terça-feira, agosto 22, 2006


Uma no cravo


Antunes Ferreira
De novo, o senhor dr. Jardim. Cada vez mais complicado. O incontrolável líder madeirense não está quieto, é um desassossego permanente, que até me faz lembrar cenas do Parlamento da I República, período que me interessa sobremodo e sobre o qual me debruço há vários anos. Um exemplo. Corria 1912 e as coisas em Portugal andavam mal, ou melhor, de mal a pior. A República titubeava e Paiva Couceiro era uma constante ameaça ao novo regime.

O deputado Brito Camacho, que depois viria a ocupar diversas pastas nos Governos que se foram sucedendo, pediu no Hemiciclo de São Bento que os insurrectos fossem julgados por tribunais militares, que o Poder decretasse o estado de excepção e, até, a dissolução parlamentar a que chamava o «adiamento» da Assembleia. O que viria a ser derrotado por 90 votos contra 60.




O maior opositor de Brito Camacho era Simas Machado, igualmente parlamentar de relevo e militar. Ele já se notabilizara pela forma como fizera abortar as diversas tentativas dos monárquicos para restabelecer o regime anterior. Seria um dos comandantes do Corpo Expedicionário Português na Grande Guerra e já general haveria de ser demitido do comando do Exército por motivo dos seus ideais republicanos.

Os debates entre eles ficaram nos anais do parlamentarismo português. No calor dos mesmos, ambos fizeram afirmações cada qual mais acirrada para o contricante. O coronel Simas Machado, homem cuja bravura e hombridade eram reconhecidas, perdia porem, face à ironia de Brito Camacho, ele sim um verdadeiro iconoclasta truculento.

A estória é simples. Já cansado de seguir as voltas e reviravoltas de Camacho, especialista em rabear os oponentes, Machado – de acordo com as actas parlamentares – virou-se para o Presidente da Câmara dos Deputados (que conjuntamente com o Senado constituíam o Parlamento) e disse. Estou farto das diatribes do senhor Camacho. Ele dá constantemente uma no cravo, outra na ferradura.


Brito Camacho, com um sorriso contundente: Porque Vossa Excelência não há maneira de estar quieto com o pé. Bons tempos esses em que os tribunos tiravam verdadeiro prazer das diatribes. Em que as bengaladas no Chiado eram quase tão importantes como as habilidades oratórias dos políticos. Hoje, perdeu-se quase tudo. Mas, para certos gabirus da politiquice, não seria mal pensado voltar ao uso da bengala.

PS faz guerras à Madeira

Socorro-me das agências noticiosas, par que não me acusem de invencionice. O inefável dr. Alberto João Jardim apelou sábado ao Presidente da República, para que este impeça que o Estado seja utilizado para «fazer guerras partidárias à Madeira». No seu estilo inimitável, o líder do PSD – Madeira ainda, continuando a dirigir-se ao Chefe do Estrado, solicitou-lhe: «Não consinta que alguém, no caso, do PS, se sirva do Estado, se sirva do poder que recebeu nas eleições, se sirva do dinheiro dos contribuintes, para fazer guerras partidárias à Madeira». Assim falou Zaratrusta, digo, o dr. Jardim, no comício-festa do PSD-M na ilha do Porto Santo, numa referência ao Governo de José Sócrates.





O presidente do PSD-M fez este apelo quando vincou que não aceitará qualquer alteração à actual Lei das Finanças Regionais, em preparação pelo Governo da República, no âmbito da qual o executivo de Lisboa pretende, já em 2007, e segundo o Governo Regional, cortar 128,18 milhões de euros nas transferências do Estado para a Região.

Na ocasião, João Jardim defendeu ainda que a próxima revisão constitucional de 2009 deverá consagrar um país e três sistemas (Continente, Madeira e Açores) e que apenas as matérias que fazem a unidade nacional - Forças Armadas, Segurança, Tribunais de Recurso e Política Externa - devem ser comuns às três partes. Não é novidade nem blasfémia, pois o discurso jardínico vem tendo esta componente há bastante tempo. «O resto, deixem cada parcela de Portugal desenvolver, porque esse é o caminho da descentralização», defendeu.

Sócrates quer Madeira/colónia

Segundo o também presidente do Governo Regional da Madeira, «esta ofensiva do PS, em Lisboa» «visa» inviabilizar o funcionamento da autonomia política, «reduzindo a Madeira» à situação de distrito, «para ser outra vez colónia». «Querem ou não querem a Madeira no seio da unidade nacional?», questionou Jardim, reforçando o apelo a uma resposta dos governantes da República: «digam se nos querem na Pátria portuguesa, digam se nos querem ajudar no nosso desenvolvimento».

Apesar da tónica inconsequente da sua intervenção, o líder do PSD-Madeira assegurou que os madeirenses «têm orgulho em serem portugueses», sendo a sua luta contra os interesses políticos e económicos de Lisboa, que «abusam dos portugueses do resto do País». Contradição? Auto-divergência de opiniões? Lapso? Nenhuma das hipóteses terá acontecido pois o senhor do Funchal nunca faz algo assim. Ele é a verdade.

Mas, para alem disso, garantiu que não haverá aumento de impostos na região autónoma, como medida para enfrentar as dificuldades de eventuais cortes das transferências do Estado. Já num anúncio publicado a semana passada na imprensa local, o Governo da Madeira denunciou que o Executivo de Sócrates se prepara para cortar verbas orçamentais à região, ao abrigo da revisão da Lei das Finanças Regionais, podendo os cortes atingir 128 milhões de euros no próximo ano e 187 milhões em 2010.

Numa comunicação intitulada «Informação ao povo madeirense», o Governo Regional alertava que, «caso essa proposta prevaleça», o Executivo madeirense ver-se-ia «na obrigação de tomar medidas drásticas». Na ilha do Porto Santo, onde se encontra de férias, Alberto João Jardim assegurou então que a sua equipa não procederá ao aumento de impostos para minimizar os efeitos da eventual quebra nas transferências orçamentais do Estado: «Se isto for por diante, vamos ter de espalhar no tempo os investimentos do Governo», asseverou. Jardim disse que «terá de haver outra engenharia financeira e lançar os investimentos de 2006 para 2007, os desse ano para 2008 e assim sucessivamente», e acrescentou que «os socialistas defendiam que devia lançar e aumentar impostos».



«Não me estraguem as férias»

Aparentemente já noutro registo, o dr. Jardim referiu ainda que Porto Santo «é o melhor lugar do Mundo para fazer férias, devido ao equilíbrio que se encontra». As férias na ilha permitem «urdir estratégias para melhorar a região autónoma, porque melhorar a Madeira é um contraponto ao descalabro em que o PS está a meter Portugal», e «uma inspiração para uma luta anti-socialista, porque não quero que o meu país seja um país onde há uma confusão entre Estado e PS». Instado a comentar se aconselhava José Sócrates a passar férias na ilha do Porto Santo, retorquiu: «Não me estraguem as férias».

Temos, assim, mais uma ameaça camuflada de sedição, pela boca do chefe madeirense. No seu melhor estilo, ou não estivesse de férias no Porto Santo para urdir estratégias e se inspirar para a luta anti-socialista. A excomunhão do Governo do País está feita. Jardim, o único dono da verdade, disse, está dito. Idi Amim não diria melhor. Nem Ceausescu, muito menos Kim Jong Il, para já não falar do pai Kim Il Sung.

Cavaco Silva, para quem o boss da Madeira apela, é, curiosamente, o mesmo «senhor Silva» que apostrofou tempos atrás e de quem disse que devia «ser expulso» do PSD. As habituais piruetas do Rei Momo do Funchal que não consegue estar com o pé quieto, pois este pula-lhe continuamente para a dança. Daí o dar-se a si próprio uma no cravo outra na ferradura. Quosque tandem, Alberto, abutere patientia nostra? Cícero não disse exactamente assim, mas para o caso - tem plena oportunidade.

PS - Amigões Jorge Vilas, Herculano Costa et aliud: perdoem-me, mas não consigo fugir à tentação. Se calhar também sou um troglodita, quem sabe?

segunda-feira, agosto 21, 2006



Legendas em crise



De quando em vez a vida prega-nos partidas de todo inesperadas. Ainda há quem diga que a espera convicta e militante é própria dos santos que se põem no altar. Santos por santos, nem sei quem prefira. E como não vou muito em tretas dessas, foi o joliva Santos que, desta feita, me deixou de cara à banda. E estive eu à espera que ele voltasse de umas férias de quase quatro meses, para ter tal desilusão. E eu não faço parte do grupo dos alegados santos, daqueles que as más línguas dizem que estão celestialmente sentados à direita do pai de todos. Leia-se, de todos os santos, ou seja um verdadeiro pai putativo.


Todos os santos


Pois bem, vou explicar o porquê deste escrito. Tenho tentado em vão botar umas legendas por baixo das fotos que publico neste blogue. Os resultados, não sendo completamente desanimadores, são apenas justificativos de me considerar um falhado em legendas. Creio que noutras coisas mais, mas desta feito o que vem ao caso são os piés de foto como dicen nuestros vecinos y hermanos.

O Santos, joliva, que não deve confundir-se com o Fernando Teixeira dos Santos, meu bom Amigo, apesar de ser o Ministro das Finanças (e, nessa qualidade, me e nos vai à bolsa e aos bolsos de uma forma que não é brinquedo), pois dizia eu, o joliva, confrontado com consulta que lhe fiz, disse-me que para uma legenda ao centro ainda sabia; quanto às restantes, à esquerda ou à direita, népia.

Face a tal declaração de impotência – no que concerne às legendas descentradas verdadeiramente em crise – decidi tentar uma experiência. Sempre em busca da verdade, da inovação e da modernização. Podia ter-me embrenhado no Plano Tecnológico. Mas lá dizia o Vate zarolho, mais vale experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não pode experimentá-lo. AF

quinta-feira, agosto 17, 2006

Nem tiro nem mina

Antunes Ferreira
Cabo-verdiano, 43 anos de idade, casado, quatro filhos, Maximiliano Pires é o Administrador de Concelho de Buco-Zau, em Cabinda, terra de fiotes e de grandes florestas.


Precisamente aqui, no Maiombe, paraíso de madeireiros. Tem casa onde vive com a família, a mulher, Laurinda é de Trás-os-Montes e professora primária, os miúdos quase tão claros como a mãe, excepção feita à Manuela, a caçula, morena linda de morrer nos seus oito anos.

