sexta-feira, maio 18, 2007







O INE e o desemprego

Taxa do primeiro trimestre
é a mais alta em nove anos



Antunes Ferreira
No melhor pano cai a nódoa, diz o Povo que, como quase sempre, tem razão quando enuncia ditados com este. Na verdade, é cada vez mais difícil contestar a sabedoria popular, plasmada em palavras simples mas solidamente alicerçadas em milhares de anos. No âmbito do Direito chama-se consuetudinário. Numa dimensão mais global, pois estamos na época, diz-se tradição. As mais das vezes – correcta.

Socorro-me, de novo, da agência noticiosa nacional e de órgãos da CS diversos. A taxa de desemprego de 8,4% estimada para o primeiro trimestre deste ano é a mais alta registada desde o início de 1998, quando o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) começou a actual série.Segundo o INE, os dados do emprego estão sistematizados desde 1974, mas em quatro séries distintas, não sendo possível fazer uma comparação directa entre as diversas séries, devido a «diferenças metodológicas significativas».


Na actual série, iniciada no primeiro trimestre de 1998, a taxa de desemprego só atingiu os 8% por uma vez, no último trimestre de 2005, e claro, no último trimestre do ano passado e no primeiro deste ano. O INE divulgou agora que a taxa de desemprego subiu 0,7 pontos percentuais no primeiro trimestre deste ano, face a igual período de 2006, atingindo os 8,4%, e registou uma evolução trimestral (em cadeia) de 0,2 pontos percentuais.

Como se pode ver imediatamente abaixo, escrevi uma nota, a partir de dados do Eurostat, e socorrendo-me de um texto sintético e informativo da autoria da jornalista Eva Gaspar. Anexei-lhe uma outra notícia, a partir do serviço da Lusa e permiti-me tirar umas quantas ilações. Tudo parecia indicar que se entrara no caminho da recuperação da economia portuguesa, ainda débil, mas a cair no sustentado.

Dou a mão à palmatória

Venha a palmada. Tanta é a vontade de ver o nosso País sair do marasmo em que vinha vivendo; tanta a confiança nos números e percentagens que eram fornecidos por entidades de reconhecida fiabilidade; tanta a intenção de apontar o caminho deste Governo, que tudo tem feito para inverter o derrotismo tipicamente português, ainda que à custa do cinto dos cidadãos, muito apertado, que alinhei nos convencidos. E com muito prazer.

Não era um sonho, mas também não era um desejo, no bom sentido da palavra. Era, tão só, a constatação de que a crise (que ainda existe) começava a ser ultrapassada, princípio de vitória que nos satisfaria e nos permitiria inspirar fundo, a haustos largos, para descomprimir a pressão que temos sobre nós, ainda que aligeirada. Bato no peito. Mea culpa.


Veio então à ribalta o ministro do Trabalho, o qual, em declarações à agência Lusa, disse que há dados que contrariam a tendência de aumento do desemprego mostrada pelo INE e considerou que, mantendo-se a aceleração do crescimento económico, Portugal está em condições de conter e começar a reduzir o desemprego.

No entanto, Vieira da Silva afirmou que a taxa de desemprego continua elevada, segundo esses dados do INE, mas que há outros dados recentes que mostram um sentido contrário, de recuperação no mercado de trabalho. E acrescentou que se trata de «uma preocupação da sociedade e do Governo». Pormenorizou que há «dados recentemente divulgados que mostram um sentido contrário» aos fornecidos pelo INE, e que aqueles apontam para «alguma recuperação».

Os dados de que fala o ministro são, em primeiro lugar, os do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), que apontam para uma tendência consistente de redução homóloga do desemprego registado. Os últimos, divulgados a 15 deste mês, mostram que o número de desempregados inscritos nos centros de emprego diminuiu 10,4% em Abril, face ao mesmo mês do ano anterior, pelo 14º mês consecutivo.

Números dados pelo ministro

No final de Abril, estavam inscritos nos centros de emprego do Continente e Regiões Autónomas 420.685 indivíduos, menos 48.568 desempregados que no período homólogo, dados que contrariam os do INE, que estimou hoje a população desempregada em 469,9 mil indivíduos, o que traduz um acréscimo homólogo de 9,4% (40,2 mil indivíduos).

Vieira da Silva referiu, também, à Lusa, que o número de desempregados - que recebem pela primeira vez o subsídio - caiu 13,5% no primeiro trimestre, em termos homólogos, enquanto o total de beneficiários do subsídio de desemprego caiu 8,1%, no mesmo período. «Estes dados podem ter a ver com a situação de mudança que a economia portuguesa está a atravessar», afirmou o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social.

Disse ainda que tem uma «expectativa favorável» sobre a «evolução positiva» do desemprego, especialmente depois dos dados sobre o andamento da economia portuguesa no primeiro trimestre. A 15 deste mês, o INE anunciou, na sua primeira estimativa rápida, que o crescimento da economia portuguesa acelerou no primeiro trimestre, com um aumento homólogo (face ao mesmo período do ano anterior) de 2,1%. A isso me referia no texto já citado.

O governante observou que «é sempre difícil prever uma tendência», mas considerou que Portugal estava «em condições de iniciar a contenção e a redução, ainda que ligeira, da taxa de desemprego». Poderão estas afirmações significar que o Executivo chefiado por José Sócrates embandeirou em arco desnecessária e imprudentemente?

Reconhecer que me enganei é difícil. Mas estou certo de que é o único caminho a seguir em certas ocasiões. Nestas coisas de previsões e estatísticas há sempre anedotas calinas para explicar o desfasamento entre dados e há também sempre quem aproveite essa discrepância para berrar «nós é que tínhamos razão! O Governo é, uma vez mais, mentiroso!»

Fizeram-no, eu digo, como lhes competia, as centrais sindicais, ou seja, a CGTP e a UGT, e os partidos da Oposição. O primeiro-ministro – estou quase certo (pelo sim, pelo não, adverbei com o quase) – irá comentar estes dados do INE na mesma linha adoptada por José António Vieira da Silva. Espero que, desta vez, seja suficientemente claro para que não se sujeite a mais dichotes e ataques acirrados.

Se não for assim, o chefe do Governo tem aqui um bico-de-obra. Tem, por isso, de despachar-se, de intervir neste imbróglio estatístico, de explicar cabalmente onde está o busílis. Se não o conseguir – os Portugueses talvez já não correspondam aos números e percentagens das últimas sondagens. Aqui, sem grande margem de erro – ou de dúvidas.

terça-feira, maio 15, 2007

REGISTO




O bom momento
da nossa economia

Eva Gaspar
Dados ontem divulgados pelo Eurostat confirmam que a economia europeia continua em boa forma, ainda que tenha sofrido uma ligeira da desaceleração, e que, no quadro da Zona Euro apenas a economia espanhola cresceu mais do que a portuguesa no primeiro trimestre.

A economia europeia sofreu uma ligeira desaceleração no primeiro trimestre deste ano, tendo no entanto crescido mais do que era antecipado, em larga medida devido ao desempenho da Alemanha que continua a surpreender os analistas pela positiva.




De acordo com dados, ainda provisórios, do Eurostat, a economia da Zona Euro cresceu 0,6% no primeiro trimestre do ano, menos do que os 0,9% registados no fim de 2006, mas mais do que o antecipado pelos analistas. Em termos homólogos, ou seja comparando o primeiro trimestre deste ano com o mesmo período do ano passado, o crescimento foi de 3,2%, também menos que os 3,3% observados no trimestre anterior.

Por detrás do relativo bom desempenho da área da moeda única, está a Alemanha que cresceu 0,5% no primeiro trimestre – metade do observado nos últimos quatro meses de 2006, mas acima dos 0,3% que eram esperados pelos economistas consultados pela agência Bloomberg que antecipavam uma desaceleração mais acentuada em virtude do aumento da taxa do IVA, de 16% para 19%, que entrou em vigor em Janeiro.




O início do fim da divergência?

Os números do Eurostat traduzem, porém, uma notícia especialmente positiva para Portugal. Após seis anos de divergência, a economia portuguesa parece estar a começar a corrigir a trajectória, tendo neste primeiro trimestre do ano crescido 0,8% face ao trimestre anterior, ultrapassando pela primeira vez em largos meses a média da Zona Euro (0,6%) e o andamento nos Estados Unidos (0,3%).

