segunda-feira, fevereiro 05, 2007





NAS SELECÇÕES DO READER’S DIGEST

Rir é o Melhor Remédio

Antunes Ferreira
Sou leitor das Selecções do Reader’s Digest há mais de cinquenta anos. O meu Pai assinava-as e, recordo-me perfeitamente, a edição era brasileira, daí que usasse a nossa língua à maneira do outro lado do Atlântico. Com anúncios ao leite condensado Moça e tudo. Aprendi com ele a não saltar páginas, a ler tudo de enfiada.

Nunca deixei de o fazer. Acompanharam-me até hoje, quando já completei 65. Para a minha profissão de jornalista, elas representaram, representam e creio que representarão sempre uma mais valia que, mesmo o facto dos artigos que contêm serem obviamente conotados com a direita mais liberal, à boa maneira dos EUA, não me dissuadiram desse meu procedimento.

O Rir é o Melhor Remédio, como os Flagrantes da Vida Real, entre outras secções, melhor dizendo, entre todas, têm uma graça e um sabor muito especial. Com um abraço ao José Mendonça da Cruz, actual editor-chefe da revista, aqui me permito publicar umas anedotas deliciosas do Rir. Sem autorização prévia, pois sei que se lha pedisse…

No Parlamento

Um político prolongava infindavelmente a sua intervenção no Parlamento. Era um discurso oco, sem qualquer sentido, aparentemente apenas para fazer perder tempo. O Presidente da Assembleia já por diversas vezes avisara o Senhor Deputado para que abreviasse a retórica e que se deixasse de considerandos, entrando de vez no assunto. E o homem, nada. Não se contendo mais, o Presidente agarrou na primeira coisa que tinha à mão, um pesado tinteiro em estanho e atirou-o ao orador. Acontece.
Mas falhou e atingiu outro parlamentar na cabeça. Este, caiu no chão e quase todos se precipitaram para ele. Este, mesmo ferido, conseguiu ainda reunir forças e gritou: «Batam-me outra vez!!! Ainda consigo ouvi-lo!!!!!!!!!!!!!!!»

Perdido no deserto

Há três dias que um explorador se encontra perdido no meio do deserto. Já se lhe acabou a água do cantil. Está doido de sede e já caído na areia. De repente, ouve um «olá!». Levanta a cabeça e vê o que pensa ser uma estranhíssima miragem: um esquimó, num trenó, com os respectivos cães! Endoideceu, definitivamente. Mas, para sua surpresa, o trenó pára .
«Não faço a mínima ideia do que está a acontecer. Mas, felizmente que o amigo aparece. Há dias, nem sei já quantos, que ando perdido…» O esquimó, ofegante: «Você acha que está perdido? E então eu?????»

Na farmácia

Um cavalheiro entra numa farmácia com um ar preocupadíssimo e dirige-se de imediato ao farmacêutico: «Será que me pode ajudar? Parece-me que perdi a voz, mas, se calhar, é apenas impressão». E o farmacêutico: «Bom dia cavalheiro. Em que posso ser-lhe útil?»

Conversa de bar

Sentado ao balcão do bar, um sujeito afoga as mágoas em whisky, um após outro. De repente, entram dois esquilos e sentam-se ao lado dele. Atónito, o homem vê os esquilos pedirem bebidas e um prato de nozes salgadas, como aperitivo. Começam a conversar. O cidadão, absolutamente espantado, pergunta: «Onde é que vocês aprenderam a falar e tão correctamente». «Porra!» responde-lhe o esquilo que lhe está mais chegado. «Você está bêbado que nem um cacho! Eu sou o único esquilo que aqui está».

Endoideceu?

Uma Senhora de idade entra no consultório e começa a expor o seu problema ao jovem médico. Nem passaram dois minutos, e a velhinha sai a correr e aos berros. Um médico mais antigo e experiente, que já a conhece, aproxima-se dela, tenta acalmá-la e ela conta-lhe o sucedido. Sai, já mais tranquila e o médico sénior entra no consultório e diz ao colega novito: «Ouça lá, o que é que lhe deu? Endoideceu? Então o colega diz à Dona Laura, que tem 73 anos, quatro filhos e nove netos, que ela está grávida? Que mosca lhe mordeu?»
O novo, mesmo sem levantar o olhar para o outro: «Ela ainda está com soluços?»



Porrada, pessoal, porrada

Através do site da Embaixada de Portugal no Brasil encontram-se temas muito interessantes. Já aqui o referi: trata-se de uma iniciativa de grande alcance, a que meteu ombros uma pequena equipa que trabalha na representação portuguesa em Brasília, tendo à sua frente o embaixador Francisco Seixas da Costa. O exemplo bem poderia ser seguido noutras legações.

Já demos neste blog conta do que foi um escrito (???) incrível de um tal Polibio Braga e da resposta que Seixas da Costa lhe endereçou. O assunto, de tão mesquinho que foi, nem merecia mais do que isso. Mas – há sempre uma adversativa – o site indica que o Paulo Torck deu uma trancada no sobredito «jornalista».

O Travessa do Ferreira foi de seguida à busca do texto. E alem dele, descobriu um outro, de um outro Paulo. Enquanto o primeiro escreve a partir de Lisboa, o segundo, que não menciona apelido, fá-lo de Porto Alegre. Ambos se referem à inqualificável prosa de forma que não permite albergar quaisquer dúvidas. Eles aí ficam. Peço-vos que, querendo-o, digam o que lhes aprouver sobre isto. Para já, ficamos assim.
A.F.

Os dois Polibios

N
asci no Brasil e lá vivi metade da minha vida. A outra metade foi vivida cá em Portugal. Por isso perturba-me profundamente assistir a momentos de desarmonia, contrariando o discurso de “países irmãos” que, ao longo dos anos, ouvi e senti de igual forma em ambos os lados do oceano atlântico.

Tal como acontece em qualquer relação entre irmãos, as relações sociais entre brasileiros e portugueses por vezes crispam nos momentos de discórdia, não por causa das diferenças, mas pelas semelhanças culturais. Afinal, o que importa se alguém nascido no “Longistão” critique negativamente o nosso país? Por outro lado, quando um irmão fala mal do outro, a razão desvanece e a emoção desponta.

Não se pode agradar a todos, mas Portugal anda muito perto disto. Quer sejam brasileiros ou não, quem conhece este pequeno paraíso fica sempre bem impressionado, embora muitos portugueses tenham alguma dificuldade em reconhecer as próprias qualidades. Não conheço as estatísticas, mas baseando-me pela minha própria experiência através dos depoimentos de brasileiros (e não só) que visitaram Portugal, confiro a quase unanimidade de opinião de quão magníficas são as terras, as pessoas e as coisas. Um sentimento genuíno, e que muito me agrada ouvir, pois já não pertenço a uma única pátria.

Com a minha vida dividida entre Portugal e Brasil, não consigo identificar o que realmente nos separa. Por isso, é com indignação que verifico haver pessoas, como o tal senhor de nome Polibio Braga, auto-intitulado “jornalista”, tenha espaço nos meios de comunicação para expressar opiniões de forma tão superficial e inconsequente, o que não condiz em absoluto com as atribuições de um jornalismo, digamos, sério.

As suas divagações antropológicas sobre Portugal e o colonialismo estão mais próximas dos delírios de um fascista embriagado com a própria glória de reconstruir o mundo segundo os seus ideais de desenvolvimento e prosperidade económica.

Sobre as suas experiências em terras lusas, fica a frágil e pálida noção de um descritivo medíocre e inocente, como se tratasse de um diário de férias de uma adolescente com vontade de perder a virgindade.

Claro que ao fim de alguns dias de turismo pode haver um momento menos agradável, um tratamento menos digno, um aspecto menos espectável. Mas não se julga o "todo" por uma "parte", pois não há neste planeta um país que esteja isento de imperfeições. Mas o Polibio não explica, insinua. O Polibio não fundamenta, prescinde. O Polibio não conhece, imagina. O Polibio não sabe, finge.

E já que não estou a exercer a função de jornalista, posso muito bem seguir o seu estilo destrutivo e negligente para dizer, por exemplo, que o pobre Políbio deve ser um desgraçado. Deve ter adquirido raiva do mundo ao sofrer anos de chacota na infância e juventude, com a herança, não portuguesa, mas sim grega, dos seus pais que ao nascer lhe atribuíram o nome do famoso historiador peloponeso também conhecido como Polibius.

Isto dá o que pensar… Quantas pessoas já ouviram falar do grego Polibio? Penso que não muitas, embora possa estar enganado, e haver inclusive muita gente com bons conhecimentos de história. Mas certamente não corro o risco de estar enganado quando digo que, antes desta polémica, poucas pessoas conheciam o brasileiro Políbio, quer no Brasil quer em Portugal. Por isso anexo mais uma qualidade ao senhor Polibio, o de saber chamar a atenção sobre si mesmo. Será, afinal, que é esse o seu objectivo?

Por isso vos peço, coloquem o Polibio “Historiador” no pedestal dos nobres, e o Polibio “Jornalista” na vala dos medíocres.

Paulo Torck
Lisboa

Paixão Portugal

Pois vivo no Brasil desde que nasci, conheci Portugal, para onde fui muito menos do que gostaria e, tendo nascido em Porto Alegre, onde vivo até hoje, muito me envergonho deste meu conterrâneo, por quem nunca consegui ter a menor admiração.
Essa não foi a expressão da opinião dos brasileiros que conheço, daqueles que viram Portugal e, como eu, se apaixonaram.
Tenho o desejo de pedir perdão, por menos que compartilhe desta opinião, vontade de dizer que me envergonho de ter nascido na mesma terra que ele, mas não, preciso dizer, ele não é a nossa opinião.
Irmãos portugueses, sereis bem vindos sempre entre nós e recebidos da mesma forma carinhosa que nos recebem.
Meus maiores respeitos.
Paulo
Porto Alegre

quarta-feira, janeiro 31, 2007


Reflexão

Um coxo não costuma correr a maratona, nem um mudo dá aulas de dicção.Só os padres não prescindem de dar conselhos sobre a reprodução e a sexualidade.Dá que pensar…

domingo, janeiro 28, 2007




À VOLTA DO ANO

Janeiro

Maria Lúcia Garcia Marques
J
aneiro é lã e neve. No meu hemisfério, claro.

