sábado, janeiro 26, 2008


Assim, sem mais comentários, aqui fica o registo. Veio num mail do meu Amigo/irmão Edmundo Campos, a quem me ligam laços eu diria eternos. Já vivemos, juntos, momentos excelentes, inesquecíveis, já sofremos, juntos momentos dolorosíssimos, sangrentos, inesquecíveis. Obrigado, Edmundo, muito simplesmente – obrigado. A.F.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Festa é festa

Ainda que já esteja de entrada o Entrudo, o Natal é quando o homem quiser, cantou o Paulo de Carvalho e ficou para sempre, e por isso não posso deixar de aqui publicar um texto delicioso que me foi enviado pela minha querida Amiga e camarada de profissão Alice Vieira, com quem tive o prazer e a honra de trabalhar bastantes anos no DN, que ao tempo ainda era o Diário de Notícias. A Alice, para muitíssima boa gente – e em particular para mim – já o escrevi e repito-o, é a maior escritora para crianças de sempre em Portugal.

Estávamos na Redacção do matutino da Avenida da Liberdade quando ela publicou «Rosa, minha irmã Rosa», um livro encantador, lindíssimo, emocionante, que viria a ser galardoado, muito justamente, com toda a panóplia de prémios possíveis e imaginários.

A Alice Vieira domina a nossa língua de forma perfeita. Cronista saborosíssima, com páginas excelentes – recordo aqui dois livros preciosos, «Bica Escaldada» e «Pezinhos de Coentrada, que li de jacto - tem feito parte, naturalmente, do bando dos sete que já pariu «Os Novos Mistérios de Sintra», «O Código d’Avintes» e o «Eça agora», imperdíveis.

A brincadeira que se segue creio que não é da sua autoria, é tão-só um FW. Mas, com a graça que tem, bem poderia ter sido. A Alice é capaz disso e de muito mais. Acreditem.

Além de vo-la ter remetido por mail, aqui está ela, de pleno direito neste blogue. Já convidei a Alicinha para nele colaborar. Em vão. Diz-me que um dia... E não me posso chatear com aquele sorriso inatacável, com aquela boa disposição crónica, com aquela categoria literária que ela não apregoa. Aliás, não necessita de. Obrigado, queridíssima Alicíssima. Antunes Ferreira

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 2 de Dezembro

Assunto: Festa de Natal

Tenho o prazer de informar que a festa de Natal da empresa será no dia 23 de Dezembro, com início ao meio-dia, no salão de festas privativo da Churrascaria Grill House. O bar estará aberto com várias opções de bebidas. Teremos uma pequena banda tocando canções tradicionais de Natal...sinta-se à vontade para se juntar ao grupo e cantar!


Não se surpreenda se o nosso Vice-Presidente aparecer vestido de Pai Natal! A árvore de Natal terá as luzes acesas às 13:00. A troca de presentes de "amigo secreto" pode ser feita em qualquer altura, entretanto, nenhum presente deverá exceder EUR 10,00, a fim de facilitar as escolhas e adequar os gastos a todos os bolsos. Este encontro é exclusivo para funcionários e família. Na ocasião, o nosso Vice-Presidente fará um discurso bastante especial. Feliz Natal para todos.


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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 3 de Dezembro

Assunto: Festa de Natal

De maneira alguma o memorando de 2 de Dezembro sobre a Festa de Natal pretendeu excluir os nossos funcionários judeus!
Reconhecemos que o Chanukah é um feriado importante e que costuma coincidir com o Natal, mas isso não acontecerá este ano. Portanto, passaremos a chamá-la "Festa do Fim do Ano" pois teremos em conta também todos os outros funcionários que não são cristãos e aqueles que celebram o Dia da Reconciliação. Não haverá árvore de Natal. Nada de canções de natal nem coral. Teremos outros tipos de música que agrade a todos. Felizes agora? Boas festas para vocês e família.


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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 4 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano

Recebi um bilhete (anónimo) de um membro dos Alcoólicos Anónimos solicitando uma mesa para pessoas que não bebem álcool... Terei todo o prazer em atender o pedido, mas, se eu puser uma placa na mesa a dizer "Exclusivo para os AA", vocês deixarão de ser anónimos, não será?... Como faço então? Quanto à troca de presentes, esqueçam. Não será organizada uma vez que os membros do sindicato acham que dez euros é muito dinheiro e os executivos acham que dez euros é muito pouco para um presente.
Portanto não será organizada NENHUMA TROCA DE PRESENTES. De acordo?

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

Data: 5 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano

Mas que grupo heterogéneo o nosso!!! Eu não sabia que no dia 20 de Dezembro começa o mês sagrado do Ramadão
para os muçulmanos, que proíbe comer e beber durante as horas do dia. Lá se vai a festa! Agora a sério, entendemos que um almoço nesta época do ano seja um problema para a crença de nossos funcionários muçulmanos... Talvez a Churrascaria Grill House possa assegurar o serviço de buffet até à noite ou então, embalar tudo para vocês levarem para casa nas marmitas. Que acham?


E agora mais novidades: consegui que os membros dos "Vigilantes do Peso" se sentem o mais longe possível do buffet das sobremesas; as mulheres grávidas poderão sentar-se o mais perto possível das casa de banho; os homossexuais podem sentar-se juntos; as mulheres homossexuais não terão que se sentar junto dos homens homossexuais, que terão uma mesa própria, e sim, haverá um arranjo de flores no centro da mesa dos homens homossexuais; teremos assentos mais altos para pessoas baixas; e estará disponível comida com baixas calorias para os que estão de dieta. Nós não podemos controlar a quantidade de sal utilizada na comida, portanto sugerimos que as pessoas com tensão alta provem a comida antes de comerem. E, claro, haverá mesas para fumadores e outras para não fumadores. Esqueci alguma coisa?


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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

COMUNICADO PARA TODOS OS FILHOS DA PUTA QUE TRABALHAM NESTA EMPRESA

Data: 6 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano da PORRA

Vegetarianos!?!?!??! Sim, vocês também tinham que dar a vossa opinião de merda ou reclamar de alguma coisa!... Nós manteremos o local da festa na Churrascaria Grill House; quem não gostar que se foda! Não vá, desampare a loja! Ou então, como alternativa, seus fedorentos, podem sentar-se afastados, na mesa mais distante possível da tal "churrasqueira da morte" - como vocês lhe chamam. E terão também a vossa mesa de saladas de merda, incluindo tomates ecológicos & arroz pegajoso para comer com pauzinhos. Aqueles que, naturalmente, ainda não gostarem, podem enfiar no sítio onde pensaram Mas como vocês devem saber, os
tomates também têm sentimentos! Os tomates gritam quando vocês os cortam em fatias. Eu mesma os ouvi gritar! Eu estou a ouvi-los gritar agora mesmo!!!!!

Ah, espero que vocês todos, mas todos, os parvos dos crentes e os cretinos dos ateus, os paneleiros, as fufas, as mariquinhas das prenhas, os estupores dos fumadores e os chatos dos não fumadores, os cobardes dos bêbedos anónimos e os fedorentos dos vegetarianos, todos vocês sem excepção, tenham uma merda de fim de ano! E que guiem bêbados e morram todos, todinhos espatifados e esturricados por aí. Entenderam? Da Vaca, directamente para a puta que os pariu.

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De: João Pacheco - Director de Recursos Humanos (Interino)

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS


Data: 9 de Dezembro

Assunto: Patrícia Gomes e a Festa do Fim do Ano

Tenho a certeza de que falo por todos nós, desejando para a Patrícia um rápido restabelecimento para a sua crise de stress, e podem estar certos que me encarregarei de lhe enviar as vossas mensagens para a clínica psiquiátrica

Venho comunicar que a direcção decidiu cancelar a Festa do Fim do Ano e dar folga remunerada a todos os funcionários na tarde do dia 23 de Dezembro.
Boas Festas, João

sábado, janeiro 19, 2008



Acontece em Português – quarto encontro

É já na segunda-feira, 21, que decorrerá na Biblioteca Municipal de Beja, pelas 21h30, o quarto Acontece em Português. Desta feita o meu bom e «velho» Amigo Carlos Pinto Coelho estará à conversa com outro excelente compincha, o Nicolau Santos (jornalista que também é poeta e meu vizinho), o Manuel Freire (cantautor) e o Conferece Quarteto ( constituído por Manuel Lourenço - Saxofone, Francisco Costa Reis – Guitarra, Pedro Pinto – Contrabaixo e Diogo Moreira – Bateria). O tema dominante será a relação entre a Poesia e a Música, mas haverá espaço para debater quaisquer outras questões que surjam durante este encontro que como sempre se pretende informal.




