terça-feira, junho 12, 2007







Afinal havia outra


Pedro S. Guerreiro*
O
dogma da Ota caiu. O país saúda, porque sente que a escolha será mais acertada e porque se desvanece a imagem de teimosia do primeiro-ministro. Mas não é certo que Portugal tenha ficado a ganhar. Sobretudo se, como parece possível, é preciso que tudo mude para que tudo possa ficar na mesma.

A Ota tornou-se o tema forte da Oposição, uma repetitiva aliteração no seu discurso: a bota não bate com a perdigota; a anedota do deserto deu risota e foi a gota que faltava; até a Jota que ainda não vota pôs um camelo e uma gaivota a fazer chacota. E um estudo que se desencaixota o ministro boicota, o plano sabota e esgota uma rota em troca de uma derrota. Em vez de Ota! Ota! Ota!, agora é Alcochete que brota.

Pois é. Só que o assunto é mais sério do que todos os trocadilhos e do que a utilização política com que a Oposição reclama vitória. O Governo recuou. Mas recuou para quê? Para admitir mudar de opinião ou para saber desde o início que vai mantê-la livrando-se da pressão e da acusação de autismo?

O que mudou para que de uma semana para a outra o ministro que dissera que "a Ota é irreversível" reabra o processo? Que quem disse que a sul do Tejo "jamais" agora mande estudar Alcochete (que até está habituada a grandes especulações imobiliárias)?

Que quem tenha dito que ninguém consulta um engenheiro para saber onde se localiza um aeroporto agora entregue o dossier aos técnicos do LNEC? Que o Governo cujo primeiro-ministro dissera que parar para estudar seria um erro o faça agora? Que se adie a privatização da Ana? A Naer ainda pensa que estudar outras paragens "é um erro brutal"?

E os fundos comunitários, sempre ficam comprometidos, como se argumentava? E o que mudou para que as questões ambientais (aves que chocam com aviões, sobreiros a arrancar, aquífero a preservar) que eliminavam as hipóteses a Sul do Tejo percam a sua "condição mortal"? Mudou a pressão do Presidente da República. Foi Cavaco Silva quem viabilizou o fim do dogma. É ele quem gere sabiamente a relação com o Governo mas não se resigna e faz um discurso no 10 de Junho que de inócuo e irrelevante tem pouco.

Mas é inútil arremeter para o rol de derrotados José Sócrates e Mário Lino, colocando no pódio do dia Cavaco Silva, Marques Mendes, o bastonário Fernando Santo ou Francisco van Zeller, um evidente "cavaleiro branco" de lóbis que prefere não identificar (mas que a CIP não subscreve nem paga) porque, diz, assumiu esse compromisso com o primeiro-ministro.

O que interessa é se isto é ou não melhor para o País. Ninguém duvida que estudos nunca são demais. Nem que a ilusão dos consensos eterniza as não-decisões. E o pior de todos os cenários é o da não construção do novo aeroporto. Os estudos do aeroporto são uma boa notícia para o País. Mas podem ser uma vitória de Pirro. Porque ou tudo o que se disse nos últimos meses era mentira, ou este adiamento só serve para esvaziar um balão político que se encheu. Em qualquer dos casos, não é apenas um ministro que fica mal na fotografia.

(*Director do Jornal de Negócios)

NE - Cá temos o Pedro S. Guerreiro, de novo. O Editorial é de hoje, 12 de Junho. Creio que basta para que os leitores deste blogue vejam o que é escrever a sério sobre um tema tão quente como é o novo aeroporto de que Lisboa precisa como de pão para a boca. O texto assinado pelo Director do Jornal Económico diz quase tudo. Claro que muita água passará ainda sob as pontes. Mas, o enunciado é estupendo.

Amigos e Leitores: Para alem dos comentários que aqui queiram deixar, poderão escrever directamente para o Pedro Guerreiro, cujo endereço é psg@mediafin.pt, que, de resto, vem no quotidiano. Comentários são bem vindos, como sempre. Mas creio que o jornalista gostará de ter a vossa opinião. E, entretanto, leiam o Jornal de Negócios on line. A.F.

domingo, junho 10, 2007



Uma forma de comemorar o 10 de Junho
Ruy Barbosa e a nossa língua

D
iz a lenda que Ruy Barbosa, ao chegar em casa um certo dia, ouviu um
barulho estranho vindo do seu quintal.

Chegando lá, constatou um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:

"Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes
palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da
minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes
isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada
prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala
fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te
reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada."

E o ladrão, confuso, diz:

"Dotô, eu levo ou deixo os pato?"

NE - Ruy Barbosa de Oliveira (1849-1923) é, por muitos, considerado o Pai da República no Brasil. Natural de São Salvador, logo baiano dos sete costados, ele foi jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor, orador e jornalista. Por duas vezes foi candidato à Presidência do seu País. Foi, ainda, Presidente da Academia Brasileira de Letras. A forma como tratava a língua portuguesa dez dele um dos mais importantes filólogos.

Foi, sem dúvida, um dos mais importantes personagens da História do Brasil; era dotado não apenas de inteligência privilegiada, mas também de grande capacidade de trabalho. Essas duas características permi¬tiram-lhe deixar marcas profundas em várias áreas de actividade profissional. Participou em todas as grandes questões de sua época, entre as quais a Campanha Abolicionista, a defesa da Federação, a fundação da República e a Campanha Civilista.

Já em 1891 fora nomeado Primeiro Vice-Chefe do Governo Provisório. Em 1892 abandona a bancada do Senado, depois de o ter justificado num discurso. Ainda nesse ano lança um manifesto à Nação no qual diz a famosa frase: "Com a lei, pela lei e dentro da lei; porque fora da lei não há salvação. Eu ouso dizer que este é o programa da República". A sua independência, a sua verticalidade, a sua competência motivam invejas, conluios, campanhas contra ele. Por isso se exilou dois anos depois.

Sempre considerou e afirmou-o repetidamente, que o Jornalismo era a sua grande paixão. Aquando do seu exílio, viaja para Londres, de onde envia as "Cartas da Inglaterra" para o Jornal do Commercio a partir de 7 de Janeiro de 1895. Escreve então na imprensa:
"E jornalista é que nasci, jornalista é que eu sou, de jornalista não me hão de demitir enquanto houver imprensa, a imprensa for livre (...)"

Dele se contaram e contam e julgo que contarão muitas estórias, qual delas mais interessante do que as restantes. O domínio da nossa língua, a utilização que fazia esmeradamente dos vocábulos mais requintados e inusuais está na base de muitas delas. Que já passaram mesmo à lenda.

Num dia tão importante como é hoje, o dez de Junho, a língua que é a nossa Pátria, como disse Pessoa, fica bem aqui registada, penso, através de um desses contos inventados pelo Povo Brasileiro. Por isso e uma outra vez respeito a grafia usada do lado de lá do Atlântico. Assim, o que aqui publico foi-me enviado pelo compincha que é o
António Gravelho, também ele jurista. Para mim, tem carradas de piada. Donde, só me resta o agradecimento devido ao remetente que, assim, também assenta arraiais no Travessa. A.F.

quinta-feira, junho 07, 2007




À RODA DOS DIAS

Junho

Maria Lúcia Garcia Marques
A meio do ano, Junho parece nascer da paixão violácea dos jacarandás em flor. Incendeiam as ruas da cidade, juncam o chão num tapete festivo. Talvez por isso, este seja um mês em festa. Ele é o Dia de Portugal … Ele são os Santos populares … Ele é Portugal a cantar!



O Hino, à sombra da Bandeira, as mais das vezes desentoado e desencontrado, por estádios de futebol, em jornadas de Taça – agora que já o não ouvimos a despedir os nossos soldados, num cais de angústia para uma guerra escusada, mas a encher-nos o peito de lusitana alegria, tal como e quando nos vemos figurados nos nossos Carlos Lopes, Rosas Motas, Vanessas Fernandes e outros, que galhardamente nos têm levado aos pódios do mundo.

Hino que aprendíamos na escola primária e que, no meu tempo de liceu, servia para escolher quem entrava ou não para o orfeão e para que naipe de voz. Era, à sua escala, um momento emocionante: cantar sem acompanhamento e a solo, para um professor bisonho, à frente da “malta” da turma, sem falhar a letra, na voz traiçoeira da “idade ingrata”, era, de facto, uma “operação de risco”. Por isso ficou para o anedotário familiar a história do desempenho, na circunstância, de um primito meu. Filho e neto de gente da música, ele sabia que não era nenhum Pavaroti. Mas vendo-se sem escapatória, puxou dos seus brios e decidiu esmerar-se.

Postou-se firme em frente do Mestre, tossicou para aclarar a voz, abriu a goela e vá de cantar. Cantou os “heróis do mar”, levantou como pôde o “esplendor de Portugal” e, da sua ainda pouco “brumosa” memória (caramba, tinha só dez anos …) tentou chamar a si a voz dos avós – que ele não percebia de todo por que lhes chamavam “egrégios” – para “levar á vitória” aquela Pátria que ele invocou com uma espécie de berro, “marchando” sonoramente “contra os canhões”!

Acabou exausto, mas convencido de que cumprira a contento. Convicção, porém, não partilhada pelo Mestre que lhe perguntou, sarcástico: “O menino tem a certeza de que isso é mesmo o Hino Nacional?” E logo ali o dispensou de quaisquer outras futuras prestações vocais.

