sábado, maio 20, 2006

Intróito

Esta estória deliciosa foi-me enviada por imeile pela boa Amiga Filomena Caetano, colega da Raquel na TAP, que continua a dar-se connosco optimamente e, de quando em vez, me manda «coisas» destas - e piores... Não resisto a inclui-la no Travessa do Ferreira. É um pouco longa; mas vale a pena!!!!!! Ora leiam, sil us plau
A.F.




Diário de um dono de casa

Porque se queixarão as mulheres das lides domésticas se basta um pouco de organização?


Segunda-feira


Sozinho em casa. A minha mulher foi passar a semana fora. Ora aí está uma excelente mudança. Vamos passar uma semana inesquecível, o cão e eu.

Delineei um programa e organizei o meu horário. Sei exactamente a que horas me levantar, quanto tempo demoro na casa de banho e a preparar o pequeno-almoço. Acrescentei o número de horas de que preciso para lavar a loiça, fazer limpezas, passear o cão, ir às compras e cozinhar. Fiquei agradavelmente surpreendido com o muito tempo livre que ainda terei. Não percebo porque é que as mulheres se queixam da lida da casa se tudo isso exige tão pouco tempo. O segredo está numa boa organização.

O cão e eu comemos um bife cada um ao jantar. Vesti-me a rigor, acendi uma vela e pus rosas numa jarra para criar uma atmosfera aprazível. O cão comeu paté de foi gras como entrada, repetiu a dose como prato principal, com uma requintada guarnição de legumes e biscoitos à sobremesa. Eu bebi vinho e fumei um charuto.
Há muito que não me sentia tão bem.

Terça-feira


Tenho de dar uma olhadela ao meu horário. Uns pequenos acertos.
Expliquei ao cão que não se pode ter festa todos os dias e que por isso, não pode estar à espera de entradas e três tigelas de comida, que é claro, tenho de lavar.

Ao pequeno-almoço, verifiquei que o sumo de laranja natural tem um inconveniente. É preciso lavar sempre o espremedor. Alteração possível: fazer sumo para dias. Assim só tenho metade do trabalho.

Descoberta: posso aquecer salsichas dentro da sopa. Menos uma panela para lavar.
É claro que não pretendo aspirar todos os dias, como a minha mulher queria. De dois em dois dias é mais que suficiente. O segredo está em andar de chinelos e limpar as patas do cão. Quanto ao resto sinto-me optimamente.

Quarta-feira


Tenho a impressão de que afinal a lida doméstica leva mais tempo do que pensava. Preciso de repensar a minha estratégia.

Primeiro passo: comprei um saco de comida rápida. Não tenho de perder mais tempo com cozinhados. É um disparate perder mais tempo com a comida do que a comê-la.

A cama é outro problema. Primeiro é preciso sair de dentro do edredão, a seguir arejá-lo e por fim fazer a cama. Que complicação! Acho que não vale a pena fazê-la todos os dias, sobretudo porque nessa mesma noite voltarei a deitar-me. Parece-me inútil.

Deixei de fazer refeições complicadas para o cão. Comprei algumas de lata. Ele fez má cara, mas não teve outro remédio senão comê-las. Se tenho de me contentar com refeições pré cozinhadas, ele não é mais do que eu.

Quinta-feira


Acabou-se o sumo de laranja! Como é que um fruto aparentemente tão inocente causa tamanha confusão? É inacreditável! Vou passar a comprar sumo engarrafado pronto a beber.

Descoberta: consegui sair da cama quase sem a desfazer. Basta-me depois alisar ligeiramente a roupa. Claro que é preciso uma certa prática, e não me posso mexer muito durante o sono. Doem-me um bocado as costas. mas nada que um bom duche quente não possa resolver.

Deixei de fazer a barba todos os dias. É uma perda de tempo. Assim, também, ganho uns minutos preciosos que a minha mulher, como não tem de fazer a barba, nunca perde.

Outra descoberta: não vale a pena usar um prato lavado de cada vez que como. Lavar a loiça tantas vezes começa a dar-me cabo dos nervos. O cão também pode comer só numa tigela. Afinal de contas - é um animal.

Nota: cheguei à conclusão de que basta aspirar no máximo uma vez por semana.
Salsichas ao almoço e ao jantar.

Sexta-feira


Adeus sumos de fruta! As laranjas são muito pesadas. E sto de morar num terceiro andar sem elevador tem que se lhe diga.

Descobri o seguinte: as salsichas sabem bem de manhã. Ao almoço nem por isso. Ao jantar, nem vê-las. Salsichas mais de dois dias seguidos enjoam.

O cão, esse, está a comida seca. Tem os mesmos nutrientes, e não suja a tigela. Descobri também que posso comer a sopa directamente da panela. Sabe ao mesmo - nem tigela nem concha. Assim já não me sinto tanto como uma máquina de lavar a louça.

Já não lavo o chão da cozinha. Irritava-me tanto como fazer a cama.

Nota: acabei com as latas. O abre-latas fica todo pegajoso!

Sábado


Que ideia mais parva é esta de me despir à noite se tenho de voltar a vestir-me de manhã? Aproveito mas é o tempo para ficar mais um bocadinho na cama. E também não preciso de colcha, por isso a cama está sempre feita.

O cão encheu tudo de migalhas. Pu-lo na rua de castigo. Não sou criado dele! Que estranho. De repente, dei-me conta de que é o que a minha mulher me diz às vezes…

Hoje é dia de fazer a barba, mas não me apetece nada. Tenho os nervos em franja. Ao pequeno-almoço, só as coisas que não seja preciso desembrulhar, abrir, cortar polvilhar, cozinhar sem misturar. Tudo coisas que lixam um homem.

Plano: comer directamente do saco em cima do fogão. Nem pratos, nem talheres, nem toalha, nem nenhum disparate desses.

Tenho as gengivas um bocado inflamadas. Deve ser a falta de fruta, que é muito pesada para carregar. Será que estou com princípio de escorbuto?..

A minha mulher telefonou à tarde a saber se eu tinha lavado as janelas e posto a roupa a lavar. Desatei a rir meio histérico. Disse-lhe que não tinha tempo para essas coisas.

Há um problema com a banheira. Está entupida com esparguete. Também não estou para me chatear. Não me incomoda muito porque deixei de tomar duche.

Nota: o cão e eu comemos juntos directamente do frigorífico. Tem é de ser depressa. Não convém deixar a porta aberta muito tempo.

Domingo


O cão e eu estamos sentados na cama a ver televisão. Vemos pessoas a comer todo o tipo de iguarias. Salivamos os dois. Ambos estamos fracos e rabugentos.

Esta manhã comi da tigela do cão. Nenhum de nós gostou.

Precisava de me lavar, barbear, pentear, fazer comida para o cão, limpar a casa ir às compras e uma série de outras coisas, mas não arranjo forças. Sinto que estou a perder o equilíbrio e que a vista me está a faltar. O cão deixou de abanar a cauda.

Num último reflexo de sobrevivência arrastámo-nos até um restaurante. Durante uma hora, comemos toda a espécie de pratos óptimos. Em seguida, fomos para um hotel. O quarto é limpo, arrumado e confortável. Descobri a solução ideal para o governo da casa. Não sei se a minha mulher já se terá lembrado disso.

sexta-feira, maio 19, 2006


Duas paixões

Antunes Ferreira
J
á em puto tinha estas manias. Outras também. Mas duas foram as que me ficaram encasquetadas no bestunto que, para alguns, é cristalino – o que não é absolutamente o meu caso. Sem necessidade de genuflexão ou confessionário – tive disso, mas curei-me – gostaria de vos dizer que elas continuam a ocupar-me algum espaço num lobo cerebral inidentificado.

A primeira é o coleccionar canetas, esferográficas & similares. A tal irei, um destes dias. Mas, para já, aqui fica o registo. Entre plumas mais ou menos boas, novas e antigas e bolis (como dizem os nossos vizinhos ibéricos, de bolígrafos) de plástico, anunciando restaurantes, hotéis, empresas de transportes, partidos políticos e, até, de preservativos, entre toda essa amálgama escribente já ultrapassei os 21 mil exemplares.

Acreditem. E não me perguntem como me desenrasco para guardar este himalaia de objectos destinados à escrita, porque tenho de enveredar pelas muitas caixas de plástico e... a minha mulher não gosta destas coisas nem muito menos que eu fale delas, quando nalguma farmácia na estranja começo a pedir a quem me atende se tem algo para a minha colecção. Do espaço ocupado? Nem pó.

A outra das duas paixões são os romances policiais. Todos – ou quase. Por motivo que não adianta aqui mencionar, desapareceu-me, já lá vão uns anos, a Vampiro que tinha quase completa. Há dois anos, creio, depois de ultrapassado um pesadelo que me apoquentou durante cinco anos – uma depressão bipolar que não desejo nem aos meus inimigos figadais – comecei a reconstitui-la, devidamente actualizada. Vai indo, com alguns acidentes de percurso, mas vai.

A colecção Vampiro

A Vampiro é, só, na minha modesta opinião, o melhor acervo de obras de tal quilate. Os autores nela representados são nomes sobre os quais não recaem quaisquer suspeitas. Atenção: os Senhores Conan Doyle, Marcel Allain, Pierre Souvestre ou Edgar Wallace não fazem parte desse excelente grupo, penso que apenas por questões editoriais. São de tal estatura que, mencioná-los não é de justiça – é obrigação imprescindível.

Ando, por isso, não só a procurar uns números vampirescos que continuam a estar ausentes na minha biblioteca, mas a reler todos os que consigo. Alguns, mesmo a ler, já que, noutro tempo o não havia feito. Indesculpável. Naturalmente, tenho-o feito após selecção prévia. Neste particular, a busca aleatória não a recomendo a ninguém.

Quando afirmo, convicto, a amigos e conhecidos, que me meti a eito pela Agatha Christie, pelo Erle Stanley Gardner (aliás A. A. Fair, Carleton Kendrake e Charles J. Kenin), pelo George Simenon, pelo Rex Stout, pelo Ellery Queen, pelo Leslie Charteris, pelo Mickey Spillaine, e outros, alguns miram-me com vontade de apoiar o indicador na tempora e fazer com o dedo um gesto significativamente circular. O gajo já tem idade para ter juízo... E tenho. Idade e juízo.

Outros concluem que eu sou pílulas. Outros ainda, mais jovens ou menos entusiastas do género, perguntam quem são estes indivíduos. Há que saber perdoar-lhes. Se o Cristo, na cruz, terá pedido, ao que dizem, ao seu próprio pai para perdoar os seus algozes, pois eles não sabiam o que faziam, porque não usar da mesma complacência no caso vertente?

Adiante, que se faz tarde. Estreou ontem nos cinemas de todo o Mundo o Código Da Vinci, baseado no livro do mesmo título sobre o qual já escrevi neste Travessa do Ferreira. Dizem-me que está em marcha a rodagem do Ladrão das Merendas. Não estou certo. Se me referisse a Dan Brown ou Andrea Camilleri talvez já não fosse olhado como um espécimen raro. E outros aqui podia mencionar, mas o escrito já vai evangelicamente longo.

Mas, para acabar tão rápido quanto possível, tenho de lhe apensar uma ou duas considerações. Vá lá, uma, apenas. Nem todos estes juntos - desde os ancestrais até aos jovens, com cachimbo ou sem lupa, com bigode retorcido (o melhor do Mundo) ou sem pince-nez, com, com, com, sem, sem, sem, incluindo o Umberto Eco – conseguiriam decifrar o mistério que é o atraso, que eu diria fatal, deste cantinho esgalgado e espraiado no Atlântico.

No fim da fila

Meus Amigos. Não há volta a dar. No que toca a coisas boas e positivas, somos, incontornavelmente, dos últimos da Europa. Já não digo do Mundo, porque, feliz ou infelizmente, alguns torrões natais pobres de espírito (e de massa) conseguem estar na fila mais atrás. Antigamente, eu escrevia bicha; mas, hoje, a semiótica deu cabo de uns quantos termos agora considerados obsoletos ou pejorativos. Dos portugas se diz que temos uma produtividade manhosa, que somos subsidio-dependentes, que conseguimos ser mais calaceiros do que permite a Santa Madre Igreja. Seremos, não custa admitir. Não nos custa, nem nos envergonhamos de não nos custar...

