domingo, agosto 06, 2006



A Madeira é o Jardim?

Antunes Ferreira
Max, o saudoso Max, cantava a propósito da sua ilha natal que «a Madeira é um jardim, ai a Madeira é um jardim; no Mundo não há igual, no Mundo não há igual; seu encanto não tem fim, seu encanto não tem fim; é filha de Portugal, é filha de Portugal. Deixem passar esta linda brincadeira ca gente vamos balhar co’a gentinha da Madeira.»

Maximiano de Sousa, o popular cantor madeirense, que trocou a vida de alfaiate pela dos palcos – foi, também, actor humorista, e muito bom, especialmente na revista – mal sabia naqueles tempos o que se iria passar anos depois na sua ilha. E pelo facto de ter acabado os seus dias em 1980, não se terá apercebido do que por ali acontecia. Se o fez, não conseguiu avaliar as dimensões da «ocorrência». E se assim aconteceu, ainda bem, sobretudo para ele.

De há uma trintena de anos a esta parte, o Dr. Alberto João tem-se esforçado por demonstrar que a Madeira já não é um jardim – é o Jardim. As sucessivas reeleições do Chefe do Governo daquela Região Autónoma somam-se quais pedras de um rosário. Caso muito raro em Democracia, este consulado permanentemente ampliado pelos madeirenses nas urnas corre o sério risco de entrar no Guiness.

O Dr. A. J. Jardim é, ainda, um outro exemplo de raridade no que concerne aos políticos. Poucos ou até mesmo nenhum se terá disfarçado de zulu num Carnaval; ele fê-lo. Houve, na altura, quem dissesse (e ainda há quem o diga) que talvez a sua máscara fosse de canibal, tão estreita é a fronteira entre as duas personagens africanas e tal o habitual comportamento político do líder. Há que refutar energicamente tal atoarda: os zulus não a merecem, muito menos a justificam.




Note-se que o Dr. Jardim é normalmente classificado como truculento. De almas caridosas está o Mundo cheio e de bem intencionados estão cheios os cemitérios. Que normalmente acumulam a sua bondade congénita com a imprescindibilidade. O Dr. Alberto Jardim não é truculento: é inconveniente, é inoportuno. E é oportunista. Não é? Então, que dizer do que de seguida afirmo, reproduzindo apenas afirmações e comentários dele.

Um tal sr. Silva

Ainda muitos de nós nos lembramos da diatribe que fez há tempos contra um tal Sr. Silva, que é agora o Chefe do Estado. Os termos são do Dr. Jardim. Porém, no actual contexto, o Prof. Cavaco Silva já passou a ser para o chefe madeirense, Sua Excelência o Senhor Presidente da República. Mudam-se os tempos… De galho em galho, o Dr. Alberto João muda, quando lhe apetece e lhe dá na veneta. Oportunismo à vista. Numa coisa ele se mantém imutável: dizer-se social-democrata. Quantas voltas já terá dado o Dr. Francisco Sá Carneiro (se em algum local se encontra) por mor desta controversa asserção?

Quanto à inoportunidade e à inconveniência estamos conversados. Volto a factos. No Dia de Portugal o Dr. Jardim afirmou com a sua exaltação habitual que os madeirenses eram Portugueses porque queriam e não por serem obrigados a sê-lo. Comentários parra quê? No entanto, e como lhes competia, os partidos da Esquerda no hemiciclo vieram a terreiro repudiar tais declarações. O mais significativo, porem, foi que Mota Campos, membro da Comissão Política Nacional do CDS-PP, não se conteve.

Durante o Congresso Regional dos centristas, Mota Campos disse: «Ser Português não é porque se quer, é porque temos 800 anos de história atrás de nós». E prosseguiu «é uma honra que nos confere direitos e deveres. Se Alberto João Jardim não quer ser Português, que o queira sozinho. Agora que não ameace a República, que não nos ameace a todos com o fantasma de uma divisão do País – que só existe na cabeça dele – para fazer chantagem sobre o governo central».

«Livres do senhor Sócrates»

Há escassos dias, o Dr. Alberto João exercitou, uma vez mais, o seu estilo habitual. Durante a festa anual do partido, no planalto do Chão da Lagoa, afirmou que o Governo da República está a levar Portugal «para o abismo» e não tem capacidade nem competência para mudar o país. «Ou nos vemos livres do senhor José Sócrates ou daqui a um ano ou dois o país está irrecuperável», para, em seguida, acusar o PS de estar a impor um garrote económico à região. «O que nos estão a fazer é miserável, para ver se nos vendemos e votamos naquele tipo de gente».

Para o Dr. Jardim, «a política económica que José Sócrates quer impor ao país destina-se a camuflar, a esconder, a destruição de valores na sociedade portuguesa". E sublinhou que «eles querem legalizar o casamento entre homossexuais». O escândalo está, assim, desmascarado, por obra e graça do eterno Presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira. Prevenção e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

O líder madeirense voltou, então, a glosar o tema da autonomia que lhe é tão caro. No seu entender, ela «não é mais como uma experiência, mas um direito histórico do povo madeirense» conquistado nos últimos 30 anos. Esta conquista «é um percurso muito longo que vai passar de geração em geração. E frisou que «queremos sempre a autonomia no seio da nação portuguesa e não podemos desculpar que, apesar desta fidelidade, indivíduos em Lisboa nos caluniem e digam mentiras».

São, para o Dr. Alberto João, «os chamados colaboracionistas, gente (natural da ilha) que está sem calças e de rabo para o ar virado para Lisboa... políticos locais que andam a defender o garrote económico» contra a região, mais «jornalistas, daqui da Madeira, que, em Lisboa, escrevem as maiores mentiras». Isto porque não existir pluralismo de informação em Portugal, onde se vive uma «caricatura de democracia».




«Aqueles maricas»

Dando asas à sua virulência acentuou que «”eles” viram que pelo debate político não nos podiam destruir. Nunca pensei que Portugal chegasse a este estado de coisas. O que nos estão a fazer é miserável, miserável». Mas, «estão muito enganados. Nunca na nossa história cedemos a chantagem. Apesar deles (no Continente) serem antifascistas, sem nunca terem pegado numa espingarda, quem fez durante 29 dias a revolução contra Salazar (em 1934) foram os madeirenses e não aqueles maricas»!

Por fim, o líder do PSD-M considerou a Constituição Portuguesa «inadequada» e, embora reconheça que tem alguns aspectos positivos, disse que «é preciso mudar» o diploma.

Ora então temos o Dr. Jardim no seu melhor estilo. O mesmo que, no dia seguinte ao Chão de Lagoa, o levou a afirmar, alto e bom som, que a lista dos devedores às Finanças não seria publicada na Madeira, pois ali não é necessário, dado que todos os incumpridores da região têm execuções fiscais que ele próprio mandou fazer.

Truculento? Inoportuno? Oportunista? O Dr. Alberto João Jardim é, pura e simplesmente, desbocado e sobretudo mal-educado. O combate político pode utilizar uma linguagem menos ortodoxa. Mas, nunca, em meu entender, a má educação, quase a obscenidade, a roçar a pornografia. E é isso que o cacique madeirense pratica sem pejo. Ele e os seus companheiros ditos sociais-democratas. Há dúvidas? Relembro a intervenção do número dois do PSD-M.




Jaime Ramos, secretário-geral do partido, minutos antes, distribuído ataques de rajada contra «o golpista Sampaio», «o homem que colocou os socialistas no poder», e o «Zé mentiroso, Zé arrogante, Zé infeliz, Zé Aldrabão, Zé Sócrates». Explicou, ainda, que Alberto João Jardim quisera «atirar à cara de muita gente que, no Continente, nos vilipendiou» que «sempre defendemos a autonomia no seio da Nação Portuguesa, sempre fomos fiéis à Pátria e nunca separatistas ou violentos». Por tudo isso, «não admitimos que digam mais mentiras. A nossa resistência é pacífica» com base nos «ensinamentos de Gandhi», terminou, reafirmando que «vamos levar por diante o nosso projecto». Pobre Mahatma. Para o que um Homem está guardado…

sexta-feira, agosto 04, 2006



A fragata Dom Fernando

Antunes Ferreira
L
á em baixo os soldados tugas saem das casernas, espreguiçando-se, a caminho das abluções matinais, a que se seguirá a formatura para o mata-bicho, litania que se cumpre em cada manhã. Mas, antes de comerem o tradicional pão com manteiga – aqui para nós é mais margarina – e café com leite, procedem ao içar da bandeira, com um apresentar armas rotineiro e os cornetas a soprar nas gaitas.

Cá em cima, estamos nós, acordámos mais cedo, tirámos as ramelas dos olhos e metemos no buxo umas frutas selvagens, apanhadas a esmo. Num pormenor somos iguais, eles e nós: no cigarrito. Só que os gajos fumam à vontade, talvez nem saibam que nós estamos aqui de arma em punho e dedo no gatilho. Já da nossa parte não se pode fazer lume alto, nem fósforo e fumo abafado com as mãos, a maior parte engolido pela goela abaixo. Um tição de fogueira afastada conservado cuidadosamente passa de mão em mão para acendermos o tabaco enrolado muitas vezes em papel de jornal.

Não haja dúvidas. Os de lá em baixo são uns privilegiados. Como sempre. Dizem que não, que sofrem de muitas maneiras, desde as saudades dos que deixaram no Puto até aos combates, passando pelas minas, pelas armadilhas, pelas cobras e pelas tse-tse e mosquitos. A diarreia fá-los desfalecer, o paludismo enfraquece-os, o medo abate-os. Comida diferente, água salobra, intestinos à rasca. Mesmo assim, e dando de barato que enfrentam muitas contrariedades, a poucos se ouve que esta guerra não é deles, que estão aqui por imposição, são paus mandados.

Se calhar até o sabem – mas têm medo de o pensar, quanto mais dizer. Os que protestam vem a PIDE e lixa-lhes a porca da vida. Nós sabemos. Quando os nossos instrutores nos ensinaram as bases do marxismo-leninismo transformadas em guerra de guerrilha logo nos avisaram para o perigo que era e é a polícia política. O camarada comissário Matombe Pinho (que até tem o livro vermelho, um tanto desbotado, do grande educador Mao) alerta-nos todos os dias para termos muita atenção e não nos deixarmos apanhar pelos flechas. Que até têm o direito a saque.

Branca, Pires e o Celso

Eu tenho estudos, não sou matumbo como os brancos dizem. Em miúdo fui para Lisboa, a senhora Dona Branca, esposa do administrador Arnaldo da Silva Pires, levou-me e tratou-me quase como se fosse filho dela. Aliás, não os tinha, só o patrão é que os fazia noutras, ela não podia. Triste sina a da mulher que não consegue conceber. Na nova igreja da Praça de Londres, de São João de Deus, a menina Laura, minha catequista, ensinava-nos a visitação à Virgem feita já não sei bem por que parenta.