Desventuras numa Pátria que canta com unção um “fatum” triste, mas que não deixa de ser um País com-vivente em que os dias de trabalho são “feiras” e os dois que restam são “feriados”: Sábado para repousar, segundo os judeus, Domingo para louvar, segundo os cristãos, em doses iguais, para não estragar a festa …

Porque ela está aí, a Festa, para celebrar os feitos dos homens como os santos do céu.
E então é ver o povo-povo, de alegria na lapela, riso no olho e boca gulosa de caseiros acepipes, regados com o generoso sangue da terra que ainda lhes faz bater o coração. E nesta celebração devotada dos seus santos (por tal chamados “populares”) se conforma o retrato médio do português, médio e nédio, que festeja com o corpo todo, na libação e na libertação (do cansaço e das mazelas com que o trabalho o marcou) em discurso directo com a cidade, alguns dias – ou noites – de alegre comunhão.

Foi um “à la minuta”, desse “português à solta” que Carlos Paião, cantor e poeta popular, nos deixou, solfejado e sofrido, na sua “Marcha do Pião-das-Nicas”. Aqui ficam, por prova, alguns desses versos que, na gíria e no gesto castiço, sem corantes nem conservantes, no lo dão ao natural:

Anda p´la vida à futrica
O estica-larica
O “Mangas Portuga”
Fecha-se em copos e copas,
Cafés e cachopas,
Trabuca e manduca.

Galfarro afiambrado
Pachola, arremelgado,
De grimpa levantada e garrafal.
Amigo do amigo
Farelo e muito umbigo.
Vestiu-se e veio a pé pró arraial.

És tu “pião-das-nicas”
Das bocas e das dicas
Que pegas nos calcantes e te vais
Adeus, leão dos trouxas,
Chupado das carochas,
Que foste no embrulho uma vez mais!

REFRÃO: Viva o Santo António,
Viva o São João,
Viva o 10 de Junho e a Restauração,
Viva até São Bento
Se nos arranjar
Muitos feriados para festejar!

Junho desta “ditosa Pátria minha amada”. Pátria/mátria – aquela parte de nós, indizível e sem data, aquele fio de sangue que vem não importa donde, que nos sustenta e nos sustém. Aquele orgulho inexplicado e íntimo que é nossa amarra e nosso lastro.

quarta-feira, junho 06, 2007




Miséria e riqueza em Lisboa



Pedro S. Guerreiro
Director do Jornal de Negócios
O
caos financeiro da Câmara de Lisboa está finalmente no centro de um debate eleitoral. Não porque os candidatos se tenham tornado subitamente mais responsáveis. Mas porque Lisboa chegou ao grau zero da indigência contabilística. Porque hoje existe uma lei das finanças locais. E porque o líder nas sondagens foi o autor dessa lei.

Sem o problema das finanças autárquicas resolvido, Lisboa não tem qualquer futuro. Só passado. E o passado é tenebroso. Nem é preciso explicar porquê. O país inteiro aprendeu já, à custa de impostos e de desemprego, que sem finanças públicas saudáveis não se faz nada. Em Lisboa não é diferente. Só que pôde ser adiado. E adiar soluções significa piorar o problema.

O passivo duplicou em cinco anos: 2.382 euros por munícipe. Juros: 30 mil euros por dia. O problema está não tanto no que se deve à banca mas aos fornecedores. A tesouraria está vazia. Os investimentos têm receitas abaixo do previsto. Os planos de desinvestimentos (no imobiliário) não são cumpridos. As suspeitas de corrupção estão no Ministério Público.

Quando Manuela Ferreira Leite limitou o endividamento autárquico, referia-se a todo o passivo. O seu primeiro-ministro Durão Barroso desautorizou-a e decidiu que o garrote se aplicava apenas à dívida bancária. O desvario transferiu-se para os "leasings", "factorings", fornecedores, parcerias público-privadas. Ferreira Leite quis que o limite ao endividamento funcionasse para as câmaras como o tecto do défice de 3% funcionou para o País. Mas como não houve Comissão Europeia para as câmaras, muitas delas precisam agora de um FMI. De alguém que entre por ali adentro, viabilize empréstimos e controle a sua aplicação.

O FMI é, neste caso, o Ministério das Finanças. António Costa já disse que, se ganhar, vai requerer ao Governo um "contrato de saneamento": Lisboa precisa de um contrato de reequilíbrio financeiro. O Governo descongela o endividamento bancário da Câmara, que começa a pagar dívidas aos fornecedores; em troca, a Câmara fica sob forte vigilância do Governo, terá de prestar contas, aumentar taxas, tarifas e derramas, não poderá aumentar despesas com pessoal nem despesas correntes. Foi assim com Setúbal (que já incumpriu, sem punição, o acordo) e com o Marco de Canaveses (que renegociou). Também Ourique, Gouveia e Guarda estão perto de pedir socorro.

E Lisboa. Se ganhar, Costa negociará com o seu antigo colega de Governo uma viabilização financeira. Aplicará a lei de finanças locais que desenhou. E terá de aceitar a redução de freguesias, que defendeu enquanto ministro. Nada disto é por voluntarismo, é por necessidade. Cheira a dinheiro em Lisboa. Não é à toa que o candidato do PS reúne tantos apoios. Não é apenas Júdice que vira o volante. Há na comissão de honra de Costa empresários, gestores e banqueiros que nunca devem ter votado à esquerda na vida.
Editorial de 2007/06/05



NE – Já disse ao Pedro Guerreiro quanto o admiro e com que prazer o leio. Trata-se de um grande Jornalista, com caixa alta e tudo. Ele autorizou-me a publicar o seu editorial aqui no Travessa. Fiquei e fico muito satisfeito com isso. Tanto que reincidirei sempre que ache bem fazê-lo... A Travessa tem a grata oportunidade de o concretizar. E eu, a felicidade de o poder anunciar e abraçar o Pedro pelo que de bom nos proporciona.

terça-feira, junho 05, 2007




Boca calada

Antunes Ferreira
Tentou levantar-se, mas caiu para o lado, como um saco de café desamparado. Fechou, de novo, os olhos castigados e passou a língua pelos lábios inchados, gretados e secos. O sabor adocicado do sangue não lhe tirava a sede. Estava acampado por todo o seu miserável corpo em crostas escuras que sobressaíam da cor da pele. Levara muita porrada, aiué.

No entanto, o filho da puta do inspector e os três flechas que o tinham massacrado não haviam tido o prazer de ouvi-lo cantar alguma coisa. Gritara, isso sim, um homem não é de pau. Mas conseguira calar-se, emudecer quanto às perguntas, acompanhadas de murros, pontapés, pauladas. Até lhe tinham ligado o coiso a uma ficha eléctrica, com um fio.

Aka, isso doeu mesmo. Foi um raio que ziguezagueou até ao esqueleto. A corrente eléctrica era danada. E ele sabia-o perfeitamente. Era mulato, mas também enfermeiro. Aliás, estudara em Lisboa, para onde viera com os pais, catraio vindo de Angola, trabalhara no Hospital de Santa Marta, o doutor Figueiredo até lhe dissera um dia – Malaquias, tens de ir para a Faculdade. Com o que já sabes e com o que lá aprenderes, vais sair um bom médico.

Não fora. O pai, viúvo da mãe Zeferina, também insistira com ele. Vai, Jorge, vai. Deixa-te dessas trampas da Casa dos Estudantes do Império e ganha o teu futuro. Sei que és homem para isso. Era. Mas, não ia. Podia aprender mais umas coisas no hospital, mas muitas mais na Casa. Com toda a malta porreira que o introduzia no Marx, no Lenine no Mao, que discutia dialéctica, que coleccionava cartazes do Che e do Comandante Fidel, colados pelas paredes.

Um dia veio a PIDE e fechou as instalações por ser um cóio de subversivos. Portugal que era uno e indivisível, do Minho a Timor, não podia permitir que um grupo de garotelhos conspirasse nas barbas da guardiã política do regime. Todos para o xelindró. Jorge Malaquias foi enrolado nos outros. Em Paço de Arcos, o quartel da Polícia Móvel, um tipo lingrinhas disse-lhe para se pôr na alheta. Se voltas cá, nem sabes o que te faço.

Uns quantos foram directamente para o Aljube. Decidiu ir visitá-los quando pudesse ser. Carlos Almiro Saraiva, da Camabatela, filho dum fazendeiro de café podre de rico, tentara dissuadi-lo. Olha lá, ó pá. Tu só te vais lixar com essa merda da visita. E para já, nem sabes quando a autorizam. Os chuis são uns javardos, toma cuidado.

O passeio da merda

O tanas! Tretas, Almiro, tretas. Mal possa, vou logo. Está-me mesmo a pular o pé para a dança. Eles precisam da nossa solidariedade, aquilo é um nojo, o pessoal não tem quaisquer condições, os nossos cagam e mijam em baldes que depois levam a despejar, com carcereiros a guarda-los. Mesmo assim, disse-me o Soares, é a única altura em que saem das celas. Chama-lhe o passeio da merda.