Ontem, encontrei o José Sócrates no Solar dos Presuntos. Onde se continua a encher a pança com coisas muito gostosas, supinamente cozinhadas, acompanhadas de beberes inqualificáveis, de bons. Por lá era um corropio. O Joaquim Letria. O Zé Carlos de Vasconcelos. O... eu sei lá quantos mais. O engenheiro vinha acompanhado do meu «velho» Amigo Alberto Costa. Trocámos umas palavras breves, há quanto tempo te não via, o trivial. Tive tempo, ainda, para lhe dizer que estava de acordo – e apoiava – a maioria das medidas que o Executivo adoptou. E que não concordava com a metodologia comunicacional para as explicar aos cidadãos que somos todos nós. Foram uns escassos momentos, naturalmente. Mas já não tive para lhe dizer o que escrevi antes.

Pode bem o primeiro-ministro esforçar-se por dar a volta ao País e a nós, portugueses. Tem o direito, mas tem, principalmente, o dever de o fazer. Tarefa imensa, que só não qualifico de ciclópica porque me recorda as declarações do meu ex-professor de Direito Administrativo, Marcelo José das Neves Alves Caetano, no momento em que sucedia a um tal Oliveira qualquer-coisa-terminada-em-ar.

Por este andar, nem apelando a todos os nomes incluídos no volume gordo da História da Literatura Portuguesa, do António José Saraiva e do Óscar Lopes para que o – e nos – auxiliem nestes transes. Nada. E, muito menos, rogando à galeria dos autores policiais para que se averigue a fundo esta misteriosa ocorrência, da qual nem é preciso dar parte, porque é omnipresente. Nem com o auxílio do Santo Ivo, padroeiro da Justiça. Era o que faltava.

quinta-feira, maio 18, 2006

REGISTO

O Brito gráfico


Quando menos se espera, um homem não se precata e cai-lhe um senhor à frente, que se descobre que pode ser um Amigo. Desconfianças - há muitas. Gato escaldado... Mas, tem dias em que acontece que o acaso ou a sorte se encontravam virados para o lado esquerdo, que é o meu, e acontece que sim. Do poder ser ao tornou-se não é muito longe. Basta que se queira.

O João de Brito é um caso paradigmático. Dono da Britográfica, self made man, é um lutador que a princípio não se afigura muito simpático. Mas é pura ilusão. Profissionalão, exigente, picuinhas, perdeu a virgindade tipográfica no IPE, que considera «uma grande escola da vida». Ao que acrescento – e do resto. Tal como indica a denominação da sua empresa, o gajo é um militante da grafia.

Foi há pouco tempo que nos conhecemos. Quem nos aproximou? A revista da OROC, «Revisores & Empresas», até agora produzida pela Astralon do meu velho Amigo Aparício. E se, de início, o João me olhou com um cenho carregado de suspeitas, uns dias de contacto profissional deram cabo dessa interrogação. Descobriu, descobrimos ambos que falávamos a mesma linguagem – e já está.

O registo que aqui se faz tem, no mínimo, duas componentes e um só objectivo. Este último: fazer uma publicação de seu nome «Revisores & Empresas» o melhor possível. As duas primeiras: saber acertar agulhas e respeitar mutuamente aquilo que cada um possui e que, em conjugação leva a que se alcance o desiderato. É fácil. Daí o resultado: uma Revista, a primeira produzida na Britográfica que saiu bem; ou melhor, muito bem. E o principal culpado, sem atenuantes, foi o João de Brito.

É fácil com homens como o Brito. Bem merece que aqui se exare esta anotação. Temos, realmente, muito mais coisas em comum do que as que nos separam, como diz o Rui Veloso. Estas últimas, ainda as buscamos para as quantificar e sabermos com o que podemos contar. Ó João, tome lá uma bacalhauzada.

Uma cabeleira em Pequim

Éramos três irmãos. Um, o João Jacinto, para nós o Ju, deu um tiro na cabeça com a sua caçadeira para elefantes. Ponto final. Era o mais novo. O primogénito, têm-no Vocências na vossa augusta presença e chateia-vos até mais não. Resta, por conseguinte, o do meio, um tal Braz, com z, Manuel. O nosso avô paterno, coitado, foi o culpado do nome próprio do sujeito, já que era o Senhor Tenente da Guarda Fiscal Braz, com z, Antunes. Que, naqueles tempos era figura importante, chegando até a ir ao lado do pálio do Senhor Bispo, em procissões as mais diversas.

O meu irmão Braz, retorquindo a convite expresso (sem café idem, que não posso beber) cá do je, começa hoje a colaborar no Travessa do Ferreira. Isto quer dizer que esta merda se está a tornar um antro de familiares? Um encontro paroquial? Juro-vos que se trata de pura coincidência – e pouco mais. Assim por assim, já vários incautos aqui deixaram, por certo inadvertidamente, uns comentários. Raros. Donde, chegar mais um elemento escrevinhador, ainda que seja irmão, é motivo de júbilo, mitigado é certo.

Um dia, hei-de contar-vos a história do Braz Ferreira – devidamente censurada, para não melindrar espíritos mais sensíveis. Inventa-se cada uma para cortar prosa... Mas só para fazerem uma aproximação ao tipo, fica já aqui exarado que começo a perder a conta às mulheres que ele já teve. As mais ou menos legítimas, claro, que os ameaços, nem falar. Mas estou quase certo que são quase dez... Ora alimpem-se lá a este guardanapo.



Braz Ferreira
Eles são mais de um bilião, mas poucos falam a língua de David Becham.... Porém, na de Mao Zedong, eles são verdadeiramente excepcionais.
Gostaria de esclarecer que a minha namorada é cantora e normalmente precisa de adornos para entrar em cena. Por esta razão, pediu-me para lhe comprar uma peruca na China. Tinham-lhe dito que era barato e no final das contas, até foi. Mas complicado.

Depois de ter perguntado a quase meia centena de chineses que trabalhavan na empresa com a qual eu estava a fazer negócio, consegui saber… que ninguem sabia onde se vendia este tipo de artigo. Porem, uma vaga informação fez-me chegar a um centro comercial, um dos maiores de Pequim. São «só» 14 andares de lojas atafulhadas de mercadorias. São precisos seis dias para visitar tudo, isto se formos melhores que o Obikwelu...

Pois bem, eis-me no primeiro nadar do centro comercial. Logo de caras dirijome a uma moçoila que devia ter passado a noite em claro, pois ainda tinha os olhos bem fechados… No mais puro do meu chinês (também os há impuros), balbuciei um tímido Nihao que pretende significar bom dia. A garota, talvez acordando, abriu ligeiramente os olhos - na verdade estava a arregalá-los - e vomitou uma frase em chinês digno do Fu Manchu.

Meió quer dizer não

Foi a minha vez de arregalar os olhos, ainda que já estivesse acordado há muito tempo. Do you speak English? Meió… Isto é, um não redondo saiu da boca redondinha da imaculada chinesa. Porra. Se o não tivesse sido quadrado, a boca dela teria mudado? Mas, colocando de lado a geometria facial, decidi passar a uma nova estratégia. Então, dei uma de mimo. Não é que tenha feito quaisquer miminhos à criatura. Simplesmente, tal qual o «rei» Marceau, comecei a mimar um rabo de cavalo na minha cabeça. Ela olhou para mim, achando seguramente que eu era maluco ou maricas, e com a certeza de um advogado de defesa, indicou-me o oitavo andar. Um sorriso acompanhou a informação que julguei preciosa.

E eis-me partido, qual Álvares Cabral, à descoberta do andar número oito, onde consegui chegar depois de ter sido pisado (e pisado eu próprio) mais de um milhão de chins. Comecei pela direita. E no meio de meio milhão de amarelos (o outro meio milhão estava ainda na escada rolante), comecei a procurar o balcão das cabeleiras postiças. Foi como se me arrancassem os meus poucos cabelos. Já que estava numa de capilaridade… Mas, nem cheiro de cabeleira, excepto o do sujeito que me precedia e que não devia lavar o cabelo há mais de seis semanas. Digo-vos que o brilho do cabelo dele faria inveja ao traje de lantejolas de qualquer sambista da Vila Isabel.

Eu continuava, corajoso e empreendedor. Nada. De cabeleiras e cabeças só sobrou a dor que o calor húmido da super loja me provocava.Tentei mais uma consulta, mas desta vez com um representante do sexo masculino. Sea menina anterior não falava inglês, ele ainda conseguia ser… pior. Um defeito na língua, pensei eu, fazia-o cuspir os restos do almoço que devia ter acabado pouco antes. Olhei meticulosamente para o meu casaco, para ver como tinha sido atingido pelos restos de massa frita, e esperei a resposta do donzelo.

Por gestos quase obscenos, entendi que o que o limão me dizia era que o que eu devia fazer era subir ao céu. Na realidade não era o céu, era simplesmente o andar superior, um inferno. Vejam só. Decorria a semana dos saldos, com milhões, penso que não exagero, de chineses a nadar uns por cima dos outros. Costas, mariposa, brucos… uns verdadeiros jogos olímpicos a anteceder Beijing 2008. Tentei, portanto, não meter água.

De repente, e após coteveladas, pisadelas e empurrões estava na frente de um cabeleireiro para homens... alguns, enfim. Só então compreendi a alegada informação do cuspidor de massa. Quando por gestos apontara para o meu cabelo, ele deve ter pensado: este gajo quer visitar o Sevilha...em Pequim. E ainda bem que não me indicara uma agência de viagens para comprar um bilhete para Espanha.

O mercado livre

Bom o resultado, para economizar tempo, foi uma visita organizada a todos os 14 pisos do centro comercial, com direito a milhares de pisadelas, que estavam seguramente incluidas no tour. Voltei para o escritório - sem a cabeleira. Mais uns dedos de conversa com colegas da empresa e eles indicaram-me que o adereço deveria ser mais facimente encontrado no mercado livre (free market). Boa, pensei. E, de imediato, segui para o tal mercado livre. Desta vez, porem, acompanhado de uma gentilíssima intérprete que entendia de tudo menos de cabeleiras e de inglês. O que facilitava bastante.

Do alto de um prédio em frente do mercado, podia apreciar umas seis mil (sem exagero, pois contei-as todas) lojinhas de uns dois por dois metros. Descemos à terra e entrámos naquele dédalo comercial. Um espanto. Dez escassos minutos após o início da pesquisa, descobri a lojinha das cabeleiras. Tudo muito simples: uma vendedora, uns 20/25 miseráveis clientes e uns 40 sacos de plástico tamanho XXL, dentro de quatro metros quadrados. É coragem. Depois do trivial dos empurrões, etc., consegui chegar ao lado da vendedora, a quem logrei dar conta do que pretendia. Da pseudo intérprete, nem pó.

A empregada começou logo a deslocar os tais sacos de plástico, colocando-os por cima dos pés e pernas dos outros clientes, que iam aumentando. E sem uma palavra de desculpas. Dentro de cada saco, encontravam-se outros saquinhos, talvez uns cincoenta com as ditosas cabeleiras postiças. Pensei que ela nunca iria encontrar o que eu desejava no meio de tal balbúrdia. E não é que ela achou o que eu buscava?! Milagre! Virgem Santíssima!!!

Está claro que teve de abrir uns quantos sacos fechados com quilómetros de fita cola, desembrulhado uns não sei quantos saquinhos e assim. Mas - encontrou. Quando pagava pude aperceber-me de que a lojinha era a desordem total, pois outros clientes procuravam também coisas dentro dos sacos. Dois dias depois, no hotel é que percebi a velha expressão portuguesa: Ó pá, não levantes cabelo. Muito menos cabeleiras postiças. Sobretudo – em Pequim.

quarta-feira, maio 17, 2006

Escrever em chinês

Antunes Ferreira
Quinze mil ideogramas integram a escrita chinesa. E mais: estão organizados em quatro conjuntos ou classes. Por conseguinte, Amigos, ao estudo e aprendizagem. Se começarem já, daqui a uns anitos poderão escrever uma que outra palavra. O que, não sendo muito, é motivo de satisfação e de palmadas nas costas. Porra!, você até sabe escrever em chinês.

Pode-se sempre recorrer ao Google – até para aprender a língua do antigo Império do Centro. Aliás o gajo é como a panaceia universal – serve para tudo, cura tudo, tem tudo. Aqui há uns tempos, perguntei a um jovem formado (e com excelentes notas) o que entendia ser a cultura. O meu interlocutor avançou no tema, com uma abundante série de considerandos, o que só lhe ficou bem.

