sábado, dezembro 16, 2006

NATALADAS


Pai – 2, Menino – 1

Antunes Ferreira
Peço desde já um subido obséquio da vossa parte: a «Dona» Catarina Salgado não tem nada a ver com estas linhas. E já que estou com a mão na massa, muito menos tem o Apito Doirado. Singular coincidência – mão na massa. Palavra que não passa disso mesmo. Torcem o nariz? Pois que o torçam, porque assuntos como estes dois últimos cheiram tão mal – mal? Péssimo – que não viriam emporcalhar estas honestas páginas. Presunção e água benta.

O título pode também indiciar que se passa algo no seio do Conselho de Administração celestial, vulgo Santíssima Trindade. Desminto. Não se trata desse pai, muito menos do filho dele, e o Banco Espírito Santo não é para aqui chamado. Nos tempos da antiga senhora, havia um dito publicitário que rezava: nada de confusões; ruas prós automóveis, passeios prós peões.

No entanto, e para actualizar tais congeminações, hoje há que dizer: nada de confusões; passeios prós automóveis, ruas para os peões. Assim é que está correcto. No caso vertente da capital, o Senhor Carmona que se desengome. Alto lá: não se refere o dinossauro marechal, cuja estatura de capinha viveu largos anos no Campo Grande, nem pó.

O citado é o actual «Presidente» da CML, o Rodrigues que começa a concitar em seu redor uma unanimidade, caso cada vez mais raro. E que respeita à sua qualificação como o pior chefe camarário da cidade ulissiponense, desde o tempo da conquista aos infiéis, obra do rei Afonso Henriques e que deu notoriedade ao Martim Moniz.

Pelas ruas da amargura

Mau. O da porta, está visto, o que deu o nome à praça, que está cada vez mais desacreditada, pois a singularidade da fauna que a povoa está, também, cada vez mais pelas ruas da amargura. Idiossincrasias. O local, verdadeira antecâmara (não escrevi anti Câmara, acentuo) do Intendente que lhe fica um tanto mais acima, à direita de quem sobe, é sobejamente conhecido e dispensa mais quaisquer comentários.

Não tem nada a ver com o Moniz que é mais TVI e Manuela. Nem com o share. Óbvio. Peço, portanto que façam o obséquio de não encontrar aqui qualquer desfasamento secular, muito menos ferrabódó histórico, daqueles que, nem com a famigerada advertência «organizem-se!!!», são destrinçáveis, mesmo seguindo o salutar exemplo do nó górdio.

Basta de paleio prolegómenico para encher pneus. Vá o escriba ao cerne da questão, de caras, nunca de cernelha. Ainda se fora no renovadíssimo Campo Pequeno, passava. Porem, não é o caso. Um aparte: gosto desta adversativa, muito mais do que o prosaico mas, ou o insidioso todavia, ou o calino não só, muito menos o prosaico mas também.

Vejamos. O resultado que se pode ler no título não tem nada que o relacione com o que está até aqui escrito. E então? Que sacana de brincadeira é esta? Menos galhofa e mais resultados. A falta de produtividade é uma pecha dos lusos. E se ainda restam uns quantos que trabalham e vêem o seu fruto, a esmagadora maioria diz que trabalha que se desunha e, quanto a fruto, são mais maçã reineta.

Pinhões e árbitros

Como assim? Vem ou não vem a elucidação sobre a parangona? É pra já. De mais, estamos em plenas festas, amêndoas, nozes e avelãs, passas de uva, até mesmo umas alcagoitas. Pinhão já era, está caríssimo, sobretudo no Canal Caveira. Enquanto foi encarecendo – e dada a especial situação e frequência do poiso à beira da estrada – foram os árbitros embaratecendo-se. Donde, o Santana é que sabia da poda. Pelos vistos – já não.

Estes juízes com apito, esclareça-se, também não têm nenhum hífen com o tema. Outro tanto se pode dizer dos da toga, aliás proibidos recentemente de se meterem em tais futebois. Mas, ressalve-se que a lista única para a FPF, ainda que tenha como mandatário nacional o Senhor Luiz Felipe Scolari, pode incluir para efeitos jurídicos e disciplinares três indigitados no supracitado Doirado.

As festas desejam-se boas, assim como próspero se almeja para o ano novo. Os cartões com sinos e coroas verdes com bagas vermelhas subsistem. Mas os virtuais, electronicamente informáticos estão mais na moda. Âpetudeite. Mandar os desejos da quadra ciberneticamente é naice. Mais dia, menos dia, ainda vamos recebê-los oriundos dos carteiros, de um que outro guarda-nocturno, eu sei lá.



Tudo visto, chego ao âmago da questão. Destaco dos respectivos onzes os seus capitães, braçadeira comprovante. No prélio natalício hodierno – também me apraz este vocábulo, ao invés de quotidiano que, ainda por cima, rima com piano – raros são os putos que pensam que é o Menino o portador das prendas. De resto, as palhinhas já deram o que tinham a dar. E as manjedouras, em vias de extinção. Para uns, não para outros. Logo: Menino – 1 (e já vai com sorte).



Outros, tibios, ingénuos, ainda uns quantos, estão mais inclinados para que seja o Pai, obviamente Natal. O vermelho, a barriga, o barrete são características no Mundo de hoje. Já as chaminés, enfim. Renas só mais para o Norte, exceptuando o senhor Rio, Rui, as Astúrias e assim, Finlândia & Irmãos, Limitada. Mas saco bojudo, esse, é impossível. Ou estamos em crise – ou não estamos, como diria o Senhor Paulo Bento. Daí que: Pai – 2 (por enquanto).

Quem quiser que acredite. Na estória e no Pai Natal. E, já agora, no coelhinho da Páscoa.

quinta-feira, dezembro 14, 2006





Se calhar…
Antunes Ferreira
Raios ainda riscam o céu negro como um tição. O ribombar dos trovões afasta-se, enquanto as bátegas vão esmorecendo, a caminho de uma pingadeira idiota. Na rua há heróis que se aventuram à tormenta a desfazer-se. Silhuetas difusas, embiocadas em gabardinas ou sobretudos, um que outro guarda-chuva.

Ricardo tudo mira por detrás da vidraça embaciada. Daí a seis dias é Natal. Ainda hoje ao almoço, ouviu o pai a comentar que agora já não era nem nada. Os putos fazem as listas do que querem e discutem preços apontados nas folhas policromas dos folhetos das grandes superfícies. Engenheiro de informática, ele sempre foi um tanto assim. Ricardo só tem dez anos, mas entende. E lembra.

No nosso tempo, as criadas saíam com a miudagem para a rua para que o menino viesse deixar as prendas. Eram os pais, os avós, os tios que se encarregavam de deixar os embrulhos ao pé da árvore, verdadeira. O infante horas antes nascido em Belém não nos dava folga. Bem tentávamos espreitá-lo, mas o gajo era espertalhaço, trocava-nos as voltas. Nos dias que vão correndo, já nem no Pai Natal, ersatz vindo das terras nórdicas há quem acredite.

A mãe espera um irmão para ele, já se comenta lá em casa que era muito giro ele nascer a 24. A ecografia disse que era um rapaz. O pai também comentou que já nem havia o gozo do mistério e da expectativa. É como o Google, disse, sabe-se tudo.

Mas o Ricardo tem uma consolação. No Natal, vêem os primos é a grande galhofa, brincadeira total. Ao desfolhar as ofertas, então, é um festival. Vale tido, minha gente. Rebolam-se de alegria.

E, de repente, dá por si a matutar numa coisa realmente estranha. Não percebe bem porquê, mas o Carlos, o miúdo filho do porteiro, não alinha nessas cenas. Também, há que dizê-lo, a madrasta não lhe dá muita corda. Dá-lhe, sim, porrada, sempre. E, quem sabe, se calhar, ainda que só tenha completado os oito anitos - não tem espírito natalício.


NATALADAS

Os dois textos que aqui publico (um acime e outro de seguida) serão publicados no Suplemento Natalício, de 21 deste mês, do «Notícias de Viseu», o semanário com maior audiência e divulgação no distrito de Viseu. Resumindo: o mais importante daquela zona. Foram-me pedidos pela correspondente deste blog, a Cláudia Pereira, que dirige os serviços comerciais do jornal. Quase me arriscaria a dizer a virtual correspondente, já que a jovem nunca mais veio a estas páginas. Espero que se emende.

Ora bem, dado que alguns Amigos & correlativos, SARL me pediam para que fosse publicando ao longo da quadra uns papeis alusivos, e porque as maleitas que me apoquentaram ainda não estão completamente vencidas, mas para lá caminham, pedi à ilustre publicitária que me fosse autorizada a publicação antecipada das estorinhas. A preguiça também contou. Em comparação com o «Notícias de Viseu» este blog é igual a zero vírgula um. E então se compararmos os que ainda deitam os olhos pelo Travessa e os leitores viseenses - ni hablar como dicen nuestros vecinos ibericos.

Na volta do correio electrónico veio um nihil obstat - imprimatur simpático e permissivo, assinado pela Cláudia. (NB - Passados os coscorões e o espumante, terá de vir também um texto com regularidade. É uma ordem). Espero que aguentem as linhas. E que se iluminem. Para apagado - estou eu. A.F.



As Festas do Senhor

Antunes Ferreira
Tempo complicado, o das Festas. As prendas estão pelas horas da morte, donde o recurso à loja do Senhor Ping Fei, ex-camarada, quase ao lado do Restaurante Flor de Lótus, do Senhor Wang Deng, ex-camarada. Essas expressões pretensamente igualitárias quedaram-se na RPC. Aqui, camarada já foi.

Os agentes de distribuição domiciliária da CMD, a correspondência mais diversa, a que na longa e escura noite chamávamos carteiros, já voltaram a apresentar, por cartão, as Boas Festas a V. Ex.ª e à sua Excelentíssima Família (não vá o diabo tecê-las). O complemento ao subsídio de Natal é implícito e inevitável. Tenho de pensar numa coisa destas, já agora mensal.

O plástico dos pinheiros está estandardizado por alíneas correspondentes à categoria arbórea. Registada em banda, dá logo o preço nas caixas registadoras. Juntem-se as bolas coloridas, ainda que inquebráveis, as gambiarras de luzinhas, e o spray da neve artificial e – Senhor Ping Fei.

