segunda-feira, julho 23, 2007



Que língua se fala no Brasil?


Rosilene Rodrigues
Q
ue língua se fala no Brasil? A pergunta parece óbvia, pois todos sabem que é o português. Basta pegar um jornal, ligar o televisor, passar os olhos nas prateleiras de uma livraria, salta à vista que o português é a língua do Brasil! Observe que a pergunta faz referência apenas à fala e… será que falamos a mesma língua que escrevemos e lemos?

Há diferentes opiniões acerca do assunto; mas, para consolidar nossa opinião, observemos algumas situações concretas de uso da língua. Suponhamos que você está numa aula de Língua Portuguesa e se esqueceu de trazer o material necessário. O professor passa uma atividade e você diz ao amigo: - Me empresta sua apostila.

Ao ler a frase acima, muitas pessoas talvez nem reconheçam nela uma infração ao padrão culto da língua de tão comum que é. Note que essa é uma forma correta de falar naquele local e naquele momento. E que qualquer pessoa poderia utilizar uma frase como essa (não apenas as chamadas “pessoas incultas”). A frase acima pertence ao repertório lingüístico de qualquer brasileiro, pois é assim que falamos (ou você é daqueles que, pela manhã, dirige-se ao padeiro e diz: Dá-me dez pãezinhos?!). Podemos escrever diferente como, por exemplo, “Empresta-me sua apostila”, mas falamos daquele jeito.

Imaginemos outra situação: Um jovem , caminhando pela cidade, encontra-se com outro da “mesma tribo” e diz: “Fala véi, como cê tá? Tava falano docê gorinha mesmo!”
Essa frase, pode nos deixar estarrecidos, indignados; todavia expressões como “cê” (você) , “tá” (está) “falano” (falando) “docê” (de você) e “gorinha” (agorinha) são próprias da linguagem oral (apenas linguagem oral!).

Comece a observar, porque é assim mesmo que muita gente fala. Embora na escrita choque um pouco, porque está cheia de traços que não costumamos encontrar em textos escritos (ou pelo menos não deveríamos encontrar!): a preposição pra (em vez de para); o infinitivo vim (em vez de vir); a construção Você assistiu o filme? (em vez de Você assistiu ao filme?); a regência Professor, posso ir no banheiro? (em vez de Professor, posso ir ao banheiro?); as expressões fazer eles (em vez de fazê-los); o verbo tiver (em vez de estiver).

Na fala, o pronome nós é cada vez mais substituído por a gente, e, paralelamente, as formas de primeira pessoa do plural (fizemos, gostamos, íamos) vão caindo em desuso. Há pessoas que não as usam praticamente nunca. Querem mais? Na fala, a marca de plural não aparece em todos os elementos do sintagma. Assim, formas como “Esses aluno danado!” (ou ainda “ques aluno danado!”) está presente na fala de muitos de nós. Na escrita, naturalmente, a marca de plural é sempre obrigatória em todos os elementos flexionáveis: Esses alunos danados. Também é comum ouvirmos: “Cê vai saí com nóis?” , escrevendo, tem de ser: Você sairá conosco?

Acredito que não é necessário continuar. As diferenças são muitas, como todos sabemos. Elas constituem uma das dificuldades principais que enfrentamos nas instituições de ensino, ao tentar produzir textos escritos. Aliás, por que temos tanta dificuldade em escrever textos em português? Não é nossa língua materna?

A resposta é simples, mas pode surpreender alguns: não, o português escrito não é a nossa língua materna. A língua que aprendemos com nossos pais, irmãos e avós é a mesma que falamos, mas não é a que escrevemos. As diferenças são bastante profundas. Em outras palavras, há duas línguas no Brasil: uma que se escreve e outra que se fala. E é esta última que é a língua materna dos brasileiros; a outra tem de ser aprendida na escola, e a maior parte da população nunca chega a dominá-la adequadamente.

Mas não sejamos hipócritas em achar que tudo é permitido, pois, em determinadas situações comunicativas, espera-se da pessoa (dependendo da função social que ela exerce) uma linguagem (mesmo a oral) mais próxima da norma padrão escrita. Não se aceita que um administrador, por exemplo, num simpósio, fale “a gente fomos”, “pra mim fazê” (mim não faz nada!), “cê tá se empenhano”.

Na sociedade, exercemos papéis diferentes. Eu, por exemplo, mal deixo de ser mãe de um garoto de quase seis anos e já sou professora de alunos do sexto ano; algumas horas depois já sou professora da graduação, esposa, filha, funcionária, colega, amiga… E, em cada uma dessas situações, a linguagem é diferente (mesmo na fala!).

Falar ou escrever bem uma língua não significa usar em todos os momentos da sua vida, a norma padrão, mas sim adequar a linguagem ao ambiente, ao propósito enunciativo. Tanto é inadequado dizer “Por obséquio, passe-me a salada!” num almoço com a família, quanto um advogado dirigir-se ao juiz, num tribunal de júri, “Meu caro colega, o réu é inocente!”. A questão é de inadequação e não de erro.

Amar a nossa Língua

As coisas são o que são. Umas quantas pessoas ensinaram-me a amar a nossa Língua Portuguesa. Escolho: o meu tio e professor primário em Montalvão, Domingos Antunes; a Dona Clélia Marques, minha professora da quarta classe, na Escola Mouzinho da Silveira; a Dr.ª Maria Helena Lucas, minha professora no Liceu Camões e, a citação é de justiça e mérito, a Dr.ª Maria Lúcia Garcia Marques. Claro que livros e autores constam também de um acervo sem fim. Poderia aqui mencionar uns tantos, mas eles multiplicar-se-iam de tal forma, que cairia no ridículo de quase reproduzir um lista telefónica, ainda que das páginas brancas.

Sem cair na repetição calina, o blogue da Embaixada de Portugal no Brasil entrou de pleno direito nesta panóplia. O Francisco Seixas da Costa já faz parte, por isso mesmo (já fazia antes pelo mérito de primoroso cultor da nossa Língua) dos «culpados»a que acabo de me referir. Sem atenuantes, acentuo. Através do blogue tenho vindo a encontrar textos que reproduzo neste Travessa. O que muito gosto me dá, como podem compreender.


Hoje aqui registo o artigo da Dr.ª Rosilene Rodrigues de Carvalho que é Mestra em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, professora de Língua Portuguesa na Rede Pública Estadual de Ensino e na UESP-FAIESP, Universidade Especial Sobral Pereira – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da mesma. O artigo foi publicado em «A Tribuna», de Mato Grosso. A quem agradeço, bem como à Autora. Com uma promessa: vou continuar nesta senda e a ser vosso leitor.
A.F.

sexta-feira, julho 20, 2007




HISTÓRIAS DA PJ

Aconteceu no Natal ...

José Augusto Garcia Marques
Era emigrante em França há cerca de 12 anos. Trabalhava, como operário especializado, numa fábrica de automóveis, em Orléans. Saíra, já com trinta anos, da sua Beira Alta natal, na segunda metade da década de cinquenta, em busca de melhor viver. Alguns anos depois, com um pé de meia razoável, o António decidiu tirar férias para arranjar companheira, de preferência no torrão que foi o seu berço.
Afinal, veio a encontrar a Sílvia na zona de Sintra, mais concretamente na Praia das Maçãs, de onde ela era natural. Mais nova do que ele uns bons doze anos, era uma estampa de mulher – alta, com belas formas, clara de pele e de cabelo alourado. Até parecia uma francesa! Namoraram com o recato próprio dos tempos – estava-se no começo dos anos sessenta, Portugal embarcava para Angola “rapidamente e em força” e vivia com alguma angústia o começo da guerra de África.A Sílvia foi conhecer a família e a terra do António – uma das mais modestas aldeias do concelho de Almeida, chamada Malpartida.

Ficaram noivos e decidiram que o casamento seria no Verão de ano seguinte, na terra do noivo. Assim foi. O António já tinha trinta e seis anos, a Sílvia apenas vinte e quatro. As fotografias do casamento mostram um par feliz – ele, moreno e radiante, vaidoso da beleza da sua jovem mulher. Todavia, na pobreza de Malpartida, a figura vistosa da Sílvia e o seu ar de Senhora não caíram bem entre os convidados em geral e, em especial, junto das irmãs e cunhadas do noivo. O inverso também terá sido verdade. Aquelas mulheres escuras, pequenas e precocemente envelhecidas, com ar de permanente sofrimento, desagradavam ao temperamento extrovertido e alegre da noiva. Passava o ano de 1963.

Com grande desgosto do marido, a Sílvia não se adaptou à vida em França. Faltava-lhe o Sol! Como, entretanto, engravidou, decidiram que ela viria para Portugal, ficando a viver em casa dos pais até que tivessem condições para comprar uma moradia, ou, ao menos, um terreno para construir a vivenda, com jardim ou, até, com quintal. Entretanto, nasceu o Daniel, filho único do casal, o qual, com dois anos de idade, foi viver para a moradia que os pais entretanto compraram num lugar perto de Torres Vedras.

Vir a Portugal

O António continuava a vir a Portugal, todos os anos, no mês de Agosto e, em regra, de dois em dois anos, pela época do Natal. Quando não podia vir passar o Natal com a Família, era a Sílvia que costumava deslocar-se à França, mas não se demorava por lá mais do que dez ou quinze dias, argumentando que não convinha que o Daniel, ainda muito pequeno, passasse muito tempo sem a presença da Mãe.