Lã daquela forte, honesta, natural. Lã poveira das camisolas dos pescadores, dos nossos homens de Vila do Conde, da barra de Aveiro, que vão morrer no mar a 20 metros da praia porque somos um desespero de um povo que só acorda com a enchente e com o braseiro e não sabe prever – nem suster – estas cóleras de Janeiro. Mas lã também que borda, gentil, fantasias trazidas nos desenhos de outras terras: um Oriente traduzido, em quente, nos tapetes de Arraiolos. Que povo tão pródigo somos que bordamos todo esse luxo para pôr aos pés! E as mulheres tecedeiras, e as mulheres bordadeiras, ponteando as cores macias ou profundas, as barras densas de flores e volutas, as aves suspensas, as simetrias, os realces e os matizes em fundos propícios, enchendo os olhos e os espaços de festa e aconchego.

Janeiro ...

Janeiro é neve. Também. Algures, que não no meu horizonte, que nunca vi nevar. Nevar neve como a dos invernos de Bruegel: imensas e profundas paisagens, pontuadas de figuras curvadas sob o peso de um frio que nos entra pelos olhos e nos deixa uma sensação de luto – luto branco, descarnado sentimento do trágico da vida. Talvez que haja aqui muito da memória que me vem (nos vem a todos, creio) da “Balada da Neve”, decorada na infância, ouvida depois glosada, a todos os propósitos, mas que ainda diz, na crueza da sua simplicidade: “mas as crianças, Senhor / porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?” Porque Janeiro é assim, duro e dúplice: do frio dos sem-abrigo aos jogos e luxos da neve dos ricos. Da paz imaculada dos campos à perfídia nocturna dos lobos descendo os caminhos da fome ao cheiro dos povoados.

Porque Janeiro é assim – fechado e sisudo, tempo de interiores e sabores seguros. Como a sopa, uma boa “sopa da pedra” bem quente e farta, familiar e antiga como a lenda.

Janeiro pode ser tempo de solidões confortáveis acompanhadas a chocolate, licor de tangerina, aguardente de medronho e frutos secos – televisão sem som à laia de lareira, manta nas pernas e um livro a gosto – tudo segundo e conforme os momentos e as inspirações.

Os silêncios de Janeiro pedem música de Brahms, ou uma ária de Verdi (porque não a de Filipe II no “Dom Carlo”, na desgarrada solidão do seu poder e do seu amor enjeitado – “amor per me no a ...”?) Talvez o “Romeu e Julieta” de Prokofiev, talvez a “Valsa triste” de Sibelius ...

Quando eu escrevia poemas de amor, lembro-me de um que se chamava Janeiro e que acabava mais ou menos assim:

[...] no inverno, o ritual da secreta germinação
a voz que hiberna
(porque paro no frio
e me comovo com um colo nu
ou uma fonte ao vento?)
mas subitamente o teu riso
é uma faiança antiga
um perdão intacto
e janeiro nele
uma amêndoa brava.

N R - Sim senhores: a Maria Lúcia começa aqui um texto que pretende que seja regular, mês após mês. Pretende ela e muito justamente - e exijo-o eu. Sem imposição - só persuasão... - muito menos látego (note-se que estou a ler as Memórias do meu grande Amigo Edmundo Pedro, obra acabada de sair e que, no I Volume, vai até à sua permanência de quase dez anos no «campo da morte lenta», o Tarrafal)... Longe vá a ideia negativa, absurda e abstrusa. Lagarto, lagarto, lagarto.

Cada vez mais sinto que este blog vai cumprindo, às vezes com dificuldades penosas, aquilopara o que o criei: um espaço de convívio, de colaboraão, de fraternidade, de solidariedade, em resumo, de Amizade compartilhada. Outros mais se nos irão juntando, penso e desejo. Por isso, o À VOLTA DO ANO tem de ser saudado calorosamente. Muitíssimo obrigadérrimo, Maria Lúcia. A.F.

sexta-feira, janeiro 26, 2007



Dois grandes Amigos

Antunes Ferreira
Um destes dias, e tal como agora me vai acontecendo, depois de mudar de casa, entrei na livraria O Paço, no Centro Comercial do Lumiar, que é pequenino, mas, por isso mesmo, aconchegadinho. A Dona Deolinda e o Senhor Francisco Sousa, esposo amantíssimo, são os patrões da lancha e tentam estar em dia com as novidades editadas. Difícil tarefa nos dias que vão correndo. Mas que eles tentam levar a bom porto.

Vai daí, zás! O Leonel Gonçalves, como sempre de pêra em riste e como sempre também, afável, simpático, amigo. Desde os tempos do Diário de Notícias que quase não nos víamos. O Leonel, homem chave da instituição, director da antiga Biblioteca, depois promovida e bem a Centro de Documentação. Eu, um plebeu da escrita, jornalista que chegaria a Chefe da Redacção do matutino.

Demo-nos muito bem – muitíssimo – apenas nos conhecemos. Leonel Gonçalves estava, como o estavam os seus Serviços, permanentemente à disposição dos escribas. Duvidam? No que me toca – sempre esteve, a sua disponibilidade era total, até fora de horas. E sem gritarias nem exorbitâncias. O homem é assim mesmo, que se lhe há-de fazer…

Foi uma festa. Pareceu-me que punha em dia uma conversa que durara 16 anos no jornal fundado por Adolfo Coelho e Tomaz Quintino Antunes. Tem piada. Numa noite assoberbadíssima, já não sei porquê, estávamos os dois à conversa por mor de qualquer coisa de que eu precisara e, sem motivo aparente, sai-se o Leonel. «Este Tomaz Quintino Antunes ser-lhe-á alguma coisa?» Sem comentários mas com muito riso.

Tive a ideia que tínhamos charlado na véspera, tal o efluir da empatia transmudada em palavras. Contámos imensas coisas um ao outro e ficámos logo, de jura jurada, combinados sobre os contactos futuros (a curto prazo) e as coisas que íamos fazendo. Foi aí que ele me falou da entrevista que fizera à Manuela de Azevedo.

O Leonel escreve bem, ainda que ele diga que é assim-assim. Malandrice. Escreve bem. Aliás vão ter o prazer de o comprovar. Isto porque lhe pedi para publicar aqui a peça em causa ao que anuiu com uma condição prévia: obter a autorização da onde a entrevista fora publicada. Dito e feito. Tiro e queda.

A partir de agora, mais um colaborador de qualidade. O qual penso utilizar com a maior frequência e do qual vou abusar, salvo seja. Com escritos do dito cujo, originais para este cantinho. Venham de lá essas prosas, ó Leonel.


********

Dava eu os primeiros pontapés na escrita em letra de forma, quando conheci a Dona Manuela de Azevedo. Já lá vai quase meio século. Foi no falecidíssimo Diário Ilustrado, uma quase universidade de jornalismo quando as não havia. Em pouco tempo, ele própria me disse para eu deixar cair o Dona. E ficou para mim apenas a Manuela.

Grande Jornalista, com caixa alta. Mulher de armas e de convicções, intimorata, vertical e Amiga. Alguns foram os que me ensinaram muitas coisas deste ofício das letras. Poderia citar um Norberto Lopes, um Mário Neves, um Diamantino Faria, um Pereira da Costa, um Trabucho Alexandre, um Raul Rêgo, um Vítor da Cunha Rego, e outros, poucos. Nesse acervo entrou, e numa mais se foi, a Manuela de Azevedo.

Com ela aprendi como se faz uma grande reportagem. De tal privilégio me apossei para escrever umas quantas. E não resisto a, sumariamente, aqui contar um simples episódio. Ao fim de largos anos reencontrei a minha querida Manuela de Azevedo no Diário de Notícias, crítica de teatro e outras artes, abalizada e prestigiada. Foi uma alegria.

A partir de então, voltámos a conviver no dia-a-dia. A conversar, a trocar opiniões, a fazer tudo aquilo que os amigos gostam de fazer. Tempos depois, segui para a Roménia a fim de reportar o terramoto que ali se dera, tendo sido o terceiro jornalista estrangeiro a chegar a Bucareste. Durante nove dias, longos, duros e trabalhosos enviei crónicas para o DN.

Na volta, e de acordo com opiniões tão imparciais quanto possível, foi-me dito por gente diversa, que as coisas tinham corrido bastante bem. Mal me preparava para me sentar à minha secretária quando toca o telefone. Isso é que foi uma reportagem e peras! Era a Manuela de Azevedo. Ponto final. De todos os elogios profissionais que fui tendo ao longo da vida – e foram uns quantos – esta reportagem e peras é, sem dúvida, o mais valioso.

Reunidos num mesmo texto mágico aqui ficam a Manuela de Azevedo e o Leonel Gonçalves. A conversa entre os dois – segue dentro de momentos… Em doses devidamente… doseadas. Para já, os primeiros passos.


(O título e os subtítulos são da responsabilidade do Travessa do Ferreira)




MANUELA DE AZEVEDO

Apaixonei-me por Camões


Leonel Gonçalves
Entrevista publicada na revista Faces de Eva – Estudos sobre a mulher, n.º 16, 2.º semestre de 2006 – Edições Colibri e Universidade Nova de Lisboa

Manuela de Azevedo nasceu em Lisboa, em 31 de Agosto de 1911, mas passou a adolescência na Beira Alta. Fez os estudos liceais em Viseu, onde iniciou a primeira actividade profissional, como professora do ensino particular. Cedo se lhe manifestou a vocação para o jornalismo, estimulada pelo pai, director do jornal Notícias da Beira. Colaborou em vários jornais da região até que, em 1938, entra para o jornal República, como jornalista profissional. De 1942 a 1945 foi chefe de Redacção das revistas Vida Mundial e Vida Mundial Ilustrada. Insatisfeita com o jornalismo semanal, «vagaroso», surge-lhe uma oportunidade e entra para o Diário de Lisboa, onde fez todo o tipo de notícias e revelou todo o seu talento em crónicas e reportagens inéditas e arriscadas. A vida nos campos de arroz do Vale do Sado, a pesca ao cachalote na Madeira, onde esteve 13 horas num pequeno barco, sem comer, ou a descida a centenas de metros, nas Minas de São Domingos, são exemplos disso. No capítulo das entrevistas, saliente-se as que realizou com Ernest Hemingway e com o ex-rei Humberto de Itália.
Em 1960 entrou para o Diário de Notícias, jornal onde já estivera, por um curto período. O seu trabalho aqui vai incidir especialmente na área cultural. Faz crítica de teatro, música, dança, artes plásticas e literatura. E escreve sobre o património e as grandes figuras literárias e históricas portuguesas dos séculos XIX e XX. E sobre a Casa da Camões em Constância, a infindável paixão da sua vida. Foi ainda correspondente ou
colaboradora de vários jornais e outras publicações estrangeiras. Como escritora, tem uma vasta obra: 19 títulos publicados, compreendendo poesia, conto, romance, teatro e ensaio. Jornalista, escritora, tradutora,
conferencista, Manuela de Azevedo conserva, aos 95 anos, uma lucidez e uma energia impressionantes e é ainda a alma da Associação da Casa-Memória de Camões em Constância, de que foi fundadora.