Acabara por não ir. De modo algum porque o de Camabatela o tinha alertado. Estava-se borrifando para a advertência. Conselhos nem do pai Malaquias, quanto mais do filho dum cabrão dum roceiro. O facto foi que, após umas galhetas a sério, a maior parte dos detidos saiu para a rua e os poucos que ficaram ala para Peniche, onde não havia visitas para ninguém.

Quando voltou ao hospital, a Lena com quem saía há uns tempos, loira de Moimenta da Beira, de onde viera catraia, ainda falava de quando em vez axim, disse-lhe que o Dr. Figueiredo andara à procura dele e soubera umas coisas. Queria falar-lhe. Jorginho, vê lá no que te metes, amorzinho. Calminha jéjé. A sorte não é eterna, bem pelo contrário. E eu quero-te para voltarmos às nossas noites «de serviço».

A Madalena era auxiliar de radiologia, tinha umas pernas de sonho e umas mamas de alto lá com o charuto. Os biquinhos, tesíssimos, eram de um vermelho escuro, mais carregado do que a pele de ele. Ela, pelo contrário era muito branca, só os mamilos, as axilas e a cova do amor coloriam o alabastro acetinado em que ela fora esculpida. Mas, sardenta, clara.


Na cama, era uma perdição. Ele, que se julgava uma autoridade na matéria e andara a rapar atrás dela, quando se viu nu agarrado a tudo o que ela, nuinha também, tinha, decidira ensina-la, instrui-la nas práticas do amor. Falsa partida, pois ficara-se nas boxes. De imediato quem conduzira fora Lena, artista, malabarista, contorcionista .

Aluno obediente e esforçado, Malaquias nem queria acreditar que tal tivesse acontecido. Um hospital, que de certo modo se pode considerar um espaço concentracionário, era o local ideal para se saber tudo. Quando fora falar com o médico, os assistentes dele, os internos estagiários, os enfermeiros segredavam apontando-o entre sorrisos e insinuações. Sortudo. Com uma gaja daquelas...

Eu bem te avisei

Albano Figueiredo, especialista em ortopedia, com o eterno estetoscópio ao pescoço, não fora de modas. Eu bem te avisei. Da Lena? Perguntara Jorge entre o acanhado e o satisfeito. Deixa-te de fitas. Sabes bem que não. Da ramboia da politiquice. Quando devias andar a tirar o canudo, vais-te meter com malta de má fama, para estes gajos que estão no poder. Penso que nem são, apenas idealistas, mas para o caso tanto faz. Para os pides – são uma cambada de comunas. Juízo, caraças, juizinho.

Estava farto de admoestações. Lisboa, a partir de então, já era. Cidade bonita, gente gira, os eléctricos para o Carmo, os passeios empedrados, a ponte que levava o nome do abutre agoirento. Porque era assim que já tratava o malandro de São Bento. Mas que passara a não lhe dizer nada, ele que se considerava alfacinha quanto mais não fosse adoptivo. Ou melhor, adoptado.

Os navios da Colonial e da Nacional andavam transportando tropas. Para Angola, rapidamente e em força, bramara o fradalhão de Santa Comba. Arranjou de enfermeiro no Uige. Cunha do pai Saraiva, para isso eram os amigos dos amigalhaços. A escada de portaló foi o início da aventura, no porto de Luanda.

Em seguida a Marginal espreguiçando-se na baía. Uns dias depois, poucos, entrava na base do MPLA, seu destino final. A malta da Casa dos Estudantes era organizada, não eram em vão as ligações com o PC. Nem queria acreditar na facilidade com que tudo decorrera. Na cabina do camião Dodge, ao lado do Raul camionista, até tinham discutido o Benfica e o Eusébio, que já não era o que fora, quando em 1966 encantara os bifes, mas que ainda ia à selecção.

Na fazenda Maria Fernanda, tal como estava marcado, afastou-se para urinar e – até depois que se faz tarde, adeus minhas encomendas. Foi uma enorme mijadela. Começara então uma nova vida para Jorge Malaquias. Esteve no acampamento uns quantos meses, como enfermeiro e a fazer de médico, do médico que não havia. Mas, a dada altura, não aguentou mais aquela sacana de nova situação confinada.

Disse que queria ir para a guerrilha, na mata, nas picadas, onde quer que fosse. Até em Luanda, sendo caso disso. O comandante Trovão no Escuro, ainda que lamentando a falta que faria na base, os camaradas já se tinham habituado a ele, às suas resoquinas, aos seus adesivos, à sua tintura, ao seu mercurocromo, aceitou. Perdia um homem que dava, assim, a sensação de que lhes cobria a retaguarda. Mas ganhava um combatente.

Mulato Vermelho

E que combatente, diziam os outros. Corajoso, destemido, sabedor, e ao mesmo tempo cauteloso, prudente, excelente analista de situações difíceis, planeador e comandante. Em breve era o melhor da zona, ganhou de golpe a qualificação, chefiou, naturalmente. E os êxitos foram-se sucedendo, aumentando, até chegar a mito. Mulato Vermelho. Só.

A carne é e será sempre… carne. No quimbo ali mesmo ao lado encontrara uma menina de 16 anos, gazela de pernas esguias mas cheias e seios pontiagudos, a Rosinha. Coisa daquelas teria levado um santo – se é que eles existissem – a sair do altar para ir deitar-se com ela. Ao longe, muito longe, cada vez mais longe, a Lena ia-se dissolvendo, liquefazendo, reintegrando-se no plasma universal do esquecimento.

Até já combinara o alambamento a dar ao futuro sogro, de resto o soba do povo, duas cabras, três mantas coloridas, uma bicicleta e uns óculos escuros. Estava tudo bem. Para concretizar a combina tivera de ir a Luanda. Nada de receios parvos. Ninguém o conhecia na capital. Passara, apenas, por lá. E estava informado que nas Ingombotas poderia comprar quase tudo, excepto obviamente as cabras, o que se resolveria na mata.

Na primeira noite luandense, decidira aproveitar a viagem para dar um salto ao Miramar, ver a Revolta na Bounty, com o Marlon Brando. No intervalo, quando as luzes se acenderam, duas mãos pesadas caíram-lhe nos ombros. Ainda tentou levantar-se, opor resistência. Quieto, cão. Mexe um dedinho do pé dentro da bota e enfio-te um tiro nos cornos.

Quem fora o bufo?

Na PIDE, ali ao pé da Meteorologia, tentara fingir que não era nada com ele, tratava-se de um engano, talvez alguém parecido com ele, chipala igualzinha. Seu safado, julgas que nos comes por parvos? Denunciaram-te, apanhámos-te, estás fodido e mal pago. Nem sabes no que te meteste. E agora, deita cá para fora tudo. Tudinho!

O inspector, limpando o ouvido com uma unha comprida e escura, em tons de tabaco e cerume, gozava. Ouve lá, o filho dum cabrão, sabes qual é a diferença entre um branco, um preto e um mulato? És mesmo matumbo, não sabes. O branco é filho de deus; o preto é filho do diabo… e o mulato é filho da puta. Gargalharam. Vá, já chega de recreio. Vomita!

Medo tinha. Muito. Mas vomitar, não. Pelo contrário; engolira o cagaço e fechara a boca, transformada numa linha dura colada a Pattex, dali não saía nada. Falas? Pela última vez – falas? Nós sabemos tudo. Só queremos confirmar. Abres as goelas e cantas meu seripipi do caralho. Senão, cortamos-te as ditas goelas. Mas, antes, arrancamos-te os colhões, ficas capado, lá tem a Rosinha que fazer umas pívias, antes de te pôr os cornos.

Fora tudo muito arrastado, muitíssimo lento, para que o «tratamento» fizesse efeito, os flechas eram especialistas. Porrada atrás de porrada, os olhos iam-se enevoando, o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Mato-te, avançava o chefão, que usava a mesma unha encardida para palitar os dentes. Matamos-te como um cachorro, que é o que mereces.

Horas a fio seguiu aquele tormento. Amanhã há mais, melro. Não perdes pela demora. E as pústulas e as nódoas negras e as dores malditas até na piça. Quem teria sido o bufo? No Puto, os métodos eram iguais. Todos da mesma escola. Mas jurou para si próprio que não diria nem um milímetro. Nem que lhe arrancassem o coração pelas costas como fizera o Dom Pedro aos assassinos da Inês. O Cru.

sexta-feira, junho 01, 2007




HISTÓRIAS DA PJ

What happened to Mr. Hood?

(Conclusão)


José Augusto Garcia Marques
“O
que é que o Senhor Dr. dizia se lhe dissesse que não fui eu que matei o Roy Hood?” “Mas, afinal, foste tu ou não?”, perguntei, por minha vez, num tom severo. “Fui, fui”, respondeu ele. “Então porque é que fazes perguntas parvas?” “Ah, era só para ver o que o Senhor Dr. dizia. É que ele apareceu com uma pedra atada aos pés por uma corda”, acrescentou o Hernâni. “E tu sabes que isso não podia ser, não é verdade?” Hesitou e disse: “Sei lá se podia ser ou não”.

Mas a dúvida ficou a germinar no meu espírito. Fiquei preocupado com a conversa. Já o disse: a única coisa que deve interessar à Polícia Judiciária é a descoberta da verdade – e não encontrar uma versão que possa render dividendos em termos de imagem, de opinião pública, mas que não corresponda ao rigor dos factos. No caso, atendendo à personalidade do Hernâni, tinha razões para ficar inquieto. Questionei-me: será que ele não resistiu à tentação de “simplificar” a vida aos investigadores ou será que sucumbiu à publicidade fácil dos célebres “quinze minutos de fama”?