Agora com o petróleo, Cabinda é rica. Quer dizer, quem enriquece é principalmente a Cabinda Gulf Oil, que explora o ouro negro e quem nela trabalha. No entanto, Portugal também não se considera muito infeliz, pois parece que há massas para todos. Dizem os cabindas que menos para eles. E se calhar têm razão. Mas isto é outra conversamole para encher pneu, como diz o Faustino, caipira do Amazonas que ali se implantou há uns anos, muito antes da FLEC.

Maximiliano, Max, para os amigos - nome assim só em Cabo Verde ou em Goa – tem um primo, Gracindo, que se dedica ao café. Diz ele que sem grandes resultados, as culturas já deram o que tinham a dar, com um tal tamanho ensarilhado de árvores, pouco espaço há para a rubiácea. Também teve cacau, até veio um gajo de São Tomé cuidar da plantação, mas foi chão que deu não uvas mas cacaueiros. Coisas.


Um dia, em Luanda, ele e o primo tinham ido a casa de um compadre para beber uns grogues de nos’terra. O Leontino morava no décimo andar do prédio da Cuca, tiveram que tomar o elevador, apertadinhos. O ascensor estava recheado de pretos, qual deles mais castanho escuro do que os outros. A algaraviada, acompanhada de grandes risadas ajudava a encher o bicho.

Quando saíram no décimo e antes mesmo de tocar à porta, sai-se o Gracindo, ó pá, aqueles gajos bem podiam tomar banho de vez em quando. Era só catinga e da mal cheirosa. O primo tinha razão. E não era apenas o cheiro a suor ácido, por ali devia andar também mija no canto do aparelhómetro e sabe-se lá mais o quê.

Gisela abriu-lhes a porta com um sorriso esmaltado na face mestiça. Entrem, entrem, O Leo está na preparação e alem das bóbidas vocês ficam para jantar ou, mesmo cear. Que não, que tinham de voltar à pensão Rosa de Porcelana, arranjar as malas, no dia seguinte o avião da DTA era logo às oito horas, tinham de levantar-se às cinco, tomar banho e restantes arranjos e talvez matabichar, que no ar não davam.


E a cachupa muito rica?

Então não querem lá ver, a comadre não arredava pé, tenho uma cachupa rica que me levou toda a manhã, quase nem ia a Quinaxixe, para comprar mandioca e peixe fresco, agora têm lá uns filetes de tubarão que dizem ser uma delícia, é serviço do Instituto das Pescas, ali à Marginal. Mas tinha ido e também trouxera uma mão cheia de camarão grosso, que já estava cozido em água com sal e jindungo.

E por banho, vocês subiram no elevador, creio. Menina, nem pareces tu. Então havíamos de amarinhar dez andares à pana. Nem que fôramos alpinistas. Pois, deita-te de bocas, e o cheirinho a malta sem banho, muito menos desodorizante... Deste na muche, Gisela, deste no centro do alvo, és melhor do que o Guilherme Tell. Essa pretalhada bem podia ao menos duchar-se uma vez por semana. Mais não que pode gastar a pele.

O Leontino ainda vinha a cheirar a cachaça da rija, quase se podia adivinhar a qualidade da cana. Bóis, vamos à nossa farra, nós cá tem de tomar banho e lavar as mãos, é tudo limpeza. Sempre lhe causava admiração o cá que significava não. Mistérios. E entrou pelo palrar das ilhas, crioulo lhe chamam, no Senegal é créole, quem havia de dizer. Claro que ficavam e dormiam e ele levava-os ao aeroporto ainda que a ressaca fosse muita. Não resiste, porém, a um bom muzungué.

Esbodegaram-se pelos cadeirões de verga que estavam na varanda, três uísques à maneira com soda e muito gelo, antes do grogue e da cachupa, acentue-se, rica. Então como vão as coisas por lá? Muita guerra, muitos tiros, muitas minas? Ele preferia falar nas mulheres, as cabindas eram as mais bonitas, mais boazonas, as melhores na cama de todas as negras angolanas.

Guerras – o trivial

Quanto a guerras era o trivial. Por lá, o MPLA não tinha, se calhar ainda, grande força. O compadre, alapado em Luanda, primeiro oficial dos Correios, matava-se pelas estórias que qualificava de bélicas. Sabia de tropa mais do que os tropas profissionais ou milicianos, até os calibres das munições lhe eram familiares.

Pois então, ele, Max, também andava metido naquela saralho do carilho, não é? Sim ou sopas? Andava. Nem era preciso acrescentar que o fazia muito contrafeito e cheio de cagaço das balas, das bombas e do resto. Porra, que quando elas assobiam à nossa volta é melhor usar cuecas castanhas para disfarçar. Mas o alferes que estava em Buço-Zau era um bacano, destemido e galhofeiro. Dispensara-se de acrescentar e solteiro, o que lhe dava mais largueza e mais miúdas.

Se falasse na família era um arraial, medo pelos filhos que não estavam criados, longe disso, medo pela mulher, que faria a Madalena sozinha se ele se finasse com um balázio explosivo na tola? Foi, por isso, avançando nas emboscadas, nos golpes de mão, nas armadilhas, na mata ciclópica, nas Panhares que não conseguiam entrar naquele labirinto de verde e picos.

... na Guiné com o PAIGC


Queres dizer, Max, pelas tuas bandas não há grande perigo? Olha se fosse na Guiné, o PAIGC já controla mais de metade do território, o Amílcar nosso patrício sabe da poda, não fosse ele engenheiro agrónomo. Claro, claro, por lá não se apagavam muitos. E muito menos um administrador de concelho. As gargalhadas tonitruantes deviam ouvir-se no Vilela.



Ainda a noite era uma criança e já estão eles no Dakota, já aterram, já desanda o Lande Rover da Administração para o Buco-Zau. Viagem tranquila, sobressaltos só na cabeça dele, o primo ressona que nem um hipópotamo – será que os hipopótamos ressonam? – a estrada nem é muito má e ele conhece-lhe os buracos todos.

É uma festa à chegada. De recordações, traz umas camisas de Macau para os rapazes, um fogareiro eléctrico para a Laurinda e uma boneca gigante e loira para a Leninha. Do Quintas & Irmão, loja de tudo, com tudo e para tudo e todos. E cadernos e lápis para os catraios da escola, que também merecem, não dão infernizam a cabeça da professora.

Ainda que manhã, leva-a para os lençóis já esticados, é sempre assim, os vales e as montanhas do corpo dela, a pele acetinada, o cheiro a floresta virgem, o que ela não é..., bem pelo contrário, adora ser comida por ele a qualquer hora e em qualquer sítio até na cozinha, esturra o saca-folha, mas que se lixe. Mãe de quatro filhos, mas rija e tesa, uma perdição.

O santo sacrifício da cama




Quando param entre suspiros e arquejos, ela avisa-o que tinham chegado os papéis das análises e que já os fora entregar ao doutor Fonseca que, mal lhes deitara os olhos dissera que queria falar com ele, quando chegasse, não era uma pressa nem morte de homem, estivesse descansada, mas queria mesmo. Depois se vê. Agora voltam ao santo sacrifício da cama, ela grita morrendo de prazer, ele ri-se, se cá estivessem os catraios, ainda bem que já foram para a escola.

Pela tardinha, doutor médico. Senta-te Max, temos que falar. Fonseca estás com um ar de cona malfodida que nem parece teu. Não há nada de grave, pois não? O galeno desvia os olhos, calado. Enclavinhadas as mãos no tampo da secretária do consultório, pergunta meio rouco, não há nada de grave, nada? Fonseca tira-me de cuidados, pareces um mudo encalacrado.

. Tem um cancro no pâncreas, mau sítio, não pode operar-se, uma ganda merda. O esculápio contorna a secretária, passa entre ela e a marquesa branca, joga-lhe um braço por cima dos ombros. É complicado, pá, é complicado. Mas tenho de to dizer assim, somos os dois homens de barba na cara, não adianta estar a mentir-te.

Nas comissuras dos lábios avoluma-se a espuma seca que lhe sobe da garganta. Isto é para quantos anos, Fonseca? Sei lá, ninguém sabe, a filha da puta desta doença é criminosa, e quando ataca no local em que se entranhou é uma gaita. Meses, Fonseca? Sei lá, repete o clínico, sabe-se lá, nem nos Estados Unidos se sabe. O caralho.

Saem os dois, o médico continua com o braço por cima dos ombros dele, vamos tomar uma bebida ao bar do Cinfães? Vão, não uma, mas muitas. Caiu a noite. Laurinda quando o vê naqueles preparos, homem de deus tu não costumas embebedar-te, que foi que te deu hoje? Conta lá enquanto te ajudo a tirar as botas e despir as calças. Conta lá. Foi alguma coisa da conversa com o Fonseca?

Não, Laurinda, não, não é nada, meti-me nos copos, cucas, nocais e uísque, até uns bagaços, uma mistura explosiva, não sei que me deu, tenho a língua enrolada, engasgo-me, mas não é nada. Vá, dorme, amanhã sabe-te a boca a papel de música mas passa-te. Eu velo por ti. Sempre.

De manhã, debaixo do chuveiro, sabes Laurindinha, não há tiro nem mina que me mate. Sossega. Garantiu-me o Fonseca.

quarta-feira, agosto 16, 2006





Desemprego ao mar


O jornalista Nuno Carregueiro (nc@mediafin.pt) do Jornal de Negócios é o autor do texto que aqui registo hoje, data em que o JdeN o publicou. Faço-o por me parecer de interesse e vir na sequência do que tenho escrito neste blogue. Naturalmente, depois de ter falado com o autor e dele ter obtido a necessária autorização para esta publicação. Fico, entretanto, muito satisfeito: um diário - que vem ganhando o seu próprio espaço nas publicações de índole económica, sob a direcção do Sérgio Figueiredo, meu Amigo de longa data, ainda que com alguns «arrufos» ocasionais - que insere um comentário destes merece ver aumentar o número dos seus leitores e a carteira publicitária. Obrigado Nuno Carregueiro.
AF

Nova descida do desemprego pelo quinto mês consecutivo

O número de inscritos nos centros de emprego em Portugal desceu pelo quinto mês consecutivo, totalizando 436.901 pessoas. O número de desempregados desceu 5,1% em termos homólogos e 1,3% face ao mês anterior.Segundo os dados hoje divulgados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), no fim do mês de Julho de 2006, estavam inscritos nos Centros de Emprego do Continente e Regiões Autónomas, 436 901 desempregados que procuravam emprego.Em relação ao mesmo mês do ano anterior, o volume de desemprego diminuiu 5,1%, fruto de um decréscimo de 23.511 desempregados registados, enquanto em termos mensais, o número de desempregados decresceu 1,3%, o que corresponde a menos 5.598 inscritos.