Com desgosto para os seus pais e irmãos, o António passou a aplicar as economias do seu trabalho de emigrante na região onde tinha a casa de habitação. As deslocações a Malpartida foram mesmo rareando, uma vez que preferia passar as férias entre Torres Vedras e as praias mais próximas – Praia de Santa Cruz, Ericeira, Magoito, Azenhas do Mar, Praia das Maçãs, Praia Grande, Adraga ...Para a família do António, a culpada era só uma – a estranha que lhes roubara o António, que se recusava a acompanhar o marido, como lhe cumpria - sabia Deus por que razão ...- e que o afastava daqueles junto de quem nascera.

A carta anónima

Perto do fim do mês de Novembro de 1969, o António recebeu uma carta anónima, remetida de Leiria, que o preocupou muito. Nela se dizia que a Sílvia lhe era infiel e era aconselhado a vir a Portugal com urgência. Para “defesa da sua honra”, concluía-se. Não estava previsto que, nesse ano, viesse passar o Natal junto dos seus. Todavia, a carta fê-lo mudar de ideias. De qualquer modo, era uma forma de poder estar alguns dias com o filho. Decidiu nada dizer e, obtida a anuência dos patrões, partiu de automóvel para Portugal logo nos primeiros dias de Dezembro.

Entrou por Vilar Formoso e dirigiu-se logo a Malpartida, distante não mais de 20 quilómetros da fronteira. Ali passou, com os Pais, Irmãos e Sobrinhos, cerca de uma semana: pôs a conversa em dia, visitou amigos e conhecidos, deu notícias acerca da sua recente promoção, falou dos projectos de reforma e passeou pelos campos da sua infância.

Surpreendentemente, antes de partir, “fechou” o negócio de compra de uma garagem em Almeida, com papel escrito e assinado, servindo como contrato promessa. De acordo com uma das cláusulas, e como contrapartida do sinal por si deixado, o filho da sua Irmã mais velha, que enviuvara recentemente, passava a trabalhar na garagem como mecânico aprendiz. Prometeu que, no regresso, voltaria a passar pela sua terra e reforçaria então o sinal da garagem. Até talvez comprasse uma vinha na Vermiosa, freguesia a meia dúzia de quilómetros de Malpartida, com terras barrentas e xistosas, boas para a cultura do vinho. Partiu então para o Sul.

A sua chegada a casa constituiu motivo de forte surpresa. A mulher já estava intrigada, por não obter resposta telefónica. Censurou-o asperamente e ficou incomodada quando soube do desvio que fizera por aquelas terras “danadas” em que nascera, que ficam “lá por trás das pedras”, e “onde só se vai de propósito”. Aparentemente, o marido terá omitido a Sílvia o negócio da garagem.

Todavia, as surpresas não se ficavam por aqui ... Na verdade, para estupefacção geral, o António revelou a intenção de levar consigo para França, logo no fim das férias do Natal, a mulher e o filho. A oposição da Sílvia foi imediata e veemente, tendo-se seguido uma discussão muito viva, com ameaças de abandono do lar por parte da mulher. O António quis saber a razão daquela obstinação, que levava a Sílvia ao incumprimento de um dever fundamental por parte dos cônjuges. A resposta era sempre a mesma: ela não gostava da França, o Daniel era muito pequeno e os pais precisavam dela perto deles.

Perante aquela recusa, o António decidiu então que, com excepção da casa morada de família, iria vender todas as propriedades que adquirira na região, começando pelos prédios rústicos. O regime de bens do casal – separação absoluta de bens – permitia-lhe fazer isso, sem necessidade de consentimento da mulher, uma vez que os prédios eram exclusivamente seus. E, se bem o disse, melhor o fez. Deu publicidade à intenção de vender, identificou as propriedades e fixou o preço da respectiva venda. Preços genericamente tidos como muito acessíveis para quem estivesse interessado.

Alguns dias depois, ficou apalavrada a venda de dois prédios rústicos, que estavam de renda, sendo compradores os respectivos rendeiros. Estava-se perto do dia de Natal. O negócio ficou fechado por volta das quatro horas da tarde, à mesa de um restaurante, próximo de Torres Vedras, a cerca de três ou quatro quilómetros da casa do António.

Assassinado

Cerca de duas horas depois, o corpo do António era descoberto sem vida perto da berma de uma estrada de terra batida, crivado de facadas, com golpes visíveis nos braços, no tronco, abdómen e pescoço.
Não se descobriram no local as armas brancas utilizadas na prática do crime. Uma pedra ensanguentada e com cabelos colados estava caída perto do corpo. A bicicleta em que o emigrante se transportava também jazia, toda retorcida, por ali perto. O António não tinha dinheiro consigo. Por se tratar de homicídio praticado por desconhecido(s), a GNR de Torres Vedras pediu a intervenção da PJ, detentora da competência exclusiva para a investigação do caso. Distribuído o processo à minha Secção, partimos de imediato para o local do crime.

(continua)

sábado, julho 14, 2007






Acordo
ortográfico




Nelly Carvalho
A
cordo ou desacordo? Parece que ninguém se entende bem nesta questão de ortografia da língua portuguesa, sobretudo os maiores interessados que são os povos que a falam. Cada um acha que o outro foi o privilegiado na escolha da forma de escolhida para a grafia e todos temem se atrapalhar na hora da mudança.

O acordo ortográfico começou a tomar forma em 1986 e foi decidido por uma comissão formada de um brasileiro - Antônio Houaiss – e vários portugueses, além de observadores das repúblicas africanas de fala portuguesa. A pretensão inicial era apenas a louvável unificação das ortografias brasileira e portuguesa. Mas, desde o princípio foi olhado meio enviezado e com má vontade e chegou a ser chamado Acordo Mortográfico, porque achavam que não emplacaria. Agora, entretanto, parece que vai emplacar e entrar como norma.

Porém, o projeto inicial ampliou-se e foram incluídas a abolição do hífen, do trema e do H interior. Só faltaram incuir a abolição da escravatura... O Y,W,K voltarão triunfantes. A primeira vista parece simplificar a nossa vida, esta atualização do código escrito. Mas, na realidade, embutidas nestas regrinhas simples, estão as exceções que vão ser pedras no sapato do já mal alfabetizado povo brasileiro. Afinal, a palavra escrita é um retrato que temos na mente, e a ausência do hífen iria provocar grafias quilométricas que são avessas ao espírito da língua portuguesa, de certa forma, assemelhando-a ao alemão, esse sim, com uma longa tradição aglutinativa.

A primeira ortografia da língua portuguesa pertence a uma época remota quando o Brasil ainda não existia como nação. Foi a fase fonética e reinou durante este período a anarquia ortográfica. A seguir, por influencia dos escritores clássicos chegando aos românticos, tivemos um período do pseudo-etimológico, quando ressuscitaram letras mortas e sem valor fonético. Foi o tempo da “asthma” e da “phtysica”.

A partir de 1911, Gonçalves Viana, em Portugal, lançou bases da atual ortografia, adotada no Brasil com modificações, oficialmente em 1943. E é a que usamos hoje. Posteriormente, houve uma tentativa mal sucedida de reformulação e unificação em 1945, logo anulada. Chegou a ser ensinada nas escolas e adotada em livros didáticos. Mas foi revogada. A partir de então, a Língua Portuguesa ficou com as duas ortografias oficiais, o que se tornou um problema mais político que lingüístico, pois a língua portuguesa ficou regida por duas leis ortográficas, o que acontece com nenhuma outra língua.

Continuando as mudanças unilaterais, em 1971, foram suprimidos os acentos diferenciais – ainda hoje usados (sêca – seca/ côco -coco), inadvertidamente, por muitos que foram alfabetizados antes desta data.


O atual projeto de reforma que partiu de uma acertada decisão de unificar as “grafias” (porque nem a língua, nem os usos, nem as pronúncias jamais serão regidos por lei) ao ampliar-se, encontra ainda forte reação, sobretudo dos intelectuais portugueses.

O acordo/desacordo será uma adaptação, um ajuste, havendo inclusive, casos opcionais. É como funcionam as reformas ortográficas em espanhol, sabiamente conduzidas e autoritariamente impostas pela Real Academia Espanhola a todos os países "hispanohablantes”.

A reforma é apenas uma pequena tentativa de atualização de grafia, ajustando-a aos usos comuns dos povos lusófonos. Vamos chegar a um acordo sobre o que for resolvido sobre nossa ortografia?
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Abaixo as alíneas

Antunes Ferreira
A Professora universitária Nelly Carvalho já teve um texto de sua autoria publicado neste blogue, o que me deu muito prazer e, por certo, aos leitores que o visitam. É uma estrénua defensora da nossa língua. De resto, lecciona Português na Universidade Federal de Pernambuco.

O artigo, como habitualmente, foi publicado no PE360GRAUS da Globo, a quem endereço os meus parabéns e os meus agradecimentos. Outro tanto vai para o blogue da Embaixada de Portugal no Brasil que frequentemente dá a conhecer os trabalhos de Nelly Carvalho.

Reincido: Nelly Carvalho regressa ao Travessa do Ferreira. De novo respeito a grafia da professora, tanto mais que o título deste seu texto é sintomático – Acordo Ortográfico. Malaca Casteleiro, o ponta-de-lança da equipa portuguesa neste imenso e complicado assunto (para usar linguagem futebolística em que o desacordo é abissal…), ainda terá que esperar muito pelo fim deste ciclópico cometimento.