Decidimos adoptar a seguinte estratégia: por um lado, identificar e interrogar o indivíduo que o vira em correria ao longo da muralha, depois de, alegadamente, ter empurrado o Roy Hood; por outro, contrastar o seu depoimento, o que implicava apurar quem seria o melhor amigo do Hernâni, em quem depositava mais confiança, de quem fazia confidente. Em seguida, haveria que o localizar, explicar-lhe a missão que lhe competia desempenhar e trazê-lo à Gomes Freire para, com total à vontade, falar com o detido, a fim de obter dele a versão dos factos ocorridos. Perguntado, o Hernâni, disse que o seu maior amigo era um tal Daniel, criado numa casa do Estoril, propriedade de uma conhecida família portuguesa ligada à alta finança.

Daniel e a busca da verdade

Dois agentes foram buscá-lo, tendo-lhe sido explicado o que se pretendia dele. O Daniel era uns anos mais velho do que o Hernâni, olhar vivo e inteligente. Entendeu perfeitamente que o que estava em causa era a busca da verdade, e, nesse quadro, percebeu a importância do seu papel. Foi-lhe dito que não tivesse preocupações de tempo, que falasse com todo o à vontade com o Hernâni, que lhe fizesse todas as perguntas que a sua curiosidade suscitasse e que, concluída a conversa com o amigo, relatasse com fidelidade aos investigadores o que lhe tinha sido dito. O Daniel revelou ter instinto policial, tendo “saído melhor do que a encomenda”, isto é, tendo excedido as nossas expectativas, mesmo as mais optimistas.

Ficaram ambos – ele e o Hernâni – a conversar numa sala, com o sistema de escuta interna accionado, para que os investigadores pudessem acompanhar a conversa entre ambos. O Hernâni confirmou ao Daniel a versão que nos narrara, tendo, inclusivamente, dado mais pormenores, até porque o outro era insistente e curioso. “Como é que tiveste coragem para fazer aquilo ao homem, pá?” “Ele ofendeu-me: disse que gastava o dinheiro todo em trapos e que ‘andava ao badejo’. Vê lá tu, um velho!” “Pois, mas ainda ´tava um belo homem e era um senhor distinto. Olha lá, e como é que tu o fizeste cair da muralha abaixo?”

“Dei-lhe um empurrão. Ele ´tava mesmo à beirinha. Mas eu não pensei...; não foi assim por querer, pr´ó aleijar ...” “Um empurrão como? Mostra lá como foi.” O Hernâni terá tentado reproduzir o empurrão, mas não convenceu o Daniel, que lhe ripostou: “Assim nem c´um miúdo, pá! ... o homem nem sequer se desequilibrava!” “Foi com mais força. Aqui é que não dá pra imitar bem, porque ainda partes mas é esse vidro.” Saído da sala, o Daniel repetiu com fidelidade o que ouvira do Hernâni – e que já era obviamente do nosso conhecimento.

Fiquei muito mais tranquilo. Em consciência concluí que os acontecimentos se tinham passado como o arguido os descrevera. Mas era, para mim, quase certo, que o Hernâni, em julgamento, iria negar tudo. Tornava-se, até por isso, indispensável instruir os autos com o maior profissionalismo e com todo o pormenor. Procedeu-se, assim, a uma rigorosa reconstituição dos factos com a presença do Hernâni, que reproduziu com fidelidade os momentos mais relevantes do seu comportamento, tal como o descrevera.

O “engatatão” das arcadas

Faltava localizar o frequentador das arcadas, onde “engatava” turistas estrangeiros. Como habitualmente, os agentes encarregados da investigação cumpriram a tarefa com eficácia e prontidão. Tratava-se de um tal Rafael, um indivíduo com cerca de trinta anos, de aparência máscula, aspecto altivo e postura por vezes agressiva. Era casado e tinha um filho muito pequeno. Dedicava-se, sem que a mulher parecesse saber, ao engate de estrangeiros a quem prestava os favores sexuais pretendidos. Dessa actividade de prostituto provinham os seus rendimentos.

Foi justamente na esplanada das arcadas, sentado a uma mesa com um americano, que os investigadores da PJ o foram encontrar. Trouxeram-no para a sede e, durante mais de duas horas, interrogaram-no sobre o seu modo de vida, tudo com o objectivo de apurar se, naquela noite, tinha efectivamente visto o Hernâni a correr ao longo da muralha da praia do Tamariz. Só que era uma personalidade difícil. Ostentando uma máscara de aparente virilidade e grande arrogância, negava que tivesse contactos com homens, revelando-se uma testemunha nada colaborante.

Em dado momento, postei-me num local de onde, sem ser visto, podia ver o que se passava no interior do gabinete. O indivíduo estava sentado, a ser interrogado por um agente. O Chefe de Brigada, homem de forte compleição, passeava, como era costume, em silêncio de um lado para o outro. De repente, vejo o “Chefe” levantar o braço direito, fazê-lo descer num movimento rápido e aplicar uma estrondosa pancada no tampo da secretária, ao mesmo tempo que, gritava: “Basta de teatro! Põe-te em pé! Vamos lá a falar clarinho!”.

O clima estava tenso, não me sendo possível intervir de imediato. O Rafael levantara-se, mas, acto contínuo, sem conseguir aguentar a tensão nervosa, deixou-se cair de joelhos, chorando convulsivamente. A máscara de virilidade quebrou-se como por encanto. Num acto de quase instintiva descompressão, relatou os seus itinerários “profissionais” ... o seu modo de vida, os maus tratos que dava à mulher de quem tinha um filho pequeno, o que a Polícia já conhecia.

Perguntado sobre o que vira naquela noite, confirmou que tinha ficado muito admirado quando viu o Hernâni, correndo como se tivesse o diabo atrás dele, não tendo sequer respondido quando ele o interpelara para saber o que se tinha passado. Entretanto, o “Chefe”, alertado pela sinaléctica de um agente que sabia onde eu me encontrava, saiu do gabinete, dirigiu-se-me com ar contrito e justificou: “O Senhor Dr. desculpe, mas, se não lhe tivesse berrado, nunca mais saíamos daqui”. Censurei, como me cumpria, a atitude agressiva que presenciara. Embora não tendo havido violência física, tinha havido intimidação. Mas compreendi o que o Chefe – excelente polícia, experiente e intuitivo – queria dizer.

Restava a tarefa do enquadramento jurídico dos factos. O caso era extremamente interessante desse ponto de vista. Verdadeiro case study, podia mesmo ser apresentado como hipótese prática num exame escrito de Direito Penal. Não vou entrar em pormenores, que seriam fastidiosos. Estava obviamente afastada a hipótese de premeditação, tanto mais que, no Código Penal ao tempo em vigor, para que ela existisse, era necessária a persistência do “desígnio criminoso” durante um mínimo de 24 horas.

Também considerei excluída a intenção de matar, ou seja, o “dolo”. Ainda que tivesse querido derrubar Mr. Hood, não estava provado que a intenção do Hernâni fosse a de lhe causar a morte. Duas hipóteses se perfilavam então: ou a de homicídio culposo, em virtude da violação de deveres de cuidado, em acumulação com a omissão de auxílio – fuga a seguir à prática do acto; ou (preferível) a de “homicídio preterintencional” (“além da intenção”), a que corresponde hoje a “ofensa à integridade física agravada pelo resultado”.

Hernâni negou no Tribunal

O Hernâni veio a ser julgado no Tribunal da Comarca de Cascais, onde era Juiz um magistrado brilhante, jurista distinto, que eu viria a conhecer e a admirar alguns anos depois. Por sua vez, era ali Delegado do Procurador da República um Colega muito bem classificado, que, como eu, concluíra o seu curso em 1964, mas em Coimbra. Conhecemo-nos no decurso das investigações deste caso e viria a tornar-se um dos meus maiores amigos, tendo feito lado a lado grande parte das nossas carreiras.

Como eu previa, o Hernâni negou em Tribunal a autoria dos factos. Sei que os Magistrados chegaram a ter dúvidas, que depois ultrapassaram. Foi condenado a uma pena de quatro anos de prisão, que entendo ajustada ao que se passou. Mas, tantos anos decorridos, ainda penso no caso. E, de longe em longe, uma réstea de dúvida atravessa o meu espírito. Mas estou certo de tudo ter feito para a descoberta da verdade. Todos os cuidados tidos na confirmação da factualidade ocorrida deixaram-me de consciência tranquila, levando-me a entender que tudo se passou em conformidade com o que ficou a constar da acusação.

O que pensa o leitor, ou, como se diz no latim tão querido dos juristas, quid juris?

terça-feira, maio 29, 2007




HISTÓRIAS DA PJ


What happned to Mr. Hood?

(2ª Parte)

José Augusto Garcia Marques
“Eu é que sou o Hernâni”. O tom era tranquilo, a voz suave, o rosto não denunciava inquietação. Ficámos decepcionados com o perfil do sujeito. Ao contrário do que chegámos a admitir, não se vislumbravam nele sinais de um carácter violento ou agressivo. Era um jovem claramente efeminado, de estatura mediana e compleição frágil.