Mas antes de ele aterrar na conclusão, eu, maléfica e insidiosamente, atirei-lhe: A cultura, hoje, será o Google? Má pontaria ou ponto de mira limado. Respondeu-me a jacto: O Google é imprescindível. Mas é preciso ter o suficiente de cultura para se saber o que se procura. Nem entupi. Limitei-me a concordar com um aceno de cabeça e, ainda, a cumprimentá-lo. Merecidamente.

Um dia, quando cheguei à RPC pela primeira vez – estava-se a 31 de Dezembro de 1987, já decorriam em plena Universidade de Pequim os primeiros movimentos contestantes que iriam, um ano e meio depois, desaguar na praça Tiananmen – tentei saber como era o ensino do chinês a nível universitário. Debalde. Por trás de sorrisos indefinidos desenhados a traço de carvão na face, as autoridades nem queriam ouvir falar em alunos, quanto mais em ensino.


Tive uma só oportunidade – e aproveitei-a. Sem saber ler nem escrever (em chinês) e, até, sem saber como, consegui chegar ao campus universitário e falar com uns estudantes, num inglês mais ou menos mascavado, menos ou mais macarrónico. Mas perceptível. As palavras Glasnost e Perestroika eram veneradas. E o senhor Mikhail Gorbachev também. Mais do que o senhor Buda ou o senhor Confúncio. Aliás, num país militantemente ateu, ainda se encontravam naquelas alturas, muitas pessoas religiosas. É assim.

«Motivo de saúde»

Naquele local iria decorrer a chamada revolução estudantil pela democracia, que seria reprimida por uma sangrenta intervenção militar em Junho de 89. Era a época da sucessão rápida de Hu Yaobang por Zhau Ziyang, este último afastado da cúpula «por motivos de saúde», mas que, daquela data em diante se conservaria 16 anos em prisão domiciliária, situação em que viria a falecer. O seu apoio não muito discreto aos manifestantes era um poderoso «motivo de saúde.»

Voltei umas vezes mais à China, tendo, inclusive, conhecido o autor do slogan um país, dois regimes, o inventor da economia socialista de mercado e o defensor do socialismo com características chinesas, Deng Xiaoping. E em todas elas tentei saber alguma coisa da fabulosa escrita chinesa. É ela a «culpada» do facto de dois habitantes, um de fala mandarim, outro de cantonense, se poderem entender, já que oralmente isso é impossível.

A arte da caligrafia é absolutamente fascinante. Em muitos locais da mais diversa ordem, há calígrafos que desenham frases com o seu pincel e tinta negra e vermelha em diversos materiais. Tenho em casa, no meio do bric-a-brac que por ali sobrevive, uma esteira de bambu com uma frase de uma crónica minha sobre o País, terminada com a minha assinatura. Não o garanto; mas afiançaram-mo.

A República Popular da China continua a ser uma ditadura de mistério: só os chineses eram capazes de viver politicamente sob o despotismo e economicamente sob o liberalismo a la Beijing. Há quem lhe chame pragmatismo; há quem diga que é o exemplo acabado da hipocrisia. Eu penso que é oportunismo puro, salpicado ao de leve por um enigmático e duvidoso realismo.

O tempo corre e não há modo de o parar. Felizmente. Há por aí menino que se o pudesse fazer, estando no poleiro... O dia 8 de Agosto de 2008 é já ali, depois da curva. Para ele, que o mesmo é dizer para a inauguração oficial dos próximos Jogos Olímpicos que decorrerão na capital chinesa, trabalham já, sabem quem? Um americano e um chinês. Para que, segundo as autoridades comunistas, ela seja o mais linda possível.

O primeiro é um tal... Steven Spielberg. O segundo é o senhor Zhang Yimou, igualmente cineasta, vencedor de vários certames de filmes, tais como Veneza, Berlim e Cannes. Ambos figuras da Sétima Arte, ambos considerados dos melhores mundiais.

Estou numa perfeita expectativa. Os caracteres chineses têm, forçosamente, de ser elemento incontornável nesta manifestação que, quer se queira, quer não, é uma vitória inquestionável do PCC. Será que haverá alguma gente que os entenda? Aos caracteres, não aos comunistas chineses. Que esses, não há como entendê-los.
Ferpeito

Ferpeito. O Fernandes, Armando é um sentimentalão. Tenho dito. Conheci-o em Luanda, era mau, digo, meu vizinho. O erro decorre do bom malandro, aproveitando-se do facto de uma das muitas cunhadas que tenho ter ido trabalhar para a companhia petroleira de Angola, a fisgar e, pimba!, a caçar, perdão, casar com a dita cuja. Não juro que a vizinhança tenha tido papel na ocorrência. Grande? Pequeno? Eles é que sabem.

Dado às informáticas, cibernéticas & afins, o gajo é óptimo em chips & quejandos. No Québec, para onde o perigosíssimo bando dos Fernandes emigrou, deu cartas nessa área, mesmo sem ser futebolista, muito menos perceber do desporto dito rei.

Comungamos de ideias muito próximas, para não dizer em alguns casos gémeas que nem duas gotas d’auga, em múltiplos aspectos. Já no que toca à política, estamos conversados; outra é a cantiga, outra é a entonação, outra é a partitura, outra é a interpretação… Mas isso não vem ao caso. A Amizade não se mede nas urnas – nem sequer nas funerárias. Vive-se. É o caso.

Bem-vindo ao Travessa do Ferreira, akuñado Armando. Isto, apesar de tu me teres empurrado, traiçoeiramente, para as rimas, onde eu nunca me afoitara. Coisas. Vossemecê escreve bem: escorreito, pontuado, semioticamente correcto, semanticamente, idem e até nem dá muitos erros de hortugrafia. Desde os tempos da açorda de marisco que disso tenho a certeza. Pois aqui estás, Amigo – e continuarás.


O escrito abaixo assinado é teu. Se este blóguio fosse lido, o que não acontece a ver pelos raros comentários que não regista... este poderia motivá-los. Assim...

Um outro Senhor aqui cito e com imenso gosto: o João Santos. Sem ele, como disse e repito, o Travessa seria uma pepineira. Com ele - é outa loiça. Lavada, arrumada com gosto e bem posta em mesa atoalhada. Kitos, como dizem os finlandeses.

terça-feira, maio 16, 2006

Fado…foi
Fado…é…
Fado…será...sempre Fado



São, cantora portuguesa de Montreal (Quebeque – Canadá)


...
O Fado, nasceu um dia,
Quendo o vento mal bulia
E o céu o mar prolongava,
Na amurada dum veleiro,
No peito dum marinheiro,
Que estando triste,cantava,
Que estando triste, cantava.
...

(José Régio)

O poema que a seguir apresento representa a minha modesta contribuição para o Fado. Tem como título «Que bem que o meu povo canta», mas também o poderia chamar de «O Fado...fora de portas», na medida em que a nossa canção nacional é exprimida pelos cantores da diáspora portuguesa com o mesmo carinho, a mesma efusão e a mesma paixão dos outros que residem em terras de Portugal.
Emigrantes, ansiosos de escapar ao «fatalismo» que é fundamental na própria essência do Fado, fizeram-se ao mar rumando para países novos, de costumes, de língua e de leis diferentes, almejando reconstruir nova vida, melhor futuro para si, e para os filhos.
Na bagagem, na maior parte das vezes parca em bens materiais, levavam contudo um avultado cofre no plano sentimental, cheinho daquela palavra que os portugueses criaram, e que só os portugueses entendem: Saudade. E que melhor maneira existe de exprimir essa Saudade que não seja através da sua expressão musical, nas notas utilizadas para compôr o Fado?
Amante do Fado que sou, e emigrante em terras canadianas que também sou, quis deixar, no poema que segue, uma alusão ao cantar do Fado fora de Portugal, num reconhecimento por todos os artistas - porque o são legítima e inequivocamente – masculinos ou femininos, que mantêm viva, e vibrante, a nossa canção nacional em terras distantes daquele jardim à beira-mar plantado. Bem hajam!


Que bem que o meu povo canta

Ai que bem que o meu povo canta!
Vestido de fadista ou de estudante,
Em terras do Funchal ou de Emigrante,
Na amurada dum navio, ou à luz vacilante,
De velas num salão de restaurante,
Ai, que bem que o meu povo canta!

Com voz de saudade, ai tanta! tanta!
Pungente, no soluço do amante,
No grito do ciúme lancinante,
Vibrante, na alegria esfusiante
Dum enlace ansiado, mas distante,
Que bem, que bem que o meu povo canta!

Maior ou menor, ou ainda à porfia,
Marialva, fidalgo, faminto, brigão,
Em tons de vitória ou de desolação,
A cavalo, com garbo, ou capote na mão,
Visceral, gutural, alegre ou chorão,
O cantar do meu povo é vida, é magia!

Com o tanger da guitarra, trinada, chorada,
Fiel companheira que realça a expressão,
Que apoia, introduz e prolonga a unção
Da sina cantada com tal emoção,
Que a alma dilata e eleva o coração.
A voz do meu povo é sereia encantada.

Castiço, antigo, moderno, bairrista,
Erudito, do vulgo, distinto, ou rufia,
No sol do Outono, em Primavera fria,
Em terras boreais ou nas do Meio-dia,
Na poderosa língua da lusofonia,
Como o meu povo sabe dizer: "É fadista!"

De costumes brandos e trabalho honrado,
Serrano ou ilhéu, com o mar a seu lado,
Com alma de Fé, pelo mundo espalhado,
Diáspora vibrante, e o berço ansiado,
Cidadão do mundo por ele desvendado,
Ai, que bem que o meu povo canta o Fado!

@Armando Fernandes
Châteauguay, Abril de 2002


Latins e selecções

Antunes Ferreira
Uma chatice. Monoculus inter caecus rex. Os Romanos sempre nos tramaram, até nos ditados. Foi o que se viu com as ânforas; foi o que se viu com o templo de Diana em Évora; foi o que se viu com o latim, fosse ele erudito ou bárbaro. Pensa a gente que ao citar «Em terra de cegos, quem tem um olho é rei» está a dar uma de arremedo de culto, ou, pelo menos, de menos analfabeto. Não está, definitivamente. Pelo sim, pelo não, vá de consultar as páginas azuis do Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, e pumba! Lá está a asserção latina que encima esta nota.

Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha. O velho Luís Vaz é que a sabia toda. Embora ele fosse mais de amores, a verdade é que, neste particular ou seja neste caso que se observa, a citação do Vate sempre seja de encomiar. Quanto mais não seja, e ainda que a despropósito, convêm não esquecer que se trata do Camões, a quem os calinos chamaram um dia o Príncipe dos Poetas e ainda hoje é assim apelidado.

Permitam-me que vos confidencie, aqui muito à puridade: ele não merecia, muito menos merece, um tal tratamento. Se esganou as meninges para poetar Os Lusíadas, não foi para que o apodassem de Príncipe. O Carlos da Inglaterra é que é, com Camilla ou sem, mas, sobretudo, sem Diana. E a mãezinha dele parece que quer que ele continue a sê-lo, ainda que esta valha mais do que o bilhete postal. Se o Eusébio era o Rei, apesar dos tremoços, então que será o Camões?

Injustiças – quem as não tem?

A História e a Literatura estão cheias de injustiças. Quase toda a gente aplaude o João Pinto Ribeiro, cabeça dos 40 conjurados que levaram ao colo o duque de Bragança até ao trono. Não concordo. Palmas a sério devia ter levado o Miguel de Vasconcelos – e foi o que se viu no antigo Terreiro do Paço.

Os restauradores tiveram, inclusive, direito a nome na segunda praça de Lisboa, logo a seguir ao Rossio. Quando, em meu modesto entender – e sem que ponha em dúvida a boa fé dos que até hoje têm dado o seu beneplácito a estas honras e mordomias – os defenestrados deviam ter sido os membros do grupo pró Bragança. E não nos esqueçamos que a Doña Luísa de Gusmán era espanhola. Então, que estranha independência foi essa com um rei que dormia com o(a) inimigo(a)?

Mas isso são discorrências a latere. Estas viagens circun-navegantes que o autor empreende as mais das vezes só servem para espalhar uma certa confusão. Delas, pouco se aproveita, para não dizer nada. Assim, antes de voltar aos rifões e adágios, penso que (já que foi citada) cabe aqui a rima camoniana do Perdigão – que não tinha nada a ver com o saudoso hoquista campeão do Mundo. Tanto quanto se sabe – e os meandros da História são, por vezes, labirínticos e insondáveis.