Até o presépio de resina sintética o antigo camarada tem. E nem que os motivos religiosos sejam ponderosos e legítimos, há que encarar a questão de frente, ir às palhinhas e pegar a vaquinha do Menino pelos cornos: Ping Fei.

Quanto a perus, estamos conversados. Nada. Antes um pato do Restaurante Flor de Lótus, do Senhor Wang Deng que já foi camarada. Anote-se que o estabelecimento já foi vistoriado pelas brigadas competentes e nada encontrado que pudesse ser desabonatório. Pois seja pato. De preferência à Pequim. Em Cantão, dizem que não, em Xenin dizem que sim e em Pequim dizem que – nim.

É bom recordar que na montra do Flor de Lótus está colado a fita transparente, chinesa, um anúncio: Plessizasse cuzinheilo xinez. Çalálio minino nassional, ólálio: oito dias pol çemana, 18 holas e picos. Justamente após a acção fiscalizadora. Coincidência, comenta quem sabe. E logo com a Natividade aqui tão perto.

O Natal já não é a festa da família; é a festa do Senhor Ping Fei, ex-camarada.

sábado, dezembro 09, 2006



TECLADO QWERT

O pudim do Abade

Antunes Ferreira
Restaurante. Um grupo de senhores ligados ao foro despacha com a brevidade possível um almoço frugal, dada a escassez do tempo para deglutir. A audiência, interrompida há pouco, para esse debicanço quase espartano, vai recomeçar dentro de uma escassa meia hora – bem espremida. Abundam as sandes salvadoras e os sumos - para prevenir a sessão da tarde que se antevê longa e quiçá um tanto sonolenta.

Os empregados de mesa franzem os narizes. Tanto doutor junto, toga debaixo do braço e pasta a preceito, e a montanha está a parir um rato. Despesa de merda, confidenciam, não tão sussuradamente quanto é uso utilizar em tais ocasiões. Unhas-de-fome, judeus, avarentos são outros vocábulos entre dentes que correm entre travessas episódicas e pedidos tímidos.

Sentado a uma mesa, um causídico dá-se a destoar dos restantes. Receita uma suculenta omoleta de camarão e um branco seco bem fresco com o frapê enfiado na garrafa, há quem lhe chame gabardina com ar condicionado; outros mais afoitos e menos comedidos dizem que o artefacto é uma camisinha com a Vénus enregelada. Expressões.

E a tortilha que seja frita em azeite, com cebola e pimenta, alem do sal, naturalmente. E venha com picles, mais pepino que couve-flor, azeitonas verdes, de preferência pisadas e temperadas com azeite e sal, se tivessem uns coentros migadinhos eram de estalo. Já agora que há arroz de ervilhas, acompanhe com umas batatinhas fritas, às rodelas.

Os colegas de tribunal e de repasto, para eles sumário, ao contrário do processo que talvez nem se resolva na tarde que se antevê, pasmam e miram. Se assim acontece, é uma porra, porque assim, alguns, bastantes, terão de se meter à auto-estrada, portagens e marmeladas dessas, para voltarem no dia seguinte, uma seca, e para isso se está aqui a passar malzinho, pão com fiambre e queijo fatiado não é proposta que se coma.



Comida de plástico

Ainda se fora de presunto pata negra de Barrancos e queijo de Manteigas obviamente amanteigado, vá que não vá, em tempo de guerra não se limpam armas. Mas esta comida de plástico não vale a ponta de um chavo, quem sabe mesmo se não terá produtos incorporados daqueles que se diz que são cancerígenos. Ou transgénicos, apesar das normas europeias, aliás para o que lhes havia de dar. Aos tipos de Bruxelas, claro.

Os «outros» entreolham-se. Aquele colega não terá horário? Acaso o meritíssimo o dispensou do início da sessão? Se calhar só está como representante de parte interessada, tem tempo, está-se nas tintas para os ponteiros do relógio, que se lixem. Há malta assim, já nasceu com o cu virado para a Lua. É um pouco como o pilim que se tem. Para uns é macho, só se gasta; para outros é fêmea, cresce na carteira, espontâneo, que nem regado.

Há-de haver ali qualquer artimanha, lá isso há. Um comenta que uns são filhos e outros enteados, ao que um colega acentua que os homens são todos iguais, só que uns são mais iguais do que os outros. No entretanto, abocanham raivosos os pães recheados de coisas aparentemente insossas. Raio de sorte. O queijo nem de bola é; é fod, perdão, fundido.

Migalhas amontoam-se no balcão onde a esmagadora maioria abanca, uns quantos de pé, copo de sumo de tomate com cenoura e abóbora, especialidade que ombreia com o de laranja e tangerina. Há um senhor doutor baixinho, de óculos redondos e aros de tartaruga baque lítica que as apanha meticulosa e conscienciosamente.

Pindéricos de pechisbeque

Existe gente para tudo. Os empregados limpam sem entusiasmo as bandejas cromadas e continuam a cochichar. Quem os vira entrar sonhara com lautas ementas, vinhos alentejanos, reserva, gorjetas boas, avultadas. Agora saem-lhes uns pindéricos, nem pedem manteiga nos pães, quem sabe se pensam que custam mais caro, pelintras. Doutores de pechisbeque.

span style="font-size:180%;color:#3333ff;">Olham desmesurada e desorbitadamente o colega refastelado à mesa, toalha branca, de tecido, guardanapo igual, com o logo do estabelecimento num canto. Invejam-no? Odeiam-no. Quando chega o servidor, guardanapo no braço à moda antiga, dos ovos evola-se um cheiro a bem fritos que é um gosto. As batatinhas loiras são um chamariz.

Vai comento pausadamente, mastigando sem pressas, sorriem-lhe os olhos, desde as papilas gustativas. Frade mais rotundo e satisfeito não é nada se comparado com o jurista. Alguém pensa onde está o auro do santo, sacana, só lhe falta mesmo a aureola. Pode ser que a tenha, certo será, mas invisível. O preparo é quase obsceno, pelo menos é um pecado. De gula e não só. Não existirá sacerdote que se preze que o vá absolver, isto para usar língua judiciária.

O homem de leis refastela-se na cadeira, pede palitos, traça a perna que dança por cima do joelho sobreposto. Vocelência quer café e digestivo, certamente. Óbvio. Mas antes, diga-me uma coisa. Os «outros», já de saída, estacam à porta giratória, expectantes. Que mais lhes irá acontecer? Porca de vida madrasta para quase todos, madrinha para os eleitos.

Aquele doce que tem ali na montra do balcão é o quê? Saiba Vocência que é pudim à Abade de Priscos, uma delícia, só de falar nele já me cresce a água na boca. E não assobio porque tenho um dente cariado e faz-me doer. É a mãezinha do patrão, a Dona Olinda que o faz com as mãozinhas dela. Caseiro, absoluta e garantidamente. Só não tem selo porque parecia mal e, alem disso, a CEE era capaz de chatear-se e chatear o senhor Marcolino. E a progenitora, quiçá.

Um espanto

Pois que seja. Para mim tem muita pinta. Avance. Já o solícito se volta em direcção ao balcão, espere aí, mais uma perguntinha. Pois não, faça-a Vocelência que eu lhe responderei se souber e puder, com muito gosto. O pessoal já nem ao ralenti parece. Parou como nos filmes, em contraplongê. Entre a hora judicial e a curiosidade, vê-se quem ganha.

O senhor empregado pode dizer-me se tem meias doses? É o espanto. Do atendedor e dos estáticos advogados e correlativos. Então o doutor, depois de um regalo daqueles, satisfação hasteada na face redonda, barriga farta, colete desabotoado, resigna-se à humílima condição da metade da fatia que se antevê lauta do pudim do Abade? Quem iria imaginar? Maricas. Tragalhadanças.

Não costumamos. Mas se Vocência assim o quer, assim o terá, garanto-lhe. E nem preciso de perguntar ao boss Marcolino. É tiro e queda. Nada, nada, meu amigo, deixe-se de maus pensamentos. O que eu quero é que me traga dose e meia.

O seu a seu dono

NA – A invenção, desta feita, não é minha, lavo daí as mãos, nunca enganei ninguém, sobretudo os que ainda têm paciência e coragem para me lerem. A história foi-me ontem contada, à mesa do almoço, uns picantes da minha Raquel, para filhos e convidados.

Destes, um casal porreiríssimo, se trata. Ou melhor, que me perdoe a Isabel (mas onde raio é que eu a conheci, se foi a primeira vez que nos vimos? Reencarnação?) mas é do amantíssimo esposo, o Miguel, que a coisa surgiu. Passo a explicar.

O Miguel Moura Elias é advogado e colabora com o meu filho Luís Carlos, ele também jurista. Trata principalmente de acidentes de viação, vejam lá para o que lhe havia de dar. Mas, no caso vertente, outra foi a participação dele neste rocambolesco episódio que foi a nossa mudança de casa. Os dois, conhecedores de códigos e regulamentos, levaram a bom termo a ciclópica tarefa – eu já ouvi isto… - e eis-nos em casa nova.

Tinham de vir conhecer o apartamento, pois que o Miguel só o descortinara na planta, em suporte de papel, portanto. E vieram. E abalançaram-se aos calores da cozinha goesa – e gostaram. Pelo menos, assim se confessaram. Foi o doutor Eira que contou a estória, entre reparos sportinguistas, dos seis à mesa só éramos leões cinco, apenas a dona de casa destoava lampionicamente. Prova provada de que ninguém é perfeito.

Por isso, o seu a seu dono. Fico, agora, aguardando que o ilustre causídico se digne colaborar neste blog. Nem precisas de convite, ó Miguel. Foste adoptado, foram adoptados que a Isabel não pode ficar de fora, mais a mais com jornalistas na família, incluindo o pai Goulão. Para casa e para o travessadoferreira.
A.F.

segunda-feira, dezembro 04, 2006




Iluminações iluminadas

Antunes Ferreira
Quanto ganha um electricista? É muito difícil de responder a uma tal questão aparentemente fútil. Se ele trabalhar por conta própria – então aí o caso torna-se impossível. Ninguém poderá avaliar, sequer, o montante auferido por tal profissional absoluta e militantemente liberal. E nestas alturas de comemorações, bolos-reis e bolos-rainhas, manjedoura e luminárias – nem falar nisso.