O Pires, pelo contrário, era todo maus fígados, nunca gostara de mim, nem em Angola, muito menos na capital. Fez-me, porém, uma coisa boa. Uma única. Decidiu que eu teria de saber umas letras, ler corentemente, escrever ou, pelo menos, rabiscar o meu nome. Penso que foi para não me ver em casa. Podia contaminar o sobrinho e afilhado, o Celso. Que, nas previsões do padrinho, iria ser uma pessoa importante, entraria na Faculdade, tiraria o seu curso e chegaria eu sei lá onde. Inteligência não lhe falta. Para mim, o Celso era porreiro, como se fossemos irmãos. Gostava de mandar, estava habituado, o pai, irmão do Pires, tinha sido oficial do Exército, morrera com um cancro, que era preciso dizer baixinho, nunca percebi porquê. Um dia disse-me que queria ser comandante. De quê? Não me interessa. Comandante.





Mandou-me então estudar, o Arnaldo, e, por intermédio de uns compinchas da Marinha, meteram-me na fragata Dom Fernando. Quanto mais longe, melhor. Aproveitei tudo o que me ensinaram, gravei no cérebro, para isso o temos. Mas principalmente para pensar, raciocinar, amar. Ao fim dos anos de estudo, até passei com boas notas, eu próprio arranjei um emprego na Carris como cobrador dos eléctricos. O preto é esperto, diziam os meus superiores. E progredi na carreira. Aos 29 anos era fiscal de tráfego de terceira e escapara à tropa por ter pés chatos. Uma porra. Era preto e sabe-se lá do que seria capaz, fardado.

Preto. Havia quem dissesse negro. Qual deles o mais pejorativo não sei. Adiante. Um dia, na Mexicana, um galão e um bolo de arroz e surge-me pela frente o Marcolino. Esse mesmo, o Chinguano, Marcolino, como trazem as listas telefónicas. Não nos víamos desde a quarta classe. Nenhum dos dois queria acreditar que, ali, na esplanada lisboeta, nos reencontraríamos. Onde estás, o que fazes, como aqui chegaste, foram desbobinados quase em uníssono. Primeiro tu, adiantou o Champas, nunca soube porque tinha ele tal alcunha.

E se eles nos ouvissem?

Passou por alto pela minha vida na Carris, uma inglesice, e chegando-se mais à frente, com os cotovelos na mesa, sussurrou-me: eu – estou com a nossa gente. Nossa gente? Como é, mano? De repente vinham-me à língua e aos lábios expressões que julgava enterradas depois de pás de cal. O tipo explicou-me de mansinho que era do MPLA, que conhecia o camarada Agostinho Neto, o camarada Lúcio Lara, o camarada Viriato Cruz, os camaradas Andrades, o padre Joaquim e o irmão Mário, Pintos no meio, galos na luta pela independência. Olhei em volta, acagaçado. E se eles nos vissem, ou, sobretudo, ouvissem?...

Dali fomos até ao Cais do Sodré, um bar de putas, o Casanova, onde podíamos conversar mais à vontade. Pelas duas da manhã, depois de convenientemente escorraçados pelo patrão, com as cadeiras já em cima das mesas, os sacanas dos escarumbas no paleio a estas horas, devem estar a preparar alguma, ponham-se a fancos que isto aqui não é a vossa terra, vão para a puta que os pariu, andor, andor, ainda os corro à vassourada.

Seguimos. Sem protestos, sabe-se lá o que nos podia acontecer. Começava a sentir-me preto. Retinto. No quarto alugado na Pensão Marítima, ali ao Conde Barão, nem dormimos. E apesar de cochicharmos, um gajo do outro lado do tabique da parede, eram umas cinco da manhã, berrou-nos para nos calarmos, chiça, não fizeram mais nada a noite inteira, os cabrões dos negros, senão patuá, patuá, patuá. Vês Sebastião, vês como eles são, uma cambada, vão-se lixar, juro mesmo, vão ver como elas lhes mordem. Vão ser enrabados a sangue-frio.

Tínhamos passado em revista o que fora possível, do Salazar, um sonso meio padre e criminoso, até ao Seripipi de Benguela. Um Lara mas não Lúcio. A Liga Nacional Africana, a Casa dos Estudantes do Império, o Luandino, a prisão, o Tarrafal e São Nicolau ali à beira do deserto do Namibe. Estava decidido. De manhã fomos comprar passagens de segunda no Vera Cruz e ala que se faz tarde. Cacimbava quando chegámos a Luanda. Do Rangel até ao mato – um pulinho. Nada de difícil.

Morteirada das antigas

Agora, passando por cima de peripécias as mais variadas, estou aqui, por cima do aquartelamento luso – o termo leva-me a questionar-me: e a Dom Fernando e Glória? – num morro de onde os vejo, mesmo sem binóculos. Uma morteirada quando estivessem a içar a bandeira, era o combinado. Não camarada, ao arrear, já está mais escuro, os tugas nem sabem o que lhes acontece, nós não costumamos atacar a tais horas, é tudo vantagens, digo eu que os conheço de ginjeira. Você tens razão. Você tens esperto no cabeça. Aguentamos.



O astro rei – e a Dom Fernando? – vai começar a deitar-se. A mana Lua, a desavergonhada, é que sai à noite. Está no quarto, pois aonde devia estar? No minguante, que a vida não está para folestrias, nem para luas e similares. Vem chegando o momento. O Gunga apoia o morteiro de 91 no solo vermelho. É de fabrico checo, está tudo dito. Este camarada foi soldado no RIL, aprendeu a usar o tubo como se fosse mais um braço. Sítio onde ponha o olho é tiro e queda. Não sei como aponta, mas que dá lá mesmo, dá.

Como chefe do nosso grupo, alinho no chão, metodicamente, umas a seguir às outras, dez granadas de mão. Vão servir para ajudar à festa, enquanto os corneteiros não se calarem de vez. O resto da malta inspecciona os canhangulos, como os soldados lhes chamam. Canhangulos eram os da UPA, fabrico artesanal, rebentavam muito mais do que disparavam e quando tal acontecia era um tiro só à toa.

Lá vai disto. Os estrondos das explosões misturam-se com os berros lancinantes dos tropas. Lá em baixo é o inferno. Vejo uma cabeça no ar, qual bola de futebol, enchouriçada por bota desgovernada e sem qualidade. As granadas também já foram. Deram cabo dos tipos que se preparavam para o rancho da noite, voam marmitas à mistura com pedaços de corpos. Gunga presenteia-os com outra morteirada. Já não é preciso mais. Aquilo lá por baixo acabou. Acabaram.

Ninguém fala cá em cima. Silêncio, até ver em que param as modas. Aqui é o céu, em contraponto com o desastre total lá de baixo, nas profundezas do belzebu. Uns esparsos e ténues – e a Dom Fernando? – gemidos arrastam-se pela noite que vai descendo, à procura do horizonte também sangrento. Os nossos querem festejar. Não há perigo, nem de sentinelas precisamos, o massacre foi total, o êxito fulminante. Quando, amanhã, reportar ao camarada comissário Pinho, ele vai mandar um rádio para sei lá onde e talvez nos dê uns dias de descanso para irmos a Luanda, ao nimas e às meninas.

Levanto-me para estender as pernas – e elas não me aguentam. Caio. E sobre a minha cabeça está a bocarra da metralhadora que me ceifou. Os camaradas nem suspiram. Penso que sou o único sobrevivente. Não demos por estes flechas, pretos como nós, que se chegaram a nós de mansinho e pumba, já está. O comandante deles agacha-se ao meu lado. Fala filho da puta. Fala preto de merda. Fala Sebastião. Ressuscito? Ele sabe o meu nome. Conhece-me.

Por entre a névoa encarniçada que me invade os olhos, as lágrimas de sal e de raiva, o suor em bica, consigo vê-lo. É o Pires, o Celso, o sobrinho. O dilecto – onde vai a Dom Fernando? – o que me ensinava a matemática para a qual eu não tinha muito jeito. Fala turra. Abre a boca Sebastião. Eu fodo-te os cornos se não vomitas tudo cá para fora, maldito. Está escuro. Cada vez mais. Estouro-te a mioleira, grande cabrão. Deixo-me ir. Voando, pairando. E a fragat…

quinta-feira, agosto 03, 2006






Confiança aumenta

Antunes Ferreira
Assim, não me safo. Cada vez estou menos isolado. Quem o diria. Então não é que se vão acentuando - piano, piano, se va lontano - os sinais de recuperação?... Que raio: desta vez não sou eu que o escrevo. Apenas transcrevo de entre os textos que a Imprensa dedicou ao assunto, dois que O Primeiro de Janeiro e o Diário Económico hoje publicam. Estes jornais que não são propriamente o que se pode chamar socialistas, nem sequer pró-governamentais. O curioso, penso, é que já façam parte dos conjurados que ontem mesmo apontei neste blog. Alarga-se, assim e cada vez mais, o círculo do complot, do que peço desculpa aos iluminados detentores da verdade do total descalabro em Portugal. Apesar de não ser eu quem tem a culpa.
Mas há mais. Novo texto, nova aposta na melhoria gradual da nossa economia. Desta feita, através de declarações feitas pelo Presidente da API, Basílio Horta que também não me consta que se tenha filiado no PS. No entanto...


Aumenta a confiança dos consumidores e empresas


A confiança dos consumidores portugueses melhorou em Julho, retomando a tendência de recuperação iniciada em Fevereiro, anunciou o Instituto Nacional de Estatística (INE). O Inquérito de Conjuntura a Empresas e Consumidores, divulgado ontem, mostra uma subida do indicador de confiança dos consumidores para menos 35,8 pontos, depois de ter sido de menos 36,2 pontos em Junho. Para a melhoria da confiança dos consumidores contribuiu a evolução menos negativa das perspectivas para a situação económica do País e para a capacidade de poupar dinheiro. As expectativas de desemprego subiram e a situação financeira no lar nos próximos meses tornou-se mais negativa, limitando a recuperação do indicador global de confiança dos consumidores.
Empresas
O mesmo inquérito revela que a confiança das empresas portuguesas também melhorou em Julho. O indicador de clima empresarial subiu dos 0,0 pontos em Junho para os 0,2 pontos em Julho, o valor mais elevado desde Outubro de 2004. Para a melhoria do indicador contribuiu o avanço na indústria transformadora e nos serviços, já que nos segmentos da construção e obras públicas e do comércio se assistiu a uma deterioração dos indicadores de confiança. Na indústria, manteve-se a tendência de recuperação, com a confiança a aumentar para um máximo desde Outubro de 2004, ainda que continue a apresentar valores negativos (menos 7,6 pontos). Nos serviços, as perspectivas para os próximos meses subiram e a carteira de encomendas exibiu também melhorias. A queda da confiança no comércio ficou a dever-se à degradação no segmento do retalho.
(O Primeiro de Janeiro - 2006-08-03)

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Procura externa está a puxar pela economia nacional
Os vários indicadores de conjuntura são unânimes:
a economia portuguesa está a recuperar.