O bom momento da economia portuguesa pode ainda ser confirmado pelo facto de apenas a Espanha (1%) ter crescido mais do que Portugal, cujo desempenho é igualado pela Áustria.
Os dados provisórios, com base em valores apurados em oito dos treze países da Zona Euro, revelam ainda que a economia portuguesa foi a que mais acelerou entre o fim de 2006 e o início deste ano, ao dar um "salto" equivalente a meio ponto percentual.



Querida Eva
Palavra de honra que esta notícia não fui eu quem a inventou, muito menos quem a escreveu. É da autoria da jornalista Eva Gaspar, uma excelente profissional e minha boa Amiga. Há quanto tempo não tinha a oportunidade de lhe enviar um milhão de queijinhos – e agora aqui estão.
Querida Amiga: como vais tu e a descendência? Oxalá bem. Continuo a ler-te regularmente e admirar-te pelo que escreves e como escreves. Tantas vezes me tem vindo à memória os momentos interessantíssimos que vivemos em Bruxelas, nos intervalos dos Ecofin e nos finais dos trabalhos, quando o falecido Sousa Franco respondia aos jornalistas portugueses acreditados junto da União Europeia.
Então, eu era apenas um adjunto do ministro das Finanças e seu assessor para a Comunicação Social, como te deves recordar. Depois, bem, depois, muita água passou por baixo das pontes, e nem vale a pena recordar tudo o que aconteceu estupidamente. Prefiro relembrar os bons bocados que vivemos no Justus Lipsius. Esses, sim, esses deixaram, pelo menos a mim a gratidão que os Amigos me merecem.
Graças a vocês – e em especial a ti, querida Eva – me fui desengomando de tarefa que me era difícil por me sentir sempre (ou quase sempre) muito mais jornalista, que tinha sido e que voltei a ser, acabado esse período longo e tormentoso, do qual resultaria uma situação doentia que não desejo nem aos meus piores inimigos. Que tenho.
Hoje, neste meu blogue, transcrevo o teu texto publicado no Jornal de Negócios – sem te ter pedido licença para o fazer, nem autorização ao diário dirigido por Pedro S. Guerreiro. Mas sei de certeza feito que ambos me relevarão a ousadia e o correspondente procedimento.
Por isso, o texto curto e perfeito, como é teu uso, com a minha homenagem a ti – que a mereces por inteiro – e o desejo de nos reencontrarmos logo que nos seja possível, porque, podes crer, tenho muitas saudades de ti. E muito obrigado pelo que me ofereces em matéria de Jornalismo. Nos ofereces.
A.F.




Portugal acelera

Por outro lado e de acordo com diversas instituições nacionais, a começar pelo Instituto Nacional de Estatística o crescimento da economia portuguesa acelerou no primeiro trimestre, com um aumento homólogo (face ao mesmo período do ano anterior) de 2,1 por cento, segundo as estimativas rápidas do PIB, que o INE divulgou ontem pela primeira vez. Em cadeia (face ao trimestre anterior), o produto interno bruto (PIB) cresceu 0,8 por cento no primeiro trimestre de 2007, após 0,5 por cento nos últimos três meses de 2006.

O INE anunciou que as estimativas rápidas que divulgou colocam Portugal em linha com os principais países da União Europeia e serão publicada preferencialmente 45 dias após o final do trimestre de referência, podendo ser a data ajustada em função do dia de divulgação das estimativas rápidas da União Europeia pelo Eurostat.

Falando aos jornalistas no final de uma visita a uma fábrica de componentes para automóveis, a M C Graça, no Carregado, o primeiro-ministro referiu que Portugal registou agora "o maior crescimento trimestral dos últimos cinco anos". E acrescentou que "Pela primeira vez, ao fim de cinco anos, o crescimento económico ultrapassa os dois por cento, o que representa um factor de confiança e um número que espelha com clareza a recuperação da nossa economia".

Tendo ao seu lado os secretários de Estado do Comércio, Fernando Serrasqueiro, e da Indústria, Castro Guerra, Sócrates manifestou a convicção de que, perante os últimos dados do INE, "Portugal está a crescer a e a recuperar cada vez mais". "Quando este Governo tomou posse, o crescimento registado no primeiro trimestre de 2005 foi de 0,1 por cento negativo. Depois, em igual período de 2006 foi de um por cento positivo e agora de 2,1 por cento, o que dá bem a ideia da progressão do crescimento e da sustentação da recuperação em curso", advogou o chefe do Governo.

Na opinião de José Sócrates, o dado mais significativo é que Portugal cresceu agora mais 0,8 por cento do que no trimestre anterior. "Ou seja, o crescimento em cadeia é de 0,8 por cento. Trata-se de uma aceleração da nossa economia que é inclusivamente superior à da média europeia - o que representa um factor que dá mais confiança, mais sustentação e constitui um excelente indicador para os consumidores e para os agentes económicos", disse.

Interrogado sobre o baixo nível do consumo privado em Portugal, o primeiro-ministro contrapôs que esse dado "significa que o crescimento económico nacional é virtuoso". "O nosso crescimento é sustentado pelo sector exportador. Um crescimento com problemas é quando se baseia na procura interna, o que não é o caso de Portugal", defendeu o chefe do Governo. De acordo com o primeiro-ministro, em 2006, o sector exportador nacional "pela primeira vez ganhou quota de mercado, cresceu 8,8 por cento e continua ainda a crescer".

Sobre a expectativa do Governo em relação à estimativa que fará o INE sobre os primeiros 70 dias do ano, Sócrates mostrou-se de novo optimista. "Estou convencido que a variação será positiva entre a estimativa rápida dos primeiros 40 dias e a dos 70 dias, por parte do INE. Estou convencido que a variação será para mais", reforçou, antes de aludir aos principais organismos internacionais em termos de análise à economia portuguesa. "Todos os mais recentes dados divulgados têm reforçado a confiança na economia portuguesa, dizendo que cresce mais do que se esperava", acrescentou.
(Texto publicado pela CS e elaborado com base na Lusa)

ADENDA - Continuo a afirmar convictamente que mais não faço do que registar no Travessa do Ferreira estas informações. Com muito agrado e satisfação pessoal, porque são um lenitivo para o nosso País, onde ainda há gente que persiste em dizer que a crise está a anos luz de melhorar. Para que conste. A.F.





VOLTAR À GUERRA

Vermelha, não; encarnada

Antunes Ferreira
Pingolejava. Escorrendo pelas ramas, pelas folhas, pelas lagartas, a água, findos os apoios, caía em gotas grossas no emaranhado verde que cobria um chão escorregadio e putrefacto. Se fosse na aldeia da Sobraleda, aquele húmus seria de erguer as mãos aos céus pela benesse que representava para os favais sem linfa e sem estrume.

Ali, pois, ali, as coisas eram diferentes. O verde, melhor, os verdes dos quais se evolavam vapores sulfurosos (seriam?) rescendiam a esterco recheado de miasmas. O carreiro aberto pelas botifarras dos militares desenhava-se apenas à passagem, e voltava a desaparecer na espuma esverdeada que, de tão densa, impedia de ver o chão. Cuidado com as cobras, alertou o sargento Simões.

O pessoal redobrou de cuidados. Já não bastavam os inimigos, as emboscadas, as minas, os fogachos de toda a ordem, já não sobrava nada para que o medo se instilasse pelo camuflado, pelos polainitos, pela derme suja a precisar de banho com muito sabão azul e branco (ou seria macaco? Ou seria sabonete lux, aquele que cada nove estrelas de cinema, em dez, usava, para a beleza realçar?) e basta esfregadela, já não contavam as saudades, e agora as cobras.

Puta de vida, esta de dar corda às botas e andar em busca dos gajos que faziam maka, no dizer dos pisteiros e dos tropas da Província, que realmente era colónia mas que não se podia dizer, proibidíssimo. À volta, os cortinados, eles também multi esverdeados, eram paredes opacas e densas que impediam que eles vissem a mais de uns escassos palmos das trombas.

Do outro lado dos reposteiros vegetais podiam estar os gajos, especialistas em planar sobre o terreno, por mais que pisassem caules não se ouvia um estalido, estavam em casa, na casa deles, a mata era sua cúmplice, os pássaros continuavam a cantar com eles por baixo, eram todos primos, nós é que as assustávamos, as aves que engoliam os gorjeios à nossa passagem.

