
Uma no cravo
Antunes Ferreira
De novo, o senhor dr. Jardim. Cada vez mais complicado. O incontrolável líder madeirense não está quieto, é um desassossego permanente, que até me faz lembrar cenas do Parlamento da I República, período que me interessa sobremodo e sobre o qual me debruço há vários anos. Um exemplo. Corria 1912 e as coisas em Portugal andavam mal, ou melhor, de mal a pior. A República titubeava e Paiva Couceiro era uma constante ameaça ao novo regime.
O deputado Brito Camacho, que depois viria a ocupar diversas pastas nos Governos que se foram sucedendo, pediu no Hemiciclo de São Bento que os insurrectos fossem julgados por tribunais militares, que o Poder decretasse o estado de excepção e, até, a dissolução parlamentar a que chamava o «adiamento» da Assembleia. O que viria a ser derrotado por 90 votos contra 60.

O maior opositor de Brito Camacho era Simas Machado, igualmente parlamentar de relevo e militar. Ele já se notabilizara pela forma como fizera abortar as diversas tentativas dos monárquicos para restabelecer o regime anterior. Seria um dos comandantes do Corpo Expedicionário Português na Grande Guerra e já general haveria de ser demitido do comando do Exército por motivo dos seus ideais republicanos.
Os debates entre eles ficaram nos anais do parlamentarismo português. No calor dos mesmos, ambos fizeram afirmações cada qual mais acirrada para o contricante. O coronel Simas Machado, homem cuja bravura e hombridade eram reconhecidas, perdia porem, face à ironia de Brito Camacho, ele sim um verdadeiro iconoclasta truculento.
A estória é simples. Já cansado de seguir as voltas e reviravoltas de Camacho, especialista em rabear os oponentes, Machado – de acordo com as actas parlamentares – virou-se para o Presidente da Câmara dos Deputados (que conjuntamente com o Senado constituíam o Parlamento) e disse. Estou farto das diatribes do senhor Camacho. Ele dá constantemente uma no cravo, outra na ferradura.

Brito Camacho, com um sorriso contundente: Porque Vossa Excelência não há maneira de estar quieto com o pé. Bons tempos esses em que os tribunos tiravam verdadeiro prazer das diatribes. Em que as bengaladas no Chiado eram quase tão importantes como as habilidades oratórias dos políticos. Hoje, perdeu-se quase tudo. Mas, para certos gabirus da politiquice, não seria mal pensado voltar ao uso da bengala.
PS faz guerras à Madeira
Socorro-me das agências noticiosas, par que não me acusem de invencionice. O inefável dr. Alberto João Jardim apelou sábado ao Presidente da República, para que este impeça que o Estado seja utilizado para «fazer guerras partidárias à Madeira». No seu estilo inimitável, o líder do PSD – Madeira ainda, continuando a dirigir-se ao Chefe do Estrado, solicitou-lhe: «Não consinta que alguém, no caso, do PS, se sirva do Estado, se sirva do poder que recebeu nas eleições, se sirva do dinheiro dos contribuintes, para fazer guerras partidárias à Madeira». Assim falou Zaratrusta, digo, o dr. Jardim, no comício-festa do PSD-M na ilha do Porto Santo, numa referência ao Governo de José Sócrates.