Ah poeta!


Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.


Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
De queixumes se socorre
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.



O Luís zarolho era realmente, um primor. Sou do grupo dos que gostam mais do homem dos sonetos & correlativos, do que do empolgante histórico e, ainda por cima, premonitório da desgraça. Ou seja, o Camões lírico é, para mim, muito mais saudável do que o Épico. De novo se perfilam os que torcem o nariz. Não se amofinem. Eu também gosto do Scolari e não alinho no gang dos que criticam a opção pelo Costinha em detrimento do afastamento do Quaresma. Luis Felipe escolheu - está escolhido. Portugal pode perder - Scolari está f...perdido!

Pois está visto que os ditados são heranças – mais umas – dos antepassados provenientes da Roma Augusta. E, ao citar-se um mais, ou outros, de novo surge a latinada. Os 23 do Sargentão para o Alemanha 2006 são como o vestido ou a pescada que antes de o serem, já o eram? Pois que sim. Seja. A divulgação da convocatória foi a montanha que pariu um rato? Ou seja, mons murem peperit. Sacanas de Romanos.

Resta, assim, muito pouco no que a isto concerne. Depois da tempestade vem, sempre, a bonança. Isto é: post nubila, Phoebus. E como um sujeito precisa de ganhar a vida, deixe-me eu de equações e latinórios e deite-me, eu também ao trabalho. Primum vivere, deinde philosophari. Que o mesmo é dizer primeiro deve ganhar-se a vida; só depois vem a conversa. Ou, mais comezinhamente: serviço é serviço, conhaque é conhaque. Isto é que está uma merda – com os Romanos. Não me safo dos gajos.

segunda-feira, maio 15, 2006



O riso sem legenda

Mordillo, um dos cartonistas mais famosos do Mundo, do qual sou um fã incondicional, tem milhões de bonecos sensacionais. Humorista e desenhador sem palavras, Guillermo Mordillo viu a luz do dia a 4 de Outubro de 1932, em Buenos Aires. «O mesmo mês e ano em que nasceram Sempé, Quino, Ziraldo e Sounas» diz ele próprio. E segue «Aliás, Quino e Sempé nasceram no mesmo dia que eu, mas em cidades diferentes. Quino é de Mendoza, na Argentina, e Sempé de Bordeaux, na França», lembra ainda e remata «Creio que naquele dia vários cometas humorísticos cruzaram o céu.»

Correu várias partidas do Mundo e fixou-se em Palma de Maiorca, onde continua a desenhar com todo o fervor e graça, cada vez mais refinada. Também é dele a afirmação de que, ainda jovem, depois de ter passado pelos Estados Unidos, chegou a França. O seu francês, confessa, não era famoso. Por isso, começou a desenhar sem legendas. Era o primeiro passo no caminho para a Glória.

Quando se vê ali já à esquina o começo do Mundial germânico, há cartunes de antologia sobre o chamado desporto-rei que enchem as páginas de inúmeras publicações. Hoje, o autor de barrigudas e barrigudos, com grandes narizes abatatados, trabalha quase somente para órgãos de comunicação alemães.

Por isso o Travessa do Ferreira insere este apontamento. Com a certeza de que o artista, aos 74 anos, parece não sentir o passar do tempo. Caso, aliás, pouco frequente, mas encontrável: o nosso Manuel de Oliveira é um pouco mais idoso e continua a fazer filmes. Se os homens, um dia destes, se rirem mais e batalharem menos, o caso é absolutamente diferente.

Uma boa gargalhada é muitíssimo melhor, indiscutivelmente, do que uma assassina rajada de metralhadora. Há dúvidas?

A.F.
Raio de País


Antunes Ferreira
Raio de País este. Das três grandes notícias de hoje, duas já aconteceram, uma está para. Duas são futebolísticas, a outra, política. Duas fazem mover multidões e despertar o interesse de milhões de cidadãos: as do futebol; a da política sai como que a medo, pressupondo a indiferença que a rodeará. É assim que vamos vivendo. Ou melhor – sobrevivendo.

O futebol é uma ciclópica obra por todo o orbe terráqueo. E com o Mundial na Alemanha à porta, então é que são elas. A divulgação das listas dos convocados para integrarem as selecções concorrentes tornou-se, assim, um dos maiores acontecimentos, senão mesmo o maior por todo este planeta azul.

E por azul. A segunda grande notícia do futebol indígena é a dobradinha à moda do Porto. Desta feita sem grande conotação gastronómica, ainda que originando trocadilho, arte em que somos, nós os portugas, mestres. Enquanto em mil e uma coisas (quase diria quase todas...) continuamos a ser o cu da Europa, nos trocadilhos arriscamo-nos a ser ou os primeiros, ou dos primeiros. Trocadilho e desenrascanço são palavras nacionais e, o que é mais grave, nacionalistas.

O Futebol Clube do Porto veio, ontem a meio da tarde, ao Jamor, conquistar a Taça de Portugal, em detrimento do Vitória de Setúbal. Já vencedores da SuperLiga (a tal do patrocínio da empresa de apostas televisivas que parecem ilegais, pelo menos por cá), os Dragões levaram, desta feita, para a Cidade Invicta o troféu que Cavaco Silva lhes entregou, como mandam os cânones.

A festa voltou às ruas, nomeadamente à chamada Marginal junto do Estádio portista. Milhares de pessoas – devidamente ornamentadas a azul e branco - pularam, bailaram, cantaram e berraram slogans, alguns bem pouco edificantes. As rimas de conduta, orvalho, comilona e calções foram gritadas até à exaustão. Sabe-se que é prática portuense, a utilização, frase sim, frase sim, de palavrões.

O azul está na moda

Entendamo-nos. O fenómeno não é apenas caseiro. Na circunspecta (???) Londres, os blues invadiram as artérias para entoar cânticos de glória ao Chelsea bicampeão, e sobretudo ao José Mourinho, hoje por hoje o melhor representante de Portugal na Terra. E, quem sabe, talvez na Lua e em Marte, pelo menos. Mas, com o mal dos outros, pode a gente bem.

Para não fugirmos à onda do Alemanha 2006, a expectativa irá desvanecer-se por volta das 20 horas TMG. Será então que o seleccionador nacional dará conta dos 23 por si eleitos para serem os protagonistas portugueses de equipamento vermelho escuro, sublinhado timidamente a verde.

Os nomes dos escolhidos estão quase certos. De resto, um diário desportivo da nossa praça, o Record, já publicou a lista, ainda que sem confirmação oficial. Mas o Sargentão não costuma fazer muitas novidades. E, por mais que os analistas, os comentadores, os especialistas, os técnicos, os dirigentes, enfim os treinadores de bancada que todos somos, se tenham já erguido para apostrofar o brasileiro – ainda assim há uns resquícios de esperança que...

Para já, a polémica alimenta-se dos seleccionados para o Europeu de sub-21 que decorre intramuros. Bastou que se azedasse o já de si pouco amistoso relacionamento entre Solaria e Agostinho Oliveira, para o pessoal se enchesse de brios e vituperasse o chefe, como a si próprio se qualifica o sôr Luís Felipe, assim, com e. Ai dele, se as coisas correm para a banda do torto.

A quebra da confiança

Ora bem, para o fim ficou a outra. A queda do Governo Sócrates na confiança dos nossos concidadãos. Uma quebra acentuada, publica o Correio da Manhã, que promoveu uma sondagem tendo como parceiro a Aximage. De acordo com ela, 44,3 por cento dos inquiridos considera que o Executivo está a governar pior do que esperava.

Os ministros, tal como o líder, também caem, na opinião dos interrogados. A época vai mal para o Poder. É a reforma da Segurança Social que, ainda que imprescindível, ameaça muita gente, a maioria dela ainda sem saber exactamente porquê. É o encerramento das maternidades que motiva reacções em cadeia um pouco por todo o País. É o diabo. Note-se, porém. O impacto na opinião pública é despiciendo. Todos estão muito mais preocupados com os nomes da selecção.

Renova-se, porém e entretanto, a observação inicial. Que esta é uma trampa duma terra, já é afirmação comummente aceite. Que, para nós, o futebol tem uma dimensão e as correspondentes medidas que a enformam, também não é novidade. Que, por outro lado, a política e, principalmente, os políticos andam pelas ruas da amargura tampouco é inédito.

Somos o que somos. Valemos o que valemos. O Salazar já dizia que o pior mal que podia acontecer em Portugal era os políticos. Daí a decisão unívoca de os capar. Ninguém pretende que assim aconteça, agora, longe vá o agouro. Porém, desde os tempos do Sertório que, no entender do romano, este era um povo que nem se governava, nem se deixava governar. É um tanto como escreveu Stefan Zweig: «O Brasil é o país do futuro.» Anátema que não há meio de ser ultrapassado.

Veja-se o que está acontecendo, nomeadamente em São Paulo: a caça aos polícias. Por mor dos políticos, arguiu-se. Por cá, nada; políticos - por mal dos nossos pecados.

terça-feira, maio 09, 2006

O tempora! O mores!

Antunes Ferreira
Muito se tem falado na dissolução dos costumes que por aí, alegadamente, se verifica. Alguns guardiões da moral pública, auto-nomeados, emitem opiniões que eles próprios consideram sagazes, atempadas e importantes. Apesar de ninguém ser bom juiz em causa própria, as galas e os ouropeis são igualmente auto assumidos. Presunção e água benta...

Normalmente, esses considerandos assentam na comparação fútil de que no antigamente não se verificavam esses atropelos ao comportamento das pessoas. Era outra época, outra compostura, outra educação. Os portugueses aprendiam desde pequeninos que não deviam comportar-se, especialmente em público, em atropelo às normas mais sãs de uma sociedade que se dizia exemplar.

De bom-tom era afirmar-se que se seguia o exemplo dos antepassados, esses sim paradigmas de actuações excelsas e respeitosas. Puras, enfim. Já no escondido das alcovas, mesmo até nas abençoadas pela Santa Madre Igreja, as coisas não eram tão lineares. Ainda que se apregoasse que não existiam, longe disso, perversões, mesmo que ocorressem, Deus nos salvasse das tentações do Demo, não vinham à rua. Eram, ou deviam ser, recatadas. Do restante, a Censura encarregava-se, zelosa e firmemente.

É claro que, de longe a longe, no melhor pano cai a nódoa. Os Ballets Roses ou o escândalo Burnay em Cascais tinham acontecido, ainda que sem a dimensão que a maldita oposição lhes quisera conferir. Eventos diminutos, pequenos deslizes, pecadilhos que deviam ser objurgados, está visto, mas que se podiam perdoar, para não dizer mesmo esquecer. Resumindo: ocultar.

Eram, bem vistas as coisas, motivo para alguma reprimenda. Mas, a carne é fraca e não se está livre de se cair numa tentação, especialmente no que concerne à carne universalmente considerada fraca. Mas a pia de água benta lá estava, omnipresente e omnipotente, para colmatar essas eventuais pequenas falhas. Assim é que era, porque assim é que devia ser.

Biquíni? Uma indecência. Proibido. Cenas de amor no cinema? As normais, dentro dos cânones eclesiásticos. Carícias de namorados, mesmo que fugazes, em público? Abrenúncio, t’esconjuro Satanás. Tudo decorria na paz do Senhor e na tranquilidade. Não havia suicídios, havia quem se debruçasse demasiado da varanda dum sexto andar. Os benfiquistas não eram vermelhos, eram encarnados.

Nos dias hodiernos, o caso fia muito mais fino. Não há respeito, nem educação, muito menos obediência e disciplina. Caiu-se na rebaldaria. Veja-se os casos de homossexualismo, as pretensões dos «casais» de eles e de elas que, para alem da intenção do matrimónio, até tentam chegar à adopção de crianças. Pobres inocentes.

A devassidão tornou-se, para alem de prática quotidiana, uma forma de vida. Está tudo virado de pernas para o ar. O tempora! O mores! – apostrofava Cícero nas suas Verrinas, referindo-se à dissolução dos costumes e às perversidades praticadas pelos cidadãos da Roma de então. Como hoje, de resto.

Vinha há pouco a escutar umas Melodias de Sempre em CD. E, sem aviso prévio, um dueto dos antanhos do século passado, musica ligeira, de revista, recordada pela Maria Fernanda Soares e pelo Artur Garcia: «Tu d’homem e eu de mulher era galinha; bastava a gente querer, ó Cartolinha...» Não haja dúvidas. No domínio da outra senhora não havia travestis, coisa aberrante descoberta pelos pervertidos, em boa parte trazida para este pobre país pelos imigras, em especial os brasucas.