Este é mais um sinal de recuperação da economia portuguesa ao longo deste ano, em linha com outros indicadores económicos que têm sido divulgados ultimamente. (O sublinhado é meu – AF)

Ao longo do mês inscreveram-se nos Centros de Emprego do País, 43 654 trabalhadores desempregados, mais 2,0% do que no mês homólogo de 2005 e mais 4,6% do que em Junho de 2006.De acordo com o IEFP, a redução anual do desemprego, embora comum nos dois géneros, atingiu mais fortemente os homens (-7,5% do que no mesmo mês do ano anterior). Em todos os grupos etários se verificou uma redução de desemprego, sendo esta mais notória entre os mais jovens. Os desempregados com menos de 25 anos baixaram 12,3%.

A procura de novo emprego que justificou a inscrição da grande maioria dos desempregados (93,2%), registou um decréscimo de 5,7% relativamente ao mês homólogo de 2005, enquanto a procura de primeiro emprego evoluiu menos favoravelmente.Com excepção dos que possuíam um grau superior de ensino (+13,8%), todos os níveis de habilitação escolar registavam menos desempregados do que há um ano atrás, nomeadamente o 2º ciclo do ensino básico, com a diminuição mais acentuada (-9,3%).

Por regiões e com excepção da Região Autónoma da Madeira, onde o desemprego cresceu 6,3%, relativamente ao mesmo período do ano anterior, a diminuição do mesmo verificou-se em todas as regiões do País, com destaque para a região Alentejo, com o decréscimo homólogo (-13,5%) mais acentuado.

Quanto às profissões dos desempregados inscritos nos Centros de Emprego, os dados do Continente, confirmam, uma vez mais a elevada representatividade dos "trabalhadores não qualificados dos serviços e comércio" (53 529), dos "empregados de escritório" (50 320), do "pessoal dos serviços de protecção e segurança" (44 376) e dos "trabalhadores não qualificados das minas, construção civil e indústrias transformadoras" (38 792). Estes quatro grupos de profissões expressavam, no seu conjunto, 43,9% do total de desempregados inscritos.

Considerando a actividade económica de origem do desemprego, dos 397 289 desempregados que no final do mês se encontravam inscritos como candidatos a novo emprego, nos Centros de Emprego do Continente, 56,2% eram oriundos de actividades do sector dos "serviços", onde predominavam o "comércio por grosso e a retalho" e as "actividades imobiliárias informáticas investigação e serviços prestados ás empresas", 40,1% provinham do sector da "indústria" com destaque para a "construção" e 3,6% do sector "agrícola".
(Nuno Carregueiro, in Jornal de Negócios, 2006-08-16)

terça-feira, agosto 15, 2006





Ir na tropa

Antunes Ferreira
Encarrapitado no cocuruto do camião, sobre o oleado, um caixote de batatas e cunhetes de munições marcam-lhe as costas, Vicente Candumba, abanado como se possuído de delirium tremens, vai olhando a picada e a mata que a engole. Os buracos originam essa dança de 14 toneladas, qual elefante na pista de circo. Os bandido se calhar põe minas na terra, disfarçadas que nem se vêem, alisada por cima com as mãos e varrida com folha de palmeira para não se desconfiar da cilada. Esses gajo são mesmo sabidos, a fazer confusão ninguém lhes ganha.

As copas das árvores deixam ver uma nesga de céu. Carregado de nuvens. Vai chover, o que não lhe faz mal, meto debaixo do oleado, é melhor que capa ou chapéu-de-chuva. O pior é a lama no caminho. A camioneta enterra, há que empurrá-la, meter os tapetes da cabina por baixo das rodas para segura-la. Ele está já à pega. E paus grandes para a empurrar fora do lodo vermelho escuro. Não tem maka. Quando o chatice vem, a gente vai se arranjar, tomara que não vem ataque.

Agarrado ao volante, o patrão Fernando deve pensar o mesmo quanto às minas. Da chuva, nada. Não vê o pedacinho de céu desenhado entre as folhas. Por isso não pode pensar no atoleiro que vem aí, nos soldado a montar guarda, do furriel Montez a picar com a faca na bosta enlameada, talvez pacaça, quem sabe se palanca, para ver se tem bomba. O chefe é bom branco, lhe dá coisas boas pra comer, ovo cozido, bife, não precisa fazer funji nem gastar do peixe seco.

A mata é bonita, mas dá medo. Tudo calado, não se ouve um pio de pássaro, nem o ronco de um burro de mato, nem mesmo as folha a mexer pelas cobra que passa. Ela não faz barulho, só assobio sem som, sssssssss. Vicente tem medo das venenosas e das grandes que engolem um boi inteiro. Patrão Fernando lhes chama boas. Não pode. Uma bicha má que até assusta, que enrola o rabo no embondeiro para fazer força a fim de partir os ossos das vítima, não é boa. Aqui está enganado. O que é raro. Mas ele também diz que outros lhe chamam piton.


Chicote é chicote

Vicente tem dezasseis anos e quer entrar na tropa e jurar bandeira. É muito novo, mas vai pedir no nosso capitão Mota para lhe deixar. O nosso capitão Mota é um gajo purrêro, o amigo do Candumba, até é da mesma sanzala, a seguir à Cela, é impedido dele. É o Adão Chicote, assim lhe puseram no baptismo, por causa de um tio que morreu de tanto levar com chicote de pele de hipopótamo.

No muceque, o Chicote, que é desarranchado, conta que o meu capitão dá muita coisa na gente. Até casa no anexo e não paga nada. Ele é do QP, mas até não parece, parece mais miliciano, mas é do Quadro Permanente, como ele diz. No Puto é de Chaves, mas aqui é de Moçâmedes, até conhece a Riquita Bauleth que é miss Angola e miss Portugal. Menina muito bonita, aka. O nosso capitão veio para cá com quatro meses de idade. O pai era da Administração e foi colocado na cidade do Namibe. A mãe, que não se dera com os ares quentes do deserto, morreu quando ele tinha cinco aninhos.

Quem lhe criou foi a Intelvina, lavadeira promovida a ama. O pai, Aniceto Mota nunca mais se casou, usava gravata preta mesmo no pino do calor, era da saudade dizia. Intelvina dedicou-se ao menino Viriato, nome de rei do antigamente, dizem que lusitano. Quando ele abalou para Lisboa a fim de entrar na Escola do Exército, a ama até teve um fanico, pior do que se fosse mãe, ele não volta, nunca mais lhe vejo.

Voltou. Casado, com uma menina e um menino, gémeos, a esposa é professora do liceu, é a doutora Cândida, de tão bom feitio como o marido. Chamam-lhe a capitoa boa. E linda, como os miúdos, loira ele, loiros eles. Adiante que se faz tarde. O Adão disse nele, Vicente, que o nosso capitão lhe vai meter na tropa para você chegares a sargento-ajudante. E como deseja ele que aconteça vestir a farda. E vai querer ser capitão, nosso capitão, tem capitão preto, ele já viu, se chama Agostinho João e é de Sá da Bandeira, é cuanhama.

O nada do silêncio

A coluna pára. Ouve-se o nada do silêncio. O pisteiro diz que tem armadilha na frente do primeiro camião, uma Berliet da tropa, equipada com rebenta minas. O pessoal estende-se ao longo das viaturas, canhota em punho, não vá o diabo tecê-las. O filho da puta do mafarrico deve ter feitiço com os bandido, aparece no meio deles, com os cornos retorcidos e a deitar fogo pelas ventas. Como um homem que ele viu num circo montado ali aos Combatentes, antes de chegar no bairro das meninas.

Ninguém fala, alguns reza para dentro, quem sabe. Um fogacho no cu da coluna. Dos nossos ou dos deles. Vicente quer mesmo que seja dos bons, dos nossos. Se os gajos chegam na picada é o fim. Tropa maçarica pode ser apanhada à unha. Estes só estão cá há dois meses e picos, sempre em Luanda, nunca se viram nessa confusão. O nosso alferes, oficial do recrutamento da Província, assim se diz, leva os dedos aos lábios mudos.

Sacanas de merda volta no vosso terra, vai no cu do Salazar, vão morrer aqui todos, nós lhe damos cabo do canastro, brancos galinha, paneleiros, puta que os pariu, vão embora colonizadores, deixa a gente ser independente. Nós vai ganhar e matar vocês, maricas, borrados, cagões. A fuzilaria estala. Os soldados não sabem bem o que devem fazer, a instrução foi rápida, disparam à toa, mas atiram muito.

Ajudante Vicente já desce do camião, dá a volta a rastejar até chegar na cabina. Tem muito sangue a escorrer da porta meio aberta do Toyota. Que porra é esta? Que foi que aconteceu? Espreita. Patrão Fernando já foi. Tem a cabeça desfeita, donde jorra o líquido viscoso e vermelho que saiu com a vida. Pouca sorte do caralho, diz Candumba entre dentes, apesar do tiroteio ainda podem lhe ouvir e não volta em Luanda.

Levantou, morreu

Dois tropa passa a correr. Vicente segue-os com o olhar. Vão ajudar um outro que berra que se farta, estendido no chão barrento, uma perna dobrada, como a da caça atingida. Um deles se levanta de mais e fica logo ali, de borco, sem soltar um ai sequer. O outro gatinha até ao ferido, lhe assegura que está tudo bem, sob controlo e que os turras estão a levar na bilha que é um regalo. Dá-me água. Molhas só os lábios, o nosso alferes é assim que manda.

Uma catarata cai logo do céu, chega a água às golfadas, tamanhas como as do sangue do patrão Fernando. Um homem do morteiro entra na dança e outro atira uma bazucada para o meio da vegetação. Aiué. Os merdas retiram, grita alguém. Chumbo neles, berra outro. Uma breda montada num Unimog debita rajadas persistentes, mortíferas. Mais ruídos de quem levou na pele, salva, salva, aiué. Foderam-se os pretos de merda.