LG - Comecemos pelo princípio. Nasceu em Lisboa, mas estudou em Viseu, num percurso geográfico atípico. Foram razões familiares?

MA - Meu pai, António de Albuquerque Azevedo, era um republicano histórico, foi propagandista da República, com Egas Moniz, e muitos outros, era laico, eu também sou laica, tentei não ser, mas não resultou. Era funcionário das Finanças, pertencia ao partido «camachista», elite da política, contrário ao Partido Democrático e, por isso, andava sempre em bolandas, com a casa às costas. Fiz exames de instrução primária sempre atrasados, começava os anos lectivos e não os acabava porque mudava de terra.
Quando tinha doze anos, fomos parar a Mangualde. Aqui entusiasmei-me com o teatro. Eu já ia ao teatro com os meus pais, desde os quatro anos, vi a Palmira Bastos fazer Revista, imagine.

LG - Isso foi na altura da I Guerra Mundial...

MA - Sim, por volta de 1918. Um dia, ao jantar, ouvi o meu pai dizer à minha mãe: «estive numa reunião do Hospital da Misericórdia, se calhar tem de fechar, não há dinheiro, vai ser uma desgraça». Eu fiquei a pensar naquilo e, como costumava fazer brincadeiras de teatro com colegas da minha idade, comecei a dizer-lhes, e a puxá-los, para fazermos um espectáculo a favor da Misericórdia. Falei ao meu pai dos nossos projectos e ele disse que isso não devia ser, como até ali, uma representação em casa de cada uma, mas um espectáculo numa sala. Fomos em comissão falar com o Sr. Padre Bernardo, para ensaiarmos com ele a parte musical. Ele acedeu e o meu pai foi o ensaiador da parte dramática. Fizemos um espectáculo com grande sucesso e, a seguir, andámos de terra em terra, numa camioneta, a recolher dinheiro.

LG - Com os vossos pais?

MA - Claro. Fizemos uns espectáculos de comédia, uns monólogos, coisas próprias da época e das nossas idades. Ainda em Mangualde, já eu tinha 16 anos, estava, às vezes, à janela e via que as crianças andavam na rua a brincar e pensei que aquele fulgor poderia ser canalizado para qualquer coisa útil. O meu pai era então director de um jornal, o «Notícias da Beira». Resolvi escrever uma carta para o jornal a dizer que me fazia muita impressão ver que, enquanto as mães e os pais iam trabalhar para o campo, as crianças ficavam ali na rua ao deus-dará, e que seria interessante arranjar-se alguma maneira de as ocupar nos trabalhos escolares ou ensinar-lhes a fazer alguma coisa, em particular a costura. Aquilo deu um movimento enorme. Íamos aos armazéns de lanifícios, pedíamos panos, as senhoras importantes da vila colaboraram, criou-se uma organização que ainda hoje lá está.

LG - Deve ser para si um grande orgulho...

MA - Muito grande. Depois foi orientado pelos padres, está com muita força, tem um auditório muito bom, desenvolveu-se e mantém mais ou menos o mesmo espírito.

LG - Foi uma adolescência riquíssima...

MA - Pois foi. Devo isso muito ao meu pai, que me incitava sempre a fazer coisas, a participar em iniciativas.

LG - Foi também nessa região que teve, como professora, a sua primeira actividade profissional...

MA - Estive na província até aos 22 anos. Depois de acabar o liceu fui dar aulas num colégio particular, em Viseu. Tenho um grande amor a Viseu, fiz lá parte da minha vida e tenho lá alguns amigos, também amigos de Aquilino Ribeiro. Ainda hoje colaboro numa revista chamada Aquiliana, editada em Viseu, onde conto muitas coisas relacionadas com Aquilino, ficámos amigos, encontrávamo-nos, muitas vezes, em Lisboa, quase sempre na Livraria Bertrand, no Chiado, frequentada também por Gaspar Simões, Gago Coutinho, Afonso Lopes Vieira e outros intelectuais.

LG - Foi Aquilino quem fez o prefácio do seu primeiro livro, de poesia. Quando começou a escrever?

MA - É curioso como apareci poeta. Tinha 14 anos, adoeci com gripe, estava de cama e, de repente, vieram-me uns versos à memória, não tinha papel e escrevi-os na parede. A partir daí comecei a fazer versos, de maldizer, aos professores e aos colegas. A minha mãe não gostava nada que eu perdesse tempo com os versos e até me pôs no quarto uma lâmpada de 25W, para eu desistir de escrever. Mas continuei, e tive, em certa altura, uma orientação literária do meu professor, Correia de Oliveira.

LG - Não era o «poeta de Belinho» ...

MA - Não, era primo. Ajudou-me muito e incentivou-me a publicar os versos. Mas era preciso uma «autoridade literária» para fazer o prefácio. Naquela zona, ocorreu logo o nome de Aquilino Ribeiro. Escrevi-lhe uma carta e um dia fui com o meu pai, de táxi, a casa dele, em Moimenta da Beira. Passámos lá uma tarde agradável, estivemos duas ou três horas a falar de literatura e poesia, tomámos chá e biscoitos. Aquilino disse-me que não entendia muito de poesia, mas que deixasse os versos que um amigo dele, em Lisboa, conhecedor do género, lhe diria da sua qualidade. Dias depois, mandou-me uma carta a informar que o amigo lhe disse que os versos eram bons e que podia escrever o prefácio. Fez um texto muito bonito que me deu muita confiança para continuar a escrever.
CONTINUA PROXIMAMENTE

quarta-feira, janeiro 24, 2007





Crónica vibrante


O Ricardo Charters de Azevedo é boa praça. Não bastava já que fossemos amigos há mais de seis séculos, mais ano, menos ano, desde que nos conhecemos no nosso Lyceu Camões, que brincássemos com os primos deles, os Câmara de Oliveira, meus vizinhos no Restelo e também escravos do reitor Sérvulo Correia, e fomos reencontrar-nos por mor das Europas.

O (bom) malandro foi nomeado (e com todo o mérito) Representante da União Europeia em Lisboa, depois de um singular, por excelente, percurso na instituição. Herdou funções de um outro amigo, o goês António Menezes. E aqui serviu durante, nomeadamente, o processo do euro. No qual também participei, pois fui encarregado da Comunicação da Comissão Euro do Ministério das Finanças e, depois, da Comissão Nacional que aglutinou as duas, a das Finanças e a da Economia.

Isso levou a que tivéssemos tido muito que fazer em comum. A Amizade, mais do que qualquer outra componente, marcou sempre presença notória nas relações profissionais que tivemos durante três anos e picos. A velha cumplicidade dos bancos liceais voltou. Ricardo, porém, fez mais. Durante os cinco longos anos em que, logo a seguir, me embrulhei sobre mim próprio com uma maldita depressão bipolar, ele acompanhou-me na medida do possível. Os Amigos com caixa alta são assim.

É óbvio que não esteve à minha cabeceira, nem o podia fazer. Para isso estavam minha mulher Raquel, meus filhos, minhas noras, meus netos e mais alguns familiares e uns quantos Amigos. Um exemplo: a Bebé. Isto é a Maria Gabriel Abrantes, que marcou nesse dramático período uma porrada de golos no desafio da mesma Amizade, que ela ganhou – e de que maneira. Mas, embora de longe, o Ricardo acompanhou cuidadosamente a teia emaranhada em que me debatia.

Agora, continuamos cúmplices. Nas auto-estradas informáticas, então, é um vê-se-te-avias. Somos correspondentes de correio electrónico multi-quotidiano. A mim enche-me de prazer esta epistolografia computadorizada; a ele, penso que também. Penso, uma ova; tenho a certeza. Diz lá que não, companheiro – se fores capaz.

Mandou-me um texto notável que de seguida publico sem cuidar do copyright. Que se lixe. Com umas linhas introdutórias que não resisto a registar. Diz o caro marmanjo: «Arnaldo Jabor é, para mim, uma das figuras mais interessantes do Brasil, nestes tempos que correm. Escreve umas crónicas semanais. É grande responsável pela manutenção de alguma lucidez. Minha e de muito boa gente, penso eu!».

Posto isto, registados os factos e documentados notória e notarialmente, dou minha fé de que o excelente pedaço de prosa que se segue mantém a grafia original para que o saboroso da língua portuguesa do Brasil não se perca. Já chega de parlapié. Segue-se o naco de escrita – magnífico. A.F.




O consolador

Arnaldo Jabor
Um dos sintomas do mundo louco é a masturbação. Sim, não me refiro à mera punhetinha, à mera coça na miúda, ao mero estrangulamento de peles vermelhas, ou a doces siriricas, românticos delíquios, orgasminhos secretos de mulheres; refiro-me à solidão social reinante, que provoca a solidão sexual, mesmo dentro da permissividade total de hoje. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão sozinhos. Tínhamos os pecados, tínhamos as proibições que perfumavam os prazeres deliciosos mas, hoje, com a crise do amor romântico, com tudo permitido, ao sexo foi designada a função de substituir frustrações políticas e sociais.

Eu pensava essas coisas graves, quando subitamente me surge uma serpente na TV: um reluzente e enorme vibrador! Sim, um pênis artificial que uma mulher exibia, elogiando os benefícios da masturbação contemporânea. Ela louvava com orgulho o chamado dildo manejando-o com naturalidade e destreza, enquanto o inquietante objeto fálico ronronava como um gatinho angora. No dia seguinte, vejo no Saiajusta um fino debate sobre as vantagens do bom e velho ÍNgomsolator Tabajara. Aí, me bateu a verdade inapelável: o vibrador explica a solidão em que vivemos, no amor, na política, nas artes.

O pré-víbrador foi inventado na pré-história; há-os até de pedra, pênis artificiais flintstones e, no início do século 20, foi recomendado no tratamento das histéricas frígidas. Tinha o romântico nome de consolador, ou seja, um consolo para damas solitárias, uma nostalgia, uma saudade. Hoje, não. Hoje o pênis natural é que ficou no banco de reservas. Hoje o dildo não consola ninguém; veio para afirmar, para nos substituir e nos deixar a nós desconsolados. Nos tipos de vibradores, há um retrato de nosso mundo imaginário: há os em forma de coelhinhos infantis, há os negros de ébano, imensos, evocando a África profunda, há os árabes, terroristas, há os imperialistas, americanos, há os autoritários, ibéricos.