Nunca é demais lembrar que a iniciativa
Acontece em Português tem trazido mensalmente à capital do Baixo Alentejo convidados oriundos de vários países de expressão portuguesa que conversam com o Carlos Pinto Coelho. Vão realizar-se dez edições desta excelente iniciativa. No final delas está prevista a realização de uma grande festa da Lusofonia.

O Travessa do Ferreira associa-se ao verdadeiro cometimento a que a marca inconfundível do CPC fica ligada, propiciando a Beja oportunidades para mostrar que o País não é só Lisboa, muito antes pelo contrário. Na segunda-feira, não me será possível deslocar-me ali, o que me daria imenso prazer. Mas, Carlos, não perdes pela demora.

Este blogue irá acompanhando de muito perto o decurso deste
Acontece em Português e, assim, dele irá dando notícia. O Pinto Coelho não me passou procuração, mas posso garantir que os visitantes do Travessa são muito bem vindos à antiga romana Pax Julia, herdeira da céltica Conistorguis, onde, muitos séculos depois, já no século XVI, a freira Mariana Alcoforado teria escrito, do convento as célebres cinco cartas de amor ao Marquês de Chamilly. Ainda que paire a dúvida sobre a sua veracidade… A.F.




sexta-feira, janeiro 18, 2008

GOA, AMOR MEU

Vencer na vida

Antunes Ferreira
S
e me permitem o desabafo, esta é a melhor estória que trouxe de um mês inebriante que passei entre Novembro e Dezembro, em Goa. Faço, para já, um prolegómenos que peço o subido obséquio de aceitarem. Minha mulher é de Raia, concelho de Salcete, Margão e diz que eu sou mais goês do que ela. Com o pedido de desculpas à falecida maternidade Bensaúde, ao tempo ali à avenida de Berna, penso que sim. Alfacinha – pelos vistos, só por erro geográfico.

Não me canso de admirar e encomiar o encanto daquela terra. São as praias, no Índico, com a água a 26º - tomei banho em Varca, ainda que sem termómetro, mas posso garantir que nem para almoçar me apetecia sair daquele bendito mar. E almoçar por ali, nem sei se vos diga, se vos conte. Adiante. São as igrejas portuguesas, espalhadas pelo território, caiadas à maneira tradicional. São os templos hindus que têm vindo a aumentar, pelo menos desde 1980, em que pela primeira vez me desloquei ao paraíso.

Eu sei lá que mais. A cozinha goesa, uma mistura sábia de séculos entre a base lusitana e os temperos locais - o gengibre, o tamarindo, a canela, a malagueta verde, o cravinho, o brindão, a noz-moscada, a mostarda, o cardamomo, os cominhos, a curcuma, o açafrão, a pimenta e outros – é uma delícia de comer e chorar por mais. Um dia, se assim quiserem, volto ao tema.

Ora muito bem. O bairro mais chique de Panjim é o Altinho. Como o nome indica, fica na parte mais elevada da capital. A par com vivendas recentes, encontramos casarões tipicamente coloniais, as suas varandas a envolvê-los, ternamente, nunca a oprimi-los, está bem de ver. Nos quais se podem ver as famosas espreguiçadeiras, para apanhar a brisa da tarde pré-natalícia.

São os locais ideais para a prática de uma arte que, por cá, parece ter caído em desuso e ali é cultivada até ao infinito: conversar. Normalmente bebericam-se uns copos a acompanhar as charlas. As mais das vezes esquecidos pelo interessante dos assuntos, pela verve dos participantes, pelas tardes morenas, pelo Mandovi que se alonga, manso, lá em baixo.

Foi numa delas que conheci a Frederika. Assim, com k. Frederika Menezes. Frederika Raquel Menezes. Pais médicos, o Zito e a Ângela. Nascida a 30 de Setembro de 1979. Com paralisia cerebral. Um drama para ela – e para os progenitores. Paraplégica quase total. E digo quase, porque ela escreve com dois dedos no teclado do computador. E escreve bem.

Fez a escola com a normalidade possível, pela qual lutou e venceu. Apoiada pela família, mas ganhou por ela própria. E, aos 13 anos, descobriu que gostava de escrever. Continua a gostar. Começou pelos poemas, passou à prosa, que foram aparecendo em revistas e jornais locais e nacionais. A Índia olhou para ela. E ela seguiu em frente.

Fala Konkanim, Hindi, Inglês e Português. Um espanto. Por vezes tem dificuldades em articular as palavras, moderar os sons. Com essas e outras, pasme-se. Já escreveu dois livros. Em 1998, uma colectânea de poemas, intitulada The Portrait. Um deles foi seleccionado para publicação numa antologia poética – Fire in the Heart.
E em 2003, editou em prosa, The Pepperns and Wars of the Mind. Pelo caminho, em 99 foi galardoada com o Junior Citizen Arward pela Jaycees Júnior Chamber if Panjim. Tem um terceiro texto pronto. É obra.

Muito conversámos, muito nos descobrimos, muito nos rimos com o que lhe contei com alguma piada. Não é simpática – é simpatiquíssima. Hoje, escrevemo-nos por e-mail e falamos pelo msn. Digo-lhe que namoramos, com a necessária anuência da minha mulher e sua patrícia. Posso ouvir as suas gargalhadas nas teclas. Fiquei a adorá-la. Trouxe, até, o seu livro The Pepperns para ver se algum editor estará interessado nele, obra de uma jovem de 28 anos que soube, e sabe, vencer o desafio que a vida lhe atirou.

E pronto. Esta é uma crónica verdadeira e sentida. Daqui, como nos bilhetes tradicionais, envio um beijo à Frederika. Minha namorada, com a autorização da Raquel. Um dia destes, volto a Goa e vou dar-lhe mais um - sem ser pela Internet.

LEGENDAS DAS FOTOS, DE CIMA PARA BAIXO

A vivenda dos Menezes, no Altinho
O sorriso da Frederika
Capa do seu livro The Pepperns

(Esta crónica é também publicada no blogue O SORUMBÁTICO e com ela comecei a minha colaboração semanal, aos sábados, nele. O que muito me honra. Culpados, dois Carlos. O Pinto Coelho e o Medina Ribeiro. Estou tramado. Não me safo. Muito obrigado)

quarta-feira, janeiro 16, 2008



A vitória augusta


Pedro Santos Guerreiro (psg@mediafin.pt)
S
im, é um novo princípio, uma outra dinastia no Millennium, um BCP 2:0; a “second life” de um banco que foi humilhado por accionistas e gestores que sobrepuseram as suas agendas pessoais aos interesses da instituição. A sandice deplorável e degenerativa só podia ter solução externa.

Ei-la: Carlos Santos Ferreira é “ecce hommo”.

A corja passou a troika, a facção virou coligação e há um presidente com salvo-conduto para impor o que quiser. Ter 97,8% numa votação contra Miguel Cadilhe vale mais que todos os 100% que Jardim Gonçalves alcançou em listas únicas vinte anos a fio. Santos Ferreira é o José Sócrates do BCP: alcança a maioria absoluta de quem não suporta mais a instabilidade.

Uma votação tão implacável só pode revelar ou grande confiança ou enorme desespero. É irrelevante: confere uma legitimidade à prova de bala. A todos que acusarem Santos Ferreira e Vara de levarem o PS para a Rua Augusta haverá uma resposta pronta: no-ven-ta-e-sete-por-cen-to. O resto é conversa.

OK, mas um pouco mais de conversa. Continua a ser indisfarçável a politização de todo este processo, desde um Governo que no mínimo anuiu que líderes da Caixa fossem para a concorrência até uma oposição obcecada em liderar uma “Operação Mãos Limpas”, que coloca pressão sobre Constâncio e Teixeira dos Santos e, ironicamente, a desvia dos putativos perpetradores, os administradores do BCP.

Há Estado a mais neste processo? Há. Estado e partidos a mais. Mas a responsabilidade é dos accionistas privados, que tornaram o BCP carente de uma solução como esta. É por isso que Cadilhe se sente vexado. Mas admitamos: o maior vexame dos últimos meses foi dado pelos privados.

Armando Vara tem agora a oportunidade de mostrar que todos os seus detractores estão errados. Santos Ferreira já não precisa disso: ele sai glorificado. E começou de uma maneira sintomática: podia ter saído ontem em ombros da Alfândega, com sorrisos que hoje pintariam todas as primeiras páginas do País; abdicou dessa demonstração de força e de vitória, até dessa vaidade conquistada, para mostrar que daqui para a frente será diferente. É como quem diz: acabou-se o espectáculo, vamos ao trabalho.