O pessoal vai levantando-se, os camuflados carregados de lama, que entra pelos poros e pelos pontos do tecido. Parece que isto acabou. Como estamos? Há baixas? Há. O Fernando camionista precisa de ser substituído e vai ser enrolado numa manta e posto no meio da barafunda da caixa do camião. Vem um condutor tropa tomar o volante, nem se limpa o sangue, agora é andar para a frente, coluna parada não interessa a ninguém, a não ser ao inimigo.

Também tem um soldado morto, aquele que se levantou quando não devia. Mais três feridos, nenhum de gravidade, nem vão ser evacuados, chegando ao Negage tem médicos e enfermaria. Vicente percebe que, depois disto, vai mesmo entrar na tropa, gostou dessa guerra, pena os que morreram, pena grande do patrão Francisco. O soldado motorista pergunta-lhe quem ele é. Vicente Candumba lhe responde que é ajudante de camionista, vinha com o patrão Fernando, se pode agora ir com ele. O condutor sorri e diz-lhe que sim, pois claro, é da casa.




O primo macaco?

V
á, sobe que esta merda já está no andor. Ainda são uma porrada de quilómetros até chegarmos, toma cuidado, resguarda-te da chuva que cada vez chove mais. Tomo, eu sei como fazer, o oleado, não preciso mais nada, só quero ser tropa. Ó catraio, mas tu ainda és um puto. Deixa passar o tempo que isso passa-te. Não passa não. Eu vai ser soldado, voluntário para entrar mais cedo. Cada qual come do que gosta e onde gosta.

Trepa pelos taipais que nem macaco sem precisar de liana. Será mesmo que os macacos são nossos primo? Parecem mesmo. Tem mãos com a gente, descasca bananas como a gente, alguns anda mesmo de pé como a gente. Não fala, mas a gente entendemos os animais. Pela chipala, riem-se como a gente. Lhe disseram que são os que chegaram antes de nós e por isso somos descendentes deles. Sabe-se lá.

Chega lá em cima, ergue-se para ver se o astro abre, farto de chuva, mas com tiros nem dá por ela. Molhado mas feliz. Do alto de uma mafumeira um relâmpado. Nem sente nada. A perna pende-lhe presa por tendões ou pele ou lá o que é. Já, já, já, ajudem que o ganapo esvai-se em sangue, ainda morre. Não morreu. Não morre. O cabo enfermeiro já lhe fez o garrote por cima do que era o joelho e tanta força fez que a seiva foi estancando.

De olhos bem abertos, Vicente Candumbo – ou é um homem aos dezasseis anos, ou não é, um gato é que é bicho – sussurra um obrigado esvaído. O chofer segura-lhe a cabeça, vais chegar ao Negage e se for preciso, hospital militar de Luanda. Ele sabe. Com uma perna dessas, julgo que é uma pótese ou assim, ficas fino. Um minúsculo sorriso, outro obrigado, agora mais audível.

Há mais malta à sua volta. Trazem-lhe mangas frescas da arca com gelo. Um cigarrito? Queres? Venha ele, um AC com filtro e tudo. Rapaz fica com o maço e os fósforos. Ajuda. O MVL já segue. A chuva parou. Olha pá, tens de acrescentar mais um aos feridos, o gaiato. O que queria ser tropa.

segunda-feira, agosto 14, 2006





MEILE BOQUES

Missiva para o Herculano


Vocemecê estraga-me com mimos, aliás indevidos. De todas as maneiras, é uma gentileza, são tegatés que não posso ignorar.

Com que então é meu leitor há muitos anos? É muito bem feito! Só um espírito benfazejo e caridoso poderia aturar-me desde que escrevo, o que terá acontecido no paleolítico inferior, se der crédito ao que dizem e ao próprio Spielberg. No entanto, eu mesmo tenho dúvidas, não sãotomenses porque já fui católico e curei-me, mas sistemáticas, sobre a identificação de tais escritos. Nem o carbono me convence e não me lembro de ter estado alguma vez em Foz Côa, muito menos em Altamira. É assim a vida.

Dos nomes que me cita, alguns trazem-me boas recordações, como por exemplo a autora da «Rosa, minha irmã rosa», a querida Alice Vieira ou o João Fonseca. E ponto. Do «Diário de Notícias» guardo um respeito e uma admiração grandes. Principalmente do «meu DN». Também não faço mais comentários.

Se me der licença, passarei a inclui-lo – é uma mentira piedosa, já o incluí – na minha adress list. Receberá, se não me insultar, anedotas e oitras sandices, como diria o Fernão, de muá ou dos restantes loucos meus correspondentes, nos quais Vosmicê ficou incluído. No caso de considerar que elas são inconvenientes, pornosaturantes, esmasiadas & similares, nada de hesitações: mande-me à merda, com ou sem aviso prévio.

Aliás, isto de confusões, lembra-me um slogan que existia no tempo da antiga senhora. Nada de confusões; ruas prós automóveis; passeios para os peões. Hoje penso que a versão deve ser outra. Nada de confusões; passeios prós automóveis; ruas para os peões. Tenho dito.

Se entupir a sua mail box – o que é difícil dado ser uma gmail de com e costa – diga-me para ir à outra banda, de preferência de cacilheiro GT. Os imeiles (ou imilios) que seguem, pode arquivá-los na Cesta Secção. Estou habituado a que tal aconteça, pois a maioria dos Amigos a quem chateio, têm um coração enorme e uma paciência-de-job. Por tal motivo, não me dizem nada – mas arquivam.

Estive no herculanodacos.etc.com. Bom blogue e boas meninas. Boas porque, creio, dão esmolas aos pobrezinhos. Uma delas até me pareceu ser irmã exterior da ordem das Caramelinas Descalças até ao Pescoço. Excelentes exemplares que, penso, serão amigas dos membros – de outras Seculares. Está cada vez mais difícil ganhar honestamente o pão quotidiano (e a lagosta e o caviar e o faisão e assim), éoké.
(Já seguiu por imeile)

sábado, agosto 12, 2006






NOTE BEM

Brecht morreu há 50 anos


Na segunda-feira passam 50 anos sobre a morte de Bertolt Brecht. De modo a assinalar a efeméride, a Alemanha organizou uma série de eventos culturais, que já começaram, que têm lugar no Teatro Berliner Ensemble, fundado pelo próprio dramaturgo. Das várias iniciativas preparadas para assinalar o cinquentenário da morte de Bertolt Brecht avulta a estreia, hoje, de uma nova encenação, por Klaus Maria Brandauer, da «Ópera dos Três Vinténs». Exibida pela primeira vez em 1928, em Berlim, tornou logo Brecht um autor consagrado.

Por sua vez, o Berliner Ensemble presta homenagem ao seu fundador com o Festival Brecht. «Brecht é o único dramaturgo alemão de fama mundial, e continua perene no nosso tempo”, disse o actual director artístico do Berliner Ensemble, Claus Peymann, referindo-se ao grande autor falecido aos 58 anos em Berlim-Leste, na RDA, o país comunista que escolheu para viver, após o fim da II Guerra Mundial e o seu exílio nos EUA, para fugir ao regime nazi. Brecht está também a ser homenageado na sua terra natal, em Augsburg, com um festival internacional de literatura.

Os alemães conhecem mal o seu maior dramaturgo, segundo uma sondagem da revista literária Buecher. O inquérito de opinião revelou que 42 por cento dos alemães nunca leu um texto de Brecht, que escreveu 2.334 poemas, mais de 30 peças de teatro, 3 romances e uma centena de trabalhos em prosa ao longo da sua vida, além dos diários e de numerosa correspondência.

A actriz Alina Vaz, que integrou o primeiro elenco que interpretou Bertolt Brecht em Portugal, há 30 anos, considera que meio século depois da morte daquele dramaturgo, as suas peças continuam “actuais” e “a fazer-nos pensar”.“Antes do 25 de Abril de 1974 a companhia da actriz Della Costa tentou apresentar uma peça de Brecht num teatro do Parque Mayer mas foi impedida pela Censura”, recordou a actriz, que em 1976, sob a direcção de Carlos Avilez, encarnou a personagem Polly na peça «Opera dos Três Vinténs».

(In Primeiro de Janeiro, com adaptações)

quinta-feira, agosto 10, 2006



Poeira do Leste

Antunes Ferreira
Lábios carnudos e morenos como os da Laurinda, morena e carnuda, jura mesmo que não há. Seios empinados e arfantes como os da Laurinda, morena e carnuda, nem pensar. Ventre liso e duro como o da morena e carnuda Laurinda, nunca. E o umbigo, cinzelado, da Laurinda, morena e carnuda? Jamais outro igual. Perfeitinho, a parteira sabia da poda e devia ter mãos de fada e aveludadas, tal obra produzira.

Pernas longas, torneadas, artelhos de mimo e coxas de mármore moreno e carnudo, como as da Laurinda, carnuda e morena, deus me livre se há. E ninho do amor, enovelado a negro, carnudo e moreno, como o da Laurinda, morena e carnuda, nem pó. O pessoal pára na Mutamba só para olhar para ela. Muita gente deixa até passar o maximbombo sem levantar o braço. Mulata assim, nem no Brasil, e olha lá, o Jorge Amado diz que as morenas e carnudas da Baía não têm quem se lhes compare. Enganado anda ele. A Laurinda, carnuda e morena, basta que a veja.

De resto, esse brasileiro pai da Gabriela, do cravo e da canela, sabe de fêmeas. É ele quem escreve que gostaria de dormir com todas as mulheres do Mundo, sem escapar uma. É impossível, seu. Mas tento, mas tento, acrescenta com um riso danado por baixo do bigode. Dona Zélia nem se preocupa. Nunca teve pachorra para ter ciúmes. Nem tempo. E o São Salvador vela por ela, atento.

Nisto tudo pensa João Caxiné, preto cafuso, natural de Benguela, admirador do mulato Aires de Almeida Santos, poeta entre os poetas, preso uns anos em São Nicolau, solto depois, agora jornalista de «A Palavra» do Renato Ramos e do gordo, o Antunes Ferreira. Ele também é de Benguela, nela foi buscar toneladas de inspiração a fim de parir A mulemba secou ou o Meu amor da Rua Onze.