Alem de que um honrado trabalhador do ramo da electricidade é igualzinho a um mecânico de automóveis, a um canalizador, a um marceneiro, ou, até, a quem se dedica a outras encomendas, mesmo que em vias de extinção. É o caso dos amola tisoiras e navalhas, dos limpa-chaminés, dos biscateiros de toda a qualidade, temperamento, preparação. Só para aditar: vidraceiros, artesãos, estofadores e correlativos.

Mesmo dando a cara por outrem, o ainda chamado patrão, as coisas têm os seus contornos um tanto esmaecidos embora tudo indicasse que deveriam ser bem definidos. Tudo isto, como por certo já descortinaram, tem que ver com as relações com o Fisco. Deixemo-nos de brincadeiras e meios-termos: basta chamar um desses trabalhadores.

Antes de tudo, é preciso tirar curso e estágio de chamador desencartado. Volte-se ao exemplo inicial. Por estes tempos de grinaldas policromas, e dado que um cidadão comum e inofensivo não é muito dado à nobre arte de ligar cabos, meter caixas de derivação, apendicificar fichas machos e fichas fêmeas ou instalar tomadas de corrente, chama-se o técnico.

Aqui se inicia um jogo de gato-sapato muito pior do que qualquer roleta ou slot machine do Senhor Stanley Ho. Ainda que em ambos seja necessária sem apelo nem agravo, a sorte. Diria até imprescindível. Veja-se o caso pelo ângulo inverso, tal como acontece nos golos transmitidos pela televisão. O que é incontornável é a abstinência do azar.




Esteja descansado que depois de amanhã pelas nove horas estou em sua casa e resolvo-lhe os problemas. Veja lá, não falte, os miúdos estão a caminho das férias e querem ter a árvore pronta, senão não há Natal que resista. Ora essa, por quem é, eu também tenho filhos, disso sei eu (presume-se que ele saberá também de electricidade). Estou aí sem falta.

Não está. Recorre-se ao telemóvel. O Senhor Mindonça está para casa de um cliente. Ó minha Senhora, esse cliente sou eu. Como é que se chama? Eu? Sim o senhor. Pedro Canhoto. Abrenúncio que nome estuporado, desculpe lá, mas eu sou assim, pão-pão, queijo-queijo. Parece-me que o Mindonça não foi para aí. Mas ele prometeu-me que vinha, é por causa das iluminações…

Olhe, você pode ter muita razão, mas o Mindonça anda nas iluminações da Baixa, a fazer um biscate para a Cambra. Dá-lhe umas c’roas mais. É o meu marido e quando as coisas apertam e os miúdos…, enfim, sempre vêm mais uns euros… Óptimo, compreendo, mas ele tinha-me garantido que. Agora, trato eu do caso. O Mindonça está aí na terça-feira. Mas hoje é quinta. São só uns diazinhos. Vai ter mais luz em casa do que no auteléte de Alcochete.

Quando o Senhor Mindonça vem, após três ameaços e correspondentes abortos – mesmo ainda sem ter decorrido o referendo a 11 de Fevereiro – já é dia 21, já os putos deram cabo do juízo ao pai e à mãe, já o primeiro apanhou um choque que poderia ter sido um xeque-mate, mas felizmente foi apenas um ameaço. Se calhar terá de ser no dia seguinte porque o Freitas, seu ajudante de auxiliar de praticante está de cama com uma carrada de anginas que nem te conto.

Nem pó - regouga o pai. Nem pó. Você só sairá daqui sem arranjar as coisas, por cima do meu cadáver. O pai pesa à volta de 130 quilitos, saltá-lo é cometimento inquietante para o Mindonça que é mais sueca no café A Flor da Horta e, por vezes dominó. Fica e vai até ao fim. O pinheiro sintético rebrilha, o estábulo rebrilha, a coroa da porta de entrada rebrilha, os olhos dos putos rebrilham.

Bom, Senhor Mendonça, vamos a contas. Sem factura, Senhor Engenheiro. Sem factura? Pois, é por via do IVA, que está pelos olhos da morte, vinte e um por cento, vinte e um. Em Espanha é muito menos. O pai franze o nariz, euros são euros e gosta de ter as suas despesas atestadas em papel com carimbo.

Mas, quando vê a soma, rende-se. Quer lá saber da factura. O senhor exagerou. Isto é um roubo. Vou queixar-me ao seu patrão. Sou eu. Como? Sou. Sou trabalhador independente. Então passe-me recibo verde. Com IVA? Desande, Senhor Mendonça, não o quero… A mãe intervém, ó filho podes um destes dias precisar do Senhor Mendonça.

No próximo Natal quem vai tratar das coisas, das gambiarras, da lâmpada do presépio é o pai. Um curto-circuito, um choque, uma chatice dessas, tudo incluido, não chega ao assalto do Mindonça, nem nada que se pareça. Nestas embrulhadas, até pode ser que se ajeite e comece uma auspiciosa carreira de electricista. Engenheiro já deu o que tinha a dar. E, ainda por cima, com IVA e IRS.

sexta-feira, dezembro 01, 2006








Consulta telemóvica

Antunes Ferreira
Mister Gates, mais conhecido por Bill, é um homem das Arábias. Para alem de ser o fulano mais rico do Mundo e de dedicar à filantropia, não dá ponto sem nó. Esta da net e quejandos, não sendo propriamente uma criação dele, é um negócio, dele, incomensurável. A Microsoft, «dona» do sistema, dá a ganhar milhões de milhões ao seu patrão. Bem pode a UE tentar multá-la.

A rede que nos liga informaticamente tem capacidades de tal forma multifacetadas que, bastas vezes, nos deixam boquiabertos, muito piores do que o calino boi diante de um palácio. Não se tratando dos veneráveis (e duvidáveis) dogmas, esses sim obrigatórios para os crentes – muitas vezes perante as fogueiras da «Santa Inquisição»… - os insignificantes e iliteratos como eu pasmamos de tal maneira que apenas possibilitamos a entrada da mosca. Já que a asneira, essa,…

Desta feita aqui vos deixo um exemplo concreto que, aliás, se prende com essa universalidade da Internet. Acabava eu de escrever a minha vicissitude originária de Madrid, deu-me na veneta falar com a Olga Berens. Como sabem, nomeada (obviamente por mim) correspondente em Évora e arredores. Na sequência do escrito que também está aí abaixo. Que embora não seja de sua autoria, foi quem o remeteu pleno de interesse.

Do telefonema (juro que não me abalançava por caminhos ínvios a tentar uma consulta) resultou, para alem da conversa com uma tão boa Amiga, um desabafo à ilustre clínica. Estou assim, estou assado, o meu cardiologista, prof. José Carmona está fora, só volta no dia 11 e entretanto... E ela, num foguete, isso arranja-se, tenho um colega e amigo, uma excelente pessoa, que é precisamente cardiologista aí em Lisboa. Vou dar-lhe uma apitadela.

Bendita apitadela, socorro imediato para os meus «apitadelos pneumonais». Falo pelo telefone com o dito cujo, o Dr. António Ventosa, a quem roubei quase uma hora a contar-lhe o que me acontecera e que aqui também está registado em texto anteru~ior. O Senhor – uma paciência e uma gentileza. Pareceu-me que já nos conhecíamos desde o neolítico, no meu caso, é óbvio, que ele nem pensar nisso.

Atendeu as minhas interrogações, melhor dizendo, aturou-me com alguns sorrisos pelo meio da «consulta telemóvica» dado o meu costumado desbragamento do palato. E da língua. E dos lábios. E dos dentes. Mas disse o que devia fazer, reforçou a opinião da médica das Urgências de São José e aconselhou-me a consultar o prof. Carmona, quando ele voltasse. Pois que ele, Ventosa, com muita pena – a Olga é uma excelente colega e pessoa (eu já sabia) – mas tinha o seu tempo completamente ocupado. Além de lhe agradecer, fiquei a pensar na segunda circular pelas seis da tarde de sexta-feira. Isso é que é ocupado.

Foi assim. Mas não só. Aproveitei a deixa e meti o Dr. Ventosa na minha adress list, com o seu consentimento, claro. O coitado nem tugiu nem mugiu, creio que antevendo o imbroglio em que eu o metera. Mas, queria criar um circuito que só a net possibilitaria, uma cadeia de vontades, de amizade e de solidariedade. Estou, sem dúvida alguma, gratérrimo aos dois. Por isso aqui exaro a estória verdadeira e saudável, exceptuado o que me toca e tocou – nela.

Ainda pensei em expressar também a minha gratidão ao Mister Gates. Mas não o faço por duas razões: uma, eu não o conheço, muito menos ele a mim; outra, porque não sei quanto iria pagar pela utilização das auto-estradas informáticas pra a ele chegar. Só de portagens seria a bancarrota. Pior do que nas famigeradas ex-scuds.

quarta-feira, novembro 29, 2006





DEAMBULAR

Llueve lluvia en Madrid

Antunes Ferreira
Don Antonio Goméz, proprietário do Hostal Centro Sol, mete o cartão de plástico na ranhura da máquina de fazer chaves dos quartos. Já passou o tempo das Yalle, para não falar já das de argola e dentes cortados que se metiam – e ainda metem – em fechaduras de buraco por onde tantas vezes valia (e vale) a pena espreitar, dado o panorama que se revela ao curioso.

Mire Usted Don Enrique – tenho a certeza que é sem H, ao uso castelhano, para quê essa letra, ainda por cima mudíssima, pretensiosismo herdado de franceses, ingleses e outros mais ou menos imperialistas – como llueve. Mi abuelo decía que llueve lluvia. Así que es verdad. Sin embargo, no es normal para esta epoca del año en Madrid. El tiempo, óstia!, lo hemos mudado, nosotros los hombres, somos unos cabrones.

Concordo. Na Sierra da capital – o nome é da Guadarrama, mas toda a gente a conhece apenas por Sierra, era como a Ponte Salazar a que apenas se chamava a Ponte, desnecessária a mudança para Ponte 25 de Abril, justificável só como homenagem à data redentora – ainda não há neve. Diz-me o Fernando Barciela que já não se pode acreditar em ninguém e em nada, nem no astro. O Barciela, anote-se, fui eu quem o arregimentou como correspondente do DN em Madrid.