E nós estava mesmo lá, kalashnikoves nas mãos, pisa aqui, pisa acolá, sem ruído, sombras de uma floresta amiga, camarada, mãe, amante. Eles bem podiam desconfiar – e desconfiavam mesmo, jura mesmo sangui di kristo – que nós estávamos lá, porque estávamos. Na primeira oportunidade eles ia saber, nós lhes saltava, lhes apertava o pescoço, lhes derrubava com uma bassula a preceito.

Eu foi no mercado de Quinaxixe como carregador de um portuga que vendia mangas do Mussulo numas quitandeiras que ali tinha banca. Vinha no cocuruto do camião, uma White de escape acima, ao lado da cabina. Era o Senhor Jorge, beata na boca, palavrão na boca, sempre armando maka. Ele tinha mais sete camionetas, até uma japonesa, o negócio era roubo, dava dinheiro. Me batia até com pau. Lhe estava a querer mal até demais. Pensava lhe podia matar. Um dia, o meu primo Adão me disse que os amigos estavam a lutar na mata pela independência e ele ia para lá. Eu também foi.

Guerra é coisa má, mesmo

G
uerra é coisa muito má, mesmo. Se você podes resolver o assunto sem ter de ir na guerra, então resolve. Sangue demais, mortos demais, ferido demais, merda demais. Só que tem coisas que não se pode arranjar sem guerra. Libertar os nossos dos colono é muito importante. Por isso andamos por aqui, lhes impedindo de ter descanso, lhes metendo medo. Até das cobras.

Nós também tem medo das cobras. Tem cobra pequenininha que é venenosa, tem cobra grande-grande que engole um boi inteiro, tem cobra de terra, tem cobra de água. Diz que até tem cobra de mar, mas nunca ninguém disse que lhe viu. Os camuflados vêm aqui, deixam no puto as famílias, as namorada, os propriedade, essas coisas todas que fazem o homem ir no destino que lhe marcaram. Que não é a nossa terra, porque não é a deles.


Assim seguem, de um lado e do outro da manta pesada de verde tecida, mais suave ou mais pesadamente, soldados do exército portuga e guerrilheiros da libertação, a que os primeiros chamam turras. Como irmãos separados, como gémeos a quem o bisturi deu vida própria, correndo muitos riscos e passando muitas fezes. De cada lado pensando que no outro estão os inimigos prontos a eliminar os nossos.

Os nossos que igualmente seguem a passo, cada um considerando-se mais nosso e mais vivo, até que a ceifeira negra os reduza a carne queimada, retorcida, esburacada, a caminho da cova. Os uns e os outros, nossos à vez e ao mesmo tempo, destes e daqueles, olha lá ó Rodas, achas que os cabrões andam por aqui a tentar caçar-nos?

Camarada, os nossos está no ir, não faz barulho, que os outros estão à coca, esses não são maçaricos, já tem experiência da mata, já comeram o pão que o diabo amassou, como eles dizem e nós aprendemos deles. Escapam, não pisam no fio da armadilha, e os patrícios que lhes guiam também lhes ensinam como sobreviver aqui.

Se se encontrarem vai ser uma porra. Mesmo que não entendam exactamente porquê, só lhes restará apontar, carregar no gatilho, tirar o anel de segurança, lançar a pinha metálica em arco, agachar-se para não dar alvo, ou para apontar o morteiro. Borrar-se e vomitar do cagaço que os invade, conquista fácil, quem tem cu tem medo, a vida são dois dias e a morte é coisa certa, a única que a vida tem. Ou não tem.

Sei lá se chego ao Natal…

Tomara que desta vez sigam trilhos separados e divergentes. Ó Sousa, abre-me bem os olhos, incluindo o traseiro, o sacana do tempo não anda, fodam-se os relógios, andou uma mãe a criar um filho prá desgraça. Vem-lhe à cabeça uma frase que viu gravada na porta desconjuntada da latrina, no quartel: Quanto tempo demora um minuto a passar depende muito de que lado da porta da cagadeira um gajo se encontra.

O Lemos, pasteleiro na vida civil, que quer passar à peluda em Luanda, Angola é que é, do outro lado já deu o que tinha a dar, diz muito em surdina, os filhos da mãe têm ouvidos de tísico, agora o que caía bem era um bolo-rei. Está parvo, ou quê? Estamos em Junho, o bolo é do Natal, como as filhós, o presépio e o pinheiro. E o Pai da época. Sei lá se chego à consoada…

O negro Julião Kitombe é o mano da RPG a que os brancos chamam lança granadas foguete, ou bazuca. Ele a trata com carinho, lhe afaga o cano como quem acaricia mama de mulher de bico esticado e duro pelo cio. José Oliveira é mulato, filho de um frequentador de sanzala da Huila e de menina de ventre liso e aconchegador. Tem uma mauser de telescópica ou assim, lhe deu o pai pra caçar elefante, ela caça branco na picada.

Ao longe ouve-se a trovoada, faíscas ziguezagueiam no céu, abrem-se as comportas lá de cima, despejam águas quais quedas do duque, em bátegas que chicoteiam a noite entretanto caída. Caralho, aqui nem se dá por que o dia acabou. O sol põe-se sem a gente se aperceber, a não ser pelo vermelho dele. Alto lá; vermelho não, encarnado que, para o caso é mais alaranjado. E a tropa prossegue, encharcada até aos ossos, a chuva e a lama entra-lhe pelo pescoço e aninha-se nas botas cardadas.

Vamos embora, compadres, eles já não chegam no nosso caminho, outra vez será, hoje não tem guerra, não estava marcada, nem tem livro de ponto como a Diamang tem. Nós voltamos no quimbo, é mais acampamento, aiué, tem lavra no lado, não se preocupa, eles não vai lhe obrir, está bem escondido.

Salazar e Neto

Salazar e Agostinho Neto tornam a divergir nas ideias e nos percursos, aqui mergulhados nesse magma verde-verde que assentou praça no definido das mafumeiras. Interrogam-se as duas partes: mas que cagada de guerra é esta, feita de ludíbrios, de truques, de cartas na manga e muito viciadas? Nenhum sabe responder.

Os soldados nem sabem o que é essa trampa do colonialismo, meteram-nos no ventre ajoujado dum navio a abarrotar, depois de os terem treinado em escasso tempo para matar e morrer. Em nome de quê? A maioria deles nem se apercebe de que não percebe. Falem-lhes no Estado Novo - em que já nasceram – ou na Oposição e não sabem nada. Uns poucos, talvez, os que mais sabiam já desertaram a salto para a estranja.

Essas coisas não são com eles. O Benfica do Eusébio, a Amália Rodrigues, a Senhora de Fátima, até mesmo o Sporting do Seminário, o Juan, não o dos padres, o Porto do Pedroto, a Madalena Iglésias, o António Calvário, esses, sim dizem-lhes coisas, têm-nos nas cabeças e mesmo nos corações. Reuniões secretas? Onde? Pelos cartazes apenas sabem que o boato é crime e fere como uma lâmina.

E os nacionalistas? Talvez saibam – quiçá porque lho disseram – que estão a combater pela terra deles, o que, de qualquer forma, é muito mais importante, até mesmo empolgante, do que a pergunta que os tugas se fazem: porque raio estamos nós aqui? Muitos guerrilheiros (para os brancos são terroristas) vieram para a floresta por escolha. Mas outros também estão em comissão de serviço, como os seus adversários.

Não fosse a estupidez de Lisboa e a sua intransigência alvar, a ganância das famílias milionárias, a demência da clique salazarenta - e outro galo cantaria. Não fora o desejo de libertação, à mistura com interesses rebuscados e recônditos, a aspiração de tomar o destino nas próprias mãos – e o mesmo galo cantaria, claro, de forma diferente.

