida, mas ficou-se no arranque, como que suspenso no ar, parado no tempo e no espanto. Caiu de lado, esperneando, nos estertores de quem acaba, seja bicho ou homem. Caralho, Lingrinhas, deste-lhe na mouche! Dois pontos para o Lisgás! Porra, essa foi do suco da barbatana!

Os cinco soldados – tinha saído uma secção incompleta a ver se abastecia de carne fresca a companhia, farta de enlatados, de bacalhau sem batatas e linguiça em pão duro e bolachas Capitão – quase o levavam aos ombros. Ó pá tu és um meia-leca, se os turras te atacassem, punham-te debaixo do braço e ala que se faz tarde… Mas, no fogacho ninguém te bate!

Por alguma razão o capitão Malveira tinha mandado o Cristóvão Lingrinhas, mais o quinteto de camaradas ao açougue da mata. Era quase certo. O trinca-espinhas traria bifes e costeletas e lombo e perna e todas essas coisas que um homem quer ter quando voa para o rancho. Já não apanhamos mais nada, o eco assustou os animalejos, vamos embora.

Nem pó. O caçador cheirava presa, algo mais viria para enriquecer a despensa do aquartelamento e os desejos gastronómicos da soldadesca. Os cinco, entre o medo de uma qualquer merda – já bastava o que bastava – e a gula de cascata na boca, começaram a falar fininho, por causa das moscas – e do resto.

Andavam por ali uns quantos cabrões, que se intitulavam a eles próprios guerrilheiros, comandados por um tipo que infundia cagaço ao mais pintado. Era um tal Mata-Mata, mulato, dono de uma carabina Mauser de precisão, com mira telescópica, prenda do pai branco, que onde punha o olho punha o chumbo. Era igualmente caçador, mas de soldados tugas, não se sabendo se se dedicava a outras sortes cinegéticas.

Ó pá, talvez fosse mais seguro pegarmos no animal e leva-lo para a esfola e a panela. Basta pensar que nos podemos meter em trabalhos, uma alhada nunca vem só. Depois, com estes filhos da puta, nunca fiando. Chico Cristóvão nem lhes dava troco. Vamos apanhar a palanca, meter-lhe umas varas para ser mais fácil de transportar, tipo padiola. Quatro levam-na para o quartel; o Sebastião vem comigo. Não se desorientem, seus atrasados mentais. E voltem logo para levar mais caça.

O silêncio ouve-se

Sebastião deitou contas à vida. O sacrista do Lingrinhas ainda lhe arranjava uma valente enrabadela. E os pretos, dizem as meninas do Bairro Operário, têm a piça grande. Da-se, nem pensar nisso que lhe sobe um arrepio pela espinhela acima. Ó camarada, e se nos puséssemos na alheta? Medricas, sempre me saíste um bom mariquinhas pé-de-salsa. Aqui não morre ninguém, muito menos te tocam no cu, estamos quites.

Mas de alimária – nada. Até os macacos, empoleirados em seus galhos, deixaram de guinchar. O silêncio na mata ainda é mais opressivo. O silêncio ouve-se. Tal como o barulho. Os dois deitam-se no leito de folhas secas da floresta. Vai um cigarrito, Lingrinhas? És mesmo uma besta-quadrada! Lume aqui? Mas foste tu que acabaste de dizer que não nos pode acontecer nada. Cala-te e nada de piriscas.

Emboscados, por entre troncos apodrecidos, pensavam que confundiam o camuflado com os tons do que os rodeavam. Esperavam. Presa ou os transportadores de carne fresca. Quem seria o primeiro? Sebastião, a quem chamavam na companhia o come-tudo, sem ou com colher, lembrança da canção dos putos, avançou um tímido estou cheio de larica. O comparsa nem lhe respondeu. Se calhar nem lhe ligou nenhuma.

A ramaria deixava coar uma luz cada vez mais esparsa, avermelhada do poente. Um tiro, um só. Sebastião nem soltou um pio. Pedaços da mioleira esfacelada saltaram sobre o Lingrinhas que se enfiou ainda mais, se possível, pela podridão vegetal. Segurou com força a G3 de mira também telescópica, como a da arma do Mata-Mata. E se fosse o gajo?

Houve um tropel de cascos misturado com botifarras calcando o solo pegajoso. Eram os militares que voltavam e tinham ouvido a detonação. Pelo ruído, corriam. Mas, por trás de uma moita agigantada surgira um burro do mato, grande e encorpado, fora do normal. Um verdadeiro desafio para o Portuga. Uma provocação.