Excelente jornalista, multifacetado, brilhante no que escreve, viveu, aparentemente, numa duplicidade crónica: Quando em Madrid – só pensava em Lisboa. Chegado a Lisboa – só recordava Madrid. Tem currículo feito, por mérito e trabalho. Não volta a cara a nenhuma tarefa – desde que seja jornalística. E de cozinha, pois é um Chef de truz e até já teve um restaurante, por mal dos seus pecados financeiros… Agora, parece-me melhor. Pelo menos já não se zanga quando se diz menos bem de Portugal...

É um grande Amigo, o Fernando, meio galego meio portuga, devorador intemerato de bolo-rei, melhor, de bolos-reis. Levo-lhe sempre uns dois ou três, de dimensões aconselháveis à voracidade do cidadão. Pneus lhes chama ele, e começa logo por guardar no congelador um dos exemplares. É para as Festas, explica. É sempre, mesmo que os tenha encomendado, só para lhe dar prazer, em Junho. Nesse caso, quem sabe, para as dos Santos Populares.

Entre bacalhau e tortilla

Aterrar em Barajas, mesmo sob uma carga de água, sempre me foi tonificante. E, veja-se lá, também o é para a Raquel, de cepa goesa, bacalhau com batatas e grão só se habituou a comê-lo em Lisboa. Tornou-se uma verdadeira Pantagruela na preparação do peixe, dessalga-o com mestria, como se toda a vida o tivesse feito e, já no prato, rega-o conscienciosamente com o azeite que em Goa era chamado do Reyno. E, claro está, muita pimenta, alem da cebola e do alho migadinhos. Oriental degenerada.


Pela capital de Espanha – seja-me permitido o tradicionalismo conservador, mais adiante a isso iremos, são biliões de contas de outros milhões de rosários – somos mais de tortilla e de tapas mais. Riñones al Jerez, callos a madrileña, salpicón de marisco, albóndigas, pulpo a la gallega e por aí fora. Regalo-me com una paella ou un arroz a la banda, no que a minha cara-metade condescende em me acompanhar, porém sem grandes olés.

O casco viejo da cidade à volta da Plaza Mayor regurgita de gente avançando já nas compras navideñas. Ao lado um tudo-nada abaixo e à esquerda é a Puerta del Sol, agora e uma vez mais em obras, por mor do metro. Dizem os cartazes que encimam os taipais que rodeiam os locais de trabalho que se trata de fazer una nueva línea amarilla.

Têm a sua graça, os taipais. Na chapa ondulada de que são feitos, estão reproduzidas fotos e gravuras da cidade há uns largos anos atrás. Ao mesmo tempo que os construtores pedem disculpas a los madrileños por las obras que terminarán lo más pronto posible, oferecem a quem por ali passa a possibilidade de saber dessas memórias antigas.



Imperturbável está a estátua do brasão de Madrid, o urso empinado junto ao medronheiro (el oso y el madroño, como dizem) que parece não ligar absolutamente nada à poeira, às máquinas e aos obreros. A Puerta será sempre a Puerta, com mais crateras de trabalhos, ou menos. Já a equestre de Filipe III – recordam-se? O II de Portugal… - parece menos imune à azáfama. Ainda que nem monarca nem cavalo se mexam. Bronze. Feitios.

A praça continua a ser o ponto zero de todas as ruas da cidade e de todas as estradas que saem dela. No edifício principal, hoje a sede do Governo Autonómico de Madrid, já viveram os da antiga polícia política da ditadura do generaleco galego, a Seguridad Nacional. Tenho um bom Amigo, o Jaime-Axel Ruiz, que na sua juventude e quando universitário por aqui passou e donde não guarda recordações gratas, bem pelo contrário. Curioso: na passagem do ano é o sino da torre do palácio que dá as doze badaladas. Acompanhadas por outras tantas uvas brancas. Passas - nunca.

Na parede frontal há uma nova lápida, o mármore ainda é liso e branco, não o atacou a poluição. Homenagem simples e sincera às vítimas do 11 F, data maldita por obra de um dos piores males que afligem os homens, o terrorismo. Está afixada no lado esquerdo de quem está virado para a porta do edifício.

A contrapartida, do lado direito é uma outra, bem mais anciã, encomiando os que se bateram contra as tropas napoleónicas aquele lugar. Duas épocas e dois acontecimentos que, de uma forma ou doutra nos tocam, me tocam, a mim, particularmente, que me considero (para não dizer metade, metade) ¾ lisboeta e, adivinhem,… ¼ madrileño. Já estou a ver os nacionalistas exacerbados a apontar-me o dedo, miserável iberista.

Tenho-o dito muitas vezes, com convicção cada vez mais ampliada, que, em 1640, quem deveria ter sido defenestrado no Terreiro do Paço (sem qualquer acinte, sequer má intenção ou vindicta…) era o João Pinto Ribeiro. O Miguel de Vasconcelos, esse, teria direito a estátua, aliás justificada e justa. Mas a História foi o que foi, os fastos outros e os resultados vêem-se.

Tínhamos andado para a frente, ainda que sob a manápula de outro ditador, o Franco, que, pelo menos, permitiu o desenvolvimento espanhol, enquanto que, por cá, o pacóvio e salazarento energúmeno defendia a teoria do atraso que preservava a tradicional maneira de ser dos lusos. Progresso era sinónimo de perigo. Uns bananas, em suma. Região Autonómica, falando português, com Parlamento e Governo próprios, até tinha um rei que maneja a língua de Camões sem falhas nem sobressaltos. Não é que seja eu monárquico, mas.


Espanha ou Espanhas?

Estes dias passados pelas calles, glorietas, plazas, y barrios da capital espanhola levam-me a dizer, uma outra vez, o que penso da grande nação nossa vizinha porta com porta. Disse nação e repito. Explico, começando mal, ou seja por uma pergunta: quantas Espanhas existem? Um só país? Penso que não. O sonho, aliás concretizado de Fernando e Isabel, cada vez é mais sonho e menos concreto. Para mim, claro.

José Luiz Zapatero, na senda das autonomias cada vez mais alargadas que vigoram nas Regiões, está, neste momento, atravessando um precipício pisando uma corda verdadeiramente bamba. Já o novo Estatuto da Catalunya causou amargos de boca a muitos amantes dos bons tempos do Cara al Sol. As actuais conversações com a ETA são, agora, o maior busílis da questão complicadíssima.

Segue-se o quê e quem? Os galegos? Os valencianos? Os andaluzes? Os extremenhos? Uma Espanha federal? Os castelhanos interrogam-se. Se calhar com motivos sérios para dúvidas – sérias. No que parece continuar a haver unanimidade é no jamon e no queso manchego. No restante, ainda não vigora o salve-se quem puder, mas já se descortina o tudo ao molho com ou sem fé em Deus. Se existe.

Mi hermano Enrique, sin H, Araoz, boliviano/espanhol, jornalista como eu, ex guerrilheiro e apoiante, naturalmente, de Evo Morales, disse-me, um dia, durante um repasto de cozinha peruana, com seviche e tudo o mais, que a Espanha era un gran punto de interrogación. Uno, no, acrescentei, dos, pues que lo ponen al reves en el principio de la frase interrogativa… Entonces, dos no, sino que 333. Lúcido, uma vez mais, o plumitivo índio.

Aliás, este outro magnífico periodista tem coisas que não enganam ninguém, para além, claro, da competência e profissionalismo que ninguém lhe regateia. É um homem de sete ofícios, até sabe de informática, o que me enche de invidia. E sabe muito. Culturalmente, nem se fala. Quando um dia lhe perguntei se conhecera o Che - respondeu-me com una sonrisa beatifica. E tem, com o pedido de desculpas e vénia à Amália, um harem em constante mudança. Nem um Casanova, muito menos um Barba Azul lhe chegariam aos pés. Caminha, tranquilo, para a jubilación.

Pronto. Já passaram a correr uns brevíssimos seis dias. Feitas as maletas – que entretanto aumentaram, por passe de mágica que normalmente se verifica por estas latitudes, rumamos ao aeroporto, a Raquel e eu. Desta feita nem consegui falar com outro Amigalhaço, o Rodolfo Lavrador maila sua Luisinha, jurista e aficcionado a los toros, companheiro de muitas lides e noites nas Finanças e de viagens agradabilíssimas. Fica para a próxima – em que tentarei convidá-lo a… pagar-nos um jantarzito no El Botín.

Lisboa é Lisboa, ainda que chova a potes. Chove chuva, em tradução literal. O Sporting ganhou ao Marítimo, na Madeira. Excelente. Venho um tanto constipado, uma pieira assobia-me dos brônquios ou quejandos, com alguma persistência e muita desafinação. Já começara no país de onde, dizem os lusitanos mais empedernidos, não vem nem bom vento nem bom casamento. Atoardas.


O jarabe que me forneceu um outro compincha, mais um Enrique sin H, este da Farmácia del Globo, ali à calle Carretas 12, rua de putas e de chulos, não aquentou nem arrefenta. Nem como paliativo. A propósito: entre Henriques com H e Enriques sin H existe quase que um sindicato de mafiosos, tantos somos.

Uma gaiola no peito

A pluviosidade lísbia parece ter ampliado os decibéis da caixa do peito. Pelo sim, pelo não, xarope às urtigas e Centro de Saúde. Médica correctíssima, é melhor ir a São José, leve esta carta, por favor às Urgências. Se para tal vim, cumpra-se o fado. Vou.

Cinco horas no banco, entre doentes, doentinhos, acidentados, escalavrados, todos no masculino e no feminino, uns mais idosos outros mais jovens, quase todos suplicantes, a maioria de olhos arregalados e lábios mudos, alguns em berraria alcoolizada, aqueles sussurrando suspiros.

Quem me vier falar sobre o estado caótico das Urgências, a partir de agora, é tiro na nuca com a bala paga pela família – à maneira china. O signatário jura dizer a verdade, só a verdade e aos costumes diz nada. E exige acta e atestado reconhecido notarial e privadamente. Acentua, ainda, que não está a fazer o frete ao Amigo Correia de Campos, seu colega no Camões, que muito tem já com que se preocupar. A saúde é uma ganda alhada. E ele é reincidente.