E que trabalho: recuperar a credibilidade nos mercados bolsistas, resgatar a dignidade dos trabalhadores, repor a reputação face aos clientes. O “timing” não podia ser pior para Santos Ferreira. A banca americana agoniza com prejuízos aterradores e arrasta as bolsas para o fundo. O “subprime” é um vírus por debelar, que contagia justos e pecadores. Os accionistas continuam cindidos, alguns carregam rancores e feridas de morte, o que supõe uma clarificação accionista, entradas e saídas. O que fará o BPI? E a Sonangol?

É preciso saber quem manda agora no BCP. O que é muito mais difícil do que parece, até porque há accionistas (como os há pequenos investidores) que compraram acções acima dos quatro euros e perderam um terço do seu dinheiro num punhado de meses. Veja-se Joe Berardo: é um enorme vencedor desta sucessão inverosímil de assembleias gerais, mas carrega um enorme prejuízo potencial do seu investimento.

Para que o BCP chegue ao céu, Santos Ferreira vai ter de atravessar o inferno. De resultados financeiros, de motivação, de suspeitas de politização, de investigações ao banco. Mas o BCP passou finalmente a ter um presidente ao volante e não no lugar do morto. Já fomos a votos. Agora vamos lá falar de banca outra vez.

Um Jornalista e um Jornal

Não tenho dúvidas de que se tratou (e trata) de um verdadeiro caso de amor à primeira vista, salvo seja. O Pedro Santos Guerreiro é um Jornalista sério e a sério. Dirige com mão segura, de timoneiro, o barco que se chama Jornal de Negócios. Que não mete água. O navio, diário. Muito menos o comandante.

Nesta farsa – que chegou a drama – do BCP-Millennium, PSG teve oportunidade de demonstrar o valor que lhe é reconhecido. Talvez fosse melhor eu ter utilizado apenas mostrar. Porque quanto à sua qualidade, Pedro Guerreiro não necessita de arguir o que quer que seja em sua defesa, pois não precisa dela, defesa. É o que é – e basta-lhe.

O Jornal de Negócios atingiu esta terça-feira 904.327 notícias lidas, um novo recorde diário, segundo dados auditados pela Marktest. O matutino é líder de audiências na informação económica, com 436 mil utilizadores únicos em Dezembro, pode ler-se na sua edição de hoje, quarta-feira. Só para se fazer uma comparação, estes números são o triplo dos que o "Diário Económico" apresenta.


Uma parte substancial desta performance deve-se a quem dirige, ou seja a Pedro Santos Guerreiro. A marca que imprimiu ao diário é substantiva e directa, não entra por caminhos ínvios, não pactua com aventuras fáceis, não altera o rumo que a si próprio se impôs face a pressões da ordem mais diversa.

O Travessa do Ferreira honra-se de, uma vez mais, registar o editorial de hoje, assinado pelo PSG. Nada de rodriguinhos, nada de circunlóquios, nada de encómios desnaturados. Opinião verdadeira, clara, desinteressada, correcta, independente. O segundo maior banco português, o primeiro dos privados, vai ter de ultrapassar os enormes escolhos que tem pela frente.

Mas, tal como Pessoa escreveu a propósito da vitória dos Portugueses sobre o Adamastor, Carlos Santos Ferreira vai ter de se suplantar para ganhar a batalha, a guerra, e o Millennium. Vai ter de solucionar, sem medos, mas com o quantum satis inevitável, o imenso problema em que o BCP se converteu, sob pena de ocorrer um naufrágio impensável, mas possível. Recordo o poeta:

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
"Aqui ao leme sou mais do que eu (…)
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo (…)
Manda a vontade, que me ata ao leme” (…)

Penso que o vai conseguir. Oxalá. Por isso, estou, uma vez mais, com o Pedro Santos Guerreiro. Por isso, repito, o transcrevo, uma outra vez, neste blogue. A.F.


domingo, janeiro 13, 2008



GOA, AMOR MEU

Meio século são só 50 anos

Antunes Ferreira
Panjim, capital do Estado de Goa. Dezembro de 2007. No mais moderno hotel da cidade, com uma vista deslumbrante sobre o rio Mandovi, decorreu um jantar muito especial. Comemoravam-se os 50 anos do curso liceal que terminara precisamente em 1957. Festa, alegria, emoção, comoção.

Muitos finalistas presentes. A maioria deles constituída pelos que tinham ficado na antiga colónia a que a Velha Senhora chamava o «Estado Português da Índia». De Portugal, uns quantos, poucos mas bons (a afirmação é deles…). Entre estes, a Raquel Olívia Alcântara de Melo, pelo casamento com este vosso servidor, Ferreira. E, claro, à boleia dela, o dito cujo Ferreira, Henrique A. Antunes. Mais penduras, as caras e os caros metades dos presentes que disso usam. E até da Alemanha, um que ali se encontra radicado. Alguns dos actores desse cinquenterário sétimo ano não se viam há precisamente meio século. Quantas recordações, quanta saudade, quanta satisfação.

A ideia germinara em Lisboa. Crescera, pois tinha pés para andar. Conversas cá, conversas lá, conjugação de esforços e tudo estava sobre os carris. Com um final feliz. E com visita ao velho Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, hoje recuperado excelentemente, agora sede do Supremo Tribunal, ramo de Mumbai, que o mesmo é dizer de Bombaim.

Era um grupo unido, radiante de se reencontrar, recordando as gazetas e as horas em que os professores faltavam e a malta ia para o Altinho, ali mesmo, gozar, namoriscar, liceu misto, ao contrário da separação estúpida que acontecia na então «Metrópole», comer cajus, manguinhas verdes com sal e malagueta, desfrutar de uma vida de adolescentes felizes. Sem distinção de raças, credos ou outras minudências, que em Goa as pessoas e as coisas eram – e são – muito especiais.

Desnecessário, pensei, citar exaustivamente nomes. No entanto, uma menção para os maiores entusiastas da comemoração. De Lisboa, o Ivo Viegas, «eterno» chefe de turma no Liceu; a Elsa Gomes Godinho (que não pôde ir, com muita pena. Mas, os deveres de recém avó contam muito) e a já citada Raquel. De Goa, o Zito Menezes e o Carminho Costa que se esfalfaram para nos proporcionar um acolhimento cinco estrelas, como dizem os meus netos. Aos outros, mil desculpas; a citar todos, corria o risco de ser processado pelos autores das Escrituras.

Tempo especial para se recordarem os colegas que já não se encontram entre os vivos. E para anunciar a concretização de um prémio anual para o melhor aluno do secundário actual em Goa. Para o qual, e na medida das respectivas possibilidades quase todos os ex-finalistas contribuíram, criando-se assim um fundo, cujos juros em cada ano constituirão o galardão. As autoridades de Goa, com o Chief Minister, Shri – o Senhor – Digambar Kamat, à cabeça, acolheram a ideia com as mãos ambas e agradeceram a lembrança e a sua concretização. Da parte do Executivo veio mesmo a sugestão de que o aluno distinguido deveria ser de estudos de língua portuguesa. Bonito.

Numa terra como Goa, já o escrevi e repito-o com sinceridade, tudo é bonito. Desde a vegetação luxuriante até às praias de sonho. Tomei banho na praia de Varga, na costa do Índico, naturalmente, com a água a uns 25/26º centígrados. Nada de invejas. Não sendo perto, bem pelo contrário, quem quiser ir passar umas férias de sonho pode desfrutar do paraíso a preços inconcebíveis, de baratos. Noutro escrito contarei.

Pela noite foram-se sucedendo as conversas, os risos, os apartes, as recordações. Lembras-te de quando?... Noite cálida, suave, terna, acariciante. Lá em baixo, o Mandovi tranquilo acolhe os barcos iluminados por grinaldas de luzes multicores que o percorrem em tours com música, mandos e danças dos Korumbins.

O hotel, com escassos meses de serviço está situado num alto, virado sobre o rio. De noite, como de dia, é um verdadeiro espectáculo. Os seus terraços a três níveis, oferecem a quem neles se encontra, para além da vista deslumbrante, um excelente serviço, que inclui os grelhados mais afamados. Aliás, a cozinha é excelente. O jantar, bufete, com aperitivos, pratos de carne e marisco e outros para vegetarianos, doces e lambuzices mais, um espanto. Bebidas soft e cerveja. Reparem agora: pouco mais de oito euros por cabeça. Não se acredita; só vendo – e comendo.

