segunda-feira, junho 19, 2006






O 10 de Junho
ou dez réis
de mel coado?


Antunes Ferreira
Escreve-me o José Fernão Martins Mentes? Minto! Da Tailândia, pois de onde é que havia de ser. Em Banguecoque, dita a cidade dos anjos (da noite?) o Zé Gomes é o absoluto oposto do Buda deitado do templo de Wat Pho; enquanto este, gigante estendido, não mexe nem o dedo mindinho do pé direito, o portuga mais tahi que conheço é, todo ele, a actividade mais frenética.

Especialista no mercado nocturno da capital tailandesa, onde tudo se vende e tudo se compra, desde os Rolex autenticíssimos até às massagistas mais consumadas e menos espartilhadas (na prática sexual), ele é o guia ideal para todos os tipos de transacções que ali se podem efectuar. De tal forma que o gajo parece ter nascido como os cogumelos, na rua Khao San do bairro de Banglamphu. Foi ele que me introduziu nos mistérios desse dédalo de ruelas apinhadas de bancas de comerciantes. Obrigadinho, ó Mestre.

Pois o senhor em causa – com o qual mantenho e com muito gosto uma excelente e proveitosa (para mim) correspondência – manda-me pelo correio electrónico uma pergunta. E o 10 de Junho? Pondo de parte qualquer intenção provocatória do excelso Martins Minto, que por terras do rei Bhumibol Adulyadej, o governante mais longevo da Ásia e do Mundo, vou tentar satisfazer o desejo expresso.

Sou do tempo em que o 10 de Junho era apenas o Dia da Raça. Em que os discursos oficiais enalteciam as glórias do passado, o patriotismo, o pluricontinentalismo, e o multirracismo, enfim, o ecumenismo dos descendentes da raça lusitana. O desfile da Mocidade Portuguesa, desde o Marquês do Pombal até aos Restauradores era, então, o ponto mais alto das comemorações.

No decurso da aventura espúria que foi a guerra colonial, o Dia de Portugal transformou-se em homenagem pública aos soldados portugueses. Uma enorme cerimónia, habitualmente no Terreiro do Paço, englobava representações dos três ramos das Forças Armadas em formatura de honra a que se seguia a entrega pelos dignitários do Poder corporativo das mais altas condecorações, muitas delas a título póstumo.

Porquê aquele senhor?

Hoje, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas – após o 25 de Abril da Liberdade e da Democracia – as comemorações têm componentes mais diversificados, sendo que nelas avultam a entrega de galardões a individualidades consideradas importantes da vida nacional. Elas são escolhidas pelo Presidente da República que, naturalmente, preside às cerimónias.

Desde que assim acontece, instalou-se neste Portugal da má língua uma polémica que ameaça eternizar-se. E que muito simplesmente se sintetiza no porquê aquele senhor? E não se pergunta e porque não eu? – por razão do parecer bem que se enroupa no politicamente correcto. Na mesquinhez das pequenas invejas portugas a questão sobreleva as próprias medalhas e faixas das comendas.

Pessoalmente, já não tenho paciência para estas miserabilistas guerras do alecrim e da manjerona. Um País a sério não pode dar-se a tais frioleiras. Talvez o problema resida principalmente aqui: será Portugal um país a sério? A pergunta, ainda que incómoda e inconveniente, chamem-lhe o que lhe quiserem chamar, não é despicienda. Bem pelo contrário.

Com a chegada a Belém do Professor Cavaco Silva e já nas vésperas do 10 de Junho deste ano, começaram as hostilidadezinhas do costume. Se fosse o Dr. Sampaio, os agraciados seriam os mesmos? Haveria mais – ou haveria menos? E de que cor predominante? Os laranjas nas mais diversas cambiantes predominariam agora?

Recuando um tanto no tempo: e se se tratasse do Dr. Mário Soares? E do General Ramalho Eanes? E do Marechal Costa Gomes? E do general António de Spínola? As comadres politiqueiras deste burgo/aldeia esfregaram as mãos, de contentes. Quanto mais se voltasse ao passado, melhor era para se fazerem essas comparações atípicas e infelizes. Nos media e no meio do Povo.

Labirinto e caldo de cultura

A
confusão é sempre um excelente caldo de cultura. Diria mesmo, o caldo por excelência. Quanto mais se confundirem as pessoas, as organizações, as instituições, mais labirínticas se tornam as situações. Ora, como se sabe, um labirinto é constituído por um conjunto de percursos intrincados criados com a intenção de desorientar quem os percorre. Quanto mais difícil seja a solução para a amálgama de corredores, mais difícil é a saída. Em política isto é, igualmente (eu diria principalmente) uma prova imbricada.

Na mitologia grega, o labirinto de Creta teria sido construído por Dédalo (arquitecto cujo nome tornou-se, depois, também sinónimo de labirinto) para alojar o Minotauro, monstro metade homem, metade touro, a quem eram oferecidos regularmente jovens que devorava. Segundo a lenda, Teseu conseguiu derrotá-lo e encontrar o caminho de volta do labirinto graças ao fio de um novelo, dado por Ariadne, que foi desenrolando ao longo do percurso.

Agora, não parece haver barbante que nos valha. Ninguém quer abdicar da prática da canalhice miudinha para tornar o imbróglio cada vez mais contundente. Somos pequeninos nas actuações, somos diminutos na corrupção, até somos enfezados nas mais banais conspirações de trazer por casa.

Na época dos Descobrimentos – que hoje nos servem para nos engalanarmos e mastigar o saudosismo infinitesimal que outrossim nos caracteriza – obtivemos poder e proventos para dar e vender. Deveriam ter sido, antes, para aforrar, e por isso mesmo, para aferrolhar. Nada. Ao contrário de muitos que construíram os seus impérios e deixaram obras faraónicas para a posteridade, nós demo-nos ao luxo de numa ou duas gerações delapidar o ouro, as especiarias, a prata, as madeiras exóticas. Só ficaram os escravos.

Em Górdio o famoso Alexandre corta com a sua espada o famoso nó que assim passa a chamar-se também górdio, cumprindo o oráculo que prometia o Império da Ásia àquele que tal feito cometesse. Quem será capaz de o fazer nos dias que vão correndo? E quanto ao 10 de Junho, estamos conversados por agora. Porque a continuar teria de considerar que não há ponto... sem nó.









Ora bolas ou “Il a les boules »

Braz Ferreira
Não sou adepto ferrenho, mas gosto de ver bom futebol. Adelante Argentina!
Gosto de bater uma bola sentado no meu sofá lá de casa com uma mão cheia de tremoços e algumas cervejitas frescas.
Mas anteontem me perguntei: Cadê o regulamento?
Porquê o pé levantado dos portugueses é falta e cartão amarelo e o dos iranianos não?
Será que não é o mesmo pé ou será que não dá pé mesmo?
Será que o juiz francês não esteve influenciado pela posição dos franceses sobre o Irão?
Será que o tio Chirac não lhe deu ordens de apitar suavemente para os iranianos?
Ou será que é cagão? Ou então burro?
Portugal jogou para ganhar e não para fazer flores e os iranianos jogaram para matar. O que sempre fizeram no país deles.
Mas agora estamos em campo neutro (será mesmo?) e lá vem um francês qualquer ditar ou inventar novas regras do futebol só para tentar convencer os iranianos a abandonarem o programa nuclear.
Era ele que precisava de abandonar, sim. mas a carreira de juiz de futebol.
Apitar até sambista da Vila Izabel o faz, e bem.
Mas apitar um jogo da Copa do Mundo como esse tal de Poulat, nem visto pois contado ninguém acredita.
O Figo, o Scolari, e mais alguns estavam indignados contra este robespieriano que deve ser efeminado pois o apito só o merece pelo lado setentrional do corpo humano.
Desde a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão, esta foi uma das piores tentativas dos franceses de tramarem terras lusitanas.
Mas, tal como o imperador, este tal de Poulat enganou-se.
Espero que um dia, se vier passar férias em Portugal, algum dos nossos conterrâneos o descubra e o faça engolir o apito. Por cima ou por baixo.
Para a próxima vez seria melhor ter um juiz do Kazaquistão ou das ilhas Marquesas, que seguramente seria mais imparcial.
Os franceses não estão lá grande coisa nesta Copa do Mundo e talvez isso tenha irritado o Poulazinho.
Ou talvez estivesse com uma crise de hemorroidas e não tivesse podido enfiar o apito pelo lado que seguramente mais lhe agradaria.
Todos nós sabemos que os franceses não gostam muito dos bons resultados do futebol português. Gostam sim de levar nossos Pauletas; mas se regojizarem com nossas proezas, nem mortos. Se não vejamos.
Portugal ganha ou é classificado e saem 2,79 linhas nos jornais franceses, na penúltima página.
Mas se os italianos ou eles ganham saem 16 páginas e a cores no l’Equipe.
A cores, ou a preto e branco é que nós os deviamos tratar quando se deslocam às nossa estâncias balneares.
Mas nós somos demasiado gentis para ter tal atitude.
E com respeito aos ataques iranianos à frota lusitana, eles só foram possíveis devido à impunidade mostrada pelo Poulazinho.
Quem cala consente e o tal comedor de “grenouilles” calou-se.
Da próxima vez apite calado, mas bem longe do onze nacional.

domingo, junho 18, 2006


Ser Feliz



"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

Mas não esqueço que minha vida é a maior empresa do mundo,

E que posso evitar que ela vá a falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um "não".

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa

segunda-feira, junho 12, 2006




Os pontapés iniciais

J
osé Sócrates congratulou-se com o fair-play que reinou no jogo Portugal – Angola, ao qual assistiu em Colónia. Alem de ter achado que a equipa nacional jogou bem. Ganhou, senhor primeiro-ministro, ganhou. Agora jogar bem é outra conversa. Durão Barroso, que também estava nos lugares VIP que foram ao estádio, deu os parabéns a Luís Figo, que não só para o Presidente da CE, mas para toda a gente foi o melhor em campo.

Já o sportinguista ferrenho Jorge Sampaio esteve na bancada, juntamente com a família com malta que viera também no charter que o anterior Presidente da República utilizou para se deslocar a Colónia. Amantes do futebol, ele e a mulher Maria José Rita – que é portista, o que demonstra o pluralismo desportivo – bem como os filhos, vibraram e sofreram. Como todos os portugueses.