Fizeram-me tudo, desde análises q.b. até Rx torácico, passando por ECG, que agora já sei que significa electrocardiograma, pessoal estupendo, muitos sorrisos de amparo, poucas filas, quase nenhumas, numa tarde de domingo a entrar pela noite. Médicas/os, enfermeiras/os, técnicas/os de saúde, auxiliares, boa gente, até simpática.

Isto com o serviço em obras, num atendimento entre paredes improvisadas de tabique branco e cortinas de plástico para preservar alguma privacidade, a possível e aceitável. Diz-me uma médica que aquilo vai ficar um brinquinho, não pedindo meças a ninguém por este Mundo fora. Acredito. Pelo andar da carruagem.

Saio com um resultado ligeiramente preocupante. O que ganhei foi um pequeno edema pulmonar, que parece ter que ver com a minha condição de antigo e desregrado fumador. Fluidos e coisas assim fazem um leigo apanhar o táxi de volta a casa com uns quantos macaquinhos na tola e as avezinhas ainda pipilando no interior à direita de quem sobe e à esquerda de quem desce com o GPS apontado à traqueia.

Desta feita (e desta fita) Madrid começou com chuva nas ruas e acabou com chuva nos interiores deste cidadão, honesto q.b.. Porra, até parece a minha antiga casa, na Lapa.

sexta-feira, novembro 10, 2006




Parabéns Mister


Braz Ferreira
Correspondente nos EAU
Acabei de ver a lista dos convocados para o próximo jogo da selecção nacional e com uma agradável surpresa vi que o Mestre injectou sangue novo no nosso team. Poderia gabar-me dizendo que finalmente ele escutou-me, mas quem sou eu para ser escutado pelo grande Scolari. No entanto ele entendeu que é o momento de inovar, de trazer gente nova para começar um novo trajecto pela selecção.

Pode ser até que tenhamos que perder a próxima contenda, mas se assim for, perderemos com a cabeça erguida e com a consciência que algo de novo foi tentado. Por favor povo português não critique o “nosso Filipão” por ele ter tentado....lembrem-se de Einstein.... Apoiemos sim o Daniel Fernandes, o Nelson, o Tonel, o Raul Meireles e até mesmo o Quaresma, Carlos Martins e João Moutinho ainda que estes últimos não sejam completos neófitos na selecção. Mas apoiemos sobretudo o nosso Scolari. Ele sabe que só a juventude é sinónimo de progresso no futuro.

Os Costinhas, Maniches e outros que tais já souberam honrar o nome da nossa Pátria. Agora terão de passar a chama olímpica para os que se seguem.
Talvez ainda eles tenham de representar a equipa das quinas, mas deixemos os novos se afirmarem, mesmo que para isso tenham de errar. Não sei se recordam mas errar é próprio do homem.

E esses estreantes também são homens a 100% na equipa nacional. Mais uma vez parabéns Scolari pois a ousadia só pode trazer o sucesso. Seria bom se o nosso Governo se espelhasse nesta iniciativa do nosso técnico. Não é só trazer gravatas da cor portuguesa durante os jogos, não é só torcer e vibrar pela selecção na bancada de honra. É também dar o exemplo da renovação nacional.

Senhor Primeiro Ministro, renove a sua equipa, ponha sangue novo nos responsáveis pelo nosso País. Siga o exemplo do nosso treinador, pois ele está certo no caminho tomado. Ousem, ousem, ousem e mudem as atitudes do Governo e talvez algo de novo aconteça em Portugal. Talvez não sejamos classificados como os melhores da Europa, mas pelo menos o Sr. Primeiro, tentou.

Lembre-se de Eistein...tal com o Sr. Scolari se lembrou. E lembre-se sobretudo do que acaba de acontecer nos EUA...O pretencioso senhor G.W. Bush achou que com as mesmas trapaças de sempre conseguia enganar o povo americano e guardar o poder. Enganou-se e enganou os Estados Unidos da America. Talvez tenha agora que aceitar que a mudança e fundamental para o êxito. Só que isto terá custado milhares de vidas dos jovens americanos.

Despertemos, sigamos o nosso guru do futebol, sejamos renovadores. Politica só pode ser como a moda...ou se renova ou é fod..... Tenham uma óptima semana e mais uma vez parabéns sinceros ao nosso Mister.

NR - Este correspondente que, como sabem, também é meu irmão, não perde uma. Lá longe, pelos Emiratos, pelas Áfricas, pelas Américas, por tudo o que é sítio e há tantos anos longe de Portugal (só cá vem uma vez, duas quando muito, passar uns dias e umas quadras festivas ), continua e continuará a vibrar com o futebol tuga. Depois de algumas críticas ao Sargentão, as coisas, agora, são mais soft e até entusiásticas. No comments. A.F.

domingo, novembro 05, 2006



Está explicada a Vida...

No primeiro dia, Deus criou a vaca e disse: "Tens que ir para o campo com o agricultor durante todo o dia, sofrer debaixo do sol, e dar leite para sustentar o agricultor. Dar-te-ei uma vida de 60 anos".
A vaca disse: " É uma vida dura. Para que é que tu queres que eu viva durante 60 anos? Dá-me somente 20 e eu devolvo-te os outros 40".
E Deus concordou.

No segundo dia, Deus criou o cão e disse: "Senta-te o dia perto da porta da tua casa e ladra para qualquer pessoa que entre ou que passe por perto. Dar-te-ei 20 anos de vida".
O cão disse: "Isso é muito tempo para estar a ladrar. Dá-me somente dez e eu devolvo-te os outros dez". Deus concordou.

No terceiro dia, Deus criou o macaco e disse: Distrai as pessoas, faz truques de macaco e fá-los rir muito. Dar-te-ei 20 anos de vida".
O macaco disse: "Que cansativo, truques de macaco durante 20 anos!? Acho que não. O cão devolveu-te dez eu vou fazer assim também, ok?". Deus concordou.

No quarto dia, Deus criou o Homem. Deus disse: "Come, dorme, brinca, faz sexo, diverte-te. Não faças nada, simplesmente diverte-te. Eu dar-te-ei 20 anos de vida".
O Homem disse: "O quê!? Só 20 anos? Nem pensar! Vamos fazer o seguinte: eu fico com os 40 anos que a vaca devolveu, com os dez do cão e os dez do macaco. Isso faz 80. Pode ser?". "Ok" disse Deus "Negócio fechado".

É por isso que durante os primeiros 20 anos comemos, dormimos, brincamos, fazemos sexo, divertimo-nos e não fazemos nada. Os 40 anos seguintes, sofremos ao sol para sustentar a nossa família, os dez seguintes fazemos figura de macaco para entreter os nossos netos, e os últimos dez anos sentamo-nos na varanda e ladramos a toda a gente.



Obrigadinho, Olga

A Olga Berens é uma boa Amiga, vive em Évora e é médica. Fomos apresentados, vejam lá, por uma bateria descarregada. Como? Não acreditam? Pois aí vai. Eu era o desesperado que não conseguia pôr em marcha o meu triste Hyundai Accent de 99; ela foi a fada benfazeja que me deu corrente, o que, face à minha azelhice sobre pólos e outras confusões mais negativas do que positivas, ia resultando em explosão. Passou-se tudo no parque de estacionamento de um outro Amigo, o Jean Charles Baudouin, ali à Rua do Salitre.

Fiquei-lhe internamente grado, perdão, eternamente grato. De uma doutora com juramento de Hipócrates e tudo, ainda que sem bata nem estetoscópio naquele momento, ninguém esperaria uma tal atenção, bem como uma tão simpática disponibilidade e uma magnífica demonstração de solidariedade.

Depois da patética peripécia e de nos termos despedido já amigos, seguiu, incólume e sorridente, com a filha ao lado, a caminho do Alentejo Alto. Eu fiquei-lhe muitíssimo agradecidíssimo, mas sem conseguir arrancar, nem pedindo de joelhos ao mafarrico coreano. De repente – passou-lhe a birra. Engrenei a primeira e fui-me à vida, que a morte é certa.

Daí por diante temos trocado mails, isto é, a Dr.ª Olga tem-me aturado as catadupas que lhe mando e mandado timidamente uns quantos. O texto acima veio num deles. Alem de irónico, é fascinante. Por isso – blog com ele. Com um pedido, desta feita não de corrente eléctrica de bateria. Mas sim uma bateria de textos, pois fica desde já a Olga Berens nomeada correspondente do travessadoferreira em Évora. Reconheça-se a assinatura, nihil obstat, imprimatur.
A. F.






VIDA, VIDAS

Como chove

Antunes Ferreira
C
hove se deus a manda. A rua transforma-se num caudal cada vez mais espesso e negro. E para que não se diga que é só isso, uma bela trovoada começa a faiscar no negrume do astro a transbordar de nuvens. O primeiro trovão rebola-se no estrondo, afoito. Jerónimo pensa no dito da avó Marcelina – a chover e fazer sol, andam as bruxas enroladas num lençol. Parvoeira. Aqui não há réstia do astro a que chamam rei. Melhor fora presidente, já que estamos em regime republicano desde o 5 de Outubro.

Mas, com a trampa do Estado Novo em que se está atascado, tudo fede, até mesmo os revoltosos da Rotunda. Foram-se as barricadas, os civis armados, os magalas de Kropatcheques aperradas. O António da calçada, que lá continua alapado, mandou como diz a cantiga, fogo já se não faz mais, só tu é que fazes festa. Por entre as cortinas de água e do ribombar celestial, de novo uma recordação.

Na Rua do Ferragial, de putas e maus fados, corre um poema que é de se lhe tirar a cartola. Também não pode correr muito mais, até no Parque Mayer as revistas são censuradas, ainda que consigam passar algumas piadas. Pois diz assim a versalhada. Dos dois Antónios, de que Lisboa desfruta, um é filho da Sé; o outro… também é. Se calhar…

O umbral pacífico e complacente de uma porta de prédio dos anos quarenta que se foram, dá-lhe guarida quando começam a engrossar os pingos de chuva, até se transformarem em bátega aparentemente eterna. Logo hoje, logo hoje, há-de desfazer-se o Mundo em água. Ia a caminho da casa da Matilde, um ramo de rosas vermelhas como ela gostava.