Com a inseminação artificial e os dildos, cria-se uma civilização de abelhas sem zangões. E não há uma contrapartida do consolador para homens. As tais mulheres de plástico (como vi anunciadas numa revista, com o genial slogan: She needs no food nor stupid conversation) não resolvem. É muito sinistro aquela pobre boneca sendo estuprada no silêncio da ignomínia. A mulher de borracha é uma metáfora analógica; já o vibrador é uma metonímia digital — a parte pelo todo. A mulher de borracha nos angustia com sua presença incómoda; ela nos inquieta, mesmo esvaziada no fundo do armário, como uma ocultação de cadáver. O pênis digital não; ele tem vida própria não tem inconsciente, não tem desejos e manias.

O consolador é uma coisa em si, já o homem é para si, cheio de projetos, opiniões. Ele não é um pedaço, está inteiro; o homem é que foi amputado dele.

O consolador não perua (com trocadilho, please); ele é um amante dedicado, sempre pronto para satisfazer sua dama.

O consolador é uma fantasia feminina de auto-suficiência, mas é também um velho sonho masculino: ser livre e solto como um pênis voador, sem inibições, comendo todo mundo numa boa, voando, irresponsável, o velho sonho do passaralho, capaz de proezas infinitas. Os homens gostariam de ter a autonomia de voo do vibrador, seus movimentos giratórios, sua beleza aerodinâmica. Vamos assumir logo: temos inveja e ciúmes do vibrador. Se uma mulher põe um vibrador na cama com o parceiro, isso pode provocar uma crise: "Ele é melhor que eu, quem você prefere?"

Um vibrador pode provocar broxadas irreversíveis; um vibrador pode gerar terríveis discussões de relação (DR's), a que ele assistirá impassível, ali, na cama, como um juiz da Vara de Família (com trocadilho).

O vibrador parece uma arma. Está pronto para entrar, aonde? Ele não recusa portas, pode estar na mulher ou no homem e, por isso, é angustiante. Ele pode desencaminhar machos, principalmente nesta era GLS, de oscilações entre homo e hetero.

Vejam o sucesso crescente do fio terra...(quem não conhece a expressão, informe-se ou se toque — com trocadilho...)

Mas, o vibrador não é um objeto cotidiano, que possa ficar à vista de todos, ali, como um bibelô, um telefone (se bem que os há nesse formato). Onde guardá-los? Nas gavetas e desvãos, encafuados e ocultos, sentem-se de longe as vibrações dos vibradores. Eles estão ali como uma bomba-relógio. Além do mais, o que dizer aos filhos que perguntarem: "Mãeêê...posso brincar com esse minhocão preto aqui? Legal! Essa piroquinhã anda sozinha!..

Eu fui educado para achar que as mulheres eram românticas, apenas uma conseqüência do desejo masculino. Hoje, a mulher pega, mata e come machos constrangidos e inseguros, perplexos diante de tanta liberdade. Ficaram mais fálicas que qualquer um de nós. Quem pode competir com seus parceiros portáteis? Elas estão numa falicidade (com a mesmo) vingativa quase, recuperando séculos de submissão. E o vibrador é sua espada para nos castrar num espelho.

A tecnologia não tem volta. Assim, jamais vamos restaurar um romantismo simbiótico entre sexos analógicos. Talvez inventem vibradores com alma, o inverso de homens maquinicos: vibradores em crise, em dúvida, vibradores que discutam a relação, que tenham de ser estimulados aos poucos, que precisem de preliminares, que podem até broxar, humanizados como nós. Na progressiva desumanização do sexo, os corpos estão apenas virando lugares onde se expressará o prazer das máquinas, seremos apenas o campo de provas da eficiência técnica das coisas. Quanto maior o orgasmo, mais caro o equipamento.

Dirão os vendedores: "Faz um test drive com esse bofe(machão) aí..." Com o tempo, seremos apenas uma lembrança, uma nostalgia" romântica, uma fantasia erótica evocada em meio a orgias tecnológicas e sem alma.

quarta-feira, janeiro 17, 2007



ANTÓNIO LUCIANO DE SOUSA FRANCO

Uma homenagem

Maria Lúcia Garcia Marques
Realizou-se ontem (16 de Janeiro), na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, uma cerimónia académica de homenagem ao Professor António Luciano Pacheco de Sousa Franco, com o lançamento de uma monumental edição – três volumes – do in memoriam que lhe dedicaram os seus pares. Voltou a ficar mais próxima a recordação do amigo e foi pretexto para tirar da gaveta o texto que escrevi a poucos dias da sua morte e que nunca tive coragem de publicar.


Ao Amigo
- a 18 de Junho de 2004

Cumprimos hoje o último dos rituais – o requiem do 7º dia. E ainda não aceitamos que o António Luciano tenha partido. Mas, de facto, «O Amigo - morreu»! Assim, como se escreve. Em duas palavras – na curva de um minuto para o outro, sem aviso, sem predição, sem adeus ... assim!

E como na natureza, à volta de qualquer despojo, a vida movente começou a reorganizar-se atraída pelo precipício desse súbito vazio. Em busca de um sentido: primeiro circular e assombradamente curioso, depois judicioso como se a vida – ou a morte – precisassem de explicação ou sequer... autorização. Todos esquecemos – e imperdoavelmente nós, as mulheres, dadoras de vida – que a morte nasce com cada vida que pomos neste mundo. É o forro silente, subtil e absolutamente inseparável de cada momento de existir. Nasce a oriente, como uma estrela negra a caminho do sol, e para ele sobe até que, de repente, o atinge e apaga a luz da nossa vida. E tudo o que celebrávamos fica suspenso num pasmo e num silêncio tão vazio que é como se as raízes tivessem sido arrancadas com tanta força e perícia que nem tivéssemos sangue para nos aterrorizar ou lágrimas para (nos) chorar.

E foi assim que O Amigo partiu. E, subitamente, todos fomos próximos e queridos, todos nos apropriámos de bocados da sua vida que exibimos cruzados com a nossa, todos achámos que o conhecíamos – oh, como o conhecíamos bem ...!: é aquela história e aquela confidência e as pérolas que recolheramos das suas pródigas palavras, do seu sábio e escolhido convívio ...! Era O Amigo e estava ali, à nossa mão, à nossa mesa, padrinho dos filhos que íamos fazendo, enquanto ele ungia a sua solidão com profundos exercícios de saber e nos representava a todos nos altares e nas barricadas, nos olimpos e nas mesas de trabalho. Era a nossa salvaguarda, a nossa válvula de segurança, a nossa ração de combate, a nossa reserva de conhecimento e redenção para os dias difíceis que vêm sempre depois do carnaval da liberdade e dos tropeções da emancipação.

Era O Amigo-solidário e disponível. Com os defeitos das suas enormes qualidades que, complacentemente, adoptáramos todo inteiro e guardávamos como a jóia de família. Em alegre e benévola com-partilha.
Foi O Amigo que um dia – como não tínhamos pensado seriamente nisso ...? – escolheu o seu caminho privado, arrumou os seus afectos, acendeu a sua lanterna, saiu a terreiro e proclamou a sua verdade e a sua vontade, estendeu a sua mão e seguiu o seu caminho, por outrem acompanhado.

E num afã confuso de formigas surpreendidas por um obstáculo, os amigos movimentaram-se para longe ou para junto, reticentes ou definitivos, mas sempre na sua órbita. E foi o momento de se redesenharem e definirem nessa contraluz que não deixava, no entanto, de os iluminar. E O Amigo deixou o altar da amizade e da devoção sincera pelo palco do agir público, da admiração vistosa, do espectáculo do “poder-aos-molhos”.
E dos amigos choraram os olhos – O Amigo virara de bordo, era outra a face da Lua ... – mas mesmo na sombra, estávamos todos lá!

Porém, caído em mãos ávidas e bárbaras, criminosas na sua ignorância de criança que espatifa vorazmente o brinquedo demasiado sofisticado para ela, foi usado, explorado e, exaurido, tombou no átrio mesmo da sua nova ambição. E os amigos olham agora o futuro oco, ouvem o silêncio dos passos de quem partiu para longe – para lá? – do Ali onde o tinham imaginado sempre, tutelar e, a seu modo, fiel.

E sabem que, se, no seu caminho, O Amigo foi, porventura, muito do que queria ser, encontrou quanto buscava e partiu para a Luz, o caminho deles teve o que nunca mais terá: a pegada companheira, o orgulho e o júbilo da sombra amiga, a alacre cumplicidade do ser excepcional que era O Amigo-que-partiu.
E calam. In perpetuam rei memoriam!



... e agora, eu

Antunes Ferreira
Ontem estava fora do País, fazendo pela vida. E apesar de saber da Homenagem ao Prof. António de Sousa Franco, que os seus colegas de ensino lhe prestavam na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, não pude estar presente. A omnipresência, segundo dizem, é propriedade dos deuses. E eu... Gostaria de o ter feito. O meu Amigo merecia-o. De resto, o Ricardo Charters, outro Amigo de longos anos – estamos todos a ficar velhos… - recordara-me a sessão solene.

O António Luciano foi um Amigo desde que entrámos no Camões para o 1.º ano liceal (era assim que então se dizia). Das carteiras do edifício da Praça José Fontana, passámos para os anfiteatros da novíssima Faculdade de Direito, acabada de estrear, ainda a cheirar a tintas. Ao longo doa anos nunca nos afastámos – por mais longe que estivéssemos um do outro. Trocámos extensas cartas durante os oito anos em que me encontrava em Angola. Quantos desabafos e quantas revelações. A Amizade é assim. Vive-se. Não se agradece, nem se justifica.

No DN muitas e muitas vezes lhe pedi colaboração, nunca recusada. E quando me convidou para criar o Gabinete de Comunicação do Tribunal de Contas, a que presidia magistralmente (como, de resto, sempre fez durante toda a sua vida pessoal e profissional), aceitei, naturalmente. Depois foram os anos do Ministério das Finanças, ele como titular da pasta, eu como seu diminuto colaborador. Pensando bem (agora), talvez não o devesse ter feito, dadas as vicissitudes que se verificaram ali no Terreiro do Paço, e a minha tristeza e desânimo pelo que não fui capaz de fazer – com ele. Mas, ninguém deve chorar sobre o leite entornado.

Seguiram-se uns diabólicos cinco anos em que estive possuído por uma doença que não desejo nem aos meus piores inimigos, que os tenho. Uma depressão bipolar, seis psiquiatras e finalmente a Dr.ª Alice Nobre que me pôs fino e a quem chamo a minha Santa da Ladeira. Sequelas do Ministério? Dos aborrecimentos que ali se verificaram? Das minhas chatices? Da minha incompetência? Da minha ingenuidade? Ou da minha publicidade? Sim? Não?