João, o Fosquinhas de alcunha, não soube nunca e não continua a saber porquê, descasca batatas para o rancho geral em Henrique de Carvalho, frente Leste, mortífera. Vai lançando-as cuidadosamente peladas – o sorja Monteiro é lixado no controlo e fiscalização dos comes – no caldeirão. São duas companhias de angolanos como ele e comem que nem elefantes. Nada de capim, porém. Batata, feijão, grão, arroz, toucinho, chouriço de lata, tudo salpicado por mais ou menos carne selvagem, de acordo com a fortuna na caça. Porco ou vaca, só de quando em vez.



A filha da mãe da poeira, finíssima, em suspensão por tudo o que é sítio, entra pela gola da camisola interior. Levanta-se do caixote que lhe serve de banco e a custo despe-a, de tal modo se lhe colou ao corpo, suor e pó misturados, pior do que Pattex. Puta que pariu a camisola. Colada a ele – só a Laurinda, morena e carnuda, uma merda, lá longe nos Combatentes, por cima do Punta del Pazo, vizinha da Marabunta, agora dona de vidraria, noutros tempos, outras vidas, outros amantes de nota na mão, escudos ou angolares tanto faz.

Não a pode esquecer. O que estará ela a fazer a esta hora. Três da tarde, ainda é cedo para preparar o jantar para o pai, os dois irmãos e ela. Vê-a deitada, um camiseiro largo por único vestido, de seda de Macau, comprado nas Ingombotas. Nada por baixo, nadinha, como ela gosta de andar e a ventoinha Sanyo, a mandar-lhe o ar que lhe beija as pernas nuas, por aí acima, até onde ele também a beija – e ela gosta. E ele.

Da Terra à Lua

Pronto. Já está outra vez de pau no ar, nem vê bem as batatas – tubérculos, aprendeu ele na Escola da Dona Mariquinhas ali ao Marçal – esta foi quase decepada pelo facalhão que ele maneja com destreza. Com o pensamento fora, ainda corta um dedo, ou mesmo dois, qual catana bem afiada. Entre a Laurinda, carnuda e morena, e as putas das batatas vai uma distância tão grande como da Terra à Lua, os gringos dizem que um destes dias chegam lá de foguetão, quem sabe, os américas são gajos para tudo.

O cabo Carlos, branco do Chinguar, avisa-o de que está a roubar nas batatas, com casca tão grossa deitada fora, elas nem se vêem cruas, quanto mais cozinhadas. Sacana de merda esse Carlos, sempre a dar-lhe cabo do juízo por tudo e por nada. Agora são os tubér.., os colhões do padre Inácio. Um dia destes, dá-lhe uma sarrafada que o gajo vai ver as estrelas todas do céu. Incluindo as Ursas, a Maior e a Menor, a Cassiopeia e outras de luz mais fraca. Ah Dona Mariquinhas, tanto lhe meteu no cristalino bestunto.

Tás a pensar na miúda, é o que é. Mau. A Laurinda, morena e carnuda, não é para aqui chamada e o Carlos Matos não tem que a meter ao barulho. Ó meu sacana, nada de brincadeiras com a minha noiva, senão fodo-te os cornos. O do Chinguar, pronto, não te chateies, era só uma piada, nada mais, mas se assim o queres não volto a falar na cachopa, não sei o que ela viu em ti para te eleger como conversado.

O panelão já tem mais do que a conta batatal. O China cozinheiro é quem está a seguir na bicha do refogado. Estrugido dizem os portuenses, que gajos mais estranhos, sarjeta é bueiro, vinte e oito é bintóito e dezoito é dezouito, bica é cimbalino. Há doze no agrupamento, uns mesmo do Porto, Cedofeita e Maia, dois da Póvoa, um de Leixões, outro de Espinho e não sabe mais quê. Malta despachada.



Vai devagarinho para o jotacê, assim chamam aos barracões das casernas. Estende-se no colchão, de barriga para o ar, mete as mãos debaixo da nuca, tem vontade de um cigarro, mas não a tem de o ir buscar ao bolso do camuflado. Está empapado e daí a bocado irá meter-se debaixo do chuveiro. O calor seco, o tempo abafado, as nuvens baixas e a cabrona da poeira peneirada são impossíveis. Mornaço muito pior do que em Luanda, sem falar nas praias da ilha.

Noites e noite, aquela

Uma noite pegara na Vespa e fora buscar a Laurinda, morena e carnuda, a casa, para darem uma volta pela ilha. O pai dela de acordo, a mãe, menina toma cuidado, os homens são todos iguais, tento na cabeça. Duas Nocais no bar do senhor Jeremias, mais duas bem geladinhas e olha o mar calmo e azul escuro, é noite, amor. Areia morna melhor que colchão molaflex, ninguém à vista, o boteco já fechou. As mãos ardendo, agarram os seios firmes morenos e carnudos e a boca esmaga os lábios carnudos e morenos.

Entre as pernas cresce-lhe o volume orgulhosamente em pé. Ela acaricia-o, mão já especialista nesse tronco, passa-lhe os dedos pelos encaracolados pelos e vai abrindo as gâmbias. Ele corresponde, avança com o dedo do meio no meio dela, gemem, ai João que me matas, estou desvairada, oh não, oh não, oh sim, oh siiiiiim. Por ali não ficam. Os beijos trocados, os mamilos morenos e carnudos aleitam–lhe o desejo.

E quando entra nela, e vai acelerando a cavalgada, os gemidos transformam-se em gritos estridentes, mais fundo, mais fundo, maaaaiiiiiis. Um mar leitoso envolve os dois, a lua cheia parece de prata, um cigarro de boca pra boca, os dentinhos dela, certinhos, bonitos, reluzem em explosão de esmalte, era bom ficar aqui para sempre contigo, sem mais fazer. Deixa-te estar. Daqui a pouco vais. Mas espero por ti. Aqui.

Três dias depois, o Leste. Aqui é uma porra. Só das lembranças da Laurinda, carnuda e morena, já tem o slip aleitado, gomoso e nem precisou de usar a mão. Ai amor, como eu te queria abraçar agora mesmo e afagar a tua barriguinha de sete meses, aquela noite na ilha pegou de estaca, vem chegando aí alguém, já dá pontapés no ventre materno, menino ou menina não se sabe, só quando sair para a rua. Futebolista será – se macho.

Notícias de Luanda

Começa a levantar-se, mole, para ir-se à chuveirada. O alferes Oliveira entra na caserna e dirige-se a ele. O que há, meu alferes? Senta-te que eu quero dar-te uma notícia. Sentar-me? Para quê? Que houve? Os sacanas atacaram a nossa malta e mataram algum camarada? Ou mais? Deve ter sido afastado, não se ouviram tiros, pelo menos eu cá não os ouvi. Mas ainda podemos lá ir, dar-lhes uma ajuda e ferrar umas porradas nesses filhos das putas.





João, não é nada disso. Veio um rádio de Luanda para te avisarmos. Ó meu alferes, dê-me um abraço dos grandes, já vi tudo, sou pai, nasceu a criança, morro de alegria, é menino ou menina? Diga lá e já. Para mim é igual, desde que seja perfeitinho. Chico Oliveira põe-lhe as mãos nos ombros, mas não é abraço, é peso, é carrego, que merda é esta, que se passa meu alferes? A cor azeitonada tornou-se cinzenta e baça. O que é, meu alferes, o que é?

À porta do jotacê juntou-se um grupo, o Carlos do Chinguar com cara de pau faz parte dele, tudo calado. Ó meu alferes. João, o bebé perdeu-se. Uma complicação qualquer durante o parto, já saiu morto, uma ganda chatice. Foda-se! Puta de vida esta, pois não é, meu alferes? Mas nada de tristezas pela desgraça, quem fez um faz outro, fica para a outra, vamos tentar de novo, é fácil fazer uma criança, a minha Laurinda, morena e carnuda, até gostou desta vez e vai gostar ainda mais.

Não, João, não vai haver mais vez nenhuma, infelizmente. O quê? Estás a gozar comigo? Dou-te cabo da cornadura ó Oliveira, eu nem estou em mim, eu perco-me. Vais ter de aguentar, soldado. A Laurinda, carnuda e morena, também se foi, ainda chamaram o médico, não houve como valer-lhe, uma hemorragia lixada. Os funerais das duas – era uma menina – são daqui a três dias, para te dar tempo a lá chegares. Amanhã vem o helicóptero e tu vais nele, que achas?

Não acha nada, Os outros vão entrando, o Carlos chora, alguns também, grossas lágrimas rolam pelas faces de peles diferentes. Ele, porem, está seco. Morreu por dentro. Acabou também. A Laurinda morena e carnuda agora só se deitará com os vermes. Vira um homem desenterrado e não comera arroz uma porrada de tempo, os bagos brancos saíam aos milhões do corpo apodrecido, saracoteando-se.

Não vou, meu alferes. Muito obrigado, mas não vou a Luanda. Vou para a mata, voluntário e, se puder, fico por lá uns dias. Uma emboscada, um golpe de mão, até mesmo uma patrulha, mas que dê para uns dias. Sempre dá tempo para apanhar uma mina ou um fogacho na testa. Assim, volto a experimentar com a Laurinda, morena e carnuda.

domingo, agosto 06, 2006



A Madeira é o Jardim?

Antunes Ferreira
Max, o saudoso Max, cantava a propósito da sua ilha natal que «a Madeira é um jardim, ai a Madeira é um jardim; no Mundo não há igual, no Mundo não há igual; seu encanto não tem fim, seu encanto não tem fim; é filha de Portugal, é filha de Portugal. Deixem passar esta linda brincadeira ca gente vamos balhar co’a gentinha da Madeira.»

Maximiano de Sousa, o popular cantor madeirense, que trocou a vida de alfaiate pela dos palcos – foi, também, actor humorista, e muito bom, especialmente na revista – mal sabia naqueles tempos o que se iria passar anos depois na sua ilha. E pelo facto de ter acabado os seus dias em 1980, não se terá apercebido do que por ali acontecia. Se o fez, não conseguiu avaliar as dimensões da «ocorrência». E se assim aconteceu, ainda bem, sobretudo para ele.

De há uma trintena de anos a esta parte, o Dr. Alberto João tem-se esforçado por demonstrar que a Madeira já não é um jardim – é o Jardim. As sucessivas reeleições do Chefe do Governo daquela Região Autónoma somam-se quais pedras de um rosário. Caso muito raro em Democracia, este consulado permanentemente ampliado pelos madeirenses nas urnas corre o sério risco de entrar no Guiness.