As pétalas, desgraçadas, já não estão lá, desertaram dos pedúnculos, limita-se a ter na mão um desfloramento aquático. A moça queria que os pais o conhecessem, assim as coisas vão no caminho certo, nos meados dos anos cinquenta, a janela já foi. Mas ainda não parece bem namorar às escondidas dos progenitores. Mas sabe que nem ginjas. Até num vão de escada, um olho nela, outro nalgum vizinho que possa aparecer.

Monsanto ou monte santo?

Os passeios a Monsanto são o máximo. As bermas fáceis de ultrapassar, vai um saltinho, menina, e logo uma cama macia de ervas diversas, às vezes com alguns espinhos, mas não faz mal, até entusiasma mais a malta. Como se eles precisassem de ser picados. Engalfinhados, ele por cima, ela por baixo como mandam as regras, desaperta aqui, baixa acolá, uma efervescência que nem de panela ao lume alto.

A merda da chuva não pára. Apalpa o chumaço que lhe sai das virilhas, basta lembrar-se da Matilde e é o que se vê, mais ainda, se sente. As pernas longas dela ao alto, as unhas escarlates cravadas nas costas peludas dele, és o meu urso cabeludo, ai que me matas, suspende, tira fora senão engravido, é um sarilho. Ele acrescenta que é mas é um saralho do carilho. Riem-se em casquinadas.

E se anda por aí alguém? Um guarda-florestal, um sacana desses, um filho da mãe fardado, acrescenta ele. Se cabrão houvesse e viesse espiá-los ou até interrompe-los, partia-lhe os cornos. Não fales assim, Jerónimo, não gosto disso, bem sabes. E os seios orgulhosamente empinados arfam mais ainda em face do possível susto. Que não vem.

Ele, pelo contrário, sim e abundantemente, entre as pernas dela. No meio, um monte santo e encaracolado. Gostas? Muuuuuiiiito. Fala, diz o que queres que te faça? Mas com as palavras certas, agora sim, daquelas de que tu gostas. Aqui não existem palavrões. Enterra-mo todo, amor, até às bordas, vem, meu ursão. E não queres que te lamba a coisa, antes? Quero, quero, quero que me faças um mimi e na greta, não na coisa. Eu, depois, chupo-to até ao fim, para saborear…

Estes passeios de fim-de-semana são o clímax. Com tempo seco, então é que são elas. E os meus pais pensam que estou em casa da Manuela, a estugar geometria descritiva. Esta é a melhor geometria, o teu pau sempre em pé, eu sempre de perna aberta, vá morde-me os bicos das mamas, vê como estão rijos. Túrgidos, amor, túrgidos, - é como se diz. Nem o Leite de Vasconcelos, muito menos o Padre Raul Machado.

A sacrista da chuva parece que engrossa, se é possível.Ele já se solitarizou, os dedos escorregadios no mastro, no calado da noite de breu, com cuidado para não lambuzar as calças, braguilha aberta q.b. Bom, assim não pode ser nada. Os carros que passam, poucos, espalham faúlhas aquosas, em espichos altíssimos. Está que nem um pinto. Sendo assim, vá de meter pernas a caminho até à Graça.

Eu venho pela Matilde

Degraus, foi um ar que lhes deu. Nem parou no patamar do meio para tomar fôlego. Batida a porta, veio uma senhora, presumivelmente a mãe da jovem. Entre o tímido e o envergonhado – eu sou o Jerónimo. Ah sim? E que tenho eu com isso? Perdão, mas não mora aqui a Matilde. Um franzir de cenho. Não. É no andar de cima. Desampare-me a loja. Aí vai ele, num foguete.

Campainha a fundo. Abre-se a porta. Uma boazona em combinação transparente, vê-se-lhe tudo, os mamilos, o escuro no baixo-ventre, até a cicatriz da operação ao apêndice. Que raio de família. Se calhar é uma irmã, mas que irmã. Só curvas, ainda por cima nos lugares certinhos. Eu venho para me encontrar com a Matilde, sabe, uma rapariga…

Sei muito bem, entre, entre, que vou chamá-la. É para já. Volta-lhe as costas e dirige-se à porta que dá para o interior. As nádegas que dar a dar, rijas e arredondadas são um espectáculo. Jerónimo pensa que ela sabe que é boa e gosta de o mostrar. Que rica mana tem a Matilde. Não se parecem de cara, mas no resto.

Olha em redor. Decoração apessoada, um cortinado de veludo grená escuro, apanhado aos lados por dois cordões presos a pregos grande e doirados. Uma mesinha central, a imitar queen anne, com naperon rendado e uma moldura trabalhada com a foto de outra beldade, sumariamente despida. Que rica casa. Vê-se que é gente de posses – e boa.

Na volta, abre-se a porta e surge a sua Matildinha. Em nêgligê ainda mais revelador, se possível, do que o da suposta irmã. Um ah de espanto. Tu, por aqui, Jerónimo? E corre para os braços dele, anicha-se, quente e saborosa. A água que o ensopa, ela nem a nota, tal a sofreguidão do amplexo. Treme, porem, ele nunca a vira assim. Que se passa amor?

A porta do fundo abre-se de novo, sai dela uma mulatinha em sutiã e calcinhas, mais pequenas que parra de uva. Traz pela mão, como se fora pela arreata, um sujeito gordo e balofo, um bigodinho ridículo, casaco assertoado, azul-escuro com botões de metal dourado e emblema no bolso do lenço. Então até depois, queridinho. E a mulata, requebrando-se, abre a famosa porta e vai à sua vida.

Jerónimo arregala os olhos, levanta a cabeça da Matilde, uma interrogação muda. Ela, grudada a ele que nem lapa à rocha, sem dar conta do caldo de carne, já azedado, em que a chuva o transformara, sorri-lhe com o ar de gaiato apanhado com o boião da marmelada na mão. Sorriso que o faz ficar fora dele, com ela. Amor, desculpa, enganei-me. Dei-te a morada do trabalho, não a da minha casa.

quinta-feira, outubro 26, 2006



O Grumete Fuzileiro Vasco



José Augusto Sacadura
Parti para Angola no dia 30 de Maio de 1967, preocupado com o estado de saúde da minha Mãe e receoso do futuro que me esperava. Tinha 25 anos e era Delegado do Procurador da República, carreira que assim via interrompida. Embarquei, já com o posto de sub-tenente AN RN, num avião a hélice da Força Aérea, vestido com a farda de Inverno, a qual, na Metrópole, seria substituída, nos primeiros dias de Junho, pela farda branca de Verão.

Cerca de 24 horas depois de termos partido de Lisboa, sobrevoávamos Luanda, avistando de bordo do avião o solo vermelho, característico da capital de Angola. Uma viatura da Marinha, que ali se encontrava, conduziu-me ao edifício do Comando Naval, onde logo me apresentei ao 2º Comandante e ao Chefe do Serviço de Abastecimento. Recebi, então, instruções para me apresentar na Base Naval, ou seja, nas Instalações Navais da Ilha do Cabo (INIC), onde fui colocado na Secção de Recepção e Expedição de Materiais (SREM).

O serviço ocupava-me inteiramente durante as horas normais de trabalho. Tínhamos como missão efectuar as operações de carga e descarga dos navios que rumavam a Santo António do Zaire (Sazaire, na gíria) ou a Cabinda, bem como o envio, por via aérea, de materiais necessários às Companhias e Destacamentos de Fuzileiros colocados no Leste – no Lungué-Bungo e no Chilombo – e, mais tarde, no Rio Cuito e nas Terras do Fim do Mundo, onde ergueram uma nova povoação, Vila Nova da Armada. Ficava a meu cargo a elaboração das e a resposta às mensagens relativamente às necessidades de material das diferentes unidades, avultando, pela sua importância, os botes de fibra de vidro e os motores fora de borda, cujas marcas (Mercury, Johnson e Evinrude) ainda tenho de memória...

Carpinteiros e estagiários

As operações de expedição de materiais implicavam a colaboração de carpinteiros locais contratados, entre os quais se destacava a figura simpática, mas semi-ausente, do Domingos, com o permanente sorriso triste na boca desdentada, uma pirisca ao canto dos beiços e os olhos amarelos, raiados de sangue, de alcoólico. Eram os carpinteiros que, com extrema rapidez, construíam ou adaptavam os caixotes das mais diferentes dimensões e formatos, os cintavam e os colocavam por ordem nos locais próprios para serem transportados para bordo pelo pessoal da estiva. Nos dois ou três dias que se seguiam ao pagamento da jorna quinzenal, o Domingos sumia. Devidamente munido de angolares, era tempo de desfrutar dos prazeres da carne nos braços da amiga que só então o recebia e de procurar, no álcool, o esquecimento das agruras diárias.

Na Secretaria, para além de mim, havia um Sargento, que era o responsável pela distribuição das cargas pelos navios – evidentemente, sob a autoridade do imediato das embarcações -, de forma a aproveitar o espaço da melhor maneira possível e ainda dois Cabos da especialidade de Abastecimentos. Além do pessoal militar, trabalhavam na Secretaria da SREM duas funcionárias civis, que desempenhavam as funções administrativas próprias de um escritório, nos anos sessenta.

Enfim, de quando em vez, era destacado para ali estagiar temporariamente um ou outro fuzileiro, que faziam parte de uma bolsa sedeada em Luanda, à espera de serem chamados para rendições individuais – normalmente, por razões de baixa de algum camarada – nos destacamentos de fuzileiros estacionados no Leste. Normalmente, pelas suas características pessoais, eram rapazes que não se adaptavam ao serviço administrativo. Dotados de aptidões viradas para a acção, eram guerreiros a aguardar chamada para o combate. Entretanto, o que os atraía era o engate das belas morenas que tornavam a cidade mais atraente e sedutora. E, como sabiam que estavam em trânsito, pouca ou nenhuma assistência davam à Secção. Eu fechava um pouco os olhos, compreendendo a sua situação especial.

Um grumete diferente

Todavia, um dia, colocaram no meu Serviço um grumete fuzileiro bastante diferente do normal. Não correspondia de todo ao perfil habitual de um fuzo. Era o Vasco Varela, alentejano calmo e ponderado, que se revelou escrupuloso cumpridor dos horários e das tarefas que lhe iam sendo distribuídas, E que, por isso mesmo, foi sendo chamado ao desempenho de actividades mais complexas, tornando-se uma unidade de muita qualidade e eficácia. Tratava-se, enfim, de um rapaz com manifesta vocação para o serviço de Abastecimento. Encontrava-se numa fase já adiantada do curso de dactilografia, no qual se inscrevera por iniciativa própria e a expensas suas, quando recebeu ordens para se apresentar no destacamento do Chilombo, no Rio Zambeze.