Romagem e preito de confraternização. Como dizia um dos participantes, a Amizade nunca morre. É bem verdade. Em Panjim, ficou atestado isso. Sem papel selado – mas com muito empenho e coração.

Nota de rodapé

Seja-me permitida uma nota de pé de página, em jeito de advertência a quem quer que seja que ande por esta blogoesfera, cada vez mais populosa, que, ao pé dela, a China é uma criancinha de cueiros e biberão com apenas mais de mil milhões e algumas centenas de milhão de habitantes. Ou a Índia que ali está mesmo à beirinha, com malta a que já ultrapassou também o bilião, como dizem os americanos e outros. Que é isso para a Internet?

Regozijo-me com a aceitação virtual, baseando-me no tradicional quem cala consente. Estratagema, desaforo, álibi? Ultrapassa-se a interrogativa e anote-se: o autor, eu, é, sou, suspeito nesta escrevinhadela. De tal forma esteve, estive enredado (e com imenso prazer) na ocorrência, como diria um qualquer prestimoso agente da PSP. O que fica acima é prova cabal da «desindependência» do criminoso confesso. Mas, presumo que também neste contexto posso citar que pecado confessado…
AF

(As fotos publicadas são da autoria do bom Amigo António Guimarães, um compincha excelente e bom de objectiva, também finalista de 1957, boa colheita. E deste escriba; quem diria?)

sexta-feira, janeiro 11, 2008



HISTÓRIAS DA PJ

Memória de Adriano

José Augusto Garcia Marques
N
ão era aquilo a que se costuma chamar um “homem de acção”. Reflexivo, quase contemplativo, era um homem sereno, triste, solitário e paciente. Um “trabalhador de gabinete”. Sentado à sua pequena secretária, incansável nos interrogatórios com vista à recolha dos depoimentos, escrupuloso na sua passagem a escrito.

Quem o conhecesse fora da Gomes Freire, nunca o imaginaria agente da PJ. Talvez um escriturário ou contabilista, sempre discreto e bem arranjado, sério e calmo, era uma pessoa em quem era fácil confiar. Estava nos antípodas do “modelo” típico, do retrato “robot” traçado – tantas vezes, precipitadamente -, para os investigadores criminais: havidos como impulsivos, voluntaristas, impacientes, irreverentes, se bem que solidários e generosos.

No entanto, já era, naquela Primavera de 1970, agente de investigação criminal de 1ª classe, com mais de quinze anos de carreira, colocado numa Secção de investigação de homicídios, na Directoria de Lisboa. E era um excelente profissional. Desde que colocado no lugar certo, a fazer aquilo para que estava vocacionado!

Aliás, uma das coisas que mais me fascinaram na PJ foi a constatação da multiplicidade de perfis psicológicos e comportamentais dos seus profissionais da investigação criminal. Fundamental, todavia, era adequar essas tão diferentes personalidades e sensibilidades às concretas formas de acção e de funcionamento mais ajustadas às suas características, enquadrá-las em termos de chefia e de parceiros de brigada, dar-lhes tarefas onde pudessem evidenciar as suas capacidades, prevenir os excessos e estimular as boas iniciativas.


Gestão de pessoal

Uma adequada gestão de pessoal é, assim, condição indispensável para uma maior eficácia da acção e para uma melhor realização pessoal e profissional dos investigadores. Erro grave seria colocar em missões no “terreno” unidades mais viradas para a reflexão, para a análise e para a recolha e o tratamento da informação ou castigar sistematicamente com actividades de “gabinete” personalidades mais orientadas para a acção, para a aventura ou até para o “risco”.

Serve isto para explicar as razões por que o Agente Adriano era o nosso “homem dos envenenamentos”. Por outras palavras: era ao Adriano que confiávamos a investigação da maior parte dos casos em que havia suspeitas de administração de substâncias venenosas, com ou sem ocorrência da morte da vítima.

Crime insidioso e cobarde, o sucesso da sua investigação assentava em muitos casos na admissão da culpa, primeiro passo para a confissão do(a) suspeito(a). Justa ou injustamente, o envenenamento era, ao tempo, considerado um crime essencialmente feminino. E, na verdade, um grande número de envenenamentos era praticado por mulheres casadas, vítimas, muitas vezes, ao longo de anos, da violência doméstica por parte dos maridos.

O Adriano era possuidor de duas qualidades inestimáveis para a função: uma paciência sem fim e uma invulgar capacidade de empatia, baseada numa atitude de grande compreensão, quase de simpatia, que lhe permitia ganhar a confiança da pessoa interrogada, particularmente se se tratasse de uma mulher. Era um homem alto, algo curvado, de grandes olhos salientes de um azul quase branco, que se humedeciam sempre que se emocionava. Falava pouco e a sua voz tinha um tom baixo e um timbre suave e pausado, quase de um confidente.

Tinha um tique, quando em stress, que lhe fazia subir e descer ligeiramente uma das maçãs do rosto e um traço grosso castanho-escuro, um esboço de bigode, que lhe dividia ao meio o lábio superior, largo e carnudo. O cabelo ia começando a faltar-lhe, o que, associado ao seu andar pesado, às costas curvadas e às olheiras pronunciadas de permanente insónia, lhe davam um ar envelhecido e cansado. Era, ao tempo, um solteirão de trinta e muitos anos e, que eu soubesse, vivia apenas para o seu trabalho. Mas o que nele se destacava, o que acordava nas mulheres o instinto maternal, eram aqueles olhos aguados, aquele olhar líquido de velho menino triste, como um grito sufocado a reclamar consolo e mimos.

Nem bonita, nem feia

Naqueles meados do mês de Abril, encontrava-se presa nos calabouços da PJ. Era uma mulher de meia-idade, modesta, de origem e hábitos rurais. Não era bonita nem feia, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra. Olhava-se para ela e não se via mais do que uma mancha a preto e branco, silenciosa e sumida, receosa de dar trabalho e incómodo àqueles Senhores de Lisboa.

Era suspeita da morte por envenenamento do marido. Chamava-se Joaquina, e vestia de negro, um chale preto sobre a cabeça, quase a tapar-lhe todo o rosto. Vivera, com o Álvaro, seu marido, durante vinte e cinco anos, numa freguesia do concelho de Alcobaça. Os filhos, já criados, tinham partido para França. Durante muitos anos teve um casamento de que não se podia queixar. Era igual aos outros – com ralações, mas sem especiais razões de queixa.

Só era pena que o marido passasse tanto tempo nas tabernas, a beber e a gastar dinheiro. Mas o Álvaro sempre tinha gostado dos copos e, por vezes, apanhava a sua bebedeira. Com a partida dos filhos, o marido passou a meter-se cada vez mais no vinho, tendo-se tornado violento. Passou a bater-lhe e a ofendê-la com insultos e injúrias, quer em casa quer na rua. Dera-lhe para passar a ter ciúmes dela, o que mais contribuía para a sua agressividade.

Nas últimas semanas que antecederam a morte do Álvaro, este começou a queixar-se de dores de barriga e a perder peso. A mulher levou-o algumas vezes ao Hospital e, como as dores aumentassem e o marido se sentisse cada vez pior e mais fraco, chegou a trazer o médico a casa. O mal foi-se agravando, até que o Álvaro morreu, sempre medicamente assistido. Ainda não tinha sessenta anos. A natureza súbita e não diagnosticada da doença, conjugada com o facto de não lhe serem conhecidas doenças anteriores, obrigaram à realização de autópsia. O relatório do exame às vísceras, chegado à PJ, três ou quatro semanas depois do óbito, revelou a existência de arsénico, em dose susceptível de ser causa da morte.


As desconfianças, não só da PJ mas também da aldeia, recaíram logo sobre a Joaquina, que foi detida. Ao longo dos dias de prisão preventiva (sem culpa formada), era diariamente inquirida pelo Adriano, em longas sessões de interrogatório que começavam mais ou menos à mesma hora, ao fim da tarde, e decorriam no silêncio do gabinete do agente. Sem pressas, sem gritos, mais se diria o relato murmurado de acontecimentos vividos em horas más, feito, em confidência, por uma Mulher que sofria a um Amigo disponível para ouvir, aconselhar e guiar.

Conquistar a confiança

O Adriano começou por conquistar a confiança da Joaquina, que lhe foi relatando, primeiro entre longos silêncios, depois de forma cada vez mais fluente, o seu dia-a-dia, em casa e no campo, a educação dos filhos e a sua posterior saída de casa em busca de melhores condições de vida, a convivência com o marido, a sua grande fé em Nossa Senhora de Fátima.

