
NA GUERRA
A neve e o algodão
Antunes Ferreira
O algodão, branco e macio, provinha de um penso individual do combatente, uma espécie de como quem diz mas não exactamente, como regouga o Fogaças, de Freixo de Espada à Cinta, apontador de morteiro nas horas vagas. Faz uma caloraça do catano. Olha lá ó Gomes, desfia essa merda a preceito, a neve é mais farrapinhos do que novelos graúdos, onde é que já se viu coisa assim, amaçarocada.
O Gomes sou eu, Manuel da Silva Gomes, natural de Moncorvo, mais precisamente de Cabeça Boa, 23 primaveras, solteiro, morador na Travessa do Infante, 34, 2.º Esquerdo, ali à Madragoa, desde os dez anos de idade, data em que os meus pais deixaram Trás-os-Montes para se sedearem em Lisboa. Por isso, já mal se nota o que antes xe notava. Soldado atirador da Companhia de Caçadores 1874.
O nosso alferes manda-me estar atento às nuvens fofas que vou espalhando por ramo de embondeiro, árvore garrafa, gigante meio alapado meio alevantado na chana de capim que antecede a floresta já próxima. O braço vegetal estronquei-o eu próprio e afeiçoei-lhe a folhagem, tentando fazer dele árvore de Natal. Em vão. Qualquer semelhança com abeto ou mesmo pinheiro bravo nem chegava a ser pura coincidência. Não é nada.
Mas ali, na mata, é tarefa impossível encontrar verdura nórdica, sem folha, só caruma. Entre Ucua e Nambo, venha o diabo e escolha, picada filha da puta, de tal forma plantada de armadilhas que lhe chamam minas gerais. Não tem piada nenhuma, o gajo que lhe deitou a alcunha já foi, explodiu-lhe uma debaixo da sola da bota, escapou o cantil metálico sem grandes amolgadelas.
O oficial, milicianíssimo, pouco mais velho do que eu será. É dos Açores, estudava em Coimbra, ficou-se pelo terceiro ano de Medicina, apanharam-no para infante que é do que eles mais precisam e o camuflado assenta-lhe mal, de banda como o Miranda, diz ele, que nem é grandalhão nem meia-leca, não se sabe porquê a farda dança-lhe no corpo afeito a traje civil.
Padre é que não
Carlos Rodrigues, Carlos Manuel Ribeiro Rodrigues, da Ribeira Brava, São Miguel, a família queria que fosse padre, ele não, porra!, pirara-se para a cidade do Choupal, mandara o hipotético seminário às urtigas, instalado numa república e com companhia nocturna e aconchegada, dera por ele embrulhado numa semi clandestinidade da extrema esquerda política, a coberto do manto amplo e abrangente da Oposição.

Donde o nome por que era conhecido o quartel – Novo Basófias, em homenagem, aliás justa e sincera, ao Mondego em que a Cabra da Torre da Universidade se reflectia, quando levava água. Está claro que a denominação tinha carácter medianamente secreto, não chegava ao Confidencial dos Perintreps militares. Nem valia a pena, que se lixassem as normas de segurança, com elas o aquartelamento podia bem.
Até tinha perímetro o raio da estância de cinco estrelas. Marcado a arame farpado, está bem de ver, que o local não era para parvoíces, para além das minas traiçoeiras fervia por ali chumbo, queimava metralha, acendia-se por cima um sol de torradeira, calor húmido, carregado de mosquitos junto ao rio que passava ali ao lado, rio a bem dizer uma merda, meio riacho meio empertigado, impostor aquoso, nem um jacaré cabia nele.
Eram as primeiras festas que ali passava a malta predominantemente transmontana, se não fosse quase toda. Mobilizados por Chaves, traziam com eles às costas de cada um e de todos as saudades, as tradições, os hábitos e a neve. Transplantados para Angola, a farda a pesar na vida, faltava-lhes qualquer destas alíneas, os madeiros, as castanhas, as alheiras e, sobretudo, a neve.
O alferes Rodrigues tivera a ideia. Se não havia neve – inventava-se. Em Coimbra e em Faro e na Ribeira Brava também não caía ela e nem por isso deixava de ser Natal. Já tinham aparecido, aliás, sepreis de flocos enlatados, era só carregar na cabeça de plástico da lata e chhhhhhhh, saía uma semeadela nevada que se agarrava aos ramos.
A necessidade e o engenho
Mas ali, entre o Ucua e Nambo, não havia sepreis para ninguém para bufar neve artificial e peganhenta. Não tem problema. Anos e anos se utilizara o algodão esfiapado, ainda os japoneses não se tinham lembrado da espuma de plástico, e era um vê-se-te-avias. Portanto, e como a necessidade aguça o engenho, avante com o algodão. O Malaquias, cabo enfermeiro, fora à farmácia da unidade e voltara sem algodão.
Acabou-se meu alferes. Anteontem, quando tivemos aquela malta que apanhou com uma emboscada pelos cornos, salvo seja. Gaze temos, pouca, mas temos; mas neve de gaze… E o jovem comandante, sem desarmar nem desmobilizar, não tens pensos individuais do combatente? Tem. Tem e têm algodão nos pachos. O Gomes que é jeitoso de mãos encarrega-se disso.
Desengomo-me. E enquanto vou espalhando a neve nos ramos e folhedo, lembro-me perfeitamente que fora a instrução que o sorja Fonseca dera sobre o penso individual do combatente. É, basicamente, uma ligadura que tem mais ou menos a meio dois pachos de algodão com sulfamidas, um tanto afastados. Um camarada leva um tiro numa gâmbia, prisemplo, o penso serve de garrote e desinfecta o buraco da bala, até ver.
Se o projéctil saiu pelo outro lado do presunto do militar, o primeiro pacho fica em cima do buraco de entrada e o segundo em cima do orifício de saída. Aperta-se e já está. Perceberam, todos. Não era uma pergunta, era uma afirmação. O Moinhos, de levantara o braço. Diz lá, ó rapaz. E se o tiro tiver sido no meio da testa. Bota-se-lhe o penso. E se a bala tiver saído pela nuca. Penso com pacho duplo. Aí está. Tudo se resolve. Tudo resolvido.
As gargalhadas foram tantas e os decibéis tão elevados que acabou ali mesmo a instrução. E viva o penso individual do combatente. E viva a saúde. Deixo-me rir, de novo e agora. A malta sabe porquê, o nosso alferes também. Por onde andará o sorja? Quero lá saber, que se foda, além de parvo era estúpido. Nem percebera que estava ser gozado e acabara a «lição» porque a gajada fazia um chiqueiro de criar bicho, não por se ter dado conta da enormidade que dissera.
O ramo natalício
O ramo natalício vai amanhando-se. Em vez de estrelas doiradas penduro-lhe uns cartuchos vazios, puxados a lustro, parecem oiro. Mais umas latinhas de Dolca que o Fagundes pintou de vermelho e azul, prateado não há, não faz mal, é Natal. Foi Natal e só hoje, um dia depois, estou a inventar esta árvore, com umas lâmpadas à mistura, contributo do Fagundes que, alem de condutor e pintor, também dá umas de electricista. Quem não tem cão, caça com gato.
O Capote de Vinhais desenhou um presépio numa caixa de rações de combate, na frente tem impresso Produzido e Embalado na Manutenção Militar, mas, nas costas, foi possível o desenrascanso do camarada. O gajo tem mão, o Menino está rechonchudinho, o São José – há quem diga que foi o primeiro enganado reconhecido pelos Evangelhos – passa muito bem, a vaca e o burro, a preceito, só a Senhora é que atira um bocado para não sei bem o quê. Não se pode ter tudo.
De qualquer forma é um presépio. O padre Santana, o prior da nossa freguesia, tinha, teve, sempre, um ódio de estimação aos jesuítas. Para ele, o único que se safava era o António Vieira dos Sermões e dos Brasis. Os restantes, uma cáfila. Contava, a propósito, quando se fazia o presépio gigante no adro da igreja, uma estória que, apesar de repetida anos a fio, punha o pessoal sempre bem disposto.
A companhia de Jesus