O Chico não podia levantar-se, o bandalho fuzilá-lo-ia, mas o vício era desmesurado. Ou lhe atirava a matar ou as entranhas saíam-lhe pela boca, pelo olho de trás, pelos poros. Os soldados gritavam por ele, aguenta-te Lingrinhas que estamos a chegar, não te vás abaixo! E chegaram, ofegantes, disparando um tanto à toa, assim os turras não respondiam, tinham medo de dar a posição deles. Ou dele, pensou Cristóvão, enquanto mecanicamente disparava – mas sobre o animal. Qual Sebastião, este caiu de chofre, sem qualquer hipótese.

Já um pouco afastado ouviram um berro de ameaça – eu volto! Promessa sangrenta que sabiam que iria ser cumprida. E uma gargalhada de bazófia, mas também da consciência do medo que infundia. Era o Mata-Mata, não havia dúvidas, a maneira de falar dos brancos, mulato fino, voz rouca. Ele voltaria, não se sabia quando, mas voltaria. Cumpriria o prometido, era homem de palavra.

Dois cadáveres

Regressaram os soldados, com dois cadáveres aos ombros: o burro do mato e o Sebastião. Ou vice-versa. A recepção que se antevia eufórica no pressuposto de mais carne fresca, enlutou-se com a carne também fresca – mas do magala desditoso. A tudo assistia o Lingrinhas, esbodegado, como se lhe tivesse passado um cilindro das estradas por cima, lágrimas ensacadas, um homem não chora.

O capitão Malveira chamou-o ao seu «gabinete» numa jotacê e perguntou-lhe se achava bem o que tinha causado. O Sebastião, de resto, era um gajo porreiríssimo e um paz-de-alma. Tocador de acordeão. Se não tivesse sido a tua estúpida ideia de dar mais uns tiros, o rapaz ainda estava vivo. Mas tu pensaste, cabeça de atum em lata, que estavas no Parque Mayer com as putéfias a regougar – vai um tirinho, freguês? A pensar morreu um burro, meu sacana!

Não estou a gozar. Isto não é para brincadeiras. Estou fulo. Estou fodido! Vou mandar levantar-te um auto de corpo de delito por homicídio involuntário. O nosso alferes Lucindo trata disso. Vais ver como elas te mordem. Nunca mais vais esquecer isto. E, a partir de agora, só sais com a canhota para combate. Meia volta, volver. Rua!

Estava metido numa boa alhada. Maldita a hora em que cheirara presa. Maldita a hora em que a mãe o parira. Esperava-o um futuro bem negro. Um auto de copo de litro, como os taratas gostavam de arremedar, atropelando a versão correcta. Como os que diziam auga em vez de água. Caraças, todo este torvelinho de ideias lhe vinha à cabeça – de atum em lata?

E o Sebastião? E a mulher do Sebastião, Gracinda de seu nome, 23 anos empinados? E a filhinha do Sebastião, Laurinda, a Laurindinha, doze meses incompletos, fazia anos a 22 de Setembro? E os pais do Sebastião? Que fora um camarada ali para as curvas, não dizia mal de ninguém, nada de coscuvilhices, nem intrigas, muito menos fum-funs ou gaitinhas. Estava para ali a cismar no seu futuro, quando o do desgraçado não era nenhum. Apagado, como fósforo queimado.

Uma grande cagada. Não tivesse ele mandado os outros levar a palanca e o Sebastião que ficasse com ele e outro galo cantaria. Assim, o galo fora do come-tudo, para ali espapaçado nas folhas podres, descapotado, os miolos espalhados em redor, até nele, Chico Cristóvão. Um arrependimento, tardio e enviesado, espalhava-se-lhe pela casquimónia. Que lhe restava agora? Nada. Mas, muito menos do que ao Sebastião.

Não te mortifiques

Muitos praças olhavam-no de viés. Já não bastavam os terroristas, também este cabrão, resmoneou o Marques açoriano da Fajã, às vezes nem se entendia o que dizia, mas agora não. O Fagundes, apontador de morteiro, agarrou-lhe um braço e afastou-o da censura quase generalizada. Ouve, Lingrinhas, ouve. Ouve-me e não me copules. Escuta-me filho duma pega.

Toma nota. O destino já tinha marcado a hora do Sebastião. Não tens que te mortificar e assumir a culpa. Limitaste-te a tentar trazer mais paparoca para os dentes da malta. Estivesse eu no teu lugar e, se calhar, fazia o mesmo. Essa gajada – deixa-a falar. O que tu bem sabes é que eles cobiçam-te a pontaria. O olho, salvo seja. Atira para trás das costas e não te enterres a ti próprio.

Enterrar. Enterro seria o do Sebastião, caixão desembarcado no Puto, a viúva em ânsias, os pais amarfanhados, a menina no carrinho, já dando os primeiros passos, nunca junto à cova do pai. Assim, não vais a nenhum lado, Lingrinhas. Assim consomes-te por dentro, comes-te a ti próprio, dizia o Prof. Candeias que serias um autofágico, lembras-te?