Quando recomeçava a viver normalmente, caiu-me em cima a morte do António Luciano. Apesar de ainda muito combalido pois saía do negrume da maleita infame, acompanhei a sua mulher Matilde e a filha Inês, naquilo que me foi possível, do velório da Estrela até aos Prazeres, uma caminhada a pé que nunca mais esquecerei. Ponto final.

Por tudo isto, repito que muito gostaria de ter tido o privilégio e a honra de assistir à Homenagem Universitária de ontem. António Luciano Pacheco de Sousa Franco sempre foi um Professor. O Professor. A Universidade era a sua casa, a par com a residência particular, é óbvio. Por mais funções que tenha desempenhado, ele era um Mestre. E em todas – foi-o.

Um dia, num jantar em Bruxelas, durante um Ecofin, no Chez Leon, juntamente com o Rodolfo Lavrador – um quase filho-amigo… - disse-lhe, corroborando uma afirmação do Sérgio do Cabo, seu ajunto e outro bom amigo, que ele, António Luciano, era um extraordinário político, ainda que o negasse com frequência. Rimo-nos muito.

Na volta a Lisboa, sentado ao seu lado no TAP 347, acrescentei ao que atirara na véspera, frente a uma radiosa travessa de marisco, que ele era o Presidente da República de que Portugal necessitava. Estou a vê-lo. Afivelou aquele seu peculiar sorriso apetencialmente naif mas profundamente irónico: «Henrique Armando: Achas?...» E ficou-se por aí - e eu também. Se não achasse, não lho tinha dito.

Um Abração, Amigo. Vou ali atender gente da Comunicação. Volto já.

terça-feira, janeiro 16, 2007





«GRANDES PORTUGUESES» NA RTP

Salazar e Cunhal entre os dez primeiros

Antunes Ferreira
L
eio e pasmo. Este nosso País é, definitivamente, o exemplo acabado da caixinha das surpresas. Os órgãos de informação, praticamente todos, destacam uma notícia que aqui também se publica. Repito: leio-a e pasmo. O que se calhar é uma incongruência e um disparate. No que toca ao leio, nada a objectar; no concernente ao pasmo – sou uma besta. Neste rectângulo à beira-mar plantado, tudo vai sendo, cada vez mais, possível. E menos motivo de espanto. Pasmar só se for da pasmaceira em que gostamos de viver, releve-se o trocadilho fácil e idiota.

Antes do mais, vamos à notícia, datada de 15 deste mês.

«No programa da RTP 1 «Os Grandes Portugueses», os dez que se destacaram são os políticos Álvaro Cunhal e António de Oliveira Salazar, os reis D. Afonso Henriques e D. João II, os poetas Luís de Camões e Fernando Pessoa, o navegador Vasco da Gama, os estadistas Infante D. Henrique e Marquês de Pombal e o diplomata Aristides de Sousa Mendes.

O programa televisivo, da responsabilidade da jornalista Maria Elisa, começou em Outubro, tendo sido seleccionadas cem das maiores figuras nacionais, das quais foram votadas no domingo as dez consideradas mais importantes.

A votação dos portugueses, por telefone, para escolher a maior figura nacional de entre os dez finalistas começou à meia-noite de domingo e decorrerá até Março. Na próxima terça-feira, a RTP 1 divulgará o nome das dez personalidades públicas que assumirão o papel de defensores dos finalistas.»


Em frente. Perante uma tal constatação, verificaram-se, de imediato, reacções que poderiam ser pouco esperadas, principalmente para quem anda um tanto a leste do paraíso. No entanto, os que, mais atentos ou menos distraídos, vão tentando perceber Portugal e os seus compatriotas indígenas, a «novidade» não o foi, de modo nenhum.

Refiro-me, já o entenderam, ao facto do ditador de Santa Comba Dão figurar nesta elite, talvez pseudo, mas real. E, ainda, à realidade de ser seu compagnon de route, o antigo secretário-geral dos comunistas portugueses. Não há que enganar: nós, portugueses, salvo umas quantas excepções, entre as quais tenho a veleidade de me contar, adoramos o látego.

Não admira, portanto, que os dois políticos mais importantes no grupo do must nacional na História, constem dois defensores e executores de tais métodos. Somos assim, não há volta que se possa dar. Na verdade, se entre nós se pode falar de res publica, a política que os lusos mais adoram é a da cenoura e do chicote. Não quero com isto falar de burros. Mas…

Os restantes elementos que integram o pelotão dos eleitos podiam ser estes ou outros, tantos há. Foram os escolhidos através de votação, o que em si mesmo é bom. A votação, está bem de ver. Permito-me no entanto, um aplauso para o facto de o diplomata Aristides de Sousa Mendes dele fazer parte. O cônsul de Portugal em Bordéus que, durante a II Guerra Mundial salvou milhares de pessoas, principalmente judeus, contrariando as ordens salazarentas.

Palpitante, verdadeiramente palpitante e, até, picante, o facto de entre os «dez mais» estar um verdugo provinciano que desgraçou um diplomata-heroi, e estar este também, o desgraçado. Os eleitores de um terão sido os mesmos que escolheram o outro? Sim? Não? Sei lá. Este doce rincão natal é pródigo em situações abstrusas. Mais uma, menos uma – que é que faz?

Apareceram logo comentários principalmente a propósito do Botas. A maioria dos quais – e são muitos – favoráveis e encomiásticos. E saudosos. Por este andar, ainda descobrimos que ele foi um democrata ab initio e que só a malfadada cadeira o impediu de conceder a independência às suas «províncias ultramarinas». Duvidam? Pois façam o favor de ler o mimo que se segue, da autoria de um Senhor Hélder Sá.


Obviamente… Salazar

Talvez por ter nascido no Séc. XX, talvez por ser uma estudioso da História de Portugal, talvez por saber o que aconteceu de 5 de Outubro de 1910 a 28 de Maio de 1926, talvez por saber que os republicanos nos "enfiaram" na 1ª. Guerra Mundial, talvez por saber que o Prof. Salazar nos livrou da 2ª., talvez por saber que os republicanos de Afonso Costa e sua camarilha (de que o PS se diz herdeiro) deixaram o País na bancarrota, talvez por saber que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, talvez por saber que o Prof. Salazar foi uma pessoa íntegra (ao contrário da gatunagem que tomou de assalto o Poder em 25 de Abril de 1974), talvez por saber que o Prof. Salazar passava as suas férias no Forte de S. Julião da Barra e na sua humilde casa do Vimieiro (Santa Comba Dão), talvez por saber que o Prof. Salazar não soube lidar da melhor maneira com a questão ultramarina (assumindo a sua condição de Homem e não de Deus), por isto é o maior Português de sempre!

Em Portugal, hoje, há liberdade de pensamento e de expressão. Os cidadãos exprimem as suas opiniões sem receio de serem alvo de processos de intenção, de serem presos sem culpa formada, de serem vigiados por um Big Brother, que intramuros se chamou a PIDE/DGS, de serem censurados pari passu.

Isso devia levar a que votassem em consciência e com coerência. Tem dias. O que o Senhor Hélder Sá (que não conheço) escreve pode ser perfeitamente premonitório. Temos todos um ror de dias diante de nós para escolhermos o falecido Presidente do Conselho como a maior figura nacional em mais de oito séculos de História. Ou ele – ou o Senhor Jorge Nuno Pinto da Costa. Ou o Senhor Alberto João Jardim. Tudo democratas da mais fina água. E não nos apressemos. O prazo limite é Março. Ainda dispomos de muito tempo… Depois não venham dizer que não os avisei…

terça-feira, janeiro 02, 2007




Embaixada de Portugal no Brasil – Bravo!!!


Ora aqui temos mais um blogue. Apenas? Há milhões e milhões deles por todo o Mundo. Porquê este anúncio, aliás prazenteiro?

Pois muito bem. Trata-se do blogue da Embaixada de Portugal em Brasília. Que aparece com intenções bem definidas, isto é, destinado a divulgar Portugal no Brasil e, até, o vice-versa. É bonito. É uma bela ideia. É de referir e divulgar. O que faço com todo o prazer e muita satisfação.

Na Embaixada tenho, que eu saiba, três excelentes Amigos. Se mais ali tiver, digam-mo, para me penitenciar da falta cometida, ainda que involuntariamente. O Francisco Seixas da Costa, que não a faz por menos: é o Embaixador e está tudo dito. Um comunicador como ele não se podia quedar apenas pelas funções eminentemente diplomáticas, que são muitas e pesadas. Nada que ele rejeite, muito pelo contrário. O Chefe da Missão Portuguesa em terras de Vera Cruz apadrinhou o blogue. Tenho a certeza.

Depois vem o Adriano Jordão, pianista e meu cúmplice há uma porradaria de anos: desde os bancos do Lyceu Camões, vejam lá. Na altura, ele e o mano tocavam acordeon, como então se dizia. Este careca praticante, alem de ter casado com a Rosinha, irmã de outro meu colega da mesma colheita, o Vieira da Cruz, da Praia do Ribatejo, foi, anos a fio, meu vizinho na Lapa. Para o que um homem está guardado…

Não há dois sem três: o Carlos Fino. Jornalista com caixa alta, que o mesmo é dizer dos óptimos. Dá-se ao luxo de falar russo, esteve anos a fio na então União Soviética e outras paixões russas. Daí ter sido, inclusive, o intérprete do então PR, um tal Mário Soares na visita deste à URSS com os pés prá cova. O Carlos é mesmo fino. Desde a política internacional até às questões comunitário/europeias – é um alho.

Não admira, pois, que este blogue seja como a pescada ou o vestido: antes de o ser, já o era. Muitos menos pasma que seja excelente: com estes ingredientes e com tais cozinheiros, nem a Maria de Lurdes Modesto, nem o Pantagruel, nem a Enciclopédia Gastronómica. Petisco informático assim, benza-o deus. Qual quê? Banquete, meninos, banquete.

Não é que os meliantes seus autores disso necessitem. Alem de serem isso mesmo, têm como agravante a clássica recidiva. São reincidentes. São contumazes – sem Tomaz. Livra! Abrenúncio, t’esconjuro, mafarrico!