À volta, no entanto, foi o chefe do Governo que ficou mais satisfeito com as notícias que vão apontando, muito soft e devagarinho, para o pontapé, desta feita não na bola, mas na crise. O DN de hoje publicava que «A tendência de aumento do número de empresas falidas registou uma inversão em 2005, o que sucede pela primeira vez em quatro anos.»

De acordo com os números avançados pelo DN, os casos de falência ou insolvência diminuíram de forma significativa, recuando 33%: menos 858 casos do que no ano anterior. O jornal cita um estudo sobre falências e recuperação de empresas do Instituto Informador Comercial (IIC), o qual adianta que no ano passado houve 1.747 acções deste tipo, abaixo das 2.605 observadas em 2004. Dos vários tipos de acções, as insolvências foram as únicas que registaram um aumento, uma situação que, no entanto, «o ICC desvaloriza» com a «entrada em vigor do novo Código das Insolvências, que adopta o conceito de insolvência, que é muito idêntico aos autos de falência e recuperação de empresas». Por sectores de actividade, foi no comércio por grosso, na indústria de construção civil e na indústria têxtil que se registaram mais casos de acções de falência/insolvência, com 296, 199 e 193, respectivamente.

Parece ao escriba que o que aqui tem vindo a publicar sobre o início, tímido e lento embora, do levantar de cabeça que a economia portuguesa começa a fazer, é legítimo e legitimado por estas informações que vão surgindo. Já se pode imaginar o susto dos derrotistas da silva: a quem é que se poderão atribuir estes indicadores? Ao Executivo? Nunca. Mau, Maria. Assim, vai ser mais difícil o catastrofismo, a derrocada, a bancarrota, a desgraça apocalíptica. Não podemos esmorecer, dirão; maus ventos, por certo, virão para nos dar razão.

Este é um caminho que, de tão percorrido, já começa a estar gasto. Esta é uma forma de actuação que, de tão repetida, já começa a enjoar muita gente. Será que os alarmismos incongruentes e as previsões mais assanhadas poderão entrar em... falência?A.F.

domingo, junho 11, 2006



Os impostos e a internet

Antunes Ferreira
A internet, é sabido, está hoje presente no quotidiano de milhões e milhões de seres pensantes (?) espalhados pelo Mundo. O senhor Tim Berners-Lee, seu criador sabe isso e muito bem; o senhor Bill Gates, patrão da informática, também sabe isso e muito bem; outros, ainda que mais pequenos, também sabem isso e bastante bem.

Nos nossos dias, a World Wide Web é uma das culpadas da globalização, senão mesmo a maior. A sigla www entrou de tal forma na vida dos humanos que a usam sem receios nem tibiezas, como se já tivessem nascido com ela nos cromossomas/chips. Sobretudo os mais jovens, ab initio utilizadores, quem sabe se no líquido placentário, dela, perguntam frequentemente – como era isto quando não havia a net?

São já em número incalculável os que pensam e filosofam sobre ela. E já há bastante tempo, muitíssimos vêem-se pronunciando contra os seus perigos e malefícios, não ignorando a esmagadora maioria e o peso correspondente da sua utilização, os benefícios que trouxe aos que nela navegam, principalmente aos que, através dela, aprendem, apreendem e cultivam-se. Por isso, há que agradecer a quem a transformou na quase panaceia universal.

Há, reconheço, o enorme perigo da dependência. Há, aceito, o enorme perigo do aproveitamento criminoso das suas ciclópicas potencialidades. Há, concordo, a utilização anónima dela como meio de difuso de ideias terríficas como o terrorismo. E há, ainda, os que temem que o seu nome caia nas teias da teia global que ela é, pelas dores que lhes causam anedotas, críticas desrazoáveis e desrazoadas, acintes, insultos e quejandos.

A net e a independência

Poucos dias atrás, Berners-Lee defendeu numa entrevista que a rede deve permanecer neutra e resistir a tentativas de a fragmentar em diferentes serviços. O cientista britânico desenvolveu a www em 1989, como uma ferramenta académica que permitiria aos cientistas compartilhar informações. Desde então, a rede estendeu-se a todas as áreas. Mas, à medida que cresce, há cada vez mais discórdia sobre como deve ser o seu desenvolvimento.

De início pensou-se que inventor não conseguiria aguentar a seu invento. Porem, ao invés de vender a sua criação, Berners-Lee criou o World Wide Web Consortium, que administra a internet nos Estados Unidos como um modelo aberto. O modelo é baseado na neutralidade da rede, onde todos têm o mesmo nível de acesso e a informação na internet é tratada com igualdade. Esta visão é apoiada por empresas como a Microsoft e a Google, que defendem a criação de leis para garantir a neutralidade da rede.

As afirmações do entrevistado foram uma verdadeira referência directa às tentativas nos Estados Unidos de tentar cobrar por diferentes níveis de acesso na internet. Segundo ele, a ideia «não faz parte do modelo da internet». Este alerta foi feito em Edimburgo, na Escócia, onde Berners-Lee participou na Conferência Anual sobre o futuro da internet.

O texto que publico de seguida, recebi-o através da rede, num mail enviado por um Amigo e correspondente. É cáustico, com a sua ironia da cicuta, arsénico, curare e mata-ratos diluídos em ácido sulfúrico. Mas é absolutamente correcto. Oxalá José Sócrates seja alertado para ele e dele tome conhecimento. Oxalá o chefe do Executivo o tome em conta com muita atenção. Ridendo castigat mores, diziam os romanos. Pois que seja.


Cem €uros...

Em cada cem €uros que o patrão paga pela minha força de trabalho, o
Estado, e muito bem, tira-me vinte €uros para o IRS e 11 €uros para a Segurança Social.
- O meu patrão, por cada cem €uros que paga pela minha força de trabalho, é obrigado a dar ao Estado, e muito bem, mais 23,75 €uros para a Segurança Social.
- E por cada cem €uros de riqueza que eu produzo, o Estado, e muito bem,
retira ao meu patrão outros 33 €uros.
- Cada vez que eu, no supermercado, gasto os cem €uros que o meu patrão pagou, o Estado, e muito bem, fica com 21 €uros para si.
Em resumo:
- Quando ganho cem €uros, o Estado fica quase com 55.
- Quando gasto cem €uros, o Estado, no mínimo, cobra 21.
- Quando lucro cem €uros, o Estado enriquece 33.
- Quando compro um carro, uma casa, herdo um quadro, registo os meus
negócios ou peço uma certidão, o Estado, e muito bem, fica com quase metade das verbas envolvidas no caso.

Eu pago e acho muito bem, portanto exijo:
- Um sistema de ensino que garanta cultura, civismo e futuro emprego para os meus filhos.
- Serviços de saúde exemplares.
- Um hospital bem equipado a menos de 20 km da minha casa.
- Estradas largas, sem buracos e bem sinalizadas em todo o país.
- Auto-estradas sem portagens.
- Pontes que não caiam.
- Tribunais com capacidade para decidir processos em menos de um ano.
- Uma máquina fiscal que cobre igualitariamente os impostos.
Eu pago, e por isso quero ter, quando lá chegar, a reforma garantida e jardins públicos e espaços verdes bem tratados e seguros.
- Polícia eficiente e equipada.
- Os monumentos do meu País bem conservados e abertos ao público, uma
orquestra sinfónica.
- Filmes feitos em Portugal.
- E, no mínimo, que não haja um único caso de fome e miséria nesta terra.
Na pior das hipóteses, cada 300 €uros em circulação em Portugal garantem ao Estado cem €uros de receita.
Portanto, Sr. primeiro-ministro, governe-se com o dinheirinho que lhe dou,
porque eu quero e tenho direito a tudo isto.

Um português contribuinte.

sábado, junho 10, 2006



Notícias da crise

"The hardest freedom to maintain is the freedom of making mistakes." Morris West


Antunes Ferreira
D
eixem-me que vos relembre duas figuras da nossa História. A primeira é O Desejado, de seu nome Sebastião jovem rei que terá sido morto na batalha de Alcácer Quibir, aventura incrível e desnaturada em que se meteu. A segunda foi crida por Luís Vaz de Camões nos seus Lusíadas, mais precisamente no Canto IV, Estrofes 90 a 104: o Velho do Restelo.

Se o moço duvidoso se tornou na esperança doentia dum povo que, ainda hoje quiçá, pensa que o verá voltar por entre o nevoeiro, montado em alvo cavalo, para salvar a Pátria, redimindo-a de todos os muitos pecados cometidos, já o segundo, pluralizado, simboliza os que não aceitam o progresso, a realidade, a verdade e se comprazem em pressagiar todas as desgraças para Portugal. Os velhos do Restelo representam o conservadorismo, o medo, a estagnação. São eles que não acham que tudo está mal – porque tudo está péssimo. E sem quaisquer hipóteses de melhoria.

À pergunta cabotina «como é que isto vai acabar?» respondem eles com «o estado a que isto chegou» e, ainda, «esta merda já ninguém a endireita.» E atiram as culpas de todo esse quadro apocalíptico para cima do Poder. Apontam ao Governo, que é quem está mais à mão. E afirmam - já não em surdina porque não há polícia política – que os principais causadores da desventura nacional foram os comunas; que, por isso mesmo, é bem preciso um novo Sal Azar, para voltar a pôr isto nos eixos.

Nas ruelas de Alfama, da Madragoa ou do Bairro Alto, ou seja desta velha cidade alegadamente de Ulisses, criou-se uma frase sarcástica, verrinosa, politicamente incorrecta e semanticamente aldrabada: «deixá-los falá-los qu’eles calarão-se-ão.» É a resposta aos profetas da desgraça, saudosistas profissionais e militantes.

Reconhecer a crise e as melhoras

Quando aparecem umas linhas (que sejam), umas frases (sintéticas), umas imagens (desfocadas) que tentam repor a verdade, reconhecendo a difícil crise que por aqui se instalou, mas antevendo que melhores dias estão a chegar, naturalmente devagar, talvez até já tenham desembarcado, sem serem vistos por mor do «barulho das luzes», ei-los que saltam em defesa da catástrofe: é tudo mentira, é tudo propaganda do Executivo, é tudo pó para atirar aos olhos dos pobres Portugueses.