Trocámos impressões com a dona da casa, que mandou o empregado esperar no seu quarto. A Senhora disse-nos que fora o próprio Hernâni que se lhe dirigira, nessa manhã, dizendo que, “se calhar, o “Ernani” de que os jornais falavam era ele”. Mais lhe relatara que conhecia o Senhor Roy Hood, com quem se encontrava há já algum tempo. Em termos de personalidade, disse-nos tratar-se de um ser inofensivo, paciente e com bons modos, de um criado disciplinado e com vontade de aprender, embora algo limitado intelectualmente. Na sua opinião era um “pobre diabo” impotente, destinado a ser usado e abusado por marginais sem escrúpulos.

No entanto, reconhecia nele, nos últimos dias, uma ansiedade e uma angústia que não eram habituais. Apesar de saber que se chamava Hernâni, a dona da casa não o associara ao “Ernani” a que a comunicação social se referia, uma vez que nunca lhe passara pela cabeça que pudesse ter um envolvimento com um velho pederasta de “sociedade”, como era o caso do Roy Hood, o qual, na sua opinião, deveria andar metido com “companhias de outro quilate”.

Fomos falar em seguida com o Hernâni, o que fizemos no seu próprio quarto. A mesa de cabeceira tinha uma imagem vulgar de Nossa Senhora de Fátima e, na gaveta, havia recortes dos jornais que noticiavam o aparecimento do corpo na praia de Carcavelos. Logo nos deu a sua versão dos factos. Tinha, de facto, um encontro marcado com o Roy Hood, pelas 20 horas, perto de um cartaz publicitário, colocado em frente das arcadas do Estoril. Tratava-se do local de encontro habitualmente escolhido por ambos. Todavia, tendo esperado cerca de uma hora sem que o pintor aparecesse, e porque estivesse muito frio, o Hernâni ter-se-ia cansado e decidido voltar para casa. Pareceu-nos conveniente, no regresso a Lisboa, passar pelos locais por ele indicados.

Das arcadas ao Tamariz

Dirigimo-nos às arcadas, tendo estado junto do referido cartaz. O Hernâni deu-nos conta do seu ressentimento relativamente a Mr. Hood pelo facto de este não o deixar ir ter directamente a casa dele. Segundo ele, era um sinal de falta de confiança, revelador de que o estrangeiro não gostava de ser visto com ele. Pedimos-lhe depois que nos guiasse pelo percurso que costumava fazer com o Roy Hood desde aquele ponto de encontro até ao local de destino, a casa do pintor australiano. A tarde ia a meio, mas não havia tempo a perder, uma vez que, no Inverno, os dias são pequenos.

O encontro dos dois costumava ocorrer cerca das oito horas da noite. Atravessavam então a marginal, entravam na praia do Tamariz e dirigiam-se para a muralha que percorriam, lado a lado, junto à respectiva berma, até ao local adequado para cortarem em direcção à Rua onde estava situado o Palácio em cuja dependência Mr. Hood vivia. Segundo explicou, a muralha, a essa hora, era frequentada por diversos homossexuais, sendo frequente encontrarem caras conhecidas no “engate”. Com o Hernâni fizemos o percurso até ao portão exterior do edifício onde vivia o pintor, tendo seguido depois para a sede, na Gomes Freire.

O Hernâni era uma personalidade fraca, tendo uma natural tendência para ser agradável para aqueles com quem conversava, incluindo para quem o interrogava. Havia, assim, que ter o cuidado de evitar obter versões dos factos que não correspondessem à verdade, sendo importante tratá-lo sem agressividade ou sinal de violência. Para a Polícia, deve ser tão importante chegar aos responsáveis pela prática do crime, como concluir que um determinado suspeito está, na realidade, inocente. Mas, como diz o povo, quem vê caras, não vê corações ...

Interrogado na Brigada, foi mantendo a sua versão originária. No entanto, havia, no seu discurso, algumas contradições manifestas e ressumava das suas palavras um claro azedume para com o pintor australiano, que não era muito conforme com a sua maneira de ser suave e pacífica. Naquele tempo – já lá vão quase quarenta anos - a prisão sem culpa formada não obedecia aos requisitos – processuais e de prazo – a que obedece hoje a prisão preventiva.

Assim, a título de exemplo, não era obrigatoriamente ordenada por um juiz, podendo sê-lo pelos responsáveis hierárquicos da própria PJ – que, por acaso, eram, na generalidade, juízes de carreira, mas que, obviamente, não exerciam a magistratura judicial durante o tempo da comissão de serviço. Em face das suspeitas existentes, foi, assim, determinado que o Hernâni recolhesse aos calabouços da PJ.

O "culpado" confessa

No dia seguinte, de manhã, pediu para falar comigo. E foi a mim que confessou ter sido o “culpado” pela morte do Roy Hood. A sua versão foi, no essencial, a seguinte. Na verdade, estivera cerca de uma hora à espera de que o pintor australiano chegasse. E, quando já se propunha ir para casa, viu-o aparecer. Estava cheio de frio, impaciente, embora muito vaidoso com umas roupas novas que comprara com algum dinheiro que o Roy Hood lhe dera.

Era um canadiana azul escura, com capuz, boa para o frio, e uma camisola grossa, de lã escura com uns motivos claros, que também trazia vestida debaixo da canadiana. Esperara com ansiedade o momento de mostrar ao “velho” a boa aplicação que tinha dado ao dinheiro recebido, aguardando uma palavra de elogio pelo bom gosto revelado na escolha das roupas. A longa espera tinha-lhe tirado, porém, a alegria da expectativa, substituindo-a por um má vontade crescente contra o companheiro. O Roy Hood vinha também de má catadura.

Depois de algumas palavras frias e amargas, dirigiram-se para a muralha, como era costume, e uma vez que o pintor não fazia qualquer referência à roupa nova que ele trazia vestida, o jovem chamou-lhe a atenção para o facto. Ficou desiludido e magoado com a resposta: “Vocês gastam o dinheiro todo em trapos”.

A conversa azedou. Queixou-se do frio que tinha passado durante a longa espera, de mais a mais exposto ao olhar trocista de outros conhecidos que ali o viam especado, esperando por uma companhia que não havia meio de chegar, e lamentou o facto de o pintor não lhe dar a chave de casa e de não o deixar ir lá ter directamente. A isso, o Roy Hood teria respondido: “Eu não dou a chave da minha casa a quem anda ao “badejo”!

A gota de água

Teria sido essa a gota de água que fez transbordar o copo. O Hernâni já tinha referido que o Roy Hood, “certamente por uma questão de respeito”, lhe dava sempre a esquerda, pelo que era o estrangeiro que seguia na borda da muralha. Irritado com as observações do outro, o português, sem se aperceber da proximidade da extremidade da muralha, deu-lhe um empurrão com o ombro, fazendo-o desequilibrar.

Na sua versão, teria dado ainda um passo em frente, mas, alertado por uma exclamação surda, olhou para trás, tendo ainda visto Mr. Hood a fazer uma tentativa desesperada de equilíbrio na berma da muralha. Não se conseguindo equilibrar, caiu e terá batido com a cabeça nas pedras que se espalham à beira-mar. A maré estava a encher e o Hernâni, cheio de medo, desatou a correr no sentido de onde vinham, tendo parado só depois de atravessar novamente a marginal. Recuperado o fôlego, voltou a correr até à casa onde vivia.

Perguntei-lhe se alguém o tinha visto nessa correria e, depois de pensar, indicou um nome. Tratava-se de um “arrebenta” que “engatava” turistas, de preferência americanos, nas arcadas do Estoril. Que ainda lhe dirigiu uma pergunta, tendo o Hernâni dito qualquer coisa a despachar.
Concluída a confissão oral, no meu gabinete, passou depois à Brigada onde desenvolveu a seu relato dos factos, que foram reduzida a escrito.

Imagine-se a minha surpresa quando, no dia seguinte, encontrando-nos no gabinete do Chefe de Brigada, o Hernâni me dirigiu a seguinte pergunta: “O que é que o Senhor Dr. dizia se eu lhe dissesse que não matei o Roy Hood?”

(continua)

sexta-feira, maio 25, 2007



Segundo a OCDE no tocante a Portugal
Consolidação orçamental
e revisão do crescimento


A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) reviu ontem em alta as previsões de crescimento para a economia portuguesa alinhando-as com as do Governo e da Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional. A OCDE, nas perspectivas económicas acabadas de divulgar, espera que Portugal cresça 1,8% em 2007, mais 0,3 pontos do que a previsão de Novembro.

A instituição, que agrega as trinta economias mais desenvolvidas, dá também sinais positivos na frente orçamental: espera que o Governo consiga um défice orçamental de 3,3% do PIB, valor que compara com os 3,7% divulgados no final do ano passado. Para isso, estima que o consumo público recue 1%, três vezes o valor estimado há seis meses.

Apesar do aumento de desemprego no início do ano, a OCDE acredita que o ano irá fechar com uma taxa média de desemprego de 7,6%, o mesmo que a estimativa oficial do Governo.

Apesar de um abrandamento face ao ano passado, o bom momento das exportações deverá continuar, ao que se deverá juntar um abrandamento das importações. O resultado será uma contribuição líquida do comércio externo de 0,9 pontos percentuais. No ano passado a contribuição foi de 1 pp.