Dito isto, só tenho que apresentar a Suas Insolências e naturalmente ao blogue supracitado os meus parabéns e os desejos de uma vida longa ao serviço dos ideais e das ideias que os norteiam. Aos três, que afinal são quatro, tal como os do Monsiu Alexandre Dumas, os meus agradecimentos. Qualidade, não lhes falta. A.F.

sábado, dezembro 30, 2006



O FZ especial “Turra”

José Augusto Sacadura
Foi por esta altura... Foi entre o Natal e a passagem do ano, nos finais de 1968, e todas as unidades militares estacionadas em África encontravam-se em prevenção especial, tal como nas Instalações Navais da Ilha do Cabo – as INIC – em Luanda, onde eu prestava serviço militar como 2.º Tenente da Reserva Naval. Para além do oficial de dia, havia dois outros oficiais a assegurar os turnos da noite e coubera-me a mim o segundo “quarto” (das 4 às 8 da manha), substituindo o 1º Tenente J. a quem fora destinado o primeiro turno da noite.

Às três da manha acordei com o despertador, lavei-me, vesti a farda, coloquei o cinturão com a pistola – obrigatória em situações de prevenção como aquela – e saí para a Base com a qual a Messe comunicava directamente. Da Messe ao portão de entrada da Base onde ficavam as instalações do oficial de dia eram menos de dez minutos a pé e assim apresentei-me para receber o serviço cerca de um quarto de hora antes das quatro.

O Tenente J. disse-me então, estranhamente sorridente, que me deixava um berbicacho dos diabos .... E explicou-me: cerca de duas ou três horas antes o Sargento de serviço viera dizer-lhe que um fuzileiro, recém-chegado do Leste, bêbado ou fora de si, não queria esperar pela hora normal de abertura do portão (o que, em períodos de prevenção especial apenas acontecia de meia em meia hora) e estava a bater furiosamente às grades de entrada.

Tratava-se do Cabo FZ especial de alcunha “O Turra”, ganha em anteriores comissões de serviço designadamente na Guiné onde ficara conhecido como o “Terror dos Turras”. Na lenda da guerra atribuíam-se-lhe, não sei se com verdade, gestos de grande coragem a par de actos desmedidos de autêntica crueldade. Era conhecido como um típico profissional da guerra: tão experiente e destemido quanto desapiedado e excessivo.



Tendo concluído recentemente uma comissão na Guiné, oferecera-se como voluntário para Angola. Colocado no Leste, passara por situações de grande risco e enorme desgaste psicológico, pelo que, “cacimbado”, tinha sido evacuado para Luanda para tratamento no Hospital Militar. Chegara nesse próprio dia e estivera a “celebrar” com amigos o regresso à cidade.

Emboscadas e prisão

Aberto o portão, o Tenente J. chamou-o e, apesar do estado em que ele se encontrava, conversaram ainda durante alguns minutos até que o oficial lhe ordenou que se fosse deitar. Só que, em vez disso, o “Turra” deve ter achado que a Base se tinha transformado num campo de operações, pelo que desatou a fazer emboscadas sucessivas, aparecendo e desaparecendo entre a vegetação que ladeava o acesso ao interior das INIC, ora se afastando, ora voltando a aproximar-se da entrada.

O oficial chamou-o então e ordenou-lhe que se retirasse de vez para a caserna, ameaçando-o com a prisão se não obedecesse imediatamente. Ora, o Tenente J. era um homem inteligente, culto, bom conversador, na boa tradição da Marinha, com imenso sentido do humor, mas com alguns traços de um espírito militarista, muito especialmente no que à disciplina dizia respeito.

Assim, quando voltou a ver o “Turra” emboscado em frente do seu Gabinete, não se conteve, chamou o Sargento de turno e ordenou-lhe que, com duas praças, desse voz de prisão ao fuzileiro. Cumprindo a ordem, ladearam o “Turra” e levaram-no para o que, na Base, à falta de outra coisa, se qualificava pomposamente como “prisão” – um quarto sem quaisquer condições de segurança, a porta de acesso com uma fechadura rudimentar e, lá dentro, a armação despida de um beliche metálico.

Lá chegados, o “Turra”, que parecia já relativamente calmo, terá pedido que não o fechassem à chave. Todavia, o Sargento entendeu cumprir à letra a ordem recebida, fechou mesmo a porta à chave e deixou as duas praças a fazer a segurança à porta da prisão. Acto contínuo, toda a Base ouvia os berros do “Turra” que, fora de si, gritava: “O Salazar não tem culpa” e “Estes filhos da puta vão mas é acabar todos mortos”!!!

Contactado pelo Tenente J., disposto a medidas drásticas para acabar com o “festival”, um dos médicos de serviço ao Hospital Militar prescreveu um calmante forte, em dose dupla, a injectar ao preso. Tarefa árdua que mobilizou quatros homens só para o segurarem, além do enfermeiro que comentou que “nem um cavalo ia continuar acordado depois de levar uma dose daquelas”. E, na verdade, durante alguns minutos, houve paz ...


Onde está o filho da puta?

Mas as tréguas foram de curta duração. Dali a pouco, e se possível ainda com maior intensidade, recomeçaram a ouvir-se os berros e as ameaças do detido. Foi com esse som de fundo que o Tenente J. me passou o serviço, desejando-me “as melhores felicidades”... (!?)


Quase de imediato, o sargento de serviço veio dizer-me que o “Turra”, depois de arrombada a porta, lograra fugir da prisão, dera dois empurrões nos marinheiros postados à entrada, fora à caserna buscar a sua G3 e dirigia-se armado a caminho do meu gabinete. Fiquei à espera do evoluir dos acontecimentos ... e não esperei muito.

Mal me sentara à secretária, vejo o “Turra” aparecer à janela, sem vidro, dispondo apenas de rede-mosquiteiro, que ficava metro e meio à minha direita. Só nessa altura o conheci. Vinha de tronco nu com a G3 pendente. Não era alto, mas era muito musculado, peito tisnado pelo Sol e uma farta barba preta que contava largos meses de campanha. O todo era manifestamente agressivo, o olhar frio e determinado. Os fumos do álcool pareciam ter desaparecido.

Olhou-me, atónito, e perguntou: “Onde está o filho da puta do oficial de dia?” Respondi-lhe que o oficial de dia estava a dormir no quarto ao lado e, percebendo a razão da sua perplexidade, disse-lhe que o ia chamar. Fui, por isso, acordar o Engenheiro T., que dormia o sono dos justos. Levantou-se estremunhado, vestiu, sobre as cuecas, a camisa com os galões de Capitão-tenente maquinista naval, enquanto, num minuto, eu tentava explicar-lhe o essencial da situação.

Voltei ao gabinete, seguido pelo Eng.º T., oficial, já então, com o cabelo todo branco. A estupefacção do fuzileiro aumentou. Tinha na sua frente dois oficiais bem diferentes daquele que lhe dera voz de prisão. Encarando-me, perguntou novamente: “Onde está o filho da puta do oficial de dia que me mandou prender?” Respondi-lhe que o oficial de dia era o Comandante Tomás e que eu estava a fazer o meu turno de serviço.

O fuzileiro ainda proferiu mais duas ou três ameaças, mas, visivelmente, a convicção e a fúria interior iam diminuindo. Disse-lhe então, pausadamente, que não fizesse mais disparates e que me entregasse a arma. Vendo-o hesitar, dirigi-me para a porta, abri-a, saí e encontrei-me com ele, de G3 sempre pendente, à esquina do gabinete. Ainda hesitou um pouco, murmurou algo que não entendi e, muito lentamente, levantou a arma e entregou-ma. Verifiquei depois que tinha uma munição na câmara.

Recolheu à cadeia militar na cidade, onde ficou sob prisão. No dia seguinte, questionado por um fuzileiro amigo, que lhe perguntou o que teria feito se tivesse dado de caras com o oficial que o mandara prender, ainda respondeu: “Enfiava-lhe uma rajada entre os cornos”! Redigindo a ocorrência no Livro do Oficial de Dia, reflecti, fazendo o balanço do ano que findava, que o tempo não passa nunca sem deixar rasto. Desse ano ficara-me pelo menos uma hora de sorte e uma história para contar.

O “Turra” foi evacuado para a Metrópole e nunca mais soube o que foi feito dele.

segunda-feira, dezembro 25, 2006




NA GUERRA

A neve e o algodão

Antunes Ferreira
O algodão, branco e macio, provinha de um penso individual do combatente, uma espécie de como quem diz mas não exactamente, como regouga o Fogaças, de Freixo de Espada à Cinta, apontador de morteiro nas horas vagas. Faz uma caloraça do catano. Olha lá ó Gomes, desfia essa merda a preceito, a neve é mais farrapinhos do que novelos graúdos, onde é que já se viu coisa assim, amaçarocada.

O Gomes sou eu, Manuel da Silva Gomes, natural de Moncorvo, mais precisamente de Cabeça Boa, 23 primaveras, solteiro, morador na Travessa do Infante, 34, 2.º Esquerdo, ali à Madragoa, desde os dez anos de idade, data em que os meus pais deixaram Trás-os-Montes para se sedearem em Lisboa. Por isso, já mal se nota o que antes xe notava. Soldado atirador da Companhia de Caçadores 1874.

O nosso alferes manda-me estar atento às nuvens fofas que vou espalhando por ramo de embondeiro, árvore garrafa, gigante meio alapado meio alevantado na chana de capim que antecede a floresta já próxima. O braço vegetal estronquei-o eu próprio e afeiçoei-lhe a folhagem, tentando fazer dele árvore de Natal. Em vão. Qualquer semelhança com abeto ou mesmo pinheiro bravo nem chegava a ser pura coincidência. Não é nada.

Mas ali, na mata, é tarefa impossível encontrar verdura nórdica, sem folha, só caruma. Entre Ucua e Nambo, venha o diabo e escolha, picada filha da puta, de tal forma plantada de armadilhas que lhe chamam minas gerais. Não tem piada nenhuma, o gajo que lhe deitou a alcunha já foi, explodiu-lhe uma debaixo da sola da bota, escapou o cantil metálico sem grandes amolgadelas.

O oficial, milicianíssimo, pouco mais velho do que eu será. É dos Açores, estudava em Coimbra, ficou-se pelo terceiro ano de Medicina, apanharam-no para infante que é do que eles mais precisam e o camuflado assenta-lhe mal, de banda como o Miranda, diz ele, que nem é grandalhão nem meia-leca, não se sabe porquê a farda dança-lhe no corpo afeito a traje civil.

Padre é que não

Carlos Rodrigues, Carlos Manuel Ribeiro Rodrigues, da Ribeira Brava, São Miguel, a família queria que fosse padre, ele não, porra!, pirara-se para a cidade do Choupal, mandara o hipotético seminário às urtigas, instalado numa república e com companhia nocturna e aconchegada, dera por ele embrulhado numa semi clandestinidade da extrema esquerda política, a coberto do manto amplo e abrangente da Oposição.