Filipe Alves

A economia portuguesa continua a apresentar sinais de melhoria, com a procura externa a puxar pela recuperação. O indicador de conjuntura do Banco de Portugal (BdP) e a síntese económica do Instituto Nacional de Estatística (INE), bem como o índice de confiança do ISEG apontam no sentido de uma recuperação da economia portuguesa e no aumento da confiança dos agentes económicos.
O índice de confiança do ISEG passou de 47,3 pontos em Junho para 48 pontos em Julho. Este indicador vai de encontro aos dados divulgados pelo banco central e pelo INE, segundo os quais a confiança no futuro da economia melhorou nos últimos meses.
“A evolução do índice ISEG antecipa a trajectória mais positiva da economia portuguesa que se começou a desenhar a partir do final de 2005, e que o primeiro semestre de 2006 veio confirmar“, considera o académico António Mendonça. Para este professor do ISEG, o índice poderá em breve “entrar em terreno positivo”, ultrapassando, pela primeira vez, a barreira dos 50 pontos.
Para o BdP, a confiança dos consumidores passou de menos 38 pontos em Maio para menos 36 pontos, em Junho. Já o sentimento económico, que é também indicativo das expectativas dos agentes económicos, passou de 89,8 pontos em Maio para 92,8 pontos no mês passado.
Ainda de acordo com o banco central, a actividade económica “continuou a apresentar uma trajectória económica ascendente” durante o mês de Junho. O indicador coincidente do mês passado subiu 0,7% em relação ao período homólogo, a beneficiar do crescimento do consumo privado, que aumentou 1,1% em Junho.
Por sua vez, o INE revelou que o indicador de clima económico - que reflecte as perspectivas dos empresários da indústria, comércio, construção e serviços - melhorou no mês passado.
Segundo o INE, “a força dinamizadora continuou a ser a procura externa”, que reforçou a sua contribuição para o crescimento da economia nacional. Mas o instituto alerta para o fraco dinamismo da procura interna, com um agravamento da evolução do investimento.
De acordo com os dados do INE, o sector da construção apresenta o desempenho mais negativo, com uma queda de 6,1% no trimestre terminado em Maio.
Índice ISEG
O índice de confiança do ISEG apurado em Julho e relativo à evolução da actividade económica portuguesa no curto prazo foi de 48,0, o que traduz um aumento sensível do índice de confiança do Painel na evolução da conjuntura face ao valor do índice apurado no mês de Junho, que foi de 47,3. Aumentou o consenso dos membros do Painel relativamente à evolução económica.
Nota metodológica
O índice de confiança do ISEG sobre a evolução a curto prazo da economia portuguesa, cujo valor pode variar entre 0 (confiança mínima) e 100 (confiança máxima) é atribuído por um painel de dezasseis professores do ISEG com base em informação quantitativa e qualitativa previamente recolhida e que inclui os apuramentos de um inquérito realizado mensalmente a todos os docentes do ISEG.
O valor do índice é obtido por média simples dos valores entre 0 e 100 atribuídos respectivamente por cada um dos membros do Painel. Como indicador de consenso é utilizado o coeficiente de variação dos valores individuais.
(Diário Económico - 2006-08-03)

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API prevê aumento para os 1,5
a dois mil milhões de euros este ano
Investimento vai subir 84%

O valor contratado de investimento para Portugal subirá este ano para os 1,5 a dois mil milhões de euros. A previsão é da Agência Portuguesa para o Investimento, que afirmou também que o padrão da economia portuguesa está a mudar, com sinais de melhora. A Agência Portuguesa para o Investimento (API) prevê que o valor contratado de investimento para Portugal suba este ano para os 1,5 a dois mil milhões de euros, mais 84,5 por cento que em 2005. Numa conferência organizada pela AESE, o presidente da API, Basílio Horta, disse que está prevista a celebração de 80 contratos de investimento entre a API e investidores estrangeiros este ano, “com grandes possibilidade do valor contrato chegar aos 1,5 a 2,0 mil milhões de euros”.A verificar-se este valor, representa uma subida do investimento contratado pela API de pelo menos 84,5 por cento, face aos 813 milhões de euros registados em 2005.
Este número “está longe de nos satisfazer, mas não nos desanima”, acrescentou Basílio Horta.O presidente da API afirmou ainda que é importante que Portugal consiga colocar as 35 mil empresas francesas de portugueses ou luso-descendentes a ter relações com Portugal e chamou a atenção para o facto de haver actualmente mais empresas portuguesas na Roménia (350) do que na Polónia. A API promove o investimento de projectos virados para a produção de bens transaccionáveis, com investimentos superiores a 25 milhões de euros. Na opinião de Basílio Horta, o padrão da economia portuguesa já está a mudar e há sinais de melhoria na actividade económica, acrescentando que “o processo de mudança do padrão da economia portuguesa está em curso”, reconhecendo, contudo, que é preciso acelerá-lo.

quarta-feira, agosto 02, 2006



A caravana passa

Antunes Ferreira
Ponto prévio: sendo velho militante do Partido Socialista, ainda que incumpridor praticante e livre pensador, não posso, porém, deixar de afirmar que o actual Governo, da responsabilidade do engenheiro José Sócrates, até este momento, pelo menos, continua a ter a minha compreensão e o meu apoio. Era o que faltava, que não tivesse, vejo já os detractores mais diversos a comentar. Era o que faltava.

O País está de rastos, já não há quem pegue nisto, o que não admira tendo um Executivo de incompetentes ou de desatinados, de resto chefiados por um homossexual. Que também é um falso engenheiro. Os únicos, os bons, os verdadeiros são os do Técnico, os restantes, os que dizem que o são, não passam de uma burla pseudo-universitária. Dizem e diz-se que são – mas não são. Mas há leis... Também elas mentirosas e ponto.

Suspendo aqui, ainda que entre parênteses, o curso do escrito com algum nexo, penso. Por alguns motivos que passo a expor. Primo. Sendo um amante da Liberdade e da Democracia – que defendi e procurei e pelas quais lutei e sofri, nos tempos da ditadura salazarista – e, como atrás disse, socialista, não tenho procuração de Sócrates para o louvar, encomiar ou idolatrar. Já o escrevi: não concordo com algumas das medidas que tomou, com uma parte da estratégia que usou, mas na globalidade, estou com ele.

Manter a calma e a serenidade

Secundo. Nessa condição de democrata e libertário, não podia permitir-me qualquer censura inibitória, sobretudo no domínio da expressão. E até confesso que, nos momentos de defesa do que entendo ser correcto, não mantenho a calma e a serenidade imprescindíveis, sobretudo nas questões políticas e nos insultos, ainda que sorridentes. Sou assim, confesso, ainda que me pareça que não o devia ser, o que reconheço; mas não me emendo: quase a completar 65 anos, não seria agora que.



Aceito (e pratico) a crítica construtiva, nunca a derrotista, do bata-abaixo, do cataclismo nacional. Que para mim não o são. Posso não concordar com ela, mas é assim. E tento encaixar, mesmo quando as diatribes vêm de Amigos, aquilo que entendo ser catastrofista ou insultuoso. Quem diz que o Primeiro-ministro é «maricas» tem, em meu entender, no mínimo, de o provar. Senão é perjúrio, qualificado no Código Penal. Isso não engulo.

Quem diz que os ministros e secretários de Estado são umas bestas, incapazes e corruptos, tem, ainda em meu entender, de o provar, nos termos do que acabo de escrever no parágrafo anterior. Ataques e qualificações gratuitos não deviam valer em nenhum caso. Em Portugal valem; ou, pelo menos, parece que valem. O Executivo poderá ser uma nódoa, com o que não concordo, e há todo o direito de o afirmar. Façam-no, mas com razões claras e transparente e válidas, nunca em processo de intenções.

Tertio. Afirma-se que o nosso País está no fundo mais abissal, que tudo piora quotidianamente, que não há quem o endireite. E aos saudosistas do passado, os defensores da moral jesuíta, os próceres da intervenção policial à moda antiga e do cala a boca, comuna, a esses permito-me lembrar-lhes que se assim falam é porque acabaram os famigerados delitos de opinião que, quando o poder os aproveitava, não eram motivo de críticas.

Um complot de alto coturno

E se se afirma que as coisas parecem melhorar ainda que um niquinho, embora, trata-se de mentirolas governamentais. Mas o Banco de Portugal também o diz. Olha que admiração, com o Governador socialista que tem... Note-se que a Comissão Europeia... Outra farsa, o que ela quer é cortar-nos as pernas e os subsídios. E a OCDE... Não credível. Um dia diz sim, logo a seguir diz não. Porém, o INE... Que é que esse instituto desacreditado havia de dizer: é do Governo.




Quator. Estamos, assim, perante o conluio de que já falei por diversas vezes. Um chorrilho de mentiras, um arraial de falsidades, todos juntos a apoiar este espantalho governamental, um verdadeiro complot do mais alto coturno, concluem. Só posso escrever que é um despautério. Se alguém tentar não dizer mal do Executivo e dar uma informação real, por certo moderada e prudente, trata-se de um confesso aldrabão. Vislumbra-se a retoma, oxalá ela se confirme e seja sustentável. Os profetas da desgraça regougam em coro que a propaganda oriunda de São Bento e do Largo do Rato continua.

As Oposições que temos

Quinto. Temos as Oposições que temos. Que tocam nas mesmas teclas da apregoada publicidade, dos projectos e das intenções que não passam disso, dos ludíbrios e das invencionices do Executivo. Fazem o que lhes compete, não o são para outra coisa, mas. Se tudo o que o Poder faz ou pretende fazer é um encadeado de tolices, onde estão as alternativas válidas e melhores? O hemiciclo ouviu umas, escassas, que parece serem impossíveis ou inoperantes. O Governo, aqui, deve sentir-se confortado, pelo bem que elas lhe fazem. Quanto aos sindicatos, não escrevo nada. Não vale a pena, infelizmente.