Deixemo-nos de falsos puritanismos e de jesuitices descabeladas. As coisas são o que são e as folhas dos calendários não são estáticas, longe disso. Os nossos dias são os nossos dias – para o bem e para o mal. A fórmula faz regressar à cerimónia matrimonial e tradicional? Pois que faça. Lá diz o anúncio televisivo que a tradição já não é o que era.

Nada. A cegarrega é de hoje, só de hoje. Antigamente reinavam o exemplar e o impoluto. Por este andar, não se sabe onde isto irá parar. A bom porto – não. Livre-nos Deus.

Consultório sentimental na Luz




Antunes Ferreira
O sôr Luís devia abrir um consultório sentimental na Luz. Ou, no mínimo, contratar um conselheiro matrimonial. Não se espantem: o jovem Geovanni Trapattoni saiu do clube invocando motivos familiares, pois a caríssima esposa não podia viver afastada dele. Resta saber se a Senhora terá ido estabelecer-se em Estugarda. Adiante.

Agora, Härr Ronald Koeman sai do clube dos lampiões por «razões familiares, tenho lá uma filha...» Ao que consta nem a casa no Algarve, muito menos o marisco e a cerveja (importada?) foram suficientes para o fazer ficar. Vai para o PSV Eindhoven e oxalá faça muito boa viagem. Os benfiquistas estão tristes. Em sondagem telefónica ontem feita pela SIC, apenas 82% concordaram com a saída.

Também se afigura que a dupla miraculosa V&V poderia recorrer a bruxa, vidente ou curandeiro, até mesmo a uma mulher de virtudes. E, quiçá a um exorcista devidamente licenciado. Três treinadores nas últimas três épocas deixam algumas dúvidas nos espíritos. Maldição? Artes do Mafarrico? Poção criminosa?

No tempo da Dona Margarida Prieto inaugurou-se uma capelinha no desaparecido estádio. Piedosa intenção a demonstrar a fé da esposa do então Presidente. Mas, ainda se não tinha chegado a este corrupio técnico. Aliás as instalações bentas foram desactivadas pouco tempo depois. Os céus não têm muito a ver com os futebóis, a não ser para os jogadores brasileiros, nomeadamente os guarda-redes.

O sôr Veiga, ainda mal tinha acabado de afirmar que «o contrato do senhor Koeman tina mais um ano e era para cumprir...», já estava sentado na sala de imprensa da ermidinha, ao lado do sôr Filipe e do neerlandês. De resto, o presidente encarnado já deixara antever entre linhas muito emaranhadas que o fim estava por pouco.

Fez-se, assim, luz na Luz; benditas sejam as «razões pessoais e familiares.» O holandês ainda teve tempo para afirmar «Nunca esquecerei este clube», pois «foi um prazer estar aqui, num dos maiores clubes do Mundo. Mas decidi seguir outro caminho.» Isto de acordo com as legendas que as televisões persistiram em colocar nos ecrãs. Já que, quanto a españolês, estamos conversados.

Vieira, que desejou felicidades ao ex disse, alto e bom som, como é seu timbre que a «saída não altera o projecto.» E, ainda que houvera «uma vontade muito grande do senhor Koeman em regressar à Holanda, ao seu clube de origem, onde conquistou bastantes títulos. Já tínhamos conversado na semana passada (...).» A rescisão fora amigável. Nem outra coisa seria de afirmar, perdão, esperar.

Está-se, portanto, perante um evento que se vai tornando habitual. As reprises nunca são empolgantes, pois se trata de coisas déjà vues. E quanto a novidades sobre o substituto do Härr Koeman? Para já, uma nova repetição: Fernando Chalana será, uma outra vez, o interino. Vieira e Veiga aqui estão de acordo: estrangeiro e com mais experiência do que saiu. Ainda que as portas da Luz lhe estejam sempre abertas.

Sublinhe-se que as palavras do líder vermelho desta vez não foram as já célebres «Quem vier, morre!» Isto porque o próximo treinador – que poderá ser o senhor Sven-Goran Eriksson, o último técnico que conseguiu completar duas épocas seguida e completas na casa da águia, nos últimos dez anos – não quereria pensar que as imortalizadas afirmações se lhe poderiam aplicar. Gato escaldado...

RELER

A guerra

«É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não mal algum que ou se não padeça, ou se não tema; nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela, e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro.»

Padre António Vieira

segunda-feira, maio 08, 2006

REGISTO




Notas de Cifra

É com todo o prazer e muita satisfação que aqui se regista um evento de sublinhar: o Notas de Cifra. Mais precisamente notasdecifra.blogspot.com. O criminoso confesso autor de tal ocorrência é um Amigo do peito, o José Gomes Martins, portuga de nascimento, tailando de coração. E aventureiro dos sete costados. Ou mais. O gajinho já se meteu em coisas e causas que nem ao Demo lembrariam. Tem mais estórias para contar do que a Trágico Marítima.

Ao pé do Zé Martins o Fernão Mendes Pinto não foi propriamente um amador – mas quase. A peregrinação do Gomes suplanta a do Mentes? Minto. Porque é verídica, interessantíssima e entusiasmante. Vivó Gomes das Arábias (e das selvas asiáticas)!!! Seja bem-vindo. Fazia cá falta. E agora já cá o temos. Boa. Bué de fixe. A.F.

Gosto muito do fado





Antunes Ferreira
O Vasco Leitão, estudante (?) de Medicina foi interpretado pelo grande Vasco Santana no primeiro filme sonoro português «A Canção de Lisboa». Isso aconteceu em 1933 – não há volta a dar, cai-se sempre no mesmo: a Constituição fascista era do mesmo ano, que porra! – quando Cottinelli Telmo o realizou. Do elenco constavam ainda outros nomes incontornáveis do cinema luso: António Silva, Beatriz Costa, Teresa Gomes Sofia Santos e outros que aqui não se mencionam porque seria como palmilhar a légua da Póvoa.

O tipo vive da mesada das tias que, de Trás-os-Montes, lha enviam mensal e regularmente. As duas, que nunca vieram à capital, consideram-no um aluno cumpridor e com boas notas. Ele assim as vai informando... Ora, o Vasco prefere os retiros e os arraiais, as cantigas populares e as mulheres bonitas, em particular Alice (Beatriz Costa), uma costureira do Bairro dos Castelinhos, o que não agrada ao pai desta, o alfaiate Caetano (António Silva), que sabe que o estudante está crivado de dívidas...

Os azares de Vasco sucedem-se: no mesmo dia em que é reprovado no exame final de curso, recebe uma carta em que as tias lhe anunciam uma visita a Lisboa! Acumulam-se, igualmente, as situações mais caricatas, o que, com o naipe de actores que o celulóide regista, é normalíssimo. A cena do «Chapéus há muitos, seu palerma!» filmada no Jardim Zoológico de Lisboa, é de antologia.

No final, como convinha e competia à época e ao regime salazarento, acabou tudo em bem, com o Vasquito – como o tratavam as tias – a obter a nota mais alta no novo exame, depois de ter sido descoberto pelo Manuel Santos Carvalho, desempenhando o papel de dono de um café/casa de fados, como um fadista de estalo. O novo doutor deixará de cantar o fado e as últimas cenas da fita são os casamentos simultâneos de vários actores. Como diriam os franceses – tout est bien ce qui finit bien...

La Féria, o inefável

Quem não se deliciou com o filme, que a televisão tem passado inúmeras vezes? Tal tem sido o impacto da obra que o inefável Filipe La Féria o adaptou ao teatro musicado, afirmando-se no folheto vendido aos espectadores do Politeama que se trata de uma homenagem a Lisboa e ao humor português. A peça estreou-se a 17 de Setembro do ano passado e, como acontece com todas as produções do encenador, mantém-se em cena ainda hoje. Desculpar-me-ão por este intróito tão pesado por longo, mas chega-se agora mesmo ao cerne da questão.

Eu gosto do fado, ao contrário do Leitão, que dizia odiar a chamada canção nacional, antes de ter conquistado os aplausos dos entendidos na mesma. «Abaixo o fado!!!» berrava, com estrondo, mas sem muita convicção. O que, de resto, se revelaria uma mentirola do tamanho de um camião TIR, pelo menos. Poderá ser politicamente incorrecta esta minha afirmação. Que se lixe! O politicamente correcto não me diz nada. Por algum motivo me classificam de iconoclasta, o que me dá muito prazer.

Cantar, sempre

Eu gostava de cantar o fado e, ainda hoje, o tento fazer às vezes e se me deixam. Não me questionem sobre os resultados, mas posso jurar pelo sangui di Cristo (como dizem os angolanos) que nunca fui agredido quando ensaio atirar umas estrofes de letras antigas. Uma confidência. Com os meus dezasseis anos, comecei a aprender a cantá-lo na falecida «A Toca» do falecido Carlos Ramos. É verdade. Até fiz alguns duetos, à desgarrada com o enorme fadista que ele era. E o «Não venhas tarde» foi a minha coroa de glória. Efémera, se é que existiu.

Adoro o fado, por conseguinte. Adoro-o e ponto. Quando se diz que, juntamente com o futebol e Fátima (os três fff...) ele é um dos ópios do povo, tenho de acentuar que me estou nas tintas. Sem mais. No rádio do meu chasso, há vários CD de fadistas o(a)s mais diverso(a)s. E não me envergonho. Sabe-me bem percorrer quilómetros, mesmo os escassos que completo na cidade, ao som das guitarras e das violas que acompanham muita gente boa. Desde a Marisa até ao Camané, desde a Mafalda Arnaut até ao António Pinto Leite.

Mas, perdoem-me o desabafo intencional e não contrito. O que mais ouço é um disco do dito cujo Carlos Ramos, onde estão registados êxitos que me fazem recordar as noites do Bairro Alto, findas pela intervenção enérgica do Henrique Silva Ferreira, meu saudoso Pai, que entendeu que não gastara umas largas massas comigo para que me cursasse em corrido lisboeta.

Perdeu-se, quiçá, um vulto da fadistagem? Creio que não, sinceramente. Imitar o velho Alfredo Marceneiro era a minha maior qualificação. Logo, nunca cheguei a ser um vero fadista; um arremedo, talvez. Isso não me impede de saber de cor letras e letras do antigamente. Mesmo da Amália que, ainda que fosse uma intérprete privilegiada, não era quem me enchesse as medidas. Não se assustem. Também sou fadistamente incorrecto. Que Deus me perdoe, se é crime ou pecado, mas eu sou assim e fugindo ao fado, fugia de mim...

domingo, maio 07, 2006

O Bom Malandro volta a atacar

Antunes Ferreira
Mais uma noite em claro. E o reculpado ou reincidente, ou lá o que lhe quiserem chamar é um bom malandro chamado Mário Zambujal. O gajo deu-me, dá-me e dar-me-á cabo de qualquer descanso, mínimo que seja. De há uns largos anos a esta parte que isso acontece. Obrigado, Mário.

Foi no Diário de Notícias que a saga começou. Uma noite – naqueles tempos, com o jornal a fechar às tantas da madrugada, a tempo, ainda assim, de se apanharem os comboios – o bandido escreveu uma pequena nota que enviou à socapa para a tipografia anexa à Redacção. Alma caridosa deu-me conta da provocação.

Rezava assim, sem a preocupação de se tratar de transcrição sic: «O jornalista Antunes Ferreira deixou-nos ontem, vítima de envenenamento. Por inadvertência, mordeu a própria língua. O seu funeral realiza-se amanhã...» À Zambujal, mesmo que não fosse inédito. Com a marca inconfundível de um Amigão que nunca me abandonou, sobretudo nos maus momentos.

A Raquel, de resto, que tem um carinho muito especial por ele, recorda com uma pontinha de emoção que, sem a conhecer ainda, o Mário esteve no velório da mãe dela, que, óbvia e naturalmente, também não era do trato do homem. São coisas destas que marcam, nomeadamente as pessoas de bem, como julgo que é o caso da minha mulher e, claro, do Zambujal.