Assim, restam as rajadas, as explosões, a pólvora, os amuletos, as pagelas do Santo Padre Cruz, as G3, as facas de mato, os canhangulos, as catanas. O que é quase nada, porém suficiente para que os homens se chacinem as mais das vezes sem descortinarem porquê. O ideal seria que os donos das tropas, de uma e da outra parte se sentassem, conversassem, discutissem e evitassem a sangria. De sangue, não de vinho. Mas, infelizmente…

Dos dois lados da fronteira entaipada a verdes ambos se afastam. Os nossos e os nossos. O sangue tem de esperar nova oportunidade. A metralha ficou esquecida no canto da gaveta de terra vermelha. Vermelha, não; encarnada...

domingo, maio 13, 2007

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UM RECADO URGENTE
Para o Alentejano em Timor

Caro Amigo

Não sei mais nada a seu respeito, a não ser o que teve a gentileza de postar neste Travessa do Ferreira. E como «ameaçou» por aqui voltar a passar, para alem de lhe agradecer as suas palavras, peço-lhe que, querendo-o, faça o favor de me enviar os seus dados, para que possamos corresponder-nos com maior facilidade e Amizade. Adoro fazer Amigos – o melhor que temos na vida. E tenho costeletas alentejanas (a minha falecida Mãe era portalegrense. E outras…), além de uma nora de Estremoz. Não me safo… Fico à espera de novas novas suas. Um abração

Antunes Ferreira
Se algum dos leitores amáveis souber dar-me dados deste Senhor, agradeço-lho. Bem haja
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sábado, maio 12, 2007



O 1º desmaio

Hélder Fernando
Correspondente na RAEM

Vários sectores da governação, nestes anos de sete e meio, já sofreram alguns abalos. O sismo “mãos longas” fez tremer, mas não deitou a casa abaixo, pelo menos, por enquanto. Até que, no Dia do Trabalhador, apareceu o 1º desmaio. Uma mão cheia de tolices e orgulhos de caserna e camarata deitaram muita coisa a perder.

Se meia dúzia de desordeiros, aproveitando o desfile, fizeram disparates (a cena lastimável junto à casa mortuária foi um deles), os organizadores da manifestação deviam, imediatamente, tê-los expulsado da concentração.

Se entre as associações que organizaram o protesto há gente manifestamente impreparada para dialogar com as autoridades constituídas – gente porventura inútil para qualquer género de diálogo em sociedade – da próxima vez não metam tal gente nestas coisas, vale mais passarem-lhe guia de marcha para seguirem o conselho de Florinda Chan e rezarem pelos manifestantes.

Do outro lado das barricadas, se existe alguém sem cultura policial ao serviço de uma sociedade civilizada, sem percepção sobre comportamentos de grupo, sem preparação humana para impor a calma e não o pânico, exactamente no momento em que isso é mais necessário, devem esses elementos mudar de profissão, serem destinados a outras tarefas ou terem formação adequada.


Tal como não deve um policial desatar aos tiros no meio de pessoas desarmadas, porque alguém perdeu um chinelo, também um comandante policial, mesmo substituto, deve evitar o exercício de carregada ironia, ao afirmar que a força policial só usa balas verdadeiras. Descontrolo, arrogância evitável e ainda por cima afirmação não verdadeira. Qualquer polícia do mundo, incluindo Macau, mesmo em situações de dimensão e grau de violência muitíssimo superiores, utiliza outros processos e outras munições não reais.

Os truques utilizados pelas forças policiais no sentido de dividir os manifestantes, resultaram em actos de grosseria. Qualquer polícia para ser respeitada, tem de dar-se ao respeito, respeitando as atitudes do cidadão desde que sejam legais. A manifestação estava autorizada. Independentemente das discussões sobre alguns locais de passagem – que resultaram no tal nítido défice de diálogo entre as partes – é altamente provocatório deterem-se organizadores do protesto e, também à força, separarem-se os manifestantes com gradeamentos e cordões policiais. Imagine-se o que seria com cidadãos extremistas, violentos e em muito maior número.

Os manifestantes não empunhavam armas de fogo nem coqueteiles molotov nem facas nem canivetes nem varapaus nem fisgas. E havia mulheres que empunhavam flores. Somente as vozes gritavam, legalmente, sobre a vida que não corre bem a boa parte do povo de Macau. Circunstância que não é novidade, apesar de ouvir falar das fabulosas fortunas arrecadadas na região por privados e, consequentemente, pelo orçamento oficial. Se a força policial, por algum instante, sentiu necessidade de fazer actuar um plano de emergência, esse plano terá sido mal escolhido ou então mal interpretado no terreno.

Já foi condenado, ao mais alto nível da administração da RAEM, o acto, de aparência esquizofrénica e afirmadamente não autorizado, de um agente disparar meia dúzia de tiros reais para o ar, com o perigo de serem atingidas pessoas debruçadas imediatamente por cima, numa passadeira aérea para peões. Como contraponto inevitável, lá vieram afirmações oficiais (que toda a gente compreende) louvando o comportamento policial durante a manifestação. Macau gosta mesmo de dar a imagem de terra de equilíbrios. Mais do que terra harmoniosa, pelos vistos.

Os policiais são seres humanos e muitas vezes a vida também não lhes correrá lá muito bem. Devem eles saber, tal como devem saber os governantes, que, mesmo circunstancialmente, existe uma coisa que se chama desespero humano. Desespero que vem da esperança que passou a dúvida que passou a desilusão. Mais tarde ou mais cedo as pessoas podem ter motivos de descrença. Então irritam-se, desesperam e manifestam-se. Sejam 6, 600 ou 6000. E a RAEM não precisa deste tipo de manifestações para provar ao mundo que, como prometido, vive, a prazo, no tal “2º Sistema”. Estes protestos, em Macau, provam nada. Como se sabe, na China continental registam-se manifestações muito maiores e muito mais violentas.

No 1º de Maio deste ano – que foi o 1º desmaio oficial (felizmente socorrido a tempo pelo próprio chefe do executivo, pessoa que desejará tudo menos atitudes destas), os manifestantes não protestaram contra o regime legal instituído. Protestaram contra a falta de se realizarem, em todos os sectores, políticas efectivamente a favor do equilíbrio social.
(In Hoje Macau)



O correspondente em Macau

Isto cresce. Hoje, um outro colaborador. Não digo novo, porque o Hélder Fernando já não é propriamente um júnior. Também ainda não chegou a velhadas como eu. É um sénior, diga-se, moçambicano que aterrou em Macau já lá vão uns largos anos, depois de passagem abreviada por esta nesga de terra banhada pelo Atlântico.

Chegou e ficou. Nesta altura, já tem os olhos mais em bico do que muitos amarelos. Ninguém o tira de lá. É jornalista, já fez de tudo, jornais, revistas, televisão, rádio. É, porem. Nesta última que diz sentir-se mais à vontade. Não creio que o novo elemento, desde já correspondente da Travessa na RAEM, precise de o dizer. A sua voz já encantava as gentes da antiga colónia portuguesa na costa oriental de África. Por onde passou, assim aconteceu. E pronto.

Aqui neste blogue faltar-lhe-á o microfone. Pelo menos, por enquanto. Mas as suas prosas, essas, começam hoje, ainda que, para já, em transcrição do jornal Hoje Macau a quem agradeço a autorização que me teria dado – se eu lha tivesse pedido. O que devia obrigatoriamente ter feito – mas não fiz. Sou, continuo a ser, um iconoclasta.

O Hélder vai mesmo – ele o prometeu – passar a ter nesta casa que também é dele textos originais. Num blogue onde Macau tem sido objecto de bastantes e diversas abordagens, as suas prosas são muito bem vindas. Pelo conhecimento de décadas que tem daquela Região, pelo pendor orientalista que possui, pelo simples facto de, para alem de Amigo, ser um Jornalista com caixa alta. Cá estamos, ó Hélder Fernando.
A.F.

domingo, maio 06, 2007




CÂMARA CLARA


Ainda e sempre Macau

O José Perry da Câmara é um tipo pachola. Todo dado à arte da fotografia, mesmo em Angola quando por lá esteve no serviço militar, e, de tal forma, que penso que foi mais a película que usou do que as balas que atirou. Se estou errado, o Perry que me corrija. Tem um blogue, o alaminuteandante que não é brinquedo, todo ele são bonecos tirados aqui e acolá, quero dizer, por parte já substancial do Mundo. Covido-os a visitá-lo. Bem merece.

Convidei este bom Amigo (são tantos, felizmente, que já esgotei os adjectivos qualificativos e outros…) para vir colaborar neste Travessa. De escrita, nada, respondeu-me um tanto encabulado. Já de fotos… E assim é. Ele pela-se por Macau, quase tanto como pela fotografia. Veja-se o comentário que deixou no artigo subscrito pelo José Augusto Garcia Marques.