Um exemplo comezinho: ontem o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) português cresceu 1 por cento no primeiro trimestre deste ano, face a igual período de 2005.Este ritmo de crescimento representa uma aceleração de 0,3 pontos percentuais face ao crescimento de 0,7 por cento da riqueza produzida em Portugal nos últimos três meses do ano passado, face a igual período de 2004, dizem os homens das estatísticas. E acrescentam que, relativamente ao último trimestre de 2004, a economia portuguesa cresceu 0,5 por cento nos primeiros três meses deste ano, o que traduz também uma aceleração face à evolução de 0,1 por cento registada no último trimestre de 2005, e tendo em conta os três meses imediatamente anteriores.

Os senhores da António José de Almeida ainda informaram que o referido crescimento económico foi suportado por um aumento homólogo de 7,2 por cento das exportações e, também, pela evolução positiva do consumo das famílias, que cresceu 0,8 por cento, comparando com os primeiros três meses de 2005.

A juntar a isto, os últimos números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), revelados também ontem, mostram que a economia portuguesa pode estar a dar sinais de recuperação. O chamado «indicador avançado», que mede as expectativas dos agentes económicos, subiu 5,4% no último semestre. Estes dados da OCDE têm já em conta os valores de Abril - e, começam já a acompanhar a tendência registada na Zona Euro.

Uma inventona governamental

Claro que para os sebastianistas e para os velhos do Restelo, está-se perante mais uma inventona governamental, gizada pelo Sócrates & companhia, com a cumplicidade e colaboração, imagine-se, do INE. Pudera, não, os mentirosos da estatística estão sob a pata da Presidência do Conselho de Ministros, fazem o que este manda, qual independência, qual carapuça.
E os tecnocratas da OCDE também nos saíram uma boa prenda. Em Paris vivem à mesa do Orçamento do Teixeira dos Santos, dele recebem benesses e mordomias que passam por cima da Espanha e chegam lá num repente. E só não têm subsídios nem benefícios fiscais – porque daria muito nas vistas se assim acontecesse.

Perante isto, teremos de nos resignar à verdade dos velhos do Restelo? Redondamente: não! Para eles o quadro apocalíptico é o certo e seguro, o que afirma que estamos total e definitivamente tramados. Num esconso beco sem saída. Disfarçar a crise? Como, se os fiscais da verdade estão a postos para desmascarar estas… mascaradas. Sempre prontos para derrubar o que quer que seja, incluindo o Conselho de Ministros, ou principalmente ele.

Os senhores Marques Mendes, Ribeiro e Castro, Jerónimo de Sousa e Francisco Louça, uns mais do que outros ou uns «mais iguais do que os outros», atentos e vigilantes, lá estão para desmontar estas facécias e repor a dureza da crítica e da crise. Abençoados sejam, que sem eles isto era um ferrabódó desengonçado, um despautério de foguetório, uma feira das mentirolas.

Estou farto. E creio que muitos cidadãos o estão também, ainda que nos possamos repartir por duas alíneas, a saber: a) fartos de apertar o cinto, fartos de pagar, nomeadamente ao Fisco, fartos de manifestações de rua, fartos das subidas constantes do custo de vida, do vaivém do preço dos combustíveis, dos centros de saúde que não a proporcionam, das reformas escolares, da criminalidade. E, b) fartos dos constantes clamores dos derrotistas, para os quais tudo está mal e continua mal.

Parecem inconciliáveis as duas. Mas não são. São, até, perfeitamente complementares. De tal sorte que para eliminar uma, se tem forçosamente de eliminar a outra.

sexta-feira, junho 09, 2006







Noivado de sepulcro...

Antunes Ferreira
Soares de Passos, autor do «Noivado do Sepulcro» escreveu na primeira estrofe do poema «Vai alta a lua! na mansão da morte; já meia-noite com vagar soou; que paz tranquila; dos vaivéns da sorte só tem descanso quem ali baixou.» E, logo a seguir: «Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe; funérea campa com fragor rangeu; branco fantasma semelhante a um monge; d'entre os sepulcros a cabeça ergueu.»

O poeta portuense, falecido aos 33 anos, vítima da tuberculose, é considerado o expoente do ultra-romantismo português. Não sou muito dado a tais trechos, mas tenho de reconhecer que esta poesia mórbida se tornou célebre na época. Era recitada em reuniões sociais e sociais. E, até depois de musicada, era cantada nos serões literários ou pseudo.

Não ando longe da verdade, creio, ao escrever, como agora o faço, que nos dias de hoje o «Noivado do Sepulcro» motiva na maior parte dos que o lêem um sentimento de comiseração e afirmações irónicas, bem ao contrário da apreciação que lhe dispensavam muitos portugueses nos princípios do século XIX. As mentalidades eram outras, as modas também, nestas incluídas as literárias.

No entanto, os defensores do corte com um «romantismo piegas» ou seja os realistas, atiraram-se a ele como gato a bofes. Afirmavam que, embora revelando uma certa autenticidade, por vezes majestosa, o facto de se prender a preceitos de escola literária, recorrendo a banalidades e estereótipos, veio a fazer com que fosse caricaturado como o protótipo do poeta ultrapassado e cavernoso.

Soares de Passos e os neonazis

De tudo se podem tirar lições. Neste particular, diria que, nos dias que vão correndo, António Augusto Soares de Passos não entraria na manifestação neonazi que o senhor Mário Machado e seus pares tentaram colar à de membros das forças de segurança. O jovem poeta (1826 – 1860) era um idealista à boa maneira romântica. Os ditos neo nacionais socialistas cá do burgo são uns oportunistas e criminosos de direito comum, à boa maneira fascista.

A não ser assim, porque motivo a arma exibida? Porquê a ameaça de intervenção igualmente armada nas ruas? O prócere do «nacionalismo» bacoco foi motivo de cobertura televisiva desmesurada e desatinada. Foi-lhe concedido tempo de antena quase igual ao que é dado ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, aos líderes sindicais, para já não falar dos ídolos do futebol ora em Marienfeld.

Em Democracia todos temos o direito de expressar o que pensamos. Isso é a liberdade de expressão. Que o senhor Machado entenda que não existe em Portugal e sim na Alemanha, é lá com ele. Por isso ali vai para participar numa manifestação de cabeças rapadas e outros afins e similares rotulados de «nacionalistas.»

Mas, dando de barato que não temos em Portugal liberdade de expressão, como justificar então, os minutos concedidos a M.M. nos ecrãs televisivos? Quer isto dizer que a alegada inexistência não é mais do que o fruto de uma esquizofrenia exibicionista? Pois se as transmissões que entram nas nossas casas o fazem – é porque ninguém as proíbe de o fazer. Monsieur de La Palice não diria melhor.

E a detenção do coitadinho Mário M.? A gente com dois dedos de testa compreendeu-a. O anúncio público de que eles interviriam armados nas ruas portuguesas é, ele sim, um atentado à Liberdade. E não venha o careca de escanhoado dizer que isso só se verificará se se tornar necessário. Lembrou-me de jacto a Nacht der Langen Messer (Noite das Facas Longas) e tudo aquilo que se lhe seguiu. Hitler sabia-a toda.

E o gajo a dá-las...

Descortino quem inquira (e com alguma razão, convenhamos) «o que é que o gajo quer dizer? Onde quererá chegar?» Misturar Soares de Passos com o famigerado PNR - só de um visionário-mentecapto como este Antunes Ferreira. Têm os leitores todo o direito de assim pensar. Mas, se mo for permitido, adianto umas palavras de explicação. De justificação – nada.

Esta tentativa ignóbil de colagem aos elementos da PSP e da GNR que se manifestavam é bem demonstrativa do quilate dos novos nazis portugueses. Antes do mais: quem são eles? Que e quem representam? Quantos são os seus militantes? E os seus apoiantes? Depois, bem, depois, haverá de saber porque motivo advogam a intervenção armada nas ruas. E, finalmente, se as forças de segurança não prestam – porque tentaram o matrimónio espúrio com elas?

A abstrusa «justificação» por eles dada prende-se com a estranha constatação de que as forças de segurança não estão a fazer aquilo para que foram concebidas, criadas e no que estão empenhadas. Se, a continuar assim, elas não fizerem nada para garantir o sossego e a segurança dos cidadãos, então, avançam eles, de armas em punho.

Estamos aqui perante uma esconsa e canhestra tentativa da quadratura do círculo (que me perdoe o meu querido Amigo Carlos Andrade...), ou seja, conciliar o inconciliável, misturar o imiscível. Serão, assim, neo alquimistas que avançam para o shake da água com o azeite. Já se têm visto coisas aparentemente mais complicadas? Apontem uma, só uma, e reduzir-me-ei ao silêncio encavacado.

Seria, assim, um conúbio que poderia levar às piores consequências. A tomada do Palácio de Inverno deveu-se mais à desorientação e indisciplina que alastrara nas forças detentoras de armas na Rússia czarista, dominadas pelos sovietes militares, do que aos apelos de Vladimir Ilyich Ulianov, que ficou na História com o nome de Lenine.

Não me proponho porem, aqui comentar as movimentações e exigências das forças de segurança portuguesas. Noutro momento penso fazê-lo, mas nesta ocasião, não. Os elementos que as integram têm agido dentro da mais estrita legalidade democrática, há que dizê-lo. Mas, neste caso, o que colhe é a espertalhonice extremista.

Se algo viesse a ocorrer, o que seguramente não acontecerá, um tal «noivado» seria, sem dúvida «de sepulcro...» Donde, a ponte que construí a este respeito, salvaguardadas as devidas distâncias – e circunstâncias. Fosse o escriba até ao extremo do cotejo, e concluiria como Soares de Passos: «Porém mais tarde, quando foi volvido; das sepulturas o gelado pó; dois esqueletos, um ao outro unido; Foram achados num sepulcro só.» Longe vá o agoiro.

quarta-feira, junho 07, 2006




O desporto nacional



Antunes Ferreira
E
ntre o dizer mal (mal? Malíssimo...) do Scolari e do Governo e deitar contas à vida que vai estando carota, pouco nos resta. Com o aproximar do domingo, cresce a ansiedade nacional. O tema «mais principal» do nosso quotidiano é a selecção e o desempenho que dela se espera na Alemanha. E por isso mesmo, o desancar no Felipão, que não ajuda nada o grupo, mas satisfaz o mini-ego portuga.

Tirando isso, vamos tranquilamente ganhar o Mundial. São favas contadas. Há quem diga, à socapa, que para mal dos nossos pecados, já bastou a catástrofe interpretada pelos sub-21 e pautada pelo péssimo comportamento do time nacional daquela idade. Dizem esses renegados que se está a empolar as previsões para o Campeonato na Germânia.