Depois, pouco a pouco, foi-se abrindo acerca da relação com o marido, da fraqueza do Álvaro pela bebida (“coitado, era mais forte do que ele”), da agressividade de que, nos últimos anos, foi revelando para com todos e até para com ela (“eu perdoava-lhe porque ele não era mau homem”). Descreveu a doença do marido, a promessa que fez, se ele se salvasse, de ir a Fátima fazer de joelhos vinte e quatro voltas em redor da Capelinha das Aparições, dos médicos que tinham consultado.

Ganha a confiança da mulher, o Adriano passou a acentuar a vida de martírio da Joaquina, os maus-tratos, as brutalidades, os insultos, as injúrias, o medo, as noites sem dormir... Tendo começado por minimizar esse tempo de sofrimento, a Joaquina passou a reconhecer sem custo a verdade do quadro que aquele “Senhor Agente” – “tão simpático e humano” – lhe descrevia.

Um peso na consciência

E passou ela própria a relatar com pormenor os actos de maior violência que sofreu e as circunstâncias de tempo e lugar em que os mesmos tinham ocorrido. Passada essa etapa de auto-comiseração, partilhada em confidência, era chegado o momento de explorar o sentimento de culpa da Joaquina: “Não compreendo como uma Mulher como a Senhora consegue dormir com esse peso na consciência”...

E, perguntado sobre que peso seria esse, ele continuava, como se não a tivesse ouvido: “Verá como se vai sentir muito melhor depois de contar tudo, mas tudo, o que fez. A Justiça saberá avaliar o seu sofrimento, o martírio que sofreu, o estado a que chegou”. O interrogatório do Adriano não esqueceu o sentimento de superstição religiosa da detida, sempre associada à noção de culpa, ao remorso.

Assim: “o Álvaro não lhe aparece em sonhos? O que é que ele lhe diz? Não acha que ele também precisa de ter sossego no outro mundo?”. Ou então: “Se tem fé em Nossa Senhora de Fátima, porque não lhe promete que irá ao Santuário logo que cumpra a sua obrigação para com a sociedade?” “A propósito: desde quando não vai a Fátima?”. A resposta surpreendeu-o: “Fui lá já depois que o meu homem morreu – levei uma vela de cera com a altura dele”. “Foi lá pedir perdão a Deus e a Nossa Senhora?”. A mulher não respondeu.

No dia seguinte, ao cair da noite, bateram à porta do meu gabinete. A porta entreabriu-se e o Adriano espreitou. Mandei-o entrar. Vinha emocionado, com os olhos marejados de água. “O que é que se passa?”, perguntei eu. “Já confessou, Senhor Dr., a Joaquina já confessou”.


Uma lágrima escorreu-lhe pela face, ao mesmo tempo que o tique lhe fazia subir e descer a maçã do rosto. “Porque é que está a chorar, Sr. Adriano?”, não resisti a perguntar. Olhou-me com surpresa: “É o meu trabalho, é a vida de um polícia, Senhor Doutor.”


GOA, AMOR MEU



Cataratas e camaradas

Antunes Ferreira

O jeep salta sobre um caminho de cabras que me faz recordar as picadas de Angola, onde, por vezes, passei por momentos angustiantes, com a adrenalina em explosão, no receio de uma outra, mas esta de mina armadilhada na terra vermelha ou no capim. Aqui não há bombas. Há um solo pedregoso, esburacado de crateras, plantado de calhaus, debruçado sobre ravinas, atravessado por cursos de água limpidissima.
E o verde matizado numa paleta gigante da mata que nos abraça e nos acaricia.

Partíramos de Panjim com a finalidade de visitar algumas coisas interessantes do interior de Goa. Em especial, a Cascata de Dudhsagor, uma das maiores da Índia. Em Konkanim significa "mar de leite" (dudh=leite e sagor=mar) que se encontra no distrito de Sanguém, na fronteira com o estado vizinho, Karnataka.


Cedinho para, no caminho para a catarata, chegar logo que possível onde nos desse a realíssima gana. Ao volante do Tourist Taxi o seu proprietário
o Premanand, de apelido Pednekar. É uma carrinha Maruti-Suzuki, pequenota mas agradável, escrupulosamente limpa, o que já começa a ser vulgar por aquelas bandas. O nosso condutor é um tipo simpatiquíssimo, hindu. Ele diz orgulhosamente que é goan. De Fattawada, Bardez. Um dia inteiro – oitocentas rupias. Carro e condutor, sem esmiuçar as quilometragens. Pouco mais de 13 euros. Leram bem – treze.

Em casa os pais, agora falecidos, falavam Português. Por isso entende umas coisas, o que lhe permite exibir um teclado impecavelmente branco na boca aberta, rodeada por pele morena escura. Quando apanha uma palavra, uma expressão mais fáceis. Ri-se, assim, quase continuamente, o que não o impede de conduzir excelentemente, num tráfego que se pode caracterizar por um só qualificativo: caótico. O meu Pai sempre me disse, filho não troques um Amigo por uma punhada de rupias. Concordo. Bom Pai.

Percorrer as estradas do mais pequeno estado da Índia não é muito aconselhável para quem tenha o coração maricas, não habituado a tais trotes. As vias são, normalmente, estreitas, para não dizer mesmo muitíssimo apertadinhas. Quando estive pela primeira vez, lá vão 27 anos, na antiga colónia portuguesa, já então parte integrante da Índia, foi um susto permanente que se apossou de mim. Durou dois dias.

Ao terceiro – ponto final, parágrafo. Já me habituara à confusão desorganizada do trânsito. Disse-me então um familiar de minha mulher, natural de Raia, Margão, Salcete, como consta de certidão de nascimento que refere ainda, do sexo feminino e raça ariana, que era preciso entender o que ali se passava. E explicou-me que havia terras em se circulava pela direita, outras pela esquerda e em Goa… pelo centro. Palavra de honra que nunca conduziria naquelas paragens. Ainda para mais, o que não me abunda são qualidades de condutor com o volante… à direita.

Experiência adquirida em múltiplas viagens à Índia, levou-me a concluir que essa desorganização organizada das roads do país era regra geral. A partir daí, paciência, resignação, desprendimento e impassibilidade q.b. polvilhados de laivos de cagaço à vontade do freguês, tornaram-se na minha bíblia rodoviária. Matso upcar cor, façam o favor de acreditar.

Passamos por Pondá, a caminho de Molem. É ali que deixamos o Premanand e o seu táxi para tomarmos um todo-o-terreno bom. Com molas a preceito, para se ultrapassar cursos de água – naturalmente a vau – ou atravessar para a outra margem por diminutas pontes que não sei se vos diga se vos conte. Para arrostar com as crateras do solo, para pisar os calhausões do mesmo. Uma viagem interessantíssima, o condutor e guia são magníficos, estabelece-se de imediato uma cumplicidade sem fronteiras. Esta malta de Goa é bué de fixe, diriam os meus netos. E é, acrescento eu. Excelentes camaradas


Chegados ao estacionamento antes da cascata – que se vê ao longe, escorrendo pela montanha, posso sentir o seu espumar como se estivesse junto dela, há que seguir um trilho a pé. Vão minha mulher e um Amigão, o António Guimarães. Eu, gordo, King Kong size, receoso da circulação duvidosa (pior que a das estradas) das minhas pernas – e das minhas banhas – não me aventuro, fico-me ao pé de macacos brincalhões. Faço uns bonecos com a digital. De Dudshagor, à distância. Confio nos valorosos aventureiros para ultrapassar a falta de mais fotos motivada por este descanso. Preguiça é o que é.

O guia, que ficou a acompanhar-me, vai-me falando da ponte do caminho-de-ferro que passa por cima das quedas. Sublinha que foi feita no tempo dos Portugueses, aliás para recordar, sempre foram 451 anos que estes pequenotes do extremo sul da Europa por ali andaram, por ali viveram, por ali casaram, por ali fizeram filhos, por ali repousam no solo eterno.


À volta, os goeses – bons camaradas – cantam um mandó, que minha mulher acompanha numa toada de mais ou menos. Para a música, Raquel dixit, tem pouco ouvido. Nenhum, acrescento. Esqueceu praticamente o Konkanim, mas vai readquirindo alguma coisa, pequena. Diz ela, bastas vezes, que eu sou mais goês do que ela, nada e criada naquela terra bendita. Feitios. Respondo-lhes com É uma casa à Portuguesa, com certeza, cuja música eles sabem de cor. E até algumas palavras. Cenas de um quotidiano gargalhado e sensacional.