Malandreco, este Zé Perry. Não escreve, não escreve, mas, este blogue já contem umas frases por ele assinadas. Bastou cheirar-lhe à Cidade do Santo Nome de Deus (não sei se ainda hoje é esta a denominação e já não vou à Região Especial há uns largos anos) e aí está o nosso homem a botar faladura e, ainda por cima, opinativa. Nunca se diga desta água…

Hoje, aqui o temos, de novo. Mandou-me um mail. «Envio uma imagem tirada de um pequeno livro (de postais antigos) do macaense Lu-fu em Macau. É um livro de desenhos sobre os Tipos do Império Português – Exposição Histórica da Ocupação – Ministério das Colónias, foi uma edição com desenhos de Eduardo Malta, para a “famosa” exposição do Mundo Português». E termina modestamente «Se quiser, pode incluir este desenho no seu blog».

Óbvio que quero, óbvio que aqui está. Eduardo Malta, goste-se ou não dele, foi um grande pintor deste País. No retrato, um Mestre. Situacionista na outra senhora, tal não invalida a categoria imensa do seu traço. E quanto à Exposição do Mundo Português, realmente foi famosa, até sem aspas. Foi fruto de uma época, é certo, mas o capitão Henrique Galvão, então salazarista foi uma obra excelente.

Mais tarde, já na Oposição, Galvão - que se tornaria um dos mais férreos e encarniçados adversários de Salazar - não renegaria, nunca, a «sua» Exposição, nem teria justificação, muito menos razão para o fazer. E por aqui me fico. Perry, mande mais. E, já agora, com umas linhas de texto. Se dúvidas houvesse… A.F.

sábado, maio 05, 2007

NO CESTO DA GÁVEA


Os médicos mentem
para proteger
os interesses

dos seus pacientes?


João Figueira
Falemos de atitudes médicas. Melhor: das justificações dadas por um médico para explicar os dados falsos que ele e a equipa por si chefiada publicaram na página oficial do Sport Lisboa e Benfica. Refiro-me, para quem não tenha seguido a novela com a devida atenção, ao relatório clínico do jogador Simão Sabrosa, publicado no site official do clube. e às justificações ontem dadas publicamente pelo chefe do departamento clínico do Benfica. E o que é ele disse que me ofendeu tanto, como cidadão e sócio do clube? Afirmou que mentiu deliberadamente sobre a situação clínica do futebolista para o proteger!!!!! E que o treinador, Fernando Santos, estava a par de tudo…


Respondendo com olimpica tranquilidade a todas as perguntas dos jornalistas, em conferência de imprensa convocada para o efeito, o dr. João Paulo Almeida chegou ao ponto de afirmar que a Ordem dos Médicos tem coisas mais importantes com que se preocupar do que com o relatório clínico mentiroso que ele e a sua equipa publicaram.

Partindo do princípio de que as imagens que vi mais que uma vez através da televisão não foram truncadas nem o médico foi substituído por um sósia com o objectivo de prejudicar a sua imagem, há três ou quatro coisas que não posso deixar passar em claro.

Primeira: Jamais voltarei a confiar num médico que não hesita em mentir a granel. E gostaria que a direcção do Glorioso SLB pensasse o mesmo, dispensando-o no final da época.

Segunda: O dr. João Paulo Almeida e sua equipa, antes de serem funcionários de um clube, são médicos e só por isso e nessa qualidade foram contratados; ou seja, devem respeitar integralmente o Código Deontológico da Ordem Profissional a que pertencem. Esse Código Deontológico exige o respeito pela privacidade dos seus pacientes. Exigência essa que é compaginável com a verdade, quando, por qualquer motivo, os relatórios clínicos são tornados públicos. Veja-se a este respeito, por curiosa coincidência, as declarações médicas a propósito do estado clínico de Eusébioi, enquanto esteve internado no Hospital da Luz.


Terceira: Se o treinador Fernando Santos conhecia, como o dr. João Paulo Almeida disse, a situação clínica de Simão Sabrosa, porque é que o manteve no lote de convocados para o jogo com o Sporting, ao ponto de o jogador ter feito um teste na manhã do dia do desafio? Foi para despistar? E despistar quem?

Quarta: A credibilidade do departamento clínico do SLB está ferida de morte, depois das explicações suicidárias do seu chefe. Mas como cidadão, gostaria de ver a Ordem dos Médicos actuar, pois a passagem em claro desta situação pode vir a tornar-se num precedente perigoso. No meio desta barafunda toda há algo que continua um pouco confuso na minha cabeça: os médicos mentem para defender os intereses e a imagem pública dos seus pacientes?


Não será mais fácil e deontologicamente mais correcto simplesmente não se pronunciarem publicamente sobre tais situações? As explicações do dr. João Paulo Almeida, cujas qualidades profissionais e honorabilidade aqui não ponho em causa nem jamais porei, deixam, todavia, no ar, a ideia de uma fuga precipitada para a frente, sem ter pensado nas consequências daquilo que disse.

Se eu fosse jornalista jamais voltaria a acreditar num relatório dele. Nunca saberia se aquilo que ele teria escrito era verdade ou apenas uma mentira para proteger alguèm, cuja protecção, como agora se viu com o caso Simão Sabrosa, é mais frágil e caricata que uma peneira para evitar os pingos de uma borrasca.

sexta-feira, maio 04, 2007



RI-TE, RITA

Exigências da vida moderna
(quem agüenta tudo isso??)


Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.


Todos os dias deve-se tomar um Yak ult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.

Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver. Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia. E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.


Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia. Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito.As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).

E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando. Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.

Ah! E o sexo.Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico. Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.

A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!!! Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos e seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher. Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio. Agora tenho que ir. É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal...

Tcháu....Se sobrar um tempinho, me manda um e-mail.


O Ricardo torna a atacar

Cá temos mais um texto primoroso e engraçadíssimo de origem brasileira (a grafia do Português do outro lado do Atlântico, por isso mesmo, é respeitada) que foi enviado pelo Ricardo Charters d’Azevedo. O bom malandro – perdão Mário Z – não escreve, a não ser um único (mas bom) comentário que se dignou postar aqui no Travessa.

Bom seria para os leitores que ele se decidisse e mandasse uns textos para gáudio da rapaziada que aqui (ainda) vem. Estou já a ouvir as salvas de palmas que a decisão do Ricardo conglomeraria, entusiásticas e sonoras, mais do que as que por certas noites me invadem a casa, que fica a uns escassos metros do estádio mais lindo, quiçá do Mundo, o Alvalade Século XXI. Pelo menos, da Segunda Circular.

Mas enquanto esse sonho, o Verão está cada vez mais próximo, não se concretiza, despojemo-nos de aspirações complicadas e quedemo-nos por estas pequenas preciosidades que o Charters me vai fazendo chegar, à mistura com outras menos preciosas e destinadas a «picar-me»… Eu, na mais santa das intenções, perdoo-lhe tais desvarios – amigos.

E continuo a alimentar a esperança de ver este blogue fiel depositário de produções literárias ou artísticas do Ricardo Charters d'Azevedo. E enquanto tal não sucede, contentemo-nos com estas preciosas migalhas, ao pé das quais as rosas da Rainha Santa Isabel não seriam mais do que flores de papel de Campo Maior. A.F.

quarta-feira, maio 02, 2007



Anedotas, leva-as o vento

Antunes Ferreira
Estamos perante uma invasão, um tsunami, um verdadeiro excesso na blogoesfera portuguesa. Pode-se perguntar, até, se a portuguesada trabalha, ou, no mínimo, se o faz nos intervalos dos mails que aparecem a uma velocidade tal que, ao pé dela, o Obikwelu é uma tartaruga, ou um caracol. Muito se tem apostrofado a falta de produtividade dos descendentes de Viriato. Este é, felizmente, um caso que é um desmentido de tal atoarda.

Não há blogue que não se preze onde se não poste uma graçola a respeito. O que nem é difícil pois os chistes e anedotas - mais rasteirinhas ou menos chocarreiras – são aos milhões de milhões, ou seja, e mais resumidamente, aos biliões, fórmula estranha de contagem nacional que manda às urtigas os mil milhões. Nisso, valha-nos alguém ou alguma entidade, somos originais. Ao menos.