O presidente do PSD-M fez este apelo quando vincou que não aceitará qualquer alteração à actual Lei das Finanças Regionais, em preparação pelo Governo da República, no âmbito da qual o executivo de Lisboa pretende, já em 2007, e segundo o Governo Regional, cortar 128,18 milhões de euros nas transferências do Estado para a Região.
Na ocasião, João Jardim defendeu ainda que a próxima revisão constitucional de 2009 deverá consagrar um país e três sistemas (Continente, Madeira e Açores) e que apenas as matérias que fazem a unidade nacional - Forças Armadas, Segurança, Tribunais de Recurso e Política Externa - devem ser comuns às três partes. Não é novidade nem blasfémia, pois o discurso jardínico vem tendo esta componente há bastante tempo. «O resto, deixem cada parcela de Portugal desenvolver, porque esse é o caminho da descentralização», defendeu.
Sócrates quer Madeira/colónia
Segundo o também presidente do Governo Regional da Madeira, «esta ofensiva do PS, em Lisboa» «visa» inviabilizar o funcionamento da autonomia política, «reduzindo a Madeira» à situação de distrito, «para ser outra vez colónia». «Querem ou não querem a Madeira no seio da unidade nacional?», questionou Jardim, reforçando o apelo a uma resposta dos governantes da República: «digam se nos querem na Pátria portuguesa, digam se nos querem ajudar no nosso desenvolvimento».
Apesar da tónica inconsequente da sua intervenção, o líder do PSD-Madeira assegurou que os madeirenses «têm orgulho em serem portugueses», sendo a sua luta contra os interesses políticos e económicos de Lisboa, que «abusam dos portugueses do resto do País». Contradição? Auto-divergência de opiniões? Lapso? Nenhuma das hipóteses terá acontecido pois o senhor do Funchal nunca faz algo assim. Ele é a verdade.
Mas, para alem disso, garantiu que não haverá aumento de impostos na região autónoma, como medida para enfrentar as dificuldades de eventuais cortes das transferências do Estado. Já num anúncio publicado a semana passada na imprensa local, o Governo da Madeira denunciou que o Executivo de Sócrates se prepara para cortar verbas orçamentais à região, ao abrigo da revisão da Lei das Finanças Regionais, podendo os cortes atingir 128 milhões de euros no próximo ano e 187 milhões em 2010.
Numa comunicação intitulada «Informação ao povo madeirense», o Governo Regional alertava que, «caso essa proposta prevaleça», o Executivo madeirense ver-se-ia «na obrigação de tomar medidas drásticas». Na ilha do Porto Santo, onde se encontra de férias, Alberto João Jardim assegurou então que a sua equipa não procederá ao aumento de impostos para minimizar os efeitos da eventual quebra nas transferências orçamentais do Estado: «Se isto for por diante, vamos ter de espalhar no tempo os investimentos do Governo», asseverou. Jardim disse que «terá de haver outra engenharia financeira e lançar os investimentos de 2006 para 2007, os desse ano para 2008 e assim sucessivamente», e acrescentou que «os socialistas defendiam que devia lançar e aumentar impostos».

«Não me estraguem as férias»
Aparentemente já noutro registo, o dr. Jardim referiu ainda que Porto Santo «é o melhor lugar do Mundo para fazer férias, devido ao equilíbrio que se encontra». As férias na ilha permitem «urdir estratégias para melhorar a região autónoma, porque melhorar a Madeira é um contraponto ao descalabro em que o PS está a meter Portugal», e «uma inspiração para uma luta anti-socialista, porque não quero que o meu país seja um país onde há uma confusão entre Estado e PS». Instado a comentar se aconselhava José Sócrates a passar férias na ilha do Porto Santo, retorquiu: «Não me estraguem as férias».
Temos, assim, mais uma ameaça camuflada de sedição, pela boca do chefe madeirense. No seu melhor estilo, ou não estivesse de férias no Porto Santo para urdir estratégias e se inspirar para a luta anti-socialista. A excomunhão do Governo do País está feita. Jardim, o único dono da verdade, disse, está dito. Idi Amim não diria melhor. Nem Ceausescu, muito menos Kim Jong Il, para já não falar do pai Kim Il Sung.
Cavaco Silva, para quem o boss da Madeira apela, é, curiosamente, o mesmo «senhor Silva» que apostrofou tempos atrás e de quem disse que devia «ser expulso» do PSD. As habituais piruetas do Rei Momo do Funchal que não consegue estar com o pé quieto, pois este pula-lhe continuamente para a dança. Daí o dar-se a si próprio uma no cravo outra na ferradura. Quosque tandem, Alberto, abutere patientia nostra? Cícero não disse exactamente assim, mas para o caso - tem plena oportunidade.
PS - Amigões Jorge Vilas, Herculano Costa et aliud: perdoem-me, mas não consigo fugir à tentação. Se calhar também sou um troglodita, quem sabe?





