Já chega. Siga em frente engenheiro (ainda que duvidoso...) José Sócrates. Volte de férias com as baterias recarregadas. Com as energias alternativas, com o Simplex, com as reformas mais diversas, com o saneamento das Finanças, com a modernização do Estado, com o Plano Tecnológico, com o Inglês nas escolas, com a banda larga, com a formação, com a tecnologia, com a OTA e o TGV. Com muito mais, que não quero aqui mencionar sob o risco de não me chegar uma lista telefónica para as anotar. Os cães ladram e a caravana passa.

sábado, julho 29, 2006

Cozinha ao fundo

Antunes Ferreira
S
ou do tempo do meio tostão. Dos rebuçados da bola de cótechu. Dos eléctricos abertos para o Campo Grande. Do Horto de Lisboa, ali em frente ao Colégio Mouzinho da Silveira. Logo, da Instrução Primária. Do é o esquimó fresquinho no Jardim Zoológico. Da ida ao Porto. Da curva da morte, onde, num pinheiro, estava cravada a dentadura de um sacerdote que contra a árvore se estampara. Do Hotel Batalha com traseiras para as escadinhas dos Guindais. E da mulher da fava-rica.

Muito mais haveria para rememorar. Só que, sentado à volta de um fogareiro a petróleo, daqueles de dar umas bombadas prévias, a comer umas postas de pescada das águas sul-africanas, bem fritas quem é o sacrista que se atreve a pensar noutra coisa? Depois de enroupadas em polme com jindungo, feitas na ocasião e no local do crime, só há que as saborear. E a comemorar com o Alvarinho acabado de sair da arca de madeira revestida no interior, a chapa, e carregada de barras de gelo.

O Sousa da Dodge é o coque de serviço. Só lhe falta o barrete branco. Depois do peixe, a carne. Assado de porco meio javali, que já vem de Luanda, boiando dentro dos três imensos tabuleiros, num molho acrisolado, rodeado de batatinha e cebolinhas idem, idem, aspas, aspas. Aí conta a mão da Dona Mafaldinha, esposa emérita do camionista e verdadeira fada nas comidas, com receitas ou sem. Cozinheira de estalo, mão farta no picante e especialista em funje de bombó.

Os dedos de duas mãos não chegam para contar uma tal colecção de malta. Nem de quatro, quiçá cinco. Gente de trabalho, agarrada ao volante de bichos com mais de dez tonas. Manápulas gretadas, peludas, unhas sujas das viagens constantes. Os sustos foram, são e serão em barda, porem contam os episódios entre gargalhadas que contrastam, álacres, com o silêncio da mata. Não se ralam com o barulhão. Os gajos, a estas horas, estão a xonar. E fazem eles muito bem, assim não nos fodem o juízo.

O Bravo, que me transporta na cabina, convidara-me para o repasto, por entre a poeira vermelha da picada que entra pelas janelas. Não percebi muito bem o que dizia por causa do lenço com que tapa as ventas, como refere. Mas, depois, afastando o meu passe partout improvisado, sempre lhe respondi que muito obrigado, mas tenho a ração de combate. Você parece que é parvo. Com postas de pescada, lombo de porco e verde geladinho – o senhor ou é tolo ou maçarico. Desculpe lá a franqueza, mas não sabe o que é bom. O meu primo Celestino aguça a língua e diz que tudo o que é bom faz mal. O malandro já foi operado a uma ursula do estômago, mas continua no cozido à portuguesa, no tintol carrascão - e nas garotas na maioridade.

Votar Alvarinho

Seja. Decidi-me e bem. Entre a Dolca e o Alvarinho, votei no último. E avisei logo o digno condutor que a minha contribuição para o banquete estava num dos muitos caixotes que a sua Izuzu transportava. Ou melhor, em dois. Dado o alto ao MVL, saíram quatro garrafas de The Monkeys e duas de Constantino, cuja fama já vinha de longe, e três de Mosca. O Freitas do Cacuaco aportava uma de L34, uma cagada alcunhada de brandy. Atoarda, que não boato. Boato é crime e fere que nem uma lâmina dizem os cartazes colados pelas paredes. No mato, só nos aquartelamentos.

Pelas muitas da matina, já o estrelo clareia, quando o Fagundes, dono de uma Ford de báscula, me dispara então o amigo não está sastifeito com a refeição. Claro que estou mais do sastifeito, como ele diz, nasceu na Madragoa, veio para Angola em 58, apanhou os massacres da UPA, matei muitos filhos da puta e voltarei a abater esses escarumbas, se os gajos tornarem a arrebitar as orelhas.

Já não vale a pena passar pelas brasas. Mas, por agora, já não há que trincar. Esgotaram-se as mangas do Mussulo e os mamões, dádiva frutícola do Sanches, da Camabatela. As últimas a marchar pelo estreito, foram umas carambolas. Tudo em óptimo estado de conservação, antes dos suevos atacarem, babando-se. Trago um Poirot e um Maigret que estão na camioneta. Estultices de novato nestas lides. Fanático da leitura e da Vampiro, tenho-a todinha, mas agora, com os cagaços, não dá para correr as linhas.

Levanto-me e dou uns passos bamboleantes. Vinte para as quatro da matina e bêbado que nem um cacho. A ração de combate, fechada na sua caixa de cartão canelado, jaz, definitivamente falecida sem consumo, no chão da cabina que abro em busca de uma garrafa de água da Jomba, para rebater. Nem pó. Lembro-me nebulosamente que a bebi durante o percurso, antes da emboscada. E que, quando os tiros começaram, a vítrea criatura se espatifara na terra, ou foi queda ou tiro desgarrado. Sou, na verdade, um homem muito infeliz. Abusam de mim, porque sou pequenino.

Só me saem duques

Ó Sousa, você não tem praí uma água com piquinhos? Olha-me este. Só me saem duques. Água só para lavar a cara e as partes baixas. E com bolhinhas não dá. Tenho uns pingos de bagaço caseiro, do meu pai, que mo envia por barco. Afianço-lhe que é boa peça. Ná, o que caía bem era o aquoso líquido, engarrafado e com muito gás carbónico. Aproveito para mijar. Porra, ainda se fora da Nocal. Mas, não, é do Alvarinho e dos álcoois diversos e de diversas proveniências.

António Justo, alferes miliciano da nossa praça, faz a barba escanhoadamente, um espelhinho feminil na frente, muito há-de ver nele, minúsculo e com a noite ainda a ir para a cama. Com que então noitada? Podias ter chamado os amigos, ou seja, cá o rapaz. Podia, mas não o fiz. A boda e a baptizado não vás sem ser convidado. Ora eu é que o era. Não me parecera bem levar outro pela arreata. Passei à frente, com um vai-te foder de ocasião. Parece-me que não gostou. Ora essa, se não lhe agradou, ponha na beirinha do prato.

Aliás, alguém teria de deglutir as rações de combate, que não eram fornecidas à consignação. Ficasse pelo chouriço de lata, pelo leite com chocolate, pelas bolachas capitão e pelo queijo de tubo dentífrico. E que lhe tivesse agradado. Bom proveito. Nisto de culinárias é como no amor: come-se o que há, o que se pode e onde é possível. Com talher ou sem. Bom, aqui espirra qualquer coisa.

Amor e camisinha

Um dia, na Cidade Universitária, um colega goês convidara-me a ir ao Monte Carlo, ali ao Saldanha, para comer um caril a sério. Fomos e abancámos. Vindo o arroz, devia estar mais solto, Gracias dixit, e ala que se faz tarde, ao caril de camarão, peguei no garfo e na faca e aqui vai disto. O tipo aconselha-me a experimentar comer à mão, como ele faz, uma bolinha de arroz na ponta dos dedos, molhada na especialidade e zás, habilidade suprema, ei-la que voa para o palato.

Respondera-lhe que não, muito obrigado. Cagava-me todo e as manchas do pitéu deviam ser lixadas. Tenta. Tentei, estraguei. Competiria à Dona Glória reparar os danos à base da lexívia. E o portuga oriental, não sabes o que perdes. Comer arroz de caril com garfo e faca e, até, com colher é como foder com camisa de Vénus. Não tem sabor, nem dá gozo. Vai-se a tesão.

Os motores começam a roncar e os escapes lançam baforadas de fumo negro que ajudam a camuflar a chegada da manhã que se anuncia solarenta. Um tiro. Um tiro só, um único estampido, seco e sonoro. Mais nada. O que o apanhou, na testa, tem a cabeça descapotada, entre sangue e massa encefálica a esmo. O Bravo ajoelha-se ao lado dele, o cabo maqueiro que chega a correr, abre o saco de papel do penso individual do combatente, modelo 146-A, do Laboratório Militar.

Não há penso que valha

Mas volta a embrulhá-lo. No caso, não há penso que valha. Está acabado, o desgraçado foi desta para melhor. Para melhor? Uma porra! Sei lá se é melhor. Nunca ninguém voltou de lá para o comentário final. Deu o peido mestre, sentencia o Sanches, enrolando um cigarro quem sabe se de liamba. Há cabrões para tudo e o charro ajuda, dizem eles, sobretudo nas horas difíceis. Ao lado, encostado aos taipais do camião, Fagundes coça o ventre bojudo: na batalha naval não é um pobre-de-cristo que estica o pernil; é um submarino ao fundo. E o Gonçalves, mulato de Sá da Bandeira: e se morre muita malta na picada é porta-aviões ao fundo. Do mar ou do papel quadriculado?

Os camiões deixaram de escoucear. O Justo, o sacana, diz que é preciso levantar o auto da ocorrência. Aponta-me o dedo, tu é que és da PJM, logo sabes fazer essa merda, tens prática e até podes já fazer as averiguações. O turra estava no alto de uma mafumeira, à espera, pacientemente, até que visse onde podia acertar. É gajo para ter mira telescópica. Testemunhas somos todos nós. Mas não vimos nada, só o morto. Este merdas deste António faz-me lembrar o verso que corre por Lisboa: Dos dois Antónios de que Lisboa disfruta, um é filho da Sé. E o outro... também é...

Não mando o oficialzito para onde quer que fosse, ainda que tenha pensado que a cona da mãe dele era um bom local. O cidadão tem a burocracia nas veias. Pudera, não. Era chefe de secção das Finanças e acabara o Seminário, quase cura. A meio da primeira procissão, ainda acólito, dera-lhe uma danada de uma dor de barriga e tivera de raspar-se a correr, para trás duma sebe onde aliviara o intestino. De cócoras, dera-lhe para congeminar em. Já não voltou ao cordão do pálio, limpou o cu à opa e nem o presidente da junta de freguesia fora capaz de o topar. O Bravo levanta-se, de cabeça perdida, olhos injectados, seguro-o antes que ele rebente com o alferes de trazer por casa. Regouga: Puta de vida! É preciso avisar a Mafalda. Ela tem de se desenrascar. O Sousa já não volta a cozinhar. Cozinha - ao fundo.

quarta-feira, julho 26, 2006



O rio e a sorte

Antunes Ferreira
Q
uando os maçaricos chegavam, ainda a cheirar a cueiros e já carregados de saudades, os veteranos costumavam gozar com eles. O que é mais do que natural, sobretudo em teatro de operações. Já tinham passado pela rábula da caça aos gambozinos, na recruta, noite em claro agarrados aos sacos de serapilheira, à espera. Já tinham engolido os pedidos/ordens dos instrutores – vai-me ali buscar a caixa das estrias. Porra! Mas ali era diferente.