Eu estou com estes aventesmas. Penso que a fasquia que se coloca a Figo, Ronaldo, Ricardo e aos restantes é demasiado alta e ultra optimista. Quanto mais alto se sobe, maior é o trambolhão, diz o Povo. Como quase sempre, com carradas de razão. Pede-se o impossível? Não senhor; exige-se. O ovo no cu da galinha? Não nos esqueçamos que as poedeiras também fazem greve. A Constituição, sabem... Esperemos, pois, pelo confronto luso-angolano que se deseja leal e saudável. E já que estamos no domínio doa galináceos, poderá ser então, que outro galo cantará.

Já os ataques ao Executivo são coisa normal neste País. Se o futebol é o desporto-rei e enche o ideário nacional, que dizer da maledicência assestada sobre o Poder? É igualmente um «desporto» que se pratica em cada milímetro quadrado da superfície de Portugal. Agora bombardeia-se o Sócrates. Antes fora o Guterres. O Santana também andou pelas ruas da amargura. E o fugitivo Durão? Nesse nem falar.

As nossas especialidades

Todos os outros, mais à esquerda ou mais à direita têm abastecido as milhentas anedotas ditas políticas em que somos verdadeiros especialistas, a par com a péssima condução e as mortes na estrada, a ausência de espírito cívico, o insucesso escolar, a percentagem de sido-infectados e muito mais.

No entanto o anedotário corrosivo é, ainda, um mal que apelidaria de menor, face aos ataques constantes das oposições de todas as cores e paladares, como os chupa-chupas pró menino e prá menina. Pelo Mundo democrático é, também, assim? Por certo que é. Mas será tão sistematizado e tão omnipresente e tão todo-poderoso como por cá? Não entrando em fundamentalismos bacocos – duvido.

Acompanho, por conseguinte, o magnífico artigo de José Medeiros Ferreira no Diário de Notícias que transcrevi neste blog. Com engenho e arte completamente diferentes, dadas as limitações do escriba. Mutatis mutandis, bastaria subscrever o exarado pelo meu grande Amigo Zé Medeiros. Mas, por respeito ao professor, alinhei estas ideias. Concordantes.

Ninguém curou do enunciado das coisas positivas que o Poder faz, qualquer ele que seja. Ou, pelo menos, quase. O bota abaixo tão característico da nossa idiossincrasia (é ver páginas excelentes produzidas na I República) é uma síndrome doentia e maléfica que aparentemente não tem mezinha que a cure. Cortar as pernas a uma pessoa ou a uma instituição é prática que entusiasma a mesquinhez lusa e a faz parecer com outra dimensão.

Aqui há uns tempos almocei com um político da nossa praça, meu amigo e bom chefe de família. Um senhor do mais alto coturno, impoluto, honesto, simples, humilde. Com um nome que poderia significar tudo o que fosse o oposto do enunciado. Note-se que, em meu entender, nada o poderia fazer; mas há nomes e nomes, siglas e siglas, parvoíces e parvoíces. Se fosse noutros tempos e noutras maneiras de dizer teria escrito que se trata de um cavalheiro de posição. E até o é, merecidamente.

Apetência destrutiva

Durante o repasto veio à baila esta apetência portuguesa pela destruição de pessoas, a quaisquer níveis. Dir-me-ão que, neste particular, até nem estamos mal. Veja-se o que se passa nos Estados Unidos, onde vilipendiar se afigura ser sinónimo de opinar. Pondo de fora, obviamente, o que se convencionou chamar direito ao bom-nome.

É altura para se pôr travão às quatro rodas e repensar o que se pretende alcançar e os meios a utilizar para se atingir esse fim. Até se deveria estudar as possibilidades de se aumentar a celeridade processual, sob pena de a Justiça ainda cair mais nas ruas da amargura. O que parece muito difícil, mas não impossível.

O ritmo do andamento dos processos no nosso País nunca foi muito acelerado. Não foi nem é. Veremos se o não será, outrossim, no futuro. Era bom que o não fosse, o que quereria dizer que se estava a tentar ultrapassar limitações e baias tradicionais – mas sem qualquer justificação.

Espero que, assim, a geração dos meus netos tenha possibilidades de actuar e intenção de o fazer que possa proporcionar aos mais desfavorecidos a satisfação de algumas necessidades básicas. Um exemplo: o combate à pobreza, à exclusão e à ausência de oportunidades não é exclusivo do Presidente Cavaco. Já Sampaio usava bandeira semelhante. Assim, todos temos obrigação de remar contra a maré e não nos podemos esquecer de que os direitos são-no porque também existem os deveres, suas contrapartidas.

Este escrito já tem mais de apologético do que é permitido pelas consciências, pelas normas e pelas autoridades. É melhor que me quede por aqui, para não engrossar o chorrilho de frases feitas que o integram. Noutra altura voltar-se-á ao tema. Por agora, ficamo-nos nas cantigas de mal dizer. E, por vezes, de escárnio. Valha-nos Dom Dinis, plantador do pinhal de Leiria e poeta. Ao que consta, o primeiro rei português que não era analfabeto.

terça-feira, junho 06, 2006



REGISTO

Olá Zé Medeiros Ferreira

Antunes Ferreira
Na sua edição de ontem o Diário de Noticias traz na secção de opinião a habitual coluna do meu grande e «velho» Amigo José Medeiros Ferreira. Há uns largos tempos que não nos encontramos – o que é uma pena, no meu modesto entender – mas, agora, reparei num pormenor que me deixou realmente contente. O madeirense/açoriano (sabiam? Se não, tomem nota porque é verdade…) tem o seu mail impresso à frente do nome. É, portanto, tiro e queda.

Por um lado, e porque concordo uma vez mais com o meu camarada Medeiros Ferreira, aqui te deixo, Zé, um abração e a minha admiração pelo teu texto. Os pseudoanalistas que por aí pululam deveriam ser aconselhados por quem de direito – para não dizer obrigados… - a ler o artigo de fio a pavio, parando mesmo nas vírgulas. Depois, degluti-lo-iam. Estas tuas linhas necessitam de um tubo digestivo a preceito. São de muito alimento e não é qualquer que as aprecia no palato intelectual e nas papilas culturais. Para não falar do tacto… político.

Por outro, fico satisfeito ao cubo por ter sido o «meu» Diário de Notícias a inserir uma prosa tão importante. Muitas que tu pares, Zé, o são também. Mas esta, oportuna, esclarecida e incisiva, deu-me na mouche. Não é que outras me dessem outro sabor. Desde os tempos do «nosso» Portugal Socialista de 1974/5/6 e… que me delicio com o que escreves e me faz recordar a «nossa também» greve académica de 62. No entanto, esta… Por isso, o meu muito obrigado.

Daí que, independentemente do mail que te mando com este agradecimento e com a Amizade de sempre, aqui declaro sub legis libertas que publico o teu texto (excelente) no meu blog travessadoferreira.blogspot.com. Nele vou matando a fome de escrever, já que nas colunas dos media escritos não me dão acolhimento por ser «muito velho, ultrapassado e fora de moda.»

Não peço autorização ao «meu» DN que voltei a ler com atenção e agrado, depois de a sua nova Direcção o ter assumido na plenitude. É, de novo, um grande jornal. Conheço de passagem o António José Teixeira. Bravo. Conheço mal o Eduardo Dâmaso. Parabéns. Mas, essa sim, conheço muito bem e gosto muito da «minha» antiga estagiária Helena Garrido que continua a ser para mim a Leninha – com grande qualidade e apurado faro jornalístico. Óptimo.

Faço-o consciente de que o não devia fazer, deontologicamente. Mas o DN é, ainda, um pouco de mim, da minha juventude, do meu amor à escrita, do meu destemor na paginação, das minhas entrevistas, da minha opinião e, sobretudo das minhas reportagens por esse Mundo fora. Daí que, com o que creio ser o aval do quotidiano onde deixei bastante de mim – transcreva no meu humilde blog o Artigo, sem mais adjectivos, do José Medeiros Ferreira.



Sobre o alarmismo social


José Medeiros Ferreira jmedeirosf@clix.pt
Professor universitário

Os nossos cientistas económicos e sociais deviam ler os livros dos profetas inseridos na Bíblia para entenderem bem o seu papel quando fazem estimativas e projecções. Há profetas para todos os gostos: desde os pessimistas Isaías e Jeremias, aos exilados esperançosos como Ezequiel e Daniel.

"Profetas desarmados", na florentina expressão de Maquiavel, só existem na altura em que a profecia é anunciada, e desaparecem de qualquer responsabilidade política e comunitária quando esta se revela errada ou não se cumpre. E como recomendam sempre muita "penitência", à guisa de remédio e salvação, podem defender-se com os resultados dessas medidas punitivas. E estas, umas vezes dão resultado, outras não. Ser profeta da desgraça tornou-se chique no Portugal dos salões televisivos e dos fóruns radiofónicos. Bocas cheias de gafanhotos é o que não falta.

Desde que a direita, através da coligação PSD-CDS, perdeu as eleições legislativas em Fevereiro de 2005 que o muro das lamentações está concorrido. Porém, a partir das últimas presidenciais, o coro dos que exigem medidas radicais aumenta. E se algum naipe está mais silencioso logo acorrem os corifeus a levantar-lhes a voz e a enquadrá-los no tom tremendista que há-de abater as muralhas de Jerusalém. Daquilo que me é dado observar, há quem tome a complacente Constituição por a fonte de todos os males e sobre ela orquestre as trombetas de Jericó. Uma coisa é certa: há quem pense ser possível a subversão do regime e o diga.

As previsões que nos apresentam podem ser contraditórias mas são quase todas catastrofistas: ora é a massa salarial da função pública que é insustentável em termos de despesa ora são os diversos fundos de pensões que, após terem recebido durante algumas dezenas de anos os contributos dos que agora passam à reforma, parecem ter preguiçado nas aplicações e olham para a rarefeita geração vindoura, contando com desespero os tostões que hão-de chegar. Tanto se empurram os funcionários para a reforma e para a disponibilidade, como se pretende estender o curso da sua vida activa, agora para os 67, amanhã para os 70 anos.

Porém, logo outros mais inclinados para a tenra idade e para a inovação acham que a renovação se faz pela transfusão das gerações. E vedam o emprego aos maiores de 50 anos. Todos empolgados nas suas certezas.