Quando os reis magos chegaram junto das palhinhas da manjedoura, olharam para um dos lados e viram uma vaca ruminando; viraram-se para o outro e lá estava um asno, teimosamente absorto. E enquanto se ajoelhavam perante o recém-nascido, iam cochichando entre eles. Nisto, um pastor com uma ovelha aos ombros também mirou a cena. E voltando-se para os três monarcas disse, abarcando as duas alimárias: e é isto a companhia de Jesus. Inácio não deve ter gostado.
Ontem, os gajos comemoraram a data à maneira deles. Um arraial de porrada. Uma secção que fora à água, lá em baixo, no rio, quando enchia as vasilhas fora fogachada quase à queima-roupa. Uma desgraça. Mais a mais no dia 25, em pleno dia 25. Mal ouvimos a metralha e os estampidos, saímos à desfilada, em busca dos gritos cada vez mais próximos.
Uma bazucada tremenda, ali mesmo à nossa frente, por baixo dos nossos bigodes. Insultos à mistura com os vai meter o Natal no teu cu na tua terra, sacana di merda. Os nossos mal se ouviam, quase só gemidos e ais. Os cabrões ainda tentaram atacar-nos de flanco, mas, naquela altura, não havia quem nos segurasse, quanto mais nos dobrasse. Pelos rastos que ficaram pelo chão e pelos ramos partidos, levaram muito para contar.

Nós contámos: cinco mortos e dois feridos graves, uma perna a menos, parecia que eu tinha entrado no matadouro municipal de Torre de Moncorvo, tanto era o sangue e as vísceras e os ossos e o resto. Filhos duma grandessíssima carrada de putas. Logo no dia de Natal. E antes do almoço, em que se iria comer o bacalhau, porque à noite da Consoada não dava por ali. Eram muitas luzes, muitos alvos.
O que vale, diz o alferes Rodrigues, é que os paneleiros não atacam dois dias seguidos. Empanturraram-se de mortos e agora estão a fazer a digestão. Se os apanhasse agora mesmo, comia-os a sangue frio, depois de os capar, tá visto. Assim, vamos comer o bacalhau e depois enterramo-los. O padre capelão não virá por mor das minas, mas a gente safa-se.
Termino a minha, a nossa árvore de Natal. O Jaquim cozinheiro berra de lá que o almoço está pronto. Por incrível que pareça, cheira a Natal. Até a neve algodoada parece rebrilhar, mais neve do que a neve verdadeira, e os sinos, invisíveis embora, repicam na nossa memória desterrada. As luminárias inventadas pelo Fagundes piscam a vermelho, isto é, encarnado, e azul. Noutro cartão o Capote aprimorara-se e escrevera Boas Festas, com uma estrela de cauda à maneira de cometa.
É a última coisa de que me lembro. Do resto – nada mais. Acordo, não vejo nada, dizem-me depois que estou no hospital de Luanda. Ó pá, diz-me uma voz sem rosto, tens de te habituar. Podia ter sido pior para ti. Estás cego – mas estás vivo. E os outros? E o nosso alferes? E o Fagundes?
Os tipos tinham quebrado as regras: haviam voltado a atacar - no dia seguinte. Duas bazucas e dois morteiros. Palavra de honra de que nunca mais dou as Boas (?) Festas (?). Juro.






