Inocência ajuramentada

O autor deste texto, publicado no Semanário Económico, é o jornalista Rui Peres Jorge dos quadros do jornal. Não fui eu quem foi à tigela da marmelada, juro. Muito menos inventei os números da OCDE.

Conheço relativamente bem a Organização, já estive por várias vezes na sua sede em Paris, participei ali, até em discussões de trabalho. O que não me foi difícil, muito menos representa mérito próprio. O cargo de Assessor do falecido Sousa Franco, então Ministro das Finanças, foi justificativo natural para tais cometimentos.

Pelos vistos, já há mais de ano o escrevi neste blogue, a OCDE faz parte da cabala internacional que, sem se perceber muito bem porquê, apoia descaradamente o Governo Sócrates. Quem o diria? Aparentemente insuspeita, supostamente independente (quem o é hoje?), vai-se a ver e é um dos tentáculos da máfia que anda por este Mundo a espalhar que as coisas vão melhorando em Portugal. Não com a velocidade desejada, mas Roma e Pavia…

Suponho, assim, que São Bento (não se trata do excelente técnico leonino) anda a treinar mais uns quantos suspeitos para que se apresentem mais favoráveis à conjuntura lusa. Instituições de pouca monta - tais como a CE e o FMI – são outros dos pecadores que batem na mesma tecla. Brada aos céus não haver quem ponha cobro a estes dislates mundiais. Nem mesmo o Executivo português, imagine-se.




Com estas e outras, começo a pensar que tinha alguma razão, pequenina embora, quando aqui escrevi, juntamente com a Eva Gaspar e outros, que a economia de Portugal já não estava em coma, embora ainda não tivesse saído dos cuidados intensivos. Mas, mesmo aí, tudo indicava que passara à condição de convalescença - o que já não é mau. Os outros cresceram mais do que nós, é um facto. Mas, grão a grão…

Dos enganos vivem os escrivães, diz o ditado. Se calhar não terá sido totalmente o caso. Tal como dei a mão à palmatória, também aqui reivindico o direito à correcção – ainda que diminuta. O que, em termos processuais, poderia ser uma inocência ajuramentada. Que não existe – mas fica bem. O futebolista João Pinto, o do FCP, ora treinador, fez uma afirmação que já entrou na panóplia do calino: Prognósticos, só no fim do jogo.
A.F.

quinta-feira, maio 24, 2007




À RODA DOS DIAS

Maio





Maria Lúcia Garcia Marques
M
ês de Maio, mês de Maria. Era assim na minha infância. Minha Mãe rezava o terço todas as noites do mês com quem quisesse acompanhá-la. Eu sentava-me numa cadeirinha baixa, lá no quartinho dos fundos onde minha Mãe armara um pequeno oratório, e ficava a vê-la, na obscuridade recolhida, desfiando o seu terço de contas de vidro que balançavam suavemente ao movimento dos seus dedos lindos. A luz mansa duma lamparina de azeite punha reflexos ondulantes no rosto duma imagem de Nossa Senhora das Graças. Duas jarrinhas minúsculas com raminhos de gipsofila, dois candelabros de prata com suas velinhas de chama simétrica.

Não era um acto de adoração. Era um gesto simples de filial devoção, de piedade familiar, no verdadeiro e ancestral sentido que os romanos davam ao termo pietas e à celebração dos deuses lares. Rezava-se pela paz – minha Mãe vivera as duas guerras mundiais – pela saúde da família, pelos estudos dos meninos, por alguma outra intenção mais particular (lembro-me de termos rezado pela vitória da equipa de que meu irmão era fã ...).

Terminava-se com a recitação da ladainha em louvor da Virgem Maria e ainda lembro o encantamento que algumas invocações deixaram no meu espírito infantil: mãe amável ..., virgem prudentíssima ..., rosa mística ..., torre de marfim ..., estrela da manhã ..., rainha da paz ...

No embalo da longa enumeração, éramos mulheres zelosas pelo bom fim de seus cuidados. Mulheres de trabalho nos seus diversos estatutos e idades. Na mesma cadência de deveres e de desejos que, bastante mais tarde, viria a encontrar nas palavras sofridas de Maria Velho da Costa, em Revolução e Mulheres (1976):
Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume ...
Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde ...
Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra ...

Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

Elas, sempre Elas na frente da luta, subindo e descendo a(s) “Calçada(s) de Carriche” deste mundo, nesse barómetro da vida d´Elas que António Gedeão tão bem soube graduar.
Ela(s) – Maria(s). O nome de mulher mais usado em Portugal. Que a História fixa: Marias – rainhas, Maria(s) da Fonte, Maria(s) Madalena(s). Ou que a linguagem popular aproveita: maria-rapaz, maria-cachucha, maria-mijona, maria-vai-com-as-outras, mariazinha-pé-de-salsa ...

E, a propósito desta última, uma historinha alegre que guardo no coração: era eu adolescente, magricela e “acneica”, vivendo no sobressalto de crescer e ser mulher (fundamentalmente apenas à espera de que dessem por mim ...), estreei umas meias novas, no “grito da moda”. Altas. Verdes-bandeira. Perna fina e pé ligeiro, livros abraçados ao peito, saia rodada apertadinha na cintura (verdadeiramente “de vespa” ...), lá ia eu rumo à lição de francês. Num passo corridinho – mai-las minhas meias verdes – pela borda do passeio. Foi quando cruzei um rapazola, “boina maruja ao lado/louca madeixa ao vento” (cito de cor Pedro Homem de Mello), que, de riso largo e olho aceso, me atirou: Olá, Mariazinha pé-de-salsa!

Ele vira as minhas meias de eleição! Indiferente se estava a gozar. Ele vira-me! ... Ainda hoje me rio de consolação! Mês de Maio, mês de Maria, mês das Marias, e, já agora - porque não? - das mariazinhas-pé-de-salsa, que também são gente!

quarta-feira, maio 23, 2007





Nome de gente

Antunes Ferreira
Podia ter sido completamente diferente se o sacana do padre não estivesse perdido de bêbado durante o meu baptizado. Diz quem assistiu que até ia caindo na pia baptismal, por mor de um bordo que levou o sacristão Josué de cangalhas. Se este não se tivesse encostado à parede e deitado a mão à batina do missionário teria sido o bom e o bonito.

Eu te baptizooo, soluço, em nome do Pppai, do Filho e do ‘Sprito, soluço, Santoooo. Com muitos arranques à mistura, língua entaramelada, arrotos repetidos. Os assistentes cochichavam aiué, o gajo está mesmo enrolado, manos, talvez bangasumo (1), talvez vinho de capacete, talvez uísque SBELL, quem sabe se não uma 1920, uma Mosca ou um Constantino, a fama que vem de longe. Houve até patrício que falou em cadingolo (2) ou quissângue (3), mas mandaram lhe calar. Aka!

O certo é que o oficiante, independentemente da dimensão da carraspana, decidiu que me havia de chamar Luís Miguel. Era um aficionado pelos touros e adorava, como mais tarde vim a saber porque me explicaram, o espanhol Luís Miguel Dominguín, toureiro de raça que casaria com a actriz italiana Lúcia Bosé. Vá lá, só fiquei com os dois primeiros nomes aos quais acrescentou de Carvalho, apelido dele, padre.

Os presentes pensaram que a coisa estava completa, até a Nha Júlia comentou em voz alta, nome bonito esse, nome de branco que fica bem também no preto. Mas o cura, entre gargolejos e em risco de adornar, não foi nisso. Toma. Juntou-lhe Hulatamba, do padrinho, vindo do quimbo para assistir na cerimónia.


Por causa do filho das putas fiquei sendo Luís Miguel de Carvalho Hulatamba. Nome esquisito, mais parece de mulato, porque mistura branco e preto. Quando fui na tropa, no RIL, pedi para que me mudassem o nome no cartão militar. Que nada, resmungou o Capitão Mascarenhas, goês de Pondá. Que no bilhete civil estava assim, assim ficava.

Hulatamba Perneta

No mato me chamavam só de Hulatamba. E eu que queria ser apenas Luís Miguel de Carvalho, sem sombra de matador – nem na mata, nem na arena - , nunca me habituei naquela coisa. Estúpido sacerdote, esse branco, além de burro e matumbo (4), gago e malcriado. Fui ferido na Pedra do Feitiço, me retiraram no Hospital Militar de Luanda, fiquei com a perna esquerda mais curta do que a direita, pela operação. E logo, Hulatamba Perneta. Para o que um homem está guardado.

Então, passaram anos, chegou a independência, esperança nova, a ver no que dava. Guerra. Acordos do Alvor e outros…Tudo se envolveu na porrada mais dura. Eu tentei passar ao lado, mas não dava, Outros andavam no capiango (5). Eu não era pra isso. Coisas da pessoa é mesmo da pessoa, não dá nem pra roubar. Na base do esquema, me desenrascava. Solteiro era, solteiro fiquei, umas meninas, namoradinhas, casar? Vai no tuje (6)!

Uma tarde, na rampa do liceu, me encontrou o Francisco Kalungo, meu colega na escola da dona Mariquinhas, ali junto ao Prenda, miúdo então do Quibaxe, não ia na tropa, lhe faltava um braço, desastre de motorizada na ilha, quimbanda (7) não presta. Você sabes que está a se organizar um grupo de amigos lá no Casa Branca. Grupo? Amigos? Para quê? Se eu lhe diz não contas nada a ninguém, me prometes? Lhe prometi.