Eis-nos de regresso. Premanand volta a sorrir abertamente, voltámos safe and sound, sãos e salvos, comenta no seu inglês muito aceitável. And in good shape, acrescenta. Respondo-lhe Deu borem korum, muito obrigado, e ele atira um de nada acompanhado de sonora gargalhada. Ainda dá tempo para passarmos por um templo da altura da dinastia Kadamba, que hoje é título dos autocarros de uma transportadora que usa esse nome.

Vamos até Margão, para fazer visita de médico a primas da minha mulher. Que nos têm preparado uns bojés com chutney de coentros e, espanto para quem não está habituado, croquetes à boa maneira portuga. Eu estou e por isso não me atendo a frioleiras e avanço nuns e noutros. Elas, que já me conhecem de ginjeira nem se admiram com o meu gosto – e apetite – por picantes. Sou mesmo um pacló goês.

O sol vai caindo no poente, a caminho de um descanso que só terminará na alvorada do dia seguinte. São lindos os poentes de Goa. Como é tudo lindo por aqui. Deu bori ratt dium, boa noite. Diziam os antigos que quem viu Goa não precisa de ver Lisboa. Para um lisboeta empedernido mas um tanto farto desta cidade das sete colinas, a antiga Gomantak é na verdade um paraíso. E não é preciso os guias turísticos e as agências de viagens carregarem na tónica. É que Goa é mesmo.

E o Premanand à despedida, face à ausência de programa para o dia seguinte: amanhã não tem. Em bom português. E, vejam lá, sorri. O malandro não perde pitada.

(Fotos do António Guimarães, as boas, e minhas, as menos boas. Cada um é pró que é e não vás sapateiro alem da chinela)


quinta-feira, janeiro 10, 2008

À ESQUINA DE HOJE

Computas & computas

Antunes Ferreira
Juvenal diz que os seus cinco netos são todos dados às informáticas. Nos almoços familiares lá na casa, que decorrem desde há uma caterva de anos – há mesmo quem diga que assim acontecia logo no Paleolítico Inferior - com uma regularidade impassível, muitas vezes se tem discutido, naturalmente com bons modos, que a família é civilizada e cívica, a questão.



Dona Deolinda, mãe extremosa, mesmo um tanto galinha, tem uma opinião que brande como se fosse o Rolando a combater com a Durandal na mão destra. As crianças, quando nascem, já vêm dotadas de um chip, daí que saibam tanto de computadores, telemóveis, game boys, ipods, internetes e coisas dessas. Para eles é tudo natural. Na generalidade, regista-se um apoio quase sem reticências à digna Senhora. Já na especialidade o caso fia mais fino.

Seja permitido ao escriba uma nota complementar, dir-se-ia mesmo uma adenda. Abra-se, portanto, aqui e agora um parêntese que oportunamente se fechará. Isto porque, sabendo-se que há pessoal com dotes culturais acentuados, alguns perto, mesmo, dos enciclopedistas, que o Senhor Rousseau não leia esta heresia, muito do Povo comporta-se ainda como arraia-miúda que foi e ainda é.

Ora muito bem. Trata-se da espada antes mencionada. Perguntarão – mas que espada? A Durandal. Ora essa, tínhamos passado por cima disso, ao jeito corrido da leitura despretensiosa e vem agora este com erudicites agudas. Homem, tenha maneiras. O autor, ciente da razão que lhe assiste, bem como de algumas carências a esse nível, apesar das Novas Oportunidades, dá por bom prosseguir na senda do esclarecimento adicional.

Anda por aí muita discussão sobre a iliteracia dos Portugueses, ou, pelo menos, de uma boa parte deles. Saber ler é importante; mas entender o que se lê é ainda mais, diz quem sabe destas coisas a que, por vezes, uns quantos energúmenos chamam frioleiras. Não se afaste, porem, o escrevinhador, do rumo que traçou, ainda que deva ser breve e conciso, para voltar aos informáticos.

Conta a Chanson de Roland que, na sequência da tentativa de invasão pelo exército de Carlos de França à Espanha, então muçulmana, que se iniciara no ano de 778, e face à revolta dos saxões em terras francas, o rei decidiu retirar para apagar esse fogo que ameaçava consumir-lhe internamente o reino. Deixou, porem, para trás, o seu sobrinho, o grande cavaleiro Rolando, comandando um grupo especial, para defender a retaguarda.

Nos Pirinéus, as passagens eram e são estreitas. Rolando recua cuidadosamente. Mas, em Roncesvalles acontece o inesperado. Os mouros que aproveitavam o momento para uma contra-ofensiva, foram substituídos pelos bascos, os quais, aos milhares, depois de emboscada terrível, e já acompanhados pelos sarracenos, deram cabo da tropa de Rolando, segundo a Canção o último a morrer.

Coisa estranha essa aliança de cristãos, os bascos, com infiéis, os mouros. Mas que foi, foi. De tal sorte que, na arrevesada língua da região, o nome por que ficou conhecida a Batalha de Roncesvalles foi Orreaga’ko Gatazca. Vá lá compreender-se essa gente, dona de um idioma quase tão complicado como o húngaro ou o finlandês. Feitios.

Terminando. Vendo-se perdido e com a morte já bem chegada a ele, Rolando não quis que a sua fiel espada Durandal caísse em mãos inimigas. Num último esforço, tentou quebrar-lhe a lâmina contra a rocha do local. Mas ela não se partiu. Reza outra versão da lenda que o cavaleiro chamou então em sua ajuda o Arcanjo São Miguel, ao mesmo tempo que ainda conseguiu arremessar para o vale a Durandal que tantas glórias lhe tinha propiciado.

No entanto, a malfadada arma, pior do que um fórmula um ainda que com espionagem industrial, atravessou miraculosamente centenas e centenas de quilómetros, indo finalmente fixar-se no rochedo de Nossa Senhora de Rocamadour, onde ainda hoje pode ser admirada. Si non e vero, e bene trovato. Fecha-se, como há sete parágrafos se prometera, o parêntese. Só agora?

Por conseguinte, os infantes hodiernos – bonita expressão, não acham? – já saem da linha de fabrico dotados de chip especial. Daí a aptidão natural para esses temas que metem (ou metiam, corre tudo tão depressa) circuitos integrados e correlativos, deixando a anos-luz de distância um qualquer pobre e infeliz Silicone Valley.

Dando de barato que assim é, e concordando, assim, com a Dona Deolinda Carvalho Marques e Mendes, e, acentua-se, não admira a ninguém que esta seja uma geração cibernético-informático-internética. Ou pior. Tente-se pedir a um bebé que começa a balbuciar os primeiros sons vocálicos que diga otorrinolaringologista e ver-se-á a reacção da amantíssima progenitora da criancinha.

Perfeito. (Para alem de andar com o leão ao peito). Estamos, por conseguinte, perante o Homo Interneticus, ou Homo Senhorbillgaticus. Já havia muitas outras categorias de Homo ao longo do percurso histórico. Desde já, uma advertência: isto, por mor do H nada tem a ver com afirmações publicitárias, por mais detergente que a questão seja.

Vejam-se, na decorrência dos homínios, quando começaram a descer das árvores, (muitos ainda parecem lá estar) o Homo Habilis, o Homo Erectus, o Homo de Neandertal, o Homo Sapiens, o Homo Sapiens Sapiens. Longa lista que ultrapassa os tempos, calcorreia os séculos, dá água pelas barbas aos calendários, relógios & afins.

Sendo assim hoje em dia, o que está a dar – ou, pelo menos, parece que – é o engenheiro informático. Há uns decénios era mais o advogado, o médico, o arquitecto, paulatinamente ultrapassados pelo economista. Logo seguido pelo financeiro e pelo auditor, tudo carreiras de êxitos, ainda que o desemprego em Portugal venha aumentando. São assim as coisas.

Um irmão do Juvenal, que é técnico de contas, tem uma técnica muito especial de contar contos. Histórias, quer-se dizer, que os outros já passaram à História. Ou, melhor, estórias. Juvenal Pinto Mendes, no caso sem e, que o referido e último apelido é dele, herdado do Pai que Deus tenha, tem barrigadas de riso com as anedotas do mano Cristóvão.

Dê-se, portanto, a palavra a este Mendes que numa dessas reuniões familiares avançou. Com a importância da Informática, surgem a todo o momento situações nas quais convém atentar. Muito se fala de computas, de modems, de baterias de note bukes, dessas coisas todas. Um exemplo era o engenheiro Malaquias.