Há meios de comunicação social que apresentam listas de nomes de gente reformada com maior ou menor causa de escândalo. No outro dia, um septuagenário entradote até apelou aos jovens para boicotarem a caixa de aposentações. Imaginei logo os mais velhos a deixarem de sair de casa e a bendizerem a inovação do NIB interbancário que lhes permite imaterializar o circuito dos seus rendimentos fixos! E já os vejo, trôpegos, a correrem (informaticamente!) para a bolsa de valores a comprar e a vender papel neste país arruinado em quase tudo menos em acções, em OPA e em grandes negócios…

Reparo que alguma esperança se podia deixar entrar pela janela entreaberta da juventude operosa, mas só que há entre nós peritos de educação mais radicais do que os funcionários da tão bem apetrechada estatística da OCDE. Sendo contra os especialistas em instrução, esses Jeremias provêm das ciências reveladas. Como pergunta serenamente Maria Emília Brederode no blogue www.inquietacoespedagogicas: "Que dizer de um ensino selectivo e elitista que só conseguiu produzir estas mentalidades simplistas e bárbaras?", referindo-se obviamente aos opinativos formados na escola salazarista. E como aí também se escreve ,"o ambiente é de guerra civil opinativa".

Está, de facto, a criar-se um clima de tensão entre os grupos socioprofissionais e etários em Portugal como se não verificava desde os anos 70.

Os focos de incêndio social são ateados um pouco por todo o lado, e há quem considere haver neste momento no País condições políticas para fazer frente às labaredas que se assopram. E tanto se atacam os idosos aposentados como "sanguessugas sociais" na melhor tradição maoísta da revolução cultural, como se descrê de uma juventude demasiado habituada a facilidades, num mundo que deve permanecer "um vale de lágrimas". Descobrir na pirâmide demográfica um degrau onde apoiar o futuro sem que ele se esboroe é tarefa microscópica!

Ainda há poucos anos o País exultava, desmedido, com a Expo'98 e pulava de branco por Timor. Hoje rasgamos as vestes.

Construímos um Portugal ciclotímico.

(In DN 2006/06/06)

domingo, junho 04, 2006





A FOICE

Adeus, Raul

Morreu Raul Indipwo. Os media continuaram a usar a expressão calina «vítima de doença prolongada.» E, pelos vistos farão assim, por muitos anos e… maus. Resquícios dos tempos da Censura, quem sabe? Também era proibido usar o termo suicídio e os benfiquistas eram encarnados. Vermelhos? Nunca. Vermelhos eram os outros, os mafarricos, os comunas. Para além do registo que aqui se faz, fica também o sentimento de ver partir um Amigo, aos 72 anos. Repousa em Paz, Raul.


Natural de Angola e há muitos anos residente em Portugal, Raul José Aires Corte Peres Cruz, de seu nome completo, formou o Duo Ouro Negro, em 1959, com o também já falecido Milo MacMahon, igualmente angolano. Após uma apresentação no Cinema Roma, em Lisboa, a gravação de três discos e o regresso a Angola. Por puco tempo. Lisboa e o Mundo esperavam por ele. o Duo Ouro Negro começou a ter uma expressão internacional, com actuações no espaço de um ano na Suíça, França, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Espanha e Portugal. O grupo vai adquirindo uma notoriedade que já ultrapassa o âmbito nacional.

Um ponto alto da sua carreira: eles actuam em 1967 no Olympia e no Alhambra, em Paris. E ainda nesse ano obtêm um enorme sucesso na Sala Garnier da Ópera de Monte Carlo, perante os Príncipes do Mónaco. Em Lisboa, já os dois angolanos tinham lançado, em 1965, o kwela (uma dança ritual africana), que seria considerado o ritmo de Verão do ano.

Em 1968, conquistam o Canadá e os Estados Unidos, chegando mesmo a actuar no Waldorf Astoria, um dos hotéis até hoje mais conhecidos de Nova Iorque. Mais tarde, o grupo foi até à América Latina e ao Japão, tendo chegado, já nos anos 70, à Austrália.

Com a morte de Milo MacMahon, no final da década de 80, a carreira do Duo Negro, que se notabilizou com músicas como «Maria Rita» ou «Vou Levar-te Comigo», termina. Seguir-se-á uma carreira a solo de Raul, que organizou o seu próprio grupo de danças e cantares angolanos. Ao mesmo tempo, Indipwo abraçava, cada vez mais, a pintura. Onde o seu talento começou a ser notado igualmente. E reconhecido, o que muitas vezes não acontece. E agora a Morte «levou-te com ela.»
A.F.



Dono de Agência responde a perguntas



Estas perguntas acerca da África do Sul foram colocadas num site turístico sul-africano e respondidas pelo dono do site (verídico). Constam de um imeile que recebi do Raul Palhau, outro akuñado que tenho em Montréal, Québec, aliás na mesma cidadezinha satélite chamada Chateugay, com u a seguir ao g, senão... Se isto fosse permitido em toda a parte, o trabalho nas Informações seria muito mais divertido... Na verdade, o sentido de humor do proprietário é notável. E as perguntas... de meter susto. Façam o favor de ler, apreciar e, se o quiserem, comentar.

P: Costuma fazer vento na África do Sul? Nunca vi na TV que aí chovesse. Assim, como é que as plantas crescem? (GB)
R: Nós importamos todas as plantas completamente crescidas e depois ficamos por aqui sentados a vê-las morrer.


P: Serei capaz de ver elefantes nas ruas? (EUA)
R: Depende daquilo que beber.


P: Quero ir a pé de Durban à Cidade do Cabo. Posso seguir as linhas do comboio? (Suécia)
R: Claro, são só dois mil quilómetros. Conselho: leve muita água...


P: É seguro andar a correr pelos arbustos na África do Sul? (Suécia)
R: Então, sempre é verdade o que se diz sobre os suecos.


P: Existem caixas Multibanco na África do Sul? Pode-me enviar uma lista das que existem em Joanesburgo, Cidade do Cabo, Knysna e na Baía de
Jeffrey? (GB)
R: O seu último escravo morreu de quê?


P: Pode dar-me alguma informação àcerca das corridas de coalas na África do Sul? (EUA)
R: A Aus-trá-lia é aquela ilha grande no meio do Pacífico. Á-fri-ca é aquele continente em forma de trapézio e triângulo colados a sul da Europa e não tem... Olhe, esqueça. Claro, as corridas de coalas realizam-se todas as terças-feiras à noite em Hillbrow.
Venha nu.


P: Para que direcção fica o Norte na África do Sul? (EUA)
R: Fique de frente para Sul e depois dê uma volta de 90º. Entre em contacto connosco quando cá chegar e nós damos-lhe o resto das instruções.


P: Posso levar talheres para África do Sul? (GB)
R: Para quê? Coma com os dedos como nós todos fazemos.


P: Podem enviar-me o horário das actuações do Coro dos Pequenos Cantores de Viena? (EUA)
R: A Aús-tri-a é aquele pequeno país que faz fronteira com a Ale-ma-nha, que é... Olhe, esqueça. Claro, o Coro dos Pequenos Cantores de Viena actua todas as terças-feiras à noite em Hillbrow, logo a seguir às corridas de coalas.
Venha nu.


P: Têm perfume na África do Sul? (França)
R: Não. Nós não cheiramos mal.


P: Criei um novo produto que é a Fonte da Eterna Juventude. Sabe dizer-me onde a posso vender na África do Sul? (EUA)
R: Em qualquer local onde se reúnam muito americanos.


P: Sabe dizer-me onde é que, na África do Sul, a população feminina está em menor número do que a masculina? (Itália)
R: Sim, nos clubes gay só para homens.


P: Celebram o Natal em África do Sul? (França)
R: Sim, mas só no Natal.


P: Têm abelhas assassinas na África do Sul? (Alemanha)
R: Ainda não, mas para si - mandamos vir.


P: Existem supermercados na Cidade do Cabo? E há leite durante todo o ano?(Alemanha)
R: Não, nós somos uma pacífica civilização Vegan de caçadores-recolectores.
O leite é ilegal.


P: Por favor envie-me uma lista de todos os médicos em África do Sul que tenham ou consigam arranjar soro* de cascavel.(*Antídoto para dentadas de
cascavel). (EUA)
R: As cascavéis vivem na A-mé-ri-ca, que é de onde VOCÊ é. Todas as cobras sul-africanas são perfeitamente inofensivas, podem ser facilmente manuseadas e são bons animais de estimação.



P: Estive na África do Sul em 1969, e gostava de contactar a rapariga com quem namorei enquanto estive em Hillbrow. Pode ajudar-me? (EUA)
R: Sim, mas mesmo assim vai ter que continuar a pagar-lhe à hora.


P: Poderei falar Inglês na maioria dos locais para onde for? (EUA)
R: Sim, mas primeiro vai ter que aprender.

_________________

Uma pequena nota de pé-de-página. Em 1962 decorreu em Lisboa, o X Congresso Mundial de Pediatria, a que até vieram polacos, húngaros, checoslovacos e, pasmem, até soviéticos. Aliás foi tão vigiado pela prestimosa que passou a ser chamado da Pideatria... Fui lá intérprete/acompanhante e, uns dias antes dele ser inaugurado, estive a atender perguntas de ilustres psiquiatras. Muitos deles insignes professores unversitários, sobretudo dos Estados Unidos. Lembro aqui apenas uma pergunta. Para chegar a Lisboa é perigoso? Ouvi dizer que há guerra em Angola e, por isso... Tratava-se de um catedrático da Universidade de Georgetown. Para quê mais conversa?...

A.F.


Este éké o joliva


João Santos, mais conhecido por joliva. Apanhado em flagrante no local de trabalho (???), ali à Rua do Salitre, mais precisamente quando se preparava para se esconder atrás do computas do Rente, o que não conseguiu. Será, oportunamente, entregue à PSP, à Interpol, ou à Orocpol. Neste momento, de fim-de-semana, encontra-se em paradeiro indeterminado, de acordo com as fontes do Rossio. Dão-se alvíssaras a quem o encontrar. Foi visto pela última vez junto à capelinha da Luz, alegadamente à espera de um senhor engenheiro. É lampião, mas não morde. Cuidado com ele!!!...