Apoiar a UNITA. Já tem muita gente. Tem cabeça de pungo (8), tem chicoronho (9), tem cabinda (10), tem calcinha (11), tem bailundo (12), tem cabeça de peixe (13), tem essa gente toda. Até tem camanguista (14) de Malange. Você devias vir, mano. O Presidente Jonas lhe vai agradecer a sua ajuda. Eu anda nas lonas , espero ter melhor vida depois de ganharmos. Lhe assegurei que ia. No dia de São Nunca, à tarde.

Pópilas! (15) ‘Tava tudo estragado. Ia acabar toda a gente na porrada, nem pirão teria para comer. Muito menos moamba de capota (16) com quiabos, muito gindungo e funje de bombó (17). Jamais ia lhe ver de novo. U uekute, olongaiaua viossi viavola, diz em umbundo o provérbio: para quem traz a barriga cheia, toda goiaba tem bicho. Tudo estragado.

Meter em política, não. Política é coisa de rico ou de ambicioso de poder. Eu queria só viver em paz, ganhar para comer nem que fosse meia dúzia de bananas, ginguba (18) seca, eu sei lá o quê. Não queria puxar pelo Galo Negro, como não queria pelo Holden, nem pelo José Eduardo. Esses sim, andavam na concorrência, o Savimbi seria morto na mata. Tudo estragado.

Democracia – no Puto

Hoje vivo na Falagueira, bazei de Luanda, muita maka, muito tiro, muita confusão. Falam agora de democracia, o povo lhe aplaude, mas não sabe mesmo o que é. Democracia só aqui no Puto. Angola tem muito que aprender. Eu vivia no bicanjo (19), lá para os lados de Catete, arredor assim mais calmo que a cidade. Quando começaram na zaragata, peguei nas bicuatas (20) e comprei o bilhete do avião, só ida, volta não, e alem disso era mais barato.

No aeroporto de Luanda foi tudo complicação, só na base do esquema me safei, paguei no polícia uma grade de Cuca inteirinha. Já em Lisboa as coisas foram mais fáceis, tinha o meu BI renovado na Embaixada portuguesa, era cidadão nacional, vinha conhecer a minha terra e, se possível, ficar por cá. Não era estrangeiro, me deixaram passar, nenhum impedimento.

Mais. Fui no Distrito de Recrutamento central, tirei uma certidão do tempo de serviço em Angola (naquele tempo era nossa, do Salazar, do Portugal) três anos, quatro meses e dois dias, as horas não fixei. Com ela fui procurar emprego. Um senhor me disse para ir na obra dele, esta a construir um prédio de dez andares na Reboleira, com licença da Câmara para oito, alvará e tudo. Lhe disse que não era trolha. Ele insistiu, fui.

Comecei de transportar areia e tijolo num cangulo que aqui chamam carrinho de mão. Depois trepei no andaime, na ajuda aos pedreiros e me fui habituando a pegar na colher e a usar ela. O mestre que se chama Fernandes me disse que eu tinha habilidade para esticar a massa e levantar paredes. E assim foi.

Daí a estucador foi um pulo. Outro fez-me chegar a apontador de obra. E mais outro a encarregado. Poucos meses depois, o Senhor Álvaro Fernandes me convidou para mestre-de-obras e me deu sociedade, o que aceitei. Entretanto ia catrapiscando uma menina cafusa (21) de maminhas empinadas, bicos castanhos, carapinha em cima, carapinha em baixo e bunda pequena, o que não sendo normal em africana, ainda que clara, me atraiu definitivamente. Casámos de papel e tudo. Na igreja e no registo. Em dois anos e meio, dois filhos. Hoje são seis, um morreu no parto, escapou a mãe. E oito netos. Suku onene. Deus é grande.

A minha princesinha

Tenho a minha casa, uma vivenda boa, eu lhe construí com as minhas mãos e a ajuda dos amigos.



Vou nos sessenta e poucos. A carapinha salpicada de pimenta e sal. O bigode também está embranquecer. Os filhos e as famílias estão muito bem. Os netos são uma perdição, principalmente a Carla, com sete anos, avô vamos ao futebol? Vamos. Como essa menina, Deus a cubra de bênçãos, sabe do Estrela da Amadora – e dos outros!

O pai dela, o meu filho Arnaldo jogou no Belenenses, era ainda um puto, ponta-de-lança, cada vez há menos, mas uma lesão no menisco lhe impediu de continuar uma carreira que se antevia muito boa. A minha princesinha não jogou, mas sabe muuuiiiito. Uakuata kessindê kandi lovava, também se diz em umbundo. Mas tem igual em português: filho de peixe sabe nadar.

Ludovina, a Vina, minha mulher, já nascida cá no Puto, natural da Cova da Piedade, disse-me que gostava de ir em Luanda, conhecer Angola, os pais eram de lá, está com cinquenta e picos, mais picos que cinquenta, queria lhe dar essa alegria. Euros, tenho. Mas não tenho vontade, não tenho desejo. Um dia será, quem sabe quando…

Uma informação, só: agora continuo a me chamar Luís Miguel de Carvalho Hulatamba. Na Conservatória dos Registos Centrais me disseram, ainda ontem, quando lá fui pela vez trinta ou mais, que para mudar o nome tem de ter novos padrinhos, certidões muitas, declarações ainda mais. Reparem só. A minha Carla é só de Carvalho. E os outros também. Hulatamba não tem. Só eu.

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(1) «Vinho» de abacaxi
(2) Aguardente de palma
(3) Aguardente de milho
(4) Provinciano, saloio
(5) Roubo, andar a roubar
(6) Vai à merda
(7) Feiticeiro, curandeiro
(8) Natural da Gabela
(9) Natural da Huila (Sá da Bandeira)
(10) Natural de Cabinda
(11) Natural de Luanda, emproado
(12) Natural do Sul
(13) Natural de Moçâmedes
(14) Traficante de diamantes (camango), especialmente de Malange
(15) Porra! Chiça!
(16) Galinha do mato
(17) Mandioca
(18) Amendoim
(19) Biscates
(20) Bagagens
(21) Preta muito clara

terça-feira, maio 22, 2007




Campanha pelo direito à vida…

... dos que morrem na Palestina, no Iraque, na América Latina, em África, na maioria dos países asiáticos. Que morrem e morreram vítimas da destruição das suas economias pelo capitalismo galopante, esclavagista e agora globalizante nos seus tentáculos. Pelas crianças que nasceram condenadas à subnutrição, pelas pessoas vítimas dos bombardeamentos e das guerras porque o fabrico e venda de armamento é um negócio para dar dinheiro aos grandes accionistas. Pelas vítimas do desemprego, da negação do direito ao trabalho e à felicidade. Pelas vítimas dos embargos económicos, hoje decretados pelos EUA, ou dos embargos da poderosa indústria farmacêutica. Pelas vítimas das perseguições religiosas pretensamente feitas hoje pelos muçulmanos, outrora tolerantes, e ontem e hoje pelas igrejas cristãs e as guerras em seu nome, incluindo a intolerante e misógena igreja católica apostólica românica, com os seus autos de fé e menosprezo pelas mulheres, durante séculos consideradas seres sem alma. Pelo direito à vida de todos nós, mesmo daqueles que não questionam nem fazem por mudar um sistema de organização da sociedade baseado em princípios egoístas e predadores, conducente à destruição da vida neste planeta, paulatinamente levada a cabo nos seus poucos séculos de existência face aos milhões de anos de existência de vida na Terra.

Porque o direito à vida não é apenas o direito a nascer. É o direito a viver em harmonia com a natureza e com os restantes seres vivos, com dignidade, com saúde, com inteligência, sem subordinação a senhoritos/as e seus capatazes e homens/mulheres de mão, bem ou mal cheirosos e vestidos com maior ou menor elegância, por cima da mentira e da miséria de milhões de seres subjugados e alienados. O direito à vida não é o direito a vegetar!

Victor Nogueira (no seu blogue Kantoximpi.blogspot.com)

NE - O Victor Nogueira é um homem fixe. Temos opiniões políticas diferentes - mas que é isso? Nada nos impede de sermos amigos, trocarmos opiniões e por aí adiante. Vai mandando umas novas que sempre registo com muito agrado. Este texto que hoje aqui publico está inserido, tal como acima digo, no seu blogue o Kantoximpi. Gostei muito dele. Por isso ele aqui está. A.F.