Entretanto, todos os contributos são bem vindos para se «ressuscitar» um acordo a que, como diz a professora Carvalho, muitos chamaram «Mortográfico». Estou certo de que todos os que falam a língua de Camões, Jorge Amado, Pepetela, Craveirinha, Corsino Fortes ou José Rangel, estão empenhados e terão de assim continuar num documento que seja actual, verdadeiro, coerente e actuante, sem se limitar a texto com parágrafos, números e alíneas.

Sejamos realista – que o mesmo é dizer práticos. Uma língua constrói-se, aprimora-se, desenvolve-se enquanto praticada por seres – vivos. De contrário, é uma língua morta.




sexta-feira, julho 13, 2007




À RODA DOS DIAS

Julho

Maria Lúcia Garcia Marques

Que supersticioso e mágico nos saiu este mês de Julho!

Uma 6ª feira 13 (dia de todos os perigos)
e, sobretudo, um 7 do 7 de 2007 que, em rima absoluta, inflama, nesta sua conjunção, os espíritos mais crédulos. E foi um corre-corre de casamentos e festas de aniversário – não contando os felizes acasos de alguns nascimentos – acontecimentos que, pela sua natureza própria, são altamente mobilizadores dos bons auspícios. É que sete invade a vida; vai da conta dos dias aos contos de fadas: sete são os dias da semana, as cores do arco-íris, as notas da gama diatónica ..., os anõezinhos da Branca de Neve, Polegarzinho e os seus irmãos ...

De facto e definitivamente o 7 é supersimbólico. A merecer uma consulta ao Dicionário dos Símbolos que nos lembra, a propósito: “Cada período lunar dura sete dias e os quatro períodos do ciclo lunar (7x4) fecham o ciclo. Por outro lado, a soma dos sete primeiros números (1+2+3+4+5+6+7) chega ao mesmo total: 28. Sete indica, por isso, o sentido de uma mudança depois de um ciclo concluído e de uma renovação positiva”.

Visto de outra perspectiva temos que “tendo criado o Mundo em seis dias, Deus descansou no sétimo e fez dele um dia santo: o sabbat – que não é verdadeiramente um descanso desligado da Criação mas o seu coroamento, a sua conclusão na perfeição. Este sétimo dia em que Deus descansou significa como que a restauração das forças divinas na contemplação da obra concluída, e marca um pacto entre Deus e o Homem”, entre o Criador e a sua Criatura. O sete simboliza assim a conclusão do Mundo e a plenitude dos tempos. São também sete as virtudes: as três teologais – Fé, Esperança, Caridade – e as quatro cardeais – Prudência, Temperança, Justiça e Força.

E acrescentam as minhas leituras: “No Islão, o sete é igualmente um número auspicioso, símbolo de perfeição: sete céus, sete terras, sete mares, sete divisões do Inferno, sete portas. Os sete versículos da Fatiha (surata que abre o Corão), as sete letras não utilizadas do alfabeto árabe que “caíram debaixo da mesa”, as sete palavras que compõem a profissão de fé muçulmana, a Shahada, etc. Durante a peregrinação a Meca deve-se dar sete voltas à Caaba
e fazer sete vezes o percurso entre os montes Cafa e Marnia”.

Também em África, o sete é o símbolo da unidade e da perfeição; “soma o “4”, símbolo da feminilidade e o “3”, símbolo da masculinidade, pelo que representa a perfeição humana – é o sinal do homem completo (com os seus dois princípios espirituais de sexo diferente), do mundo completo, da criação terminada, do crescimento da natureza. É, ainda, a expressão da Palavra Perfeita e, por isso, da unidade original”.

Se acreditarmos no Talmude, os hebreus viam também no número sete o símbolo da totalidade humana, masculino e feminino ao mesmo tempo; e isso pela soma de “4” e “3”: com efeito, Adão, nas horas do seu primeiro dia, recebe a alma que lhe dá existência completa na hora quarta e é na hora sétima que ele recebe a sua companheira, isto é, que ele se desdobra em Adão e Eva. Aliás, toda a Bíblia está repleta da simbologia do “sete” que a tradição judaica ainda preserva. Lembremos como exemplo o candelabro dos sete braços ...

E creio que tem também a ver com esta tradição um facto curioso acontecido comigo. Foi assim: herdeira de uma velha casa na aldeia de meus sogros e pai, na Beira Alta, decidi recuperá-la, conservando-lhe as características e restituindo-lhe a visibilidade dos materiais típicos da zona. Nessa intenção, mandei retirar o reboco caiado, tratar adequadamente a pedra agora posta a descoberto e picar o granito dos cunhais e molduras de portas e janelas “criminosamente” pintadas de cinzento.

A casa é tipicamente beirã: lojas em baixo com duas grandes portas térreas, habitação no andar superior a que se acede por uma porta ao nível das lojas, ladeada à esquerda por um pequeno óculo. Construção modesta, possui, no entanto, numa janela do 1º andar e numa das portas das lojas, um trabalho de cantaria na moldura superior: arco de quilha quebrada na janela, ornamento gótico do meias bolas na porta da loja. Ao observar este último, alguém comentou: “É engraçado, só tem cinco meias bolas ...! Se fosse casa de judeu teria sete”. Fiquei alerta.

Estávamos numa aldeia em pleno perímetro dos judeus fugidos à perseguição dos tempos de D. Manuel I (entre Belmonte e Escalhão) e, olhando bem, além das características gerais da casa – as lojas e o janelo junto à porta, que permitia ver quem batia antes de se lhe franquear a entrada – que indiciavam ter ela pertencido a um comerciante (e os judeus eram-no preferencialmente), divisava-se um remate assimétrico nas ombreiras da porta ornada com as referidas meias bolas. Do lado direito o sulco do remate inferior do friso formava um ângulo recto perfeitamente visível, enquanto que do lado esquerdo desaparecia subitamente sob uma espessa camada de argamassa pintada de cinzento.

Recomendei então ao artista que iria picar o granito das ombreiras que o fizesse com o máximo cuidado pois o friso poderia não acabar ali. E, de facto, três dias depois, estavam a descoberto mais duas meias bolas, o remate adequado do friso com o sulco em ângulo recto descendente e uma falsa segunda ombreira colocada ao lado da primitiva estreitando a porta e rebocada de forma a apagar os relevos denunciadores. Eram sete as meias bolas e estávamos de facto perante uma casa de antigos judeus.

Lançada, porém, no afã de lhe desvendar mais história, esquadrinhei cantos e recantos, lajes e cantarias e acabei por descobrir, meio apagada e toscamente gravada no granito da ombreira esquerda da porta de entrada, à altura média dos olhos de qualquer visitante, uma cruz – envergonhada, reticente ou arrependida, quem sabe? – ténue e sofrida protecção de quem morava lá dentro e a custo sobrevivia a zelos fundamentalistas. Mandei também avivá-la na pedra, feliz por, na minha casa e na minha terra, hoje um símbolo de fé já não excluir o outro.

terça-feira, julho 03, 2007




Clima económico em Portugal
atinge máximo de cinco anos

em Junho


Maria João Soares
mjsoares@mediafin.pt
O
indicador de clima económico em Portugal apresentou em Junho a quinta melhoria consecutiva, prolongando a tendência ascendente iniciada em Outubro de 2005 e atingindo o máximo desde Junho de 2002, divulgou o Instituto Nacional de Estatística (INE).
O indicador de clima económico subiu para 1,4 pontos em Junho, contra 1,2 em Maio, apresentando o quinto aumento consecutivo.

O indicador de confiança dos Consumidores melhorou ligeiramente em Junho, tal como já acontecera no mês anterior, evolução que interrompera a tendência descendente iniciada em Novembro.

"As perspectivas sobre a situação económica do país foram a componente do indicador que apresentou a maior recuperação, à semelhança do sucedido nos dois meses anteriores", revela o INE.

A confiança das empresas melhorou no sector da Construção, estabilizou na indústria transformadora e deteriorou-se ligeiramente nos serviços e no comércio.


NETranscrevo, muito simplesmente, o texto da jornalista Maria João Soares, do Jornal de Negócios. Não são precisos quaisquer considerandos, muito menos adjectivos qualificativos (se calhar já não é assim que se diz…, mas foi assim que aprendi com a Dona Clélia Marques, minha Professora da Instrução Primária… que também já não se diz). Agradecendo à jornalista, ao DE e, uma vez mais, ao seu Director e bom Amigo, Pedro S. Guerreiro, aqui fica o artigo. A.F.

domingo, julho 01, 2007



Joaquim Barradas de Carvalho

Um lutador pela Liberdade

«Meu caro Antunes Ferreira,

Por mero acaso, encontrei no teu blogue (que não conhecia) uma referência à minha pessoa. Agradeço a referência, mas sou obrigado a fazer uma correcção: o meu pai foi o Joaquim Barradas de Carvalho, historiador, exilado político em Paris e em São Paulo, e não o Rómulo de Carvalho.
E como andas?
Um grande abraço
Alberto Arons de Carvalho»


Engano lamentável
Hoje mesmo, acabo de receber uma mensagem do meu bom Amigo e camarada (creio que ainda se pode dizer assim… Eu, pelo menos, digo. E tenho a certeza que ele também) Alberto Arons de Carvalho*. Publico-a acima, pois o erro que cometi é lamentável e o esclarecimento do Alberto é mais do que justificado. Como quase sempre, ele tem razão. Não posso, entretanto, deixar de lhe pedir aqui as minhas desculpas por esta falta imperdoável. Não podia confundir as duas pessoas – mas fi-lo. A César o que é de César.