O Dr. A. J. Jardim é, ainda, um outro exemplo de raridade no que concerne aos políticos. Poucos ou até mesmo nenhum se terá disfarçado de zulu num Carnaval; ele fê-lo. Houve, na altura, quem dissesse (e ainda há quem o diga) que talvez a sua máscara fosse de canibal, tão estreita é a fronteira entre as duas personagens africanas e tal o habitual comportamento político do líder. Há que refutar energicamente tal atoarda: os zulus não a merecem, muito menos a justificam.




Note-se que o Dr. Jardim é normalmente classificado como truculento. De almas caridosas está o Mundo cheio e de bem intencionados estão cheios os cemitérios. Que normalmente acumulam a sua bondade congénita com a imprescindibilidade. O Dr. Alberto Jardim não é truculento: é inconveniente, é inoportuno. E é oportunista. Não é? Então, que dizer do que de seguida afirmo, reproduzindo apenas afirmações e comentários dele.

Um tal sr. Silva

Ainda muitos de nós nos lembramos da diatribe que fez há tempos contra um tal Sr. Silva, que é agora o Chefe do Estado. Os termos são do Dr. Jardim. Porém, no actual contexto, o Prof. Cavaco Silva já passou a ser para o chefe madeirense, Sua Excelência o Senhor Presidente da República. Mudam-se os tempos… De galho em galho, o Dr. Alberto João muda, quando lhe apetece e lhe dá na veneta. Oportunismo à vista. Numa coisa ele se mantém imutável: dizer-se social-democrata. Quantas voltas já terá dado o Dr. Francisco Sá Carneiro (se em algum local se encontra) por mor desta controversa asserção?

Quanto à inoportunidade e à inconveniência estamos conversados. Volto a factos. No Dia de Portugal o Dr. Jardim afirmou com a sua exaltação habitual que os madeirenses eram Portugueses porque queriam e não por serem obrigados a sê-lo. Comentários parra quê? No entanto, e como lhes competia, os partidos da Esquerda no hemiciclo vieram a terreiro repudiar tais declarações. O mais significativo, porem, foi que Mota Campos, membro da Comissão Política Nacional do CDS-PP, não se conteve.

Durante o Congresso Regional dos centristas, Mota Campos disse: «Ser Português não é porque se quer, é porque temos 800 anos de história atrás de nós». E prosseguiu «é uma honra que nos confere direitos e deveres. Se Alberto João Jardim não quer ser Português, que o queira sozinho. Agora que não ameace a República, que não nos ameace a todos com o fantasma de uma divisão do País – que só existe na cabeça dele – para fazer chantagem sobre o governo central».

«Livres do senhor Sócrates»

Há escassos dias, o Dr. Alberto João exercitou, uma vez mais, o seu estilo habitual. Durante a festa anual do partido, no planalto do Chão da Lagoa, afirmou que o Governo da República está a levar Portugal «para o abismo» e não tem capacidade nem competência para mudar o país. «Ou nos vemos livres do senhor José Sócrates ou daqui a um ano ou dois o país está irrecuperável», para, em seguida, acusar o PS de estar a impor um garrote económico à região. «O que nos estão a fazer é miserável, para ver se nos vendemos e votamos naquele tipo de gente».

Para o Dr. Jardim, «a política económica que José Sócrates quer impor ao país destina-se a camuflar, a esconder, a destruição de valores na sociedade portuguesa". E sublinhou que «eles querem legalizar o casamento entre homossexuais». O escândalo está, assim, desmascarado, por obra e graça do eterno Presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira. Prevenção e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

O líder madeirense voltou, então, a glosar o tema da autonomia que lhe é tão caro. No seu entender, ela «não é mais como uma experiência, mas um direito histórico do povo madeirense» conquistado nos últimos 30 anos. Esta conquista «é um percurso muito longo que vai passar de geração em geração. E frisou que «queremos sempre a autonomia no seio da nação portuguesa e não podemos desculpar que, apesar desta fidelidade, indivíduos em Lisboa nos caluniem e digam mentiras».

São, para o Dr. Alberto João, «os chamados colaboracionistas, gente (natural da ilha) que está sem calças e de rabo para o ar virado para Lisboa... políticos locais que andam a defender o garrote económico» contra a região, mais «jornalistas, daqui da Madeira, que, em Lisboa, escrevem as maiores mentiras». Isto porque não existir pluralismo de informação em Portugal, onde se vive uma «caricatura de democracia».




«Aqueles maricas»

Dando asas à sua virulência acentuou que «”eles” viram que pelo debate político não nos podiam destruir. Nunca pensei que Portugal chegasse a este estado de coisas. O que nos estão a fazer é miserável, miserável». Mas, «estão muito enganados. Nunca na nossa história cedemos a chantagem. Apesar deles (no Continente) serem antifascistas, sem nunca terem pegado numa espingarda, quem fez durante 29 dias a revolução contra Salazar (em 1934) foram os madeirenses e não aqueles maricas»!

Por fim, o líder do PSD-M considerou a Constituição Portuguesa «inadequada» e, embora reconheça que tem alguns aspectos positivos, disse que «é preciso mudar» o diploma.

Ora então temos o Dr. Jardim no seu melhor estilo. O mesmo que, no dia seguinte ao Chão de Lagoa, o levou a afirmar, alto e bom som, que a lista dos devedores às Finanças não seria publicada na Madeira, pois ali não é necessário, dado que todos os incumpridores da região têm execuções fiscais que ele próprio mandou fazer.

Truculento? Inoportuno? Oportunista? O Dr. Alberto João Jardim é, pura e simplesmente, desbocado e sobretudo mal-educado. O combate político pode utilizar uma linguagem menos ortodoxa. Mas, nunca, em meu entender, a má educação, quase a obscenidade, a roçar a pornografia. E é isso que o cacique madeirense pratica sem pejo. Ele e os seus companheiros ditos sociais-democratas. Há dúvidas? Relembro a intervenção do número dois do PSD-M.




Jaime Ramos, secretário-geral do partido, minutos antes, distribuído ataques de rajada contra «o golpista Sampaio», «o homem que colocou os socialistas no poder», e o «Zé mentiroso, Zé arrogante, Zé infeliz, Zé Aldrabão, Zé Sócrates». Explicou, ainda, que Alberto João Jardim quisera «atirar à cara de muita gente que, no Continente, nos vilipendiou» que «sempre defendemos a autonomia no seio da Nação Portuguesa, sempre fomos fiéis à Pátria e nunca separatistas ou violentos». Por tudo isso, «não admitimos que digam mais mentiras. A nossa resistência é pacífica» com base nos «ensinamentos de Gandhi», terminou, reafirmando que «vamos levar por diante o nosso projecto». Pobre Mahatma. Para o que um Homem está guardado…

sexta-feira, agosto 04, 2006



A fragata Dom Fernando

Antunes Ferreira
L
á em baixo os soldados tugas saem das casernas, espreguiçando-se, a caminho das abluções matinais, a que se seguirá a formatura para o mata-bicho, litania que se cumpre em cada manhã. Mas, antes de comerem o tradicional pão com manteiga – aqui para nós é mais margarina – e café com leite, procedem ao içar da bandeira, com um apresentar armas rotineiro e os cornetas a soprar nas gaitas.

Cá em cima, estamos nós, acordámos mais cedo, tirámos as ramelas dos olhos e metemos no buxo umas frutas selvagens, apanhadas a esmo. Num pormenor somos iguais, eles e nós: no cigarrito. Só que os gajos fumam à vontade, talvez nem saibam que nós estamos aqui de arma em punho e dedo no gatilho. Já da nossa parte não se pode fazer lume alto, nem fósforo e fumo abafado com as mãos, a maior parte engolido pela goela abaixo. Um tição de fogueira afastada conservado cuidadosamente passa de mão em mão para acendermos o tabaco enrolado muitas vezes em papel de jornal.

Não haja dúvidas. Os de lá em baixo são uns privilegiados. Como sempre. Dizem que não, que sofrem de muitas maneiras, desde as saudades dos que deixaram no Puto até aos combates, passando pelas minas, pelas armadilhas, pelas cobras e pelas tse-tse e mosquitos. A diarreia fá-los desfalecer, o paludismo enfraquece-os, o medo abate-os. Comida diferente, água salobra, intestinos à rasca. Mesmo assim, e dando de barato que enfrentam muitas contrariedades, a poucos se ouve que esta guerra não é deles, que estão aqui por imposição, são paus mandados.

Se calhar até o sabem – mas têm medo de o pensar, quanto mais dizer. Os que protestam vem a PIDE e lixa-lhes a porca da vida. Nós sabemos. Quando os nossos instrutores nos ensinaram as bases do marxismo-leninismo transformadas em guerra de guerrilha logo nos avisaram para o perigo que era e é a polícia política. O camarada comissário Matombe Pinho (que até tem o livro vermelho, um tanto desbotado, do grande educador Mao) alerta-nos todos os dias para termos muita atenção e não nos deixarmos apanhar pelos flechas. Que até têm o direito a saque.

Branca, Pires e o Celso

Eu tenho estudos, não sou matumbo como os brancos dizem. Em miúdo fui para Lisboa, a senhora Dona Branca, esposa do administrador Arnaldo da Silva Pires, levou-me e tratou-me quase como se fosse filho dela. Aliás, não os tinha, só o patrão é que os fazia noutras, ela não podia. Triste sina a da mulher que não consegue conceber. Na nova igreja da Praça de Londres, de São João de Deus, a menina Laura, minha catequista, ensinava-nos a visitação à Virgem feita já não sei bem por que parenta.

O Pires, pelo contrário, era todo maus fígados, nunca gostara de mim, nem em Angola, muito menos na capital. Fez-me, porém, uma coisa boa. Uma única. Decidiu que eu teria de saber umas letras, ler corentemente, escrever ou, pelo menos, rabiscar o meu nome. Penso que foi para não me ver em casa. Podia contaminar o sobrinho e afilhado, o Celso. Que, nas previsões do padrinho, iria ser uma pessoa importante, entraria na Faculdade, tiraria o seu curso e chegaria eu sei lá onde. Inteligência não lhe falta. Para mim, o Celso era porreiro, como se fossemos irmãos. Gostava de mandar, estava habituado, o pai, irmão do Pires, tinha sido oficial do Exército, morrera com um cancro, que era preciso dizer baixinho, nunca percebi porquê. Um dia disse-me que queria ser comandante. De quê? Não me interessa. Comandante.