Veio falar comigo, perguntando-me se não seria possível adiar durante umas breves semanas a partida, o que lhe daria tempo de concluir o curso que, segundo ele, o valorizaria e poderia ajudar na vida futura. Expus a situação ao 2º Comandante, que foi, como de costume, compreensivo, tendo deferido o pedido do Vasco, avançando, em vez dele, um outro Fuzileiro, também pertencente à referida bolsa.

Fiquei satisfeito, quando soube que a vaga que veio a surgir algum tempo depois – e que o Varela iria preencher – era no Lungué-Bungo, teoricamente, uma zona menos perigosa do que a do Zambeze. Lá partiu o alentejano, contente por ter concluído o curso de dactilografia, deixando saudades em todos e prometendo voltar a visitar-nos quando pudesse regressar a Luanda. Voltou. Para nosso doloroso espanto, iríamos receber na Secção, cerca de um mês depois, o caixão com o corpo do grumete fuzileiro Vasco Varela.

Contaram-me o que tinha acontecido. Numa acção de patrulha do rio, em três botes de fibra de vidro, os nossos homens foram atacados com fogo cerrado, disparado das arribas que ladeavam uma das margens. Todos se deitaram no fundo dos botes, como mandam as normas em situação semelhante. No entanto, o grumete fuzileiro Vasco, recém-chegado à unidade, a estrear-se numa missão de combate, reagiu com a galhardia dos maçaricos e, direi eu, com a valentia, quantas vezes feita de gestos irreflectidos, dos homens de coragem. Em vez de se deitar no fundo do bote, assim reduzindo as possibilidades de ser atingido, levantou-se e deu o corpo às balas. Atingido num órgão vital, estupidamente perdeu a vida um dos mais jovens e puros militares que tive a oportunidade de conhecer.

E foi a minha Secção, foram os meus homens, seus companheiros de coração, que tiveram o penoso encargo de embarcar o seu corpo no avião que o levou de regresso a casa. Para sempre. Confesso que, nesse dia, não consegui trabalhar. Atormentava-me a ideia de que, se ele tivesse ido para o Chilombo, como lhe tocara em sorte, por certo, ainda estaria vivo. E de que eu, sem querer, ajudara a mudar-lhe o Destino...

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Ora viva!
Atenção, gente

Começa hoje a sua colaboração neste blogue um grande e «velho» Amigo, desde os bancos do Liceu Camões, de onde seguimos os dois para a Faculdade de Direito. Aí, a verdade azeitou-se: veio ao cimo da água. O Zé Augusto acentuou a fibra que já mostrara antes: foi um excelente aluno; eu, pelo contrário, comecei tão só a escrever desalmadamente, justificando, sem grande resultado, com as linhas que paria, a cabulice que disfarçara durante tempos. Vidas.
Anos depois, em Luanda, o José Augusto esteve em minha casa, aventurando-se nos picantes goeses da Raquel. Para além dos condimentos em profusão, ainda ali se utilizava o jindungo característico de Angola. Bravo! O brioso oficial miliciano da Armada portou-se que nem um bravo. Não arredou pé, mastigou e foi por aí fora do quimo ao quilo. E iria aos quilos (que hoje ostenta) se continuasse em tais vidas. Aliás, continuou, mas devagarinho.
Passaram anos e, sempre que a sorte nos permitiu, reencontrámo-nos e fomos pondo a conversa em dia. Curioso: estava eu no Diário de Notícias e surge-me a esposa do cidadão em causa que, ao cabo de charla prolongada, simpática e interessante – entrevistou-me! Na qualidade de jornalista, creio sinceramente ter sido a única vez que tal me aconteceu. Acontece.
Agora, há dias, num restaurante acolhedor, o malandro do JAS reconheceu-me, de mesa para mesa, vejam lá, pela minha voz. Foi uma festa. Felizmente que estava com a Raquel e a mana Lena. Imaginem outra situação – aliás impossível de todo – e o bandido a identificar a minha tonalidade vocálica. Já não lhe posso fazer telefonemas anónimos, porque para ele, a minha expressão oral – tem nome. Já não se pode confiar em ninguém, muito menos nos Amigos que nos identificam pelo som.
Caríssimo. Para além das promessas, que vamos concretizar, de novos encontros desta feita frequentes, porque até somos agora vizinhos, tenho uma imensa alegria de te receber nesta casa informática que já é também tua. Quanto ao resto, fico à espera do resultado dumas famosas vindimas em que tu foste conivente. A escrita aqui fica. Das videiras e produtos decorrentes: o crime, ou não o soubesses de ginjeira e de experiência feita, por vezes até compensa.
A.F.

domingo, outubro 22, 2006




Advertência prévia

Vamos por partes e alíneas. Não é a primeira, muito pelo contrário, que me apontam o facto das minhas crónicas/contos da guerra colonial terminarem sempre ou quase sempre com a morte do protagonista, até mesmo muitos óbitos, sugerindo assim que sou um fornecedor da Servilusa predisposta para todo as exéquias, substituindo os capitais americanos a tradição - essa sim lusa - da Agência Magno

Não tenho, por conseguinte, nem habilitações nem inclinação para gato-pingado. E se é certo que, a dada altura da minha vida profissional se dizia pelos bastidores da Informação que era perigosíssimo ser entrevistado por mim – e alegavam os casos dos senhores e senhoras Niculae Ceausescu, Olof Palme, Indira Ghandi, Rajiv Ghandi e outros assassinados após terem respondido a perguntas minhas – menos certo não é que a nenhum deles vesti os paramentos de fiel defunto.

É por isso que hoje tento uma estória que termine em cor-de-rosa pálido e diáfano, ou azul celeste às pintinhas amarelas com estrelinhas vermelhas dentro. Não é muito do meu agrado – mas diz o Povo que o que tem de ser tem muita força, com c cedilhado para não haver confusões. Desde já fico muito grato a quem, mesmo tendo-me criticado pelos maus finais, se deixe convencer de que, ao virar da esquina, há sempre a possibilidade de se encontrar uma catadupa de epílogos. Duvidam? Ah sim? Vejam o que acontece nas novelas televisivas, É escolher, minha gente.

Feliz, vivo e são

Antunes Ferreira
A
posição a que sempre aspirara ao longo da vida era a de culminar esta breve passagem pelo orbe terráqueo sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, criador dos céus e da terra. Um pequeno interregno se tal é permitido. Do desejo à realidade vai sempre um passo de gigante e não é à toa que se diz que pagar e morrer sejam o mais longe possível. As compras a prestações e o estar ligado à máquina são disso exemplos.

Isto apesar de não ser católico, muito menos apostólico ou romano. Mas, bem vistas as coisas, é sempre preferível ter uma certa garantia. Ou aval, de acordo com linguagem bancária. Nunca se sabe o que poderá pelos neurónios de um cidadão autoagnosticado, aquando do momento da passagem, embora não se saiba muito bem para onde. Era o que acontecia quando um sujeito tirava em Nova Iorque uma passagem para a Florida, numa percentagem aceitável ia aterrar em Cuba.

Mas enquanto não chegava tal hora, Manuel Carrapato, nado e criado em Moura e uns anitos de liceu em Beja, tinha-se tornado empresário por conta própria, isto é, independente. Contrabandista, enfim. Desde que os caracóis lhe tinham nascido ao redor do coiso que assim era. Já tinha quase meia década de investimento quando foi às sortes. Vinte e um meses e uns pozinhos depois, ei-lo incorporado.

Recruta e especialidade – apenas outra passagem, desta feita para Angola. Cais de Alcântara, gente, muita, em desvario, ai que o meu vai prá ingola, cala-te estúpeda, vai mas é prá degola. Nossa Senhora de Fátima o acompanhe e o proteja, coitadinho ainda há pouco deixou os cueiros. Cá pra mim já dê ao mê Zeí uma pagela do Santo Padre Cruz, com uma relíquia da sobrepeliz dele. Safa-se.

Queres tu dizer, mulher que é tiro e queda?... Abrenúncio, porra, homem dum cabrão! Menina, isto é só uma manêra de dizeri. Nã brinques heréjio, nã brinques. Garças a Deus, muitas; graças com Deus, nenhumas. A mãe e a conversada foram despedir-se dele. Coladas ao Carrapato como lapas à rocha foram com ele até à escada de portaló. Nem sequer sabiam o que era, porem a gentinha dizia assim.

Mais do que o santinho que a mãe lhe deu, foi o último beijo com a Lucinda. Na boca, línguas enoveladas. Vais-me trocar por uma preta? Dêxa-te disso, cachopa, ê cá nã gosto de carne escura, só pêto de galinha. Ás vezes ainda vai uma coxa… Já da amurada, acenando-lhe: Lucindazinha, nã me ponhas os cornos. Ê vou voltari pra nos casarmos, fica prometido. Um pranto no molhe. E lenços a acenar. No meio da soldadesca um fabiano começou a vender camisas de Vénus. Bom prenúncio de fidelidades mobilizadas.

Assim como assim, foi-se safando. Emboscadas, golpes de mão, patrulhas, minas nas picadas, por tudo passou mais ou menos incólume. Quando o alferes Vieira assim falou, o Manuel não entendeu patavina. Como o oficial, alem de miliciano, também era um gajo porreiro, perguntou-lhe o que queria dizer a palavra. Não te tocaram nem num pentelhinho. Ora bê, agora já sabia. Atão nã havera de saberi…

Férias em Luanda. Foi pela primeira vez ao Bairro Operário, território de putas e de liamba, levado por um camarada preto como tição. O Augusto, que até estivera com um pé no seminário, proposto pelo padre Mário da Missão. Porem, à última hora, encolhera-se. Fizera-lhe aumentar a confusão que já tinha por baixo da carapinha, o facto dos curas não poderem casar. Então, um homem tinha de aguentar-se só com os dedos da mão? Aka, não, que pívia também era pecado.