Permito-me fazer notar a forma directa, mas educada e sincera como o Arons se me dirige. Ele não é – como nunca foi nem será – de farroncas ou de arrogâncias. Muito pelo contrário. Podia censurar-me (e com toda a razão, porque não se deve esperar uma falha destas de um amigo de muitos anos) mas, não o fez. Limita-se, apenas, a corrigir o erro. Simplesmente, com objectividade.

Tenho a maior honra e satisfação de aqui exarar que conheci o Alberto Arons de Carvalho nas fileiras do PS, logo a seguir ao 25 de Abril libertador. Ele era, nessa altura, um jovem porreiríssimo e empenhadíssimo, secretário-geral da Juventude Socialista, a JS. Não haja dúvidas: um digno herdeiro de seu Pai, o Professor Joaquim Barradas de Carvalho, um lutador pela Liberdade e pela Democracia. À sua maneira, à maneira do comunista que era, mas de mentalidade aberta e, portanto, vistas largas. E que por isso sofreu nos tempos da ditadura personificada na salazarenta personagem.

Confundi-lo com Rómulo de Carvalho/António Gedeão não lembra ao diabo – mas lembrou-me; a mim!!! Até porque tive o privilégio de ter conhecido o historiador Barradas de Carvalho pessoalmente. Que tendência para a asneira, confesso. Daí esta correcção, este repor da verdade que atropelei incompreensivelmente. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. E dispenso-me de acentuar que bato no peito, mas devagarinho, porque posso fazer-me doer as duas costelas que in illo tempore a PIDE me partiu.

Um apelo final. Meu caro Alberto: já que descobriste (ainda que por mero acaso) este blogue – não quererás, de quando em vez, colaborar nele? Ficaria eu e ficariam os já bastantes leitores que ele tem, muito satisfeitos. Vá lá, camarada: um pequeno esforço e responderás antecipadamente, tu próprio, à pergunta que me fazes com a Amizade de sempre. Ando bem, ando reformado, escrevo como sempre fiz e tudo isso se sublimará com a tua colaboração. Se te for possível e se o quiseres.

Um abração do

Henrique Antunes Ferreira



* O Alberto Arons de Carvalho é um Homem multifacetado. Licenciado em Direito, já foi Jornalista e membro do Conselho de Imprensa, secretário de Estado para a Comunicação Social e muitas outras ocupações. Autor de várias obras sobre a Comunicação Social, o que já fazia nos tempos da Outra Senhora. Entre os seus diversos livros, tenho uma especial predilecção pelo 2Direito da Comunicação Social", para mim uma referência incontornável. Hoje é deputado por Setúbal à Assembleia da República e professor da Universidade Nova.


HISTÓRIAS DA PJ


A morte do cauteleiro

José Augusto Garcia Marques
Eram aproximadamente duas da manhã de uma noite abafada do mês de Junho de 1969 quando fui acordado pelo chefe de piquete da PJ. Tinha sido encontrado um corpo sem vida, num descampado para os lados do Lumiar. Combinámos que uma viatura com dois agentes das secções de homicídios e um técnico do laboratório viria buscar-me a casa. Chegados ao local – ermo e sem iluminação -, dirigimo-nos a dois guardas da PSP que, munidos de uma lanterna, estavam postados junto de uma pequena elevação do terreno.

Perto deles encontrava-se o corpo de um homem magro, de cinquenta e tal anos, deitado de barriga para baixo, tendo ao lado uma tesoura comprida e pontiaguda, manchada de sangue. Tinha uma ferida profunda no pescoço e uma poça de sangue ao lado da cabeça, que se misturava com vomitado com forte cheiro a vinho. O corpo encontrava-se estendido numa rampa de terra batida, havendo, porém, no terreno seco e duro, sinais de calçado de diversas origens, rastos com diferente definição, mais claros uns, outros mais indefinidos e alongados.

Nos bolsos das calças do morto havia algumas notas de 20, 50 e 100 escudos, além de um porta-moedas com algum recheio. Por sua vez, no bolso da camisa, algumas “cautelas da Santa Casa” denunciavam a actividade da vítima: tratava-se de um vendedor de lotaria. Além destas peças de roupa, o homem vestia ainda, apesar do tempo quente, um casaco leve e muito gasto. Não trazia qualquer documento. Feitas as recolhas de vestígios e as fotografias da praxe, o corpo foi removido para o Instituto de Medicina Legal.

Um dos agentes da PSP, melhor conhecedor do local, deu-nos conta da existência de uma taberna nas imediações. Apesar da hora tardia - ou matutina, dependendo dos pontos de vista -, fomos ainda bater à porta, tendo sido atendidos pelo patrão que vivia ao lado do estabelecimento e que, mal encarado, tinha vindo informar-se do que se passava.

Cheirar o ambiente

Perguntámos-lhe a que horas tinha fechado na noite anterior e se lá tinha estado um cliente, vendedor de lotaria, com sinalética correspondente à da vítima. Foi altura de o homem perguntar: “Quem? O Ti Jerónimo?” E logo informou: “Chegou tarde, comeu pouco mas bebeu mais do que de costume. Tive que o pôr na rua, porque estava implicativo por causa dos copos e eu queria fechar”.

Recolhemos a identificação do nosso interlocutor – Raul (nome fictício) - e, depois de explicarmos o que nos levava ali, informámo-lo de que voltaríamos no dia seguinte à hora de almoço, a de maior movimento do estabelecimento. Ainda protestou, alegando que era a pior altura para nos prestar atenção. Interessava-nos, porém, respirar a atmosfera, cheirar o ambiente e conhecer alguma da clientela habitual.

No dia seguinte, de manhã, com mais tempo, voltámos ao local. O terreno foi minuciosamente analisado, recolhendo-se indícios que depois seriam cotejados com os resultados médico-forenses e de polícia científica. Na taberna, à hora do almoço, encontrámos o Raul, acompanhado pela mulher e mais meia dúzia de fregueses. O assunto da conversa era, como não podia deixar de ser, a morte do “tio Jerónimo”. Dos elementos recolhidos pudemos traçar-lhe o retrato. Era um homem solitário e estimado, não lhe sendo conhecidos inimigos. Vivia numa barraca próxima, para onde se devia dirigir quando a morte o ceifou.

Procurámos saber se, na noite da véspera, o “tio Jerónimo” tinha tido alguma discussão com alguém. Reparámos com estranheza que a mulher olhou para o marido, ao mesmo tempo que um e outro baixavam o tom da voz, evitando responder directamente à pergunta. Limitaram-se a dizer que o Jerónimo estava quezilento e mais nervoso do que era costume.

Insistimos. Pedimos à patroa que nos levasse à cozinha e aí, fora do olhar dos fregueses, confirmou-nos que o Jerónimo tinha discutido longamente com um vendedor ambulante que, de longe em longe, parava por aqueles sítios. Gaspar de seu nome. A desavença incidira em redor de uma tesoura para cortar a lotaria, que o outro lhe tinha vendido tempos atrás. Queixava-se de que tinha sido enganado e que a tesoura se tinha estragado ao fim de pouco tempo. A desavença subiu de tom, tendo levado o patrão a zangar-se com os dois. Todavia, como tudo continuasse na mesma, resolveu pô-los na rua, tendo fechado a porta da taberna pouco antes da meia-noite. Mais nos disse que tinham sido os últimos clientes a abandonar o estabelecimento, tendo saído juntos e prosseguido a discussão no exterior até que deixou de lhes ouvir as vozes.

O “Paga-Pouco”

Perguntámos à nossa interlocutora como era a tesoura do “tio Jerónimo”, tendo-nos dito que era relativamente curta e romba na extremidade, ou seja, um objecto muito diferente do que encontrámos junto ao corpo – uma tesoura comprida e com as lâminas afiadas. Confirmámos esta informação junto de alguns clientes, que identificámos. As coisas pareciam, assim, apontar para um suspeito: o referido vendedor ambulante, mais conhecido como o “Paga-Pouco”. O mistério foi esclarecido no dia seguinte.

Localizado o Gaspar, confirmou-nos a discussão com o Jerónimo, que se queixara asperamente de uma deficiência no parafuso que devia permitir a junção das lâminas da tesoura que lhe tinha vendido em tempos. Para não o ouvir mais, propôs-se o “Paga-Pouco” emprestar-lhe uma tesoura nova – longa e muito afiada -, que o Jerónimo utilizaria, enquanto ele, antigo amolador de tesouras, procedia ao arranjo da velha. E assim foi. Deslocou-se, com o vendedor de lotaria, à sua “carripana” onde escolheram a tesoura nova que o Jerónimo guardou. Segundo disse na PJ, o Gaspar ainda teria prevenido o Jerónimo, dado o estado em que o viu, quanto aos cuidados a ter com um objecto perigoso a que não estava habituado. Ter-se-iam despedido cordialmente. Pedimos ao vendedor ambulante que nos exibisse a tesoura romba do falecido, o que ele fez sem demora, tendo o objecto ficado apreendido junto aos autos.


A importante Medicina Legal

O depoimento do “Paga-Pouco” pareceu convincente, tendo sido confirmado por uma testemunha merecedora de crédito. O mistério continuava por resolver. Foi aí que entrou a sempre competente intervenção do Mestre da Medicina Legal de Lisboa, o Professor Arsénio Nunes, amigo e precioso auxiliar dos investigadores da PJ: estava-se claramente na presença de um acidente e não de um homicídio. O falecido, talvez em consequência dos “copos” escorregara ao subir a rampa de terra dura e batida, tendo feito um movimento amplo com os braços em rotação para trás, para tentar manter-se em pé. Trazia a tesoura, que o “Paga-Pouco” lhe emprestara, no bolso de cima do casaco, do lado esquerdo. Ao fazer o referido movimento, empurrara a tesoura, comprida e pontiaguda, há minutos na sua posse, que fora espetar-se-lhe no pescoço perfurando a carótida, tendo provocado a hemorragia que lhe causou a morte.