Mandou-me então estudar, o Arnaldo, e, por intermédio de uns compinchas da Marinha, meteram-me na fragata Dom Fernando. Quanto mais longe, melhor. Aproveitei tudo o que me ensinaram, gravei no cérebro, para isso o temos. Mas principalmente para pensar, raciocinar, amar. Ao fim dos anos de estudo, até passei com boas notas, eu próprio arranjei um emprego na Carris como cobrador dos eléctricos. O preto é esperto, diziam os meus superiores. E progredi na carreira. Aos 29 anos era fiscal de tráfego de terceira e escapara à tropa por ter pés chatos. Uma porra. Era preto e sabe-se lá do que seria capaz, fardado.

Preto. Havia quem dissesse negro. Qual deles o mais pejorativo não sei. Adiante. Um dia, na Mexicana, um galão e um bolo de arroz e surge-me pela frente o Marcolino. Esse mesmo, o Chinguano, Marcolino, como trazem as listas telefónicas. Não nos víamos desde a quarta classe. Nenhum dos dois queria acreditar que, ali, na esplanada lisboeta, nos reencontraríamos. Onde estás, o que fazes, como aqui chegaste, foram desbobinados quase em uníssono. Primeiro tu, adiantou o Champas, nunca soube porque tinha ele tal alcunha.

E se eles nos ouvissem?

Passou por alto pela minha vida na Carris, uma inglesice, e chegando-se mais à frente, com os cotovelos na mesa, sussurrou-me: eu – estou com a nossa gente. Nossa gente? Como é, mano? De repente vinham-me à língua e aos lábios expressões que julgava enterradas depois de pás de cal. O tipo explicou-me de mansinho que era do MPLA, que conhecia o camarada Agostinho Neto, o camarada Lúcio Lara, o camarada Viriato Cruz, os camaradas Andrades, o padre Joaquim e o irmão Mário, Pintos no meio, galos na luta pela independência. Olhei em volta, acagaçado. E se eles nos vissem, ou, sobretudo, ouvissem?...

Dali fomos até ao Cais do Sodré, um bar de putas, o Casanova, onde podíamos conversar mais à vontade. Pelas duas da manhã, depois de convenientemente escorraçados pelo patrão, com as cadeiras já em cima das mesas, os sacanas dos escarumbas no paleio a estas horas, devem estar a preparar alguma, ponham-se a fancos que isto aqui não é a vossa terra, vão para a puta que os pariu, andor, andor, ainda os corro à vassourada.

Seguimos. Sem protestos, sabe-se lá o que nos podia acontecer. Começava a sentir-me preto. Retinto. No quarto alugado na Pensão Marítima, ali ao Conde Barão, nem dormimos. E apesar de cochicharmos, um gajo do outro lado do tabique da parede, eram umas cinco da manhã, berrou-nos para nos calarmos, chiça, não fizeram mais nada a noite inteira, os cabrões dos negros, senão patuá, patuá, patuá. Vês Sebastião, vês como eles são, uma cambada, vão-se lixar, juro mesmo, vão ver como elas lhes mordem. Vão ser enrabados a sangue-frio.

Tínhamos passado em revista o que fora possível, do Salazar, um sonso meio padre e criminoso, até ao Seripipi de Benguela. Um Lara mas não Lúcio. A Liga Nacional Africana, a Casa dos Estudantes do Império, o Luandino, a prisão, o Tarrafal e São Nicolau ali à beira do deserto do Namibe. Estava decidido. De manhã fomos comprar passagens de segunda no Vera Cruz e ala que se faz tarde. Cacimbava quando chegámos a Luanda. Do Rangel até ao mato – um pulinho. Nada de difícil.

Morteirada das antigas

Agora, passando por cima de peripécias as mais variadas, estou aqui, por cima do aquartelamento luso – o termo leva-me a questionar-me: e a Dom Fernando e Glória? – num morro de onde os vejo, mesmo sem binóculos. Uma morteirada quando estivessem a içar a bandeira, era o combinado. Não camarada, ao arrear, já está mais escuro, os tugas nem sabem o que lhes acontece, nós não costumamos atacar a tais horas, é tudo vantagens, digo eu que os conheço de ginjeira. Você tens razão. Você tens esperto no cabeça. Aguentamos.



O astro rei – e a Dom Fernando? – vai começar a deitar-se. A mana Lua, a desavergonhada, é que sai à noite. Está no quarto, pois aonde devia estar? No minguante, que a vida não está para folestrias, nem para luas e similares. Vem chegando o momento. O Gunga apoia o morteiro de 91 no solo vermelho. É de fabrico checo, está tudo dito. Este camarada foi soldado no RIL, aprendeu a usar o tubo como se fosse mais um braço. Sítio onde ponha o olho é tiro e queda. Não sei como aponta, mas que dá lá mesmo, dá.

Como chefe do nosso grupo, alinho no chão, metodicamente, umas a seguir às outras, dez granadas de mão. Vão servir para ajudar à festa, enquanto os corneteiros não se calarem de vez. O resto da malta inspecciona os canhangulos, como os soldados lhes chamam. Canhangulos eram os da UPA, fabrico artesanal, rebentavam muito mais do que disparavam e quando tal acontecia era um tiro só à toa.

Lá vai disto. Os estrondos das explosões misturam-se com os berros lancinantes dos tropas. Lá em baixo é o inferno. Vejo uma cabeça no ar, qual bola de futebol, enchouriçada por bota desgovernada e sem qualidade. As granadas também já foram. Deram cabo dos tipos que se preparavam para o rancho da noite, voam marmitas à mistura com pedaços de corpos. Gunga presenteia-os com outra morteirada. Já não é preciso mais. Aquilo lá por baixo acabou. Acabaram.

Ninguém fala cá em cima. Silêncio, até ver em que param as modas. Aqui é o céu, em contraponto com o desastre total lá de baixo, nas profundezas do belzebu. Uns esparsos e ténues – e a Dom Fernando? – gemidos arrastam-se pela noite que vai descendo, à procura do horizonte também sangrento. Os nossos querem festejar. Não há perigo, nem de sentinelas precisamos, o massacre foi total, o êxito fulminante. Quando, amanhã, reportar ao camarada comissário Pinho, ele vai mandar um rádio para sei lá onde e talvez nos dê uns dias de descanso para irmos a Luanda, ao nimas e às meninas.

Levanto-me para estender as pernas – e elas não me aguentam. Caio. E sobre a minha cabeça está a bocarra da metralhadora que me ceifou. Os camaradas nem suspiram. Penso que sou o único sobrevivente. Não demos por estes flechas, pretos como nós, que se chegaram a nós de mansinho e pumba, já está. O comandante deles agacha-se ao meu lado. Fala filho da puta. Fala preto de merda. Fala Sebastião. Ressuscito? Ele sabe o meu nome. Conhece-me.

Por entre a névoa encarniçada que me invade os olhos, as lágrimas de sal e de raiva, o suor em bica, consigo vê-lo. É o Pires, o Celso, o sobrinho. O dilecto – onde vai a Dom Fernando? – o que me ensinava a matemática para a qual eu não tinha muito jeito. Fala turra. Abre a boca Sebastião. Eu fodo-te os cornos se não vomitas tudo cá para fora, maldito. Está escuro. Cada vez mais. Estouro-te a mioleira, grande cabrão. Deixo-me ir. Voando, pairando. E a fragat…

quinta-feira, agosto 03, 2006






Confiança aumenta

Antunes Ferreira
Assim, não me safo. Cada vez estou menos isolado. Quem o diria. Então não é que se vão acentuando - piano, piano, se va lontano - os sinais de recuperação?... Que raio: desta vez não sou eu que o escrevo. Apenas transcrevo de entre os textos que a Imprensa dedicou ao assunto, dois que O Primeiro de Janeiro e o Diário Económico hoje publicam. Estes jornais que não são propriamente o que se pode chamar socialistas, nem sequer pró-governamentais. O curioso, penso, é que já façam parte dos conjurados que ontem mesmo apontei neste blog. Alarga-se, assim e cada vez mais, o círculo do complot, do que peço desculpa aos iluminados detentores da verdade do total descalabro em Portugal. Apesar de não ser eu quem tem a culpa.
Mas há mais. Novo texto, nova aposta na melhoria gradual da nossa economia. Desta feita, através de declarações feitas pelo Presidente da API, Basílio Horta que também não me consta que se tenha filiado no PS. No entanto...


Aumenta a confiança dos consumidores e empresas


A confiança dos consumidores portugueses melhorou em Julho, retomando a tendência de recuperação iniciada em Fevereiro, anunciou o Instituto Nacional de Estatística (INE). O Inquérito de Conjuntura a Empresas e Consumidores, divulgado ontem, mostra uma subida do indicador de confiança dos consumidores para menos 35,8 pontos, depois de ter sido de menos 36,2 pontos em Junho. Para a melhoria da confiança dos consumidores contribuiu a evolução menos negativa das perspectivas para a situação económica do País e para a capacidade de poupar dinheiro. As expectativas de desemprego subiram e a situação financeira no lar nos próximos meses tornou-se mais negativa, limitando a recuperação do indicador global de confiança dos consumidores.
Empresas
O mesmo inquérito revela que a confiança das empresas portuguesas também melhorou em Julho. O indicador de clima empresarial subiu dos 0,0 pontos em Junho para os 0,2 pontos em Julho, o valor mais elevado desde Outubro de 2004. Para a melhoria do indicador contribuiu o avanço na indústria transformadora e nos serviços, já que nos segmentos da construção e obras públicas e do comércio se assistiu a uma deterioração dos indicadores de confiança. Na indústria, manteve-se a tendência de recuperação, com a confiança a aumentar para um máximo desde Outubro de 2004, ainda que continue a apresentar valores negativos (menos 7,6 pontos). Nos serviços, as perspectivas para os próximos meses subiram e a carteira de encomendas exibiu também melhorias. A queda da confiança no comércio ficou a dever-se à degradação no segmento do retalho.
(O Primeiro de Janeiro - 2006-08-03)

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Procura externa está a puxar pela economia nacional
Os vários indicadores de conjuntura são unânimes:
a economia portuguesa está a recuperar.