No que respeita a noctívagos, o tipo batia qualquer um, a começar por este escriba. Depois de uma porrada de horas de trabalho, pelas duas da matina, TMG, o chefe chegava-se a mim – com as melhores, mais puras e sinceras intenções, tá visto - e avisava-me que ia ali comer uma coisinha levezinha. E que se fosse preciso o chamasse. Rematava: sobre os teus ombros recai a responsabilidade de fazer sair o maior jornal português.

O ar fingidamente sério e a advertência, de mãos dadas com o ali, significavam que o iconoclasta – gostaste, ó Mário? – ia aboletar-se na Cova da Onça, mesmo ao lado do matutino. Onde tinha mesa permanente e garrafa aparelhada. E meninas, muitas, que o paparicavam e se deliciavam com as estórias dele. E com ele. Creio que não passava disso.

Bons anos, sem ponta de saudosismo, bons anos. Nas primeiras eleições em Liberdade, passámos 52 horas consecutivas no jornal, mais uns pozinhos. Todos, isto é, todos mesmo, incluindo cá o escriba que, para mais, era candidato inelegível, ámen, à Assembleia Constituinte, pelo PS. Só mais tarde, sucederia que o jovem me gamaria a primeira noite inteira. Salvo seja. Foi a Crónica dos (de outros) Bons Malandros que serviu de álibi. Nem o Perry Mason, meninos, nem a Della Street.

Desta feita é o Primeiro as Senhoras traço Relato do Último Bom Malandro. Nem é preciso relatar a ocorrência com todos os efes e os erres. Resuma-se. Um cidadão tão honesto quanto lhe seja possível e a lei não proíba, estende-se no leito marital, acende a lampadazinha de leitura nocturna e abre o buque. Está feito. Pela manhã, ainda assim com o candeeireco aceso, mamou as 150 páginas editadas pela Oficina do Livro. Sem espinhas. O verdadeiro arrastão.

Podia tal prever-se? Com o Mário, sim. É o único exemplo que conheço que desmente o João Pinto do FêCêPê quando este emitiu a frase que já consta de qualquer galeria de citações & anedotas – previsões... só no fim do jogo. Nada, não. Nem com um Dormonoc ou dois, mesmo três, um sujeito adormece com a nova obra zambujaliana nas unhas. E sem outros quaisquer estimulantes – ou conservantes.

Não há necessidade de aqui se exarar que é uma pequena obra-prima. Primas, há muitas e a cada uma delas, por mais que sejam, há que arrimar-se. Este relato do último bom malandro é a prova provada de que quem é bom, nunca esquece. É como andar de bicicleta. Só não se dá nota porque cada vez mais o Marcelo é um calino adulto. Só não se bate palmas, porque, cada vez mais, o Herman é um chavão loiro artificial.

Já está. O texto abstruso deste ajudante de auxiliar de praticante do Zambujal não passa do que é. Posso arguir, tenuemente embora, em minha defesa, que é sincero no superlativo e admirativo à décima potência. No que concerne à qualidade, valham-me todos os habitantes do Olimpo e das pradarias celestiais. Sem a sua preciosa ajuda, como julgo ser o caso, não sobra nada.

Pois é, Mário Amigo, muita malta está contigo. Muitíssima. Mas eu reivindico a inclusão nela. Alínea a) porque sou fundador; alínea b) porque, não há volta a dar, estou contigo. Mesmo que não quisesses – estava.


Uma apreciação - quem sabe se a primeira

Primeiro as Senhoras não é uma continuação da Crónica dos Bons Malandros, o best-seller que revelou Mário Zambujal como um autor de surpreendente originalidade e humor. Mas neste livro voltamos a encontrar um "bom malandro" com as suas aventuras, fantasias e emoções. A história conta-se num depoimento do protagonista a um silencioso inspector da Polícia que, tal como os leitores, página a página vai conhecendo o currículo da personagem e os passos de um golpe que o levou a passar nove dias sequestrado. Sem perder de vista o destino da viagem, o passageiro é convidado a ir-se demorando em sucessivos apeadeiros, onde não faltam motivos para uma boa gargalhada ou para um gostoso sorriso de cumplicidade

quinta-feira, maio 04, 2006

Vive le Québec libre!





Antunes Ferreira
Maio já está nos carris. Junho não tarda e Julho perfila-se no horizonte. Poderão aqueles a quem me dirijo pensar que endoideci ou, no mínimo, me tornei num calendariodependente. Porquê este arrazoado sobre o Verão que se aproxima? Porque razão o gajo não acrescentou ao escrito o mês de Agosto e o de Setembro? Que se saiba o Estio usa e abusa deste hábito: começa a 21 de Junho e fina-se a 23 de Setembro. Porém, com todas as mudanças que se verificam – e a todos os níveis...

Eu sei e confesso que sou um tanto estúrdio. Mas, daí a entrar pelo campo da loucura vai um larguíssimo passo; nem que usasse as botas das sete léguas, como o Polegarzinho. Maluco sou, mas no bom sentido da palavra. Adoro trocadilhos, sei milhões de anedotas e conto-as menos mal, entusiasmo-me com as tiradas irónicas que introduzo em muitos dos textos que subscrevo. Sou, o que se chama, um gozão.
Deitem-se para trás das costas (estranha expressão que se arreigou na linguagem. A parte detrás das costas... é o peito. E a barriga, importantíssima) estes prolegómenos y al grelo como dirían nuestros vecinos españoles. A expressão, típica em castelhano, tem que ser utilizada com muito cuidado e ponderação, não vá alguma durty mind entender que possui implicações orgânico-femininas. O que eles querem dizer é «ao assunto.»

Charles de Gaulle

Posto que, só resta reafirmar que, de sanidade mental, tenho quanto baste. O enunciado dos meses que acima se pode encontrar e que terá motivado toda esta balbúrdia, deve-se ao facto de, a propósito das recentes expulsões de portugueses ilegais no Canadá, alguns há uns largos anos, me ter ocorrido a viajem do general Charles de Gaulle ao Québec.

Ficou célebre a visita. Estava-se em Julho de 1967. Permita-se-me que transcreva aqui um apontamento entusiástico da autoria do cura Maurice Cossette. Em francês, naturalmente, pois assim tem muito mais interesse e significado. O digno sacerdote não se coibiu de deixar transparecer o que lhe ia na alma, perante as afirmações veementes do Presidente da República Francesa. Leia-se:
«Le lundi 24 juillet 1967, le Général de Gaulle emprunte le chemin du Roy de Québec à Montréal. On avait peint pour l'occasion des fleurs de lys sur l'asphalte, tout au long du parcours. Le soir, devant l'Hôtel de ville de Montréal, à 19 heures 30, De Gaulle salue la foule et prononce un discours où il évoque la libération de la France en 1944. Il conclut par ces mots: “Vive le Québec libre! Vive le Canada français! Et vive la France!”, au grand bonheur de la foule présente.»

Não será necessária a tradução? Pelo sim, pelo não, ela aqui vai: «Na segunda-feira, 24 de Julho de 1967, o General de Gaulle toma o caminho do Rei em Montreal. Para (festejar) a ocasião, tinham sido pintadas no asfalto, ao longo de todo o percurso, flores de lis. À noite, em frente da Câmara Municipal de Montreal, às 19 horas e 30, de Gaulle saúda a multidão e pronuncia um discurso em que evoca a libertação da França em 1944. Conclui com estas palavras: “Viva o Québec libré! Viva o Canadá francês! E viva a França!”, perante a enorme felicidade da massa humana ali presente.»

Isto deu, na altura, um enorme imbróglio entre Paris e Otawa. Percebe-se porquê. Na Belle Province, um visitante ilustre soltava um verdadeiro grito de Ipiranga. O Canadá explodiu. Poderia ter escrito o resto do Canadá. Mas, há que o dizer, a maior província de um país imenso, francófona de tal modo que as placas de sinalização dizem STOP – ARRÊT, que reivindicava a sua independência, rugiu de contentamento porque não se considerava... canadiana.

De acordo. Estou ao lado dos québécois. Não sei se algum dia chegarão à independência, por mais referendos que se façam. Nem sequer sei equacionar se isso lhes seria conveniente. Para o Canadá – não. Recordo-me apenas de, no Parlamento do Québec, o então primeiro-ministro René Levesque me ter dito, quando com ele conversei durante uns largos minutos, que, para ele, o General era um dos Homens mais importantes do Mundo e da História.

A folha do plátano

Para o Armando Fernandes e o Raul Palhau, os meus cunhados ali residentes, que sabem o que eu penso, não se põe, sequer, a escolha entre a folha do plátano e a flor de lis. A primeira é que vale; a outra é, tão só, um sucedâneo permitido. Um ersatz, como dizem os alemães. De independências, acentuam eles, já lhes chegou as de Angola e Moçambique onde residiam, com a «infame descolonização» à mistura.

Como atrás se escreve, tudo isto me chegou aos lóbulos cerebrais por mor das expulsões de compatriotas pelo Governo canadiano. À volta das quais se levantou um tremendo burburinho que, inclusive, levou Freitas do Amaral a conversar na capital do país com o seu homólogo canadiano.

Muito se escreveu, muito se reportou, muito se filmou, muito se televisou... O assunto é tema excelente para vender aos consumidores. O pessoal pela-se por estas enjorquices. O choradinho é fácil em casos teste jaez. Os meninos e as meninas já nascidos e crescidos no país independente, com a soberana britânico como Chefe do Estado, o que faz alguma confusão, ficam muito bem nos ecrãs. De preferência usando óculos escuros para esconderem alegadas lágrimas. É isto.

Não houve, agora, aumento significativo do que acontecia anterior e regularmente. Acontece, porem, que o novo Executivo chefiado por Stephen Harper parece apostado em utilizar a transparência que entende (e, para o autor destas linhas, bem) necessária. No que é secundado pelos seus ministros da Imigração, Monte Solberg, e dos Negócios Estrangeiros, Gordan MacKey. A única pergunta a fazer: porque não se legalizaram aqueles portugas a tempo e horas? Muitíssimos outros o fizeram. Logo, não se venha com queixumes e dificuldades de.

Está visto. Esta cena da concatenação de ideias é, ainda que frequente, difícil de explicar. O Povo fala das cerejas que vêm umas atrás das outras. O senhor Pavlov é que começou com a estória dos reflexos condicionados. Daí até ao Québec libre...

quarta-feira, maio 03, 2006

Autópsias

Antunes Ferreira
O Eduardo é que é o culpado desta estória? Nada. Ele até é engenheiro de coisas ligadas à electricidade. Então porquê a citação do nome de um sujeito honesto e cumpridor que tem como apelido Salvado Penha? Pronto. Lá começam as perguntas embaraçosas, a que sempre apetece responder – o que é que vocês têm com isso? Mas, no caso em causa – e fala-se de advogado – tenho de confessar que foi o engenhocas electricista que me mandou a estória envelopada em imeile que tinha outras, e que outras.

O caso passou-se no Brasil. Podia ter sido neste canteiro à beira-mar plantado (mas onde é que eu já vi isto?), no Ruanda, na Islândia, no Algueirão ou na Austrália ocidental. É um evento universal, com cabimento onde quer que seja. Amigos causídicos & correlativos: não vos abespinheis. Não existe aqui nenhuma intenção ínvia, muito menos córregos traiçoeiros. Juro.

Mau. Quem jura mais mente, segundo corre por aí há tempos imemoriais. Ultrapasse-se, porém, a adversativa que também é dubitativa, e siga-se em frente, que se vai fazendo tarde. As barras dos tribunais são, frequentemente, escorregadias e até traiçoeiras. Nunca um cidadão se deve aproximar delas, muito menos fazer parte do seu recheio, por receio.

Recado ao Armando

Já me esquecia. Como será que o meu cunhado Armando, o Fernandes, classificará estes rabiscos? Fiquei entusiasmado com o comment que o chateauguayiense publicou neste blóguio, mas, em paralelo, um tanto intrigado. Eu, que nem sou de intrigas, adito. Que quererá o informático na retrete – está bem de ver, em francês – dizer com tudo aquilo?

Ao correr das teclas, não posso também deixar de te transmitir, cunhado amigo, que, pelo menos, eu estou contigo. Não tenho procuração para representar o Povo, por isso quedo-me pela afirmação pessoal, informal e intencional. Daí que te informe que tens um outro caminho para estares presente com assiduidade neste travessa do ferreira. Mandas-me o escrito por imeile – e eu posto-o imediatamente. Sem qualquer censura, abrenúncio, t’arrenego Satanás.