A grande maioria dos meus correspondentes e Amigos tornou-se especialista neste corrupio informático. Que começa a cansar de tão repetido vezes sem conta. Pelo menos a mim. E não venham os batalhões de snipers dizer que é o que está a dar, que esta metralha incansável é bué de fixe e que é uma ganda cena. Ninguém me encomendou este sermão. Mas que o caso já toca as raias do inconcebível, toca.

Já todos perceberam do que estou a escrever. Do caso do «falso engenheiro». Que até a Procuradoria-Geral da República se prepara para investigar. Fosse Sócrates um ladrão indiciado, um corrupto apetencial, um assassino na sombra e o Ministério Público não fazia mais do que o seu dever. Ora, tanto quanto se sabe, o primeiro-ministro não se enquadra nesta galeria de criminosos mais ou menos comuns.


Para nós, Portugueses, o dizer mal é uma prática sem a qual não conseguimos sobreviver, quanto mais viver. Sabes a última? – era a pergunta dos tempos da Ditadura. Obviamente que era a última anedota sobre o Botas. Era, também, o tempo das revistas do Parque Mayer em que se dizia o pior (possível) sobre o Estado Novo/Velho. O que a Censura deixava. Ou, por vezes, aquilo que não entendera previamente. Censor não precisava de ser inteligente.

Somos militantes do dichote, praticantes do diz-se, associados do Clube da Má Língua. Não temos – ainda – cartão identificador de cada um destes procedimentos, mas quiçá o novo documento único já os inclua no seu chip. E bem que o seja. A insidia, o videirismo, o ultraje, a obscenidade, a par com a galhofa maior ou menor, já deviam estar informatizadas. Não estão. Culpa do Sócrates.

As piadas – de todas as formas, feitios e qualidades, algumas até bem concebidas e bem conseguidas – circulam na Net em tal profusão que não há anti-spam que as consiga reter, já que os McFee e outros não estão preparados para face, a elas, fazer delete. Porem, a esmagadora maioria delas é apenas acintosa, mal intencionada, rasteirinha. Nós que nos gabamos de ser os maiores produtores de anedotas em todo o Mundo, até já chegámos ao cumulo de adaptarmos ao nosso tempo, algumas cujas barbas já chegam a Plutão.


No inicio do consulado de Sócrates, foi implementada a campanha do menos homem. O primeiro-ministro era homossexual, vivia com um actor de nomeada, a mulher até o deixara por esse motivo, os dois filhos que tem não eram mais do que uma capa para cobrir as vergonhas. Até a sua relação com uma jornalista (que, entretanto, acabou) não era mais do que um álibi despudorado.

O boato, difundidíssimo, foi caindo aos poucos, viram quem o começara que já não dava mais nada, é melhor acabar com ele, já fez a sua época, ainda que não tenha tido o êxito esperado. Um aborrecimento. A vida é assim, cada vez menos fácil para os atiradores encapuzados e emboscados. Que nem sequer têm sindicato que os represente, defenda e a quem não pagariam quota.

Estamos, portanto, numa altura em que dar porrada em José Sócrates por mor das alegadas trafulhices dos seus diplomas académicos é o que está na berra. Tenta-se, assim, fazer esquecer o que tem sido a sua forma de governar, a coragem política que vem demonstrando ao avançar contra os grandes interesses e os correspondentes lobbies.

As Oposições não são lá grande coisa, o que Sócrates sabe, como o sabe uma esmagadora maioria dos cidadãos, mas não é por culpa dele. As sondagens – por mais que não se acredite nelas, outra típica postura lusitana – vêm dizendo que, apesar de tudo e das engenhocas engenhocadas, o PS continuaria, nas urnas, a alcançar a maioria absoluta.

Isto mesmo tendo em conta que o Governo socialista chefiado por José Sócrates (engenheiro ou não…) tem vindo a adoptar medidas que são tudo menos eleitoralistas. E os resultados vão, aos poucos, saltando à vista, o que não dá muita saúde aos que a isso se têm tentado opor.


Ainda ontem veio a lume uma notícia (mais uma) que dizia que o Indicador de Clima Económico progrediu em Abril para 101,6 pontos (mais 0,8 pontos) em Portugal, o nível mais elevado dos últimos 12 meses , de acordo com dados divulgados pela Comissão Europeia. Já vejo os habituais críticos de pé ligeiro, os difusores interneticos das anedotas, as carpideiras da crise, a comentarem sobre mais uma encomenda à UE.

No nosso País, a subida registada deve-se fundamentalmente ao aumento da confiança no sector dos serviços, verificando-se uma estabilização na confiança nos sectores industrial, consumidores e construção, e um ligeiro recuo no comércio de retalho. Em termos gerais, Bruxelas sublinha que a confiança também aumentou na Alemanha (mais 1,4 pontos), Polónia (mais 4,0), tendo diminuído na Espanha (menos 2,2), Itália (menos 1,1), e Reino Unido (menos 0,9).

Pronto. Continuem os autores/divulgadores a criar e difundir incansavelmente, as piadas sobre a qualificação académica de José Sócrates. A quem muitíssima gente continua a tratar por engenheiro. É uma verdadeira obra de misericórdia que assim façam. Espera-vos o reino do céu. E ainda que não seja crente, já o tendo sido, recordo aqui palavras de Jesus Cristo: «Muitos são os chamados e poucos os escolhidos». Mais ainda, no Gólgota: «Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem».

Se, porem, o quiserem e puderem fazer, vão-me poupando, aos poucos, no que toca a intromissão informática das ditas piadas. Já que os outros não o fazem - e estão no seu plenissimo direito de assim actuar - deixem-me descansar, ainda que por escassos minutos. Ó diabo. Lembrei-me agora da legenda calina da RTP do começo: «O programa segue dentro de momentos».

terça-feira, maio 01, 2007



O Dia do Trabalhador

Antunes Ferreira
O
ra cá estamos nós em mais um Dia do Trabalhador. O primeiro de Maio, tal como é conhecido, tem uma história interessante que abaixo publico, socorrendo-me da Wikipedia, ferramenta excelente, que muito ajuda a quem se mete em coisas que dizem respeito a datas e acontecimentos.

Para mim, o primeiro de Maio tem um significado muito especial. O regime salazarento proibia quaisquer comemorações, pois eram consideradas movimento do proletariado vindo directamente da comunistissima União Soviética. Se uns mais timoratos tentavam sair à rua, logo a polícia intervinha à bastonada ou à coronhada.

Estávamos em 1962. Andava pela Faculdade de Direito, na Cidade Universitária. A malta das Associações, umas legais, poucas, outras toleradas, decidira em plenário comemorar o Dia do Estudante a 24 de Março. A 21 o ministro da Educação, Manuel Lopes de Almeida, proíbe a celebração. A malta – e posso dizê-lo assim, porque me contava entre o número dos mais implicados – decidiu ir em frente.


Nomes como os de Jorge Sampaio, Macaísta Malheiros, Jorge Araújo, Medeiros Ferreira, Mário Sottomayor Cardia, Isabel do Carmo, Vítor Wengorovius, Vera Jardim, Raimundo Narciso, Leonor Aboim Inglês, Miguel Galvão Telles, Orlando Neves, Nuno Brederode Santos, Mário Lino, entre muitos outros, ficaram para sempre associados ao movimento. Todos meus Amigos, todos unidos, todos solidários.

Face à pertinácia estudantil, perante as concentrações em frente da Reitoria, onde Marcello Caetano, como sempre, tentava uma no cravo ,outra na ferradura, a polícia avançou. Invadiu a Cidade Universitária, cercou a cantina, trouxe autocarros para levar os estudantes (que entretanto detivera) para Paço de Arcos, onde era o quartel da Polícia Móvel. Estive lá. Era a Crise Académica. Que se prolongaria pelos meses fora, tendo um ponto alto precisamente a 1 de Maio.


Daí que 1962 me tenha marcado e dele me recorde sempre quando chega o 24 de Março, quando se atinge o primeiro de Maio. Há coisas que nos ficam indelevelmente marcadas na memória. Recordo-me delas como se fosse hoje e recordar-me-ei sempre. E agora, tal como antes disse, um pouco de história, através da Wikipedia.


«No dia 1 de Maio de 1886 realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago nos Estados Unidos da América. Essa manifestação tinha como finalidade reivindicar a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias e teve a participação de centenas de milhares de pessoas. Nesse dia teve início uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou com uma escaramuça com a polícia e com a morte de alguns protestantes.