Galguista, por vezes a roçar a impertinência, o chefe dizia a má educação, mas competente, ainda que um tanto desactualizado. Numa tarde de Inverno, chuvosa e fria, lá no escritório, a engenheira informática Gabriela Sarda, sua colega na empresa Ratosofte, estava a ajudá-lo a configurar o computador e perguntou-lhe que password ele queria utilizar. Malaquias Matias, tentando atrapalhá-la, disse: - Pénis.

Ela, sem dizer uma palavra, muito menos rir-se ou rir ou dar parte de fraca,introduziu a palavra-chave no computador. Desde então, corre à boca pequena na companhia que nunca ninguém vira – e nunca mais tornaria a ver – o Malaquias tão envergonhado. Os risos foram tantos que até o Presidente do Conselho de Administração saíra do seu gabinete para apreciar o que estaria na origem daquela girândola de gargalhadas. Aliás, a Gabriela foi a primeira a não conseguiu resistir e quase que morria de riso quando a máquina deu a resposta: "PASSWORD REJEITADA: NÃO TEM TAMANHO SUFICIENTE".

(Com a amável colaboração da Filomena Caetano, a quem agradeço ser tão boa Amiga e me ter enviado a mensagem que está na origem deste escrito).

terça-feira, janeiro 08, 2008

MAIS EMBRULHO NOVO


Três Amigos do peito

Antunes Ferreira



Manuel Parto era um advogado do mais alto gabarito. O seu escritório Parto, Parto, Dores, Ambrósio & Associados tinha uma dimensão de alto lá com o charuto. No fundo, era o maestro de uma orquestra que tinha todos os instrumentos e já tocava de cor as pautas mais difíceis. Do Civil ao Crime, do Comercial ao Fiscal, incluindo naturalmente o Comunitário, nada tinha segredos para o Parto, etc. & Associados.

Ocupava um edifício moderníssimo, ali para os lados do Rego, todo vidros/espelhos, inteligente, funcional, super eficiente e carregado de dignidade com os gabinetes dos causídicos, a começar pelo do boss, em carvalho maciço ou outras madeiras carregadas de carácter, alcatifados em tons discretos como discretas eram as paredes.


Numa atmosfera de ar condicionado central, colaboradoras e colaboradores demonstravam à saciedade a competência profissional que tinham como atributo para a lida quotidiana. Do equipamento informático, nem falar. Plasmas, internet e coisas assim tinham-se tornado tão importantes que nem valia a pena acentuá-las. Existiam porque eram necessárias, úteis, essenciais, incontornáveis.

Aos clientes à espera da consulta, em salas de conforto absoluto, eram proporcionados todos os mimos e mordomias. Nas paredes, quadros de artistas contemporâneos com grandes molduras doiradas proporcionavam-lhes a possibilidade de conviverem com a beleza, de acordo com os parâmetros mais actuais.

João Direito era médico. Professor universitário, especialista em urologia, operador no Hospital Central e na sua clínica privada, empunhava o bisturi ou a faca de laser com o mesmo à vontade com que ensinava na Faculdade de Medicina. Os pacientes, quando a ele recorriam, podiam ter a certeza absoluta de que estavam em boas mãos.

O consultório, na Avenida da Liberdade ocupava três andares, tantos os gabinetes e as salas de doentes, tantos eram os especialistas que ali trabalhavam sob a sua direcção. Música ambiental, empregadas impecáveis nos seus uniformes alvos, alem disso boas, atendimento verdadeiramente personalizado, um luxo.

E que dizer da Clínica do Rosário? Maria do Rosário, sua esposa, também médica, obstetra, era a homenageada. Quatro filhos, os Carpinteiros eram católicos, tinham votado não, obrigado, no referendo, todos licenciados, todos com mestrados, todos a caminho da cátedra. Pois a Clínica era um brinquinho. Um verdadeiro mini hospital. Trinta camas, bloco operatório, laboratório de análises, exames os mais sofisticados, até ressonância magnética.


Os seus doentes confiavam nele, uma sumidade, no diagnóstico, excepcional, na terapia, inexcedível, no cuidado posto na consulta, em tudo, resumindo e concluindo, incontornável. Para além disso, um Mestre que dava aos seus alunos uma contribuição importantíssima para cumprirem o juramento de Hipócrates.

De resto, tinha-o em pergaminho emoldurado na parede por detrás dele, no consultório e no gabinete de Director da clínica. Sem jactâncias, muitos menos enroupado de arrogante, que não era, dizia a quem o queria ouvir que sempre se esforçara por cumprir esse excelso documento, mesmo ainda, quando estudante, já participava nas visitas aos pacientes acamados no Hospital Universitário. Usava o estetoscópio como quem usa uma camisa, naturalmente.



José Tendeiro era engenheiro civil, verdadeiro, obviamente com diploma, do Técnico, inscrito na Ordem, também professor, no seu caso do IST, com uma empresa de consultoria de alto gabarito e um atelier que nem sei se vos diga, se vos conte. Não se pense que se ficava apenas pela construção, o que já seria muito.

Por isso, tinha a trabalhar com ele mais colegas de profissão, civis, electrotécnicos, de ambiente, electrónica, industriais, informáticos, de materiais e sei lá que mais. Quase esgotava o rol de licenciaturas do Instituto. Além disso, arquitectos, também de todas as qualidades, feitios e tamanhos, desenhadores, um Mundo.

Contar as obras em que fora, e era, e seria responsável máximo, era tarefa impensável. Só por exemplo, em pontes, comparavam-no ao Edgar Cardoso, o que ele dizia ser um exagero, se bem que com um sorriso condescendente na face glabra. Concurso público em que a firma entrasse era meio caminho andado. Por isso, os amigos chamavam-lhe, por vezes, Código Postal.

Postal, o tanas, respondia sem o eterno sorriso afivelado na face, mas antes com uma sonora e saudável gargalhada: no meu caso é mais… portal. No último Dia da Raça – condecoração graúda da Ordem do Infante. Fora, por duas vezes, bastonário, mas abandonara. É muita areia para a minha camioneta, dizia, com mais umas gargalhadas altissonantes.

Estou velho, ainda uso expressões decrépitas, os meus netos chama-me cota, mas dizem que sou bué de fixe, porque me acham muito divertido. Tinham razão, os putos, Tendeiro era alegre, amigo da brincadeira, com uma ironia por vezes muito subtil, de outras mais espalhafatosa, pois, pois, J. Pimenta.

Exímio contador de anedotas, como sublinhava, de todas as estruturas, desde as mais contáveis – agora dizia-se politicamente correctas – até às arde e core. Que reservava para ocasiões muito especiais, por vezes só para homens e adultos com sólida formação moral e cívica, outras perante a gulosa atenção de senhoras sem falsos pruridos.

Os três eram Amigos com caixa alta desde os bancos primários da Escola Mouzinho da Silveira, ali frente ao antigo horto de Lisboa, de onde tinham transitado para o Camões, sempre na mesma turma até ao quinto ano, a partir do qual seguiram alíneas diferentes. Nem quando estavam na guerra colonial – em que participaram por não terem cunhas para a não fazerem – haviam deixado de se corresponder.

Hoje, sessentões, costumavam-se reunir no Grémio, de que eram sócios. Era ali, aliás, que o Tendeiro, beberricando o seu uísque velho, perguntar: vocês sabem a última? Se não disseres, não sabemos, claro. Como vinho tinto, acrescentara o engenheiro. Então, lá vai. Qual a diferença entre um sexagenário e um septuagenário?

Os outros dois entreolharam-se, vinha aí galhofa, ó pá conta lá que deve haver marosca. Não sabem, ponto. Deixa-te de fitas e continua. Bem, o sexagenário ainda se tenta; o septuagenário só se senta. Uma risada geral, de tais decibéis que os outros sócios olharam de viés para eles, numa crítica silenciosa.

Foi então que o Parto avançou, com coisas sérias. Estive a pensar que os anos vão passando, quando vinha para cá, no carro. Até falei ao motorista que ficou horrorizado ou, pelo menos, fingiu que sim. A questão é muito simples, mas creio que pertinente. Em julgado, defensável. O que é que vocês mais gostavam que as pessoas dissessem no vosso velório?

Porra de ideia! Só tua, és um chato. Não se chateiem, começo eu disse disse João Direito. Está ali um grande benfeitor da Humanidade. Um médico ilustre, sabedor, precioso. E, sobretudo, magnífico no trato com as pessoas. Consultas gratuitas aos pobres – um ror delas. Alma boa, espírito brilhante, profissional incomparável. Um Verdadeiro Senhor.