O Professor Arsénio Nunes deu-se ao trabalho de fazer uma simulação com um manequim, tendo exemplificado o movimento que esteve na origem da morte do infeliz. Se conto este episódio, isso deve-se à circunstância de pretender prestar uma sincera homenagem a esta especialidade da Medicina – a Medicina Legal -, que é, por definição, área privilegiada de confluência da Medicina e do Direito. Por ela passam e nela se debatem temas e questões da mais transcendente importância para o homem, não só enquanto vítima ou autor de factos criminosos, mas também enquanto profissional daquelas ciências. No dia a dia das respectivas existências, Medicina e Direito cruzam-se e amparam-se nas suas respectivas competências, para melhor conhecer, defender e fazer respeitar o Homem integral, na intangibilidade dos seus direitos e na integridade da sua pessoa física e moral.

A Polícia Judiciária e a Medicina Legal devem caminhar, assim, irmanadas e sem desfalecimento na senda que possa conduzir à descoberta da Verdade e à realização da Justiça.

terça-feira, junho 12, 2007







Afinal havia outra


Pedro S. Guerreiro*
O
dogma da Ota caiu. O país saúda, porque sente que a escolha será mais acertada e porque se desvanece a imagem de teimosia do primeiro-ministro. Mas não é certo que Portugal tenha ficado a ganhar. Sobretudo se, como parece possível, é preciso que tudo mude para que tudo possa ficar na mesma.

A Ota tornou-se o tema forte da Oposição, uma repetitiva aliteração no seu discurso: a bota não bate com a perdigota; a anedota do deserto deu risota e foi a gota que faltava; até a Jota que ainda não vota pôs um camelo e uma gaivota a fazer chacota. E um estudo que se desencaixota o ministro boicota, o plano sabota e esgota uma rota em troca de uma derrota. Em vez de Ota! Ota! Ota!, agora é Alcochete que brota.

Pois é. Só que o assunto é mais sério do que todos os trocadilhos e do que a utilização política com que a Oposição reclama vitória. O Governo recuou. Mas recuou para quê? Para admitir mudar de opinião ou para saber desde o início que vai mantê-la livrando-se da pressão e da acusação de autismo?

O que mudou para que de uma semana para a outra o ministro que dissera que "a Ota é irreversível" reabra o processo? Que quem disse que a sul do Tejo "jamais" agora mande estudar Alcochete (que até está habituada a grandes especulações imobiliárias)?

Que quem tenha dito que ninguém consulta um engenheiro para saber onde se localiza um aeroporto agora entregue o dossier aos técnicos do LNEC? Que o Governo cujo primeiro-ministro dissera que parar para estudar seria um erro o faça agora? Que se adie a privatização da Ana? A Naer ainda pensa que estudar outras paragens "é um erro brutal"?

E os fundos comunitários, sempre ficam comprometidos, como se argumentava? E o que mudou para que as questões ambientais (aves que chocam com aviões, sobreiros a arrancar, aquífero a preservar) que eliminavam as hipóteses a Sul do Tejo percam a sua "condição mortal"? Mudou a pressão do Presidente da República. Foi Cavaco Silva quem viabilizou o fim do dogma. É ele quem gere sabiamente a relação com o Governo mas não se resigna e faz um discurso no 10 de Junho que de inócuo e irrelevante tem pouco.

Mas é inútil arremeter para o rol de derrotados José Sócrates e Mário Lino, colocando no pódio do dia Cavaco Silva, Marques Mendes, o bastonário Fernando Santo ou Francisco van Zeller, um evidente "cavaleiro branco" de lóbis que prefere não identificar (mas que a CIP não subscreve nem paga) porque, diz, assumiu esse compromisso com o primeiro-ministro.

O que interessa é se isto é ou não melhor para o País. Ninguém duvida que estudos nunca são demais. Nem que a ilusão dos consensos eterniza as não-decisões. E o pior de todos os cenários é o da não construção do novo aeroporto. Os estudos do aeroporto são uma boa notícia para o País. Mas podem ser uma vitória de Pirro. Porque ou tudo o que se disse nos últimos meses era mentira, ou este adiamento só serve para esvaziar um balão político que se encheu. Em qualquer dos casos, não é apenas um ministro que fica mal na fotografia.

(*Director do Jornal de Negócios)

NE - Cá temos o Pedro S. Guerreiro, de novo. O Editorial é de hoje, 12 de Junho. Creio que basta para que os leitores deste blogue vejam o que é escrever a sério sobre um tema tão quente como é o novo aeroporto de que Lisboa precisa como de pão para a boca. O texto assinado pelo Director do Jornal Económico diz quase tudo. Claro que muita água passará ainda sob as pontes. Mas, o enunciado é estupendo.

Amigos e Leitores: Para alem dos comentários que aqui queiram deixar, poderão escrever directamente para o Pedro Guerreiro, cujo endereço é psg@mediafin.pt, que, de resto, vem no quotidiano. Comentários são bem vindos, como sempre. Mas creio que o jornalista gostará de ter a vossa opinião. E, entretanto, leiam o Jornal de Negócios on line. A.F.

domingo, junho 10, 2007



Uma forma de comemorar o 10 de Junho
Ruy Barbosa e a nossa língua

D
iz a lenda que Ruy Barbosa, ao chegar em casa um certo dia, ouviu um
barulho estranho vindo do seu quintal.

Chegando lá, constatou um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:

"Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes
palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da
minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes
isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada
prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala
fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te
reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada."

E o ladrão, confuso, diz:

"Dotô, eu levo ou deixo os pato?"

NE - Ruy Barbosa de Oliveira (1849-1923) é, por muitos, considerado o Pai da República no Brasil. Natural de São Salvador, logo baiano dos sete costados, ele foi jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor, orador e jornalista. Por duas vezes foi candidato à Presidência do seu País. Foi, ainda, Presidente da Academia Brasileira de Letras. A forma como tratava a língua portuguesa dez dele um dos mais importantes filólogos.

Foi, sem dúvida, um dos mais importantes personagens da História do Brasil; era dotado não apenas de inteligência privilegiada, mas também de grande capacidade de trabalho. Essas duas características permi¬tiram-lhe deixar marcas profundas em várias áreas de actividade profissional. Participou em todas as grandes questões de sua época, entre as quais a Campanha Abolicionista, a defesa da Federação, a fundação da República e a Campanha Civilista.

Já em 1891 fora nomeado Primeiro Vice-Chefe do Governo Provisório. Em 1892 abandona a bancada do Senado, depois de o ter justificado num discurso. Ainda nesse ano lança um manifesto à Nação no qual diz a famosa frase: "Com a lei, pela lei e dentro da lei; porque fora da lei não há salvação. Eu ouso dizer que este é o programa da República". A sua independência, a sua verticalidade, a sua competência motivam invejas, conluios, campanhas contra ele. Por isso se exilou dois anos depois.

Sempre considerou e afirmou-o repetidamente, que o Jornalismo era a sua grande paixão. Aquando do seu exílio, viaja para Londres, de onde envia as "Cartas da Inglaterra" para o Jornal do Commercio a partir de 7 de Janeiro de 1895. Escreve então na imprensa:
"E jornalista é que nasci, jornalista é que eu sou, de jornalista não me hão de demitir enquanto houver imprensa, a imprensa for livre (...)"

Dele se contaram e contam e julgo que contarão muitas estórias, qual delas mais interessante do que as restantes. O domínio da nossa língua, a utilização que fazia esmeradamente dos vocábulos mais requintados e inusuais está na base de muitas delas. Que já passaram mesmo à lenda.

Num dia tão importante como é hoje, o dez de Junho, a língua que é a nossa Pátria, como disse Pessoa, fica bem aqui registada, penso, através de um desses contos inventados pelo Povo Brasileiro. Por isso e uma outra vez respeito a grafia usada do lado de lá do Atlântico. Assim, o que aqui publico foi-me enviado pelo compincha que é o
António Gravelho, também ele jurista. Para mim, tem carradas de piada. Donde, só me resta o agradecimento devido ao remetente que, assim, também assenta arraiais no Travessa. A.F.

quinta-feira, junho 07, 2007




À RODA DOS DIAS

Junho

Maria Lúcia Garcia Marques
A meio do ano, Junho parece nascer da paixão violácea dos jacarandás em flor. Incendeiam as ruas da cidade, juncam o chão num tapete festivo. Talvez por isso, este seja um mês em festa. Ele é o Dia de Portugal … Ele são os Santos populares … Ele é Portugal a cantar!



O Hino, à sombra da Bandeira, as mais das vezes desentoado e desencontrado, por estádios de futebol, em jornadas de Taça – agora que já o não ouvimos a despedir os nossos soldados, num cais de angústia para uma guerra escusada, mas a encher-nos o peito de lusitana alegria, tal como e quando nos vemos figurados nos nossos Carlos Lopes, Rosas Motas, Vanessas Fernandes e outros, que galhardamente nos têm levado aos pódios do mundo.