O baile e o resto


Mas não tinham ido às mininas. Havia um baile no clube. O camarada apresentou-lhe uma mulatinha; ou melhor, uma mulata torneada a preceito, carnes rijas, decote generoso ainda que não chegasse às biqueiras dos sapatos. Lindocha lhe chamavam e ela aceitava, os dentes muito brancos em gargalhadas altissonantes. Toda ela era chicha. Explicou-lhe que era cabrita. Pai branco, de Chaves e mãe já mulata. Benditos ambos que tal pãozinho haviam botado no forno.

Nem lhe deu para pensar na Lucinda, o que aliás não era difícil com aquela Lindocha ali ao lado, mini-saia justa a moldar-lhe as bochechas do traseiro e a marcar-lhe as calcinhas milimétricas. Explicou-lhe que era alentejano mas não era nem parvo nem mangonhêro. Ela ria-se por inteiro, da boca maravilha até aos calcanhares torneadinhos.

Então és o das anedotas? O Carrapato nem se chateou. Como fazê-lo, com ela? Foram dançar. Foi ela quem escolheu, uma coladera cabo-verdiana, uma descoberta, um entusiasmo. Sem limites. Percebes agora porque se chama coladera? Olá se percebia. Percebia tudo e percebia-a toda, os seios túrgidos sem peias nem colchetes. O ventre liso. As nádegas de pimenta e o resto de adivinhar.

Sem barulho, mas pecado

Comprová-lo-ia uma hora depois, se tanto, já em casa dela, no quarto dela, no corpo dela, no fogo dela. Faz pouco barulho, que os meus pais dormem no quarto ao lado e são muito sensíveis. Mas, como calar o desejo a dois, como aceitar em silêncio tais mordomias sensuais, como podia um homem, ainda por cima alentejano de cepa, aguentar-se? Não se aguentou. Não nos ais ou nos gemidos, não, esses sim baixinho.

Durou horas a contenda entre a pele acetinada e canela da mulher e a rugosa e peluda dele. Mas mais do que isso, o aconchego do passarinho negro no ninho – e que ninho – as pernas lançadas, voluptuosas, os bicos dos peitos, também morenos e mais escuros, plantados em auréolas divinais, o pescoço ora submisso ora arrogante, sabia lá o mourense mais o quê. Aquilo era o paraíso, onde ficara ele até ali?

Na terra, a – como se chamava ela? – ah, a Lucinda bem poderia esperar por ele. Afastou-a sem cerimónias, ainda que ela já o estivesse. Os quilómetros de água salgada eram o menos. Tem piada, os marujos diziam milhas, tanto se lhe dava. O afastamento estava ali na Maianga, no quinto andar do prédio da Luanda Acessórios, representante dos Colts.

E agora, amor? Maria Linda, de seu nome de registo, já o tratava assim, era o êxtase, o delírio. E se fico grávida? E os meus pais? Agora não se pensa nisso, querida, depois casamos, sem dúvida nenhuma, primeiro volto na mata, a licença termina depois de amanhã, mas está certa que eu volto pró nosso casório. Se assim não for, aventa-me pela janela.

Que é isso? Isso quê? Aventar. Rira-se muito, baixinho, copiando o sussurro da conversa, enquanto lhe afagava o seio que beijara desvairadamente. Quer dizer em alentejanês atirar. Nada, nada, nada, Só te aventas para cima de mim. Aventou-se, numa perdição. Dias depois, quando confessava à Paula da farmácia a loucura que tinham sido os dois dias e as duas noites seguintes, a amiga perguntara-lhe se ela gastava mesmo do rapaz.

Uma leoa, uma leoa em cio. Parto-te a chipala aos bocadinhos. Que puta de pergunta. Gostava e muito, muitíssimo, para sempre. Pronto, pronto, já cá não está quem perguntou; ou melhor, ele é bom no lençol? Era. Era. Era. Com lençol ou sem. Sobretudo quando me falou cá pra dentro. Nunca ninguém mo fizera e eu nem sabia que havia disso. O estágio no colégio das freiras não incluíra tal disciplina, indisciplinada.

Uma imensa saudade

A floresta era, agora, mais do que um tormento, uma imensa saudade. Escrevera à mãe, pedindo-lhe que dissesse à outra que fosse à vida dela, as coisas são o que são, outro galo lhe cantaria, se é que já não cantava. Numa tarde quente e seca, estranho, tinham chegado notícias da outra companhia independente que viera também no ex-paquete.

Emboscada cabrona, três que tinham deixado de fumar, oito estropiados. Uma bombita de avião, quatrocentos quilos não rebentados, associada a mina checa. Os tipos das minas e armadilhas é que o tinham dito, depois de recolhidos os restos da armadilha e dos homens, com uma pá de lixo. Um morto e um ferido eram de Moura, podia ter sido ele, por mais cuidados e precauções. Acontece. Mas não fora.

Foram acabar a comissão a Nova Lisboa, cidade de planalto, bom clima, um tal Norton de qualquer coisa, diziam que general, a tinha fundado, construído e escolhido para nova capital da colónia – ainda não surgira o eufemismo maricas e falsíssimo das províncias ultramarinas. Mas São Paulo de Luanda, com a fortaleza a encimá-la, fincara pé. E ficara.

Descobrira um primo afastado com fazenda imensa na Cela. Que ainda era chamado de colonato. A família acolheu-o, a primita Mariana, seis anos de princesa, esperta que nem um alho, sentava-se no colo dele e pedia, conta uma estorinha, Manel, conta que eu gosto muito. Quem quer casar com a menina carochinha… Ou seria joaninha? Ou baratinha? Tinha de se preparar, vinha aí, quem sabe, uma catraia.

Foram os padrinhos de casamento, em Luanda, com um dote do tamanho de uma quinta grande e uma larga manada de vacas leiteiras, para onde se tinham mudado, depois de consolidada a amizade com os progenitores da Lindocha, depois de baptizado o João Manuel Monteiro Carrapato, depois da nova barriga cheia da mulher.

Agora, a caminho da África do Sul, em dois camiões carregados de tralha, com a carteira de alguma forma recheada – podia estar mais, mas – a Lindocha ao seu lado na cabina, e os quatro descendentes dormindo em colchões de molas, atrás, debaixo da coberta de oleado reforçado e sob a guarda do Lucas Candembe, mirava de lado a mulher. Continuava linda e elegante, apesar dos partos.

Ao longe caía o sol. Rápido como só em África. Depois, bom, depois, talvez Moura. Naturalmente, sem a Lucinda.

sábado, outubro 21, 2006




Um «manto de invisibilidade»



Uma equipe de cientistas britânicos e americanos testou com sucesso um «manto de invisibilidade» em laboratório. O projeto foi desenvolvido em Maio pelo físico John Pendry, do Imperial College de Londres, e apenas cinco meses depois a ideia saiu do papel. Com a ajuda de cientistas americanos da Universidade Duke, na Carolina do Norte, Pendry conseguiu fazer um pequeno cilindro de cobre se tornar invisível a radares.
O «manto» - na verdade um equipamento circular, feito com dez anéis de fibra de vidro cobertos com materiais à base de cobre - fez com que as ondas emitidas pelo radar se desviassem do objeto e se reencontrassem do outro lado, como se tivessem passado por um espaço vazio.

Os cientistas explicam o processo dizendo que as ondas mudaram seu caminho como a água de um rio faz quando se encontra com uma pedra. Alguém que olhe a água no rio mais à frente nunca poderá imaginar que ela um dia passou por uma pedra. A tecnologia difere daquela dos «aviões invisíveis» porque, até agora, o
que se fazia era tornar o espectro da aeronave fino demais para ser detectado pelos radares.

Desafio

Os pesquisadores ainda não conseguiram, no entanto, fazer um objeto desaparecer diante dos olhos de alguém. Pelo menos por enquanto. Para isso, eles teriam que fazer com a luz o mesmo que fizeram com as
ondas de radar, o que ainda apresenta alguns desafios tecnológicos. «Ainda não está claro se vamos conseguir a invisibilidade que todo mundo imagina - como no manto do Harry Potter», disse explicou o cientista David
Smith, da Universidade Duke.

«Mas o teste mostra o que pode ser feito com materiais artificiais. Isso nos indica que podemos criar coisas que não poderiam ser alcançadas com nenhum material que já existiu antes», explicou ainda o cientista David Smith. Os autores da pesquisa lembram que a possibilidade de esconder objetos, como tanques, por exemplo, de sistemas de detecção por radar pode atrair especialmente os militares.

Fresca e oriunda do Brasil

Mais uma colaboração do Gustavo Duarte, nosso correspondente brasileiro. O moço (que ainda não escreveu nada de sua autoria...) tem, porém, sido um companheirão, bem disposto, amável e muito educado. Como se diz no seu País – é um cara muito legal.

Desta feita, o Gustavo manda um pequeno texto de agência noticiosa. Mas, pelo interesse que lhe acho, entendo publica-lo aqui. Os leitores amigos compreenderão, uma vez mais, a minha intenção de dar à luz da net «coisas» que lhes podem agradar e que os podem enriquecer no domínio do conhecimento e da cultura. Jovem: agora está na altura de um artigozinho teu, ok?

Conservo, como sempre faço, a grafia, a semântica e a semiótica do português brasileiro, o que continua a parecer a forma mais simples e mais directa que a mesma língua de Fernando Pessoa e de Carlos Drumond de Andrade, de Luandino Vieira e de José Craveirinha, de José Saramago e de Sakuntala de Miranda, de Corsino Fortes e de Alda Lara, de Jorge Amado e de Eça de Queiroz, de Mia Couto e de Aires de Almeida Santos, de Miguel Torge e de Orlando Costa tem de ser homenageada.

No receio de tentar ser exaustivo, o que é cada vez mais calino, ainda refiro nomes como o de Alda do Espiríto Santo e Rui Knopfli, João Aguiar e Lídia Jorge, David Mestre e Aquilino Ribeiro, Agostinho Neto e Fernando Namora, Alda do Espírito Santo e José Gomes Ferreira, João Maimona e Lobo Antunes, Tomaz Vieira da Cruz e, claro, Luís de Camões.

Fico-me por aqui. É maior a nota do que a notícia, sendo que a última é muito mais importante. Ponto final, parágrafo.
Antunes Ferreira