Uma boa parte das saídas era pelo rio, margem acima, margem abaixo, que sacana de vida, então para que raio eram os fusos? Esses é que estavam preparados para a guerra aquosa – ou outra merda qualquer – mas eles, não. E os velhos: cuidado com os tubarões. Mas aqui há tubarões. Não, maricas, os crocodilos comeram-nos todos. E as sanguessugas atirando-se ao couro dos polainitos em busca de sangue fresco, que vida de peixe de rio. Nem a tainha, nem o sável, nada.

Mais abaixo, na curva mais pronunciada do rio, é o local onde nós atacamos. Os tugas, mais ou menos preparados, mais ou menos prevenidos, mais ou menos acagaçados, nem mesmo assim tomam as precauções imprescindíveis. Xi, camarada, essis gajos num tem nada nos cabeça. Antão não repara que esse é o sítio das makas? São burros mesmo. Muitos vão voltar no Puto dentro do sobretudo de pau.

Até dois Cabinda tem

É um grupo lixado, o nosso. Vinte e três patrícios, de muitas sanzalas e muitas diferenças. Repara só, mano, até dois Cabinda tem. Só que todos são MPLA, e o comandante é o Adão que esteve dois anos em São Nicolau – e sobreviveu. Do povo vêm umas mulheres que trazem na malta comida e munições. E desenferrujam os nossos coiso. Um homem está na mata, tem de se alimentar, mas também precisa de fêmea. Todos os bichos fornica, os negros também tem direito.

Eu sou o Sabonete João. Já ando nesta vida há muitos meses. Quase quatro ano. Tem que chega? Não. É preciso atirar os portugas no mar. Para a terra deles, prá cona das mães deles. Pró cu do Salazar. Aka! Muitas vezes me pergunto quem é esse Salazar. É o soba grande dos tugas, disse-me o Sebastião Moluto que andou até ao quinto ano do Salvador Correia. Chama-lhe o pai da pátria, o salvador de Portugal e também lhe conhecem por Esteves.



O Sebastião explica que o gajo chama-se António de Oliveira Salazar. Nunca ninguém avisa onde vai ele amanhã. A PIDE tem ordens para impedir que digam que amanhã o Senhor Presidente do Conselho vai estar na Feira das Indústrias. Podem lhe querer fazer mal, um tiro, uma bomba, sabe-se lá. Por isso é que os jornais, a rádio e agora a televisão dizem sempre que esteve ontem na inauguração do mercado de Palhavã... Por isso, dizem que é o Esteves.

Palmatoada nos preto

Sei ler e escrever, aprendeu no livro com os mininos da mocidade portuguesa na capa. Até sei de cor os rios de Portugal e os seus eflu... afluente, julgo que se diz assim. Do Norte até no Sul, no Algarve. E as linha do caminho de ferro com ramal e tudo. Os padre missionários ensinava tudo direitinha na gente. Se não sabia, pimba, lá vinha a minina de cinco olho, a dar palmatoada nos preto.

Fui ajudante de contínuo na Fazenda, ali na Mutamba, com o senhor director-geral Mendonça. Bom home. A mulher, a Dona Joaquina nem por isso. Dava na lavadeira e nos três criado, uma sardinha e dois batatas pró almoço e eles que cozinhava. E tirava-lhe um dia no salário se faltavam meio dia no serviço. Era cabrita e toda a gente sabe que o patrício diz que o branco é filho de Deus, o preto é filho do Diabo e o mulato, principalmente, o cabrito é filho da puta. Quando o senhor Martins, chefe da repartição me avisou que tens de ir na tropa, fugi. Do Casa Branca até aqui foi uma confusão. Mas cheguei e cá estou.





Pronto. O camarada Adão está lhes chamando para combinar uma emboscada. Vai ser amanhã, ao lusco-fusco, quando o sol ainda não estendeu os raios. Eu fico com a bazuca, o Ganguela com o morteiro, os outros com as Kalachas. Boas arma, essas russas, de carregador em gancho, tem mais bala que a G3 dos colonialistas. Diz o comissário Tunda que se o Salazar não manda comprar elas, os tugas perde a guerra contra os patriota.

Patriota somos nós. O grupo todo é unido e patriota. O comissário nos explicou que patriota é aquele que conquista a sua Pátria. O cipaio não é patriota é chulo. Serve os branco. E os administrador cabo-verdeanos também é traidor. Batem mais que os brancos e não pagam imposto geral mínimo. Até os funcionário paga, mas administrador não paga. Então porque é geral?

Os «voluntário da corda»

Estou a limpar a arma com escovilhão até. Amanhã, na madrugada, ela não vai encravar. Não pode. Senão quem encrava mesmo sou eu, Sabonete João, natural do Golungo Alto, terra do camarada Agostinho Neto. Tudo brilhante, a mira bem aberta, pra acertar neles. Assim, já não pago mais o antigo imposto de palhota. Acaba os escravos, com a luta do povo angolano. O Tarcísio me mostrou uma fotografia de uma fila de pretos atados pelas garganta com uma corda grossa de sisal. Me disse que eram os voluntários para a colheita do café. Os «voluntários da corda» - e fartou-se de gargalhar.

Tenho quatro cigarros e meio, AC, maço vermelho e branco com os letra a preto. Os portuga dizem encarnado, vermelho é comunista, a PIDE proíbe. Essa polícia é futida mesmo. Prende um preto, lhe enfia uma carga de porrada, mas também dá nos branco. Diz que viu que bate menos por ser da mesma cor. Não sei. O agente que eu conheceu na Maria Fernanda (boa fazenda de café, pertinho do Bico do Pato), Almeida qualquer coisa mais, disse que não tem medo de ninguém, nem do governador-geral, nem do bispo.

Que se tramem o Almeida, o governador e o bispo. O Adão chega junto de mim e agarra na arma para lhe experimentar e examinar. Leva a culatra atrás, espreita no cano faz hun-hun e devolve-me a canhota. Lá no céu já estão as primeiras estrela, é noite de lua cheia, bom sinal para daqui a bocado. O Lucungo prepara a mina para pôr debaixo da água, no sítio em que passa os soldados.

É preciso muito cuidado, essas mina são terríveis, rebenta por um cabelinho. Para a armar tem de se ter todos os olhos bem aberto. Todos não. O do fundo das costas deve estar bem apertadinho, quer dizer que tem maúfa, ou se não tem, duvido do herói que não nasce como o capim, à farta. Tem sim de ter muita atenção e muito cuidado, a maldita pode explodir nos nossos não neles.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...




Às quatro da manhã, o primeiro homem põe o pé no sítio da mina. É um soldado preto, desses que ficaram no lado da tropa, com vontade ou sem vontade. Não interessa. Adão deixa-lhe passar, seguem-se os outros, quase um pelotão. Com a água barrenta pela cintura os camuflados semi-flutuam, diluídos no cinzento da madrugada, vão avançando, cuidadosamente, em bicha-de-pirilau. Já estão todos na zona da morte.

O estrondo, medonho, abana o tempo e o ar. Ergue-se uma coluna líquida carregada de espuma e já tinta de sangue. Os gritos são uivos de animal caçado e estralhaçado. Uma nuvem de pó acastanhado e de fumo de enxofre paira por momentos e vai caindo sobre as águas ainda revoltas. Ter-se-á safado algum? Por certo, mas não vale a pena ir lá abaixo contar as baixas. Adão levanta o braço direito, a mão espalmada, em aceno para que a malta se retire, devagarinho, sem sobressaltos nem barulhos.

Vai chegando, no meio da desgraça, o reforço que de nada servirá. O que tinha de se fazer, está feito. Sabonete João estou a coçar o olho direito. Espinho de árvore, lasca de madeira explodida, areia mais grossa arremessada pela deflagração? Ou lágrima pelos muitos que, sem saberem bem porquê, foram mandados para o matadouro no rio? Raio de sorte de quem se habituou, apenas, a obedecer. Uma merda, co'escafandro.






O Cuanhama, aiué

Antunes Ferreira
C
hove se deus a manda. Cordões de água empapam a terra vermelha, acompanhados por raios e coriscos - uma trovoada das antigas – que fazem doer a alma da gente. Em miúdo, na sanzala, a mãe Miquelina atirava-lhe com berros e aiués pela mania que ele tinha de correr, nu, pelo terreiro tomando um banho que lhe tirava os caramunhos da cabeça. Minino você tens de aprender a ser um home civilizado. Seu pai lhe queria que tu fosse assim.

Ele não respondia. O seu pai. Por onde andaria ele, algarvio de torna viagem, que estivera ali sediado durante a enormidade de dois anos com um comércio geral de fancaria e que emprenhara a Zefa Catemba, em resultado do que nascera ele, José Paulo de Carvalho Simões, mulato claro, de olhos verdes como os do sacana do progenitor. E continuava a correr na chuva, conduzindo com mestria um auto de arame, rodas, volante e imaginação, tudo em arame, já disse.

Um dia, já a mãe o tinha metido na escola da Missão, o padre Filomeno, italiano de barba branca sobre a sotaina branca (que raio, o gajo andava sempre num brinco, branco era branco, ponto), chamara-o à presença dele. E dera-lhe para a mão um papel de carta em que ele, entre o desconfiado e o espanto, dera a ler o que lá dizia. Era do pai. E tinha preso por agrafe metálico, um tanto enferrujado, um bilhete de barco para Lisboa. O que lhe pareceu o mais importante, no meio da confusão que se lhe instalara na cabeça, por baixo mesmo do cabelo liso. Os outros miúdos bem o chateavam por não usar carapinha.

Convencido de ser branco

Dona Zefa ainda hesitou. Mas o homem que fora o seu, era o pai do minino. Você faz o que queres, já tem idade pra isso. Mas eu lhi aconselho que vás. Foi. Em terceira classe, no Niassa, navio-motor lhe chamavam, que então era quase novinho em folha. Da viagem – só boas recordações. A camarata para 12 pessoas era o menos. O mar era o mais. E, como não enjoava, fartou-se de comer coisas boas, de brancos, convencido de que já era um deles.

Resumindo. O pai, que tinha o mesmo nome, tinha uma taberna e carvoaria, ali para os lados da Morais Soares, quase em frente o cemitério, do outro lado ficava a Praça do Chile. E os eléctricos iam e vinham, à mistura com as carretas funerárias da Agência Abreu. Passou a trabalhar com ele e o sôr Simões pô-lo a estudar à noite, na escola comercial. Uns anos depois, era ajudante de contabilista da praça, do Senhor Raimundo, que fazia as escritas de uma porrada de lojecas e, até, de algumas lojas mais apessoadas.