Amigão: o prometido é devido. Aqui fica uma imagem verdadeiramente para a poster idade. E também, devidamente arrolado, um grande abração de amigo para Amigo. E muito obrigado pelo blog que é seu e onde, por vezes, se descuida e publica umas merdas de minha autoria... Até já, João Amigo, eu, pelo menos estou contigo. Vossemecê é bué de fixe!
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sábado, junho 03, 2006






RIMAS A METRO

Justificação injustificada

Foi o Armando Fernandes, meu acanhado akuñado que me meteu neste labirinto quase tão complicado como o saralho do Carrilho. E para quem não saiba o que se passou, desde a recusa do aperto de mão na SIC, até ao desgraçado programa na RTP, aconselho que se deixe de wrestlingios e opte pelos golpes do ex-ministro da Cultura, ex-candidato à Câmara Municipal de Lisboa, e outros ex. Que bárbara situação, gente, nem em Guimarães tal ocorreria. RIP.

Com as cegadas carrilhistas, acolitadas pelo Rangel, desviei-me do assunto a que vinha. Mil perdões. Reentro nos carris, neste ano do 150º aniversário do caminho-de-ferro em Portugal. Com maquinista e fogueiro, muito carvão e muitos quilolitros de água, muito vapor e muito apito e, ainda, com muita fumarada, lá vou eu onde pretendia chegar, ainda que parando em todas as estações e apeadeiros, já que sigo em comboio-correio.

Mau, mau, tome eu cuidado com os descarrilanços. A ser assim, nunca mais chego à explicação que almejei. Que o mesmo é dizer ao cais de destino. Olá, destino, fatal, fatal, fado, fado, rima. Concatenado e satisfeito, exaro aqui a culpa do marido duma irmã da minha estimada cara-metade. Reitero firmemente a asserção: foi o Armando que me deu o pontapé no, isto é, de saída nas versalhadas.

Nunca tal fizera em muito mais do que meio século de vida. Poeta, esse sim, é o Fernandes, refinado em Chateaugay, perdão, Chateauguay, de La Belle Province do Canadá. País assim chamado por mor dos portugas que terão afirmado quando ali chegaram – esta terra cana dá. Si non e vero, e bene trovato. Pois o nosso homem (salvo seja) com tanto poema da autoria dele e de qualidade, deixava-me de cara à banda. Eu, que sempre me manifestara defensor indómito da nobre prosa, hesitei. Não digo êxitei, porque me considero um fracassado no verso. Dá Deus nozes…

Nozes por nozes, o que é certo e comprovado é o acidente que sofri; atirei-me a rimalhar que nem gato a bofes. Verdadeiros versos de todo quebrados, quando os puristas apenas falam em pé idem. O desespero traz a coragem, essa é que é essa. A necessidade aguça o engenho. Porém, no caso perdido que sou, nem engenho, e arte – muito menos.

Pedindo, avisada e antecipadamente, desculpa ao blog e aos que se dão ao desplante de o irem lendo, ainda que infringindo o autor todas as regras ambientais, poluindo este local [até à data mais ou menos (se)pulcro] e infectando quiçá quem ainda me atura, lá vai rima.

Enchendo de mosquitos as televisões
Pior que a praga da praia de Caparica
O professor encontrou nas confusões
Motivo para justificar o fica, não fica.
Não ficou na Câmara o triste do Carrilho;
Meteu-se até ao pescoço num sarilho

Assim vai este País de muitos marinheiros
Da crise eterna, das angustias e dos ais
Temos sido assim, sem pena… nos tinteiros
Desde o Afonso Henriques e outros mais
Que fada nos teria dado esta sina malfadada?
Se soubesse quem fora, corria-a à chapada!

Fada, fado e outras palavras sempre à moda
Basta trocar as vogais e sai-nos o palavrão
Nestas coisas de rimar, é uma grande poda
Que não deixa ramo, nem folha, nem botão.
Se assim acontecer no Mundial da Alemanha
É o Scolari, no fim de tudo, quem apanha…

Cada vez mais me sinto feliz em Portugal
Dizia o padre Américo: não há rapazes maus
Somos assim, pra nosso bem ou pra nosso mal.
Nem dos velhos castelos se safam os calhaus.
O de São Jorge, o de Palmela, o d’Almorol
E bruxas e bruxos embrulhados num lençol

Não bastavam ao Sócrates as maternidades
Com as senhoras sentindo as dores de parto
Querendo dar à luz em todas as cidades
Com tanto fórceps já começo a estar farto.
Ora são os farmacêuticos, ora os funcionários
Já não há pachorra, nem tento, nem ovários

Para aguentar manifes, protestos, alta grita.
Diz o ministro das Finanças que eles não querem
Mudar nada, gostam que tudo fique na desdita
Nem nova carreira, nem nova saúde eles preferem
E não parece haver forma de aturar tantos
Melhor teres ficado no Porto, Teixeira dos Santos

Porem, agora, que temos novo inquilino em Belém
Um tal senhor Silva como disse o Alberto João
Que sabe o que querem todos, o que lhes convém
Que dá cavaco a tudo o que sente cada cidadão
Faz cruzada pelos pobres, veta a Lei da Paridade
É quase uma bênção de Roma ao Mundo e à cidade…

Cessem, portanto, os lamentos, parem os gritos
Deixem-se de algazarras, de greves, de discussões
Vivemos numa terra de benditos e de muitos aflitos
Sem Paz nas almas, sem alegria nos nossos corações
Valha-nos uma outra vez, de Fátima, a Senhora
Senão, um dia destes, vamo-nos todos embora…

Henrique, o Vate da Lapa

Repito o pedido de escusas. Que mal teriam feito os visitantes do Travessa do Ferreira para serem sujeitos a tais sevícias, a tais flagelações? Pelo sim, pelo não, e sabendo o que a casa gasta, não prometo, muito menos juro, não voltar a estas cavalhadas. Se cair na tentação espúria de o fazer, será, quiçá, uma vez por ano. Ou será uma por mês? Ou, quem sabe, uma por semana. E não digo por dia - que a idade já pesa.





MAIS GUERRA COLONIAL

Não nasci para heroi

Antunes Ferreira
C
hegados a Angola, os homens desembarcaram no porto de Luanda. À espera tinham destinos abissalmente diferentes, ainda que a maioria soubesse que ia direitinha para a mata. Mata de árvores, está bem de ver, já que a outra ainda não começara a roer-lhes o pensamento e os tomates. Após ter descido do Uige, os meus cunhados que se penduravam em volta da minha mulher, começaram logo de entrar pelas perguntas. Já me conheciam, ainda como o namorado da Manazinha, mas esta nova orgânica familiar era diferente.

E começaram logo de contar estórias. Vindos de Goa uns dois anos antes, qual quê, menos, com uma estada de meses em Lisboa, tudo para elas e ele era novidade. Tinham passado por locais nunca sequer imaginados, mas estavam satisfeitos. «Henrique, já que estamos aqui, sabes a do soldado acabadinho de pôr pé em terra que viu um ardina meninote?» Não sabia. «Vá, conta lá…» «O soldas perguntou-lhe. Ó miúdo, o jornal é d’hoje?» «Não patrão, é dojiquinhento…» Que o mesmo é dizer que ainda havia periódicos a vinte e cinco tostões… E patrões.

O batalhão mobilizado por Infantaria 1, que tinha estado a treinar para a porrada no «meu» quartel, ia arrancar para Zala. Sob os comentários dos velhos que tentavam amedrontar os maçaricos. Aquilo é fodido. É só porrada. Um gajo nem sabe para onde se virar. E não tem safa. É calar e comer. Sobretudo comer nas trombas e no cu. Quem ainda não estivesse habituado ao linguajar, era a altura indicada.

Eu ficava por Luanda, mais precisamente na CCS-QG. Oficial de Justiça, milicianíssimo, em rendição individual, com a Raquel na mesma cama e os catraios no quarto ao lado – que mais queria? Os outros iam jogar aos paus e às pedras com os que então chamavam turras. Sem a família ao pé, está bem de ver. Num sítio daqueles só lhes restava a prática solitária, mais ou menos empenhada, menos ou mais frequente.

Pelos na palma da mão

Desta maneira ainda arranjo pelos na palma da mão direita, diria mais tarde o sorja Serafim, antigo cabo RD e furriel da tropa local, praça de primeira. Também havia as de segunda, que ainda falavam mal o português e ao rancho comiam peixe seco e funge de bombó. Alguns deles, básicos. Não tinham sequer concluído a recruta. Ou melhor. Tinham sim, meu capitão, mas haviam chumbado. Trocavam o passo e mal sabiam pegar na canhota. Uns más- línguas diziam que fora de propósito, a fim de não irem para os tiros. Sacanas. Verdadeiros?

A boa vida da ilha de Luanda, com a família à perna não fosse a tentação dos ébanos femininos, era mais Nocal e camarões. Para mim, porque outros preferiam a Cuca do Manuel Vinhas. O Cacuaco tornava-se local de peregrinação aos domingos. Marisco – e bom! E baratíssimo! – à fartazana. Ia-se ali com devoção e ritual iguais como se se fosse a Fátima. Só que sem farnel, pois as rações eram locais, abundantes e… baratíssimas.

Ao fim de uns dois/três meses, avancei com o primeiro MVL para o Negage a levar bois vivos, que depois de excutados mudavam de sexo. Movimento de Viaturas Logísticas assim se chamava. E logo por Nambuangongo, nome mítico que tinha sido reconquistado pelo Maçanita logo a seguir à ocupação, aliás sumariamente temporária, pela UPA de Holden Roberto, numa sangueira desatada.

Encontrar um camuflado à minha medida foi a primeira trabalheira. A segunda resultaria da largada que os cornuptos protagonizaram ao fugirem quando eram levadas para as camionetas. Palavra de honra. Alcochete ou Vila Franca de Xira teriam ficado envergonhados. E os forcados do Nuno de Salvação Barreto também.

Picada e lama

Finalmente - a picada. O silêncio da mata precavidamente calada. A GMC rebenta-minas, à frente, 117 camiões civis carregados de bric-a-brac para o pessoal encalacrado na selva. Gin e whisky do melhor, à mistura com cunhetes de munições, armas, ajudantes empinados lá por cima das lonas das coberturas, bacalhau, batas e grão-de-bico mais uma caterva de outras lambuzeiras. E os bois/vacas, vivíssimos da costa, antevendo matadouro.