Donde o nome por que era conhecido o quartel – Novo Basófias, em homenagem, aliás justa e sincera, ao Mondego em que a Cabra da Torre da Universidade se reflectia, quando levava água. Está claro que a denominação tinha carácter medianamente secreto, não chegava ao Confidencial dos Perintreps militares. Nem valia a pena, que se lixassem as normas de segurança, com elas o aquartelamento podia bem.

Até tinha perímetro o raio da estância de cinco estrelas. Marcado a arame farpado, está bem de ver, que o local não era para parvoíces, para além das minas traiçoeiras fervia por ali chumbo, queimava metralha, acendia-se por cima um sol de torradeira, calor húmido, carregado de mosquitos junto ao rio que passava ali ao lado, rio a bem dizer uma merda, meio riacho meio empertigado, impostor aquoso, nem um jacaré cabia nele.

Eram as primeiras festas que ali passava a malta predominantemente transmontana, se não fosse quase toda. Mobilizados por Chaves, traziam com eles às costas de cada um e de todos as saudades, as tradições, os hábitos e a neve. Transplantados para Angola, a farda a pesar na vida, faltava-lhes qualquer destas alíneas, os madeiros, as castanhas, as alheiras e, sobretudo, a neve.

O alferes Rodrigues tivera a ideia. Se não havia neve – inventava-se. Em Coimbra e em Faro e na Ribeira Brava também não caía ela e nem por isso deixava de ser Natal. Já tinham aparecido, aliás, sepreis de flocos enlatados, era só carregar na cabeça de plástico da lata e chhhhhhhh, saía uma semeadela nevada que se agarrava aos ramos.

A necessidade e o engenho

Mas ali, entre o Ucua e Nambo, não havia sepreis para ninguém para bufar neve artificial e peganhenta. Não tem problema. Anos e anos se utilizara o algodão esfiapado, ainda os japoneses não se tinham lembrado da espuma de plástico, e era um vê-se-te-avias. Portanto, e como a necessidade aguça o engenho, avante com o algodão. O Malaquias, cabo enfermeiro, fora à farmácia da unidade e voltara sem algodão.

Acabou-se meu alferes. Anteontem, quando tivemos aquela malta que apanhou com uma emboscada pelos cornos, salvo seja. Gaze temos, pouca, mas temos; mas neve de gaze… E o jovem comandante, sem desarmar nem desmobilizar, não tens pensos individuais do combatente? Tem. Tem e têm algodão nos pachos. O Gomes que é jeitoso de mãos encarrega-se disso.

Desengomo-me. E enquanto vou espalhando a neve nos ramos e folhedo, lembro-me perfeitamente que fora a instrução que o sorja Fonseca dera sobre o penso individual do combatente. É, basicamente, uma ligadura que tem mais ou menos a meio dois pachos de algodão com sulfamidas, um tanto afastados. Um camarada leva um tiro numa gâmbia, prisemplo, o penso serve de garrote e desinfecta o buraco da bala, até ver.

Se o projéctil saiu pelo outro lado do presunto do militar, o primeiro pacho fica em cima do buraco de entrada e o segundo em cima do orifício de saída. Aperta-se e já está. Perceberam, todos. Não era uma pergunta, era uma afirmação. O Moinhos, de levantara o braço. Diz lá, ó rapaz. E se o tiro tiver sido no meio da testa. Bota-se-lhe o penso. E se a bala tiver saído pela nuca. Penso com pacho duplo. Aí está. Tudo se resolve. Tudo resolvido.

As gargalhadas foram tantas e os decibéis tão elevados que acabou ali mesmo a instrução. E viva o penso individual do combatente. E viva a saúde. Deixo-me rir, de novo e agora. A malta sabe porquê, o nosso alferes também. Por onde andará o sorja? Quero lá saber, que se foda, além de parvo era estúpido. Nem percebera que estava ser gozado e acabara a «lição» porque a gajada fazia um chiqueiro de criar bicho, não por se ter dado conta da enormidade que dissera.

O ramo natalício

O ramo natalício vai amanhando-se. Em vez de estrelas doiradas penduro-lhe uns cartuchos vazios, puxados a lustro, parecem oiro. Mais umas latinhas de Dolca que o Fagundes pintou de vermelho e azul, prateado não há, não faz mal, é Natal. Foi Natal e só hoje, um dia depois, estou a inventar esta árvore, com umas lâmpadas à mistura, contributo do Fagundes que, alem de condutor e pintor, também dá umas de electricista. Quem não tem cão, caça com gato.

O Capote de Vinhais desenhou um presépio numa caixa de rações de combate, na frente tem impresso Produzido e Embalado na Manutenção Militar, mas, nas costas, foi possível o desenrascanso do camarada. O gajo tem mão, o Menino está rechonchudinho, o São José – há quem diga que foi o primeiro enganado reconhecido pelos Evangelhos – passa muito bem, a vaca e o burro, a preceito, só a Senhora é que atira um bocado para não sei bem o quê. Não se pode ter tudo.

De qualquer forma é um presépio. O padre Santana, o prior da nossa freguesia, tinha, teve, sempre, um ódio de estimação aos jesuítas. Para ele, o único que se safava era o António Vieira dos Sermões e dos Brasis. Os restantes, uma cáfila. Contava, a propósito, quando se fazia o presépio gigante no adro da igreja, uma estória que, apesar de repetida anos a fio, punha o pessoal sempre bem disposto.

A companhia de Jesus


Quando os reis magos chegaram junto das palhinhas da manjedoura, olharam para um dos lados e viram uma vaca ruminando; viraram-se para o outro e lá estava um asno, teimosamente absorto. E enquanto se ajoelhavam perante o recém-nascido, iam cochichando entre eles. Nisto, um pastor com uma ovelha aos ombros também mirou a cena. E voltando-se para os três monarcas disse, abarcando as duas alimárias: e é isto a companhia de Jesus. Inácio não deve ter gostado.


Ontem, os gajos comemoraram a data à maneira deles. Um arraial de porrada. Uma secção que fora à água, lá em baixo, no rio, quando enchia as vasilhas fora fogachada quase à queima-roupa. Uma desgraça. Mais a mais no dia 25, em pleno dia 25. Mal ouvimos a metralha e os estampidos, saímos à desfilada, em busca dos gritos cada vez mais próximos.

Uma bazucada tremenda, ali mesmo à nossa frente, por baixo dos nossos bigodes. Insultos à mistura com os vai meter o Natal no teu cu na tua terra, sacana di merda. Os nossos mal se ouviam, quase só gemidos e ais. Os cabrões ainda tentaram atacar-nos de flanco, mas, naquela altura, não havia quem nos segurasse, quanto mais nos dobrasse. Pelos rastos que ficaram pelo chão e pelos ramos partidos, levaram muito para contar.



Nós contámos: cinco mortos e dois feridos graves, uma perna a menos, parecia que eu tinha entrado no matadouro municipal de Torre de Moncorvo, tanto era o sangue e as vísceras e os ossos e o resto. Filhos duma grandessíssima carrada de putas. Logo no dia de Natal. E antes do almoço, em que se iria comer o bacalhau, porque à noite da Consoada não dava por ali. Eram muitas luzes, muitos alvos.

O que vale, diz o alferes Rodrigues, é que os paneleiros não atacam dois dias seguidos. Empanturraram-se de mortos e agora estão a fazer a digestão. Se os apanhasse agora mesmo, comia-os a sangue frio, depois de os capar, tá visto. Assim, vamos comer o bacalhau e depois enterramo-los. O padre capelão não virá por mor das minas, mas a gente safa-se.

Termino a minha, a nossa árvore de Natal. O Jaquim cozinheiro berra de lá que o almoço está pronto. Por incrível que pareça, cheira a Natal. Até a neve algodoada parece rebrilhar, mais neve do que a neve verdadeira, e os sinos, invisíveis embora, repicam na nossa memória desterrada. As luminárias inventadas pelo Fagundes piscam a vermelho, isto é, encarnado, e azul. Noutro cartão o Capote aprimorara-se e escrevera Boas Festas, com uma estrela de cauda à maneira de cometa.

É a última coisa de que me lembro. Do resto – nada mais. Acordo, não vejo nada, dizem-me depois que estou no hospital de Luanda. Ó pá, diz-me uma voz sem rosto, tens de te habituar. Podia ter sido pior para ti. Estás cego – mas estás vivo. E os outros? E o nosso alferes? E o Fagundes?

Os tipos tinham quebrado as regras: haviam voltado a atacar - no dia seguinte. Duas bazucas e dois morteiros. Palavra de honra de que nunca mais dou as Boas (?) Festas (?). Juro.

sexta-feira, dezembro 22, 2006



Uma morte adiada


Antunes Ferreira
L
eio e quase não acredito. O Mundo está, definitivamente, roto. Pode lá ser. Cristina Nabona, a ministra do Ambiente do Governo Zapatero, afirmou que os touros de morte deverão ser eliminados, citando como exemplo o caso português. A Espanha esfregou os olhos, acordando para a «infausta ideia». Ou, pelo menos, uma larga parte do país vizinho.

Pode dizer-se até, creio, uma larguíssima parte. Os touros de morte são um emblema espanhol. As fotos de Ernest Hemingway na barreira de muitas praças, e, sobretudo o seu «Verão Perigoso», publicado em 1932, dão um retrato fiel de um defensor da execução do cornúpeto nas arenas. E ele próprio o diz, baseado na sua experiência como jornalista, que o homem não é vencido; os touros sim, na praça.



Espanhol que se preze é aficionado. Corrida sin estocada, no es nada, dizem os sevilhanos. Um bom Amigo, Paço Ramírez, ele também escrevinhador, afirmou-me um dia em que nos encontrámos num bar próximo de Las Ventas, de onde ele chegava, que tinha tido um dia espanhol. Mira muchacho que estamos en España – disse-lhe perante o pleonasmo aparente. Ele soltou uma gargalhada e explicou-me.

Al desayuno me he comido una tortilla de repimpa; al almuerzo una paella, de primero, y cordero asado, de segundo, com un Rioja viejo, dos copas de Cardenal Mendoza y un puro gordo. Las Ventas: cinco orejas y tres rabos, salida en hombros por la puerta mayor. ¡Eso sí, que es España!