Hino que aprendíamos na escola primária e que, no meu tempo de liceu, servia para escolher quem entrava ou não para o orfeão e para que naipe de voz. Era, à sua escala, um momento emocionante: cantar sem acompanhamento e a solo, para um professor bisonho, à frente da “malta” da turma, sem falhar a letra, na voz traiçoeira da “idade ingrata”, era, de facto, uma “operação de risco”. Por isso ficou para o anedotário familiar a história do desempenho, na circunstância, de um primito meu. Filho e neto de gente da música, ele sabia que não era nenhum Pavaroti. Mas vendo-se sem escapatória, puxou dos seus brios e decidiu esmerar-se.

Postou-se firme em frente do Mestre, tossicou para aclarar a voz, abriu a goela e vá de cantar. Cantou os “heróis do mar”, levantou como pôde o “esplendor de Portugal” e, da sua ainda pouco “brumosa” memória (caramba, tinha só dez anos …) tentou chamar a si a voz dos avós – que ele não percebia de todo por que lhes chamavam “egrégios” – para “levar á vitória” aquela Pátria que ele invocou com uma espécie de berro, “marchando” sonoramente “contra os canhões”!

Acabou exausto, mas convencido de que cumprira a contento. Convicção, porém, não partilhada pelo Mestre que lhe perguntou, sarcástico: “O menino tem a certeza de que isso é mesmo o Hino Nacional?” E logo ali o dispensou de quaisquer outras futuras prestações vocais.

Desventuras numa Pátria que canta com unção um “fatum” triste, mas que não deixa de ser um País com-vivente em que os dias de trabalho são “feiras” e os dois que restam são “feriados”: Sábado para repousar, segundo os judeus, Domingo para louvar, segundo os cristãos, em doses iguais, para não estragar a festa …

Porque ela está aí, a Festa, para celebrar os feitos dos homens como os santos do céu.
E então é ver o povo-povo, de alegria na lapela, riso no olho e boca gulosa de caseiros acepipes, regados com o generoso sangue da terra que ainda lhes faz bater o coração. E nesta celebração devotada dos seus santos (por tal chamados “populares”) se conforma o retrato médio do português, médio e nédio, que festeja com o corpo todo, na libação e na libertação (do cansaço e das mazelas com que o trabalho o marcou) em discurso directo com a cidade, alguns dias – ou noites – de alegre comunhão.

Foi um “à la minuta”, desse “português à solta” que Carlos Paião, cantor e poeta popular, nos deixou, solfejado e sofrido, na sua “Marcha do Pião-das-Nicas”. Aqui ficam, por prova, alguns desses versos que, na gíria e no gesto castiço, sem corantes nem conservantes, no lo dão ao natural:

Anda p´la vida à futrica
O estica-larica
O “Mangas Portuga”
Fecha-se em copos e copas,
Cafés e cachopas,
Trabuca e manduca.

Galfarro afiambrado
Pachola, arremelgado,
De grimpa levantada e garrafal.
Amigo do amigo
Farelo e muito umbigo.
Vestiu-se e veio a pé pró arraial.

És tu “pião-das-nicas”
Das bocas e das dicas
Que pegas nos calcantes e te vais
Adeus, leão dos trouxas,
Chupado das carochas,
Que foste no embrulho uma vez mais!

REFRÃO: Viva o Santo António,
Viva o São João,
Viva o 10 de Junho e a Restauração,
Viva até São Bento
Se nos arranjar
Muitos feriados para festejar!

Junho desta “ditosa Pátria minha amada”. Pátria/mátria – aquela parte de nós, indizível e sem data, aquele fio de sangue que vem não importa donde, que nos sustenta e nos sustém. Aquele orgulho inexplicado e íntimo que é nossa amarra e nosso lastro.

quarta-feira, junho 06, 2007




Miséria e riqueza em Lisboa



Pedro S. Guerreiro
Director do Jornal de Negócios
O
caos financeiro da Câmara de Lisboa está finalmente no centro de um debate eleitoral. Não porque os candidatos se tenham tornado subitamente mais responsáveis. Mas porque Lisboa chegou ao grau zero da indigência contabilística. Porque hoje existe uma lei das finanças locais. E porque o líder nas sondagens foi o autor dessa lei.

Sem o problema das finanças autárquicas resolvido, Lisboa não tem qualquer futuro. Só passado. E o passado é tenebroso. Nem é preciso explicar porquê. O país inteiro aprendeu já, à custa de impostos e de desemprego, que sem finanças públicas saudáveis não se faz nada. Em Lisboa não é diferente. Só que pôde ser adiado. E adiar soluções significa piorar o problema.

O passivo duplicou em cinco anos: 2.382 euros por munícipe. Juros: 30 mil euros por dia. O problema está não tanto no que se deve à banca mas aos fornecedores. A tesouraria está vazia. Os investimentos têm receitas abaixo do previsto. Os planos de desinvestimentos (no imobiliário) não são cumpridos. As suspeitas de corrupção estão no Ministério Público.

Quando Manuela Ferreira Leite limitou o endividamento autárquico, referia-se a todo o passivo. O seu primeiro-ministro Durão Barroso desautorizou-a e decidiu que o garrote se aplicava apenas à dívida bancária. O desvario transferiu-se para os "leasings", "factorings", fornecedores, parcerias público-privadas. Ferreira Leite quis que o limite ao endividamento funcionasse para as câmaras como o tecto do défice de 3% funcionou para o País. Mas como não houve Comissão Europeia para as câmaras, muitas delas precisam agora de um FMI. De alguém que entre por ali adentro, viabilize empréstimos e controle a sua aplicação.

O FMI é, neste caso, o Ministério das Finanças. António Costa já disse que, se ganhar, vai requerer ao Governo um "contrato de saneamento": Lisboa precisa de um contrato de reequilíbrio financeiro. O Governo descongela o endividamento bancário da Câmara, que começa a pagar dívidas aos fornecedores; em troca, a Câmara fica sob forte vigilância do Governo, terá de prestar contas, aumentar taxas, tarifas e derramas, não poderá aumentar despesas com pessoal nem despesas correntes. Foi assim com Setúbal (que já incumpriu, sem punição, o acordo) e com o Marco de Canaveses (que renegociou). Também Ourique, Gouveia e Guarda estão perto de pedir socorro.

E Lisboa. Se ganhar, Costa negociará com o seu antigo colega de Governo uma viabilização financeira. Aplicará a lei de finanças locais que desenhou. E terá de aceitar a redução de freguesias, que defendeu enquanto ministro. Nada disto é por voluntarismo, é por necessidade. Cheira a dinheiro em Lisboa. Não é à toa que o candidato do PS reúne tantos apoios. Não é apenas Júdice que vira o volante. Há na comissão de honra de Costa empresários, gestores e banqueiros que nunca devem ter votado à esquerda na vida.
Editorial de 2007/06/05



NE – Já disse ao Pedro Guerreiro quanto o admiro e com que prazer o leio. Trata-se de um grande Jornalista, com caixa alta e tudo. Ele autorizou-me a publicar o seu editorial aqui no Travessa. Fiquei e fico muito satisfeito com isso. Tanto que reincidirei sempre que ache bem fazê-lo... A Travessa tem a grata oportunidade de o concretizar. E eu, a felicidade de o poder anunciar e abraçar o Pedro pelo que de bom nos proporciona.

terça-feira, junho 05, 2007




Boca calada

Antunes Ferreira
Tentou levantar-se, mas caiu para o lado, como um saco de café desamparado. Fechou, de novo, os olhos castigados e passou a língua pelos lábios inchados, gretados e secos. O sabor adocicado do sangue não lhe tirava a sede. Estava acampado por todo o seu miserável corpo em crostas escuras que sobressaíam da cor da pele. Levara muita porrada, aiué.

No entanto, o filho da puta do inspector e os três flechas que o tinham massacrado não haviam tido o prazer de ouvi-lo cantar alguma coisa. Gritara, isso sim, um homem não é de pau. Mas conseguira calar-se, emudecer quanto às perguntas, acompanhadas de murros, pontapés, pauladas. Até lhe tinham ligado o coiso a uma ficha eléctrica, com um fio.

Aka, isso doeu mesmo. Foi um raio que ziguezagueou até ao esqueleto. A corrente eléctrica era danada. E ele sabia-o perfeitamente. Era mulato, mas também enfermeiro. Aliás, estudara em Lisboa, para onde viera com os pais, catraio vindo de Angola, trabalhara no Hospital de Santa Marta, o doutor Figueiredo até lhe dissera um dia – Malaquias, tens de ir para a Faculdade. Com o que já sabes e com o que lá aprenderes, vais sair um bom médico.

Não fora. O pai, viúvo da mãe Zeferina, também insistira com ele. Vai, Jorge, vai. Deixa-te dessas trampas da Casa dos Estudantes do Império e ganha o teu futuro. Sei que és homem para isso. Era. Mas, não ia. Podia aprender mais umas coisas no hospital, mas muitas mais na Casa. Com toda a malta porreira que o introduzia no Marx, no Lenine no Mao, que discutia dialéctica, que coleccionava cartazes do Che e do Comandante Fidel, colados pelas paredes.

Um dia veio a PIDE e fechou as instalações por ser um cóio de subversivos. Portugal que era uno e indivisível, do Minho a Timor, não podia permitir que um grupo de garotelhos conspirasse nas barbas da guardiã política do regime. Todos para o xelindró. Jorge Malaquias foi enrolado nos outros. Em Paço de Arcos, o quartel da Polícia Móvel, um tipo lingrinhas disse-lhe para se pôr na alheta. Se voltas cá, nem sabes o que te faço.