Parto, para alem de ter sido o da ideia, sorriu. Um verdadeiro apóstolo da Verdade e da Justiça. Homens assim já não existem. E, para alem do mais, profundo conhecedor. Desde a barra dos tribunais como advogado sublime, uma oratória empolgante, até jurisconsulto de gabarito internacional, sabia de tudo. É uma enorme perda para este País e para o Mundo.

Era a vez do Tendeiro, que não se fez rogado. Pois meus Amigos, o que eu mais gostaria que dissessem no meu velório era, muito simplesmente – olha parece que o gajo abriu os olhos. Nessa altura sim, nessa altura os outros presentes reclamaram das gargalhadas altissonantes. Um verdadeiro escândalo.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

COM NOVO EMBRULHO

Que tu mates

Antunes Ferreira
Aos 15 anos, Julinha era a imagem viva da mulherzinha a desabrochar. Os seios tinham crescido na medida certa, pontudos, firmes, a prometerem futuro mavioso – e ela sabia disso. Curvas não lhe faltavam, nos locais certos, distribuídas harmoniosamente, verdadeiro refrigério para os olhos dos rapazes que voltejavam em redor dela, borboletas deslumbradas pela luz que distribuía em cada sorriso ou, mesmo, num que outro beicinho de amuo, aliás passageiro.



Frequentava o Liceu Nacional D. Filipa de Lencastre, plantado ali no meio do bairro social do Arco do Cego. Boa aluna, popular entre as colegas, ia então no quinto ano, com exames finais a letras e a ciências. O ano lectivo aproximava-se do fim, um quase Verão temporão dava-lhe um calorzinho a prenunciar praia. Era mister, porem, ultrapassar a época das dores de barriga que se avizinhava perigosamente.

Rezava o Bilhete de Identidade que o seu nome completo era Júlia Maria dos Santos Carvalho, filha de e de e por aí fora, natural da freguesia de São Sebastião da Pedreira, concelho e distrito de Lisboa. Diga-se já que dali era um ror de gente, por mor da Maternidade Alfredo da Costa, empresa fornecedora de meninas & meninos, SARL. Lisboeta que se prezasse era da dita freguesia e no Arquivo de Identificação os registos eram já feitos de olhos fechados.

Mocinha ainda, ela começara a encabeçar um bando de raparigas que, por tal motivo, era conhecido no Filipa e não só como o gang da Julinha. E a sua melhor amiga, Célia, era a vice.


Corria o ano de 1960, e o Liceu aprestava-se para comemorar o seu vigésimo aniversário. Coisa fina, aquela ideia do ministro Duarte Pacheco de construir um novo edifício, de raiz, para substituir o velho palacete que durante alguns anos albergara as alunas excedentárias do Maria Amália, rebentado pelas costuras.

Daí o facto de o alvoroço da preparação festiva se juntar às preocupações das candidatas a examinandas. Daí a razão das miúdas andarem, muito mais do que habitualmente, numa verdadeira roda-viva. Daí a excitação concomitante, daí tudo o que a acompanhava e as acompanhava, a elas, protagonistas de segundo plano, a boca de cena reservada aos que iriam botar faladura, rezar missa solene, ou assim.

De qualquer modo, o orfeão e o grupinho de teatro da Mocidade Portuguesa tinham programadas intervenções destacadas nos actos comemorativos. E Julinha era solista (o Carlos, do Camões, pretendente a namorado incipiente gostava mais de lhe chamar vocalista, mas o termo era um tanto a modos de como quem diz, lembrava logo a Madalena Iglésias, a Simone de Oliveira, a Maria de Lurdes Resende…) e gostava de o ser. Adorava cantar.

Qualidades não lhe faltavam, portanto. Mas, há sempre um mas, não há bela sem senão. Era uma conversadeira profissional, do que não vinha mal ao Mundo, mas… nas aulas. A sôtora Margarida, de matemática, engalinhava com isso. Paleio, paleio, nisso é especialista, rapariga! Notas boas, mas quanto ao procedimento, torço o nariz. Vê lá se te calas, pelo menos para as outras poderem ouvir o que eu digo!

Era assim a vida por aqueles tempos, em que a guerra ainda não começara no «nosso Ultramar», vinda de fora, programada e executada pelos criminosos comunistas, e Portugal preparava-se para defender a civilização ocidental a todo o custo e ao preço correspondente. Porem, Julinha não era dessas coisas. Em casa, o pai defendia sempre que não era político, nem queria sê-lo. E rematava, solene: para mim, o essencial é o chuto na canela. Quem não é do Benfica – não é bom chefe de família!


Para chegar ao Filipa, de manhã, e voltar para casa, no Restelo, da parte da tarde, ela tomava a carreira 12, que saía de Algés, passava pela Meia Laranja, na Maria Pia e pelo Marquês, até chegar ao Arco do Cego. Viagem rotineira, sem motivos para exclamações, uma que outra discussão em redor de um lugar vago, coisas assim, confidências de vizinhas que trabalhavam fora, alguma cena entre vale de lençóis, em voz camuflada, está visto.

Tinham acabado de aparecer, à moda de Londres, os autocarros de dois andares. Uma admiração, por vezes boquiaberta. Julinha deliciava-se com a possibilidade de viajar no piso de cima. Outras vistas sobre a parte da cidade que atravessava, sobretudo Alcântara, lá em baixo, a estação dos comboios, ao longe o aqueduto. Lisboa sabia-lhe bem, sabe-se lá a quê, se calhar a castanhas assadas ou a algodão doce.

A mãe passara a recomendar-lhe atenção reforçada, cuidado redobrado, vê se cais, as escadas para o andar de cima são muito estreitinhas, melhor era que viajasses cá em baixo, é outra coisa. As galdérias é que gostam dessas alturas parvas, uma menina como deve ser, o teu caso, não deve subir, podem ver-se-lhes as roupas íntimas, os homens cá em baixo não perdem pitada – e são todos iguais.

Não dizia, (o respeitinho era muito bonito) obviamente, mas comentava para dentro de si mesma, e eu ralada, tal como afirmava o Vasco Santana na Canção de Lisboa, só que para ele era e eu ralado. Mas, nada de confusões. Olha, quem diria, também lembrava um slogan publicitário apelando ao civismo: nada de confusões; ruas prós automóveis, passeios para os peões. Por isso, boca calada, não fosse a progenitora chatear-se – e segundo andar no autocarro.


Nessa manhã, colada ao vidro da janela embaciado pelo frio e chuva, quando o bicharoco se preparava para começava a subir a Maria Pia – o espanto. Na paragem, a receber passageiros, bastantes, imobilizara-se, ainda que transitoriamente. E, de repente, olhando para fora, vira através de uma janela aberta um homem todo nu, a fazer ginástica sueca.

Tapou os olhos com as mãos, mas deixou os dedos abertos para não perder pitada daquele espectáculo matinal, flecte, flecte, insiste, insiste, o corpo musculado, via-se tudo, tudinho. E o autocarro arrancou, a imagem desnuda ficou para trás, a excitação apoderou-se dela. No liceu é que havia de ser bonito, quando contasse o que vira às colegas. E revira, tal como nos compêndios de estudo.

Primeira aula, de Português. Verbos, conjugações, conjuntivos. E ela a metralhadar: o rapaz – pois era um jovem atlético, tinha-lhe parecido uma estátua grega, mas viva – era um bonitão, um pedaço de chupar os dedos. E as colegas, Julinha, foi mesmo assim, ele estava despidinho? E tu viste-o bem? Olaré se vira. Nem camisola interior e, sobretudo, nem sombra de cuecas.

Risinhos pouco encapotados, e que tal? E gostaste? Ganda sorte! A mim nunca me aconteceria tal, sou uma desfavorecida desditosa, como seria bom, um homem todo nu e a ginasticar logo de manhã. Sortuda! O arrulho subiu de tom, a sotôra Mariana frisou o cenho, Julinha és sempre a mesma, cada vez mais subversiva. No bom sentido do termo, está visto.

E já que não te calas, vais conjugar o verbo matar no conjuntivo presente. Oxalá não dês para o torto, ainda te ponho na rua, ficas a falar sozinha no pátio, bem mereces. Vá, avança. No conjuntivo presente? Foi isso mesmo que eu disse. Deixa-te de evasivas e ala que se faz pressa. Pronto. Que eu mate, que tu mates, que tu mates, que tu mates… Rapariga, pareces um disco rachado, de repetição. Que se passa? Ai, sotôra, que tu mates, que tomates, que tomates sotôra, que tomates!!!