Emboscada. Tiros a esmo. Salto da cabina branca da White e alapo-me no meio da lama vermelha. Chove a cântaros. A pasta pegajosa entra-me por baixo da gola a verde e castanho, percorre-me costas e bandulho, arranha-me os colhões e deposita-se nos pés amparados por polainitos. Não dou um tiro, é a primeira vez de tais andanças, limito-me a praguejar contra aquela merda toda.

Pelo ar quente, denso e embaciado, soam rajadas e insultos – de ambos os lados. Uma bazucada atira ao ar uns taratas sem culpa formada. Morrerão dois, um logo decepado e outro a esvair-se a vermelho, intestinos de fora, rotos. Mais zumbidos de metal assassino, mais impropério, vai no cu do Salazar, portuga, vai tu à cona da tua mãe, filho da puta. Raio de combate, cum caralho.

Acabada a sessão, a lama que eu sou volta ao camião. O senhor Branco, proprietário do bicho e chofer de profissão, olha-me de esguelha, com um sorriso afivelado na face. O tipo tem as duas pernas artificiais, metálicas e assim mesmo conduz. Isto é, voltou a conduzir. Tinha-me intrigado e interrogado a mim próprio o porquê dessa atitude. Mais tarde, já amigos, ele explicar-me-ia.

Naqueles transes, porem, o camionista começou a gargalhar. O que é que você tem, ó Branco? Nada, nada, meu alferes. Olhe: da próxima vez, leve a G3 consigo… Tal e qual. Na pressa de cavar da White, deixara o espingardum no chão da cabina. Os gajos podiam ter-me apanhado – à mão. Não concordava, sempre o afirmara, com a trampa da guerra colonial. Mas só aí compreendi, finalmente, que não nascera para herói.




O primeiro veto

Antunes Ferreira
Já temos o primeiro veto do Presidente da República: a lei da paridade, que obrigava os partidos a incluir um terço de mulheres nas listas partidárias candidatas às eleições. Cavaco Silva entendeu que os meios propostos para aumentar a participação das mulheres na vida política são desproporcionados e enviou o diploma de regresso ao Parlamento.

Na mensagem aos deputados, o inquilino de Belém explicou que é uma severa restrição à liberdade o facto de - nos termos da lei agora vetada - os partidos serem impedidos de concorrer a eleições se não cumprirem a lei da paridade. Isto porque o diploma limita a liberdade que cada partido tem de organizar as suas listas eleitorais e acrescenta que a constituição de listas fica seriamente dificultada em zonas do país menos povoadas e mais envelhecidas.

Cavaco Silva acrescentou ainda que a lei da paridade tal como foi apresentada, adopta um dos regimes de sanções mais rigorosos da União Europeia, sem que se tenham experimentado outras soluções. O Presidente conclui que a dignificação dos direitos políticos das mulheres não deve ser assegurada por mecanismos proibicionistas.

De imediato, os partidos políticos vieram à estacada, emitindo opiniões naturalmente diferentes. Para o líder parlamentar do PS, Alberto Martins, o veto do Presidente é considerado legítimo, mas deixa a promessa, que o PS vai alterar a lei ao apresentar «formalmente um novo projecto de lei» que compreende o essencial do diploma vetado.

O BE que propusera a lei juntamente com os socialistas afirmou pela boca do seu deputado Luís Fazenda que o veto reflecte uma «posição política conservadora.» Ele salientou ainda que «é forçoso notar que o PR não suscitou a inconstitucionalidade da lei, tomou uma posição política conservadora, contrária ao incremento da participação política das mulheres.»

A total concordância do PSD

Já Marques Mendes sublinhou a «total concordância» com o veto político do Presidente e destacou que a posição de Cavaco Silva vai de encontro com a posição dos sociais-democratas. Para Marques Mendes «a iniciativa do PS tem como objectivo aumentar a participação das mulheres na vida política, com o qual concordamos. Mas fazê-lo através de quotas é uma forma de menorizar o papel das mulheres», acrescentou.

Para o PCP, as razões do veto foram e são «válidas». O Partido Comunista considerou que as preocupações do Presidente correspondem às do partido. «As razões são válidas. Vêm ao encontro das preocupações que colocamos na discussão na assembleia da República», adiantou, Bernardino Soares.

Quanto ao CDS-PP considerou, que «a participação das mulheres na política deve acontecer pelo seu mérito e não por uma questão de género. Sempre fomos contra o sistema de quotas e vimos que hoje, na mensagem do Presidente da República, esta é a argumentação que colhe,» sublinhou Mota Soares em nome dos centristas.

O começo de um braço de ferro?

N
ão é, por enquanto, um braço de ferro. Mas pode ser o começo. Para já é uma demonstração clara de que Aníbal Cavaco Silva quer ser interveniente na política portuguesa, ainda que dentro da mais estrita legalidade constitucional. Sabia-se. O primeiro Chefe de Estado eleito pela Direita começou, deste modo, a mostrar que não vai ficar de braços cruzados. Aqui há uns anos, lembram-se, Mário Soares disse ao entrar em Belém que não seria uma Rainha de Inglaterra com calças. Possivelmente com outra entoação desta.

No entanto, este primeiro veto de Cavaco tem uma conotação, aliás logo sublinhada por Marques Mendes. Ele vai no sentido da posição do PSD no hemiciclo de São Bento. Por isso mesmo, os sociais-democratas o aplaudiram. Por isso mesmo, os centristas/populares os seguiram como alunos obedientes. Já se afira mais estranho que os comunistas os acompanhem. Mas, com bloquistas a quem esfolariam vivos ou sem, o certo é que se integraram nesse grupo heterogéneo.

O Parlamento, na natural observância da Constituição, irá apreciar de novo a proposta socialista, que se pode manter no essencial, com algumas alterações pouco significativas, ou desviar-se do rumo primeiro, do que resultaria a renúncia do BE, compagnon de route do PS. Claro que a maioria absoluta tendo as suas vantagens, também tem coisas desvantajosas.

Curzio Malaparte, na sua obra Técnica do Golpe de Estado, 1931, afirmou que «ela (a maioria absoluta) é uma faca de dois gumes.» Malaparte foi por sua vez definido por Piero Gobetti como «a melhor pena do fascismo.» E este último, considerado um dos maiores escritores políticos e analistas italianos do século XX, foi o defensor da teoria de que a revolução de Lenine e de Trotzky era uma revolução liberal «porque é acção, é movimento, é tudo aquilo que se move em direcção ao liberalismo.» Curiosa afirmação de quem definiu o fascismo como um «movimento plebeu e assassino da liberdade» e o antifascismo como «a nobreza do espírito» e que apreciava o bolchevismo mas odiava o estalinismo.

Este foi, perdoem-me os leitores, apenas um devaneio no mundo das ideias e das ideologias (estas, que alguns consideram estar mortas, mas não estão) que gosto de fazer, mas que, por vezes não é muito compreensível, sobretudo pelos mais conservadores. Convém aqui relembrar que entre os defensores deste óbito sem certidão se encontrou - e creio que ainda se encontra - Aníbal Cavaco Silva.

As cenas dos próximos capítulos desta telenovela política vão ser interessantes, penso. O desempenho dos vários actores que a interpretam é, neste momento, relativamente previsível. Não nos esqueçamos que não é apenas o Parlamento que está em jogo vis-a-vis Presidente da República, mas também o Executivo chefiado por José Sócrates. Que, nela não é segunda figura – é um protagonista igual aos outros dois.

Irá equilibrar-se este tripé? Iniciar-se-á aqui o falecimento a la longue da coabitação que Belém e São Bento tentam continuar, para não dizer salvar? A única conclusão deste silogismo a três incógnitas que por agora se pode tirar é que se tratou… do primeiro veto político de Cavaco Silva. O resto é futurologia.

sexta-feira, junho 02, 2006







No Dia Mundial da Criança

Como gostaria de dizer
Hoje,
Aos meus netos e a todas as crianças
Tomem este Mundo que é vosso
Onde todos têm trabalho
Onde a justiça social existe
Onde há pão e onde há liberdade,
Onde cada um se respeita,
Respeitando!
Gostaria de dizer, hoje,
Aos meus netos e a todas as crianças
Tomem este Mundo fraterno e solidário
Onde crianças, como vós,
Já não morrem de fome
Onde cada pai tem o seu justo salário
E Paz
E esperança num amanhã melhor!
Mas o que fez a minha geração?
Estragou o pão, aqui, quando ali houve fome
Esqueceu princípios e roubou irmãos
E só escutou o Povo na hora da eleição!...
Mas outros, todavia, lutaram por nobres ideais! E sofreram...
Por isso quero dizer-vos neste dia:
É preciso continuar a luta do passado,
Enfrentar já o que oprime e esmaga,
Rasgar caminhos e quebrar algemas
E, então, criar um Mundo livre e novo,
Não somente para alguns, mas para todos!

01 de Junho
Kalidás Barreto

Prazer e felicidade


O Travessa do Ferreira tem o prazer e a felicidade de ter «roubado» para publicação este poema de um Homem que se notabilizou como sindicalista e, ainda, como político. Que já foi um pouco de tudo, mas que, no entanto, continua na sua Castanheira de Pera, Director Comercial e de Vendas da Fiandeira Castanheirense, onde já faz parte dos móveis e utensílios...

Meu Amigo (com caixa alta) de longa data, camarada de lutas e de sacrifícios, o Kalidás é um grande ponto. De interrogação? Nada, nada. De exclamação e até de aclamação. De quando em vez reencontrávamo-nos em casa do Cursino Coutinho, bombeiral militante e de sua esposa Dona Odete, ali mesmo na Pera, no caroço, ou seja no centro, para umas sardinhas assadas de estalo e umas febras idem, de aspas.

Um Figueira desnaturado

Ao correr das teclas (onde vai a pena?... disto tudo?), lembro-me que, além do Kalidás, os Coutinhos tinham uma mão cheia de convidados a portarem-se mal (como é o caso do escriba e sua amantíssima Raquel). A todos recordo por vezes. Ainda que vagamente, um há cujo me é mais difícil de identificar, mas que, ao que parece, é genro dos anfitriões, casado com uma filha deles, a Paula Coutinho, médica conceituada e especializada em ressuscitar cidadãos abatidos na auto-estrada.

Peço milhões de desculpas ao Kalidás, cuja crónica de bom malandro (obrigadinho, Zambujas) tentarei traçar mais à frente. Mas, por ora, e dado que as palavras são como as cerejas, avanço por esta ínvia vereda de tentar nomear o tal senhor genro. É um tipo (ia para dizer gajo, mas lá viriam as almas caridosas e hermínicas...) de falas mansas e sem ondas.