Remediado, julgo, o esquecimento aliás lamentável, retorno à estorinha. Aprouve-me. Nestas tramitações imílicas descobrem-se amiúde motivos para que um se compraza com o que lhe remetem. É uma esmagadora maioria, que aureoleia o ego de quem escreve, ainda que também existam as mensagens acintosas, as mal intencionadas, as inconvenientes et cetera.

Vera Cruz

Um juízo em terras de Vera Cruz, portanto. Julga-se um crime de homicídio perpetrado por um homúnculo de óculos com lentes redondas e pequeninas, aros camuflados, de tartaruga. Assassinado, um negão, enorme, de manápulas de estivador, uma besta de força que, porém, não resistiu ao golpe esmagador no alto da moleirinha agora desfeita.

A arma fora um candeeiro de banquinha de cabeceira, bronze maciço sem abajur, empunhado pelas mãozinhas bem tratadas do pequenote. Se o Taborda, meu colega da Escola Mouzinho da Silveira, abastecedora de vários liceus da capital, por ali estivesse, desfecharia o chavão anedótico: «Anão, anão, mas com um ganda par de c...»

É um caso típico de homossexualismo. Ciúmes de alcova soturna, embirrações contínuas, agravamento da relação à mistura com roupa suja que baste. Já está praticamente resolvido o caso. O julgamento não é, apenas, um pró-forma porque é nele que se decidirá da sorte do réu, os seja da pena, certamente maior e mais ainda pelos agravantes do estrangulamento, quiçá premeditado.

Iniciada a audiência, procede-se à ajuramentação das testemunhas, dos agentes da polícia de investigação, do médico forense, dos peritos em dactiloscopia e mais que haja. O promotor público adianta as suas razões, aliás pouco aliciantes, pois que tudo está claro e a claro, não há corredores labirínticos, nada.

Checar tudo

O advogado de defesa, oficioso, rata sábia de muitas comarcas e até distritos judiciais, representa a sua rábula, fingindo que acredita no depoimento do seu constituinte, alheando-se, tanto quanto lhe é possível, das punições antecipadas que se podem ler nos rostos dos presentes, talvez mesmo do próprio magistrado presidente.

O defensor contra-interroga o médico legista: Doutô, antes di fazê a autópsia, o senhô checou o pulso da vítima?
O médico, secamente: Não.
Advogado: O senhô checou a pressão arteriau?
O perito, no mesmo tom: Não.
O jurista : O senhô checou a respiração?
O esculápio, sem se alterar: Não.
Advogado : Então, é possíveu qui a vítima estivesse viva quando a
autópsia começou?
O galeno, sintético: Não.
O defensor oficioso: Como o senhô podi tê essa certeza?
O doutor, farto e bem farto: Porque o cérebro do cara estava metido num frasco com fórmóu, sobre um armário branco, ao lado da mesa de operações, pô.
Advogado : Mas ele poderia estar vivo mesmo assim?
Testemunha: Sim, é possíveu qui ele estivesse vivo e cursando Direito em
algum lugar!!! Tem genti pra tudo...

Daqui lanço um apelo à digníssima Ordem dos Advogados para que não veja no tema qualquer intenção vilipendiosa, pois apenas se trata de piada, aparentemente com alguma... piada. Se, porém, subsistirem dúvidas, que me absolvam por falta de intenção de achincalhar quem quer que seja. O pedido, respeitando as formalidades necessárias, aqui fica ao Bastonário – e Presidente da Assembleia-Geral do nosso Sporting. Faça-se justiça.

O processo do possesso


Há processos e possessos...



Antunes Ferreira
Foi a Dona Chica, em véspera do fim-de-semana prolongado – Viva o Dia do Trabalhador! Viva! – que enunciou um quase trocadilho que achei porreiraço. Referia-se a Senhora, alentejana de cepa – lembrei-me agora, ao correr da pena, que o vinho alentejano está cada vez mais caro – a advogados e tribunais, a causas e assim. Não citou a petição inicial nem o direito do contraditório, porque isso já fia mais fino. E ela, inteligente e esperta, não sendo jurista, muito menos qualificada, ficou-se pela afirmação. O processo do possesso.

Palavra de honra que gostei. De tal forma que lhe pedi autorização para utilizar o termo em escrevinhadela. Dado que ela ma concedeu, aqui vai. Vai, mas vai devagarinho, ou não fosse a autora-inspiradora nada e criada para alem do Tejo. Aponte-se: as pressas normalmente dão bota. Mais: se forem pressas apressadas, é aventá-las pela janela. É que também temos as presas, só com um s; mas aí depende da pena. Se ela for maior, não há pressa que valha.

Abro aqui mesmo uma parentética, sem autorização prévia e vossa. A minha Mãe era de Portalegre. Precisando: nascera na freguesia da Maia, concelho do Porto, como então era e constava da certidão narrativa de nascimento dela. Mas, com 11 meses, os meus Avós transplantaram-na para a cidade da Serra de São Mamede. Daí dizer convictamente que era alentejana do Alto, fazer azevias de grão e batata-doce no Natal e ter sido aluna de um tal José Régio.

Perante tal circunstância, julgo que tenho igualmente uma meia costela portalegrense. Corrijam-me se o raciocínio é esconso. Façam o favor de. Mas há mais. A minha primeira filha adaptada (eu não disse adoptada, mas não gosto da palavra nora, cheira-me sempre a mula a andar à roda) Margarida é de Estremoz; a família materna da esposa do meu Paulo, o segundo descendente, que é a Veva, é de… Portalegre.

Mal parecia, portanto, que por aqui começasse com as anedotas dos compadres. Que, de resto, andam muito ocupados a plantar alhos nas beiras das estradas. Disseram-lhes que faz bem à circulação e daí. Encerro neste preciso momento a dissertação sem tino. Fecho, por conseguinte, o parênteses.

Expulsar Satanás

Dito e feito isto, volto ao que me trazia. O processo do possesso. Esconjurar o mal e expulsar o demo são atributos de sacerdote que se preze. Para que tal se verifique é preciso, antes do mais, arranjar um possesso, de preferência um daqueles de que o satânico não quer sair nem que venha a mulher da fava-rica. Que é o que não falta praí. Só no Rossio, a qualquer hora é um rebanho permanente.

Arregimentado o moçoilo deverá ele apresentar atestado de se encontrar no estado de possuído – e devidamente autenticado por duas testemunhas idóneas. Numa qualquer Junta de Freguesia obtém-se o documento, devendo, para o efeito, esperar-se uma semanita, coisa pouca. A informatização, por vezes, tem coisas… Reserve-se o cidadão, como nas receitas culinárias.

De seguida, fica sempre bem conseguir-se um advogado que já esteja inscrito na Ordem do senhor presidente da Assembleia-Geral leonina. Se se pretende realizar um processo a sério, o causídico é absolutamente imprescindível. Para a sua captura, utilize-se os mesmos método e local da anterior acima descrita. Volte a reservar-se o jurista.

Venha o exorcista

Falta tão só o exorcista. Não confundir com O Exorcista, filme de 1973 realizado por William Friedkin, inspirado no livro de terror homónimo, escrito por William Peter Blatty. O que se pretende é um pastor de almas com a especialidade respectiva. Alcança-se. Para tal, proceda-se uma outra vez à incorporação do clérigo na praça citada.

Depois, bom, depois, é só desencadear o processo do possesso, com a assistência do togado e tendo o cónego como protagonista. Se mo permitem, relembro que no caso da fita houve uma sucessão de adaptações. O mister William II, realizador, agarrou-se que nem lapa à rocha ao mister William I, autor do best-seller, que, por sua vez, se baseou num caso verídico verificado em 1949, em que um jovem adolescente americano fora submetido a um exorcismo que durou dois meses, dois.
Estas coisas têm que se lhe diga. E, com a celeridade da justiça lusitana, contem-se os meses, agrupem-se estes em anos e por aí adiante. Ao fim de um decénio temos, sem falsos preconceitos, e se não prescrever, um verdadeiro processo do possesso. A quem são devidas horas extraordinárias, desde que previamente solicitadas e registadas em livro próprio.

Então sim, convenientemente encapado e cozido a fio de sisal eis aqui o verdadeiro, o único, o que não tem, nem pode ter similares, processo do possesso. Patrocinado pela Liga dos Exorcistas Encartados e a editar pela Livraria Jurídica & Religiosa, nihil obstat. E apresentado na II Vara Judicial. Quid juris?

Chupar os dedos na Rebelva



Antunes Ferreira
No coração da Rebelva, ali à volta do antigo lavadouro público, existem restaurantes para dar e vender. É quase uma orgia gastronómica. Desde os mais corriqueiros até aos chineses, passando por brasileiros e, até, alentejanos. Come-se bem, por ali. Gente de Carcavelos constitui a principal clientela. Mas, como se pode imaginar e dada a fartura de estabelecimentos, há comensais das mais variadas origens, a começar por lisboetas, vizinhos, que descobriram o lugar e tornaram-se fregueses.

Porquê Rebelva? Para questões destas, as respostas são, essencialmente, organizadas a partir das origens dos povoados, ainda que as mais das vezes se tenha de recorrer à oralidade, pois que escritos não se encontram. Não é, porém, o caso.

Em 1758, três anos depois do terrível terramoto, o Poder enviou a muitas pessoas entendidas como qualificadas para o efeito, um questionário que se destinava a conhecer o que existia, quem ali habitava, que propriedades, isto a propósito dos danos causados pelo abalo telúrico.

O cura Avellar

Em Carcavelos, o destinatário foi o cura António Coelho de Avellar, ou Auellar, o qual sintetizou as consequências do sismo na seguinte resposta, a 26.ª ao questionário: «Padeceo bastante ruina no terremoto de 1755 porem vaose reparando.» São, igualmente, do clérigo as informações que se transcrevem, com o respectivo número de ordem.

Faça-se aqui uma simples advertência. Pareceu ao escriba que a manutenção da grafia da época era a solução mais interessante para este texto. Por tal facto, já no enunciado anterior assim se fez e, de seguida se continua a fazer. Os poucos que, quiçá me leiam, terão de fazer o obséquio de tentar entender. O que, aliás, não se me afigura de extrema dificuldade... Escrevia, assim, o cura Auellar:
«1- O lugar de Carcavelos he pertencente ao Patriarcado, e termo da villa de Cascais, e Freguesia de N. Senhora dos Remédios.
2- São terras donatarias do Excellentissimo Marques de Cascais.
3- Tem setenta e dous vizinhos e perto de trezentas e tantas pessoas.
4- Está situado em huma planissia e descobrese delle quatro lugares 1 a Rabelba 2 S. Domingos 3 Sasueyros 4 Oeyras: quasi todos distantes hum tiro de pessa.
(...)
6- Tem a Parroquia dento no mesmo lugar e não tem mais lugares a dita Freguezia.
7
- O Orago da dita Freguezia hé N. Senhora dos Remedios tem tres altares o altar mor e dous Coletraes, porem por hora servemse só do altar mor por estarem arruinados os outros altares tem no altar mor colocada na Image de N. Senhora dos Remedios, e os dous Coletraes da parte do nascente era do Senhor Jesus e o da parte do poente de N. Senhora do Rozario tem huma nave e huma Irmandade do Santissimo Sacramento.
8- O Parrocho hé Cura e hé apresentação dos Freguezes e poderá render sem mil reis.»


Um registo valioso


De acordo com o livro «Registo Fotográfico de Carcavelos e alguns apontamentos históricos-administrativos» da autoria de Jorge Miranda, Guilherme Cardoso e Carlos A. Teixeira, poder-se-á talvez considerar a mais antiga referência a Carcavelos a que a seguir se transcreve e diz respeito à eleição de dois procuradores - moradores de Carcavelos e Sassoeiros - pelo concelho de Cascais, para jurarem o contrato de casamento de D. João I de Castela com D. Beatriz no dia 19 de Julho de 1383:

«Em nome de deus amen/. Sabhom quantos esta carta de procuraçom virem que na era de mil e quatro centos e vynte e hun annos dez e nove dias de Jullo em Cascais aas portas do castello hu sooem de ffazee o concelho seendo no dito logo em rollaçom Joliam Domjnges Lourenço Alvazis da dita villa e Martjm Domjinges e Jolian Domjinges vereadores do concello e Martjm Domjnges procurador do dito concello e Nuno Rodriguez alcaide (...) homêes das suas vyntenas seendo todos juntos chamados peo Johane Estevez porteiro do concello (...) os sobreditos Alvazjs e vereadores e alcaide e procurador e homêes bôus e vyntaneiros com dos suas vyntenez dyzerom que ffaziam seus procuradores espiçiais soficientes aumdosos Stevom Domjngez morador em Carcavellos e Domjnges Lourenço morador em çaçoeiros termhos da aim vila de Cascaas(...).»