De passagem: enterrar sim, mas outra coisa, naquela moça do bengaleiro do cinema Império, mestiça danada, calças justas, segunda pele a azul ponteado, um par de mamas viçosas e tesas, sem sutiã, que nós bem lhe vimos os mamilos desenhados na camiseta encarnada debruada a preto. Aí sim, aí enterrava até aos tomates e tenho a certeza de que ela se rebolaria como uma cabra no cio.

Repara Chico, e só estivemos em Luanda, no Grafanil, oito miseráveis dias e umas horas. A fita era a mesma, A Revolta na Bounty, com o Marlon Brando, mas fomos lá cinco vezes. Já sabíamos de cor o enredo, o motivo do desatino era a moça morena. De canela, Lingrinhas, morena de canela, mulatinha. Mau. Mulato era o Mata-Mata que enfiara o balázio na fronha do Sebastião. Ele dissera que voltaria. Quando o fizesse, ele, Chico Cristóvão estaria lá, à sua espera.

Com o rodar dos dias, as folhas do calendário que tinha à cabeceira - com uma louraça abonada e de peito ao léu, rapariga muito cobiçada ainda que de papel, frente à qual muito boa gente esgalhara uma pívia à maneira – foram-se arrancando. No mato, sem sanzala perto, era uma merda, e mais a mais as palmas das mãos não tinham cabelos. Mas era o que havia.

O fradalhão de Santa Comba

Filha da puta de guerra era aquela. O Fagundes, pela calada da noite, abria-se em palavras sussurradas – à sorrelfa. Os gajos tinham razão em quererem a independência. O Brasil era um exemplo. E os africanos estavam agora a dar cabo da colonização. Isto não são províncias ultramarinas, são colónias. Em Lisboa até há um bairro das colónias, se não sabes, aprende que eu não duro sempre.

E acrescentava, cada vez mais baixinho, que o maricas do fradalhão de Santa Comba – quem? – o Salazar, meu animal, o Botas, é que mandava o pessoal apanhar no cu, sacrifício ignóbil e inútil, porque aquilo ia acabar mal para a malta. Destas conversas de cobertor participava o Machado, sacristão na civil, até comentava que o Fagundes era comunista, igualzinho ao tio Serafim, que fora apanhado pela PIDE e estava a ferros em Peniche. Não sou, mas podia muito bem ser. Bons sonhos.

José Malveira, capitão de Infantaria (QP), decidira, face aos constantes ataques, agora já não apenas na picada, mas ao aquartelamento, que um pelotão reforçado iria montar uma emboscada, junto ao carreiro da água. Dali vinham disparos nocturnos e, até, pelo entardecer, barbaramente certeiros, eu cá seja ceguinho se não é o Mata-Mata.

Cristóvão ofereceu-se, o grupo de combate nem era o dele, mas foi. O comandante – águas passadas não movem moinho – aceitou, já que se tratava de acção de combate e a pontaria do Lingrinhas fazia muito jeito. E como em tempo de guerra não se limpam armas, o caçador seguiu. Fagundes, agarrado ao seu eterno morteiro, ainda lhe disse que não se devia ter metido naquilo pelo que quer que fosse.

Agachados, ajoelhados, deitados por trás de sebes de verdura húmida, os emboscados aguentaram horas. Que já pareciam dias, senão mesmo semanas. Nisto, um restolhar manso e suave, quiçá um descuido sem razão, entrou pelos tímpanos da malta. Eram eles, não havia dúvidas. Por gestos, passaram palavra. Uma secção por ali, outra por acolá, aqui ficam os restantes. Chico à cabeça da primeira, o alferes Janica em seguida.

Os guerrilheiros, sem disso se aperceberem, já estavam cercados. A um berro do capitão, voaram as primeiras granadas de mão, encheu-se a mata de fogachos, gritos e insultos, fumo e metralha. E sangue. Chico nem disparara. Mexia-se sorrateiro, pé após pé, arma em riste, dedo no gatilho. Pela cabeça – de atum em lata? – passava-lhe o Sebastião tocando o acordeão, nisso era um alho. Mas igualmente o desejo lancinante de encontrar o Mata-Mata, que devia andar por ali.

E, de chofre, ficaram cara-a-cara, espingardas expectantes, quase a dois metros um do outro. O Lingrinhas e o Mata-Mata. Quando dispararam, em simultâneo, ainda disseram um para o outro – é o Chico, porra!, é o Lourenço, foda-se! Ficaram de papo para o ar, a linfa vermelha esvaindo a vida aos borbotões, empapando o solo ele próprio revoltado.

Tinham andado na mesma escola, veio depois a saber-se, o Francisco da Costa Cristóvão e o Lourenço da Silva Mendes tinham feito a primária juntos, sentavam-se na mesma carteira. Eram como irmãos, melhor, eram amigos. Que diria a Dona Alzira se soubesse que se tinham matado um ao outro, em Angola, na mata, no caminho para o Quitexe?