Penso lembrar-me de algo: o senhor em causa chama-se João. João F....? Será Fonseca? Não. Será Fidalgo? Muito menos, nem brasão tem. Será Ferreira? Porra para primos desses!... De repente faz-se luz no meu espírito acabrunhado e esquecido: é Figueira. Só a árvore em que alegadamente se terá enforcado o outro me levaria a rememorar o apelido. Figueira. João Figueira.

Há quantos séculos o(s) não vejo? Antes ou depois do Cristo? Amigos do peito – que é a verdade, nua e crua – não podem estar afastados tantas décadas... Porém, há sempre um momento em que. Um abração, ó Figueira, João. & adjacentes. Estava só a brincar, como é evidente. Ainda que a brincar, a brincar, foi o macaco...

Filho de peixe...

Volto ao K. Barreto. Não lhe conhecia esta veia cava, digo, poética. Sabia sim que o seu Pai fora um emérito na rima. Há quem diga que o melhor poeta de Goa. Não me pronuncio, para não dar cabo da isenção que não tenho. Mas é bonito dizer assim e, principalmente, soa a politicamente correcto. Banalidades. Entre o falecido pai Adeodato e o filho Kalidás descobri mais um elo. As estrofes. Não haja dúvida: filho de peixe... é peixe júnior.

Pois foi esse dito Kalidás que me entregou o verso, no Sabores de Goa, restaurante à maneira onde se reúne, todas as quintas-feiras, uma célula da Máfia goesa. Na qual, por simples afinidade, fui admitido sem pagar quota, mas também sem direito a cartão gold. Nunca me posso esquecer de que sou um pakló de três ao pataco. Mesmo assim integro o gang. Muito obrigado.

Aqui fica, por conseguinte, ainda que atrasado um dia, entre um balchão e um sarapatel, o verso do Kalidás a propósito do Dia Mundial da Criança. Que todos fomos – uns menos, outros mais, alguns assim, assim – mas que tudo indica que nos esquecemos de o ter sido.

A.F.

quinta-feira, junho 01, 2006

Nuno de Siqueiros - Democracia


A Democracia e os cristãos novos

Antunes Ferreira

Meus Amigos. Dirijo-me a vós que felizmente sois muitos. Mas endereço também este escrito aos que, embora não me conheçam, têm deixado neste blog comentários os mais diversos. Nestas coisas, estou como o barão Pierre de Coubertin em relação aos Jogos Olímpicos que ressuscitara: «O importante não é ganhar; o importante é participar». Máxima que, a ser cumprida, preveniria muitos aborrecimentos, muitos alecrins e manjeronas, muitas invejas, muitas mortes, muitas destruições – muitas guerras, enfim. Aplicável, por conseguinte a toda a vida, com mais ou menos fair play.

A prática democrática implica incontornavelmente que quem a exercita seja... democrata. No bom sentido da palavra? Como assim? A Democracia existe ou não existe; vive-se ou rejeita-se; pratica-se ou proíbe-se. E não tem nada a ver com a cor política. Há Democracia quando não há ditadura e pronto. Por conseguinte, o sentido é só um. No trânsito diz-se único.

Um Homem chamado Winston Churchill afirmou lapidarmente a este propósito que a pior das democracias era sempre melhor do que a melhor das ditaduras. Dando de barato que há ditaduras melhores e piores – do que não acredito e, por isso, rejeito o que se diga a tal propósito – é necessária explicação para que uma ditadura seja... menos má. Mas nem assim eu embarco.

A frase do Velho Leão é, porem, uma profissão de fé na Democracia. E por essa razão gosto dela e por isso aqui a transcrevo. Digo-vos, en passand, que tenho Amigos em todo o espectro democrático. A Amizade transcende, para mim, as diferenças partidárias e está gigantescamente acima da partidarite.

Assino, não assassino

D
esde que me conheço a pensar, tem sido esse o lema pelo qual me norteio. E, habituado que estou a escrever textos opinativos, crónicas e outras estórias, sempre os assino. Não os assassino nem pretendo assassinar os que se dão ao trabalho de me lerem – o que sempre agradeço. Quando comigo concordam, mas principalmente quando discordam.

Já quanto a insultos – sou mais bolos. Registo-os naturalmente, como naturalmente os acolho. Com engulhos é certo, mas quem anda à chuva molha-se, mesmo que munido de chapéu-de-chuva abundante e com gabardina teoricamente impermeável. Sempre há uns milímetros quadrados de um sujeito que recebem uns pingos, ainda que a queda pluviométrica seja de molha-tolos. Em Angola usa-se cacimbo.

Quando referi assino é porque o faço com o meu nome. Não uso pseudónimos, porque não gosto. Mas é óbvio que os entendo, aceito e reconheço. Muito menos me refugio no anonimato cobardolas. Há quem o faça. Há até quem escreva algo e assine com um nome falso, tanto ou mais do que o gajo dos trinta dinheiros. Ressalvo que também não me refiro aos heterónimos, como é evidente. Acredito que não sou totalmente burro nem absolutamente inculto. Presunção e água benta...

Os nomes falsos são outra forma de se esconder quem os utiliza. São estes a que chamo cristãos novos. Com alheiras ou sem. Serão indício de medo? Quem sabe. São, no mínimo, vãos de escada esconsos, são comida envenenada, são atentados tenebrosos ao direito ao bom-nome – o verdadeiro. Desvios de personalidade? Serão? São, disso tenho a certeza, traiçoeiros e conspurcados. São uma merda, enfim.

Nomes falsos

O
ra bem; a prática da Democracia e a vivência da Liberdade são valores imprescindíveis, no meu modesto entender, para que o homem seja... o ser humano. Pleonasmo ou não, assim é que é. Volto, porem, ao início deste escrito. Para vos dizer que aqueles que afirmam que não se deve confundir Liberdade com libertinagem, normalmente estão a apresentar um álibi para a ausência da primeira. Ainda que o significado de ambas o permita.

De igual modo, falar-se em democracia musculada é um arroto de quem sabe que isso não existe. Usar o músculo em lugar da razão é sinónimo de ditadura, (por mais que se alegue ou auto classifique democrata). A que esses mesmos qualificam de mitigada. Não haverá PIDE, passa a haver DGS. Não existirá Censura, transforma-se em leitura prévia. Muda-se para que tudo fique na mesma. Mitigada? Falsificada.

Por aqui me fico. Nestes andamentos é preciso encontrar a clave de sol para que o solfejo não se quebre. Duvidam? O solfejo é de cristal, toda a gente o sabe e alimenta-se do que lhe entoam, sob a égide do diapasão. Obra afinada quer-se, pois. Em pauta escorreita, alinhada, os colchetes onde têm de estar e as semifusas sem motivos para dúvidas – existenciais?

Estes discorrendos musicais têm a sua razão de ser. Uma orquestra tem de ser um todo, no qual os músicos, e em particular os solistas se conjugam com o maestro. O que só vem demonstrar à saciedade que o colectivo é importante, mas não dispensa o contributo individual. Assim é a Democracia, onde todos cabem, mas alguns sobressaem. Porque se distinguem face à sua qualidade. Se outro critério for utilizado, mal vai ela.

Escrevi atrás que por aqui me ficava. Não fiquei. Não fico. Este texto tem uma razão de ser, como, de resto, todos têm. Não fosse assim e de nada valeria emparelhar palavras ou mesmo conceitos com a finalidade de demonstrar que isso ainda é possível, antes que o deixe de ser. Por isso, não me fiquei, nem fico, nem ficarei.

Correndo, embora, o risco do bocejo dos que me aturam, quero deixar aqui bem expresso que não é com ameaças estultas ou insinuações maldosas, ou acusações desrazoadas que quem quer que seja me tentará intimidar. Um gajo é um gajo e um gato é um bicho. Se não gostarem da afirmação, têm recursos diversos. Quando eu era puto, dizia-se que nesse caso de não se gostar, punha-se na beirinha do prato. Caso o poder paternal estivesse distraído.


CULTURA&NOVAS

Paul Auster vence «Príncipe das Astúrias»
António Lobo Antunes e Luandino Vieira eram candidatos


O Prémio Príncipe de Astúrias das Letras 2006 foi atribuído a Paul Auster, considerado um dos escritores norte-americanos mais reconhecidos e admirados universalmente. Ao galardão concorreram 27 candidaturas, entre as quais a de António Lobo Antunes e a do angolano Luandino Vieira.

Novelista, poeta e guionista, Paul Auster nasceu em Newark (Nova Jersey, Estados Unidos) em 1947. Depois de completar os estudos na Universidade de Columbia, pela qual se licenciou em Literatura Inglesa e Comparada, viveu três anos em França (1971-1974), onde exerceu os mais diversos ofícios, fez traduções de Mallarmé e Sartre, entre outros, e escreveu poesia e obras teatrais de um acto. Durante esse período passou algumas dificuldades económicas.

Já em Nova Iorque, Auster dedicou-se, de novo, à tradução e começou a publicar críticas, poesias e ensaios em revistas como a "New York Review of Books" e "Harper's Saturday Review". Começou a ser conhecido como escritor com a publicação de "Inventar a solidão" (1982), obra autobiográfica, e, sobretudo, com a "Trilogia de Nova Iorque" (1985-1986). Trabalhou também como guionista em 1993. Da sua mão saíram outras obras como "Timbuktu", "Leviathan", "O livro das ilusões", "A música do acaso", "A noite do oráculo" e, mais recentemente, "As loucuras de Brooklyn", só para citar algumas.

Este foi o quinto dos oito prémios Príncipe de Astúrias concedidos este ano. Os outros foram de Cooperação Internacional (a Bill e Melinda Gates), o de Comunicação e Humanidades (à National Geographic Society), o das Artes (concedido a Pedro Almodóvar) e o da Investigação Científica e Técnica (a Juan Ignacio Cirac). Na próxima semana, será anunciado o prémio das Ciências Sociais, ao passo que os de Desporto e Concórdia serão divulgados em Setembro. Em 2005, o Prémio Príncipe de Astúrias de Letras foi atribuído a Nelida Pinon e, em edições anteriores, a Mario Vargas Llosa e Gunter Grass, entre outros.
(JORNAL DE NOTÍCIAS - 2006-06-01)