Pode louvar-se a excelente intenção da ministra. Pode aceitar-se que ela cite, inclusive, o exemplo português, ainda que Barrancos – supostamente ilegal - atraia quantidades de aficionados sedentos de sangue. Pode entender-se que Bruxelas pouco percebe das diversas europas que fazem a Europa. Pode, também e assim, interpretar-se este anúncio como uma ideia morta à nascença, ou, pelo menos, uma morte adiada…

Mas já não se pode prever em que dará este pré-aviso governamental. O PSOE já reagiu de forma negativa; o PP deve estar a ruminar no comentário que deve fazer sobre um tema eminentemente nacionalista. As outras forças políticas adivinha-se, com alguma facilidade, o que irão dizer – se é que o não disseram já. E já o fizeram, arvorando a governante em bombo da festa.

Cristina Nabona tem de olhar atentamente para o Don Quijote, até mesmo para o Sancho Panza. Não é que o não tenha feito já, porque a obra é também uma bandeira de Espanha. Mas terá de entender que uma coisa é lutar contra moinhos de vento, outra, bem diferente, é «ameaçar» com a extinção dos touros de morte. Nesse hipotético caso, até o Manolete sairia do túmulo e do museu para lhe dizer – ¡no pasaran! Tus ideas y tus intenciones….


Aqui se regista resumidamente o que as agências transmitiram e muitos órgãos publicaram. As notícias. Sem meias tintas. O comentário ficou atrás.



Touros de morte
Ministra espanhola quer seguir
exemplo português

A ministra do Ambiente espanhola deu início a uma campanha para proibir os touros de morte. Cristina Narbona cita a legislação portuguesa para propor que, no fim da lide, os touros sejam retirados da arena e mortos longe do público.

A possibilidade de seguir o exemplo das touradas portuguesas foi sugerida Cristina Narbona, durante um jantar com a imprensa. A ministra disse que tem o dever de tentar mudar a lei. As reacções multiplicaram-se desde então, com os ecologistas a favor e os proprietários das ganadarias contra.

Em vez da morte do touro em plena arena, provocada pelo golpe do estoque do toureiro, a ministra Cristina Narbona sugeriu que os animais fossem retirados de cena e mortos de forma mais digna. «Temos que, pelo menos, tentar evitar o fim sangrento do touro», afirmou Narbona falando ao El Mundo, e reconhecendo que uma mudança deste calibre terá de ser implementada suavemente. «Talvez no próximo parlamento», acrescentou.


Os políticos espanhóis já começaram a pronunciar-se em desfavor da ministra. José Blanco, líder do PSOE, declarou-se um «aficionado visual» das touradas e afirmou que o final dos touros de morte não faz parte da agenda política do partido. Dos restantes partidos, apenas o catalão ERC apoiou a ideia de Narbona, dando-lhes as «boas vindas ao clube anti-taurino». Barcelona foi a única cidade a falar contra as touradas, durante uma assembleia em 2004. Recorde-se que as touradas têm sido objecto de acesa discussão no Parlamento Europeu, dado que violam os direitos dos animais, mas até agora não houve nenhuma ordem no sentido da sua proibição.


quinta-feira, dezembro 21, 2006



Um brasileiro e Portugal
Uma nota (?) e uma resposta


Enviado por Ricardo Charters de Azevedo
Há dias, um aprendiz de jornalista brasileiro de Porto Alegre, de seu nome Polibio Braga, publicou a seguinte nota no espaço que possui na Internet, o www.polibiobraga.com.br, cujo texto e título originais de seguida se reproduzem.

Portugal não merece ser visitada
e os portugueses não merecem
nosso reconhecimento


Há apenas uma semana, em apenas quatro anos, o editor desta página visitou pela quinta vez Lisboa, arrependendo-se pela quarta vez de ter feito isto. Portugal não merece ser visitada e os portugueses não merecem nosso reconhecimento. É como visitar a casa de um parente malquisto, invejoso e mal educado. Na sexta e no sábado, dias 24 e 25, Portugal submergiu diante de um dilúvio e mais uma vez mostrou suas mazelas. O País real ficou diante de todos. Portugal é bonito por fora e podre por dentro. O dinheiro que a União Européia alcançou generosamente para que os portugueses saíssem do buraco e alcançassem seus sócios, foi desperdiçado em obras desnecessárias ou suntuosas. Hoje, existe obra demais e dinheiro de menos. O pior de tudo é que foi essa gente que descobriu e colonizou o Brasil. É impossível saber se o pior para os brasileiros foi a herança maldita portuguesa ou a herança maldita católica. Talvez as duas .

Cure-se!

A nota mereceu a resposta do nosso Embaixador no País Irmão que também se edita abaixo. Leia-se e tirem-se as conclusões que cada um melhor entender. Boas Festas e Feliz Ano Novo.





Brasília, 8 de Dezembro de 2006

Senhor Políbio Braga

Um cidadão brasileiro, que faz o favor de ser meu amigo, teve a gentileza de me dar a conhecer uma nota que publicou no seu site, na qual comentava aspectos relativos à sua mais recente visita a Portugal. Trata-se de um texto muito interessante, pelo facto de nele ter a apreciável franqueza de afirmar, com todas as letras, o que pensa de Portugal e dos portugueses. O modo elegante como o faz confere-lhe, aliás, uma singular dignidade literária e até estilística. Mas porque se limita apenas a uma abordagem em linhas muito breves, embora densas e ricas de pensamento, tenho que confessar-lhe que o seu texto fica-nos a saber a pouco. Seria muito curioso se pudesse vir a aprofundar, com maior detalhe, essa sua aberta acrimónia selectiva contra nós.

Por isso lhe pergunto: não tem intenção de nos brindar com um artigo mais longo, do género de ensaio didáctico, onde possa dar-se ao cuidado de explanar, com minúcia e profundidade, sobre o que entende ser a listagem de todas as nossas perfídias históricas, das nossas invejazinhas enraizadas, dos inumeráveis defeitos que a sua considerável experiência com a triste realidade lusa lhe deu oportunidade de decantar? Seria um texto onde, por exemplo, poderia deter-se numa temática que, como sabe, é comum a uma conhecida escola de pensamento, que julgo também partilhar: a de que nos caberá, pela imensidão dos tempos, a inapelável culpa histórica no que toca aos resquícios de corrupção, aos vícios de compadrio e nepotismo (veja-se, desde logo, a última parte da Carta de Pêro Vaz de Caminha), que aqui foram instilados, qual vírus crónico, para o qual, nem os cerca de dois séculos, que se sucederam ao regresso da maléfica Corte à fonte geográfica de todos os males, conseguiram ainda erradicar por completo.

Permita-me, contudo, uma perplexidade: porquê essa sua insistência e obcecação em visitar um país que tanto lhe desagrada? Pela quinta vez, num espaço de quatro anos ? Terá que reconhecer que parece haver algo de inexoravelmente masoquista nessa sua insistente peregrinação pela terra de um "parente malquisto, invejoso e mal educado". Ainda pensei que pudesse ser a Fé em Nossa Senhora de Fátima o motivo sentimental dessa rotina, como sabe comum a muitos cidadãos brasileiros, mas o final do seu texto, ao referir-se à "herança maldita católica", afasta tal hipótese e remete-o para outras eventuais devoções alternativas.

Gostava que soubesse que reconheço e aceito, em absoluto, o seu pleníssimo direito de pensar tão mal de nós, de rejeitar a "herança maldita portuguesa" (na qual, por acaso, se inscreve a Língua que utiliza). Com isso, pode crer, ajuda muito um país, que aliás concede ser "bonito por fora" (valha-nos isso !), a ter a oportunidade de olhar severamente para dentro de si próprio, através da arguta perspectiva crítica de um visitante crónico, quiçá relutante.

E porque razão lhe reconheço esse direito? Porque, de forma egoísta, eu também quero usufruir da possibilidade de viajar, cada vez mais, pelo maravilhoso país que é o Brasil, de admirar esta terra, as suas gentes, na sua diversidade e na riqueza da sua cultura (de múltiplas origens, eu sei). Só que, ao contrário de si, eu tenho a sorte de gostar de andar por onde ando e você tem o lamentável azar de se passear com insistência (vá-se lá saber porquê!), pela triste terra dessa "gente que descobriu e colonizou o Brasil". Em má hora, claro!

Da próxima vez que se deslocar a Portugal (porque já vi que é um vício de que não se liberta) espero que possa usufruir de um tempo melhor, sem chuvas e sem um "dilúvio" como o que agora tanto o afectou. E, se acaso se constipou ou engripou com o clima, uma coisa quero desejar-lhe, com a maior sinceridade: cure-se!

Com a retribuída cordialidade
do
Francisco Seixas da Costa
Embaixador de Portugal no Brasil

NR - Ora bem. Neste singular caso conjugam-se muitos verbos e propõem-se muitas questões. Antes do mais, registo, quem me enviou o mail que aqui se transcreve foi o meu Amigo Ricardo Charters de Azevedo, que me presenteia quotidianamente com coisas excelentíssimas/informáticas. Donde, e antes do mais, um abração e o muito obrigado devido. Pela minha parte continuarei a fazer o mesmo na volta do correio – até que o Ricardo me proíba de tal. Mas, mesmo putos, no Bairro do Restelo e em casa dos seus primos Câmara de Oliveira, nunca nos pegámos. Não seria agora.
Depois, a carta do Embaixador de Portugal no Brasil é da autoria de um outro magnífico Amigo, o Francisco Seixas da Costa. Alia ao facto de ser um diplomata de alto nível, o escrever muitíssimo bem, característica que, ao longo de anos, muitos e muitos leitores puderam comprovar. Oficial, portanto, do mesmo ofício, isto é e lidas comuns no domínio dos textos.

Passámos momentos inesquecíveis aquando de Conselhos Europeus diversos. Ele como Secretário de Estado para os Assuntos Europeus, eu como Assessor de António de Sousa Franco, outro Amigo de particular estatura, ao tempo Ministro das Finanças. As madrugadas em que se reunia um grupo de portugas para se aplainar as versões das conclusões dessas reuniões magnas da UE, terminaram normalmente em confraternização à roda do café da manhã.

E nos intervalos de reuniões cansativas e prolongadas (que, por vezes, empenhavam gente e meios… para não dar nada), ficávamos na cavaqueira, vendo as horas escorrerem-nos por entre os dedos, numa ampulheta vencedora do tédio. Bons garfos e melhores copos, à mistura com posições políticas afinadas pelo mesmo diapasão fizeram o resto.


A carta do Embaixador Seixas da Costa é um mimo. Aliás, porquê qualquer esboço de interrogação? O Chico a redigir está nas suas sete quintas. Quer o Ricardo quer ele são merecedores da admiração e estima que me ligam a eles. Estarem, agora, presentes no meu blog – é uma enorme honra. De tão babado, nem um toalhão de banho me safava, quanto mais um babete de trazer por casa. A.F.