Filipe Alves

A economia portuguesa continua a apresentar sinais de melhoria, com a procura externa a puxar pela recuperação. O indicador de conjuntura do Banco de Portugal (BdP) e a síntese económica do Instituto Nacional de Estatística (INE), bem como o índice de confiança do ISEG apontam no sentido de uma recuperação da economia portuguesa e no aumento da confiança dos agentes económicos.
O índice de confiança do ISEG passou de 47,3 pontos em Junho para 48 pontos em Julho. Este indicador vai de encontro aos dados divulgados pelo banco central e pelo INE, segundo os quais a confiança no futuro da economia melhorou nos últimos meses.
“A evolução do índice ISEG antecipa a trajectória mais positiva da economia portuguesa que se começou a desenhar a partir do final de 2005, e que o primeiro semestre de 2006 veio confirmar“, considera o académico António Mendonça. Para este professor do ISEG, o índice poderá em breve “entrar em terreno positivo”, ultrapassando, pela primeira vez, a barreira dos 50 pontos.
Para o BdP, a confiança dos consumidores passou de menos 38 pontos em Maio para menos 36 pontos, em Junho. Já o sentimento económico, que é também indicativo das expectativas dos agentes económicos, passou de 89,8 pontos em Maio para 92,8 pontos no mês passado.
Ainda de acordo com o banco central, a actividade económica “continuou a apresentar uma trajectória económica ascendente” durante o mês de Junho. O indicador coincidente do mês passado subiu 0,7% em relação ao período homólogo, a beneficiar do crescimento do consumo privado, que aumentou 1,1% em Junho.
Por sua vez, o INE revelou que o indicador de clima económico - que reflecte as perspectivas dos empresários da indústria, comércio, construção e serviços - melhorou no mês passado.
Segundo o INE, “a força dinamizadora continuou a ser a procura externa”, que reforçou a sua contribuição para o crescimento da economia nacional. Mas o instituto alerta para o fraco dinamismo da procura interna, com um agravamento da evolução do investimento.
De acordo com os dados do INE, o sector da construção apresenta o desempenho mais negativo, com uma queda de 6,1% no trimestre terminado em Maio.
Índice ISEG
O índice de confiança do ISEG apurado em Julho e relativo à evolução da actividade económica portuguesa no curto prazo foi de 48,0, o que traduz um aumento sensível do índice de confiança do Painel na evolução da conjuntura face ao valor do índice apurado no mês de Junho, que foi de 47,3. Aumentou o consenso dos membros do Painel relativamente à evolução económica.
Nota metodológica
O índice de confiança do ISEG sobre a evolução a curto prazo da economia portuguesa, cujo valor pode variar entre 0 (confiança mínima) e 100 (confiança máxima) é atribuído por um painel de dezasseis professores do ISEG com base em informação quantitativa e qualitativa previamente recolhida e que inclui os apuramentos de um inquérito realizado mensalmente a todos os docentes do ISEG.
O valor do índice é obtido por média simples dos valores entre 0 e 100 atribuídos respectivamente por cada um dos membros do Painel. Como indicador de consenso é utilizado o coeficiente de variação dos valores individuais.
(Diário Económico - 2006-08-03)

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API prevê aumento para os 1,5
a dois mil milhões de euros este ano
Investimento vai subir 84%

O valor contratado de investimento para Portugal subirá este ano para os 1,5 a dois mil milhões de euros. A previsão é da Agência Portuguesa para o Investimento, que afirmou também que o padrão da economia portuguesa está a mudar, com sinais de melhora. A Agência Portuguesa para o Investimento (API) prevê que o valor contratado de investimento para Portugal suba este ano para os 1,5 a dois mil milhões de euros, mais 84,5 por cento que em 2005. Numa conferência organizada pela AESE, o presidente da API, Basílio Horta, disse que está prevista a celebração de 80 contratos de investimento entre a API e investidores estrangeiros este ano, “com grandes possibilidade do valor contrato chegar aos 1,5 a 2,0 mil milhões de euros”.A verificar-se este valor, representa uma subida do investimento contratado pela API de pelo menos 84,5 por cento, face aos 813 milhões de euros registados em 2005.
Este número “está longe de nos satisfazer, mas não nos desanima”, acrescentou Basílio Horta.O presidente da API afirmou ainda que é importante que Portugal consiga colocar as 35 mil empresas francesas de portugueses ou luso-descendentes a ter relações com Portugal e chamou a atenção para o facto de haver actualmente mais empresas portuguesas na Roménia (350) do que na Polónia. A API promove o investimento de projectos virados para a produção de bens transaccionáveis, com investimentos superiores a 25 milhões de euros. Na opinião de Basílio Horta, o padrão da economia portuguesa já está a mudar e há sinais de melhoria na actividade económica, acrescentando que “o processo de mudança do padrão da economia portuguesa está em curso”, reconhecendo, contudo, que é preciso acelerá-lo.

quarta-feira, agosto 02, 2006



A caravana passa

Antunes Ferreira
Ponto prévio: sendo velho militante do Partido Socialista, ainda que incumpridor praticante e livre pensador, não posso, porém, deixar de afirmar que o actual Governo, da responsabilidade do engenheiro José Sócrates, até este momento, pelo menos, continua a ter a minha compreensão e o meu apoio. Era o que faltava, que não tivesse, vejo já os detractores mais diversos a comentar. Era o que faltava.

O País está de rastos, já não há quem pegue nisto, o que não admira tendo um Executivo de incompetentes ou de desatinados, de resto chefiados por um homossexual. Que também é um falso engenheiro. Os únicos, os bons, os verdadeiros são os do Técnico, os restantes, os que dizem que o são, não passam de uma burla pseudo-universitária. Dizem e diz-se que são – mas não são. Mas há leis... Também elas mentirosas e ponto.

Suspendo aqui, ainda que entre parênteses, o curso do escrito com algum nexo, penso. Por alguns motivos que passo a expor. Primo. Sendo um amante da Liberdade e da Democracia – que defendi e procurei e pelas quais lutei e sofri, nos tempos da ditadura salazarista – e, como atrás disse, socialista, não tenho procuração de Sócrates para o louvar, encomiar ou idolatrar. Já o escrevi: não concordo com algumas das medidas que tomou, com uma parte da estratégia que usou, mas na globalidade, estou com ele.

Manter a calma e a serenidade

Secundo. Nessa condição de democrata e libertário, não podia permitir-me qualquer censura inibitória, sobretudo no domínio da expressão. E até confesso que, nos momentos de defesa do que entendo ser correcto, não mantenho a calma e a serenidade imprescindíveis, sobretudo nas questões políticas e nos insultos, ainda que sorridentes. Sou assim, confesso, ainda que me pareça que não o devia ser, o que reconheço; mas não me emendo: quase a completar 65 anos, não seria agora que.



Aceito (e pratico) a crítica construtiva, nunca a derrotista, do bata-abaixo, do cataclismo nacional. Que para mim não o são. Posso não concordar com ela, mas é assim. E tento encaixar, mesmo quando as diatribes vêm de Amigos, aquilo que entendo ser catastrofista ou insultuoso. Quem diz que o Primeiro-ministro é «maricas» tem, em meu entender, no mínimo, de o provar. Senão é perjúrio, qualificado no Código Penal. Isso não engulo.

Quem diz que os ministros e secretários de Estado são umas bestas, incapazes e corruptos, tem, ainda em meu entender, de o provar, nos termos do que acabo de escrever no parágrafo anterior. Ataques e qualificações gratuitos não deviam valer em nenhum caso. Em Portugal valem; ou, pelo menos, parece que valem. O Executivo poderá ser uma nódoa, com o que não concordo, e há todo o direito de o afirmar. Façam-no, mas com razões claras e transparente e válidas, nunca em processo de intenções.

Tertio. Afirma-se que o nosso País está no fundo mais abissal, que tudo piora quotidianamente, que não há quem o endireite. E aos saudosistas do passado, os defensores da moral jesuíta, os próceres da intervenção policial à moda antiga e do cala a boca, comuna, a esses permito-me lembrar-lhes que se assim falam é porque acabaram os famigerados delitos de opinião que, quando o poder os aproveitava, não eram motivo de críticas.

Um complot de alto coturno

E se se afirma que as coisas parecem melhorar ainda que um niquinho, embora, trata-se de mentirolas governamentais. Mas o Banco de Portugal também o diz. Olha que admiração, com o Governador socialista que tem... Note-se que a Comissão Europeia... Outra farsa, o que ela quer é cortar-nos as pernas e os subsídios. E a OCDE... Não credível. Um dia diz sim, logo a seguir diz não. Porém, o INE... Que é que esse instituto desacreditado havia de dizer: é do Governo.




Quator. Estamos, assim, perante o conluio de que já falei por diversas vezes. Um chorrilho de mentiras, um arraial de falsidades, todos juntos a apoiar este espantalho governamental, um verdadeiro complot do mais alto coturno, concluem. Só posso escrever que é um despautério. Se alguém tentar não dizer mal do Executivo e dar uma informação real, por certo moderada e prudente, trata-se de um confesso aldrabão. Vislumbra-se a retoma, oxalá ela se confirme e seja sustentável. Os profetas da desgraça regougam em coro que a propaganda oriunda de São Bento e do Largo do Rato continua.

As Oposições que temos

Quinto. Temos as Oposições que temos. Que tocam nas mesmas teclas da apregoada publicidade, dos projectos e das intenções que não passam disso, dos ludíbrios e das invencionices do Executivo. Fazem o que lhes compete, não o são para outra coisa, mas. Se tudo o que o Poder faz ou pretende fazer é um encadeado de tolices, onde estão as alternativas válidas e melhores? O hemiciclo ouviu umas, escassas, que parece serem impossíveis ou inoperantes. O Governo, aqui, deve sentir-se confortado, pelo bem que elas lhe fazem. Quanto aos sindicatos, não escrevo nada. Não vale a pena, infelizmente.

Já chega. Siga em frente engenheiro (ainda que duvidoso...) José Sócrates. Volte de férias com as baterias recarregadas. Com as energias alternativas, com o Simplex, com as reformas mais diversas, com o saneamento das Finanças, com a modernização do Estado, com o Plano Tecnológico, com o Inglês nas escolas, com a banda larga, com a formação, com a tecnologia, com a OTA e o TGV. Com muito mais, que não quero aqui mencionar sob o risco de não me chegar uma lista telefónica para as anotar. Os cães ladram e a caravana passa.