Pensava meter-se no Instituto Comercial, ali a Santa Catarina, quando rebentou a guerra na Angola que acreditava ter esquecido. Mas o Salazar, ou os gajos quo acolitavam, deu-lhe passagem para lá, depois de ter feito o CSM. Furriel miliciano, farda amarela de caqui, ei-lo que desembarca em Luanda, que coincidência, no mesmo Niassa, agora mais encarquilhado, mal cheiroso a bedum da animalada que transportava e a que chamavam transporte de tropas. Mantendo o navio-motor, diga-se.

A sanzala Serrador

A companhia de caçadores independente passou seis fugazes dias na capital e seguiu em coluna militar para Nambo. A picada relembrara-lhe os anos da infância. E ainda levava a esperança de rever a Mãe Zefa na sanzala, à beira do caminho. Mas, o que viu, gelou-o. Só havia paus a pique queimados, dois cães esqueléticos e uma cabaça rachada. Ninguém a quem perguntar pelo povo.

Já no aquartelamento, ao lado do que fora o clube desportivo, tinham-lhe dito para tentar averiguar algo com o Malaquias do chuto. E quando este, já com uns valentes bagaços no buxo, e por entre fumaças de liamba, lhe contara que ninguém escapara, a militança que viera de Luanda vingara-se das atrocidades da UPA, olho por olho, dente por dente, só um velho ficara para contar, a ele, José Paulo de Carvalho Simões, subira-lhe pela espinhela até chegar ao cocuruto. Nas palhotas, disseram, para justificar a metralha, acoitavam-se muitos bandidos autores dos mais bravios assaltos.

O resto da comissão passou-o na agonia de vingar os mortos da sanzala Serrador, entre os quais a Mãe Zefa. Mas, o que, na verdade, o perseguia era a visão do que não vira: o povo de borco ou de costas, tanto faz, pelo chão, litros de sangue empapando e reforçando o chão já de si avermelhado, homens, mulheres, velhos, velhas e, sobretudo, meninos ou meninas. Raiados a metralha.

Fez o pedido legal para passar à disponibilidade em Angola, alegando (justificadamente, diga-se) que era a sua terra. Entretanto, chegara-lhe do Puto um telegrama. O pai Simões finara-se, qualquer merda do coração, parece que estava a montar uma catraia de vinte e poucos anos, dera-lhe o badagaio, finara-se. A mulher, a legítima - porque a Mãe Zefa fora apenas a que o parira, que o deitara ao Mundo desgraçado que era este – fugira-lhe um ano antes com um marinheiro turco, levando uma porradaria de contos.

Peluda. Conversas no Rangel e no Sambizanga. Numa noite sem luar saíra de São Paulo de Luanda, à boleia de um camionista indicado pelos novos camaradas, tipo seguro, ainda que não seja dos nossos, afirmara-lhe, convicto, o Pintado das ferragens, militante do MPLA, a que aderira também. A vingança teria de ser forte, sentida pelos filhos da puta dos portugas, mas a independência seria ainda mais importante. Fossem chacinar para a cona da mãe da terra deles.

Os tugas já tinham aprendido

A chuva abrandou. Zé Paulo puxa do maço de Hermínios, aponta-lhe um fósforo, engole o fumo até tão fundo que quase lhe chega aos tomates. Fuma também de raiva. O golpe de mão que tentara executar fora um flop de todo o tamanho. Os gajos seus companheiros de Bilhete de Identidade – de mais, não – também já sabiam muito. Tinham-lhe trocado as voltas e o grupo dele, de 12 ficara reduzido a cinco. Sendo que dois muito estragados, um sem uma perna e o outro cego do olho direito. Uma ganda foda.




Com as mãos em concha tenta preservar a pirisca da ex-catarata que o envolve. Acabou-se: a beata e a euforia. Hoje, tudo aquilo que tinha acumulado de sucessos, fora-se, sem ai, nem ui. Tenho de me redimir, cogita. Tenho de os agarrar pela pele dos colhões e dar-lhes cabo da saúde. Levanta-se e anda, silenciosos, para trás e para diante, no meio das folhas de mandioca, em Cabinda fazem um esparregado com elas, o saca-folha, de comer e chorar por mais.

A noite vai-se transformando em matina, já nasceu um sol que tenta desesperadamente, apenas acordou, penetrar as ramas folhosas. Os companheiros foram até ao charco próximo, lavar-se e dar água aos feridos. Um deles, o Cachimba volta para trás. Camarada o cego escapa, o Cuanhama não se safa. Está a acabar. Já não tem sangue quase mesmo. Pediu no Cavibonde que lhi leva a foto da filha pra dar na mãe da minina.

Que idade ela tem? Cachimba olha, surpreso. Afinal o camarada Simões tem coração. Está a perguntar pela menina do Cuanhama. Ninguém diria. Olha camarada, repara só na foto. Tem cinco anos e si chama Joana. Que lhi parece?

A Mãe Zefa; sente que ela lhe põe a mão no ombro como fazia antes de. Zé Paulo, filho, essa minina Joana também é nossa, também é tua. Conserva-lhe. Você não tens filho, agarra ela e que ela lhi chama pai. Puxa da carteira ensebada, de couro andaluz, comprou-a em Sevilha, tinha ido lá numa excursão da escola nocturna, até engatara uma chavala, Mercedes, 22 anos, um espanto na cama. Fora no Parque Maria Luísa que a encontrara, quando se preparava para dar uma volta de charreta com quatro colegas. A bolsa que já foi castanha e brilhante tem a Virgem da Macarena em relevo. Tinha. Dela tira cuidadosamente a única foto que tem, teve e terá da Mãe Zefa.

Junta as duas, a da senhora e a da miúda. Mete-as na carteira. Está decidido. Quem sabe se ainda chegar a tempo, quem sabe quando a guerra vai acabar, quem sabe se arranjará um irmão para a Joana. Depende. Da guerra e da viúva. E dirige-se ao charco. Para também ele se lavar sumariamente. Para mais nada. O Cuanhama já se foi, aiué, como dizia a Mãe Zefa.

segunda-feira, julho 17, 2006



O dia dum Senhor

Antunes Ferreira
Sursum corda. Habemus ab Dominem. Gratias agamus te. O som chega-lhe remoto, como que desenterrado do fim do Mundo, pela voz aflautada do padre Hipólito, acolitado pelo Maneiras, antigo menino de coro e, por estas bandas, sacristão camuflado, sem opa, vermelha ou branca não interessa. O capelão é de Moncorvo, o ajudante de Pias, terra de bom vinho. As hóstias são da autoria do Martins «Tremeliques», padeiro ao quadrado, ou seja na vida civil e nesta trampa da tropa.

Aos domingos é assim, o capitão Hipólito vem de Unimog, acompanhado de uns quatro soldados e um sorja, Gonçalves, mais conhecido por Bolinhas, de G3 aperradas, que a picada não é para folestrias. Brincamos – ou já chegámos à Madeira? Anda por aí um tal Simões, Júlio Carvalho Simões, furriel miliciano desertor, mulato claro – houve já quem dissesse que o sacana é preto cafuso, não liguem, na outra linha – que se dedica à caça de oficiais. Filho de um roceiro do Uíge, o pai oferecera-lhe, quando as borbulhas já lhe rebentavam, uma carabina Mauser, levíssima e de mira telescópica.

Para caçar tudo, até elefantes, dissera-lhe o mais velho, até elefantes. A roça, ubérrima, estendia-se por quilómetros, cafezal atrás de cafezal, sob a rama das árvores protectoras e a vigilância das mafumeiras altas e esguias. Juleco, aos 15 anos, já atirava como se profissional do gatilho fosse. Primeiro em mamões, depois em tudo que mexesse. A mãe Benda Maria se lhe recomendava calma minino, calma, que essis arma lhe deu seu Pai só pra matar pacaças e palancas. De nada servira a prevenção materna. Deu-se a caçar homens.

Cervejas e bifes

Ite, missa est. O pessoal ajoelhado para a bênção final, já se levanta, em busca de Cuca geladinha, da arca zincada. Geladinha – assim, assim. Melhor que nada porque cerveja quente só os ingleses, ao que dizem. Poça, gajos mais estranhos, os bifes. Quem se havia de lembrar de cerveja ao natural. Nem pra tremoços, que é o marisco preferido do Eusébio. Cabrão, que viera lá do cu de Judas de Moçambique para o Sporting e, pela porta do cavalo, arregimentara no Benfica.

Debaixo da copa do embondeiro, o Jacinto, nosso alferes, acamarada com o outro miliciano de galão único, o Tomaz com z mas sem h, a ser assim ainda seria da família do merdas do almirante. Afanam-se em tarefa mais do que meritória: dar cabo de uma garrafa de Monkeys, um uísque de estalo, a botelha é de louça, é só estilo. Nenhum deles assistiu à missa, já foi tempo em que não falhavam um dia do Senhor.

Gelo de barra esmigalhada e água Castello – é assim que vem no rótulo, com dois l – ajudam a enganar a caloraça. Hipólito, desparamentado num ápice, também não tem muito para tirar, abanca à sombra da árvore guarda-sol. Trata-os por tu, eles são mais pelo padre isto, padre aquilo. O capelão é um gajo baril disse uma vez o Tomaz com z e bastou. Boa praça, diriam os brasileiros. No caso presente, bom capitão, ainda que sem usar galões por via das moscas.

Serve-se a eito e sorve uma golada ainda meio-quente. Ó padre, deixe derreter o gelo, porra! O Jacinto excomungado comunga porem na amizade ao cura capitão. Mete-se com ele a todo o momento, é a forma de lhe mostrar o apreço que lhe tem, o valdevinos. Vocês continuam a faltar à missa dominical. Saíram-me uns bons safados. Diga uns filhos da puta, fora as mães, digno sacerdote castrense, não lhe faz mal nenhum e enche a boca.



Esta é a forma mais gozada de acometer Hipólito. Sacerdote castrense. Mas ele próprio entra no gozo, melhor seria filhos da mãe, já não seria preciso isentar as progenitoras. E enche um segundo copázio. Safados e ímpios. Tu, meu grandessíssimo Jacinto até foste leitor de epístolas, nos Jerónimos, era prior o Felicidade Alves, do meu curso do Seminário.

É isso, padre. Fui católico – ou julgava sê-lo – mas curei-me. Nem precisei de aspirina LM. Tomaz, sempre com z, solta tal gargalhada que quase se engasga com pedra de gelo quase virgem. Meus queridos filhos. Graças a Deus, muitas; graças com Deus, nenhumas. Parece que está a falar a sério, ó padre Hipólito... E estou mesmo. Vocês já estão cacimbados, tantos meses aqui no mato, desculpo-os. Não precisam de brincar com o nosso Pai.