No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio dos policiais que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket.

Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista reunida em Paris decidiu por proposta de Raymond Lavigne convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o primeiro de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago.


Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França é dispersada pela polícia resultando na morte de dez manifestantes. Esse novo drama serve para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores e meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama esse dia como dia internacional de reivindicação de condições laborais.

A 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica o dia de oito horas e proclama o dia 1 de Maio desse ano dia feriado. Em 1920 a Rússia adopta o primeiro de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países».



Só um apêndice. No primeiro de Maio de 1975 integrei, como me competia, a manifestação do Partido Socialista que, encabeçada por Mário Soares, tentou participar nas comemorações lideradas Partido Comunista no Estádio anteriormente chamado 28 de Maio. Infrutífera intenção. Nós, socialistas, fomos agredidos, vilipendiados e impedidos de entrar no recinto onde o PCP e muitos militares pontificavam. Tenho, disso, fotografia, que, infelizmente, não encontro.

Outro momento que registo sem receio de apagamento nos lobos cerebrais. A Liberdade e a Democracia estavam em causa, a ameaça totalitária plantara-se e prometia crescer. Foi nesse momento que entendi perfeitamente o perigo que nos esperava. Os Portugueses reagiram e defenderam denodadamente essas virtudes cívicas. E iriam ganhar a causa. Felizmente.

segunda-feira, abril 30, 2007



Macau no mundo lusófono



Pa tudo genti genti
di lusofonia
ung-a abraço
di Macau
Esta mensagem, em “patois” (o crioulo local), representa o afectivo abraço de Macau – que a si próprio orgulhosamente se qualifica como “uma flôr de lótus na Lusofonia” - para toda a gente do mundo lusófono
.

***
José Augusto Garcia Marques
N
a verdade, como alguém escreveu, Macau representou um desafio para Portugal e para a comunidade lusófona pela possibilidade única de um processo negociado e pré-definido de transferência de poderes. De facto, nunca como em Macau foi possível uma intervenção atempada e estrategicamente enquadrada por um tratado internacional, no qual não só foi definido um processo de transição ao longo de doze anos, como também se estabeleceu o quadro de referência para o modelo político e as estratégias a desenvolver no Território, nos cinquenta anos subsequentes.

A Declaração Conjunta Luso-Chinesa, assinada em 1987, teve por paradigma uma ideia de permanência e continuidade dos sistemas económico, jurídico, e social que entraram no ano 2000 praticamente inalterados excepto no que se refere à mudança do Estado que passou a exercer a soberania sobre Macau – já não Portugal, mas sim a República Popular da China.

Macau não é um Estado, sendo antes, desde 20 de Dezembro de 1999 uma Região Administrativa Especial (RAEM) da República Popular da China, dotada de um elevado grau de autonomia, que usa (também) o português como língua oficial. A RAEM é dotada de poderes executivo, legislativo e judicial independentes, incluindo o de julgamento em última instância, ou seja, de autonomia administrativa, legislativa e judiciária, e ainda de autonomia económica e financeira, de um específico regime de protecção de direitos fundamentais e da liberdade de definição das políticas de cultura e educação e de um estatuto linguístico próprio do bilinguismo oficial.

No final do já longínquo ano de 1988, tive a oportunidade de me deslocar a Macau onde efectuei um estudo que constituiu uma contribuição para a reforma do modelo judiciário do Território, tendo os Tribunais continuado a obedecer, com algumas adaptações, ao sistema judicial português. O mesmo se pode dizer no domínio da legislação fundamental, continuando a vigorar em Macau, também com adaptações, os grandes Códigos de matriz portuguesa.

Espaço multilingue

Macau é um espaço multilingue onde coexistem o cantonês, o mandarim, o português, as diversas línguas da região e o inglês. Sendo a população de Macau em ampla maioria de etnia chinesa, tem o cantonês como língua materna, tendo a língua portuguesa sido até 1999, língua da Administração. Para a comunicação entre as comunidades portuguesa e chinesa foi indispensável a existência de falantes que soubessem as duas línguas. Neste contexto, o macaense foi elo de comunicação entre portugueses e chineses.


Como já se disse, sendo uma comunidade de Estados, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), tal como foi criada, não foi concebida para integrar Macau no conjunto dos seus membros. Creio, porém, que é do interesse recíproco da CPLP e de Macau, extensivo, obviamente, a todo o espaço da lusofonia e, segundo cremos, à República Popular da China (RPC), o incremento de relações de Macau com a CPLP ou, até, da CPLP com a RPC. Assim tem sido entendido pelas autoridades políticas de Macau, com a óbvia concordância do Governo Central da RPC, sendo disso exemplo eloquente o êxito que representaram os 1ºs Jogos da Lusofonia recentemente realizados em Macau, sob a organização da Associação de Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP).

Em face do sucesso da convivência da RAEM com o sistema jurídico resultante da fase de transição, poderão alguns surpreender-se com os resultados obtidos. E poderão questionar-se sobre como foi e é possível a aplicação de modelos jurídicos plasmados em Códigos de raiz lusitana numa tão distante e tão díspar Região do Mundo, onde, não obstante as ligações históricas, não se pode falar – longe disso - em identidade de culturas.

Um País, dois Sistemas

Penso que tal sucesso radicou em parte na preparação que foi possível fazer no período de transição, à luz da Declaração Conjunta, texto que veio dar concretização à importante síntese de objectivos tão bem traduzida na máxima: “Um País, dois Sistemas”. A atestar esse esforço, pode referir-se o grande esforço, em grande parte coroado de êxito, que foi feito, nos anos finais da década de oitenta e se prolongou pelos anos seguintes, que permitiu levar à adopção de um adequado modelo para o sistema judiciário do “Território” e à elaboração de um conjunto de diplomas codificados que receberam a marca do direito português.

Mas tal sucesso deveu-se a uma outra circunstância: ao sentido pragmático desta população, falante ou não falante do português, dispondo de uma diferente cultura, mas aceitando as regras de conduta social que, no âmbito do Direito, visam disciplinar as relações jurídicas privadas e comerciais entre as pessoas e entre comunidades e ordenamentos tão diversos como os da República Popular da China, de Hong Kong e de Macau.


Independentemente dos valores, era essencial que a economia e o comércio funcionassem. Respeitaram-se as liberdades “de primeiro grau” – a propriedade privada, a liberdade de estabelecimento, de comércio, de circulação, os princípios da liberdade negocial, da autonomia da vontade e do sinalagma contratual. Numa economia sólida, respeitam-se generalizadamente os valores do trabalho, do lucro e da boa fé negocial. Honram-se os compromissos à luz do princípio pacta sunt servanda (os acordos devem ser respeitados).


Durante a minha deslocação, na visita que fiz ao magnífico Museu de Macau, eu próprio pude constatar a marca genética que, para esta Região, reside historicamente na pujança da actividade mercantil, assente na liberdade de trocas comerciais e na interacção entre as culturas oriental e ocidental, no caso representadas pela China e por Portugal.


Milhões de coisas


Como se pudesse entregar
aos meus filhos, tal como ainda
hoje me comove, a intacta memória
da minha avó Berta Emília.

José Fanha
H
á tantas coisas que eu gostava de fazer... Tantas, tantas que, para não me esquecer, comecei a fazer uma lista.

Gostava de subir ao alto do armário da cozinha ou das árvores que ficam em frente da janela do meu quarto, chegar mais perto do céu e fazer chichi cá para baixo. Gostava de descer ao fundo do mar, abrir as conchinhas e espreitar os peixes de todas cores nos buraquinhos das rochas. E gostava de tocar as flores que o gelo faz nas terras geladas. Gostava de voar às cavalitas de um condor gigante.

Ou então, melhor que tudo isso, gostava de aprender a tocar uma música tão bonita que fizesse os ratinhos, os coelhos e as pombas virem atrás de mim pela rua fora até chegarmos ao fim do arco-íris.

O mundo está cheio de flores e bichinhos e peixes no mar e estrelas no céu. E é por ser tudo tão bonito que eu gostava de fazer tantas, tantas coisas... Milhões de coisas. Triliões.