Ainda que o motivo possa ser, hoje, motivo de algum olhar dubidativo-aljubarroteiro, (bem se teve de esforçar o Condestável Nuno Álvares Pereira para amarrotar os perros castellanos. Isto poderia ser motivo de outro comentário meu, suficientemente crítico, sobre a sobranceria que muitas vezes é usada para encomiar os Atoleiros ou a citada Aljubarrota e, no mesmo contexto, o João das Regras, para não falar no novo rei D. João I), o facto é que aconteceu. E a menção do morador em Carcavelos é, neste contexto, realmente importante.

Oferta «multi-racial»

Pois, voltando ao abundante recheio de restaurantes e afins existente na Rebelva, tenho de comunicar, sem qualquer intenção de emular os autores atrás citados, que por tais paragens tenho... parado, para ingurgitar pitéus que, as mais das vezes possuem uma excelente relação qualidade-preço, e atestam indesmentivelmente, as virtudes das cozinheiras que elaboram os mesmos para gáudio dos fregueses.

E, face à oferta «multi-racial» (que não tem nada a ver com o chavão pseudo-nacionalista da salazarenta época) de manjares, já tive, também, oportunidade para me amesendar nuns quantos para comprovar a veracidade do anúncio dos chupas da minha infância - «é pró menino e prá menina, dois um tostão, cada cor seu paladar!!!»

Esta é, assim, uma evocação quase pantagruélica da Rebelva, ali a dois passos da auto-estrada que leva de Lisboa a Cascais. Sem querer influenciar quem quer que seja, sem quaisquer comissões dos prestadores de serviços culinários, nem sequer de descontos durante tais surtidas, permito-me deixar, apenas, uma modesta sugestão: vão até lá – e, depois, digam-me se chuparam os dedos.




Frango Dourado

Cá estamos. Este é um dos restaurantes indígenas no centro da Rebelva. Casa simpática, limpa, arrumada. Sem primores de decoração, mas com gente boa, atenta e, sobretudo, de grande disponibilidade. Bem como paciência e sorrisos para aturar os fregueses, o que é de registar nestes tempos que vão correndo.

O Paulo Campos, um dos proprietários, encarrega-se do atendimento dos visitantes/gastrónomos. Alguns apenas comilões, é certo, mas o Sol quando nasce é para todos. Duas acompanhantes no serviço das mesas: a Vilma, brasileira de origem, portuguesa de importação, e a Lúcia. Esta, por vezes, dá a estratégia na cozinha. Costumo dizer que tal se deve a mau comportamento da jovem. Donde, o castigo nos tachos e panelas...

É absolutamente mentira. Tão só uma necessidade e o prazer concomitante da Lúcia. Que fica então ao lado da Dona Virgínia, a Senhora Cozinheira - título que bem merece. Passe embora o calino da afirmação, aqui temos umas mãos de fada dos temperos, dos refogados, dos cozidos, dos devaneios poetico-culinários. A lista que se propõe ao cliente não é muito ampla. Mas a Dona Virgínia valoriza-a: faz tudo bem feito. Ponto.

A sala primeira não é grande. Mas, avance-se por corredor e desembocar-se-á num outro salão, do mesmo estilo de simplicidade e limpeza. E um arco ainda dá para outro. Quem diria? Vai, agora, acrescentar-se uma esplanada em quintal adjacente, abençoado do alto pela grelha que rescende. A inauguração está a rebentar, com convites e tudo.

Não se faça crescer a água na boca com os manjares oferecidoa às papilas gustativas ansiosas. Desde a feijoada à brasileira, um mimo, até às tiritas de porco grelhadas, um espanto, passando por churrascos e outros e antecedidos por entradas de bater as palmas. Gostam de ovas cozidas e em vinagrete? Pois experimentem e não se queixarão.

Não é o autor um crítico ou diplomado em apreciação gastronómica. Mas jura pela sua virgindade (é da colheita de 20 de Setembro, logo Virgo...) que apetece ali comer. Sem espanpanâncias, sem arrebiques, sem ostentações. Come-se bem e já está. De tal sorte que se volta. Eu - voltei, volto e voltarei. E sem pensar em desonto por mor do escrito. A vida tem que se lhe diga. E a ousadia de investir não se compadece com borlas...

Tenha-se, porém,o maior cuidado com dias festivos, do tipo do Pai, da Mãe, ou pontes et aliud. Previna-se e reserve-se mesa. O Frango enche e apesar do que se disse sobre as instações, é tanta a afluência que elas rebentam pelas costuras. E, apesar do reforço da equipa com jogadores ocasionais, nem toda a simpatia, cordealidade, gentileza e outras que tais do Paulo, Vilma e Lúcia chegam para as encomendas. Mesmo assim, avance-se. Ôi, genti, a moqueca di camarão está uma dêlicia - qui nem falá, pô!

terça-feira, maio 02, 2006

O vaco holandês


Antunes Ferreira
Quando se fala da Holanda, vem à flor da memória a trilogia clássica: diques, tulipas e vacas. Os neerlandeses costumam também enfatizar os polders. Mas isso é lá com eles, que lhes faça muito bom proveito. Já basta o que basta, sintetizado num aforismo calino: Deus criou o Mundo; os holandeses criaram a Holanda. Ora os ditos polders são os terrenos conquistados ao mar.

Daí que também se diga que se há povo que não goste de meter água, o holandês é o primeiro de todos. A não ser assim, o território, pelo menos em boa parte, nomeadamente os polders era um ai que lhes dava, engolidos uma vez mais pelo Atlântico, que nestes preparos não é de modas. Por algum motivo o Países Baixos. Logo, ou eles, súbditos da rainha Juliana, ou eu, oceano.

Conheço a Neederland de ginjeira. Não adianta contar aqui a minha aventura – já lá vai quase meio século – por terras abaixo do nível do mar. Mas, se há coisa que me ficou e está e estará na memória é o facto de ter então visto, pela primeira vez, as vacas ruminando a branco e preto, produtoras encartadas de leite e exportadas para tudo quanto é sítio no Mundo por imposição láctea.

Temos, entre nós, dois treinadores de futebol holandeses. O senhor Ko Adriaansen, do FCP e o senhor Ronald Koeman, do Benfica. Dois estilos e duas personalidades completamente diferentes. O que o primeiro tem de gentleman, tem o segundo de asno. Por todo o urbe é assim: porque bulas não haveria de ser para estes dois nórdicos em Portugal?

Quanto a Adriaansen – estamos conversados. Ganhou, é o campeão. Muito se discutiu a sua filosofia de jogo, o seu sistema táctico, a sua coragem, até. Ganhou a Liga, ponto. Fruto de uma persistência e de um empenhamento notáveis, até já diz muitas frases em português, o que nos satisfaz o ego e leva a que, apesar do pesar, os portistas já o aceitem e o aplaudam. Longe vão os tempos dos estúpidos e espúrios ataques ao carro dele.

Já o da Luz pode ir limpar as mãos à parede. Não contente com a série de equívocos em que tem andado metido desde que chegou ao clube da Segunda Circular, o homem ainda se dá ao luxo de cometer baixezas e bolçar escarros como aconteceu no sábado que passou. Os seus, dele, comentários abstrusos sobre os golos do rival leonino são, no mínimo, mal-educados.

Há, até, quem os rotule de acintosos. Se calhar, com carradas de razão. Se o dito técnico não é parvo, disfarça muito bem. Se é mal intencionado e tenta insinuar perfídias sobre os defesas do Rio Ave – há local e sede própria para que responda por essas enormidades – os tribunais. E, já agora, há que o dizer: o senhor Koeman ainda não se deu ao trabalho, por certo impossível para um cérebro mini como o dele, de tentar arranhar a língua de Camões.

O seu castelhano de três-ao-pataco continua a usá-lo para expelir as enormidades que são conhecidas. Não se trata aqui de fazer comparações com Trapattoni ou Camacho. Esses ainda se tentaram pelo portuñol, numa compromisso que se pode entender. E lá foram debitando o que tinham de afirmar, com algum gozo, mas também com alguma consideração por parte de nós, tugas.

Olhando para a face rosada e bronca do sôr Ronald vem imediatamente a talhe de foice o ar supina e beatificamente inexpressivo das ruminantes manchadas originárias da sua terra. O homem não é, porém, uma vaca. É, sim, um vaco. Este é um neologismo que assumo sem penar ou vergonha. Um vaco. Que me perdoem os restantes holandeses: logo este nos havia de calhar. Em sorte? Em azar. Há horas...

Olá, Ricardo

Antunes Ferreira
Ora muito bem. O Ricardo Belo de Morais é meu Amigo. Tenho muito gosto em aqui o afirmar, sem hesitação alguma. Além disso, é um gajo bacana. No quantitativo de ideias que tem no cristalino bestunto leva-me à palma. E não se trata de um bater no peito farisaica e melodramaticamente. Eu, deixem-me que me pavoneie por escassos momentos, creio que em tal domínio não só propriamente peco. Confesso, porém o meu peco, digo, pecado. Cada um dá o que tem – e a mais não é obrigado.

Começo hoje a inserir neste incipiente travessa do ferreira uns textos dele. Dados à estampa no língua de fora. Ainda por cima, o gajo escreve muito bem, mesmo muito. Até sabe de sinonímia, de acentos e, pasmem, coloca vírgulas, pontos & correlativos nos locais em que devem – e têm – de estar. Não os salpica a esmo pela prosa, o que é indício de uma primária exemplar (não como se diz agora, apesar dos netos) e de leitura aturada e conscienciosa. Tout court: o bicho é culto.

Não lhe pedi autorização prévia. Penso que não é grave, muito menos crime. Ao Ricardo aqui fica o agradecimento e um abração. Graças ao meu sobrinho Joca, por intermédio do qual se estabeleceu entre nós a Amizade (e a cumplicidade) aqui está ele



A mais velha profissão do mundo, revisited



Sempre me fez muita comichão e algum vómito a moda burgessa (entretanto felizmente ultrapassada) de ver jornais e revistas a dar espaço às masturbações machistas e misóginas de machos gordos, sebosos e frustrados, perorando sobre as (segundo eles) inferioridades do sexo feminino que tanta razão tinha, afinal, para fugir deles a sete pés.
Pela mesma razão, incomoda-me profundamente a recente moda com papéis invertidos. Tudo começou com o efeito "Sexo e a Cidade", divertida e arrojada série televisiva sobre quatro amigas nova-iorquinas que passaram seis anos e dezenas de episódios a papar tudo quando era homem. A coisa (escrita aliás por uma mulher) era gráfica q.b., mas tinha algo de muito sério: bom gosto, ironia e contenção. Além do mais, o objectivo último das quatro amigas era apenas um: encontrar um homem com quem pudessem, depois de todas as camas mais ou menos gratuitas e/ou falhadas, ser finalmente felizes para sempre.
Por cá, as meninas que a imprensa vem contratando, cada vez mais, para escrever sobre "a forma como a mulher portuguesa moderna e liberada encara o sexo e as relações amorosas" têm genericamente o oposto da personagem Carrie Bradshaw: mau gosto, javardagem e desbragamento.
Ao ser-lhes dada carta branca para escrever semanalmente pérolas sobre o maravilhoso instrumento deste que conheceu ontem na discoteca, as fracas qualidades da gaita daquele que a engatou na net e a performance duvidosa do serafim do outro que até é casado com a parva da amiga, estão apenas a prestar um bom serviço a si mesmas, justificando o salário.
Ser moderna(o), independente e liberada(o) é um estatuto que se consegue com trabalho, talento e performance. Eventualmente, havendo trabalho e talento, alguma dessa performance até pode ser efectivada na horizontal, admitamo-lo. Em ambos os sexos. Mas um homem jamais admite que subiu de tal forma. E uma senhora que quer ser vista como tal (já lá dizia a sábia Madame de Merteuil) deve saber manter tanto mais recato quanto mais fogosos e obnubilantes forem os seus truques de alcova.
Numa palavra, quem não quer ser puta, não lhe veste a pele. Nem, muito menos, se pavoneia na avenida da imprensa, toda aconchegadinha no respectivo casaco.

Ricardo Belo de Morais