HISTÓRIAS DA PJ

Os casos de crime e mistério acordam sempre o mais vivo interesse e servem de alimento à voracidade do público e à veia de detectives que, todos nós, com maior ou menor sentido crítico, acreditamos possuir.
Diria mesmo que, de detectives, para além de médicos e de loucos, todos temos um pouco. E há momento em que isso se torna particularmente evidente, como aquele que vivemos, com o trágico desaparecimento da pequena Maddie McCann.
O facto trouxe-me à memória um caso que, enquanto Inspector da PJ, responsável por uma Secção de Investigação de Homicídios, me coube em sorte investigar já lá vão mais de 37 anos.
Também se tratou do misterioso desaparecimento de um cidadão anglo-saxónico, ocorrido no Estoril, a zona mais turística e cosmopolita do Portugal de então. As investigações desenvolveram-se num microcosmos constituído por estrangeiros de várias nacionalidades, residentes na Costa do Sol, com hábitos, costumes, culturas e sensibilidades distintas e nem sempre fáceis de entender. Também teve uma assinalável repercussão mediática, obviamente, à medida e nas circunstâncias próprias do tempo.
No entanto, as semelhanças entre os dois desaparecimentos ficaram por aqui. A criminalidade, nos começos da década de setenta, era muito diferente da que actualmente existe – menos organizada, sem recurso às actuais tecnologias e sem a intervenção de redes internacionais, a criminalidade violenta era, ao tempo, fruto essencialmente da acção de delinquentes primários, isto é, sem antecedentes criminais, com motivações muitas vezes passionais.
Vale a pena contar.
JAGM


What happened to Mr. Hood?

(1ª parte)

José Augusto Garcia Marques
R
oy Hood (nome fictício, bem como todos os restantes) era um cidadão australiano, de cerca de 65 anos, pintor, homossexual. Vivia numa dependência nos jardins de um casa apalaçada do Estoril. Ali instalara com bom gosto e conforto a residência e o “atelier”.

Pode dizer-se que Mr Hood tinha uma vida dupla: por um lado, tinha a sua convivência social normal, própria de um homem educado e culto, nomeadamente, com casais estrangeiros residentes no Estoril ou em Cascais, ou com outros indivíduos solteiros, mais ou menos de idade próxima da sua, ligados a negócios de antiguidades, à literatura ou às artes. Por outro, tinha a sua vida sexual, vivida com discrição, com rapazes da zona.

O desaparecimento ocorreu num dos primeiros dias de Fevereiro de 1970. Entretanto, quatro ou cinco dias depois, apareceu, na praia de Carcavelos, o corpo nu de um homem careca, apenas com uns sapatos de camurça calçados. Fora avistado por um pescador que o arrastou para a praia, tendo-lhe atado uma corda aos tornozelos e colocado uma pedra pesada sobre a corda, a fim de evitar que o mar, com a forte ondulação de Inverno, o arrastasse de novo para dentro.

Tratava-se de uma prática corrente. Só que os jornalistas que acorreram ao local, desconhecedores da “técnica” utilizada pelo pescador, deram a notícia do aparecimento de um corpo despido, com uma pedra atada aos pés por uma corda. Mais descreveram o corpo, tal como o viram, como de um indivíduo calvo, com um abdómen volumoso, de idade difícil de definir, atento o estado do rosto, em parte comido pelos peixes. Ora, a verdade é que Roy Hood tinha uma farta cabeleira branca e mantinha uma invejável forma física para a sua idade, não tendo particulares adiposidades.

Chamados a identificar o corpo, o jardineiro do Palácio e a empregada de limpeza da casa de Mr. Hood, não o reconheceram como o do pintor australiano. Não era, porém, essa a convicção da Polícia Judiciária. Com a contribuição preciosa da Medicina Legal, concluiu-se, sem margem para dúvidas, de que se tratava efectivamente do desaparecido. Para isso, começaram por se recolher impressões digitais em objectos pessoais colocados sobre o toucador do quarto do Roy Hood. Em seguida, cortou-se um dedo ao cadáver, tendo-se-lhe retirado a pele, a qual, em face do estado em que se encontrava em virtude da longa permanência no mar, foi tratada em laboratório da forma mais conveniente. Comparadas as impressões digitais recolhidas nos objectos e as impressões digitais da pele do dedo, verificou-se haver uma coincidência absoluta.

Todavia, ainda assim, sempre, em teoria, se poderia dizer que não ficava excluída a hipótese de se tratar de uma visita da casa do pintor australiano, com acesso aos frascos de perfume e aos demais objectos encontrados no toucador. As dúvidas que pudessem subsistir foram dissipadas, quando, numa caixa guardada na mesinha de cabeceira se encontrou uma prótese dentária. De início, o médico legista ficou surpreendido com o achado, uma vez que, na autópsia não dera pela falta de dentes na boca do cadáver. Voltou-se, por isso, ao necrotério do cemitério de Cascais, onde o corpo ainda permanecia e rapidamente se constatou que, na boca, havia uma prótese exactamente igual à que fora encontrada em casa. Tratava-se, afinal, de um duplicado da prótese dentária.

Perante a conclusão indiscutível de que se tratava do corpo do Roy Hood, qual a explicação para as alterações encontradas no corpo? A resposta era simples: tratava-se de consequências resultantes da imersão durante alguns dias no mar e da acção dos peixes. Daí a perda do cabelo em grande parte da cabeça e o volume do ventre, inchado em virtude dessa permanência na água.

Importava, assim, apurar as circunstâncias em que ocorrera a morte do pintor.
Iniciou-se um árduo trabalho de investigação. Em casa da vítima foi encontrada uma agenda de bolso, na qual ele ia anotando, na data respectiva, e ad memoriam, algum compromisso para o dia em referência, bem como, a título de diário elementar, acrescentava algum breve comentário, depois da ocorrência do evento ou no fim do dia. Ora, na data correspondente ao dia do seu desaparecimento, tinha apenas escrito, na agenda, o nome “Ernani”. Assim mesmo, sem H.

Por outro lado, analisada a agenda, havia nomes muitas vezes repetidos, entre os quais o de um tal “James Wallace”. Muito raramente, aparecia também a referência a um outro James – “James Taylor”. O certo é que, quando apenas falava em “James”, Mr. Hood queria referir-se ao “James Wallace”. Tratava-se de um dramaturgo de nacionalidade britânica, também residente na Costa do Sol, sensivelmente da mesma idade do Roy Hood e também homossexual. A última vez em que o nome “James” era mencionado na agenda era muitos poucos dias antes do desaparecimento do pintor, num jantar em casa de um casal suiço, residente no Estoril. Da agenda constava, mais ou menos, o seguinte: “Jantar em casa de (nome do casal). Estará presente o James”.

Na impossibilidade de se identificar, desde logo, o “Ernani”, localizámos e fomos buscar o “James Wallace”, para ser interrogado na PJ. Isto aconteceu numa terça feira de Carnaval: as instalações estavam mais sossegadas e podíamos dedicar-nos com total tranquilidade ao tratamento do caso.

Perguntado acerca do último dia em que tinha estado com o Roy Hood, o “James Wallace” disse que isso acontecera há quase um mês, antes de ele ter ido a Sevilha de onde acabava de regressar. Ficámos naturalmente surpreendidos. Seguro das informações da agenda, disse-lhe que ele estava a mentir. O interrogado, homem fino e intelectualmente dotado, corou e respondeu-me que estava a dizer a verdade. Insisti uma ou duas vezes, com alguma veemência. A reacção foi sempre a mesma. Sem se alterar, o Senhor “James Wallace” parecia perplexo com a minha insistência e ia respondendo que estava certo de que não mais vira o Roy Hood desde há quase um mês.

Tomei, logo ali, a decisão de tentar localizar a residência onde tinha decorrido o jantar a que o Mr. Hood se referia. A tarefa não foi difícil. Resolvi ser eu próprio a falar com a dona da casa, que preferiu falar em inglês, quando soube que era da PJ. Perguntei-lhe se, na data em causa, Mr. Hood tinha sido seu convidado num jantar que oferecera em sua casa. Tendo-me respondido afirmativamente, perguntei-lhe se, nesse jantar, não tinha estado também presente o “James”. Mais uma vez me respondeu afirmativamente.

- “James” quê?, perguntei eu, de novo.
- Do outro lado do fio, ouço então: “James Taylor”.
- “Então não era o James Wallace?”
- “Não, o James Wallace nem sequer estava no País, penso que estava em Espanha”.
Agradeci e desliguei.

Voltei à sala onde decorria o interrogatório. O inglês, sempre dominado, estava, no entanto, visivelmente ansioso. Pedi-lhe desculpa e expliquei-lhe o sucedido, bem como a razão da minha teimosa insistência. Disse-me então, aliviado, que não era de admirar que, quando falasse apenas em “James”, o Roy Hood se referisse a ele e não ao “Taylor”, com quem tinha uma convivência muito menos assídua.

Mas estamos sempre a aprender. E é bem verdade que não há regra sem excepção. E, na agenda do pintor morto, a excepção – a única excepção, como constatámos depois – era aquela. Em todos os restantes casos, sempre que falava (apenas) em “James”, referia-se (sempre) ao “James Wallace”. Aproveitámos para lhe perguntar se conhecia algum “Ernani”. Respondeu-nos que não e que desconhecia as actuais companhias íntimas do Roy Hood.

Mas aquela terça feira gorda era definitivamente o nosso dia da sorte. Não passaram muitos minutos sem que me chamassem de novo ao telefone. Era uma outra senhora estrangeira residente em Cascais. Confirmou a minha identidade – ao tempo muito divulgada pela Imprensa – e disse-me que pensava que o “Ernani” de que os jornais falavam era criado lá em casa. Obtido o endereço, partimos para lá, num único carro, eu, o Chefe de Brigada e dois agentes, um dos quais motorista. Depois de batermos à porta, veio abrir um jovem que logo se anunciou:
- “Eu é que sou o Hernâni”.

(continua)