É uma lista muito grande. Uma lista que continua e continua e nunca mais pára e é por isso que eu ando sempre muito ocupado.

domingo, abril 29, 2007







Os caminhos da Ásia

Antunes Ferreira
O número 78, de Janeiro/Março do ano XX dos Cadernos de Economia tem por título Os Caminhos da Ásia. Saltaram-me os olhos para a obra, ainda que a Economia não seja propriamente a minha especialidade. Comecei por deitar-lhe uma vista de olhos descomprometida. Como sempre, o grafismo era um primor, atractivo, participante, como mandam as regras.

É conhecida a minha apetência pelos temas asiáticos. Talvez por ter uma mulher goesa, talvez por me sentir bem na Índia e na China, talvez por isso tudo. Talvez, quem sabe, por ser Português. Os nossos avoengos, como é sabido, foram os primeiros europeus a chegar à Índia, à China, ao Japão, por mar. E a outras partes do mundo asiático.

Portugal goza, ainda hoje, de um privilégio neste particular. Pude comprová-lo pessoalmente, em Goa, Damão e Diu, mas também em Cochim e Calecute, no antigo Ceilão, hoje Sri Lanka, na Malásia e em particular em Malaca, bna Tailândia, na Coreia do Sul, e fico-me por aqui. Deambulando por tais paragens, foi-me possível testemunhar o apreço de muita gente pelo nosso País.

No aeroporto de Kuala Lumpur

Um só exemplo. No aeroporto de Kuala Lumpur, saídos da primeira classe de um jumbo da Lufthansa, eis-nos na cabeça de uma longa fila de espera. Eram apenas duas, concorrentes, uma tentando ser maior do que a outra. Minha mulher e eu estávamos, como disse, No primeiro lugar. Mostrámos os passaportes. O funcionário, apenas os olhou, pediu-nos para esperar um momento, volto já, e foi ao escritório nas traseiras do balcão de atendimento.

Veio acompanhado de um Senhor moreno, em camisa branca, com galões carregados de fitas doiradas. São Portugueses? Assentimos. O meu Pai e a minha Mãe também. (E eu sou... meio). São de Margão. E a Raquel entusiasmada, eu sou da Raia. E ele, concelho de Salcete. São mesmo de lá. Chamo-me Mascarenhas, com h, porque aqui usam dizer que sou Mascarenas. Gargalhámos.

Voltando-se para os restantes passageiros que integravam a nossa fila, disse-lhes que fizessem o favor de passar para a outra, porque tinha de falar em especial connosco. Uns quantos protestos, algumas dúvidas, que teriam feito aqueles gajos, mas o ensonado da hora aconselhava temperança e paciência e assim aconteceu.

Foram duas horas de conversa, numa mistura de inglês, português mascavado e concani. Que terminou com a combinação de, no dia seguinte, irmos jantar a sua casa, o que aconteceria. Com o carro do Ministério dos Negócios Estrangeiros à nossa espera, pois dois elementos daqueles serviços tinham-nos ido receber à aerogare. Eu ia entrevistar o primeiro-ministro malaio…

Podíamos ter nas nossas malas quilos de coca, de haxe, de oiro, de diamantes que tudo passaria sem um ai, pois o Senhor Director dera, entretanto, uma ordem rápida e seca a um subordinado que, obediente, riscou a giz o passe liberatório da bagagem. Não tínhamos. Mas poderia ter começado aí uma promissora carreira de traficante autorizado…

Que equipa de colaboradores!

Peço mil desculpas, mas despistei-me. Volto aos Cadernos de Economia. Como é habitual, o Ramos Gomes alambazou-se com uma equipa de colaboradores de se lhe tirar o chapéu. Longe de mim ser exaustivo. Aleatoriamente: Murteira Nabo, Carlos Monjardino, Basílio Horta, Paulo Teixeira Pinto, Mira Amaral e muitos outros, terminando com as duas páginas assinadas pelo Nicolau Santos.

De tudo um pouco. Do crescimento impressionante destes dois gigantes da globalização. Do desenvolvimento das relações económicas com as duas potências. Do papel de Portugal. De Bangalore, a «Silicon Valley» indiana, com um pool de talento de mais de 150 mil engenheiros de software. Do desafio da tecnologia portuguesa. A terminar A Miragem Asiática de um outro bom Amigo, o competentíssimo Nicolau Santos.



Nicolau mete ombros a uma tarefa difícil. Tenta desmistificar o que por aí vai correndo sobre Portugal poder ser o interlocutor privilegiado da Índia e da China, em alguns mercados, nomeadamente o de Angola. É uma análise um tanto amarga – mas… realista. Transcrevo: «A ausência de, já não digo negócios concretos mas ao menos de intenções dos ditos, evidencia (…) que somos um animal demasiado pequeno para fazer parcerias com os grandes conglomerados chineses e indianos».

E, a terminar: «Claro que não se deve ignorar a China e a Índia. Mas é bom ter presente: 1) que elas não precisam de nós para nada; 2) não pensam em nós com parceiro para algum objectivo ou como local privilegiado na Europa para investir; 3) e nós temos outras apostas bem mais importantes, como os mercados dos Estados Unidos ou Angola».

De qualquer forma, os Cadernos de Economia dedicados à Índia e à China têm forçosamente de ser lidos – e com muita atenção. Convém que nós, Portugueses, estejamos informados sobre estes assuntos. A informação e a sociedade que lhe corresponde são cada vez mais sinónimos de poder. Não foi por acaso que Marshall McLuhan (1911-1981), o Papa da Informação deu à sua obra mais conhecida o título de «A aldeia global».
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Ramos Gomes

António Ramos Gomes é o exemplo acabado do Jornalista que é também empresário. Conhecemo-nos em Angola e desde logo ficámos amigos. O que se prolongaria até hoje, para meu contentamento e felicidade e creio que também para ti, António. Os seus Cadernos de Economia vão no ano XX, ou seja sendo já uma publicação de referência, também ultrapassaram a linha da maioridade. Para quem anda em tais lides – são incontornáveis. Até mesmo, imprescindíveis.


Trabalhámos bastas vezes juntos. Sei da fibra do Ramos Gomes. Sei da aventura a princípio um tanto quixotesca que são os Cadernos. Cadernos que começaram a marcar, e hoje definitivamente marcam a nossa Economia. Um Director altamente prestigiado como é Mário Murteira sai para a rua acompanhado sempre de nomes sonantes no domínio.
Não quero deixar de terminar este breve apontamento com uma menção que dá bem a noção do prestígio dos trimestrais. Estávamos em 1995 e eu era o ajunto e assessor do malogrado António de Sousa Franco, naturalmente para a Comunicação Social. Momentos complicados, para não dizer mesmo difíceis, com um governante – e não atraiçoo aqui a sua memória – que não ia muito à bola (releve-se-me a expressão) com os órgãos da mesmo CS.
Por alturas de mais uma crise com a gente da Informação, o ministro das Finanças deu-me a indicação de que, nesses momentos, não queria prestar quaisquer declarações nem dar explicações, nada. Com a franqueza de uma Amizade que vinha do primeiro ano do Liceu Camões e se prolongara até à Faculdade de Direito de Lisboa, aconselhei-o a não proceder assim. Debalde.
O António Ramos Gomes surge-me, nessa precisa altura a pedir-me para apresentar junto do meu Amigo António Luciano a sua solicitação para um texto dele a publicar nos Cadernos. Com a paciência também em baixo respondi-lhe que nem pensasse nisso. Retorquiu-me que, ao menos, eu podia tentar.
Ficaria de mal comigo próprio se não o fizesse, arrostando embora com a cólera do ministro que, mesmo entre amigos – que éramos sem qualquer espécie de dúvidas – quando se aborrecia não era fácil. Assim, um tanto de pé atrás, horas depois da advertência que ele me fizera, disse a Sousa Franco o que se passava.
Espanto dos espantos. Em vez do desaguisado previsto, saiu, tão-só uma pergunta: «Para quando é que o Ramos Gomes quer isso?». Pasmei, mas andei em frente: «Para daqui a três semanas, ainda que, se fosse antes…». «Diz-lhe que no final da próxima semana terá alguma coisa». E acrescentou «ele merece-o. É um tipo decente, trabalhador, empreendedor e honesto. E bom profissional».
Tudo dito. António: um grande abraço e é com muito prazer que aqui faço o registo do último Cadernos de Economia. Boa sorte Amigo e felicidades para a tua obra. Bem a mereces.
A.F.
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