Uns quantos foram directamente para o Aljube. Decidiu ir visitá-los quando pudesse ser. Carlos Almiro Saraiva, da Camabatela, filho dum fazendeiro de café podre de rico, tentara dissuadi-lo. Olha lá, ó pá. Tu só te vais lixar com essa merda da visita. E para já, nem sabes quando a autorizam. Os chuis são uns javardos, toma cuidado.

O passeio da merda

O tanas! Tretas, Almiro, tretas. Mal possa, vou logo. Está-me mesmo a pular o pé para a dança. Eles precisam da nossa solidariedade, aquilo é um nojo, o pessoal não tem quaisquer condições, os nossos cagam e mijam em baldes que depois levam a despejar, com carcereiros a guarda-los. Mesmo assim, disse-me o Soares, é a única altura em que saem das celas. Chama-lhe o passeio da merda.

Acabara por não ir. De modo algum porque o de Camabatela o tinha alertado. Estava-se borrifando para a advertência. Conselhos nem do pai Malaquias, quanto mais do filho dum cabrão dum roceiro. O facto foi que, após umas galhetas a sério, a maior parte dos detidos saiu para a rua e os poucos que ficaram ala para Peniche, onde não havia visitas para ninguém.

Quando voltou ao hospital, a Lena com quem saía há uns tempos, loira de Moimenta da Beira, de onde viera catraia, ainda falava de quando em vez axim, disse-lhe que o Dr. Figueiredo andara à procura dele e soubera umas coisas. Queria falar-lhe. Jorginho, vê lá no que te metes, amorzinho. Calminha jéjé. A sorte não é eterna, bem pelo contrário. E eu quero-te para voltarmos às nossas noites «de serviço».

A Madalena era auxiliar de radiologia, tinha umas pernas de sonho e umas mamas de alto lá com o charuto. Os biquinhos, tesíssimos, eram de um vermelho escuro, mais carregado do que a pele de ele. Ela, pelo contrário era muito branca, só os mamilos, as axilas e a cova do amor coloriam o alabastro acetinado em que ela fora esculpida. Mas, sardenta, clara.


Na cama, era uma perdição. Ele, que se julgava uma autoridade na matéria e andara a rapar atrás dela, quando se viu nu agarrado a tudo o que ela, nuinha também, tinha, decidira ensina-la, instrui-la nas práticas do amor. Falsa partida, pois ficara-se nas boxes. De imediato quem conduzira fora Lena, artista, malabarista, contorcionista .

Aluno obediente e esforçado, Malaquias nem queria acreditar que tal tivesse acontecido. Um hospital, que de certo modo se pode considerar um espaço concentracionário, era o local ideal para se saber tudo. Quando fora falar com o médico, os assistentes dele, os internos estagiários, os enfermeiros segredavam apontando-o entre sorrisos e insinuações. Sortudo. Com uma gaja daquelas...

Eu bem te avisei

Albano Figueiredo, especialista em ortopedia, com o eterno estetoscópio ao pescoço, não fora de modas. Eu bem te avisei. Da Lena? Perguntara Jorge entre o acanhado e o satisfeito. Deixa-te de fitas. Sabes bem que não. Da ramboia da politiquice. Quando devias andar a tirar o canudo, vais-te meter com malta de má fama, para estes gajos que estão no poder. Penso que nem são, apenas idealistas, mas para o caso tanto faz. Para os pides – são uma cambada de comunas. Juízo, caraças, juizinho.

Estava farto de admoestações. Lisboa, a partir de então, já era. Cidade bonita, gente gira, os eléctricos para o Carmo, os passeios empedrados, a ponte que levava o nome do abutre agoirento. Porque era assim que já tratava o malandro de São Bento. Mas que passara a não lhe dizer nada, ele que se considerava alfacinha quanto mais não fosse adoptivo. Ou melhor, adoptado.

Os navios da Colonial e da Nacional andavam transportando tropas. Para Angola, rapidamente e em força, bramara o fradalhão de Santa Comba. Arranjou de enfermeiro no Uige. Cunha do pai Saraiva, para isso eram os amigos dos amigalhaços. A escada de portaló foi o início da aventura, no porto de Luanda.

Em seguida a Marginal espreguiçando-se na baía. Uns dias depois, poucos, entrava na base do MPLA, seu destino final. A malta da Casa dos Estudantes era organizada, não eram em vão as ligações com o PC. Nem queria acreditar na facilidade com que tudo decorrera. Na cabina do camião Dodge, ao lado do Raul camionista, até tinham discutido o Benfica e o Eusébio, que já não era o que fora, quando em 1966 encantara os bifes, mas que ainda ia à selecção.

Na fazenda Maria Fernanda, tal como estava marcado, afastou-se para urinar e – até depois que se faz tarde, adeus minhas encomendas. Foi uma enorme mijadela. Começara então uma nova vida para Jorge Malaquias. Esteve no acampamento uns quantos meses, como enfermeiro e a fazer de médico, do médico que não havia. Mas, a dada altura, não aguentou mais aquela sacana de nova situação confinada.

Disse que queria ir para a guerrilha, na mata, nas picadas, onde quer que fosse. Até em Luanda, sendo caso disso. O comandante Trovão no Escuro, ainda que lamentando a falta que faria na base, os camaradas já se tinham habituado a ele, às suas resoquinas, aos seus adesivos, à sua tintura, ao seu mercurocromo, aceitou. Perdia um homem que dava, assim, a sensação de que lhes cobria a retaguarda. Mas ganhava um combatente.

Mulato Vermelho

E que combatente, diziam os outros. Corajoso, destemido, sabedor, e ao mesmo tempo cauteloso, prudente, excelente analista de situações difíceis, planeador e comandante. Em breve era o melhor da zona, ganhou de golpe a qualificação, chefiou, naturalmente. E os êxitos foram-se sucedendo, aumentando, até chegar a mito. Mulato Vermelho. Só.

A carne é e será sempre… carne. No quimbo ali mesmo ao lado encontrara uma menina de 16 anos, gazela de pernas esguias mas cheias e seios pontiagudos, a Rosinha. Coisa daquelas teria levado um santo – se é que eles existissem – a sair do altar para ir deitar-se com ela. Ao longe, muito longe, cada vez mais longe, a Lena ia-se dissolvendo, liquefazendo, reintegrando-se no plasma universal do esquecimento.

Até já combinara o alambamento a dar ao futuro sogro, de resto o soba do povo, duas cabras, três mantas coloridas, uma bicicleta e uns óculos escuros. Estava tudo bem. Para concretizar a combina tivera de ir a Luanda. Nada de receios parvos. Ninguém o conhecia na capital. Passara, apenas, por lá. E estava informado que nas Ingombotas poderia comprar quase tudo, excepto obviamente as cabras, o que se resolveria na mata.

Na primeira noite luandense, decidira aproveitar a viagem para dar um salto ao Miramar, ver a Revolta na Bounty, com o Marlon Brando. No intervalo, quando as luzes se acenderam, duas mãos pesadas caíram-lhe nos ombros. Ainda tentou levantar-se, opor resistência. Quieto, cão. Mexe um dedinho do pé dentro da bota e enfio-te um tiro nos cornos.

Quem fora o bufo?

Na PIDE, ali ao pé da Meteorologia, tentara fingir que não era nada com ele, tratava-se de um engano, talvez alguém parecido com ele, chipala igualzinha. Seu safado, julgas que nos comes por parvos? Denunciaram-te, apanhámos-te, estás fodido e mal pago. Nem sabes no que te meteste. E agora, deita cá para fora tudo. Tudinho!

O inspector, limpando o ouvido com uma unha comprida e escura, em tons de tabaco e cerume, gozava. Ouve lá, o filho dum cabrão, sabes qual é a diferença entre um branco, um preto e um mulato? És mesmo matumbo, não sabes. O branco é filho de deus; o preto é filho do diabo… e o mulato é filho da puta. Gargalharam. Vá, já chega de recreio. Vomita!

Medo tinha. Muito. Mas vomitar, não. Pelo contrário; engolira o cagaço e fechara a boca, transformada numa linha dura colada a Pattex, dali não saía nada. Falas? Pela última vez – falas? Nós sabemos tudo. Só queremos confirmar. Abres as goelas e cantas meu seripipi do caralho. Senão, cortamos-te as ditas goelas. Mas, antes, arrancamos-te os colhões, ficas capado, lá tem a Rosinha que fazer umas pívias, antes de te pôr os cornos.

Fora tudo muito arrastado, muitíssimo lento, para que o «tratamento» fizesse efeito, os flechas eram especialistas. Porrada atrás de porrada, os olhos iam-se enevoando, o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Mato-te, avançava o chefão, que usava a mesma unha encardida para palitar os dentes. Matamos-te como um cachorro, que é o que mereces.

Horas a fio seguiu aquele tormento. Amanhã há mais, melro. Não perdes pela demora. E as pústulas e as nódoas negras e as dores malditas até na piça. Quem teria sido o bufo? No Puto, os métodos eram iguais. Todos da mesma escola. Mas jurou para si próprio que não diria nem um milímetro. Nem que lhe arrancassem o coração pelas costas como fizera o Dom Pedro aos assassinos da Inês. O Cru.

sexta-feira, junho 01, 2007




HISTÓRIAS DA PJ

What happened to Mr. Hood?