Óqueijo, óqueijo, padre. Vá, meta mais gasosa, the last for the road. Assim, sim, assim são vocês, camaradas, amigos, filhos meus. A manhã esvai-se por entre os dedos da malta. Almoça connosco? Pergunta idiota. Hipólito vai sempre comer na sede do batalhão, onde, antes, rezará também missa. Boa viagem e poucos furos, digno sacerdote e castrense. Vá pela sombra, que o sol cresta...

Minutos depois, já com os garfos em punho para a salada de atum, ouvem um matraquear metálico, uns estrondos, uma gaita! O padre está a ser atacado, grandes cabrões. Vamos a eles. Motores a ferver, malta em calções ou em cuecas, a espingarda e as munições é que contam, avia-te ó Marques bazuqueiro. Eles fodem-nos se nós não chegamos depressa. O tiroteio prossegue, cada vez mais próximo, à medida que se aproximam em velocidade tresloucada.

Nisto, o silêncio. Ominoso e impotente. Acelera, Guimarães! Caralho, isto está a cheirar muito mal! Os êmbolos esgalgam-se, os travões morreram. E o sacana do silêncio – que se ouve perfeitamente. Se tal dissesse nas aulas de Português, o doutor Leão já lhe teria chamado pleonasmo vivo – ou és mais burro do que a Santa Madre Igreja te permite! Aqui, porem, o silêncio ouve-se, come-se, engole-se, mas não se digere.

Desembocam num buraco no meio da picada. Buraco feio, grande, debruado a pólvora queimada. Os militares jazem, espalmados, há sangue em barda, a folhagem chamuscada já não mexe. Agarram os homens, todos mortos, o sargento Gonçalves tem uma órbita obscenamente vazia, de onde ainda escorre a seiva vermelha que o recheava. Todos mortos.

Pela pontaria, pelos orifícios das balas, pela precisão do tiro, foi o Simões. Repara Jacinto, tem a marca dele, não engana. Mas Tomaz, quero lá saber se com z, o mestiço não matava toda esta gente, um a um. E, alem do mais, há a cova da mina rebentada. O Simões é mais artista, não entrava numa selvajaria destas, nesta carnificina. Pessoal, onde está o nosso capelão?





Aqui, amigo, aqui. Morto e bem morto. Os alferes aproximam-se, as lágrimas embaciam-lhes as retinas, mas não correm. Um homem é um homem e um gato é um bicho. Junto ao corpo do sacerdote, crivado e sangrento, está agachado o Maneiras, desconsolado, em pranto. Não grita, não berra, sussurra apenas mataram-no, mataram-no.

Um pincho e um brado

De súbito, um pincho e um brado de fera. A espuma corre-lhe pelos cantos da boca convulsa. Ah alentejano duma cana, que foi que tu viste para te pores assim? Jacinto e Tomaz, que se lixe o z, entreolham-se. O de Pias pifou. Endoideceu. Não aguenta mais. Agora, é evacua-lo para Luanda, interna-lo na psiquiatria, como é que se vai explicar à mulher que tinham conhecido, de barriga de seis meses, na Rocha Conde de Óbitos?

Vá lá, Maneiras, sossega. Já viste mais mortos. O nosso capitão Hipólito já sossegou, já ninguém lhe faz mais mal, está feito. Acalma rapaz, que a tua mulher e o teu filho precisam de ti bom e vivo, olha lá o que aconteceria aos dois se tu te fosses abaixo das canetas. Na nossa toca enfias umas bóbidas pelas goelas abaixo e pronto. Gente: vamos recolher os corpos e voltar ao aquartelamento.

O Maneiras resmoneia qualquer coisa, por entre os lábios cerrados sobre os dentes. Dois cordões de lágrimas abrem sulcos nas faces enegrecidas do pó, do suor, da raiva. Volta-se, lentamente para os oficiais e solta a boca num queixume. Caparam-no, os cabrões, caparam-no. E meteram-lhe a pica na boca, os filhos de uma carrada de putas. Caparam-no. O padre era um homem. Se calhar, fazia-lhe falta o aparelho. Caparam-no...

Ná, o Simões não fazia uma tal cagada. É outra loiça, apesar de... Jacinto abraça o Maneiras, Tomaz, de novo com z, abraça ambos. Graças com Deus... Caparam-no, amigos, caparam-no.

sábado, julho 15, 2006




A mosca do sonho

Antunes Ferreira
N
aquele preciso momento – e tal como dizia a Dona Célia, sua professora da quarta classe – gostava de ser uma mosca. Não tsé-tsé, a do sono. A vulgar. Na altura, os putos interrogavam-se o porquê de tal desejo. Uma mosca é um animal da merda, dizia o Faustino, que no Inverno costumava usar um casaco azul, com botões de metal, à militar, que a mãe dele lhe tricotara por mor do frio. E o Viegas, filho do sôr Jaquim da mercearia Estrela d’Alva, secos & molhados, ajuntava: da e na. Malta sacana mas afinada, a da Escola Primária n.º 114, ali a Palhavã.

Um dia, não se conteve e perguntou à digna senhora, viúva de um chefe de repartição das Finanças, o motivo que a levava a querer ser um tal insecto, chato e porco, que exigia o uso afincado do mata-moscas, instrumento apetecível ou, não o havendo, pano do pó até mesmo jornal enrolado manejado com presteza e pontaria. Claro, gente fina e de posses, utilizava a bomba do Flit, com embolo e depósito, mas que cheirava a remédio prós calos.

Dona Célia, toda de preto, como sempre, sorrira-lhe mansamente (procedimento habitual nela, principalmente para com ele, Justino de Oliveira Silva, mais conhecido pelo Justinho, dez anos, quase a fazer os onze) e explicara que muito gostaria de ser uma mosca para ver o que certas pessoas estavam a fazer e a dizer, sem que elas de tal se apercebessem. Sabes, menino, elas são aos biliões no ar, que mais uma menos uma tanto faz. Era esperta a Senhora. Esperta e boa.

Vamos por partes. Sem dúvida nenhuma que a Dona Célia tinha todos esses predicados, inclusive sabia uma porrada de esfortes, nada, não é assim, é estrofes dos Lusíadas escritos pelo Camões, aquele gajo com umas folhas de louro na cabeça e uma pala no olho, caté parecia o pirata da perna de pau. Grande poeta, o melhor de todos os que tivemos e muitos foram, comentava ela, enlevada, de olhos em alvo. E repetia, para consigo e para eles, grande poeta.

Remendão, o Virgílio?

Depois citava um tal Virgílio, nunca soubera o Justinho exactamente porquê. Dona Célia dizia que era uma comparação. Ná. Com o Virgílio sapateiro remendão, que tinha banca no vão da escada do 122 e os ameaçava de sovela em punho, quando eles lhe gritavam – de longe, não fosse o diabo tecê-las – ó marreco!!! Tinha a certeza que não se tratava do mesmo, não ia então a ilustre professora dar uma tal barraca. Quem seria, então, o outro Virgílio? Mistérios insondáveis da alma lusitana? Sabe-se lá.

Pois, sim senhores. Ali, estendido debaixo de uma GMC (diziam os mais entendidos que o camião era da II Guerra, mas que as Diamonds e as Matadores ainda eram mais antigas, e na tropa, a antiguidade era um posto) dava-se a desejar ser uma mosca, um moscardo, uma varejeira até mesmo um mosquito, por tais bandas eram às nuvens, os filhos da puta que passavam as febres e que por isso a malta era obrigada pelos das seringas a engolir todas as semanas um comprimido de…, de quê?..., ah, de camoquina.



Qualquer deles serviria. Assim disfarçado, um verdadeiro sonho – depois, porra, depois voltaria à sua fronha de Justino Oliveira Silva – voaria em planado até ao acampamento dos gajos, para observar o que eles estariam fazendo. Se calhar, como ele, algum estaria deitado, com o céu por tecto e não o veio da camioneta de carga, a pensar que gostaria de ser – um mosquito, igualmente. E se fosse? Andaria por ali, zumbindo como lhe competia, e picando de quando em vez. Homem, um gajo tem de cumprir o que lhe foi destinado à nascença. Até a Amália cantava assim.

E se o sacana lhe pudesse ler o pensamento? Aí, ele, Justino, para a malta Justinho, estava safo. O turra, assim lhes chamavam, ainda que ele achasse que se lhes devia apelidar de combatentes independentistas, depois de averiguar o que ele tinha na cachimónia, dar-lhe-ia não com o ferrão, mas uma festinha com a asa. Para lhe dizer que era assim mesmo, que a malta da pesada tinha direito a ser independente e que os tugas, o melhor que tinham a fazer era porem-se nas putas. E no Puto.

E lá viria de novo a ideia da deserção. Que lhe ocupava, pelo menos, um terço da massa cinzenta. Mas que, infelizmente, não podia ser. Fizesse-o e os pides agarrariam a Graça sua mulher com um miúdo na barriga e outro de chupeta, na alcofa. Foda-se, ele não tinha perdido tempo; ou antes, eles. Quando em vésperas de embarcar para a guerra, se tinham casado como manda a Madre Igreja, o prior Anselmo logo lho dissera. Tu o que não te falta é pontaria… Assim seja lá pelas Africas… Bom recado, que não encomendação, uma merda!

Na cama? Na guerra…

Ao longe – o que é nesta escuridão ao quadrado, da noite e da mata, o longe? Onde está? Quanto mede? Quanto pesa? O sotore Raminhos, na escola industrial, é que fazia essas perguntas todas, a propósito de nada e de tudo, em química, de que aliás o Justinho gramava à bessa – ao longe ouvia-se ribombar trovões, muitos, enquanto os flaches dos raios apenas passavam por entre a ramaria e as lianas.

Pronto. Estava de novo onde sempre estivera. Na cama com a Gracinha, fazendo coisas a que os outros chamavam indecentes, mas de que eles gostavam muitíssimo, entre lábios – de cima e de baixo – traseiros e mamilos mamados, pau erguido e bem oleado do cuspo e toma lá nos buracos, gostas? Muuuiiiito! Na escola onde já dava aulas, aos 25 anos, que ainda os ia completar, com a putalhada, malta fixe, que às vezes tinha de levar ponteirada, naturalmente, mas poucas.



E onde a espingarda automática? E onde as divisas de furriel, miliciano, tá visto, que não se usavam na picada? Que puta de vida. Onde é que encaixavam as botas, os polainitos, o camuflado, os carregadores, as rações de combate, o cantil e os comprimidos de olozone, ou lá o que era? E o paludismo? E as diarreias? E as rajadas de kalashnikov quase tão rápidas como os mosquitos? E as bazucadas?