(Conclusão)


José Augusto Garcia Marques
“O
que é que o Senhor Dr. dizia se lhe dissesse que não fui eu que matei o Roy Hood?” “Mas, afinal, foste tu ou não?”, perguntei, por minha vez, num tom severo. “Fui, fui”, respondeu ele. “Então porque é que fazes perguntas parvas?” “Ah, era só para ver o que o Senhor Dr. dizia. É que ele apareceu com uma pedra atada aos pés por uma corda”, acrescentou o Hernâni. “E tu sabes que isso não podia ser, não é verdade?” Hesitou e disse: “Sei lá se podia ser ou não”.

Mas a dúvida ficou a germinar no meu espírito. Fiquei preocupado com a conversa. Já o disse: a única coisa que deve interessar à Polícia Judiciária é a descoberta da verdade – e não encontrar uma versão que possa render dividendos em termos de imagem, de opinião pública, mas que não corresponda ao rigor dos factos. No caso, atendendo à personalidade do Hernâni, tinha razões para ficar inquieto. Questionei-me: será que ele não resistiu à tentação de “simplificar” a vida aos investigadores ou será que sucumbiu à publicidade fácil dos célebres “quinze minutos de fama”?

Decidimos adoptar a seguinte estratégia: por um lado, identificar e interrogar o indivíduo que o vira em correria ao longo da muralha, depois de, alegadamente, ter empurrado o Roy Hood; por outro, contrastar o seu depoimento, o que implicava apurar quem seria o melhor amigo do Hernâni, em quem depositava mais confiança, de quem fazia confidente. Em seguida, haveria que o localizar, explicar-lhe a missão que lhe competia desempenhar e trazê-lo à Gomes Freire para, com total à vontade, falar com o detido, a fim de obter dele a versão dos factos ocorridos. Perguntado, o Hernâni, disse que o seu maior amigo era um tal Daniel, criado numa casa do Estoril, propriedade de uma conhecida família portuguesa ligada à alta finança.

Daniel e a busca da verdade

Dois agentes foram buscá-lo, tendo-lhe sido explicado o que se pretendia dele. O Daniel era uns anos mais velho do que o Hernâni, olhar vivo e inteligente. Entendeu perfeitamente que o que estava em causa era a busca da verdade, e, nesse quadro, percebeu a importância do seu papel. Foi-lhe dito que não tivesse preocupações de tempo, que falasse com todo o à vontade com o Hernâni, que lhe fizesse todas as perguntas que a sua curiosidade suscitasse e que, concluída a conversa com o amigo, relatasse com fidelidade aos investigadores o que lhe tinha sido dito. O Daniel revelou ter instinto policial, tendo “saído melhor do que a encomenda”, isto é, tendo excedido as nossas expectativas, mesmo as mais optimistas.

Ficaram ambos – ele e o Hernâni – a conversar numa sala, com o sistema de escuta interna accionado, para que os investigadores pudessem acompanhar a conversa entre ambos. O Hernâni confirmou ao Daniel a versão que nos narrara, tendo, inclusivamente, dado mais pormenores, até porque o outro era insistente e curioso. “Como é que tiveste coragem para fazer aquilo ao homem, pá?” “Ele ofendeu-me: disse que gastava o dinheiro todo em trapos e que ‘andava ao badejo’. Vê lá tu, um velho!” “Pois, mas ainda ´tava um belo homem e era um senhor distinto. Olha lá, e como é que tu o fizeste cair da muralha abaixo?”

“Dei-lhe um empurrão. Ele ´tava mesmo à beirinha. Mas eu não pensei...; não foi assim por querer, pr´ó aleijar ...” “Um empurrão como? Mostra lá como foi.” O Hernâni terá tentado reproduzir o empurrão, mas não convenceu o Daniel, que lhe ripostou: “Assim nem c´um miúdo, pá! ... o homem nem sequer se desequilibrava!” “Foi com mais força. Aqui é que não dá pra imitar bem, porque ainda partes mas é esse vidro.” Saído da sala, o Daniel repetiu com fidelidade o que ouvira do Hernâni – e que já era obviamente do nosso conhecimento.

Fiquei muito mais tranquilo. Em consciência concluí que os acontecimentos se tinham passado como o arguido os descrevera. Mas era, para mim, quase certo, que o Hernâni, em julgamento, iria negar tudo. Tornava-se, até por isso, indispensável instruir os autos com o maior profissionalismo e com todo o pormenor. Procedeu-se, assim, a uma rigorosa reconstituição dos factos com a presença do Hernâni, que reproduziu com fidelidade os momentos mais relevantes do seu comportamento, tal como o descrevera.

O “engatatão” das arcadas

Faltava localizar o frequentador das arcadas, onde “engatava” turistas estrangeiros. Como habitualmente, os agentes encarregados da investigação cumpriram a tarefa com eficácia e prontidão. Tratava-se de um tal Rafael, um indivíduo com cerca de trinta anos, de aparência máscula, aspecto altivo e postura por vezes agressiva. Era casado e tinha um filho muito pequeno. Dedicava-se, sem que a mulher parecesse saber, ao engate de estrangeiros a quem prestava os favores sexuais pretendidos. Dessa actividade de prostituto provinham os seus rendimentos.

Foi justamente na esplanada das arcadas, sentado a uma mesa com um americano, que os investigadores da PJ o foram encontrar. Trouxeram-no para a sede e, durante mais de duas horas, interrogaram-no sobre o seu modo de vida, tudo com o objectivo de apurar se, naquela noite, tinha efectivamente visto o Hernâni a correr ao longo da muralha da praia do Tamariz. Só que era uma personalidade difícil. Ostentando uma máscara de aparente virilidade e grande arrogância, negava que tivesse contactos com homens, revelando-se uma testemunha nada colaborante.

Em dado momento, postei-me num local de onde, sem ser visto, podia ver o que se passava no interior do gabinete. O indivíduo estava sentado, a ser interrogado por um agente. O Chefe de Brigada, homem de forte compleição, passeava, como era costume, em silêncio de um lado para o outro. De repente, vejo o “Chefe” levantar o braço direito, fazê-lo descer num movimento rápido e aplicar uma estrondosa pancada no tampo da secretária, ao mesmo tempo que, gritava: “Basta de teatro! Põe-te em pé! Vamos lá a falar clarinho!”.

O clima estava tenso, não me sendo possível intervir de imediato. O Rafael levantara-se, mas, acto contínuo, sem conseguir aguentar a tensão nervosa, deixou-se cair de joelhos, chorando convulsivamente. A máscara de virilidade quebrou-se como por encanto. Num acto de quase instintiva descompressão, relatou os seus itinerários “profissionais” ... o seu modo de vida, os maus tratos que dava à mulher de quem tinha um filho pequeno, o que a Polícia já conhecia.

Perguntado sobre o que vira naquela noite, confirmou que tinha ficado muito admirado quando viu o Hernâni, correndo como se tivesse o diabo atrás dele, não tendo sequer respondido quando ele o interpelara para saber o que se tinha passado. Entretanto, o “Chefe”, alertado pela sinaléctica de um agente que sabia onde eu me encontrava, saiu do gabinete, dirigiu-se-me com ar contrito e justificou: “O Senhor Dr. desculpe, mas, se não lhe tivesse berrado, nunca mais saíamos daqui”. Censurei, como me cumpria, a atitude agressiva que presenciara. Embora não tendo havido violência física, tinha havido intimidação. Mas compreendi o que o Chefe – excelente polícia, experiente e intuitivo – queria dizer.

Restava a tarefa do enquadramento jurídico dos factos. O caso era extremamente interessante desse ponto de vista. Verdadeiro case study, podia mesmo ser apresentado como hipótese prática num exame escrito de Direito Penal. Não vou entrar em pormenores, que seriam fastidiosos. Estava obviamente afastada a hipótese de premeditação, tanto mais que, no Código Penal ao tempo em vigor, para que ela existisse, era necessária a persistência do “desígnio criminoso” durante um mínimo de 24 horas.

Também considerei excluída a intenção de matar, ou seja, o “dolo”. Ainda que tivesse querido derrubar Mr. Hood, não estava provado que a intenção do Hernâni fosse a de lhe causar a morte. Duas hipóteses se perfilavam então: ou a de homicídio culposo, em virtude da violação de deveres de cuidado, em acumulação com a omissão de auxílio – fuga a seguir à prática do acto; ou (preferível) a de “homicídio preterintencional” (“além da intenção”), a que corresponde hoje a “ofensa à integridade física agravada pelo resultado”.

Hernâni negou no Tribunal

O Hernâni veio a ser julgado no Tribunal da Comarca de Cascais, onde era Juiz um magistrado brilhante, jurista distinto, que eu viria a conhecer e a admirar alguns anos depois. Por sua vez, era ali Delegado do Procurador da República um Colega muito bem classificado, que, como eu, concluíra o seu curso em 1964, mas em Coimbra. Conhecemo-nos no decurso das investigações deste caso e viria a tornar-se um dos meus maiores amigos, tendo feito lado a lado grande parte das nossas carreiras.

Como eu previa, o Hernâni negou em Tribunal a autoria dos factos. Sei que os Magistrados chegaram a ter dúvidas, que depois ultrapassaram. Foi condenado a uma pena de quatro anos de prisão, que entendo ajustada ao que se passou. Mas, tantos anos decorridos, ainda penso no caso. E, de longe em longe, uma réstea de dúvida atravessa o meu espírito. Mas estou certo de tudo ter feito para a descoberta da verdade. Todos os cuidados tidos na confirmação da factualidade ocorrida deixaram-me de consciência tranquila, levando-me a entender que tudo se passou em conformidade com o que ficou a constar da acusação.

O que pensa o leitor, ou, como se diz no latim tão querido dos juristas, quid juris?