A lembrança do vale musgoso da Gracinha levantou-lhe o desejo. Orifício mais próximo, só o tubo de escape da GMC. Outros havia, mas com pelos e os proprietários não colaboravam. A mão direita, já apressada, percorreu a braguilha. E logo a seguir explodiu em movimentos cada vez mais rápidos, à procura da satisfação, os dedos convulsivamente apertados. Ai Graça, ai Gracinha, se tu soubesses as saudades…

Terminada a solitária, esvaído, há uns tempos que não fazia tal, de novo a mosca: o gajo é homem e deve ter mulher; estaria ele a bater também uma pívia?

quarta-feira, julho 12, 2006



Azambuja, o fim da fábrica

Antunes Ferreira
O caso da fábrica da GM na Azambuja está para lavar e durar. A General Motors confirmou o encerramento em Dezembro. O ministro da Economia e Inovação garantiu que o caso tinha de ser exemplar. O Governo anunciou na terça-feira que pretendia exigir uma indemnização à empresa pelo encerramento da unidade fabril.

Manuel Pinho, durante uma conferência de imprensa, afirmou que «a General Motores assinou um contrato livremente e por isso acontecer-lhe-á o mesmo que a qualquer empresa que não cumpra os seus compromissos». Acrescentou que «ainda é cedo para dizer que tipo de indemnizações vão ser pedidas, mas naturalmente que este tem de ser um caso exemplar, porque o Governo tem sido muito generoso em termos de incentivar o investimento».

As declarações aos jornalistas foram prestadas depois de o Governo ter feito saber que vai processar a GM. Já antes, em comunicado, o Ministério da Economia e da Inovação afirmara que o contrato entre a construtora e o Estado previa que a GM atingisse «determinados objectivos, recebendo em contrapartida incentivos financeiros, fiscais e fundos de apoio à formação profissional, na ordem de dezenas milhões de euros», com validade até final de 2008.«Face a esta situação de claro incumprimento contratual, o Governo vai desencadear imediatamente todos os mecanismos legais e contratuais, de forma a ressarcir-se dos graves prejuízos que esta decisão acarreta para o país», adiantava-se no texto.

O comunicado referia ainda que seria tido em conta que a GM beneficiou de incentivos de fundos comunitários, pelo que «o Estado português não deixará, também, de sublinhar as implicações desta atitude da GM no âmbito europeu».

Repor exactamente o quê?

A
GM Europa manifestou-se, por seu lado, disponível para fazer uma devolução «apropriada» dos incentivos recebidos do Estado português para a unidade da Azambuja, que deverão ascender a 30 milhões de euros.De acordo com o jornal económico alemão Handelsblatt, o Governo português poderá exigir o reembolso de 30 milhões de euros à GM, já que a empresa tinha um contrato de investimento que previa a sua permanência em Portugal até 2008.

A companhia afirmou, ainda, estar disposta a cooperar «de uma forma construtiva» com o Executivo de José Sócrates na procura de novos investidores para a Azambuja. Referindo ter reunido várias vezes nos últimos meses com o Governo português para discutir a situação da unidade da Azambuja, a GM adianta ter apreciado os esforços do Executivo para «identificar soluções que permitissem reduzir o diferencial de custos» de produção, o que não foi conseguido.

Face a isto, a Oposição manifestou o seu desagrado pela situação, acentuando o problema que daqui resultará para a economia e para a força de trabalho portuguesas. O que é perfeitamente natural. Já não o é, no entanto, a posição do deputado do PSD, Senhor Marques Guedes, que declarou que o Executivo socialista era o culpado da situação por ter usado uma estratégia errada nas negociações com a GM.

Se calhar o Senhor Deputado entende que o Governo devia ter comunicado aos alemães que Portugal, só para não ver partir a GM da Azambuja, estavadisposto a aumentar de conta e risco próprios as isenções já existentes e, ainda,a repor o diferencial de 500 euros por unidade ali produzida, quantia que era utilizada como argumento de peso pelos construtores. Em tempo de contenção, seria assim que o PSD governaria?

Ah, quão longe vai este senhor que há tanto tempo se senta no hemiciclo, das posições probas e verticais de seu Pai e meu professor de Direito Constitucional. Como dei antes a entender, a procissão ainda nem saiu do adro. Veremos quais serão, como se diz nas telenovelas, as cenas dos próximos capítulos. Com o Deputado Marques Guedes, ou sem. Com a viola no enterro – ou sem.

terça-feira, julho 11, 2006


Sentinela, alerta!

Antunes Ferreira
M
aldito sono que o deixa arrasado. Não se pode estar de sentinela e dormir. Claro, há o regulamento. Mas, sobretudo, é a vida dos camaradas que passam pelas brasas e que se ele se deixa embalar pela proposta sacana do papão vai-te embora, de cima desse telhado, podem ser lixados até à pedrada. Os gajos sabem perfeitamente que a tropa está ali, na picada, rodeada de mata por todos os lados, pior que ilha em águas revoltas.

Ganda merda! Mal sabia o pai António Fogaça - quando se pusera na Albertina, a coberto do escuro - que o filho então fabricado iria dar com os costados a uma puta duma guerra em que ninguém sabia muito bem qual era o seu papel, a não ser safar-se sem grandes makas. Já assim dizia o Zé Fogaça, natural da freguesia da Comenda, concelho do Gavião, cooptando o linguajar dos angolanos. Complicações, se preferirem.

Um cigarrito ajudaria a passar as horas. Nem toma conta delas, se levantar a manga do camuflado para mirar o relógio, o vidro do mostrador é uma armadilha. Vá que dê reflexo. E lá está um cabrão a levar com um balázio nos cornos, que nem sabe donde veio – e nem de que morreu. Quanto a pitillo, estamos conversados. É mais do que proibidíssimo. É conselho de guerra e pode dar fuzilamento.

Homessa? Uma gaita. O esfolar do fósforo daria para iluminar o primeiro alvo: ele. Depois, iriam os outros que de tão ensonados bem poderiam ser apanhados à mão, esganados, enrabados, sabe ele lá. Entretanto, porque lhe havia de chegar à mona o pitillo espanholês? Poderia ter pensado em beata, em pirisca, em muita coisa mais. Mas, porque raio a espanholada?

Pitillos e boquilhas

Se calhar porque se recorda – na peleja contra o cabrão do sono – da Mercedes de Fuentes Bajas, gaja a caminho dos entas mas ainda apetecível, o azeviche do cabelo, as tetas opulentas, embora já a pingar para baixo, rompendo meias solas a preceito, muita malta ainda lá ia, incluindo ele, era só dar um pulinho, estava-se do lado, já não guardavam nada as muralhas de Belver.

Em noites que nada tinham a ver com esta empedernida, a Merci usava boquilha longa, de baquelite preta, dizia ela que era por el cine, vaya. E o pitillo, um tudo-nada cambaleante na extremidade do artefacto, tinha, então, uma dignidade dúbia e um sabor especial. A ninfa fumava que nem uma chaminé, sem cagaços de cancros e merdas assim. Si no te mueres hoy, te matan mañana, dizia entre gargalhadas e fumaças brônquicas.

Fogaça júnior – júnior o caralho, desde que fora às sortes, amochara na recruta e agora tentava escapar a salvo em Angola, passara a sénior, e sabe deus se chegaria a internacional – tenta dar a volta por cima. Apura o ouvido. Parece-lhe escutar um remexer do capim. Não é nada, como diz o alferes Matos, é só o barulho das luzes. Mas agora, não. Primeiro, não há luzes nem sequer luar. Ou se há, está embrulhado em folharia.

Depois, o Zé nem tem a certeza se foi barulho, se é barulho. Talvez cobra. Na Comenda, ainda que não tivesse muitas, havia-as, entre o castanho e o amarelo, pequenas, de escamas certas mas sujas do rastejar. De catraio se habituara a elas, a espetar-lhes uma cana afiada no toutiço, depois de as fazer rabiar.

Aqui, porem, a loiça é outra. As cabronas são grandes, enormes, algumas, chama-lhes boas, que não são, bem pelo contrário. Engolem uma pacaça inteira depois de a esmagarem, enroladas à volta dela. E ficam a esmoer esse boi do mato, só com os cornos do animal fora da boca, até caírem pelo resto ter sido digerido.

Passado o prazo

Há outras, esverdeadas, camufladas de ervas, quais camaleões venenosos a confundir-se com o ambiente, fugidias, insinuantes, rapidíssimas. Muitas delas não são mortais, diz o maqueiro Aniceto, mas vá lá um tipo fiar-se num badameco que era ajudante de auxiliar de praticante de sapateiro na vida civil. E ainda que o nosso cabo diga que tem antídoto para as picadas, nada de experimentá-lo. Pode já ter passado de prazo.

De umas nem de outras há que esperar o que quer que seja de bom. Da-se! Nem pouco mais ou menos, com estas não se brinca, nelas não se espeta cana, olha lá, nem pensar. Vá lá, foi-se o olhinho maroto a fechar-se como quem não quer a coisa. Agora é que valia a pena um pirilampo, se os houvesse. Talvez que o cu iluminado do insecto lhe permitisse ver do que se trata ou se, o mais provável, nada é.

Da massa de gente espapaçada pelo chão de terra vermelha levanta-se um vulto titubeante. Quem vem lá? Ó compadre, deixa-te de porras, sou eu o Olivais, que vou arrear o calhau. Pois que vá. Mas primeiro, ó sacana, avança ao reconhecimento. Avanço o tanas, que ainda me borro pelas pernas e já vou de calças na mão. Está quedo: nem te amolgo a moleirinha, nem fujo. Não tinha para onde, ó alentejano de terceira.



Olivais dá mais uns passos. Cinco? Seis? Os últimos. Nem gritou. É só o estrondo tremendo e o vento de mina que atira o Fogaça de costas, para trás. E o fumo negro que nem o cabelo da Mercedes y olé, e o cheiro a enxofre da pólvora. Alem do engenho, saltou tudo o mais, ou seja a malta por atacado. Umas vozes mais alteadas, logo abafadas em sussurros interrogativos. Quem se foi? Noutro lugar e momento seria o que foi? Aqui...

As coisas, por piores que sejam, tendem para o acalmanço. Começam a reunir-se as tralhas, não há tiros nem nada, apenas flutua no ar denso e opressivo da mata um odor a «incidente mortal» como lhe chamará amanhã, daqui a dias, quando, logo se verá, o gajo das Informações das Forças Armadas, nossas. Os outros, dirão de forma substantivamente diferente. Feitios. De uma guerra estúpida, injusta e cruel.

Ó tu, diz o nossalferes: traz uma pá para apanhar o Olivais.